The return of the black cat: the travel narrative as literary journalism in the work of Dr. Erico Verissimo



Baixar 107.58 Kb.
Página4/4
Encontro07.10.2019
Tamanho107.58 Kb.
1   2   3   4

5. Chegando ao destino


Depois de realizar essa breve viagem na obra de Erico Verissimo, vale a pena retomar a questão feita no início deste texto: o livro A volta do gato preto pode ser considerado uma narrativa jornalística de viagem? Inicialmente, vale lembrar que, sim, o enredo criado pelo escritor brasileiro o caracteriza como uma narrativa de viagem, tendo em vista que não é uma obra de ficção (mas sim, mista, conforme já explicitado) e relata as experiências de seu autor estando em trânsito pelo mundo. Resta então questionar se o texto pode ser apontado como uma narrativa jornalística. A conclusão que se obtém após tudo o que foi explanado é de que, sim, trata-se de uma narrativa jornalística que se enquadra no gênero Jornalismo Literário. Para além dos argumentos já utilizados por Lima (2004) e Martinez (2016), acrescentam-se outras perspectivas de JL. Juliano Borges, por exemplo, destaca que “a discussão sobre se um livro-reportagem tem atrelamento maior à literatura do que ao jornalismo vem desde a publicação de Os sertões, de Euclides da Cunha, em 1902” (BORGES, 2013, p.260). Assim, o autor defende o JL como um gênero jornalístico, na qual se enquadra textos como o livro-reportagem que, na classificação de Lima (2004) tem na narrativa de viagem um subgênero. Rildo Cosson por sua vez, defende a autonomia desse tipo de texto, ressaltando que olhar ele sob a ótica tanto da literatura quanto do jornalismo é fazer essas obras serem lidas pelo que elas não são. “A premissa básica que nos guia é a identificação do romance-reportagem como um gênero autônomo situado nas fronteiras de dois discursos: o literário e o jornalístico” (COSSON, 2001, p.9). O professor e pesquisador norte-americano Robert Boynton complementa esse raciocínio destacando que os jornalistas literários atuais têm como objetivo justamente serem escritores de JL: “Nem romancistas frustrados, nem repórteres rebeldes, eles querem ser escritores de revistas e livros que tem se beneficiado enormemente do legado legítimo que Wolfe e os outros deixaram na literatura de não-ficção” (BOYNTON, 2005, p.6-7). Acrescenta-se a isso o fato de que as narrativas como a de Verissimo pode ser, portanto, vistas sob as duas perspectivas: elas estão justamente na hibridez entre as narrativas literária e a jornalística. Foi isso que foi identificado na obra A volta do gato preto.

Vale destacar ainda que o presente artigo pertence a um estudo mais amplo sobre a temática, sendo resultado de parte do projeto de pesquisa intitulado “Jornalismo literário de viagem: narrativas de jornalistas transitando pelo mundo”, coordenado pelo autor junto ao Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), campus Frederico Westphalen-RS. Assim, esse texto se junta a outros, como o que tratou da obra Israel em abril, apresentado no 14° Encontro da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) de 2016 e posteriormente publicado na Revista Tríade, da Universidade de Sorocaba (Uniso).

Outrossim, ainda vale lembrar que a obra de Verissimo analisada nesse artigo não só é uma narrativa jornalística de viagem, como também é um importante documento histórico sobre a Segunda Guerra Mundial, estreitando ainda mais as relações entre Jornalismo, Literatura e História. Mesmo quando se vale de personagens ficcionais, como na utilização de Pedro Malazarte, o negro do banjo ou nas cartas enviadas para personagens de seus romances, o escritor se vale desse recurso para explanar algumas ideias, reflexões e dilemas enfrentados durante a viagem. Além disso, há vários trechos que deixam claro que Verissimo também se valia dessas experiências para, posteriormente, compor os seus romances ficcionais. “Quando cominho pelas ruas duma grande cidade todo o meu desejo é deixar-me levar, sem plano nem bússola, como que erguido na crista da onda humana que coleia nas calçadas” (VERISSIMO, 1996a, p. 100). Esse espírito de viajante, aliás, diferencia-o de um viajante-turista, que se preocupa apenas em ir a pontos turísticos dos destinos para fotografar e retornar ao seu ponto de origem com fotos e souvenirs. Aliás, o ato de flanar pelas cidades é feito com prazer pelo escritor, que aproveita ao máximo a viagem para enriquecer a sua literatura. “Acho excitante andar por estes cafés e casas de pasto de embarcadiços, sem plano nem propósitos certos, a conversar com criaturas que não contam sua história nem perguntam pela nossa, pois para muitas delas passado é palavra que não tem sentido” (VERISSIMO, 1996a, p.157).

Esse espírito aventureiro, típico de viajantes que desejam explorar ao máximo a cultura dos destinos e se inserir nela, quase que antropologicamente, é sintetizada no seguinte trecho:


Creio que a gente viaja muitas vezes por culpa duma gravura que viu na infância, num velho livro. A ilha de Bali... Cena de rua em Hanoi... Cerejeiras floridas em Washington... Voltamos a página, devaneamos um pouco, depois aparentemente esquecemos a figura. Mas acontece que a lembrança do clichê se transforma num desejo, e esse desejo fica como que adormecido durante anos e um dia, em a sorte ajudando, ele nos leva a viajar (VERISSIMO, 1996a, p. 104).
Essa perspectiva poderia ser estendida, contemporaneamente, para outras mídias: como o cinema, as séries exibidas na TV ou na internet, as animações, os blogs, etc. No entanto, esse seria tema para outra pesquisa. Encerra-se, portanto, essa etapa do estudo sobre as narrativas de viagem de Erico Verissimo lembrando que, cada viagem deixa o jornalista e escritor viajante com gostinho de quero mais. “Ficamos outra vez a devanear, nostálgicos, e nosso desejo de viajar é tão grande que acaba nos jogando dentro dum trem ou dum avião, nem que seja para uma viagem intermunicipal” (VERISSIMO, 1996a, p.104). E quando nem a viagem intermunicipal é possível, essa vontade nos joga para os livros, para as narrativas de viagem ou para a produção de um artigo sobre essa temática que tão constantemente fascina a este e outros pesquisadores.

Referências

BELO, E. Livro-reportagem. São Paulo: Contexto, 2006.


BENEDETI, C. A. A qualidade da informação jornalística – Do conceito à prática. Florianópolis: Insular, 2009.
BORGES, J. Jornalismo literário – teoria e análise. Insular: Florianópolis, 2013.
BOYNTON, R. The new new journalism. New York: Random House, 2005.
COSSON, R. Romance reportagem: o gênero. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
GANCHO, C. V.. Como analisar narrativas. São Paulo: Ática, 2006.
GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 1994.
GOMES, W. Jornalismo, fatos e interesses – Ensaio de teoria do jornalismo. Florianópolis: Insular, 2009.
HALL, S. Pensando a diáspora – reflexões sobre a terra no exterior (p.25-48). In: HALL, Stuart. Da diáspora – Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG, 2009.
HOHLFELDT, A. C. Erico Verissimo viajante: entre o permanente e o passageiro. In: Maria Regina Barcelos Bettiol; Patrícia Lessa Flores da Cunha; Sara Viola Rodrigues. (Org.). Erico verissimo - Muito além do tempo e o vento. 1ªed.Porto Alegre: EDUFRGS, 2005.
KEROUAC, J. On the road – Pé na estrada. Porto Alegre: L&PM, 2004.
KARNAL, L; PURDY, S; FERNANDES, L. E.; MORAIS, M. V. História dos Estados Unidos. São Paulo: Contexto, 2011.
LIMA, E. P. Páginas ampliadas. Barueri: Manole, 2004.
LODGE, D. A arte da ficção. Porto Alegre: L&PM, 2011.
MARTINEZ, M. Jornalismo literário – tradição e inovação. Florianópolis: Insular, 2016.
SILVA, J. M. O que pesquisar quer dizer – como fazer textos acadêmicos sem medo da ABNT e da Capes. Porto Alegre: Sulina, 2011.
RITTER, E. A tribo jornalística de Erico Verissimo. Ijuí: Unijuí, 2016.
RITTER, E. Israel em abril: uma narrativa de viagem de Erico Verissimo na interseção entre jornalismo e literatura. Sorocaba: Revista Tríade (V.4 n.8, p.164-177), 2016.
VERISSIMO, E. A volta do gato preto. São Paulo: Globo, 1996a.
VERISSIMO, E. Gato preto em campo de neve. São Paulo: Globo, 1996b.
VERISSIMO, E. Israel em abril. São Paulo: Globo, 1996c.
VERISSIMO, E. México. Porto Alegre: Globo, 1978.
VERISSIMO, E. Solo de clarineta – primeiro volume. Porto Alegre: Globo, 1994.
VERISSIMO, E. Solo de clarineta – segundo volume. Porto Alegre: Globo, 1976.
WILLER, C. Geração beat. Porto Alegre: L&PM, 2010.
WOLFE, T. Radical chique e o Novo Jornalismo. São Paulo: Companhia das Letras,

2005.




1 Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Estudos de Jornalismo do XXVI Encontro Anual da Compós, Faculdade Cásper Líbero, São Paulo - SP, 06 a 09 de junho de 2017.

2 Professor adjunto da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), campus Frederico Westphalen, doutor em Comunicação Social, rittergaucho@hotmail.com.


www.compos.org.br

www.compos.org.br/anais_encontros.php



Catálogo: data -> arquivos 2017
arquivos 2017 -> Insira aqui o título: e aqui o subtítulo, se houver
arquivos 2017 -> Insira aqui o título: e aqui o subtítulo, se houver
arquivos 2017 -> O que é ser nerd? Um estudo de recepção sobre a série televisiva The Big Bang Theory1 what it is to be nerd? A reception study about the tv series The Big Bang Theory
arquivos 2017 -> Insira aqui o título: e aqui o subtítulo, se houver
arquivos 2017 -> News from a distant war: tv, witnessing and the regulation of affect
arquivos 2017 -> Insira aqui o título: e aqui o subtítulo, se houver
arquivos 2017 -> Insira aqui o título: e aqui o subtítulo, se houver
arquivos 2017 -> Insira aqui o título: e aqui o subtítulo, se houver
arquivos 2017 -> Insira aqui o título: e aqui o subtítulo, se houver
arquivos 2017 -> Insira aqui o título: e aqui o subtítulo, se houver


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande