O último Trem de Hiroshima



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"Eu só preciso encontrar uma maneira de lidar com isso", Sadako disse ao seu irmão, repetidas vezes. "Temos de superar isso de alguma maneira."

Em março de 1955, a contagem de leucócitos de Sadako parecia ter se estabilizado em quase seis vezes o valor normal, mas sua estrutura anormal de hemácias quase a levou à falta de oxigênio e tornou difíceis até mesmo as caminhadas curtas. Uma queda grave no número de plaquetas causou a produção de hematomas mesmo ao toque mais suave, o que provocava o medo constante de que a menina pudesse ser morta com um abraço.


No início de maio, crianças dos colégios locais trouxeram uma caixa de tsurus — pássaros de papel colorido — para as enfermeiras do hospital, ensinando-as como fazê-los. Durante todo o dia, Sadako observou a equipe carregando os origamis coloridos. Quando seu pai chegou, ela apontou para um tsuru que alguém tinha deixado do lado de sua cama e perguntou: "Por que estão fazendo esses pássaros de papel?".

"Bem, provavelmente alguém enviou os tsurus com o desejo de bem-estar para todas as crianças daqui."

Shigeo se lembrava do que Paul Nagai tinha escrito sobre o alívio da dor e sobre como o pensamento concentrado e entusiasmado possuía poderes curativos em potencial. Ele também sabia de uma lenda, que remontava aos anos 1600 e à era dos xoguns, sobre os pássaros de origami e sobre o que significava fazer mil deles; o que lhe deu uma ideia.

"Sadako-san", seu pai disse alegremente, "uma lenda conta que um pássaro vive mil anos. E eles dizem que se você fizer dobraduras de mil pássaros de papel, colocando todo o seu coração em cada um deles, eles a ajudarão com o seu desejo de bem-estar."

E assim a garota começou. Os primeiros três ou quatro pássaros eram grandes e tortos, e as cabeças não se abaixavam direito. Depois dos primeiros vinte, eles se tornaram perfeitamente simétricos, embora, quando as enfermeiras vinham coletar amostras de sangue, o menor movimento mandava dois ou três origamis para o chão. Então Masahiro levou um barbante bem longo para o hospital, atravessou os vinte pássaros de papel com um alfinete e os costurou todos juntos.

Os vinte primeiros tinham em média dez centímetros de comprimento (aproximadamente o tamanho de um pardal). Entre eles estava um grande pássaro prateado, feito de um pedaço de envoltório de uma chapa de raio X que tinha sido dado a Sadako por um dos médicos.

"Agora eu só tenho novecentos e oitenta pássaros para fazer", Sadako anunciou. A dificuldade era conseguir papel suficiente, que era caro naquele tempo. Ela foi até o quarto dos outros pacientes para pedir os envelopes dos cartões de melhoras e as embalagens de doces que recebiam. Na metade de maio, mais tsurus prateados de raio X tinham se juntado ao barbante. O celofane vermelho de embalagens de remédio chegou depois dos pássaros prateados, e qualquer pedaço de papel colorido que a família de Sadako, os médicos e as enfermeiras pudessem obter — incluindo quadrados coloridos recortados de propagandas chamativas nas revistas — eram aproveitados por Sadako. Tudo virou um silencioso esforço de grupo, com quase doze pessoas alisando as rugas dos pedaços de papel e depositando-os sob a cama de Sadako.

Sadako logo descobriu que economizar papel, fazendo tsurus um pouco menores, exigia um esforço maior para realizar cada dobra. Isso estava perfeito para ela. No fim de maio, os pássaros tinham sido reduzidos a um comprimento médio de sete centímetros (o tamanho de um beija-flor). As anormalidades no sangue de Sadako também tinham diminuído — de seis vezes a contagem normal de leucócitos a duas vezes o normal.

Ela sentia-se bem o suficiente para ir para casa por um fim de semana. Quando voltou ao hospital na noite de domingo, Sadako disse aos médicos: "Acho que tenho força suficiente nestes dias para ser urna boa companheira de quarto".

As enfermeiras assentiram com a cabeça e a transferiram para um quarto duplo onde estava uma estudante do primeiro ano do secundário, Kiyo, que tinha bastante energia e havia lido muito. Ela apresentou Sadako a todos os tipos de novelas fantásticas e futuristas, de histórias sobre as sociedades robóticas utópicas de Isaac Asimov às Crônicas marcianas, de Ray Bradbury, e ao Fim da infância, de Arthur C. Clarke.

As duas garotas começaram a trocar cartas com outros leitores de ficção científica por meio de programas de correspondência promovidos pelo hospital — e, durante todo o surto de atividades na metade de maio, Sadako ainda tinha energia de sobra para mostrar a seu pai e a Masahiro uma fila contínua de pássaros de papel, e anunciar orgulhosamente: "Só faltam quinhentos e cinquenta. Estou quase na metade do caminho!".

A essa altura, os pássaros tinham encolhido a comprimentos médios de quatro centímetros (como o menor dos beija-flores). "Seus olhos brilhavam enquanto ela fazia as dobraduras", a mãe observou. "Isso mostrava que ela queria sobreviver de qualquer maneira."

Ela já tinha 12 anos, e enquanto maio se transformava em junho, e os pássaros continuavam a encolher, a contagem de leucócitos de Sadako subiu de duas para três vezes o normal. Ela começou a ter febres altas. O progresso da leucemia ao mesmo tempo era muito parecido com os efeitos da radiação imediata, e também era exatamente o oposto. Nesse último caso, a enorme quantidade de leucócitos era composta essencialmente por uma população de animais selvagens mutantes, parecidos às amebas, que absorviam nutrientes de Sadako sem desempenhar suas funções originais. Em vez de defender seu corpo dos invasores virais e bacteriais que provocam doenças, muitas células juntavam-se ao inimigo e tornavam-se, elas mesmas, organismos invasores. O corpo de Sadako estava em guerra consigo mesmo, sujeito a infecções e a um ataque de seu próprio sangue contra seus órgãos internos.

Os médicos ofereceram analgésicos, mas ela pediu que levassem as injeções embora. Primeiramente, Masahiro pensou que ela reagira assim porque a substância opiácea era rara e custava caro. Ele ouviu Sadako reiterar a seu pai um antigo medo: "Sou uma filha ruim, não sou? Consumi tanto dinheiro seu com minha doença".

Shigeo Sasaki lembraria: "Os médicos recomendavam que levássemos suco fresco de cenouras e outros vegetais para ela. Mas as máquinas de fazer suco custavam muito caro. Não tínhamos como comprar uma, e nem o hospital podia, porque eram consideradas equipamento médico não essencial, e, na verdade, nem eram consideradas equipamento médico. Se tívessemos o tipo certo de processador, poderiamos ter oferecido mais nutrientes a Sadako, mesmo quando ela começou a perder o apetite. Pensar nisso me faz sentir muito mal".

"Foi o custo alto da morfina que a fez rejeitar qualquer conforto que os analgésicos pudessem oferecer", Masahiro contou a um parente. Ele começou a entender, enfim, que tinha subestimado sua irmã menor. Àquela altura, ele não podia deixar de notar que, enquanto seu pequeno corpo lentamente deixava de funcionar, os pássaros de papel ficavam cada vez menores. No fim de julho, quando as febres começaram a ficar tão altas que os médicos decidiram banhar Sadako em água gelada, os pássaros estavam do tamanho de abelhões. Ela só tinha energia para fazer quatro ou cinco por dia.

Em agosto, a contagem de leucócitos melhorou: era de apenas quatro vezes o normal, e, depois, de três vezes. O projeto dos pássaros começou a ganhar ritmo novamente: cinquenta num dia. Cem. Terminado.

O milésimo pássaro era pouco maior que um abelhão. Ninguém sabia, àquela altura, que Sadako estava espiando os médicos e copiando seus registros num pedaço de papel, fazendo um gráfico de sua própria contagem. Um mês antes, um garoto de sua idade na mesma ala pediátrica reservada à doença da bomba atômica morrera de leucemia. Sadako disse ao pai: "A próxima sou eu".

Durante seu ponto baixo, em julho, quando o projeto dos pássaros de papel tinha diminuído a apenas cinco ou seis tsurus por dia, sua contagem sanguínea era quase tão fatal quanto a do garoto. Ninguém tinha dito a Sadako que a doença que ela tinha era leucemia, mas a menina claramente percebeu. Seus registros de contagem sanguínea, copiados à mão, foram interrompidos quando a outra criança morreu. Sadako começou um segundo barbante de garças de papel que continuavam a diminuir de tamanho progressivamente. Quando os pássaros diminuíram outra vez pela metade, do tamanho de abelhões ao domínio de variedades menores de moscas domésticas, ninguém mais conseguia produzi-los como Sadako. As dobras se tornaram tão delicadas que ela usava agulhas de costura para modelar e dobrar cada asa — "Corno se fosse uma prece" —, Masahiro lembraria.

Shigeo advertiu sua filha: "Logo, elas serão menores que grãos de arroz. Se você continuar nesse ritmo, vai se esgotar".

Sadako respondeu: "Tudo bem, pai, eu tenho um plano".

"O motivo disso tudo", ela contou a seu irmão Masahiro, "é que eu ainda tenho esperança de ficar bem. É por isso que ponho mais do meu coração e da minha alma em cada um deles. Os menores pássaros são os mais difíceis de fazer. Então, se eu continuar a fazer isto, vou pôr mais e mais do meu espírito neles".

"Todo o meu espírito", ela confidenciou a Masahiro, enquanto a previsão de seu pai, de pássaros menores do que grãos de arroz, tornou-se profética. "Tudo de mim porque..., com o tempo, os menores pássaros podem ser tudo o que resta de mim."

Em 19 de agosto de 1955, parecia que Sadako podia começar a esperar um milagre. Embora ainda estivesse bastante anêmica, sua contagem de leucócitos era de apenas duas vezes o normal. Ela expôs para Kiyo, sua companheira de quarto, e para seus pais mais de cem garças de papel em miniatura na mesa de cabeceira.

"Você planeja fazer mais mil destes?", seu pai perguntou.

"O número não é mais importante", Sadako respondeu. "O que importa é colocar toda a minha concentração em cada pássaro."

Naquela mesma tarde de agosto, uma delegação de estudantes da China chegou ao hospital. Na recepção, pacientes escutaram uma canção desconhecida, cantada em japonês: "Genbaku-O-Yurusamaji" ("Bomba atômica, nunca mais").

"Algo nessa canção parecia ressoar em Sadako", Kiyo lembrou. "Ela a cantara para mim muitas vezes, no telhado do hospital, até que eu a aprendi."

Em setembro, o número de subidas ao telhado diminuiu, e a contagem sanguínea de Sadako estava superior a duas vezes o número normal, chegando a quase três vezes. Então, a contagem duplicou... e duplicou novamente... e mais uma vez.

Masahiro sabia que sua irmã estava vivendo com muita dor. Algo brotava da parte inferior de sua coluna, e a perna esquerda inchava tanto que a carne começou a se romper sob a pele e a ficar roxa.

"Ela nunca disse a palavra 'dói' ", contou Masahiro. "Mas, quando uma perna incha uma vez e meia o seu tamanho normal, só o latejar já deve doer." Ainda assim, ela continuou a recusar os analgésicos. Por muito tempo, acreditei que ela não queria que nossos pais tivessem de arcar com as despesas. Mas, mais tarde, ela nos deu duas razões completamente diferentes. A primeira: acreditava que o estado de sonho induzido pela morfina poderia se tornar permanente e matar. A segunda era que Sadako não gostava de um estado de sonho no qual não pudesse sentir o toque das mãos de nossa mãe. Queria estar consciente de nossa presença quando estivéssemos no quarto com ela, queria estar completamente consciente das pessoas que ela mais amava. Não queria perder nem um minuto que pudesse ter conosco para flutuar num sonho indolor."
Na metade de outubro, a febre de Sadako chegou a 40,5 °C.

Em 20 de outubro, uma dúzia de triângulos de papel estava sob a cama, cada um deles dobrado num triângulo inicial não muito maior que uma unha de Sadako. Àquela altura, ela tinha feito 1.600 dobraduras. Usando dois alfinetes, Sadako colocou a maior concentração até então numa garça violeta-avermelhada de tamanho um pouco maior que um mosquito — a última que ela faria.

"Ela estava plenamente consciente até o fim", Masahiro declararia mais tarde. "Não acredito que ela tivesse ideia, naquela manhã de 25 de outubro, de que poderia morrer a qualquer momento. Lembro-me de meu pai caminhando comigo e me explicando que um médico lhe dissera que a hora estava chegando. Lembro-me de minha mãe olhando para todos aqueles pedaços de papel no barbante e dizer: 'Por que os seus mil pássaros de papel não cantaram? Por que você não voou ?'."

"Mas, sobretudo, quando penso naquela manhã em Hiroshima, lembro-me de minha irmã escapulindo da vida subitamente e sem sofrimento, como se estivesse flutuando sono adentro. Alguns minutos antes, escutei nosso pai insistindo para que ela comesse algo, e ela respondeu: 'Chá ou arroz, por favor'."

"Uma enfermeira trouxe uma tigela de arroz branco. Sadako engoliu duas colheradas e, sorrindo, disse: 'Está bom'. Foi isso. Ela se foi com aquelas duas palavras — 'Está bom'."

Nos dias seguintes, Fujiko e Shigeo doaram muitos dos pássaros de Sadako a seus colegas e professoras. Alguns permaneceram com a família e o restante foi colocado com flores e uma boneca no caixão de Sadako, "para que ela pudesse levá-los para o outro mundo", segundo Fujiko.

"Antes de partir", Masahiro explicou, "minha irmã e eu estabelecemos um ditado que nos dava força para continuar. Ele se resumia a apenas uma simples palavra: Omoiyari".

Masahiro não se lembrava de que Sadako tivesse lido sobre o caminho de Paul Nagai a Nyokodo. Ele acreditava que, como muitas pessoas em situações parecidas, eles provavelmente chegaram à iluminação por um caminho similar, um processo de tribulação. Quando essas duas testemunhas do pika-don voltaram aos seus Ground Zeros particulares para morrer, chegaram a um momento em que a vida que lhes restava estava reduzida a semanas. Então, diminuíram para dias. E, finalmente, a preciosas horas e minutos, que para pessoas normais significavam pouco além que o tempo de espera na estação de trem.

Masahiro tinha ouvido dizer que é quando uma pessoa chega a um momento em que sua vida é reduzida a nada que ela começa a entender o verdadeiro valor das coisas.

Quando Nagai "chegou ao zero", voltou ao antigo princípio de Nyokodo: "Ame ao próximo como a você mesmo".

Para Sadako, a lição se tornou Omoiyari, o que significava: "Em seu coração, sempre pense na outra pessoa antes de você".

De acordo com Masahiro, depois que Sadako vestiu seu primeiro e último quimono elegante, ela tinha imaginado e definido seu futuro casamento — perfeito e único — a partir do qual marido e mulher viveriam sob o princípio do Omoiyari, e nenhum dos dois o ignoraria nunca.

Cinquenta e três anos mais tarde, Masahiro afirmou: "Isso é o que eu quero transmitir sobre ela para os mais jovens. Não quero que as próximas gerações pensem apenas em pássaros de papel e numa garota de 12 anos morrendo com a doença da bomba atômica. Quero que pensem sempre, em seus corações, nas outras pessoas.

"Você começa a praticar o Omoiyari com os membros de sua família e com amigos. Sadako pensou — e me ensinou — que, se o princípio de Omoiyari pudesse se espalhar, nem que fosse um pouco, pelos lugares certos, isso poderia acalmar o mundo e evitar um novo pika-don."

NUMA LADEIRA DO GROUND ZERO, não muito longe de Nyokodo e

das ruínas da catedral de Urakami, um golpe lateral provocado pela explosão tinha destruído a metade de um dos arcos do templo. Ainda assim, o arco de pedra se mantinha em pé e intacto sobre a perna remanescente — uma sentinela solitária montando guarda no dia seguinte à bomba, sobre um bairro onde tudo parecia ter se dissolvido.

Durante o décimo aniversário da queda das bombas, quando Sadako ensinava a seu irmão o Omoiyari e a China enviava crianças com uma canção de paz a seu antigo inimigo, os arquitetos de Urakami projetaram altos prédios de moradia ao redor da sentinela de uma perna só. Ficou decidido que, mesmo com os novos edifícios erguendo-se ao redor, a sentinela deveria permanecer intocada.

A menos de um minuto de caminhada da sentinela, subindo o morro, as árvores que tinham perdido os galhos e foram reduzidas a troncos retorcidos e carbonizados estavam melhorando (e, ao que parecia, crescendo) de uma forma estranha. Dos troncos doentes, cresciam novos galhos e alguns desenvolvimentos em forma de bolha na casca e na madeira. Cresciam em direção ao céu, alguns quase com a altura de cinco andares.

Em Hiroshima, as árvores de cânfora — que supostamente tinham sido mortas pelos raios e chamas — passaram por metamorfoses similares. Algumas delas foram transplantadas de um cemitério do Ground Zero para os jardins do Parque da Paz, na cidade.

Enquanto as árvores se curavam, as pessoas também se curavam.

Nos subúrbios de Nagasaki, os pais de Setsuko Hirata decidiram interpretar tais mudanças como um tributo do amor de sua filha por Kenshi, e do que ela teria desejado para ele. Em 1955, o amor aconteceu novamente e Kenshi casou-se pela segunda vez. Tornou-se pai de duas crianças saudáveis, de quem seus antigos sogros se tornaram Ghana, ou parentes, seguindo a tradição do Omoiyari. Depois que um artigo de 1957 identificou os "gêmeos Hirata" como os filhos de um duplo sobrevivente (logo, potencialmente contaminado), Kenshi e sua família decidiram se recolher ao anonimato e ficar longe da História.

Enquanto isso, Arai — a professora de Hiroshima cujo rosto tinha sido estampado com a caligrafia de urna aluna — foi informada de que uma combinação de cirurgia plástica e maquiagem personalizada poderia apagar as letras escuras de seu rosto. Arai compreendeu que não podia apagar a última coisa que uma garotinha tinha escrito, e escolheu ficar com as letras talhadas pela sombra até o dia de sua morte. Foi a sua maneira de ajudar a manter viva a memória das crianças que sucumbiram.

Na grande Hiroshima

O amanhecer chegou com estrondos e chamas

No rio, até mim flutuava

Uma balsa humana


Assim falou Tsutomu Yamaguchi, seis décadas mais tarde, ao descrever a balsa de cadáveres que usou como meio para chegar até o trem que o levaria a Nagasaki.

Depois de se secar e tomar assento dentro do trem, um estranho colocou um bolinho de arroz em sua mão — um bolinho de arroz de boa qualidade, embrulhado em papel marrom. O homem deveria ter visto que Yamaguchi andava num estado terrível. Suas roupas e mãos estavam gravemente queimadas. Uma estranha chuva de objetos que caíra no dia anterior, seguida de pelo menos dois períodos curtos de chuva negra, tinham-no deixado febril e com muita náusea para que pudesse comer.

"Obrigado", Yamaguchi disse, fazendo um gesto para que o homem tomasse de volta o arroz. "Mas você vai precisar disto também.”

"Vou descer daqui a algumas estações, e me contaram que você tem uma longa viagem até Nagasaki. Então, por favor, não faça cerimônia. Coma-o, mesmo se parecer muito."

Yamaguchi ficou tocado com a bondade e a "humanidade" do estranho num tempo de tanta emergência e incerteza. No Japão, esses exemplos não eram muito comuns nos tempos da guerra ou mesmo depois deles.

Durante a década que se seguiu, quando o período de reconstrução começou a tomar força, a Companhia Mitsubishi foi reorganizada para construir carros, máquinas de lavar roupa e toca-discos. Ofereceram a Yamaguchi a oportunidade de ser contratado novamente como projetista de navios, mas ele explicou a seu antigo patrão que se aferrara a uma decisão anterior, a de permanecer n escolas que ajudara a construir na cidade e dar aulas para crianças. Ele soube, contudo, que um dos critérios para lhe oferecerem a vaga foi sua total ausência de sintomas duradouros da radiação. Um novo tipo de discriminação tinha se manifestado. Numa cidade onde oficialmente não houve efeitos prolongados da radiação, muitos dos expostos aos raios gama e à chuva radioativa, e que apresentavam quaisquer sinais de fadiga, falta de ar, erupções pele e infecções frequentes, eram demitidos. Cada vez mais, as pessoas doentes escondiam sintomas tanto quanto podiam (para serem identificadas como sem sintomas no banco de dados da Comissão das Vítimas da Bomba Atômica).

Esconder os sintomas se mostrou uma tarefa bastante difícil para qualquer uma das trinta pessoas que estavam com Yamaguchi n escritório da Mitsubishi quando a segunda bomba explodiu. Apesar de estarem razoavelmente a salvo da onda de raios gama, a maior tinha parentes em Urakami. A mulher e o filho de Yamaguchi estavam num lugar relativamente seguro, não muito longe do escritório.

Os colegas de Yamaguchi que tinham sido poupados da exposição à radiação imediata, logo foram à procura de suas famílias no hipocentro de Urakami, que, em termos de exposição secundária, possuía uma ordem de magnitude mais quente que a do hipocentro de Hiroshima.

Quando as propostas de recontratação da Mitsubishi começaram, apenas Yamaguchi recebeu a oferta de emprego. Depois da guerra, ele nunca mais encontrou ninguém que estivesse no casulo antichoque de 9 de agosto.

Quase ao mesmo tempo em que Sadako fazia seu último pássaro de papel, os trabalhadores em Nagasaki começavam a projetar e a construir um museu permanente. Ao contrário de muitos sobreviventes, o senhor Yamaguchi evitava olhar para trás. Como um dos mais novos fãs do beisebol americano, ele levou a sério o conselho de Leroy "Satchel" Paige: "Nunca olhe para trás. Alguma coisa pode estar se aproximando de você".

Apesar disso, não deixou de fazer visitas ocasionais ao museu. Um dia, mais de meio século depois do pika-don, Yamaguchi viu uma criança de outra cidade filmando as exposições. Ele foi até o garoto e perguntou: "O que você vai fazer com esse vídeo?".

"Quando voltar para casa, depois das férias, vou editar as imagens, fazer um filme", o garoto disse. "E mostrá-lo a todas as pessoas em minha escola."

"Eu acho muito importante o que você está fazendo", Yamaguchi disse, e se curvou com suas duas mãos cicatrizadas juntas, corno numa oração. Ele nunca explicou por que suas mãos tinham sido queimadas, nem o garoto ficou sabendo ou suspeitou de que o homem que lhe fez a reverência era um duplo sobrevivente.

Se fosse possível, o senhor Yamaguchi preferiria ter permanecido anônimo para sempre, vivendo em paz no campo arborizado, depois de Nagasaki, com seus filhos e neto. Mas a história tinha planejado um destino muito diferente — "me instigando", Yamaguchi declarou, "a inverter uma coisa ruim e tentar tirar algum aprendizado disso".

A mudança de curso começou quando sua mulher, Hisako, teve câncer. Depois, seu filho Katsutoshi também teve câncer e morreu uma semana antes do aniversário de sessenta anos de seu pai, em 2005. Katsutoshi parecia ser parte de um grupo de padrão emergente. As pessoas que retiveram radiação em seu corpo desde a infância desenvolveram tumores aos sessenta anos, especialmente se fugiram por caminhos onde o vento e a chuva negra tinham levado partículas radioativas. Adultos que foram expostos e sobreviveram, continuaram vivos, em geral, até a velhice, ao contrário das crianças em fase de crescimento, cujas células se dividiam e se diferenciavam rapidamente durante o período de explosão. Assim, quaisquer deslocamentos cromossõmicos (um caminho primário ao câncer), se não fossem imediatamente reconhecidos e corrigidos pelos já sobrecarregados sistemas de reparação de DNA, eram não apenas passados adiante a órgãos em desenvolvimento, mas frequentemente replicados e reproduzidos em massa.

Quando o doutor Yamaguchi ficou sabendo que os filhos do doutor Nagai também tinham câncer, começou a pensar: talvez seja a hora de eu me pronunciar a respeito.

A pequena Kayano Nagai tinha se transformado numa jovem brilhante e graciosa e passou a ensinar e estudar. Posteriormente, mudou-se de Urakami e Nagasaki. Naquele momento, ela estava morrendo tomada por um câncer em estágio avançado. Seu irmão Makoto se formara na Universidade de Tóquio e trabalhou como jornalista até sua aposentadoria em 1995, aos 60 anos. Ele voltou a Urakami e morou perto do antigo eremitério de seu pai, onde ampliou a biblioteca e os programas de ensino até ser atingido pelo câncer, em 2001.

"E, quando chegou 2006, eu já devia estar morto", Yamaguchi contou à posteridade. "Mas lá estava eu, com meus 90 anos, e ainda caminhando por aí depois de ser queimado pelo pika duas vezes."




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