O último Trem de Hiroshima


KAITEN E OS ELEFANTES FIÉS



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KAITEN E OS ELEFANTES FIÉS

Agora que o presidente Truman anunciara ao mundo a existência da bomba atômica, o véu de sigilo começou a se desfazer. Acompanhado os cientistas indicados para voar com Charles Sweeney estava um observador do New York Times; e porque, como civil, ele não estava familiarizado com a interminável dança das cadeiras no esquadrão, por mais de duas décadas, os livros de História registrariam o Great Artiste como o avião que jogou a bomba em Nagasaki.

O avião que de fato lançou a bomba estava normalmente sob o comando de Fred Bock, e ele o batizara de Bock's Car em homenagem si mesmo. Tanto o Great Artiste quanto o Bock's Car estavam identificados somente pelos números, sem os nomes usuais e pinturas nas laterais; e cada um fora modificado de maneira específica: um para monitorar a maior bomba do mundo, o outro para lançá-la. Logicamente, ninguém transferiria toneladas de equipamento especializado de um avião a outro quando os pilotos Charles Sweeney e Fred Bock trocassem de avião. Ninguém contou ao repórter sobre a troca. Então, logicamente, quando lhe mandaram embarcar num avião cheio de cientistas sob o comando de Fred Bock, ele concluiu que o avião de instrumentos científicos era o próprio Bock's Car e que o que levava a bomba era o avião de Sweeney, aquele chamado Great Artiste.

Às 2h da manhã, Charles Sweeney pôs os cintos de segurança na a cabine do Bock's Car e começou a verificação pré-voo dos sistemas com o copiloto Don Albury e o engenheiro de voo John Kuharek. Sweeney estava por dar a partida nos motores quando seu engenheiro de voo se aproximou e disse: "Temos um problema. A bomba de combustível no tanque de reservas do compartimento de bombas traseiro não está funcionando. Temos quase três mil litros de combustível presos lá".

“Alguma ideia sobre o que seja o problema?", Sweeney perguntou. "Poderiam ser os instrumentos?", ele sugeriu, com esperança.

O engenheiro respondeu que as verificações mostravam que os medidores davam leituras acuradas – o que significava que e a única maneira de corrigir o problema envolvia substituir uma bomba de combustível.

Sweeney fez cálculos rápidos. George Marquart já tinha levado um avião meteorológico a Kokura, alvo primário. A previsão anunciava céu claro, mas não por muito tempo. Uma frente de chuva e névoa era esperada do Pacífico e poderia permanecer por vários dias. De fato, a maior parte da grande ilha meridional do Japão poderia ficar nublada por uma semana ou mais — e depois a estação dos ciclones viria com tudo.

Sweeney solicitou urna parada, soltou o cinto de segurança e desceu até a escada da roda de pouso dianteira. Paul Tibbets já esperava sob a asa quando Sweeney apareceu. Sua discussão foi puramente matemática, seca e fria.

Completamente abastecido, o Bock's Car levava 26 mil litros, incluindo três mil litros em dois tanques de reserva — quase três mil litros que agora estavam presos. Se seu alvo primário ficasse nublado e se tivessem que voar quilômetros adicionais de Kokura a Nagasaki — ou fazer qualquer outra coisa que consumisse mais combustível —, o avião não voltaria para casa. Substituir a bomba de combustível levaria horas e poderia atrasar a missão por dias se as nuvens começassem a se mover sobre os alvos — além disso, a estação dos ciclones estava se aproximando. Transferir a bomba a outro avião consumiria ainda mais tempo e estava fora de questão, porque seus fusíveis de contato estavam ativados.

Se partisse naquele momento, Sweeney provavelmente Alcançaria o intervalo de bom tempo, mas ainda teria que voar a 518 metros para ficar acima de uma turbulência de uma frente de tempestade do Pacíficio, o que consumiria mais combustível do que se ele voasse à altitude ideal de 243 metros. Devido a um projeto em que nunca se tinha levado em consideração essa situação, os quase três mil litros de combustível presos não poderiam ser drenados sem que se consertasse a bomba defeituosa. Então o Bock's Car seria muito mais pesado a decolar e carregar — além de uma bomba de plutônio muito mais pesada que o artefato de Hiroshima — quase três mil litros de massa extra, o que levaria o avião a consumir muito mais combustível só para levar o combustível "morto".

A decisão é sua", o comandante de Sweeney disse.

A matemática mostrou a Sweeney que ele poderia com certeza voar a 3.200 quilômetros até o alvo e voltar a Tinian, contanto que nunhuma das interferências que costumavam acontecer mesmo nos melhores planos causassem mudanças de alvo ou novos atrasos.

Para o inferno com isso, chefe", disse Sweeney. "Nós estamos indo." E então Charles Sweeney se amarrou a seu assento de couro pela segunda vez naquela noite. Menos de dez minutos depois, e só um pouco atrasado, ele decolou da pista A. O relógio marcava 2h56 da manhã, horário de Tinian; 1h56 em Kokura e Nagasaki.


O DOUTOR PAUL NAGAI, como o doutor Hachiya, era agora paciente de seu próprio hospital, mas por uma razão muito diferente. O câncer diagnosticado alguns meses antes tinha começado a se espalhar por seu corpo; e como seus colegas mais próximos lhe diziam quando tentavam saber quanto tempo mais ele viveria, "às vezes pessoas nesse estágio podem continuar razoavelmente ativas por seis meses. Às vezes podem sobreviver até três anos. E às vezes elas nos enganam a todos".

"Eu espero enganá-los", disse Paul. Ele esperava, mas realmente não acreditava que fosse possível. Naquela noite, ele nem tinha torças para descer o morro até sua casa e estar com sua mulher. Simplesmente se deitou numa cama vazia do hospital. A julgar por uma

avaliação diária de sua própria força, a deterioração estava progredindo de forma estável e até parecia ganhar velocidade. O médico supôs que sobreviveria ao restante do verão, ao outono também, e ao que prometia ser um inverno curto.

Aproximadamente às 3 horas da manhã, o doutor. Nagai despertou de sonhos perturbados e descobriu que não podia voltar a dormir — o que era estranho, já que o câncer em estado avançado não o deixava com vontade de fazer outra coisa a não ser dormir.

Ele foi até a janela e olhou para baixo, para a cidade de Urakami, do morro do complexo médico de Nagasaki. Os apagões da época de guerra agora escondiam o vale de um rio habitado por mais de um quarto de milhão de pessoas, mas, apenas com o brilho das estrelas e com os olhos adaptados à noite, ele conseguia localizar sua casa, onde a mulher, Midori, estava sem dúvida dormindo em paz e sob as cobertas.

As três horas se transformaram em quatro, e em cinco, e o doutor Nagai ainda não conseguia dormir. Deitado na cama e observando no céu os primeiros sinais da luz matinal, ele pensou no número de pacientes que teria de visitar naquele dia; e quanto mais pensava sobre o sono perdido e o trabalho a ser feito, mais impossível era dormir.

Tampouco era possível escapar ao pesadelo que o tinha acordado. Um olho se abria, nas selvas da noite, e procurava por ele. O doutor que tinha virado paciente tentou ignorar o horror como apenas um sonho produzido pela febre, trazido à tona por um medo natural e instintivo do câncer que crescia dentro dele. Havia uma explicação racional, portanto, para o que parecia ser um profundo alarme interior. avisando que um horror pior que o câncer vinha naquela direção.
ÀS 6 HORAS DA MANHÃ, horário de Nagasaki, as luzes de advertência do alarme principal do Bock's Car começaram a sinalizar que os sistemas a prova de falhas, projetados para prevenir a detonação da bomba dentro do avião, não eram tão confiáveis assim. Aparentemente, o plutônio era muito hostil a sistemas elétricos.

O tenente Philip Barnes olhou de cima de sua caixa preta : aparelho de monitoramento dos fusíveis conectados à bomba) e gritou para Sweeney: "Temos um alarme mestre".

"Repita isso", Sweeney gritou de volta, querendo ter certeza de que tinha ouvido corretamente.

O comandante Fred Ashworth confirmou a observação de Barnes de que a luz vermelha de advertência no monitor dos fusíveis tinha começado a piscar. Se essa advertência, como a advertência dos combustíveis, era correta, então os circuitos de detonação de uma arma nuclear de múltiplos quilotones estavam se fechando, e um ou mais fusíveis de detonação estavam prestes a puxar o gatilho. Em três segundos, Sweeney percorreu a lista de verificação dos fusíveis mentalmente. Se qualquer um dos dois fusíveis de contato no nariz da bomba estivesse se acionando sozinho, ele e sua equipe seriam um falso amanhecer sobre o Pacífico prestes a ser registrado pelos sismógrafos do Japão. Se os fusíveis barométricos ou de radar estivessem envolvidos, eles estariam bem, a menos que o Bock's Car caísse a uma altitude menor que 576 metros... e a menos que os altímetros estivessem dando leituras erradas dos fusíveis. Novamente, ele já teria virado íons e raios gama se fosse verdade. Restava o fusível de cronometragem — nesse caso, Barnes e Ashworth tinham menos de quarenta segundos para resolver o problema.

"Ah, meu Jesus Cristo..."

Durante os dois segundos seguintes, com sua mente correndo em máxima velocidade, Sweeney considerou as duas opções: lançar a bomba e esperar escapar à explosão, ou rezar que não fosse o fusível de cronometragem e esperar que, mesmo que fosse os encarregados da arma pudessem encontrar o problema e resolvê-lo em menos de meio minuto. Ele não tinha a intenção de se livrar da arma. A lição do almirante sobre os valores da bomba e do avião agora parecia repugnantemente profética. Se o pior acontecesse e o avião ficasse cheio de furos e estivesse perdendo combustível dos motores, Sweeney já decidira liberar sua equipe enquanto ele e Kermit Beahan pilotavam o Bock'.s Car até o Japão, mirando num depósito de combustíveis ou, se nenhum outro alvo existisse, numa vaca num campo de arroz.

Sweeney duvidava que se chegasse a isso. Ele confiava em seus homens, em seu avião e nele mesmo. Atrás dele, Phil Barnes já tinha a escotilha da bomba aberta e estava dando ao labirinto de fios, circuitos e interruptores uma das inspeções mais rápidas da História. Com mais de sete segundos de sobra (como o fusível de cronometragem media o tempo), Barnes determinou que o cronômetro não estava ligado. Alguns instantes mais tarde, ele conseguiu achar a fonte do problema: um alarme positivo falso, e o corrigiu.

"Alarme falso", Barnes gritou. "Nenhum dos circuitos de disparo estava fechado."

Que bom, estou respirando de novo, Sweeney pensou. Mas sua resposta foi um sussurado "Ah, meu Deus".
HAJIME IWANAGA, DE 14 ANOS, acordou com uma dor de estômago às 3h da manhã e não conseguiu dormir mais. Agora seu desempenho na escola certamente sofreria as consequências, embora a escola não fosse mais um lugar de aprendizagem. A escola na verdade funcionava junto à fábrica de torpedos Mitsubishi, e, em vez de caligrafia e matemática, os estudantes eram recrutados para as máquinas de ferramentas.

Na semana anterior, Hajime e dois de seus amigos — que, como ele, eram de pouca estatura para sua idade — tiveram a honra de ser convidados a fazer funcionar os torpedos um dia. O "trabalho" envolvia o controle manual do sistema de orientação dos torpedos, com o operador deitado de bruços e isolado do lado de dentro. Garotos adolescentes eram os sistemas de orientação preferidos, porque os torpedos — que na realidade eram minissubmarir os transformados em bombas guiadas — permitiam uma largura de ombros máxima de apenas 55 centímetros.

Naqueles dias, o veterano submarino 1-58 era normalmente equipado com quatro dos torpedos especiais Kaiten, cada um parecendo um cruzamento entre um submarino anão e uma bomba comprida. O Kaiten representava o equivalente submarino do "vento divino", os pilotos kamikaze.

Às 11h40 da noite de 29 de julho, torpedos lançados do 1-58 abriram os compartimentos à prova d'água do cruzador norte-americano Indianápolis, três dias depois de ter entregado os componentes principais da bomba de Hiroshima. O "Indie" se tornou histórico por duas outras razões: pelo pior frenesi alimentar de tubarões com humanos da história, e por ser o último navio com nome de capital-americana afundado durante a Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, o 1-58 estava voltando ao porto com um pedido de quatro novos Kaiten.

Hajime, como o restante dos alunos, tinha crescido sem saber nada mais do que a doutrinação de uma guerra total. Embora ainda não tivesse idade para entender o significado da morte, ele estava, mesmo assim, preparado para morrer por seu imperador. Fora ensinado a ser um soldado orgulhoso e audaz numa guerra sagrada que certamente conduziria à paz. Os norte-americanos, os britânicos e os chineses eram inferiores a animais — "eles" não tinham nome nem rosto, e mal serviriam para ser escravos. Só os grandes e tardiamente aliados alemães e italianos poderiam ser considerados humanos. Os japoneses eram os filhos escolhidos de Deus. Assim aprendiam os voluntários dos Kaiten, e nisso acreditavam.(7)

Como outras crianças de sua idade, e em seu tempo e lugar, Hajime confiava no que os oficiais que visitavam a fábrica de armamentos lhe diziam — sem nunca duvidar de suas instruções, mesmo quando afirmavam que a missão especial para a qual estava sendo treinado deveria ser mantida em segredo de sua mãe, irmã e professora. Ele tinha sido escolhido pelo próprio imperador, lhe disseram.

Quando o escolhido mostrava sinais de medo, era lembrado de tudo aquilo que os trabalhadores do zoológico de Tóquio se dispuseram a sofrer para provar seu amor e dedicação ao imperador. A história dos elefantes fiéis já tinha virado lenda — ao mesmo tempo horrível e maravilhosamente patriótica. Uma geração mais tarde, a lenda se tornaria algo sobre crueldade e tolice da guerra, mas naquele momento era passada como um exemplo de glória. Para as crianças aspirantes a Kaiten, a agonia recente e sem precedentes dos trabalhadores do zoológico, evidenciada por uma atitude grandiosa e não apenas por palavras, era demonstração de que uma pessoa deveria estar pronta para sofrer o que fosse necessário para o bem maior do Japão.
7. A idade precoce de alguns dos operadores dos Kaiten não era, naquele ponto da História, privilégio do Japão. Um dos últimos submarinos alemães afundados durante a guerra (na costa sul de Long Island, Nova York), mostrou conter, quando explorado durante os anos 1980, crânios de membros da tripulação de até 14 anos. Na Filadélfia, garotos imigrantes italianos podiam se alistar para posições de combate aos 17 anos, e alguns entraram no serviço militar durante a Segunda Guerra Mundial era de 15 anos, e, ocasionalmente, 14 anos. Durante quase todo o século XX, a adolescência não era reconhecida como uma faixa etária separada da idade adulta.

A prova tinha sua origem nos racionamentos de comida do tempo da guerra. Quando os ataques com bombas incendiárias contra refinarias, depósitos e centros de transporte trouxeram um grave racionamento a todo o país, o exército prontamente pôs o zoológico de Ueno, em Tóquio, no fim da lista de prioridades de comida e combustível, cortando imediatamente todos os suprimentos para os animais. Em algum ponto da cadeia de comando, alguém se lembrou de que as partes do corpo de alguns dos animais — especialmente de ursos, tigres e cobras — eram muito procuradas como remédios populares, às vezes valendo seu peso em ouro. Por ordem do exército, os cuidadores foram forçados a sacrificar todos os animais, com exceção de três elefantes amestrados, por uma combinação de tiros, golpes de espada e doses letais de sedativos. Aquelas carcaças julgadas com valor eram levadas pelo exército. O restante era transportado ao aterro municipal.

Os planejadores militares tinham um destino especial e propagandista em mente para os cuidadores do zoo e seus elefantes. O marechal de campo entendeu que os elefantes, estando entre os animais mais inteligentes, desenvolviam fortes laços com seus treinadores e cuidadores. Os soldados tinham observado, ao vivo, que os laços eram mútuos e profundos.

Aos trabalhadores do zoológico não foram permitidas armas e espadas ou qualquer outro meio de sacrificar seus elefantes. Em seguida, receberam ordens de viver no zoo com seus animais e vê-los morrer de fome.

O menor dos elefantes, a quem chamavam John, morreu após dezessete dias. Quando o jejum começou, os trabalhadores do zoológico foram autorizados a plantar batatas para seu próprio consumo, e dia após dia eles ofereciam aos dois elefantes sobreviventes - Tonky e Wanly — porções de suas próprias magras rações — apesar de uma batata-doce ser para um elefante o que uma gota d'água é para o mar. No melhor dos casos, sua misericórdia somente prolongou a agonia. E o marechal de campo observou tudo e entendeu. Os treinadores e cuidadores ouviram que seu sacrifício era pequeno em comparação ao que os soldados nas ilhas mais distantes tinham sofrido recentemente: "Porque isso é o que significa ser um verdadeiro filho do imperador".

Por uma fria certeza matemática, a regra de três dominava: homens e elefantes podiam viver três minutos sem ar, até três dias sem água, e três semanas sem comida.

Quando chegaram à terceira semana, as orelhas de Tonky e Wanly pareciam grandes demais para seus corpos — e, como um dos trabalhadores descreveria mais tarde, sempre que ele se aproximava da jaula sem água seus dois amigos se ergueriam nas patas traseiras com a tromba levantada, os olhos ainda amorosos parecendo implorar: "Por favor, dê-nos algo para comer".

Àquela altura, os próprios cuidadores já estavam sucumbindo à fome. Ainda assim, quando acreditavam que os soldados não estavam observando, davam a ração que tinham, até que suas costelas começaram a aparecer e as roupas se tornaram muito grandes para seus corpos.

O reinador principal dos elefantes, diziam, amava-os como se fossem seus próprios filhos. Mais de duas semanas depois que John morreu, o treinador encontrou Tonky e Wanly mortos em sua jaula, com suas trombas esticadas para o alto contra uma barra transversal, parecendo ter morrido ao tentar executar o famoso truque de banzai, que agradava às plateias. "Fiéis por toda a eternidade", como contaram os oficiais do Kaiten: "Fiéis ao amigo que poderia recompensá-los novamente com comida, como fazia todos os dias, antes que o inimigo invadisse Iwo Jima e Okinawa".

O treinador se sentou no chão e acariciou as trombas e as patas dos elefantes mortos. Ele já não tinha mais lágrimas, mas uma geração posterior entenderia que isso não importava, porque se acreditava que até as pedras tinham chorado no zoo de Ueno aquele dia. A moral da história, como foi contada a Hajime, era que ele deveria estar pronto a sacrificar qualquer coisa para ajudar a levar a guerra ao fim. Uma geração mais tarde, ele e outras crianças das bombas teriam uma história bem diferente para contar — de como eles confiavam sem questionar no que os adultos diziam, e no que o governo dizia, e no que os homens em uniformes lhes diziam que os altos escalões do governo queriam dizer. "Mas o que é mais importante", Hajime e seus colegas se esforçavam em ensinar, "é que devemos questionar além de confiar".


O ACAMPAMENTO DE PRISIONEIROS aliado número 17 estava localizado 63 quilômetros ao nordeste de Nagasaki, no lado oposto da baía Ariake. Em 6 de agosto, o cabo Dale Frantz tinha observado uma estranha nuvem penetrando a estratosfera na direção opost:_, a Nagasaki — a 237 quilômetros dali, na direção de Hiroshima. A nuvem deveria ter ascendido mais de dez quilômetros quando ele a notou pela primeira vez, e a forma estranha continuava a crescer para cima rapidamente. Seu companheiro de prisão Earl Bryant também viu a nuvem. Ele viu o chapéu se tornar branco-pálido, tingido de um brilho rosa. Uma coluna estreita seguiu a cabeça do cogumelo até o céu, mas a coluna era negra e parecia ser feita de fumaça e relâmpagos.

Na manhã de 9 de agosto, enquanto o tenente Barnes decifrava os alarmes principais a bordo do Bock's Car, os prisioneiros do Campo 17 já estavam trabalhando a 439 metros de profundidade na mina de carvão condenada de Fukuoka, no distrito de Omuta. Bryant e Frantz estiveram trabalhando na mina por quase dois anos, mas não eram de modo nenhum os detentores do recorde de resistência. Clarence Graham, de 25 anos, apresentava uma estranha combinação de músculos fortes e emagrecimento, e parecia pelo menos duas vezes mais que sua idade. Fora capturado na de Corregidor em maio de 1942, e tinha sobrevivido como escravo um ano a mais que todos os outros.

A quase meio quilômetro de profundidade, a atmosfera estava cheia de um nada comum pó de carvão macio. As bombas levavam para baixo o mínimo de ar fresco para sustentar a vida, então o ar na caverna era estagnado e quente. As bombas d'água quase não conseguiam dar conta da infiltração subterrânea. Os córregos de água, pela altura do tornozelo e do joelho, ofereciam a Clarence Graham e aos outros mineiros sua única fonte de refresco. Eles podiam lavar o suor e a poeira de suas frontes, e a água negra da infiltração limpava carvão de suas gargantas, afastava a desidratação, e até mesmo enganava um pouco a fome ao encher seus estômagos com água.

Clarence tinha sobrevivido mais tempo que qualquer pessoa devido ao fato de não ter sido esmagado durante um desabamento, e por manter a cabeça no lugar. Se um homem desenvolvesse uma reputação de permanecer sereno, nunca olhar seus captores nos olhos

e trabalhar duro, isso lhe permitia viver o bastante para suportar uma dieta de quase inanição. Sua tarefa principal envolvia transformar enormes pilhas de ardósia em pilares em forma de pirâmide que seguravam o teto das cavernas sempre que estas começavam a enfraquecer — o que acontecia praticamente em todos os lugares. Em turnos de doze horas removendo pedras, ele vivia com três tigelas de arroz por dia, às vezes expelindo tanto catarro preto que a dor em seus pulmões nunca diminuía. Ele tinha de tirar a tanga, mergulhá-la no córrego e amarrá-la à cabeça para conseguir respirar.

Clarence sabia que tinha de manter a mente concentrada em ver sua família novamente, para que não levantasse uma pá, amaldiçoasse um guarda e o perseguisse como outros fizeram: era “suicídio" por guarda armado.

Só equivalentes japoneses dos soldados rasos eram enviados às cavernas com os prisioneiros. Os oficiais sabiam que a morte no subterrâneo vinha de muitas direções, então eles ficavam em cima, enquanto sua casta inferior Morlock era responsável por levar medo e frustração para baixo. A merda vem morro abaixo, Clarence lembrou-se, e nós estamos no sopé do morro.

Sempre que uma nova leva de trabalhadores entrava nos túneis, a anterior perguntava: "O que há de novo lá em cima?". Por dois anos, a resposta era "nada", ou rumores inventados sobre a chegada do fim da guerra. Naquele dia a resposta era: "Nada. A mesma porcaria de sempre — exceto que algo os agitou como vespas e eles decidiram parar de nos alimentar".

No dia 9 de agosto, a equipe de Clarence Graham emergiu à luz do dia quase uma hora depois que o turno substituto começou a trabalhar. Ele e os outros que chegaram do turno da noite receberam ordens para formar filas e permanecer em posição de sentido sob o sol nascente. Não receberam comida, e um oficial anunciou que tampouco receberiam água. Qualquer um que falasse ou caísse, ou fizesse qualquer ruído, teria sua cabeça cortada imediatamente.

"Por causa de Hiroshima", um oficial gritou, "o imperador ordenou que vocês trabalhem sem comida até que ele decida que não precisam trabalhar mais".

Clarence estava com calor, mas pensou que o sol não o queimaria muito naquele dia. Um banco de nuvens estava vindo do leste, oferecendo sombra. A uns trinta ou quarenta quilômetros dali, na direção de Kokura, um brilho prateado capturou o seu olhar. Um dos nossos, ele adivinhou, mapeando e colhendo boletins meteorológicos. Enquanto uma sirene distante apitava e a estação de força desligava as bombas d'água da mina, Clarence se perguntava: Por que os aviões não deixam de passear e vêm aqui fazer alguma coisa?

Clarence não tinha um relógio de pulso, mas adivinhou, pelo ângulo do sol, que eram quase 8 horas.

Às 7H45, o AVIÃO meteorológico seguinte chegou a Kokura e o Bock's Car alcançou seu ponto de encontro, a 915 metros sobre a ilha de Yakushima. O Great Artiste apareceu a estibordo de Charles Sweeney, mas o avião fotográfico Big Stink estava longe de ser visto. Quinze minutos e 473 litros de combustível mais tarde, o terceiro avião ainda parecia estar perdido. Por sinal codificado, dois distantes aviões meteorológicos responderam "C-1" e "C-2/10-2". Apesar de a névoa da manhã estar prevista em ambos os alvos, Kokura estava límpida, e apenas dois décimos de cobertura de nuvens poderiam ser esperados no alvo secundário.

Essa foi a primeira boa notícia que Sweeney recebeu durante toda a missão, e logo parecia que seria a última.

Às 8h30, depois de circular trinta minutos mais para o local do encontro — e depois que outros preciosos 950 litros de combustível foram consumidos —, Sweeney esquadrinhou o céu vazio uma última vez e então disse ao seu copiloto e bombardeiro: "É isso. Não podemos esperar mais". Mantendo silêncio no rádio, ele balançou as asas do Bock's Car, sinalizando ao Great Artiste que deixariam o ponto de encontro e prosseguiriam até o alvo primário.

O avião fotográfico desaparecido estava circulando quase três quilômetros acima, e sobre o ponto errado da superfície da Terra. Às 9 horas, o Big Stink quebrou o silêncio radiofônico e chamou base de Tinian: "Sweeney abortou?". A voz do piloto era aguda e acentuada, e a mensagem chegou como "Sweeney abortou".

Em Tinian, a quebra do silêncio contra o protocolo, não seguida outra transmissão, poderia ser interpretada apenas como um sinal de que algo tinha dado muito errado com o avião de Sweeney. O cenário mais provável era de que o Bock's Car tivesse sido abatido, ou que estivesse se movendo com dificuldade entre Yakushima e Kokura. Aqueles que conheciam Sweeney sabiam que, numa crise, em vez de trazer um avião atingido à base, prestes a cair com os fusíveis de impacto de uma bomba atômica armados, ele atiraria a

arma sobre o alvo militar mais próximo que pudesse encontrar, retornando por. Yakushima até um pouso de emergência em Iwo Jima. Todos os recursos de busca e resgate de ar e mar de Tinian estavam, portanto, realinhados ao longo da mais nova e mais aparente rota de retorno de Sweeney — que, por uma margem de vida ou morte de centenas de quilômetros, agora era mais aparente do que real.

Se o Bock's Car ficasse sem combustível e realmente tivesse de se atirar ao oceano, todos os navios de resgate e aviões estavam sendo mandados na direção errada naquele momento.
Em NAGASAKI, O GOVERNADOR Nagano ainda estava cético quanto ás descrições de Hiroshima feitas pelo prefeito Nishioka. O que o impediu de considerar o relatório um exagero grosseiro era o fato de que ele sabia que o prefeito não era de se perturbar facilmente. No final, ele pesou a lógica contra a incredulidade. Se a descrição do prefeito era mesmo precisa e ele não tomara precauções para proteger a família e a equipe, o resultado poderia ser catastrófico. Se tomasse alguma atitude e nada acontecesse, isso não causaria nenhum dano real, e ele poderia punir o prefeito mais tarde por espalhar rumores.

Num morro com vista para o porto de Nagasaki de um lado e os subúrbios de Urakami do outro, um túnel com múltiplas câmaras, largo o suficiente para acomodar dois caminhões lado a lado, tinha sido escavado com muita pressa durante os dois meses anteriores. Geradores de eletricidade e sistemas para filtrar o ar equipados com os mais novos absorvedores de dióxido de carbono, a base de hidróxido de lítio, já tinham sido colocados nos seus lugares havia mais de duas semanas. Uma porta externa à prova de explosões, de concreto reforçado com aço e amianto, deixava o túnel tão hermético que ele poderia ser um submarino, selado dentro de uma montanha e resistente a mesmo um furacão de fogo.

Grandes obras de arte agora estavam escondidas lá dentro. Tudo o que faltava instalar eram camas, suprimentos de comida, o resto das impressoras do prefeito Nishioka.

Enquanto o Bock's Car e o Great Artiste se aproximavam de Yakushima e Kokura, Nagano levou sua família até o abrigo com tudo o que podiam carregar. Então chamou seus administradores e oficiais do Ministério de Defesa Aérea Regional para avaliar situação e planejar os detalhes do dia de trabalho. A palavra oficial de Tóquio era para não esperar nada grave, mas permanecer alerta. Oficialmente, tudo estava sob controle.

O governador Nagano não tinha certeza. Se apenas metade da descrição do prefeito fosse correta, muito pouco estava sob controle. O governador deu início à reunião e tinha recém-começado descrever o que lhe contaram sobre Hiroshima quando o prefeito de uma cidade chamada Sasebo entrou correndo no abrigo, gaguejado sobre notícias urgentes.

"É assim que você se apresenta a seu governador?", Nagano gritou. E então, depois de uma pausa, notou que as roupas do homem estavam empapadas de suor, e percebeu que deveria haver uma boa razão para estar tão maltrapilho.

Nagano caminhou até o prefeito e lhe perguntou, gentilmente: “Onde você esteve?".

O prefeito olhou ferozmente em seus olhos e respondeu: "Estou no inferno".


“MAIS DE DOIS QUILÔMETROS rio acima, o doutor Tatsuichiro Akizuki tinha recém-começado o exame de vários pacientes ambulatoriais, incluindo Paul Nagai. Apesar de uma noite de sono interrompido, o doutor Nagai insistiu que se sentia bem o suficiente para continuar realizando suas tarefas. Akizuki concordou. Os dois homens acreditavam que a melhor defesa contra a preocupação e a aflição era um trabalho que mantivesse a pessoa aflita empenhada em pensamentos sobre todos menos sobre si mesma.

Akizuki deixou Nagai com os pacientes do ambulatório e estava caminhando até uma segunda ala quando outro avião B-29 meteorológico se aproximou, mandando pelas ondas de rádio a mensagem "C-2/10-4", que significava: "Cobertura de nuvens de quatro décimos, alvo secundário". Simultaneamente, uma sirene soltou um longo silvo contínuo que significava "Alerta Amarelo", ou seja: "Os inimigos estão a caminho. Preparem-se para se abrigar".

O doutor. Akizuki corria de sala em sala, avisando aos pacientes para que ficassem longe das janelas. Sob o Alerta Amarelo, todos os médicos tinham de parar imediatamente o que estavam fazendo e se dirigir até os abrigos nos porões. Em vez disso, Akizuki foi até uma janela para procurar os B-29. Não havia nenhum; e a sirene parou e emitiu o sinal de "Tudo Claro", "Estado Verde". Era o segundo alarme falso em duas horas. O céu parecia estar ficando um pouco nublado, o que dificultaria ver os aviões; mas, fora isso, parecia não haver motivo para se preocupar. Formações de B-29 não gostavam de lançar bombas, de dia ou de noite, quando os alvos estavam cobertos por nuvens. Dias de chuva eram conhecidos como os mais seguros.

Fazia calor do lado de fora e a umidade estava crescendo. Parece ai chover, o doutor Akizuki disse a si mesmo; estava cantarolando alegremente enquanto descia as escadas até a sala de consultas. Quando entrou, encontrou a doutora Yoshioka realizando uma operação de pneumotórax de emergência num paciente. O procedimento tinha começado dez minutos antes.

"Você tem de parar de trabalhar quando o alarme de ataque aéreo dispara", Akizuki disse, tentando soar austero.

"Obrigada", ela respondeu. "Mas havia muitos pacientes esperando."

O doutor Akizuki não acreditava que fosse possível, mas a doutora Yoshioka parecia ainda mais cansada que o doutor Nagai. Ultimamente, mesmo o serviço de bondes parecia estar ficando sem energia, então ela tinha começado a caminhar os mais de cinco quilômetros por Nagasaki, iniciando todos os dias depois do nascer do sol, para um expediente que não terminaria por pelo menos doze horas.

"Você já comeu hoje?", Akizuki perguntou.

"Mais tarde", ela respondeu.

"Não, agora mesmo", Akizuki insistiu. "Ordens médicas. Vou ajudá-la a terminar aqui, e depois quero que suba e descanse um pouco. Vou continuar aqui no seu posto um pouco mais."

"Bem... obrigada", ela disse e sorriu. "Mas quanto tempo é um pouco mais?"

"Tanto tempo quanto você precisar", disse Akizuki. "Vamos ter que ver."


Às 9H45, KOKURA estava diretamente à frente. Charles Sweeney definiu o curso para o voo de lançamento da bomba e estava prestes a entregar os controles ao bombardeiro Kermit Beahan quando Beahan subitamente gritou: "Não consigo ver! Não consigo ver! Há fumaça cobrindo o alvo".

Entre o momento em que George Marquart emitiu seu último boletim meteorológico "C-1" e o momento da aproximação final, o vento tinha mudado. Abaixo, fora do alcance do arsenal de Kokura, a cidade de Yawata ainda estava na mesma condição que Kenshi Hirata tinha observado de seu trem na noite anterior — queimando incontrolavelmente. O arsenal estava completamente escondido sob um manto de fumaça grossa e oleosa.

Sweeney gritou pelo intercomunicador: "Não lançaremos. Repito não lançaremos".

Uma única passagem e lançamento deixaria Sweeney com combustível apenas o suficiente para tentar voltar a Tinian. Se ele tivesse de circular cinquenta quilômetros para passar novamente e depois desviar para o alvo secundário, mesmo a base mais próxima, em Okinawa, logo estaria fora de alcance.

Sweeney se inclinou abruptamente a bombordo e começou a perfazer um longo arco em direção ao sul para uma aproximação de retorno, com o Great Artiste seguindo-o de perto. Foi quando os primeiros escudos à prova de artilharia antiaérea começaram a rebentar por todos os lados. O artilheiro de cauda Pappy DeHart relatou que as detonações estavam mirando amplamente, mas os artilheiros em solo ajustavam os fusíveis de altitude com perfeição milimétrica — quase no alvo".

"Entendido, Pappy", Sweeney respondeu. Por meio de configurações de tentativa e erro, os atiradores agora estavam "movendo fogo antiaéreo lentamente em sua direção, ajustando o alvo. Durante todo o mês de julho, até o bombardeio de 6 de agosto, o ardil funcionara muito bem. A maioria dos observadores inimigos e dos artilheiros fora tranquilizada com uma falsa sensação de segurança com a visão de dois ou três B-29 viajando juntos, sem lançar bombas, como se tivessem saído da rota de seu esquadrão principal ou estivessem apenas coletando boletins meteorológicos e de reconhecimento. Certamente, um engano que funcionara uma vez em Hiroshima não funcionaria uma segunda vez em Kokura.

Charles Sweeney se lembraria mais tarde de que estava fazendo algo que um piloto bombardeiro numa aeronave pressurizada a 915 metros — passível de ser explodida por bombas antiaéreas como se fosse um balão — raramente ou nunca faria: uma segunda

tentativa num alvo extremamente defendido. Segundas corridas davam uma segunda chance aos artilheiros antiaéreos. Sweeney sabia que, se o Bock's Car explodisse, os fusíveis de contato certamente detonariam a bomba durante aquele primeiro, e importantíssimo. centésimo milionésimo de segundo. Ele não tinha certeza de que uma explosão de vinte ou trinta quilotones poderia chegar até o solo e atingir o arsenal. "Mas mesmo se não os matar lá embaixo. certamente vai lhes dar algo para pensar."

Sweeney decidiu tentar Kokura pela segunda vez. Não era apenas o consumo adicional de combustível de um desvio a Nagasaki que o tornou mais seguro de sua decisão. Seu alvo secundário era muito mais amplo que o arsenal de Kokura. Entre Nagasaki e o subúrbio de Urakami estava mais de um quarto de milhão de almas civis. Então ele subiu o Bock's Car a mais de 250 centímetros, esperando voar acima da altitude máxima dos artilheiros, mas Pappy gritou da cauda: "A maldita artilharia está bem no nosso encalço e cada vez mais perto!".

"Esqueça, Pappy", Sweeney disse, calmamente. "Vamos lançar uma bomba." Mas a segunda aproximação revelou mais névoa sobre o alvo do que a primeira. Desta vez, as explosões causadas pelo ataque antiaéreo estavam perto o suficiente para fazer o piso saltar.

Sweeney decidiu voar uns oitenta centímetros mais acima para despistar os artilheiros, mesmo se o ar mais rarefeito consumisse ainda mais as reservas já curtas de combustível. Ele deu uma volta num arco bem longo e começou a planejar uma terceira abordagem de um ângulo diferente, jogando com a frágil esperança de que de um novo ângulo eles poderiam achar um buraco na cortina de nuvens. Mas o terceiro voo não teve mais sucesso que os dois primeiros, e a artilharia começava a chegar ainda mais perto. Desta vez. havia sons de batidas assim como sacudidas no chão, e Pappy começou a se perguntar: Como diabos eu vim parar nesta bela encrenca?

"Podem relaxar, rapazes", Sweeney disse. "É hora de deixar isto para trás. Vamos para o alvo secundário."

Sweeney balançou as asas do Great Artiste e liderou o caminho em direção ao sul. Um minuto mais tarde, o engenheiro de voo Kuharek se inclinou para a frente e disse: "Temo que a nossa situação de combustível tenha se tornado crítica".

"Defina crítica."

"Temos o suficiente para chegar a Nagasaki e fazer apenas uma tentativa. Mas não vamos chegar a Okinawa. Não alcançaremos a meta por pelo menos oitenta quilômetros."

"Você tem outras boas notícias desse tipo?", Sweeney perguntou, e Ed Buckley, seu operador de radar, respondeu pelo interfone:

"Caças debaixo de nós estão vindo em nossa direção!"

Parecia a Sweeney a velha piada do médico que diz: "Más notícias e boas notícias. Sinto em lhe contar que amputamos a perna errada. Mas não se preocupe, a outra está ficando melhor".

A volta acentuada de Sweeney para o sul pegou Fred Bock de surpresa. Ele estava pilotando o Great Artiste entre a artilharia, a estibordo, um pouco atrás do Bock's Car quando a volta ocorreu. Great Artiste estava agora na asa de bombordo e um pouco mais atrás. Olhando a estibordo e não vendo o avião de Bock onde esperava que estivesse, Sweeney gritou para os artilheiros: "Onde está Bock?".

O fator "Fubar" interveio — novamente. Um cotovelo ou uma prancheta acionara o botão seletor. Em vez de falar com sua equipe pelo intercomunicador, a pergunta "Onde está Bock?" foi difundida pelo rádio por centenas de quilômetros em todas as direções.

Imediatamente, urna chamada de volta veio do piloto há muito perdido do Big Stink: "Chuck? É você, Chuck? Onde diabos você está?".

Naquele momento, Sweeney não sabia quem ele queria chutar com mais força — ele mesmo por ter acionado o botão errado, ou o capitão do Big Stink, que evidentemente esperava que ele se identificasse por rádio e contasse a todo o império japonês exatamente onde estava.

Ele se certificou de que o botão seletor estivesse no modo intercomunicador, mordeu o lábio inferior com força e instruiu seu navegador a planejar uma rota de "linha direta" de Kokura a Nagasaki.

Durante a artilharia, o navegador Jim Van Pelt tinha completado os cálculos e já tinha definido um rumo preciso. "Mas, é claro", ele disse, "essa rota vai nos levar bem em cima dos campos de caças de Kyushu".

Para Sweeney, não havia outra saída. Se ele virasse mais de oitenta quilômetros a oeste sobre o mar, e então fizesse outros 96 quilômetros, virando a sudeste na direção de Nagasaki, a situação combustível se tornaria duplamente crítica. Urna linha de voo direta a sudeste era a única opção. Jim sabia sobre os perigos de uma rota sobre a terra. Mesmo que o Bock's Car e o Great Artiste estivessem além do alcance da artilharia de Kokura, e tivessem deixado os caças rapidamente para trás, o inimigo era inteligente. Para qualquer observador em terra, os rastros de fumaça dos aviões apontavam como agulhas de bússola para seu destino. Sweeney tentou se consolar com os cálculos dos especialistas — os quais asseguraram a cada equipe que, dada a maior velocidade dos B-29, o melhor que um Zero japonês poderia esperar era uma única passada em menos de um segundo de tempo para poder atirar. Mas não, ele lembrou, quantas vezes vimos os especialistas dentro dos aviões que eles dizem ter projetado tão bem que nem precisamos de armas para nos defender?

"Não podemos evitar Kyushu, Jim", Sweeney disse, e escolheu a rota direta. Ele já não tinha acesso a três mil litros desde a decolagem, e naquele momento, a hora e meia de tempo extra de voo sobre a ilha de Yakushima e Kokura tinha consumido mais de três mil litros. Em Nagasaki ele teria combustível o suficiente para apenas um voo se esperava lançar-se em algum lugar perto das águas de Okinawa controladas pelos norte-americanos. Considerando todos os outros demônios que colocaram as mãos nessa missão, Sweeney supôs que, mesmo com menos de um segundo para atirar, talvez hoje fosse o dia de sorte de algum Zero.

Ele quase formulou a pergunta proibida, mas se deu conta e a evitou. Então, mirando mais de 160 quilômetros à frente, ele observou um mar branco-prateado de cúmulos se dirigindo até a área do alvo. Foi quando Sweeney finalmente perdeu o controle da pergunta. Ele virou-se para o copiloto e falou o que nunca poderia ser proferido por submarinistas ou aviadores: "Que outra maldita coisa pode dar errado?".
KENSHI HIRATA CHEGOU à casa dos pais, no que se tornaria o lado de sombra de um morro alto, ao mesmo tempo em que Charles Sweeney fazia a pergunta errada. Segundos mais tarde, engenheiros de voo a bordo do Bock's Car e do Great Artiste relataram que uma estação em terra, na direção de Nagasaki, começava a localizar os aviões no radar. Menos de uma hora separava-os do Momento Zero, e pouco mais de 3,3 quilômetros separavam Kenshi do próximo hipocentro.

Enquanto ele se aproximava dos degraus, seus pais vieram correndo pela porta com lágrimas nos olhos. No mesmo momento, uma sirene de ataque aéreo começou a sinalizar o que provavelmente seria apenas mais um alarme falso de uma série interminável. Falso ou não, Kenshi não se arriscaria. Ciente de que um segundo clarão poderia aparecer, disse para os pais que entrassem com ele, rapidamente, que ficassem longe das janelas.

O pai de Kenshi estava chocado em vê-lo — pálido, com mãos trêmulas e suor escorrendo pelo rosto, peito e pernas. Ele parecia um homem a caminho da inanição.

“Você já comeu?", sua mãe perguntou.

“Não tenho fome", disse. "Não consigo segurar nada no estômago." Ele aninhou a tigela de casamento contra o peito e a embalou suavemente, e seu pai baixou a cabeça.

“Eu sabia que você estava vivo", disse a senhora Hirata. "Mesmo quando não havia notícias de Hiroshima, eu sabia que você ainda estava neste mundo."

“E Setsuko?", seu pai perguntou, quase num sussurro.

Kenshi levantou a tigela, baixou a cabeça na direção da borda e a beijou. "Isto é tudo o que restou dela", respondeu.

“Nós já sabíamos disso", sua mãe disse.

“Como pode ser?"

"Porque esta manhã, cedo, a mãe de Setsuko chegou à nossa porta com a notícia", ela explicou. "Ela sabia que sua filha estava morta em Hiroshima porque Setsuko a estava visitando em sonhos."

As palavras de sua mãe não trouxeram conforto, apenas mais agitação. Ele se lembrou de como, quando o pika-don chegou a Hiroshima, a voz de uma mulher tinha gritado em sua mente e fez com que ficasse abrigado enquanto todos se levantaram e ficaram seriamente feridos ou mortos. Primeiro, pensou que podia ser o espírito de sua avó — depois pensou que deveria ser Setsuko, implorando-lhe que vivesse. Agora ele sabia que tinha sido ela. Sabia.

Kenshi segurou as lágrimas, levantou-se e disse ao pai: "Devemos ir imediatamente até os pais de Setsuko, com esta tigela, levá-la para casa."

Quando saíram de casa, apenas alguns minutos tinham passado, o dia se tornava cada vez mais triste. Grossas nuvens cobriam mais da metade do céu.

A sirene de ataque aéreo cessou e em seguida emitiu o sinal de "Tudo Limpo". Outro alarme falso, Kenshi se tranquilizou. A explosão de Hiroshima tinha saído de um céu perfeitamente azul e claro. Dias tristes eram boa notícia naqueles tempos. Os norte-americanos nunca atiravam bombas se não pudessem ver o chão. Todos sabiam e acreditavam nisso.

Ao passar por uma fileira de casas e um templo budista, Kenshi e seu pai ouviram um rádio tocando alto. Por alguma razão, todos que possuíssem um rádio funcionando naqueles dias adoravam aumentar os decibéis para toda a vizinhança ouvir. Alguém descendo a rua também estava ouvindo a mesma estação a todo volume. Em seguida, um locutor interrompeu a música para avisar os ouvintes que vários B-29 tinham sido detidos de sua tentativa de bombardeio em Kokura, e presumia-se que foram abatidos ou rumado para o mar. Consequentemente, os avisos antiaéreos para Kokura, para a prefeitura de Saga, no norte, e o Alerta Amarelo para Nagasaki estavam sendo cancelados.

Enquanto Kenshi caminhava, a cobertura de nuvens engrossou rapidamente e os espasmos em seu estômago diminuíram um pouco. Ele acreditava poder tornar um pouco de água e retê-la. Tudo que ele precisava era de um pouco de espaço para respirar. Tudo o que ele precisa era que Nagasaki estivesse a salvo naquele dia.
O ENGENHEIRO NAVAL AKIRA Iwanaga tinha chegado de Hiroshima à casa de seus pais em 8 de agosto. Eles viviam a uma distância segura de Nagasaki, perto das termas de Obama.

O mal-estar continuava a mantê-lo a salvo na cama durante a noite, mas pela manhã ele acordou se sentindo um pouco melhor, tinha recobrado até um pouco do apetite. Então foi até a estação de trem local e pegou a última conexão entre Hiroshima e Nagasaki.

Num compartimento diferente do mesmo trem, um dos fabricantes de pipas militares, Masao Komatsu, também estava voltando de Hiroshima a Nagasaki. Em 6 de agosto, ele fora a um depósito a fim de apanhar suprimentos para o dia de trabalho, e tinha sido levado para fora por um ruído que soava como se um B-29 estivesse prestes a cair bem em cima dele. A uma distância de três quilômetros do hipocentro, Masao foi protegido do clarão por uma sombra e completamente encasulado contra a explosão. O depósito desabou completamente de um lado, e sua pele foi atingida por uma onda de ar muito quente. Ele não se queimou. Nem mesmo ficou doente.

Ao mesmo tempo em que Kenshi chegava em casa, Masao e Akira estavam se aproximando dos subúrbios mais periféricos de Nagasaki. Masao se sentia bem o suficiente para terminar o último de seus biscoitos. Akira, embora tivesse acordado na casa dos pais um pouco refrescado, logo perdeu o apetite novamente, e a força também. Nas profundezas dos tecidos de Akira, os raios e a chuva negra continuavam fazendo seu trabalho. Ele se afundou em seu assento e caiu num sono profundo, mas sem sonhos.


COLEGA E AMIGO DE AKIRA, Yamaguchi, já estava no trabalho. Embora ainda sentisse dor nas queimaduras e quase não pudesse sair da cama mesmo com a ajuda da mulher, ele continuava obedecendo a uma ordem de apresentar um relatório completo sobre Hiroshima na sede do complexo industrial Mitsubishi.

“Ordens são ordens", ele disse a Hisako. "Isso é o começo e o fim de tudo."

Na sala de reunião, ainda com os curativos e sangrando, ele contou aos executivos e engenheiros sobre a mulher de calças largas negras — e sobre como qualquer pessoa trajando roupa escura perto da zona do clarão tinha sido simultaneamente grelhada e esfolada. Ele contou como mesmo um galho inofensivo poderia ser arremessado com uma força de quebrar os ossos.

"Esse risco de perfuração aumenta duas vezes quando se trata de vidro voando pelos ares", Yamaguchi avisou. "Se um artefato similar explodir aqui, no instante em que virem o clarão, vocês devem procurar o abrigo que estiver disponível, mesmo se tudo o que puderem fazer for se agachar atrás de uma mesa ou de uma cadeira." Então ordenou seus colegas a abrirem todas as janelas da sala.

"Isso já é demais", um chefe de seção o interrompeu. "O dano a Hiroshima não é nada como essa peça que você está nos tentando pregar. Como uma bomba pode fornecer tanta energia para destruir toda uma cidade? Você é um engenheiro. Calcule!"

"Já calculei", disse Yamaguchi, sem rodeios, levando a mão que não estava ferida na direção do braço esquerdo e do lado esquerdo do rosto, coberto de curativos.

"Exatamente", o chefe de seção disse. "Você foi ferido, Yamaguchi. Seu cérebro não estava funcionando direito." Do lado de fora das janelas, uma sirene voltou a soar.
O PREFEITO NISHIOKA ainda tinha apenas um objetivo: juntar-se a sua mulher e filho na segurança imaginada do parque nacional de Unzen. Ele podia conseguir que lhe mandassem um serviço especial de táxi a uma estação perto da cidade de Isahaya. As instruções do despachante do quartel-general eram de regressar com o prefeito diretamente a Nagasaki, mas Nishioka salvou a vida do motorista com as palavras "Novo plano".

"O senhor quer dizer que não vamos a Nagasaki?", o motorista perguntou.

"Vamos a Unzen", o prefeito disse.

"Mas isso — isso fica na direção oposta."

"Sei", ele explicou, e disse ainda que suas novas ordens incluiam um desvio a Unzen.

Mais uma vez, Nishioka não foi muito longe. O enjoo o deteve na vizinhança de Akikra, na cidade de estância turística de Obama, com vista para a baía de Ariake. Enquanto estava ao lado do carro, limpando o vômito de seus lábios e tentando recobrar a força, um grande espaço entre as nuvens revelou um rastro de fumaça de avião no alto, a onze quilômetros ou mais. Ele viu dois brilhos prateados no início do rastro — o que significava não apenas um, mas dois B-29 fazendo uma trilha de vapor ao longo do céu, voando asa a asa. Eles estavam apontados como uma flecha para Nagasaki, a apenas 31 quilômetros dali.

COMO SE NADA FORA DO COMUM estivesse acontecendo, o oficial a quem Ichiro Miyato teria de substituir estava longe da tela do radar. Ele esfregou os olhos e ofereceu a cadeira a Miyato. Normalmente, os dois técnicos gostavam de conversar sobre compras ou garotas entre os turnos, mas não naquela manhã. Os dois estavam exaustos depois de 72 horas muito difíceis de trabalho dobrado. Sempre que eram liberados do turno de dez horas de observação das telas, levavam equipamento novo para túneis resistentes a bombas — os quais, quando completos, provariam ser as instalações de radares mais retráteis e poderosas que, em teoria, poderiam detectar navios invasores e aviões norte-americanos a uma distância de até mil quilômetros.

Miyato podia ver claramente que tudo o que seu amigo queria era sair da sala e ir dormir. Vendo um ponto brilhante que vinha da direção de Obama, ele tentou conversar mesmo assim.

"O que você tem aí?", Miyato perguntou.

"Apenas outro alarme falso", ele respondeu. Ele nem se importou em olhar para trás, enquanto colocava o chapéu e deixava o complexo do sul de Kyushu. Miyato supôs que os turnos intensos e a atmosfera de derrota eram o suficiente para deixar os nervos de qualquer um em frangalhos, mas ele esperava mais. No final do turno anterior, seu amigo parecia tão exausto que Miyato deixou-o sair às 10h40, apesar de seu turno só começar às onze horas.

Miyato sentou-se e viu o ponto luminoso descer do norte com duas passadas do feixe do radar. Isso não era nada novo para ele. Aviões de vigilância estavam passeando por toda a região, acionando três alarmes falsos naquela manhã e gerando uma complacência fatal cada vez maior sobre as sirenes de ataques aéreos. Miyato não queria ser responsável por acionar mais um Alerta Amarelo falso, então fez uma anotação no livro de registros, marcou o horário como 10h45, e ajustou as frequências de varredura. Na passada seguinte, o objeto parecia vagamente um eco de dois pontos luminosos separados, mas na terceira passada do feixe, ele não podia ter certeza. O intruso agora estava fazendo interferência com seu próprio radar.

Miyato pegou o telefone para se comunicar com a sede de comando.

"O que você vê?", a voz do outro lado perguntou.

"Parece um solitário Senhor B operando o radar", Miyato respondeu. "Meu palpite é que estejam mapeando. Altitude acima de 10 mil metros — provavelmente acima do alcance de caças."

"Obrigado", disse a voz, e desligou. Corno a maioria das conversas naqueles dias, a pessoa do outro lado falava com urna curiosa mistura de polidez, tédio e resignação.

Várias passadas mais tarde, Miyato notou que o objeto parecia estar seguindo uma linha reta. Ele calculou o vetor e pegou o telefone novamente.

"O que você vê?", a mesma voz perguntou.

"Se eles continuarem nessa direção, sua rota leva diretamente até vocês. Deve passar diretamente sobre Nagasaki em dez minutos. Vocês podem querer tomar medidas a respeito."

Colocando o telefone em viva-voz para manter as mãos livres, Miyato ajustou a tela e tentou decifrar o ponto de luz mais claramente; mas estavam interferindo de novo, usando seu próprio radar. Ele se serviu uma xícara de chá e esperou uma resposta. Seis passadas. dois goles, e o ponto ainda seguia em linha reta. Miyato estava esperando outro "Obrigado" educado e que desligassem. Ele sabia quase com certeza que nenhum interceptador seria enviado. O Boeing B-29 estava muito alto e simplesmente não havia reserva de combustível c suficiente para ser gasta numa tentativa fútil de abater um "desgarrado" solitário; nem parecia haver tempo para isso.

A resposta que Miyato recebeu não era a que ele esperava. Dois homens claramente agitados falavam ao fundo, e a voz educada perguntou: "Você tem certeza de que está rastreando apenas um avião? Existe a possibilidade de que sejam na verdade dois ou três. voando em formação muito próxima?".

“Eu notei uma anomalia há quase dez minutos. Por um momento, parecia estar rastreando dois aviões."

“Espere!", a voz disse, e colocou a mão sobre o telefone para que Miyato não pudesse ouvir o que estava sendo dito. O ponto continuava em sua rota a Nagasaki. Trinta segundos se passaram e o objeto se aproximava ainda mais da sede de comando.

A voz voltou, mais com triste resignação desta vez do que com fria solidez: "Alguma mudança?".

“Negativo. Continua indo para Nagasaki. Vou rastrear as frequências novamente e ver se consigo uma resolução melhor da..."

"Não! Mantenha esta linha aberta!"

“Eu o tenho no viva-voz!", Miyato disse, um pouco mais rispidamente que o necessário. E em seguida, mais polidamente, completou: "Eu só preciso manter as duas mãos livres para o radar".

"Entendido", disse a voz resignada, e então começou a dizer outra coisa, mas parou subitamente, como que para deixar subentendido: Você realmente não entende. Anos mais tarde, Miyato pensaria que o que a voz realmente queria dizer era: Por favor, continue comigo. Por favor.
MICHIE, DE 15 ANOS, estava prestes a ser salva por se recusar a pensar como todos de sua classe e por não querer ignorar, como eles, o último alarme antiaéreo, considerando-o falso corno os anteriores.

Às 10h55, Michie estava a apenas seiscentos metros (ou seis quadras) do hipocentro de uma detonação que seria pelo menos três vezes pior que Hiroshima. Quando soou o segundo Alerta Amarelo do dia na escola, sua professora ordenou que todos os alunos

saíssem da sala de aula e entrassem nos túneis que o pessoal do governador Nagano tinha cavado na encosta de um morro, atrás das quadras esportivas e dos jardins de bambus do pátio do colégio.

A professora de Michie nunca subestimou a seriedade de um alerta. Ela gritou às garotas que corressem até o abrigo, seguindo-as lentamente para que nenhuma criança ficasse para trás. Como o capitão de um navio a afundar, a professora não queria buscar a salvação para ela mesma antes que todos estivessem a salvo.

Mas a maioria das amigas de Michie caminhava calmamente pelo campo, conversando baixinho e mesmo parando para olhar ao redor, enquanto andava uma quadra na direção do que viria a ser o hipocentro.

Apenas Michie e meia dúzia de outras garotas realmente correram para o túnel. Como sempre, ela entrou antes da turma.

Emiko Fukahori, de 7 anos, seria salva pelo mesmo reflexo. Ela estava brincando com sua melhor amiga, Sumi-chan, num bosque de bambus perto dali. O bosque era um ponto de encontro favorito das famílias. A mãe de Sumi-chan tinha estendido uma esteira de palha no chão e começava sua rotina tranquila de bordados enquanto as crianças brincavam entre os caniços altos.

Emiko estava totalmente absorta no jogo de esconde-esconde com Sumi-chan e outras três crianças quando a sirene começou a tocar. Ela parou e esquadrinhou o céu, e por uma clareira no norte observou um ponto brilhante na distância.

"Avião inimigo!", Emiko gritou.

"Não pode ser um ataque", a mãe de Sumi-chan respondeu, "porque é apenas um aviso preliminar de ataque aéreo".

"Não!", Emiko berrou. "Avião ruim! Avião ruim!" E começou a correr até um dos túneis.

"Vou ganhar de você", Sumi-chan gritou, e imediatamente a ultrapassou. Outra criança seguiu, depois mais cinco, gritando e rindo. A mãe de Suni-chan deixou seus bordados e também começou a segui-las.


No dia 9 de agosto de 1945, a diferença entre a vida e a morte era com freqüência determinada pelas ações tomadas durante os últimos segundos antes do clarão. Por uma margem de segundos, Michie Hattori sobreviveria num dos túneis atrás de sua escola enquanto várias de suas amigas, que foram vistas caminhando até os túneis ou sentadas em bancos do lado de fora, desapareceram com grande parte do distrito Urakami, em Nagasaki. (Patricia Wynne)

.

AFINAL DE CONTAS, PARA que dar um mau exemplo durante, um alerta? Se em uma semana ou um mês algo realmente ruim se aproximasse, demonstrar que estava tudo bem e ficar sentada do lado de fora do abrigo — se as crianças copiassem tal comportamento — poderia ser fatal. A linha entre os lentos e que foram salvos, os rápidos e os mortos, era uma mediatriz desanimadora. Afiada como uma navalha, separava irmã de amiga, mãe de filha com uma indiferença fria.


POUCO MAIS DE um quilômetro da escola e do bosque de bambus, Hajime Iwanaga, o garoto que queria ser piloto de Kaiten, nadava com um colega no rio Urakami. Ser um estagiário de Kaiten tinha seus privilégios. Os voluntários recebiam comida melhor do que as outras crianças; e eram encorajados a fazer intervalos para se exercitar durante o trabalho na fábrica de torpedos Mitsubishi. Tipicamente, esses intervalos envolviam esportes aquáticos, incluindo competições para ver qual criança seria a primeira em conseguir prender a respiração por mais de dois minutos e meio sob a água. Fazia meia hora que os dois garotos estavam em seu intervalo matutino quando uma sirene anunciou a aproximação do fim do programa Kaiten. Olhando para os lados, eles observaram através de urna abertura nas nuvens o que o amigo de Hajime acreditava ser "um avião muito corajoso, voando sozinho sobre território inimigo".

Hajime não concordou. "Não", ele gritou, "avião amigo" e em seguida mergulhou, agarrando-se a algumas algas no fundo do rio, e começou a prender a respiração por tanto tempo quanto pudesse.


PRIMEIRO, CHARLES SWEENEY não queria crer no que seus olhos estavam vendo. Se fosse mais supersticioso, teria culpado este último pedaço de má sorte por ter feito a pergunta proibida. Nagasaki estava obscurecida por mais de 80% de cobertura de nuvens.

Seguindo essa infeliz constatação, o engenheiro de voo Kuharek reconfirmou a Sweeney que o Bock's Car teria de voar com quase nada de combustível em pouco menos de meia hora. Isso significava tempo de voo suficiente apenas para urna passada e para lançar a bomba, seguido por urna breve arrancada para um mergulho em águas amigas. Sweeney chamou o comandante da marinha Fred Ashworth. Ele era o especialista em armas oficialmente responsável pela bomba. Oficialmente, Sweeney era apenas responsável pelo avião.

"A. história é a seguinte, comandante", Sweeney começou, resumindo tão rapidamente quanto pudesse. "Se nós não pudermos lançá-la na primeira passada e tivermos de circular de volta para uma segunda tentativa, poderemos ter de fazer uma aterrissagem forçada em solo japonês. O livro de regras exige obter uma visualização do alvo, ou não podemos lançá-la. Se não temos uma visão primeira passada e partimos, nosso melhor cenário é provavelmente perder a bomba, o avião e a tripulação ao cairmos no oceano."

"Isso se obedecermos ao livro", Ashworth disse.

"Pelo livro, sim", Sweeney reconheceu. "Então vamos mandar o livro para o inferno, com seu cenário de 'não vitória', e vamos ter um pouco de fé no novo radar de imagens. Eu garanto pessoalmente que vamos chegar a... bem — a algumas centenas de metros do alvo."

"Você quer dizer talvez quase meio quilômetro?"

"Vamos ser um pouco realistas aqui, ok? Com esta coisa, errar o alvo é o mesmo que soltá-la a um quilômetro de distância."

"Não sei, Chuck", Ashworth disse.

"É melhor que a perder no oceano, não?"

Ashworth assentiu com a cabeça e perguntou cautelosamente: “Você tem certeza sobre a precisão?"

"Tornarei a inteira responsabilidade por isso", Sweeney disse.

"Ok, então. Vamos nessa."

Não havia tempo para discutir com o navegador ou o bombardeiro. Sweeney estava seguro de que eles sabiam exatamente o que fazer. Jim Van Pelt checou seus números de navegação e Ed Buckley monitorou os contornos da cidade na tela de seu radar, pedindo verificação a Van Pelt. Buckley então anunciou Os rumos e taxas de aproximação precisas ao bombardeiro Kermit Beahan, que inseriu os dados no primeiro computador portátil do mundo — o qual pensava tanto quanto um jipe e estava conectado diretamente ao visor da bomba.

Os contornos da cidade estavam borrados nos cantos, mas o rio e os trilhos dos trens eram razoavelmente fáceis de se ver, e os três homens tinham certeza de que as máquinas funcionariam. Ainda assim, Beahan continuou procurando por uma brecha na cobertura de nuvens.

"É todo seu", Sweeney anunciou, e entregou o comando do avião e sua carga ao bombardeiro.

Eu o tenho! Eu o tenho!", Beahan gritou de repente. Ele não se referia ao controle do avião, mas a um buraco na cobertura de nuvens perto da fábrica de armamentos Mitsubishi, no vale industrial. O buraco estava a mais de dois quilômetros rio acima do alvo determinado — quase na cidade errada, com grande parte de Nagasaki escudada atrás de morros baixos. Para Sweeney, parecia que o subúrbio de Urakami, e não Nagasaki, seria o Ground Zero. Beahan se ateve ao contorno oval do hipódromo de Urakami como ponto

de referência e inseriu ajustes de curso de última hora no painel indicador de Sweeney.

Trinta segundos antes da largada, o sinal sonoro foi acionado, as portas do compartimento de bombas se abriram e o Great Artiste, voando perto e pronto para lançar seus três cilindros de monitoramento, simultaneamente abriu as portas do compartimento de bombas.

O sinal se silenciou e o Bock's Car subiu, subitamente, cinco toneladas mais leve.

"A bomba partiu", Beahan anunciou, e rapidamente se corrigiu: "A bomba que os parta".

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