Paris à noite livros di hoje valérie Tasso paris à noite



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Valérie Tasso
PARIS À NOITE
LIVROS DI HOJE
Valérie Tasso
PARIS À NOITE
Tradução de Magda Bigotte de Figueiredo
Livros d’Hoje Publicações Dom Quixote

Edifício Areis

Rua Ivone Silva, n.° 6 - 2.°

1050-124 Lisboa Portugal


Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor
© 2004, Valérie Tasso

2004, Random House Mondadori, SÁ


© 2007, Publicações Dom Quixote
Design: Atelier Henrique Cayatte
Este livro foi composto com a fonte tipográfica Scala -
Revisão: Manuel Coelho
1ª edição: Maio de 2007
Depósito legal n.° 255 309/07
Paginação: Fotocompográfica, Lda.
Impressão e acabamento: Manuel Barbosa & Filhos, Lda.
ISBN: 978-972-20-3293-3
www.dquixote.pt
A te, amore, per tutte lê notti che non abbiamo passato a Parigi
ÍNDICE
11 Agradecimentos ,

1 - CENAS PARISIENSES

21 Édouard

34 Pipo

39 A mancha negra



41 Encontro marcado

48 Gang-bang connection

56 Flamingos cor-de-rosa em pleno centro de Paris

62 Mimi


2 - SEXO NA CIDADE

73 O encontro

82 O segredo

87 O tesouro

94 A confidência

97 O louva-a-deus

102 Solidões

110 O Bosque de Bolonha

118 Confusões

3 - O AMOR, SEMPRE (O ENIGMA DE PARIS)

125 Plano A

140 Plano B

147 No cais do Sena

150 O dia D

156 A confissão de Mimi

160 A confissão de Pipo
AGRADECIMENTOS
A David Trías, meu editor, por continuar a apostar em mim, e entender melhor do que ninguém a minha particular «filosofia» da vida.
À minha grande amiga Isabel Pisano, por me apoiar tanto e acreditar mais em mim do que nela própria.
A Manu, por me animar de cada vez que me fui abaixo. Manu, gosto muito de ti! Lembra-te: a verdadeira valentia consiste em sabermos enfrentar-nos a nós próprios. Só assim sairás fortalecido.
A Sophie, por ser Paris a sua cidade, apesar das recordações que seguramente este livro lhe trará. Sophie, acredita, tu aguentas tudo!
A Lolita, por compensar sozinha, com carinho e ternura, todas as supostas «amizades» que me viraram as costas.
A Rosa Llopis, por ser a antítese da hipocrisia e da moral dupla que tanto caracteriza a nossa sociedade. Vivam os teus ovários!
A Vicenç, por ser tão louco (tanto?!) como eu.
A Pierre Mérot e ao seu Mammifères, por me reconciliar com o Johnnie Walker.
E a Freddie Mercury, pelas noites de curtição, ao ritmo do Show Must Go On.
O vício supremo é a estreiteza de espírito.

OSCAR WILDE


No nosso planeta só podemos amar sofrendo e através da dor. Não sabemos amar de outro modo nem conhecemos outro tipo de amor.

FEDOR DOSTOIEVSKI


É sabido que o amor é uma lente através da qual até um monstro parece fascinante.

ALBERTO MORAVIA


Há duas cidades de Paris.
A Paris prostituída, violada pelos olhares dos turistas estrangeiros que desfilam em bicha, um a um, para penetrar numa das cidades mais belas do mundo.
A Paris das tentações, violadora por seu turno de todos os corpos que se aventuram a conhecer a cidade autêntica e que não aparece em nenhum guia.
Há cidades no mundo que embriagam qualquer pessoa, pois não têm igual. Deixam marcas, como as marcas das unhas nas costas de um amante demasiado fogoso.
Paris é mais do que uma cidade-museu com partículas de contaminação em suspensão...
Converti-me em mais uma sombra nos passeios desta cidade, num espectro condenado a vaguear quando cai a noite, debaixo dos seus candeeiros, submetida a um ritmo nocturno. Vagueava e olhava, e a minha presença tornou-se cada vez mais assídua nas suas celebrações nocturnas. Depende de vocês fazer o mesmo!
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CENAS PARISIENSES


Pwis voici lês vacances, lês douces vacances de juillet, un enfer inédit.

Pierre Mérot, Mammifères


Baixei-me um pouco para voltar a pôr a tira de cabedal da minha sandália no lugar, dado que ameaçava deixar-me com metade do pé no chão. Apoiei uma mão na parede de um edifício que anunciava que o horário de visita era das 10 às 19 horas.
Não imaginava, nem sequer suspeitava, que podia fazer tanto calor na capital. As sandálias magoavam-me, tinha os tornozelos inchados e os pés suados; coisa que só me acontecia em cidades mediterrânicas como Barcelona, que acabara de deixar na noite anterior.
Pequenas feridas haviam surgido em cada pé, exactamente onde a correia das sandálias me apertava - famosa lei de Murphy -, de forma que decidi entrar numa farmácia e comprar uns pensos.
Sentada no passeio, com a carteira ao lado, coloquei os pensos perante o olhar escandalizado e carregado de desprezo dos transeuntes. Para os parisienses, uma pessoa sentada no chão é sem dúvida um SDF (sem domicílio fixo). Não andavam muito longe da realidade, na verdade. Acabava de chegar de Barcelona e pensava alojar-me uns dias numa pensão barata, à espera de mudar-me para casa da minha amiga Mimi, que estava fora.
A coxear cheguei à pensão, situada no bairro mais barato e quente de Paris. Os meus rendimentos naquela altura não
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permitiam que me alojasse num hotel de cinco estrelas com escadarias largas e corrimãos dourados a ouro fino. Acabava de chegar a Paris no Talgo da noite a fim de fazer um curso intensivo de japonês durante um mês.


Yamal, o recepcionista, deu logo mostras do seu carácter arisco, marcado por poucas palavras. Parecia admirado por ver-me chegar tão cedo. De mau humor, conduziu-me à salinha que servia de casa de jantar até que o meu quarto estivesse pronto. As suas únicas palavras foram um asséptico «bom-dia» que rapidamente foi tragado por uma garganta larga e extremamente venosa.
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- Dá-me isso, puta de merda!


O desconhecido agarrou-a pelos cabelos e encostou-lhe a cara à janela do automóvel, esmagando-a como quem apaga um cigarro. O bâton da vítima esborratou o vidro todo, dando a impressão de que sangrava. O golpe fora limpo e as únicas marcas de violência eram as manchas vermelhas na janela. Rapidamente, o homem remexeu nos bolsos do impermeável da mulher, tirou qualquer coisa e, acto contínuo, atirou-a para fora do táxi, fechou a porta, limpou com a manga as marcas do delito e desapareceu do parque de estacionamento que nem um foguete. Mais um filme de guião fraco e com actores medíocres. O costume: a televisão francesa só dava lixo. Decidi desligá-la e ir dormir, ansiosa por me encontrar no dia seguinte com ele, porque ia ser a primeira vez em onze anos que nos voltávamos a ver.
«Sou médico», disse-me pelo telefone. «Trabalho numa famosa clínica de Paris e temos um congresso no Sheraton.» Tínhamos marcado encontro no hotel Sheraton Príncipe de Gales às oito da noite. Tínhamos ficado primeiro de nos encontrar no bar do hotel e depois, dissera, convidava-me para o cocktail que a empresa dele organizava. «Em grande, com aperitivos e gente interessantíssima.”
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Surpreendeu-me que pusesse os aperitivos e as pessoas no mesmo plano mas não ia armar-me em difícil nesta altura do campeonato. Se lá ia, era para vê-lo, que me importava a mim o que ia comer e com quem ia encontrar-me? ;


Édouard era médico. Como o pai. Não estranhei que tivesse escolhido esta profissão. Sempre tinha gostado de anatomia... sobretudo feminina...
O cabelo, da mesma cor que o meu mas com um ou outro reflexo arruivado, parecia um trapo esfiapado com mechas rebeldes que alisava com um pouco de gel fixador todas as manhãs. Uma infinidade de sardas enfeitava-lhe as maçãs do rosto; delas se riam carinhosamente os amigos por causa do seu ar de menino de coro com aspecto punky. Chamavam-lhe CENOURA porque naquela época havia um anúncio de um queijo avermelhado que um garoto sardento, curiosamente parecido com Édouard, comia com gula.
Aceitava de bom humor a piada porque tinha um sentido da amizade à prova de bala e tudo quanto vinha dos amigos era sagrado e respeitável. Como aquela noite que passámos na tenda de campismo montada no jardim da casa dele.
Os amigos apareceram de repente com lanternas e, como mirones, tinham tentado adivinhar o que estava a fazer, o que não era muito difícil de imaginar. Ele aborreceu-se um pouco, saiu da tenda e ralhou com os amigos enquanto eu me tapava com uma manta e manchava o saco-cama com o espermicida generosamente fornecido pelo pai.
No dia seguinte, quando fomos ter com eles, Édouard nem sequer aludiu ao episódio.
Não havia meio de conciliar o sono. Levantei-me para acender um cigarro e, maquinalmente, pus-me diante da janela a
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espreitar o movimento da rua. O meu quarto era no primeiro andar, ao lado da estação de metro Blanche. Não podia ser mais autêntico.


As cortinas da janela eram quase transparentes e senti-me desprotegida por um instante. Se eu conseguia ver através delas, talvez alguém conseguisse ver-me a mim. Mais do que um primeiro andar parecia um rés-do-chão, pois somente um metro de altura separava o meu quarto do passeio. Qualquer pessoa poderia apertar-me a mão e desejar-me boa-noite.
Estava uma noite clara e quente. Tinha a Paris típica ao meu alcance: Pigalle, Montmartre, e os autocarros de turistas que paravam em fila indiana em frente do Moulin Rouge e dos pi-shows, cujas incansáveis empregadas dia e noite interpelavam quantos clientes podiam, prometendo-lhes um «gozo garantido», tanto para ele como para ela.
Não era de admirar que não conseguisse dormir. Além do nervosismo por causa do encontro do dia seguinte, havia na rua uma fauna ruidosa que fazia uma barulheira tremenda, pisando cacos de garrafas de cerveja atiradas contra a parede. Alguns magrebinos jogavam à bola com os vidros; outros transformavam-se em faquires improvisados, lutando e retorcendo-se no chão ao mesmo tempo que outros gritavam a tentar separá-los. Uns rapazes africanos sentados dentro de um carro parado, aberto de par em par e com música soul em altos berros, faziam movimentos com as mãos e a cabeça ao ritmo do saxofone. No meio daquela balbúrdia, passaram umas raparigas bonitas e altíssimas, com o cabelo cheio de gel à garçon, de pernas finas e decotes generosos ainda salpicados por uma purpurina multicolor que a transpiração da noite arrastara até ao rego do peito. Bailarinas do Moulin Rouge com pestanas postiças. Ouviram-se alguns assobios. Vinham do carro dos africanos. As raparigas, habituadas a ter que afastar os atrevidos, passaram sem
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fazer caso das exclamações insistentes e ordinárias daqueles machões fortemente apetrechados.


No meio daquela algazarra, olhei para a janela em frente. Havia uma sombra. Detive-me naquele ponto negro do segundo andar do prédio, tentando perceber um pormenor qualquer que me fornecesse uma pista. Mas nada se movia. Parecia simplesmente uma mancha negra numa cortina. Comecei a contar os andares do edifício a partir das indicações dadas por um cartaz na porta de entrada:
À vendre («Vende-se»), e um número de telefone.
Voltei a dirigir o olhar para o segundo andar, mas a mancha na cortina tinha-se desintegrado como que por artes mágicas. Ficara apenas uma luz mortiça, proveniente, decerto, de um quarto interior do mesmo andar.
Apaguei o cigarro quando fui acometida por um ataque de tosse repentino e abri a janela para respirar ar fresco. Naquele instante, as bailarinas atravessaram a rua e espalharam-se por vários táxis. Os magrebinos fizeram as pazes. Os africanos fecharam as portas do automóvel e eu a janela, pus umas bolas nos ouvidos, por causa das moscas, e meti-me novamente na Cama.
- Não se esqueça de me pagar esta noite; assim já pode recuperar o passaporte. Já lhe disse ontem. É costume pagar duas noites adiantado.
Os óculos escuros impediam-me de diferenciar os diferentes tons de amarelo da t-shirt de Yamal Alaui (era o nome que figurava na insígnia que tinha presa com um pequeno alfinete), mas reparei na sua pele morena. Tinha as sobrancelhas espessas e uma barba incipiente depois de ter trabalhado a noite toda.
- De que zona é? - perguntei, sorrindo-lhe.
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- Esta pele queimou-se sob o sol de Orán - respondeu, levantando as mangas da t-shirt e olhando para os bíceps com orgulho.


Yamal tinha uma certa nostalgia nos olhos, porque provavelmente se lembrava do que o pai contara sobre aquelas terras do Norte de África, no tempo em que toda a gente bebia chá de hortelã pacificamente, quando ler um jornal em francês ainda não constituía um sacrilégio. Era demasiado jovem para ter conhecido uma Argélia sem conflitos. Yamal era um símbolo andante do rap, do tag, do taf, do SMIC ou do RMI1, nascido na Argélia, sim, mas educado à francesa e no respectivo Estado de Bem-Estar.
- E a senhora?
Hesitei um instante.
- Refere-se ao branco doentio da minha pele? - respondi divertida. - É branco seco brut autêntico - redargui, referindo-me à região de Champanhe onde nasci.
- E isso, onde é que fica?
Procurei na carteira o dinheiro que pedia pela noite. Pu-lo em cima do balcão da recepção, e respondi:
- A duzentos quilómetros daqui, mais ou menos. !
Guardei o passaporte que Yamal tirou de uma caixa, enquanto perguntava a si próprio, certamente, onde ficava o tal lugar a duzentos quilómetros de Paris que fabricava albinos em série. Ajustei os óculos escuros em cima do nariz e saí.
A luz batia com força, como milhões de raios X que picavam ligeiramente a pele dos transeuntes, fartos de tanto calor, e o passeio libertava um cheiro a alcatrão condensado que
1 Tag, mensagem ou desenho a cores que alguns grupos pintam nas paredes. Taf, charro. SMIC: salário mínimo de inserção profissional.

RMI: rendimento mínimo de inserção.


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absorvia a pouca clorofila que desprendiam as árvores que se haviam atrevido a sobreviver naquela urbe gigantesca.


Os óculos escuros protegiam-me daquela luminosidade tão pouco habitual em Paris. Agradava-me a realidade virtual existente por detrás das lentes escuras. Era como observar a realidade de fora, metida numa moldura que delimitava a minha própria perspectiva, oferecendo-me outra dentro de mim.
Nunca gostei do dia. Fui sempre um animal nocturno; de certa forma, comprar estes óculos fora uma tentativa de reprodução da noite que tanto aprecio. De facto, a responsável da loja ia dando em doida, comigo a experimentar centenas de pares com ar de desagrado, argumentando que queria os óculos mais escuros jamais fabricados.
Andava com passo apressado. Apesar do dia alegre, que dava uma cor nova às ruas, o humor dos parisienses era o mesmo de qualquer outro dia, chovesse ou fizesse sol: pareciam sempre aborrecidos.
Na verdade, não eram muitos os parisienses, porque praticamente todos se iam embora em manadas no Verão, mas isso não era o pior: o terrível era, e é, que partiam para os mesmos destinos comprados nas Nouvelles Frontières, para se misturarem de novo entre si, gritar e reconstruir, desse modo, a sua própria, pequena e inseparável Paris; isso sim, num contexto exótico.
Os escassos sorrisos esboçados nalguns rostos eram, pois, sorrisos italianos, espanhóis, ou inclusive ingleses (sim, sim, os ingleses até sorriem... fora do país deles, é claro!).
Apanhei o metro na estação Blanche, linha azul, para ir para o Instituto de Línguas Orientais e tomar nota dos horários das aulas de japonês.
O metro de Paris é um antro que tem um cheiro pegajoso a excremento que se sente logo à entrada. Um cheiro que viola
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impunemente as fossas nasais brancas, negras ou amarelas que por ali passam sem discriminação, e que se instala mesmo depois de termos deixado aquele formigueiro. Mesmo assim, agradava-me mergulhar num mundo protegido da luz natural onde tudo anda depressa.


Faltavam poucas horas para ir ter com ele e tinha a mesma sensação de quando me enfiara na sua cama pela primeira vez: inexperiente, com o nervosismo e a ansiedade de enfrentar o desconhecido. Porque era isso: ele era, onze anos mais tarde, um perfeito desconhecido para mim. O que nunca teria imaginado é que o fosse tanto...
Às sete e meia da tarde, apressei-me a ir até ao hotel. Depois de passar pela recepção para perguntar onde era o bar, para lá me dirigi, instalei-me ao balcão e pus-me a examinar descaradamente cada pessoa que se aproximava ou que já estava a tomar alguma coisa, conversando com alguém. Tinha-me sentado precisamente ao balcão para poder controlar a entrada e saída das pessoas. Não me apanharia de surpresa. Tinha chegado primeiro, eram oito menos cinco e ele, como sempre, tinha dito que chegaria pontualmente ou com um ligeiro atraso. Como é costume acontecer num encontro assim. Um encontro marcado às cegas. Ou quase.
Não nos íamos enganar. Era um encontro importante e se bem que eu aparentasse naturalidade, sentada no banco que me deixava os pés a balançar como uma mulher baixinha que não consegue tocar no chão, estava muito, mas muito nervosa.
Édouard apareceu à hora prevista, com um pequeno e estranho raio de luz por trás das costas, como uma aparição fantasmagórica. Andava com passo firme, mas dirigindo-se devagar até ao balcão, como se quisesse saborear o instante, revendo as
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fotografias de um álbum com recordações das últimas férias. Era um filme em câmara lenta. Para mim, não era ele quem se aproximava. Eram as imagens de um tempo adolescente, quando eu me escapava de noite com a Emma, quando ainda éramos inconscientes e livres daquela responsabilidade que a vida adulta pressupõe; essas recordações estavam ali, à minha frente, junto de um copo que pedira timidamente a um empregado elegante.


Só tinha querido experimentar com o Édouard, sem compromissos. Tinha-me chamado a atenção o seu nariz engraçado, potente, arrebitado e um pouco torcido no meio de um rosto magro, harmonioso, e cheio de simpatia, que respirava uma certa plenitude. Mas agora, sentia uma vontade irreprimível de me pôr dali para fora.
Édouard aproximava-se ao mesmo tempo que eu reconhecia o seu andar elegante, o sorriso sincero; a imagem era ainda um pouco desfocada, mas os maxilares continuavam bem assentes, rigorosamente encaixados num queixo pontiagudo, as maçãs altas, a oval do rosto traçada perfeitamente por mão de artista. Continuava a ser um homem baixo, mas com o mesmo carisma que o seu rosto sempre transmitira. Na tal noite da tenda de campismo aprendi de cor os seus gestos quando estava em cima de mim; depois, lentamente, foram desaparecendo da minha cabeça e, agora, tantos anos depois, regressavam como se os tivesse observado ontem mesmo. Não era uma recordação longínqua. As sardas continuavam lá, talvez um pouco mais morenas do que quando ele era mais novo. Até as sardas envelhecem. Mas as madeixas rebeldes já se tinham acalmado, unindo-se ao resto da cabeleira que se tornara dócil com o tempo.
A imagem dele fez-se mais nítida. À medida que avançava, dei-me conta de que faltava qualquer coisa naquela harmonia.
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Faltava a razão pela qual eu me tinha apaixonado. Faltava o ar divertido da cara dele, a sua impressão digital, o que o tornava único como ser humano.


- Não mudaste nada - disse-me em jeito de cumprimento, quando já só um metro de distância nos separava.
Eu não podia dizer o mesmo. Fiquei muda. Não era o mesmo Édouard. Creio que percebeu logo a minha decepção.
- Como vês, acabei por fazê-lo – acrescentou.
Era a única coisa que eu fixava.
- Fi-lo porque tinha imensos complexos, sabes perfeitamente - explicou-me, como se se sentisse obrigado a dar-me uma justificação. - E no mundo médico em que estou, é muito fácil encontrar um bom especialista. Por isso, não hesitei um minuto.
Édouard continuava a falar, dando-me uma explicação coerente para aquela mutilação imperdoável para mim. Eu continuava meio suspensa nas recordações de menina púbere, e o meu silêncio tornou-se mais do que assassino. E tinha penetrado nele, directo ao coração, perfurando-o sem piedade, como uma faca afiada que esquarteja a carne, com movimentos secos e seguros. Acabava de cortar o corpo de Édouard em dois pedaços, jorros de sangue brotavam da sua pele esbranquiçada para salpicar umas naturezas-mortas penduradas nas paredes do bar.
- Nunca pensei que falasses a sério - disse, depois de um longo compasso de espera e de uma respiração nasal mais sonora do que o ruído do ar condicionado.
As minhas palavras caíram em cima do cadáver despedaçado de Édouard como a terra numa sepultura.
- Pareces desiludida - ficou sério. ; * ;


  • Não, nem por sombras! Estou muito contente por te ver disse, com vontade de resolver o assunto.

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Queria dar o assunto do nariz por encerrado, mas ele estava empenhado em saber a minha opinião.




  • Não me digas que não está melhor assim - acrescentou, pondo-se de perfil para que pudesse ver a linha perfeita da cartilagem.

- Édouard, é o que se chama um perfil grego, sem dúvida disse, tentando agradar-lhe. - Se era isso que querias, conseguiste. Os meus parabéns ao médico!


Mas nunca soube mentir. O tom da minha voz era o meu pior inimigo e denunciava-me sempre.
A pessoa que tinha à minha frente era um perfeito desconhecido. Mas, como confessá-lo? Sempre tentei não magoar ninguém, por mais que isso suponha dizer uma mentira piedosa. Para desviar a atenção, propus-lhe que tomasse qualquer coisa.
- Não, obrigado. Já começou o cocktail no salão principal. Por que não vamos? - perguntou, agarrando-me no braço carinhosamente.
Procurava o contacto físico, creio que queria explicar-me que se o nariz era outro, os seus dedos experientes continuavam tão eficientes como dantes. As suas carícias na base da coluna, antigamente, punham-me louca de desejo.
- Está bem. - E terminei o meu copo de um trago, alegre por poder ver mais gente e esquecer o maldito nariz que me ia tirar o sono. - Vamos, vamos lá.
A sala era enorme; as mesas de trabalho tinham sido colocadas a cada canto para depositar as bandejas de aperitivos e taças de champanhe que não paravam de esvaziar-se. As cadeiras tinham sido afastadas e, no meio da sala, conversavam, de taça na mão, umas sessenta pessoas do mundo clínico.
Édouard parecia conhecer toda a gente. Cumprimentava algumas pessoas com um movimento do queixo, outras com um enérgico aperto de mão.
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Eu escapuli-me para junto dos aperitivos, peguei numa taça de champanhe e, enquanto bebia, vi claramente como o destino de Édouard e o meu sucumbiam como as borbulhas na superfície daquela bebida. Apesar de tudo, estava disposta a dar-lhe uma oportunidade; talvez pretendesse despertar novamente o que me comovera aos quinze anos, aquilo que se escondia entre as suas pernas e que eu memorizara no meu estômago.


Segui-o. Decidi fazê-lo quando me fez sinal com o seu pequeno queixo pontiagudo para o letreiro que indicava onde se situavam as casas de banho. Sim, fui atrás dele, ao mesmo tempo que terminava rapidamente o meu segundo copo.
Édouard procurava de novo essa cumplicidade e acedi sem resistência, deitando apenas uma olhadela dissimulada às pessoas com as quais havíamos trocado algumas palavras, a comprovar que ninguém se iria aperceber da nossa escapadela.
Empurrou a porta da casa de banho dos homens, verificou que não havia ninguém lá dentro e fez-me passar com um movimento da mão dizendo-me que o caminho estava livre.
Dentro de mim, um «não» rotundo ressoou desde a minha caixa toráxica até às fontes, tão contundente que pensei que o tinha pronunciado.
Mas se lhe tivesse dado ouvidos teria rejeitado toda a minha adolescência. Porque é preciso exorcizar o passado, não negá-lo. Assim, ali estava eu com ele, sem recalcitrar.
Baixou a tampa da retrete para se sentar. Convidava-me a ser o seu cavaleiro pessoal, a cavalgá-lo como um cavalo selvagem e completamente desconhecido e, ao mesmo tempo que me tirava a blusa, murmurava palavras soltas para me incitar a seguir o ritmo dele. Os meus gestos, lentos e medidos, contrastavam com o movimento desenfreado das mãos dele.
Não conseguia olhar-lhe para a cara. Não podia, pronto. Fechei então os olhos para que não pudessem aderir, como uma
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pequena sanguessuga, ao centro do seu rosto. E foi então que o meu corpo começou a falar por si só. Falava e sentia melhor na obscuridade; a minha mente era capaz de «erotizar» quando não estava condicionada por imagens do exterior. Édouard já não tinha nariz. Encarreguei-me eu de apagá-lo com um silencioso pestanejar.


O meu desejo jamais se acalmará, pensei, e levantei-me de repente; a transpiração das minhas pernas colara a minha pele à dele. As suas coxas estavam vermelhas pelo roçar das minhas, pele marcada a ferro em brasa como um animal.
De pé, com as mãos apoiadas nos azulejos imaculados da casa de banho, fui separando levemente as pernas enquando os dedos dele continuavam a lacerar-me o corpo, até se aquietarem nos ossos das minhas ancas. Era urgente vir-me para abandonar a minha imagem reflectida na louça. Que se viesse também. Gosto de dar prazer às pessoas com quem estou, mesmo que não esteja a gostar. E depois? Que posso eu fazer se tenho o sexo em fogo?
A suave cadência da sua pélvis forçava os meus olhos a abrirem-se como as bonecas de cera de antigamente que não tinham os olhos articulados, bonecas de pestanas cosidas a pálpebras delicadas. Para me obrigar a ver, a intuir. E o rosto dele surgiu diante de mim, na parede, com a boca aberta. Tapei-o com uma mão até o asfixiar. Pareceu gostar, porque lhe senti o orgasmo daí a pouco. Percebi então que era verdade que a falta de oxigénio pode chegar a dar prazer. O que explica que os enforcados tenham erecções quando morrem.
Quando fugi como uma ladra, perante o olhar atónito das pessoas que procediam ao check-in na recepção, não veio atrás de mim. Abri a porta do hotel a correr e, passados uns metros, abrandei o passo para voltar a respirar normalmente, virando-
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-me de vez em quando para ver se Édouard tinha mudado de ideias.


Talvez a minha atitude tenha sido infame. Tê-lo abandonado ali, na casa de banho, sem sequer lhe dizer adeus. Mas não fora somente o pobre Édouard que eu deixara para trás.
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