W. G. Sebaldes história natural



Baixar 1.25 Mb.
Página1/7
Encontro18.09.2019
Tamanho1.25 Mb.
  1   2   3   4   5   6   7


55

W. G. Sebaldes

HISTÓRIA NATURAL

DA DESTRUIÇÃO



Guerra Aérea e Literatura

Tradução Telma Costa

teorema




© W. G. Sebald, 2003

Título original: Luftkrieg und Literatur

Tradução: Telma Costa

Revisão: J. R. Sequeira Costa

Capa: Fernando Mateus

Paginação: Rui Miguens Almeida

Impressão e Acabamento: Rainho & Neves, Lda / Santa Maria da Feira

Este livro foi impresso no mês de Fevereiro de 2006

ISBN: 972-695-656-0

Depósito legal n.° 238137/06

Todos os direitos reservados por

EDITORIAL TEOREMA, LDA

Rua Padre Luís Aparício, 9 — 1.° Frente

1150-148 Lisboa/Portugal

Telef.: 21 312 91 31 — Fax: 21 352 14 80

email: mail@editorialteorema.pt



PREFÁCIO

As lições sobre o tema guerra aérea e literatura reunidas neste volume não surgem com a mesma forma com que foram proferidas em Zurique no fim do Outono de 1997. A primeira das lições inspirou-se na descrição de Cari Seelig de um voo que efectuou com Robert Walser, então hospitalizado, no Verão de 1943, precisamente no dia anterior à noite em que a cidade de Hamburgo ardeu totalmente. As reminiscências de Seelig, que em nenhuma ocasião aludem a esta coincidência, mostraram-me a perspectiva a dar à minha própria visão dos terríveis acontecimentos desses anos. Nascido numa aldeia dos Alpes do Allgãu em Maio de 1944, pertenço ao número daqueles que quase não foram atingidos pela catástrofe que então se desenrolou no império alemão. Procurei demonstrar em Zurique, através de passagens algo extensas dos meus próprios trabalhos literários e na medida em que tal se justificasse, pois aquelas foram sobre poética, que, apesar de tudo, esta catástrofe deixou na minha memória as suas marcas. Na versão aqui apresentada, porém, extensas autocitações seriam impróprias. Por isso utilizei apenas partes da minha primeira lição




num posfácio, de que constam também as reacções às lições de Zurique e a correspondência que recebi a seguir. Muitas delas tinham um carácter algo bizarro. Contudo, nas cartas e outros textos canhestros e forçados que me chegaram a casa, lia-se que nos últimos anos da guerra a experiência de uma humilhação nacional sem precedentes sentida por milhões de pessoas nunca encontrara verdadeira expressão verbal e que os que a sofreram directamente nem a partilharam uns com os outros nem a transmitiram aos que nasceram depois. Uma queixa recorrente é a ausência, até hoje, da grande epopeia alemã da guerra e do pós-guerra, e tem algo a ver com esta falha (em certos aspectos perfeitamente compreensível), dada a força com que a absoluta contingência emana das nossas cabeças amantes da ordem. Apesar dos denodados esforços para vencer o passado, quer-me parecer que os Alemães são hoje um povo nitidamente cego para a história e falho de tradição. Não conhecemos o interesse apaixonado pela maneira de viver anterior e pelas especificidades da nossa civilização do modo que é patente, por exemplo, na cultura da Grã-Bretanha em geral. E quando olhamos para trás, em particular para os anos de 1930 a 1950, é sempre com um olhar que ao mesmo tempo se foca e se desvia. As produções dos autores alemães do pós-guerra são por isso marcadas por uma meia consciência ou falsa consciência destinada a consolidar a posição extremamente precária dos escritores numa sociedade que, moralmente, está de todo desacreditada. Para a esmagadora maioria dos escritores que ficaram na Alemanha durante o Terceiro Reich foi mais urgente, depois de 1945, a redefinição de uma ideia de si próprios do que a descrição das verdadeiras circunstâncias que os rodeavam. Exemplo das consequências nefastas que daí resultaram para a prática literária é o caso de Alfred Anderschs. Por isso se reproduz aqui, em apêndice às lições sobre guerra aérea e literatura, o


artigo dedicado a este escritor que publiquei há alguns anos na Lettre. Trouxe-me, na ocasião, várias reprimendas severas de pessoas que não queriam aceitar que, à medida que se ia instalando o poder aparentemente imparável do regime fascista, a postura fundiariamente oposicionista e a inteligência desperta que Andersch sem dúvida demonstrara facilmente se foram transformando numa tentativa mais ou menos consciente de acomodação e que por isso, mais tarde, Anderschs, enquanto figura pública, se viu na necessidade de ajustar a sua biografia mediante discretas omissões e outras correcções. Esta preocupação em retocar a posteriori a imagem que queriam dar de si é, a meu ver, uma das principais razões da incapacidade revelada por toda uma geração de autores alemães para contar e trazer ao nosso conhecimento o que viram.
O truque da eliminação é o reflexo defensivo de todos os peritos.

Stanislaw Lem, Dimensão Imaginária

I

É hoje difícil formar uma ideia sequer aproximada do volume da devastação que atingiu as cidades alemãs nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial e mais difícil ainda pensar o horror ligado a essa devastação. É certo que as Strategic Bombing Surveys dos Aliados, os registos do Gabinete Federal de estatística e outras fontes oficiais mostram que, só a Royal Air Force, lançou, em 400 000 voos, um milhão de toneladas de bombas sobre o território inimigo, que das 131 cidades atacadas, algumas uma só vez, outras repetidamente, muitas foram quase totalmente arrasadas, que 600 000 civis alemães caíram vítimas da guerra aérea, que três milhões e meio de habitações foram destruídas, que no fim da guerra havia sete milhões e meio de desalojados, que em Colónia resultaram 31,4 metros cúbicos de escombros por habitante, em Dresden 42,8 metros cúbicos, mas nós não sabemos o verdadeiro significado de tudo isso. Esta acção destruidora sem prece


na história anterior, que entrou para os anais da nação em vias de se reconstituir apenas sob a forma de vagas generalizações, sem que pareça ter ficado um rasto de dor na consciência colectiva, foi largamente excluída da visão retrospectiva das pessoas atingidas e nunca desempenhou um papel digno de nota nas discussões havidas em torno da Constituição interna do nosso país; tampouco, como posteriormente constatou Alexander Kluge, teve um código de leitura pública — um completo paradoxo, se pensarmos no número de pessoas expostas, dia após dia, mês após mês, ano após ano, a esta campanha e no período de tempo, todo o pós-guerra, que durou o confronto com consequências reais capazes de sufocar (outra coisa não seria de esperar) todo o sentir positivo da vida. Apesar da energia simplesmente inacreditáveis com que, a seguir a cada ataque, eram repostas as condições gerais para se poder viver, em cidades como Pforzheim, que perdeu cerca de um terço dos seus 60 000 habitantes num único ataque na noite de 23 de Fevereiro de 1945, restavam, mesmo depois de 1950, cruzes de


madeira espetadas nos montes de escombros e, sem dúvida, os cheiros terríveis que, como referiu Janet Flanner em Março de 1947, emanavam das caves hiantes de Varsóvia com o primeiro tempo morno da Primavera3 impregnaram também as cidades alemãs nos tempos imediatamente a seguir à guerra. Mas claro que estas coisas não se embrenharam nos sentidos dos sobreviventes que permaneceram no lugar da catástrofe. As pessoas andavam «no meio da rua entre as ruínas medonhas, lê-se num apontamento de Alfred Dõblin datado do final de 1945, aquando do seu regresso ao sudoeste alemão, «como se nada tivesse acontecido e [...] a cidade sempre tivesse tido aquele aspecto. O reverso desta apatia era a vontade de começar de novo, o incontestável heroísmo com que imediatamente deitaram mãos às tarefas de reorganização e limpeza. Num folheto dedicado à cidade de Worms 1945-1955, lê-se: «O momento exige homens rectos com postura e objectivos sãos. Futuramente, quase todos vão estar durante muito tempo na frente avançada da reconstrução. Insertas no texto redigi-







Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande