O último Evangelho David Gibbins



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CAPÍTULO 8
Jack agachou-se atrás de Hiebermeyer na entrada do túnel dentro da antiga vila. A temperatura já estava mais fria, um alívio para o sol que queimava do lado de fora. Imediatamente na frente deles havia uma centrífuga com a largura de um metro com um motor elétrico, e atrás dela um tubo flexível e ondulado prosseguia desde a temporária estrutura de madeira na frente da entrada até uma serpentina de tubos e uma passagem elevada situada numa parede acima do local.

- Depois que saí daqui ontem, eu falei exageradamente sobre o elemento perigoso, só para me assegurar de que não tentariam entrar aqui - disse Hiebermeyer, mas realmente há gases tóxicos armazenados aqui, metano, carbono, monóxido. A maior parte deles é resultante de material orgânico que está começando a se decompor, devido à introdução de maior quantidade de oxigênio depois que o túnel foi aberto.

- Não há corpos - disse Costas esperançoso.

- Neste local, ou há apenas esqueletos ou eles estão incinerados - replicou Hiebermeyer. - Usualmente - acrescentou.

- Quanto tempo temos que esperar? - perguntou Maria.

- Vamos aguardar alguns minutos mais, depois traga o ventilador para dentro e reative-o quando alcançarmos a grade.

Jack fez uma pausa. - Acho que esta é a primeira vez que escavamos juntos desde Cartago. - Voltou-se para Costas. - Nós três estudávamos juntos, e nossa primeira experiência foi partilhada com uma equipe da UNESCO em Cartago. Mergulhei num antigo ancoradouro, Maurice desapareceu dentro de um buraco no chão e Maria registrou inscrições.

- Eu me sinto o estranho aqui - disse Costas.

- Acho que você pode juntar-se ao nosso clube. - Jack cutucou Hiebermeyer, que olhou impassível para Costas através de seus óculos com lentes de cristal, o cabelo emaranhado e o rosto sujo com fuligem. Jack escondeu um sorriso. - Maurice encontrou os restos de um grande forno de bronze exatamente como ele foi descrito pelos romanos, essa é uma primeira evidência definitiva de sacrifício de crianças em Cartago. Foi fantástico.

- Foi fantástico - repetiu Costas debilmente. - Sacrifício de crianças. Eu achei que havíamos deixado tudo isto para trás com os toltecas no México.

- O passado, por vezes, é um lugar habitado por coisas bastante repugnantes - disse Jack de maneira seca. - Você só tem que pegar o que consegue, ir com o fluxo.

- Ir com o fluxo - repetiu Costas. - Sim, está certo. - Ele olhou para o local escurecido atrás do porão da entrada na frente deles, depois de novo para Jack. - Então, quais prazeres este local guarda para nós?

- Você já esteve na Vila Getty?

- A Vila Getty. Em Malibu, Califórnia. Sim - disse Costas vagamente. - Eu me lembro de ter ido com a escola. Desenho clássico, grande quantidade de estátuas. Um grande tanque central, excelente para remover impurezas das superfícies de moedas.

Hiebermeyer ergueu os olhos, e Jack sorriu novamente. - Bem, este local foi a base para o projeto da Vila Getty.

Costas olhou de modo ambíguo para o buraco negro na frente deles. - Não brinque.

- Muito bem, vamos entrar - disse Hiebermeyer. Ele ergueu o ventilador centrífugo e segurou-o à frente, puxando a mangueira de exaustão atrás de si. Jack e os outros o seguiram e, depois de alguns metros estavam completamente cercados pelo túnel. Esse tinha a largura de cerca de um braço e era suficientemente alto para permitir que Jack ficasse ereto. A superfície era parecida com a de uma antiga mina para a extração de minérios, coberta com marcas de talhadeiras e de picaretas. Jack sentiu como se estivessem voltando para o século XVIII, olhando para o local através dos olhos dos primeiros que abriram o túnel, que tinham talhado seu caminho na lama dura como rocha, sob o olhar do engenheiro Karl Weber quando ele tentou descobrir o sentido do labirinto que seus homens escavavam buscando pilhagem. Jack seguiu Hiebermeyer que virou uma esquina, e o túnel ficou mais escuro. - Ainda não tem luz elétrica - disse Hiebermeyer pesaroso. - Mas mantenha sua headlamp desligada por um instante. Muito bem, você pode ligá-la agora.

Jack ativou seu feixe de luz e focalizou adiante. Ele sufocou um suspiro e tropeçou levemente quando se adiantou. A cabeça de Anúbis estava olhando fixamente para fora da lateral do túnel bem na frente dele, as orelhas negras eretas e o focinho desafiador exatamente como Hiebermeyer e Maria o tinham visto pela primeira vez no dia anterior.

- Veja seu segundo divertimento. - Hiebermeyer virou-se para trás, depois de colocar o ventilador centrífugo a sua frente. - Esta é a descoberta-chave, eu acho, o argumento decisivo para a superintendência. É exatamente o que eles querem. Algo espetacular. Você pode ver que eles até já esvaziaram o nicho ao redor da estátua, tudo está pronto para retirá-la mais tarde. Amanhã de manhã, ela estará em todas as primeiras páginas dos jornais. Um pretexto para fechar este túnel. Permanentemente.

- Assombroso. - Jack ainda estava intimidado pela imagem, e colocou cuidadosamente a sua mão no focinho. - Eles encontraram uma destas estátuas na tumba do faraó Tutankamon - ele disse para Costas, que estava atrás.

- Pelo menos aquele estava no lugar ao qual pertence, no Egito - murmurou Hiebermeyer.

- É o acolhedor das almas no inferno, e protetor delas em sua jornada - Maria disse atrás dele. - Maurice me contou algo assim.

- Eu não gosto do que estou ouvindo - resmungou Costas. - Pensei que você disse que não havia corpos mais adiante.

Jack colocou o capacete de viés e olhou além do focinho de Anúbis, para dentro da escuridão. Ele sentiu como se o século XVIII tivesse dado lugar agora para um passado muito mais antigo, saindo com ímpeto através das paredes, como a cabeça de Anúbis. Também teve uma sensação de perigo. Poucos metros além da estátua havia uma grade de metal temporária no outro lado do túnel que trazia a palavra PERICOLO e o símbolo da morte, um crânio atravessado por ossos longos. Hiebermeyer destrancou uma pequena porta através da grade e puxou o ventilador centrífugo para dentro. Pressionou um botão, e uma luz vermelha começou a lampejar, acompanhada por um zumbido eletrônico baixo.

- Este é um bom começo - ele disse. - Acredite ou não, o cabo condutor da extensão verdadeiramente funciona. Conseguimos eletricidade. - Ele examinou ama informação proporcionada por um computador na parte de trás do ventilador. - Em cerca de dez minutos, isto deverá ter limpado o túnel à frente até onde nós fomos ontem, até o ponto em que o túnel termina em uma outra parede. Quando a luz se tornar verde, nós o levaremos adiante até que o sensor solte lampejos vermelhos novamente. - Olhou para Jack e falou baixinho. - Eu poderia ler posto isto para funcionar antes da sua chegada, mas não quis que ninguém e a tentação de vir aqui dentro sorrateiramente para roubar. Nossa amiga superintendente parece perfeitamente feliz com Anúbis. De fato, ela está obcecada por ele.

- Isto faz sentido - replicou Jack também baixinho. - Elizabeth era uma egiptóloga apaixonada quando eu a conheci. Ela nunca se interessou realmente este lugar, arqueologia romana, mas alguma coisa a trouxe de volta para cá. Relacionamentos familiares.

- Você parece conhecê-la bem - murmurou Maria.

- Fomos amigos durante algum tempo. Mas não somos mais, parece.

Hiebermeyer empurrou os óculos para cima. - O final da linha. No que concerne a eles, a investigação alcançou seu resultado, e o que estamos fazendo agora é um assunto puramente secundário, um reconhecimento, antes que a coisa toda seja considerada arriscada e selada para sempre. No momento, estou feliz em concordar com isso.

- Quão arriscado isto é exatamente? - perguntou Costas.

- Bem, o túnel não está escorado, e há o risco de um outro tremor de terra. O local está repleto de gás tóxico. O Vesúvio pode entrar em erupção novamente. Nós podemos ser esmagados, asfixiados, incinerados.

- Arqueologia - suspirou Costas. - Imaginem, eu rejeitei uma posição na Cal Tech em troca disso tudo. Uma casa na praia, surfe, martinis tirados do barril.

- Também podemos ser metralhados pela máfia - acrescentou Maria.

- Formidável. Isto é mais do que é realmente necessário. - Costas suspirou, depois olhou de novo para Anúbis. - De todo jeito, eu acho que no período romano este material egípcio estava todo ultrapassado - ele disse. - Eu explico, o que vocês estavam dizendo sobre aquele sujeito Calpúrnio Piso. Os acessórios de estilo. Tudo tinha que ser grego.

- Um colecionador que aprecia as obras de Andy Warhol não joga fora necessariamente sua coleção de família de velhos mestres - disse Maria.

- De fato, ter obras do Egito antigo foi a grande última moda - disse Jack. - O Egito foi o último dos grandes e antigos lugares a ser anexado por Roma, depois da derrota de Cleópatra em 31 a.C. Muitos dos obeliscos encontrados em Roma hoje em dia, aquele na Praça de São Pedro, vieram de navios enviados pelos primeiros imperadores. Foi exatamente como uma repetição da pilhagem da Grécia. Cada um queria ter uma peça da batalha.

- Bárbaros - Hiebermeyer resmungou. Naquele momento, o ventilador centrífugo mostrou lampejos verdes e o ventilador se deteve. Hiebermeyer fez um gesto para que avançassem, e rastejou para passar pela grade. Jack e Costas pegaram o tubo ondulado e o seguiram, com Maria logo atrás deles. À frente, o caminho estreito não estava iluminado, a não ser pelos feixes de luz oscilantes de suas headlamps. Jack havia se perguntado quando iria ter aquela mesma impressão de novo, e foi naquele momento, dentro de um túnel, que ele repentinamente se sentiu removido do mundo exterior, quando o avanço à frente parecia estar além de sua vontade, quando o próprio túnel parecia puxá-lo adiante. Era como se o ar tóxico tivesse se derramado ao redor deles e preenchido o túnel atrás, encerrando-os em uma cápsula que poderia implodir a qualquer momento, sugando-os para dentro do redemoinho do passado. Continuaram se empurrando à frente, puxando com barulho o tubo atrás deles. O túnel era mais comprido do que esperara, penetrando profundamente nos recônditos do terreno da vila, bem além dos túneis que ele tinha visto no plano de Weber. Aproximadamente trinta metros adiante, chegaram ao fim do túnel, na fenda escura na parede onde Maria e Hiebermeyer tinham parado no dia anterior. Jack podia ver nitidamente as marcas de picareta feitas no século XVIII, e olhou-as atentamente. Algumas das marcas foram feitas em pedra e não em lama solidificada. O túnel claramente terminava em uma espécie de estrutura, uma via de acesso feita de pedra. Hiebermeyer ergueu o ventilador e o colocou dentro da fenda ativando-o novamente. - Ele ainda está mostrando luz verde, mas de todo modo vou esperar mais cinco minutos. É melhor estar seguro do que lamentar depois. - Ele olhou para Jack. - Foi até aqui que avançamos antes de eu sair e telefonar para você. Depois de eu dar uma olhada dentro.

- Mal posso esperar para ver. - Jack voltou-se e olhou atentamente para o corredor atrás, onde podiam distinguir uma luz elétrica oscilante e ouvir vozes, depois o som de um poderoso equipamento sendo testado. - Alguém vai se juntar a nós?

- Eu duvido - disse Hiebermeyer. - Eles estão alargando o corredor para retirar Anúbis. Até mesmo a nossa dama guardiã não passaria por aquela grade.

- Quem sabe eles acham que o lugar é amaldiçoado - murmurou Costas. -Talvez Anúbis represente isso para eles.

- Se houvesse uma maldição, eles nos contariam acerca dela - disse Hiebermeyer. - Colocaram diante de nós todos os outros obstáculos para impedir a escavação deste local. Nós fazemos parte do jogo deles. Um gesto simbólico, de maneira que possam dizer que fizeram tudo o que podiam, mas podem dizer também que o lugar é simplesmente demasiado perigoso.

Como se acontecesse exatamente no momento certo, houve um tremor e o ar encheu-se de poeira. O tremor desapareceu tão rapidamente como veio, mas não havia dúvida sobre a causa. Hiebermeyer tirou seu oscilador cósmico e pressionou-o contra a parede lateral. Fez-se silêncio por um momento, depois ouviu-se uma tosse baixa de Maria, e todos eles colocaram suas máscaras contra poeira.

- Talvez eles tenham razão - disse Costas. - Há alguma coisa mais para ver, Maurice? Quero dizer, algo realmente importante? Eu estou pronto para ir embora.

- É muito tarde para voltar para trás agora - disse Hiebermeyer, olhando para Jack. - Odeio ter que admitir, mas estou começando a entender aqueles que abriam túneis no século XVIII. Sei de que lugar eles vinham. Você não quer demorar-se muito tempo aqui embaixo. Não acho que estamos aqui para uma escavação meticulosa. Não exatamente para roubo e pilhagem, mas para algo parecido com uma incursão arqueológica.

- Eu o estou ouvindo - disse Jack.

- Enquanto esperamos, qual é a questão sobre o ópio, a propósito?

- Você não vai acreditar no que encontramos no navio naufragado.

Naquele momento, ocorreu um resmungo e uma maldição. - Acho que conseguimos algo aqui. - Costas tinha se introduzido na frente dos outros e agora emoldurava um buraco imperfeito no fim do túnel. - Acho que pode ser uma outra estátua. - Os outros rapidamente se aproximaram atrás dele, seus feixes de luz convergindo para o lugar onde o choque sísmico provocara o desmoronamento de uma parte da parede ao lado da fenda. Dentro da cavidade havia uma forma humana em tamanho natural, deitada sobre a barriga, um braço estendido e o outro dobrado debaixo do peito, as pernas estendidas para trás, em direção à entrada. Ela parecia estar despida, mas a superfície estava obscurecida por uma camada carbonizada, o que tornava difícil determinar o material debaixo dela.

- Isto deve ter acabado de ser revelado - disse Hiebermeyer baixinho. - Por aquele tremor que ocorreu há pouco. Esta forma não estava visível ontem.

Jack se ajoelhou e examinou a cabeça, depois tentou enxergar através de um pequeno buraco logo abaixo de uma orelha. Pôde discernir que a forma era oca, como a de uma estátua de bronze, mas não havia metal visível, nem mesmo uma camada de corrosão. Pensou durante um momento, depois olhou de novo. - Bem, eu vou ser condenado - ele murmurou.

- O que é? - perguntou Costas.

- Você lembra que lhe contei sobre os corpos em Pompéia, formas preservadas como moldes ocos na cinza solidificada?

Costas pareceu consternado. - Você não está dizendo que este é um corpo como aqueles. - Ele empurrou-se para trás.

- Só que não está preservado em cinzas - disse Hiebermeyer. Ele tinha vindo para perto de Jack e tirado sua própria espátula velha e gasta, usando-a para pegar uma pequena amostra do material escurecido do lado do corpo. - Isto é estranho. Parece estar preservado em uma espécie de material carbonizado, alguma coisa fibrosa.

- Meu Deus - disse Jack. - Você tem razão. Eu posso ver as fibras cruzadas. Talvez alguma roupa. - Olhou atentamente para Hiebermeyer, que olhou de volta para ele de maneira sugestiva. Jack pensou novamente, e sentiu seu queixo cair. - Não é roupa - ele sussurrou. - É papiro.

- Espere até ver o que tem dentro - sussurrou Hiebermeyer em retorno, dirigindo sua espátula para a fenda na parede diante deles.

- Estes eram manuscritos? - murmurou Maria. - Este homem estava coberto com manuscritos escritos em papiro?

- Eles estavam caindo de um lugar que fica atrás de nós - replicou Hiebermeyer. - É como se este homem tivesse caído dentro de um local coberto de manuscritos, e eles caíram deste outro lugar por cima dele quando a explosão ocorreu. Quando encontraram a biblioteca de Filodemo no século XVIII, uma grande quantidade de manuscritos estava espalhada ao redor, como se alguém estivesse tentando escapar com eles.

- Ou estava procurando no meio deles, buscando freneticamente por algo precioso para recuperar antes de escapar - disse Maria.

- Vamos esperar que estes livros sejam apenas mais alguns dos manuscritos gregos de Filodemo - murmurou Jack - e não a biblioteca latina perdida.

Costas estendeu a mão e cuidadosamente tocou no ombro do corpo. Instantaneamente, a forma inteira bruxuleou e desapareceu numa lufada de carvão. Seu dedo foi deixado suspenso no ar, e por um momento fez-se silêncio.

- Uau! - ele disse.

Hiebermeyer gemeu.

- Não se preocupe - suspirou Jack. - Um momento Agamenon.

- Hein?
- Quando Heinrich Schliemann escavou o terreno arqueológico da Idade do Bronze em Micenas, ele levantou uma máscara mortuária de ouro de uma sepultura real e pretendeu ter visto o rosto do rei Agamenon. Talvez tenha realmente visto algo, tenha tido uma impressão fugaz do que estava debaixo da máscara. Você lembra da Atlântida, a forma espectral do touro no altar? Algumas vezes você verdadeiramente chega a ver fantasmas.

- E veja o que está debaixo - disse Hiebermeyer, repentinamente excitado. - É muito mais interessante, de um ponto de vista judicial. - Ele se curvou aproximando-se do lugar onde a cabeça havia estado e pegou um removedor para limpar as lentes da máquina fotográfica, retirando cuidadosamente a poeira. Uma outra forma estava emergindo por baixo, cinzenta e escurecida. - Este é o crânio - ele anunciou. - Ele também está parcialmente carbonizado, mas parece que se conservou. E posso ver as vértebras, as costelas. - Hiebermeyer colocou o dedo dentro de uma massa escura e pegajosa dentro do crânio, depois a cheirou, primeiro com cautela, depois profundamente. De repente se esforçou para vomitar, depois engoliu com dificuldade. - Assombroso - ele disse com voz rouca, esfregando o dedo contra a parede. - Nunca descobri algo assim dentro de uma múmia, e enfiei meu dedo em uma porção delas.

- O que é isto? - perguntou Costas. - Algum tipo de resina, de piche?

- Não exatamente. - Os óculos de Hiebermeyer tinham escorregado pelo nariz, e ele os empurrou para cima com o mesmo dedo, deixando uma faixa escura entre os olhos. Olhou para Costas, sorridente e excitado. - Quando o inferno atingiu este lugar, os manuscritos devem ter sido carbonizados instantaneamente, mas eles deviam conter alguma coisa, um material resinoso preservativo, o que fez com que a massa carbonizada formasse uma cobertura ao redor do corpo. Esta vedou a carne e impediu a entrada do oxigênio, de modo que ela não pôde incinerar-se. Em lugar disso, ela cozinhou.

- Foi cozinhado vivo - disse Maria.

- Ele quer dizer, que este sujeito derreteu - acrescentou Jack, olhando para Costas.

- Oh, não. - Costas encostou-se à parede oposta do túnel. - E você meteu o dedo na massa.

Hiebermeyer levantou o dedo novamente, e olhou atentamente para ele com um pouco de reverência. - Isto é fantástico. Provavelmente há um pouco de cérebro aí. Seria perfeito para uma análise de DNA.

Maria tinha pouco a pouco voltado para o lugar onde estiveram os pés do homem, olhando cuidadosamente, e depois se aproximou silenciosamente de Hiebermeyer e olhou dentro da caixa torácica. - Olhe! Ele estava usando um anel de ouro! - ela exclamou. Hiebermeyer seguiu o olhar dela, reconhecendo os ossos dos dedos que estavam contorcidos debaixo da caixa torácica como se o homem tivesse estado apertando o peito nos espasmos da morte. Ele pegou um mini-lanterna Maglite, e colocou o rosto bem em cima dos ossos. - Este é um anel sinete, para pressionar sobre a cera que sela documentos. Ele está parcialmente derretido dentro do osso, mas eu posso ver o desenho. É uma gravação de uma águia.

- É um anel de sinete imperial - disse Jack. - Este sujeito deve ter estado a serviço do imperador.

- Eu não tenho certeza se este corpo pertencia a um sujeito, precisamente - Hiebermeyer murmurou, pondo-se de joelhos com a mão no quadril. - Há algo estranho a respeito desse esqueleto. Decididamente estranho. O arredondado do rosto, áreas de estrutura óssea que se espera que sejam mais desenvolvidas em um homem e um alargamento extraordinário da região pélvica. Não é exatamente uma mulher, mas não está muito longe de ser. Estranho.

- Eles não tinham eunucos? - perguntou Costas.

- É um pensamento interessante - murmurou Jack. - No início do século IV d.C., o imperador Constantino, o Grande, cercou-se de eunucos, e os últimos imperadores bizantinos fizeram a mesma coisa. Eles achavam que os eunucos eram uma escolha melhor como secretários e funcionários de Estado, provavelmente menos competitivos e ambiciosos. Alguns estudiosos pensam que o ex-escravo de Cláudio, Narciso, era um eunuco. - Fez uma pausa por um momento, depois falou novamente, quase para si mesmo. - Mas não poder ser. Narciso foi morto quando Cláudio foi envenenado, em 54 d.C. Isto ocorreu quase um quarto de século antes da erupção do Vesúvio. Deve ter havido outros eunucos em volta. Toda esta região atraiu pessoas esquisitas, aberrações que vinham aqui para divertimento dos ricos, bem como aleijados e outros desafortunados que procuravam curar-se junto aos respiradouros de onde saíam gases de enxofre nos Campi Flegrei. Este é o outro lado da vida aqui durante o período romano, não é exatamente a imagem para turistas.

- Seja quem for e o que quer que tenha sido, ele pode ter terminado como um homem liberto imperial, mas certamente começou a vida como escravo. - Hiebermeyer deslocou-se até onde terminavam os pés do esqueleto, e depois voltou para perto do ventilador centrífugo exatamente no meio da via de acesso adiante deles. - Seus tornozelos mostram as contusões características causadas por correntes, curadas anos antes. Acho que era um homem idoso quando morreu, muito velho para este período, talvez com cerca de oitenta anos ou até mesmo noventa. Mas passou por um período bastante duro muito tempo antes, talvez quando criança.

- Ele foi acorrentado, depois castrado e chegou a isto - disse Costas, com os olhos cuidadosamente afastados da massa ensebada e negra debaixo do esqueleto. - Vamos esperar que os anos durante o intervalo entre os dois eventos não tenham sido muito ruins.

- O seu fim foi provavelmente muito rápido - disse Hiebermeyer, quebrando um pouco daquele material escuro em sua espátula e colocando-o dentro de um frasco pequeno de amostra. - Ao suportar o terrível choque da rajada forte e repentina de calor e em seguida ficar com o pulmão cheio, a pessoa morre. Ele deve ter tido apenas alguns poucos segundos de consciência.

- Deve ter sabido que algo ruim estava acontecendo - disse Costas, forçando-se a olhar de novo. - Acho que o vulcão já estava em erupção há horas.

- Sim, mas o fluxo piroclástico que varreu Herculano do mapa apareceu de lugar nenhum, precipitando-se repentinamente por aquela montanha em anéis de fogo mais rápidos do que qualquer coisa que Roma jamais vira. Antes dessa investida, a erupção deve ter parecido uma catástrofe aterradora, mas não necessariamente uma sentença de morte. Depois disso foi realmente o apocalipse. Ninguém teria escapado de Herculano com vida.

Jack começou a sentir o odor do lugar, não apenas o odor familiar de poeira e velhas tumbas, mas o cheiro de morte recente, o cheiro rançoso de sangue, o odor de medo animal. Por um instante, o túnel perdeu sua solidez e se tornou um redemoinho giratório de morte que havia enclausurado este homem, um lugar claustrofóbico, aterrorizante, que momentos antes tinha sido um santuário de beleza, uma expressão suntuosa de liberdade e confiança. O lugar inteiro parecia traumatizado, ainda tremendo no pós-choque quase dois mil anos atrás. Jack fechou os olhos brevemente, depois se aproximou silenciosamente atrás de Hiebermeyer dirigindo-se para a via de acesso adiante deles. Ele olhou para trás, para o lugar onde ainda podia ver o focinho de Anúbis, que se salientava da parede lateral e que perscrutava sem ver, olhando para a luz fraca atrás, quase invisível. Podia ouvir o barulho da perfuratriz trabalhando onde a entrada do túnel estava sendo alargada, mas ainda não havia ninguém para ver. Voltou-se para a fenda escura na parede adiante.

- Você está pronto para isto? - perguntou Hiebermeyer, desligando o ventilador. Agora não se escutava barulho à frente deles, apenas o silêncio da tumba, e até mesmo o barulho distante da perfuratriz havia parado. Jack olhou para o rosto encardido a poucos centímetros dele, o rosto de um homem que num piscar de olhos podia ter sido um menino. - Você se lembra de quando estávamos na escola, quando enchemos aquele celeiro com artefatos feitos em casa e depois o lacramos, fingindo que era a tumba do faraó Tutankamon? Eu era Howard Cárter, você era Lord Caernarvon.

- Não. - Hibermeyer sacudiu sua cabeça decididamente. - Foi ao contrário. Você era Caernarvon, eu era Cárter.

Jack sorriu, depois olhou à frente, o rosto coberto de excitação. - Certo. Vamos entrar.





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