O último Trem de Hiroshima



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Baseado nas vozes dos sobreviventes da bomba atômica e nas novas tecnologias da ciência arqueológica, Charles Pelegrino descreve os eventos dos dois dias em que armas nucleares foram detonadas no Japão e mudaram definitivamente a história do mundo.

Usando uma combinação de documentos oficiais da época, depoimentos inéditos de japoneses que sobreviveram à bomba e de aviadores americanos, Charles Pelegrino reconstrói os momentos dos ataques do Japão e o que veio a seguir entre as comoventes histórias dos poucos japoneses que sobreviveram a essa tragédia à de um grupo de trinta civis que fugiram de Hiroshima com destino a Nagazaki, onde chegaram somente para testemunhar outro ataque nuclear. O Autor também explica com detalhes as estratégias políticas e militares que levaram À explosão das bombas e a tragédia que se abateu sobre os japoneses civis, transformando o livro em um verdadeiro protesto contra o uso desnecessário dessas armas que transformam homens em bestas.


Extremamente emocionante de se ler, mas absolutamente essencial.
Kirkus, Starred Review
De partir o coração.
Publishers Weekly, Starred Review
Verdadeiro – quase uma precisão lírica.

Time Magazine, O livro escolhido da semana.


As tragédias e atrocidades da Segunda Guerra Mundial agora pertencem à História, enquanto Hiroshima continua parte de nosso mundo, nosso presente e, quem sabe, nosso futuro. O último trem de Hiroshima nos lembra por que isso aconteceu.
The Washington Post
Charles Pelegrino é autor de 19 livros, incluindo Her Name, Titanic e Ghosts of The Titanic, livros usados como base para o grande Blockbuster de James Cameron. Titanic. Pelegrino é ph.D. em zoologia e contribuiu para diversas revistas científicas. O autor vive em Nova York.
Trinta pessoas foram conhecidas por terem saído de Hiroshima rumo a NAgazaki – e chegaram à cidade justamente no momento em que a segunda bomba foi detonada. Uma delas, Tsutomu Yamagushi, é a única pessoa que experimentou os efeitos do cataclisma no Grouund Zero duas vezes. Na segunda vez, os efeitos da explosão foram desviados em torno do vão das escadas em que Yamagushi estava, salvando-o juntamente co moutra Na tradição de lista de Scheindler, O Último Trem de Hiroshima oferece aos leitores uma verdadeira “máquina do tempo”, trazendo a força dos eventos que devastaram o Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Charles Pelegrino alterna inúmeros relatos de sobreviventes com pesquisas arqueológicas para trazer À tona os dois dias trágicos em Hiroshima e Nagazaki exatamente como ocorreram – para explicar por que ocorreram.

Este livro combina detalhes arqueológicos – muitos deles ainda inéditos – com relatos de partir o coração. Pelegrino desvenda muitos fatos desses tristes eventos, as únicas vezes em que as armas nucleares foram usadas contra humanos, e nos implora que juntemos as mãos e rezemos para que isso jamais se repita. Leitura obrigatória para qualquer pessoa com consciência.


James Cameron,

Diretor e Produtor de Cinema.

Se as bombas atômicas deveriam ou não ter sido detonadas sobre Hiroshima e Nagazaki é um assunto para outra época e outras pessoas debaterem.

Esta é, simplesmente, a história do que aconteceu Às pessoas e objetos que estavam sob as bombas e é dedicada À Tênue esperança de que ninguém morra mais dessa maneira.

Enquanto rumamos ao princípio da proliferação nuclear descontrolada e do terrorismo nuclear, devemos lembrar que Hiroshima e Nagazaki representam o poder destrutivo das armas que provavelmente voltaremos a ver. A esperança de que o passado não seja um prólogo é deveras frágil, e só conheço o anjo da esperança com uma aparÊncia um pouco anoréxica.

Nota:

Como muitos dos nomes encontrados nesse livro são Às vezes bastante similares, e podem até parecer os mesmos, um breve sumário alfabético com a biografia das principais testemunhas oculares destas história foi incluída para a referÊncia e começa na página 355. O termo Ground Xero originou-se com Hiroshima e Nagazaki e refere-se À região onde praticamente todos os edifícios foram arrasados, e onde a mortalidade foi de 85%, ou maior, quando as pessoas estavam ao ar livre, sem qualquer proteção. Em Hiroshima, o raio do Ground Zero cobria quase um quilômetro.



Prefácio

Tsutomu Yamaguchi era um homem que via a raiva e o ódio nos outros e tentava amenizá-los; via a ignorância e tentava substituí-la pela sabedoria, via o desespero se aproximar e tentava dar esperança aos que estivessem em seu caminho. Passei pouco tempo com o senhor Yamaguchi, mas ele provou que a duração de um encontro não é a medida de sua capacidade de ensinar. Se um homem que sobreviveu aos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki pode sair de um horror daquela magnitude acreditando na nobreza básica da vida, então qualquer um de nós pode. Ensinando pelo exemplo, ele acreditava que, se mesmo uma fração da humanidade pudesse viver de acordo com apenas um simples mandamento — seja amável —, esse comportamento poderia se transmitir de pessoa a pessoa, como um vírus, e talvez pudesse acabar mudando a vida de alguém que, de outro modo, seria capaz de fazer algo horrível no futuro.

Ele também acreditava que as pessoas, em número cada vez maior, haviam se tornado complacentes durante as quase duas décadas desde o término da constante e amedrontadora rivalidade entre os Estados Unidos e a União Soviética. Uma espécie de amnésia tinha começado a afetar a civilização – uma amnésia particularmente perigosa, na qual as pessoas começavam a esquecer o que as bombas atômicas realmente fazem e, ao redor do mundo e em muitos idiomas, as palavras "nuke them" (1) estavam sendo proferidas cada vez mais frequentemente. Yamaguchi percebeu que se a humanidade não lembrasse logo, se não aprendesse logo que "nuke them" era a pior maldição que um ser humano podia proferir contra outro grupo de seres humanos, então toda a civilização poderia estar agora no mesmo trem que ele havia tomado — de Hiroshima rumo a algo ainda pior.

Durante suas últimas semanas de vida, Tsutomu Yamaguchi passou a missão a um pequeno mas dedicado grupo de cineastas e escritores, recebendo deles a promessa de que viveriam segundo seu exemplo e que o passariam para a frente.

A quatro deles, ele deu poemas tanka, escritos com sua própria caligrafia, contando sua experiência sob as bombas. A um deles, ofereceu uma pintura da estátua de Maria da catedral de Urakami, semiderretida e aparentemente chorando, e disse: "Ainda há tempo de evitar que isto aconteça novamente". Ao cineasta James Cameron, afirmando acreditar que havia um elo espiritual anterior entre eles e que estava convencido de poder ver dentro do coração do cineasta, o senhor Yamaguchi entregou a pintura de um dragão que, segundo ele, precisaria ser agarrado pelos chifres. A pintura representava o próprio dragão interior de Yamaguchi: aquele contra o qual tinha lutado e pintado em apenas um dia, expressando o desespero que sentiu quando seu filho, como muitos filhos das bombas (a maioria, na realidade), teve câncer e morreu antes de chegar aos 60 anos.

Para mim, ele havia escolhido uma pintura recente, de uma cachoeira, com uma carta anexa, indicando de maneira enigmática que eu precisaria procurar a serenidade das águas — e em pouco tempo.

Uma tempestade se aproximava.

1.”Jogue uma bomba atômica neles.” (N.T.)

Apenas algumas semanas mais tarde, em 4 de janeiro de 2010, meu amigo Hideo Nakamura me avisou que o senhor Yamaguchi havia falecido. Depois, em fevereiro, chegou a tempestade. Um repórter do New York Times me apresentou provas de que um dos aviadores que eu entrevistara para a primeira edição deste livro não era quem ele parecia ser. Evidentemente, o impostor havia tirado vantagem de muitos dos defeitos do registro de informações sobre 1945 — incluindo erros segundo os quais passageiros foram trocados de avião e até que a bomba de Nagasaki teria sido lançada de outra aeronave. Nesse contexto, um aviador inflou seu currículo ao se colocar, falsamente, no assento de outro homem a bordo do avião fotográfico da escolta da missão de Hiroshima, o Necessary Evil.

Esse era, claramente, um erro que eu deveria ter percebido muito antes. Não importava que a pessoa em questão possuísse centenas de fotografias, junto dos documentos e artefatos "certos" t dentre eles fotos verídicas do marcador no final da pista de Tinian, registro dos últimos bombardeios incendiários de 14 de agosto de 1945; fotos aéreas de Hiroshima antes, durante e depois de 6 de agosto; uma foto mostrando um dos aviões colocados em dúvida, mais ele e vários outros homens de uniforme debaixo da pintura no nariz da aeronave [e este era claramente o mesmo homem na foto de seu casamento um ano mais tarde], e, por fim, uma carta do presidente Truman). Não deveria ter importado que Joseph Fuoco fosse veterano e bombeiro; isso não justifica o fato de eu ter baixado a guarda. Acabei confiando nele totalmente. Dada a minha obrigação de registrar a história tão corretamente quanto é humanamente possível, eu nunca deveria ter confiado 100% em um entrevistado. Um resultado disso é que uma parte da história do ponto de vista dos aviadores americanos na primeira edição deste livro é uma ilusão. Eu me considero mais culpado por isso do que o veterano que contou a história. Naturalmente, tudo o que foi dito ou sugerido por essa "testemunha", não importando se estivesse de acordo com partes da história já verificada por outros, foi completamente eliminado desta edição e substituído por material que, sobretudo, devolve ao homem que de fato ocupou o assento de engenheiro de voo a bordo do Necessary Evil o seu devido lugar na história.

Em relação ao homem que inflou seu currículo de guerra, o 509º Grupo Composto compreensivelmente expressou raiva e ódio extremos. Se eu não tivesse conhecido Tsutomu Yamaguchi (ou Masahiro Sasaki, ou alguns dos outros sábios que se ergueram das cinzas), também poderia me inclinar ao ódio.

Eis o que creio que o senhor Yamaguchi gostaria que pensássemos de Joseph Fuoco: o filho do senhor Fuoco, um policial com experiência em lidar com impostores (os quais tendem a desenvolver rapidamente inconsistências em suas histórias), me disse que nunca houve, tanto quanto ele recordasse, alguma incoerência na história de seu pai. A esposa de Joseph Fuoco "sabia" desde pelo menos o começo (1945-1946) que seu marido havia voado num dos aviões da escolta da missão de Hiroshima.

No dia seguinte à minha terceira entrevista com Joseph Fuoco, em 2008, ele sofreu um ataque cardíaco súbito e fatal. O corpo de bombeiros, a polícia, os militares e muitas centenas de pessoas compareceram a um dos maiores funerais que já vi, transbordando de amor por esse homem.

Havia adolescentes complicados cujo futuro parecia acabar numa prisão, e cuja vida Joseph Fuoco havia ajudado a reverter. Nenhum de nós jamais saberá se ele estava mentindo intencionalmente para mim em 2008. Acho difícil acreditar que estivesse. O homem que conheci naquela época vivia para servir os outros. Por ter se escalado numa missão da qual nunca participou (e ter juntado, conscientemente, documentação convincente durante todos aqueles anos), e apesar do fato de que isso teria começado como algo maldoso, quero acreditar — e quase tenho de acreditar — que por volta de 1955, talvez por meio de alguma mutação da memória, o que começou como uma mentira acabou se tornando a realidade do senhor Fuoco.

Perguntando-me o que o senhor Yamaguchi teria feito, prefiro pensar em Joseph Fuoco como um homem que serviu ao seu país numa época de necessidade, e que continuou a fazê-lo depois da guerra, como bombeiro.

Se ao menos outras pessoas pudessem ter adotado a visão de Yamaguchi.

Enquanto cada dia que passava revelava o incidente de Fuoco como apenas o início da tempestade, levei a pintura do senhor Yamaguchi para a minha mesa, e a mantive por perto. Por um poder de sugestão ou não, ela parecia me trazer tranquilidade, enquanto minha editora começava a receber rajadas de cartas raivosas, do 509º. Grupo Composto e de quase todos os outros pontos cardeais. O departamento jurídico parecia confuso sobre as numerosas acusações de que eu teria inventado histórias sobre a doença da radiação e uma taxa excessivamente alta de mortalidade por câncer em Hiroshima e Nagasaki. Pelo menos uma carta, com tom de aparente autoridade, insistia que as bombas atômicas foram projetadas para dissipar toda sua radiação muito acima do chão e que minhas descrições dos efeitos da radiação nas populações civis eram falsas.

Eu não sabia, antes disso, que os negadores da radiação existiam, nem que advogados ou assemelhados lhes dariam um nanossegundo de credibilidade. Enquanto eu providenciava os documentos para responder a essa questão, chegaram cartas apontando o que era, essencialmente, um erro de edição (uma explicação adicional esquecida que deveria ter figurado na minha seção de agradecimentos).

Esse equívoco foi usado como base para afirmar que os dois padres mencionados na primeira edição eram fictícios. Ninguém neste livro é fictício — e é por isso que os dois padres continuam intactos nesta edição. O sacerdote referido como padre MacQuitty pode ser encontrado nas seções de agradecimentos de outros livros, entre eles Return to Sodom and Gomorrah, como um dos jesuítas cujos nomes foram trocados. Um leitor de Ghosts of Vesuvius pode ver claramente por que o padre MacQuitty solicitou que seu nome fosse trocado. Depois que o padre Mervyn Fernando apareceu com seu nome verdadeiro em Return to Sodom and Gomorrah, ele foi temporariamente exonerado até que se retratou de suas afirmações (apesar de o que ele havia dito sobre Deus e a mecânica quântica parecer perfeitamente inócuo). Na primeira edição deste livro, eu deixei de indicar novamente, na minha seção de agradecimentos, que o nome do padre McQuitty havia sido trocado. A interpretação jurídica da minha editora sobre esse erro implicava que eu teria de revelar o nome verdadeiro do padre — que, me disseram, precisava ser passado "imediatamente" à Associated Press.

Eu tinha prometido desde pelo menos 1989 que citaria o padre MacQuitty corretamente, mas que nunca revelaria seu nome verdadeiro. Qualquer pessoa que leia sobre a compaixão incomum que o "padre MacQuitty" mostrou pelos amigos e pela família das pessoas que, segundo regras da Igreja, não deveriam ser enterradas em solo consagrado vai entender que o padre poderia ter se complicado ainda mais que o padre Fernando se eu tivesse quebrado minha promessa. Faço poucas promessas, mas mantenho as que faço, não importam as consequências.

Os leitores devem notar que o padre MacQuitty apareceu somente em uma frase no livro inteiro. Certamente, ninguém em sã consciência acreditaria que eu pudesse inventar um padre por uma frase e me arriscar a cometer uma enorme injustiça ao pôr em dúvida a vida e as lições de todos os sobreviventes, incluindo o senhor Yamaguchi, e as famílias Sasaki, Ito e Nagai.

Quanto ao segundo padre, conheci o padre Mattias em 1974, e a história que ele contou sobre o dia em que virou um dos "andarilhos-formiga" sem destino de Hiroshima — e sobre as três crianças que ele acreditou ter abandonado no topo de uma torre de tijolos — ficou gravada de forma indelével em minha memória e garantiu que um dia eu escreveria este livro. (O nome do padre pode ser encontrado no posfácio do meu livro Dust [1998], p. 370-371, em que me refiro à reconstituição dos efeitos de uma arma nuclear de baixo alcance "por meio de muitas conversas com sobreviventes de Hiroshima. Entre eles... um padre que passou o resto de sua vida se perguntando o que teria acontecido às crianças que ele havia visto no topo de um edifício demolido em Hiroshima"). Novamente, seu nome foi trocado por causa do rumo que sua vida tomou depois de Hiroshima e da maneira como terminou.

Quando surgiu a controvérsia sobre os dois padres, minha editora já estava chegando à exaustão. Um pouco antes da entrega do Oscar, no fim de fevereiro de 2010, James Cameron fez um pronunciamento público em defesa do livro e lamentou no dia seguinte que sua tentativa de ajudar um amigo pareceu apenas ter intensificado a da mídia.

Enquanto a fúria continuava, alguém desenterrou uma história sobre tribunais ad hoc na Nova Zelândia nos anos 1980, e embora esses tribunais tivessem sido declarados espúrios e ilegais anos atrás, requentou o assunto para afirmar que eu havia "falsificado" um Ph. D. na Universidade de Victoria.

Os fatos, em sua versão mais simples, são os que seguem: no final de agosto de 1981, defendi com sucesso minha dissertação de Ph. D. Seis meses depois, o livro que escrevi com o dr. Jesse A. Stoff, Darwin's Universe: Origins and Crises in the History of Life, estava prestes a ser publicado pela Van Nostrand Reinhold. Além disso, minhas recentes escavações de fósseis ofereciam provas que corroboravam a chamada "teoria americana" de Eldredge e Gould, sobre taxas e modos de mudança evolutiva (chamada de teoria de equilíbrio pontuado). O momento não poderia ter sido pior. Controvérsias tinham surgido na universidade entre darwinistas clássicos (que odiavam a "teoria americana") e pelo menos um "criacionista científico" (que odiava qualquer coisa relacionada a Darwin). Controvérsias também surgiam entre a Nova Zelândia e os Estados Unidos, com foco principalmente na decisão da Nova Zelândia de bloquear a entrada em suas águas de navios movidos a energia nuclear ou que levassem mísseis nucleares. Esse era o clima no qual as minhas credenciais foram subitamente sequestradas e no qual me mandaram cancelar a publicação do Darwin's Universe. Eu me recusei.

O que a maioria de nós que fomos levados a esses autodenominados comitês ad hoc dos anos 80 tinha em comum era a publicação no campo da evolução. Também é digno de nota que, no sistema britânico, o termo ad hoc é definido como operante fora das regras normais da lei. Aqueles de nós que fomos sujeitos ao sistema ad hoc denunciamos os esforços dos tribunais para restringir a pesquisa e a publicação no campo da biologia evolutiva como "censura, pura e simplesmente".

Os tribunais ad hoc assumiam o poder de rebaixar ou revogar credenciais em sessões fechadas, sem permitir nenhuma resposta ou defesa. Esse tipo de justiça se tornou um sistema de Câmara Estrelada no qual era negada ao protagonista mesmo a ilusão de processo devido, e (felizmente) os membros dos tribunais estavam muito desejosos de registrar seus atos por escrito. Todas essas atividades foram por fim declaradas ilegais na Nova Zelândia, e títulos de pós-graduação foram restaurados a seu status anterior. Infelizmente, os anos 1980 não eram a melhor época para ser americano na Nova Zelândia, e eu era originário dos Estados Unidos. No fim de 1982, a Nova Zelândia tinha se declarado uma zona livre de energia nuclear e estava no processo de sair do Tratado de Anzac (basicamente, a Otan da região). Além do já angustiante conflito evolutivo, um conflito entre os EUA e a Nova Zelândia relevante ao cerne mesmo deste livro também se erguia ao meu redor.

Com três novas bombas de hidrogênio sendo produzidas nos EUA por semana e com as demonstrações de poderio militar entre os EUA e a URSS parecendo mais ameaçadoras a cada mês, o governo da Nova Zelândia decidiu que não queria que seu povo se tornasse um alvo nuclear no caso de o hemisfério Norte "enlouquecer". O Truxton e outros navios que levavam armas nucleares tiveram negada a permissão de entrada no porto. O governo Reagan anunciou que a Nova Zelândia não era mais considerada uma aliada dos Estados Unidos e retaliou economicamente (o que incluía a saída de sua parceria no gigantesco projeto neozelandês de fundição de alumínio, potencialmente prejudicial à economia). Em seguida, aproximadamente vinte neozelandeses foram expulsos de seus programas de parceria em academias navais americanas. Naturalmente, esse não era o melhor cenário para o único americano a ter recentemente completado um programa de Ph. D. na Universidade da Nova Zelândia balançar o barco com a publicação de um livro que corroborava o que já havia sido referido ironicamente como "a teoria americana da evolução".

Subsequentemente, depois de os tribunais ad hoc terem sido declarados ilegítimos (a tal ponto que foram envolvidas vultuosas indenizações financeiras) e uma vez que os neozelandeses submetidos ao ad hoc tiveram suas credenciais devolvidas, ainda restava uma pergunta: se as proteções da lei neozelandesa necessariamente aplicavam a um americano (ou seja, eu). Em abril de 2010, a pergunta foi finalmente respondida: as proteções a estudantes de pós-graduação contidas nos regulamentos da universidade se aplicavam a todos os alunos matriculados, incluindo americanos.

Para provar a lição de que nosso universo não é totalmente desprovido de senso de ironia, apoiei a Nova Zelândia como zona livre de energia nuclear (e ainda apoio). O meu problema não importava.

Os ataques iniciais aos meus estudos evolutivos tinham um sabor notavelmente antiamericano, desde que "a grafia americana não deve ser empregada" até o comentário do membro do comitê ad hoc Garrick: "Não precisamos que americanos venham aqui e nos contem como os nossos animais evoluíram". Mesmo um importante defensor do tribunal ad hoc (no Fórum SFWA, em 13 de março de 1995 admitiu não poder negar que eu "posso ter, por alguma razão, sido vítima de sentimentos antiamericanos na Nova Zelândia".

No meio desses sentimentos, meu caso se tornou um dos exemplos mais extremos de abuso ad hoc. Em novembro de 1984, o líder ad hoc Christopher Dearden admitiu por escrito que eu tinha completado todas as exigências para que me fosse outorgado o Ph. D. A publicação de todo o conteúdo de minha dissertação na revista científica de revisão paritária mais importante da área ( Crustaceana, vol. 47, parte 3, 1984) tornou os méritos da dissertação difíceis de serem negados por Dearden, especialmente quando a nova aplicação de espectometria de absorção atômica do estudo havia se tornado leitura obrigatória no Departamento de Química da mesma universidade em que o comitê ad hoc de Dearden estava sendo reunido.

Uma vez que a carta de Dearden foi obtida, com a ajuda de colegas do Laboratório Nacional de Brookhaven (onde, outra ironia, nosso projeto principal naquela época envolvia sessões de brainstorming para a Iniciativa de Cooperação Espacial EUA-URSS do senador Spark Matsunaga, como tentativa de reduzir a probabilidade de guerra nuclear entre as duas superpotências), foi fácil verificar novamente que minha dissertação obedecera ao requerimento da universidade de "contribuir significativamente para o conhecimento ou entendimento do campo de estudo".

Na carta de 6 de novembro de 1984, Dearden tentou evitar os méritos comprovados da dissertação ao (A) dar a entender que uma das principais revistas a tinha publicado por engano e (B) afirmar que os méritos de meu trabalho, mesmo se comprovados, deveriam ser declarados "irrelevantes" daquele momento em diante, permitindo apenas que as novas regras de revogação retroativa de credenciais fossem consideradas relevantes.

Tendo me ajudado a documentar o completo absurdo ad hoc, meus colegas no LNB (entre eles o chefe dos Sistemas de Reator, James Powell, que resumiu o tribunal de Dearden como uma "grave injustiça") concordaram que eu tinha todas as provas de que necessitava para demonstrar que o comitê ad hoc agia ilegalmente tanto pelos padrões da Nova Zelândia quanto pelos internacionais, e nessa altura os resultados do simpósio de Matsunaga, bem como outros trabalhos publicados pelo Laboratório Nacional, tinham devolvido o meu título: "doutor".

Assim, qualquer sugestão feita pela imprensa mundial de que criei um Ph. D. "falso" para mim na Nova Zelândia — ou que tenha feito um exame de Ph. D. e não tenha sido aprovado — foi um erro grosseiro, pelo menos no que concerne à verdade.

Tendo em mente que os ataques ao que escrevi erroneamente sobre os aviadores eram justificados, enquanto o frenesi da mídia se intensificava, outra série de acontecimentos começou a sugerir —como observou uma jornalista japonesa — que, "às vezes, mesmo as piores coisas se revelam positivas na jornada que chamamos de vida". Mesmo a estrada mais tortuosa, ela afirmou, pode nos levar ao crescimento e até mesmo a grandes surpresas.

Em fevereiro de 2010, depois de mais de três anos de buscas, os documentaristas Hideo Nakamura e Hidetaka Inazuka finalmente encontraram a filha de um duplo sobrevivente das bombas atômicas chamado Kenshi Hirata (uma figura-chave nos capítulos que seguem). A última coisa que se sabia sobre a vida do senhor Hirata, quando a primeira edição deste livro foi para a gráfica, era que ele avia desaparecido com a família havia muito tempo, prometendo ficar longe do caminho da história. Para nossa surpresa, Kenshi ainda estava vivo e tinha 91 anos. (O que aconteceu depois de seu desaparecimento é contado nesta edição.)

Pouco depois da descoberta da família de Kenshi, o Peace Film Festival em Nova York, em março de 2010, outros sobreviventes começaram a aparecer. Com a retificação da história dos aviadores, uma estrada que se iniciou a passos tortuosos nos levou a uma oportunidade de começar a atualizar alguns capítulos dessa história, enquanto os sobreviventes ainda estão vivos e podem contribuir com novos detalhes. Charles Pellegrino

Long Beach, Long Island

14 de abril de 2010




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