Textos Amostrados – Folha de São Paulo (1994)



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No Livro de Ester, Hamã, que planeja exterminar todo o povo judeu, é derrotado pelo encanto que exerce Ester sobre o rei.

Alguns desses que ele salvou aparecem no fim do filme, ao redor do seu túmulo. Dois dos sobreviventes moram no Rio.

De um lado um homem que, montado num cavalo branco, conquistou a Europa e interpelou até as pirâmides.

Arte de deslembrar.

Podemos esquecer as coisas que nos repugnam e nos envergonham. Esquecer inteiramente, ou quase, desde que não haja testemunhas. Num caso como o do Holocausto, que deixou milhões de mortos, que por sua vez deixaram milhões de parentes e de testemunhas, esquecer parece impossível.

Mesmo assim há quem tente pelo menos deslembrar, que é um processo gradual, de balançar a cabeça, pôr em dúvida, dizer que não foi bem assim, ou que o exagero transforma transgressões de tempo de guerra em crimes hediondos.

Os museus do Holocausto estão sendo fundados porque os locais do Holocausto, isto é, os campos de concentração, estão desaparecendo, estão se esquecendo de si mesmos, se deslembrando.

Lá ainda se guardam, para que os visitantes as vejam, vetustas latas que contiveram outrora o gás exterminador, e fardos e fardos dos cabelos cortados dos judeus antes da execução: os cabelos tinha uso industrial.

No mais, o que existe é uma paisagem de chaminés em ruínas, que expeliram, meio século atrás, o último alento dos que não fizeram parte da lista.

A verdade é que o tempo ajuda aos que querem deslembrar e confundir, como o historiador berlinense, no cínico esforço de relativizar o Holocausto, isto é, de estabelecer comparações com outras atrocidades, para provar que todas são, em tempo de guerra, naturais, ou pelo menos inevitáveis.

Os especialistas em deslembrar buscam apoio num argumento que tem seu lado infantil, mas seu lado sórdido também: só gente com uma imaginação muito doentia pode atribuir a um povo civilizado os horrores.

E não a verdade tal como podemos encontrá-la num dos museus do Holocausto, olhando as relíquias terríveis e ouvindo um guia. A verdade como se estivéssemos numa igreja, possuídos pela música e participando do rito.





  • 20 de março:


Jorge Benjór já disse que canja de galinha não faz mal a ninguém. Mas o caldo, com certeza, faz. O preço do produto ficou trinta e quatro virgula sessenta e sete por cento acima da variação do dólar comercial no ano passado.

O que fez o caldo de galinha, junto com o leite, maionese e óleo de soja, estar bem acima da inflação medida pela Fipe, Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, em noventa e três? E ainda o sorvete, margarina, presunto e salame; cigarro, cerveja e refrigerante; sabonete, creme dental e sabão em pó?

Antes que se arrisque uma resposta, um alerta: eles têm algo em comum. Todos pertencem a setores onde um número reduzido de fabricantes domina percentual que varia de quarenta e oito por cento a noventa e oito por cento do mercado, e vendem seus produtos para uma infinidade de compradores. São conhecidos, por isso, pelo nome de oligopólios, e atingem todos os segmentos da economia.

Da lista dos oligopólios com reajustes elevados consta também os fabricantes de antiinfecciosos, analgésicos e medicamentos para o sistema cardiovascular; fósforos e lâmpadas; automóveis e latas de alumínio; aço e vidro plano.

Extensa, trata-se de uma lista desconhecida. Os que deveriam tê-la em mãos, como o secretário especial de Política de Preços, José Milton Dallari, e o superintende da Sunabi desconversam quando a imprensa a solicita. Não é o caso divulgá-la, isso não contribuiria para nada. As empresas citadas poderiam alegar constrangimento ilegal e entrar com ação na Justiça.

O fato de um número reduzido de empresas dominar o mercado de um determinado produto não significa necessariamente que elas combinam entre si patamar de preço abusivo. Quando isso acontece, o oligopólio torna-se cartel.

Como é muito mais fácil combinar e impor preços quando são poucos os que dominam o mercado, geralmente essa prática a ética acaba se concentrando nos oligopólios. Eles conseguem sustentar preços para seus produtos mesmo em épocas de recessão, através do controle da oferta.

No caso da lista da Fipe, por exemplo, o item alimentos industrializados, no conjunto, apresentou queda de preços de dois virgula trinta e dois por cento em noventa e três. As baixas mais expressivas foram nos setores onde as participações de mercado de cada fornecedor não chega a dez por cento, como é o caso do macarrão e do fubá.

Galinha e presunto.

No caso do caldo de galinha, noventa e dois por cento do fornecimento do produto é feito pela Nestlé e Refinações de Milho Brasil erreemebê. Os supermercados dizem que funciona assim: em um determinado mês a erreemebê solta a tabela primeiro, e na sequência vem a Nestlé, com percentual pouco abaixo. No mês seguinte, a ordem se inverte.

Essa é uma prática comum. Acontece muito de o segundo ou terceiro maior fabricante esperar o líder soltar a tabela. A partir daquele patamar, os outros vêm na sequência. É um sinal para o mercado que aquele patamar de preço foi aceito, conseguiu pegar, diz um executivo de um oligopólio que pediu para não ser identificado.

Pelo mesmo critério da Fipe, o presunto subiu outros vinte e quatro virgula vinte e sete reais em noventa e três. Seu primo irmão salame foi ainda mais longe: alta de trinta e seis virgula setenta e quatro por cento. Juntas, Sadia e Perdigão respondem pelo abastecimento de sessenta e oit por cento da produção de presunto e cinquenta e um por cento pela de salame.

Leite e óleo de soja.

No setor leiteiro, têm-se um oligopólio irmão gêmeo de um oligopsônio.

A industrialização do leite pausterizado era relativamente pulverizada até o início da década de noventa. Com a entrada agressiva da multinacional italiana Parmalát no mercado, e a fusão das empresas Leco, Vigor e Flor da Nata em uma só, grupo Mansúr, perto de oitenta e cinco por cento do abastecimento do produto na Grande São Paulo ficou, quatro anos depois, em mãos de três empresas. Além das duas já citadas, domina o sistema a Cooperativa Central de Laticínio, Paulista. São Paulo ficou, assim, com um oligopólio no setor de abastecimento.

Na ponta da captação do produto, também houve concentração de empresas que dominam o mercado. A nível de Brasil, formou-se um oligopsônico, com poucos compradores para uma matéria prima de múltiplos produtores.

Atualmente, Nestlé, Parmalát, Paulista, Itambé e Mansur compram quinze milhões do total de vinte milhões de litros de leite captados diariamente pelos laticínios.

Pela Fipe, o preço do leite tipo subiu vinte virgula treze por cento em termos reais em noventa e três. O setor alega que está recuperando margens depois de quarenta e cinco anos de tabelamento.

O óleo de soja é outro exemplo de oligopolização recente. Hoje os grupos Cevál, Sóya, Cargíll, Liza, e Sadia controlam quarenta e oito por cento do abastecimento interno, com preços que subiram, acima da inflação, dezoito por cento no ano passado.

Cerveja e refrigerantes.

À exceção da Pepsi Cola, que não atua no setor de bebidas alcólicas, os fabricantes de cerveja e refrigerantes no Brasil formam basicamente o mesmo grupo. Juntas, Brahma, Antárctica e Kaiser, onde a Coca Cola detém parte do controle acionário, respondem por noventa e quatro por cento do fornecimento de cerveja e setenta e sete virgula cinco por cento do de refrigerante trocando-se Kaiser por Coca.

Em noventa e três, houve alta real de um virgula sete por cento nos preços da cerveja e dezesseis virgula zero um por cento nos de refrigerantes. Mesmo perdendo mercado para marcas menores, os líderes sustentaram preços. O setor de cerveja esteve em meio a uma polêmica que apontou suspeita de concorrência desleal, de um lado, e indícios de união dos líderes de mercado para derrubar marcas menores, de outro.



Blitz da Coordenadoria de Assistência Técnica, cati, na sede da empresa em Itu, São Paulo, não encontrou irregularidades, segundo informou o governo estadual. A Folha apurou, na ocasião, que a denúncia havia surgido por pressões da Brahma e da Antárctica, que não quiseram se pronunciar sobre o assunto.

Creme dental.

Sabão em pó.

O sabão em pó subiu três virgula trinta e seis por cento acima do dólar e, segundo a Lever, ainda assim custa menos aqui do que na Europa. A alta do sabonete foi na mesma faixa: três virgula setenta e dois por cento.

Cigarros e sorvetes.

Tabelas com os novos reajustes chegam quinzenalmente ao varejo, em dias e percentuais próximos. Na última quinta feira, ambas anunciaram redução de prazo no recebimento de suas faturas ao comércio, como modo de compensar redução de prazo para pagamento de impostos. Pelo estudo da Fipe, o produto ficou oito virgula quarenta seis por cento acima da variação do dólar comercial em noventa três.

O sorvete é outro exemplo de expressiva concentração de fornecedores. Os preços, no entanto, tiveram alta real de trinta e quatro virgula vinte e oito por cento.

Às vezes, produtos oligopolizados registram expressivas baixas de preços. Em noventa e três, o preço do leite em pó caiu quinze virgula quarenta e cinco por cento e o do leite condensado, outros cinco virgula quarenta e sete por cento. Em ambos os casos, a Nestlé, que detinha mais de cinqüenta por cento do mercado para esses produtos, passou a enfrentar a concorrência agressiva da Parmalát, até então ausente desses segmentos. Mas analistas do setor observam que, posteriormente, um furador de oligopólios poderá enquadrar seus preços pelo pico.

- 25 de fevereiro:

O escritor e teórico da comunicação Umberto Eco talvez já tenha tido mais prestígio do que atualmente. Nos anos setenta, livros como A Obra Aberta e Apocalípticos e Integrados, editora Perspectiva, não podiam faltar na biblioteca de quem se interessava por arte de vanguarda e pelos meios de comunicação de massa. Depois, veio o sucesso com o romance O Nome da Rosa; Eco tornou-se, ele próprio, um fenômeno de massas.

Será que Eco já passou de moda? Dois livro dele foram recentemente publicados no Brasil. O Segundo Diário Mínimo, editora Récord, e Interpretação e Superinterpretação, editora Martins Fontes.

Em O Segundo Diário Mínimo encontramos alguns bons motivos de desencanto. Compõe-se de uma série de artigos humorísticos, escritos originalmente para uma revista italiana. O tom é todo de paródia, diversão, crítica do cotidiano.

Mas a leveza desses textos é em geral forçada e há menos graça do que contorcionismo intelectual em suas brincadeiras.

Arrisca também o Projeto para Uma Faculdade de Irrelevância Comparada, com um currículo absurdo: História da agricultura antártica, Urbanismo cigano seriam algumas das matérias estudadas.

O problema dessas brincadeiras é que o autor quase as leva a sério. A irrelevância comparada fascina-o mais do que parece e o sarcasmo não oculta o prazer de Eco com aquilo que, de forma por certo obscurantista, se convencionou chamar de cultura inútil.

De certo modo, isso é compreensível. Existe de fato um jogo curioso entre a ultra erudição, a pesquisa séria e exaustiva e o prazer quase infantil pela superfluidade.

Saber, saber mais, saber tudo: este impulso, dos mais simpáticos aliás, não é tão sério e moroso quanto parece. Umberto Eco mostra o quanto se diverte com os próprios conhecimentos. Mas não é sempre que consegue divertir o leitor.

Há, contudo, bons momentos no Segundo Diário Mínimo. Críticas à imagem dos índios nos filmes de bangue bangue, uma observação muito aguda sobre a obviedade dos programas de tevê o hábito dos apresentadores de dizer tudo o que acontece: alguém chora e o apresentador diz sempre que alguém está chorando, comentários engraçados sobre o uso do telefone celular.

Um texto, em especial, pode dar idéia da principal ambiguidade deste livro. Umberto Eco ironiza um catálogo de produtos eletrônicos que podem ser comprados pelo reembolso postal. São objetos totalmente malucos, como uma coleira antipulgas que funciona a ultra-som; um cobertor elétrico regulável, que aquece as partes do corpo em que você for mais friorento; um alarme para quem ronca demais.

É claro que o texto todo brinca com essas invenções. Mas ao mesmo tempo Umberto Eco se encanta com a inutilidade delas. Tem sede de bizantinismos.

Não é de hoje que um novo tipo de erudição se faz sentir. Antigamente, eruditos eram só os que sabiam os fatos do passado, as sutilezas da prosódia latina, a vida e as obras deste ou daquele filósofo.

Criou-se, entretanto, um novo tipo de erudito: os especialistas no seriado Jornada das Estrelas, por exemplo, que até têm um clube; os que sabem a escalação do time do São Paulo de mil novecentos e trinta até hoje; os que têm na memória todos os bastidores do Oscar.

Umberto Eco parece ser atraído pelos dois tipos de erudição. O prazer de conhecer um catálogo de mercadorias malucas equivale, talvez, ao de entrar nos meandros de uma disputa teológica medieval.

Seria crítico, se não fosse frívolo. Seria divertido, se tivesse menos seriedade. É simpático, mas soa um pouco desafinado. É jocoso, mas sem graça.

O outro livro de Umberto Eco lançado ultimamente, Interpretação e Superinterpretação, dirige-se a um público mais restrito. Transcrevem-se conferências de Umberto Eco sobre crítica literária e interpretação de textos, seguidas de comentários e réplicas feitas por um filósofo importante, um crítico literário americano e de uma romancista e crítico.

Impressiona ver de que modo Umberto Eco, quando está falando sério sobre um assunto de sua especialidade, consegue ser bem mais divertido e fascinante do que quando quer fazer graça. Com enorme riqueza de exemplos, com uma erudição que parece, agora, estar jogando sempre a favor do bom senso e não contra, o autor defende seus pontos de vista acerca do que deva ser a crítica literária.

Eco sustenta uma tese aparentemente trivial, a de que muitos críticos literários inventam demais quando analisam um texto. Parece que, nos Estados Unidos, isso virou uma verdadeira praga, com a moda dos desconstrucionistas. O leitor se tornou, de fato, soberano e se algum leitor acha que descobriu num livro coisas que o autor não sonhou sequer sugerir, pior para o autor.

Em Interpretação e Superinterpretação, um debate estimulante é travado em torno desse estado de coisas. O curioso é que Umberto Eco é, ele próprio, autor de romances. Seu Nome da Rosa está cheio de armadilhas, alusões cifradas, jogos de palavras. Natural que diversos críticos tenham visto, no romance, mais intenções e astúcias do que as que ele próprio foi capaz de inventar.

Como fugir, enfim, de leitores astuciosos demais, prontos a ver pêlo em casca de ovo, quando o próprio autor de um romance como O Nome da Rosa é o primeiro a disseminar pistas falsas, anacronismos, jogos eruditos no seu texto?

O esforço de Umberto Eco, desenvolvido com extrema honestidade e poder de persuasão, é distinguir entre uma interpretação crítica legítima, razoável, ainda que distante das intenções do autor, e a interpretação cabalística, excessiva, maluca que os críticos queiram promover.

Ele diz que nenhuma crítica poderá chegar a descobrir aquilo que o texto realmente é. Pois não há nada que realmente seja. Cada pessoa faz de um livro o que bem entende. Não há interpretações corretas de um texto, mas usos mais ou menos interessantes que se podem fazer dele. Não há aparências a vencer nem realidades a descobrir. Umberto Eco responde com maestria e bom humor a esse desconfortante radicalismo.

Faz bem ler este livro, com Umberto Eco na sua melhor forma. Difícil dizer se se o seu interesse não seria restrito demais, se a discussão toda não é bizantina para o leitor ocasional.

Mas o engenho, a graça, o volume de inteligência envolvido em textos desse tipo não podem deixar de atrair o leitor.

- 16 de dezembro: (877 palavras)


Ao contrário do que acham alguns, a globalização da economia é apenas o começo de uma nova era exigente e desafiadora.

Têm aparecido visões controvertidas sobre os desdobramentos políticos e sociais do capitalismo vencedor. A economia de mercado, agressiva e pragmática, ocupou todo o espaço das alternativas, tendo de assumir sozinha a responsabilidade pelas incertezas do futuro. O precioso terreno da utopia, temporariamente vazio, por enquanto não pode ajudar.

Por algum tempo, algumas nuvens escuras turvaram o céu da vitória. O alto custo inicial da unificação alemã e a arrastada recuperação da economia capitalista somaram-se à surpresa do desemprego estrutural. Alguns teóricos neomarxistas chegaram a enxergá-las como prova de grave crise cíclica.

Ao contrário, hoje percebe-se a marcha de uma forte expansão da economia capitalista mundial.

Há, porém, uma alteração importante na geometria do poder. Os blocos dividem a nova hegemonia econômica. Os Estados Unidos, com o Nafta, respondem por mais de seis bilhões de dólares de peenebê. O Japão e os Nics, por quatro bilhões de dólares. E o Mercado Comum Europeu por outros seis bilhões dólares.

Operam um capitalismo pujante e exoticamente articulado com interesses estratégicos da China continental. O comércio internacional da Grande China já é equivalente ao do Japão e da Alemanha. Estará na Ásia, pois, o fulcro dinâmico da economia mundial no início do século vinte e um.

Outra novidade é o forte comprometimento dos governos com as estratégias das grandes corporações. A tendência à concentração industrial interfere cada vez mais com a autonomia dos Estados nacionais. As cinco maiores corporações industriais norte americanas faturam quatrocentos e sessenta bilhões de dólares, um número semelhante ao Pib brasileiro. Se juntarmos as outras cinco que, com elas, constituem as dez maiores empresas do mundo, teremos setecentos e setenta bilhões de dólares, parecidos com o Pib de Brasil, México e Argentina somados.

As grandes nações estão cada vez mais a serviço do comércio e dos interesses industriais de suas corporações. De refrigerantes, sorvetes e sanduíches até automóveis, aviões e computadores, os produtos tendem a ser globais. As fronteiras nacionais ficaram mais frágeis e o jogo da competição internacional é pesado, competente e inevitável.

Nesse contexto, o conceito de produção local passa a ter prioridade sobre o de empresa nacional. Interessa ao Estado moderno maximizar a produção de bens e serviços no país, gerando empregos e crescimento econômico. A origem do capital não importa tanto. O que se pede do governo é que tenha competência para remover os obstáculos à concorrência e à competitividade sistêmica, impostos excessivos, serviços ruins, baixa qualificação da mão de obra etcétera, e que se equipe para envolver-se pesadamente na defesa dos interesses das empresas aqui instaladas, sempre que eles coincidam com as prioridades nacionais de crescimento e emprego.

Abrir a economia é necessário e urgente.

Quanto à acirrada polêmica sobre revolução tecnológica e desemprego estrutural, é evidente que a capacidade de acumulação do capitalismo moderno repousa no trinômio inovação, qualificação, e produtividade. A tecnologia continuará a se desenvolver por saltos qualitativos, gerando mais automação e rápida obsolescência.

Nas telecomunicações, a substituição de sistemas analógicos por digitais permite uma ampliação instantânea da capacidade de transmissão da ordem de dez vezes. E nos automóveis médios, entre mil novecentos e oitenta e oito e mil novecentos e noventa e oito, a indústria reduzirá o tempo de montagem de trinta e nove para dezenove horas e os meses para desenvolvimento de um novo projeto de setenta e dois para trinta e sete.

Mas há outras mudanças muito relevantes. Cabos de cobre com oitenta por cento estão sendo substituídos por fibra ótica com dez por cento. Em vinte anos o conteúdo de matéria prima e energia da indústria japonesa caiu à metade. A nova energia chama-se informação. Seu conteúdo é o conhecimento.

Essas tendências exigem um forte esforço de adaptação das sociedades modernas. Os salários dos trabalhadores qualificados continuarão a crescer e a garantir a dinâmica da acumulação capitalista. Mas será preciso enorme atenção à geração de empregos de baixa qualificação, em nível compatível com a demanda social.

Não há como resistir à modernização tecnológica e à globalização dos mercados. É um caminho inexorável. No caso das economias periféricas, as novas tecnologias contaminam também os setores tradicionais, como calçados e têxteis. A automação passa a ser condição para competir.

Por essa razão é essencial criar competência para ampliar ao máximo os investimentos industriais e atrair capitais produtivos internacionais que garantam a maior taxa possível de expansão da economia, com o máximo de empregos. Isso exige uma política industrial ativa, que defina prioridades e garanta padrão de financiamento adequado.

O crescimento econômico alivia tensões e cria soluções. Para garanti-lo, é essencial manter a política de estabilização, sustentada por um ajuste fiscal simultâneo à profunda reforma do Estado que permita reduzir desperdícios e aumentar eficiência nos setores prioritários, saúde, educação, segurança. A privatização agressiva e criteriosa terá de garantir queda de tarifas e liberação de poupanças públicas.

O Estado brasileiro precisará, porém, estar preparado para operar com competência amplas medidas compensatórias e planos sociais de emergência que atenuem o desemprego estrutural na transição para o crescimento auto sustentado.

São essas as exigências e os desafios da globalização como alavanca para uma nova era. Se alguém duvida, que prove ter uma alternativa.


- 27 de março:

A crise dos três poderes, da última semana, é exemplar para entender o tamanho da crise brasileira. O Supremo Tribunal Federal é o juiz, em última instância, o guardião da lei, que deve ser obedecido pelos demais poderes da República. Por que isto não ocorreu? Aparentemente, porque outros dois poderes se levantaram.

A grande imprensa, o quarto poder, que forma a opinião pública da classe média, estimulou a sua indignação contra decisões do Supremo e do Congresso. Por outro lado, os militares, um poder supostamente subordinado, sentiram-se indignados com a ruptura, uma vez mais, do princípio da isonomia. Será só isto? As respostas não são tão fáceis.

O Supremo interpreta, em última instância, a Constituição e as leis, mesmo que elas digam respeito a contratos privados. Como poderá fazê-lo, porém, respeitando ele próprio a lei, quando existem legalmente duas moedas? Como julgar em consciência contratos escritos ou implícitos que dependem de uma moeda como meio de pagamento e de outra como unidade de conta? A primeira varia tanto, dia a dia, que uma semana é suficiente para produzir um aumento de mais de dez por cento nos vencimentos antecipados dos congressistas e dos magistrados.

Cabe perguntar: Se o Supremo não está de acordo com a suposta falta de regra das duas moedas, que existem de fato desde a emissão da última medida provisória, por que não a proclamou imediatamente inconstitucional e se serviu dela privadamente? O Supremo Tribunal é por acaso uma Justiça privada ou é o baluarte da Justiça Pública? Como se vê, trata-se de questões altamente perturbadoras.

Sem uma única moeda pública não há contrato legal que se sustente. Num artigo que escrevi para a Folha em um de agosto de mil novecentos e e oitenta e três, intitulado A vida e a morte da moeda brasileira, avisei que nas sucessivas mortes da moeda os sinos acabariam dobrando para todos.




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