O último Evangelho David Gibbins



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CAPÍTULO 2
Maurice Hiebermeyer recostou-se contra a parede da galeria ofegando pesadamente algumas vezes e olhou para o buraco grosseiro a sua frente. Ele não seria derrotado. Se o rei Carlos de Nápoles conseguira, com toda aquela barriga, supondo-se que houvesse tal rei, então ele também conseguiria. Novamente ele se ergueu sobre as mãos e os joelhos, dirigiu sua headlamp (lanterna de cabeça) para o buraco e impulsionou o corpo à frente, seu capacete batia contra o teto e as saliências entalhadas o feriam por toda parte.

Mais uma vez ele se deitou no chão para descansar, preso como uma rolha numa garrafa. As coisas não estavam boas. Olhou pelo vidro sujo de seus óculos para a nuvem de poeira que ele havia criado no túnel além do lugar onde se encontrava. Teriam de conseguir uma britadeira, alargar o buraco. Isto significaria mais demoras, mais frustração. Já estavam atrasados duas semanas com a programação, dias que passaram andando e transpirando na sala de espera da superintendência enquanto a burocracia avançava lentamente para liberar sua permissão. Um tempo precioso que ele quase não podia permitir-se perder, com a sua escavação em pleno ritmo no deserto oriental.

Então ele o viu.

Arfou e sussurrou em seu alemão nativo. - Mein Gott. Não, não pode ser. - Estendeu a mão e sentiu a superfície lisa. Um focinho. - Sim, era. - Deixou cair a mão, e olhou assombrado.



O deus guardião da morte.

Poucos passos adiante, a parede cinzenta e mosqueada do túnel do século XVIII havia caído para formar uma cavidade rasa, não mais do que trinta centímetros de profundidade. No centro havia uma cabeça aparecendo, preta e envolta em poeira, mas inequívoca, as orelhas apontando para cima e o focinho projetando-se desafiadoramente. Era aquele que andava através das sombras e espreitava nos lugares sombrios, o guardião do véu da morte.

Hiebermeyer olhou fixamente para os olhos cegos rodeados pela linha grossa desenhada com kohl, depois fechou os olhos bem apertados e silenciosamente movimentou os lábios falando o nome. Aqui, no limiar do desconhecido, num lugar de terror inimaginável e de morte, onde aqueles que viveram por último verdadeiramente viram os fogos do inferno. Anúbis. Abriu os olhos novamente, e viu três linhas verticais de hieróglifos estendendo-se abaixo do peito da estátua, o texto reconhecível instantaneamente. Um homem permanece do outro lado depois da morte, e seus feitos são colocados empilhados ao lado dele. A existência no além, dura por toda a eternidade, e aquele que a alcança sem más ações existirá no além como um deus. Hiebermeyer olhou fixamente atrás da estátua para o negrume vazio do túnel à frente. Por um instante breve e bizarro, teve pena de todos eles, os antigos que depositaram tais esperanças no mundo do além, cujos sonhos desintegrados sobre a vida depois da morte se tornaram seu próprio reino da morte. Hiebermeyer sentiu, não pela primeira vez, que estava em uma missão, que a sua verdadeira vocação como arqueólogo era trazer para aqueles que estavam no limbo algo semelhante com a imortalidade que haviam desejado tão intensamente.

- Maurice - uma voz amortecida veio de detrás dele.

- Maria.

- Relaxe por um momento.

Houve um grande solavanco e ele foi lançado à frente, caindo desajeitado ao longo da cascata de fragmentos de rocha que enchiam a entrada do túnel. Começou a tossir violentamente e pulou rapidamente para trás da marca de poeira onde tinha estado contorcido. Fez uma careta, puxou completamente as pernas, depois se inclinou com as costas retas no túnel estreito.

- Sinto muito. - O rosto de uma mulher apareceu no buraco, com um capacete amarelo e usando óculos e uma máscara contra poeira, seu longo cabelo preto preso atrás. A voz era forte e suave, falava inglês com um leve acento de espanhol. - É sempre melhor abordar as pessoas inesperadamente, eu acho. Se Você ficar tenso, a reação é pior.

- Você fez isso com freqüência?

- Eu estive em alguns buracos em algumas ocasiões. - Ela deslizou sem esforço pelo túnel e deitou-se ao lado dele, seus corpos preenchiam exatamente a largura do túnel com muito pouco espaço para ficarem eretos. - Espero que você ainda esteja intacto. Algumas contusões pareciam melhores do que um outro parecer para o gabinete da superintendência.

- É precisamente o que eu acho. - Hiebermeyer esfregou a perna esquerda com cuidado. - A autorização só nos permite seguir este velho túnel, não escavar novos. Mesmo alargar aquele buraco criado pelo terremoto seria uma transgressão criminosa. É uma loucura. - Ele olhou atentamente para trás através da poeira. - Não que eles tenham percebido o que estamos fazendo agora.

- Eles logo se darão conta.

Hiebermeyer resmungou, depois ergueu seus óculos de segurança e olhou para Maria com os olhos cheios de muco enquanto limpava as lentes. - De todo modo, eu desfrutei do nosso tempo juntos no gabinete. Um curso impactante, dado por uma especialista mundial, sobre manuscritos medievais. Fascinante. E eu estava prestes a ler para você minha tese de doutorado sobre as disputas romanas iniciadas pelo imperador Cláudio no Egito.

Maria suspirou. - Supõe-se que você esteja em seu elemento aqui, Maurice. No subterrâneo, quero dizer. Lembra-se? Eu estava a bordo do Seaquest quando Jack recebeu a chamada, depois que houve o terremoto aqui. Arrume um egiptólogo, ele disse. Alguém acostumado com catacumbas, a fazer covas no chão, o Vale dos Reis e tudo mais.

- Ah, o Vale dos Reis - Hiebermeyer suspirou. Ele observou quando Maria se moveu para trás até sua cabeça ficar a centímetros do focinho do chacal. - Mas você está certa. Estou em meu elemento agora. É fabuloso. Nós temos um novo amigo.

- Hein?


- Vire-se. Lentamente.

Maria fez como lhe foi indicado, depois soltou um grito curto e jogou-se para trás. - Díos mio. Oh, meu Deus.

- Não se preocupe. É apenas uma estátua.

Maria estava esticada contra a entrada do túnel, mas bastante distante para poder perceber tudo o que tinha sido revelado. - É um cachorro - ela sussurrou. - Um lobo. Com um torso de homem. - Ela inclinou-se para a frente e olhou cuidadosamente de perto. - Não é possível - ela murmurou. - Hieróglifos? Esta coisa é egípcia?

- Anúbis - Hiebermeyer disse de maneira casual. - Uma estátua em tamanho natural do deus egípcio da morte, em esteatita preta. Os hieróglifos são uma cópia das Instruções de Merikare, rei da décima dinastia, um texto do terceiro milênio a.C. Mas aquele motivo ornamental na superfície inferior é uma inscrição real da vigésima sexta dinastia, do século VI a.C. Não ficaria surpreso se isto viesse da capital real em Sais, no delta do Nilo.

- Isto me faz lembrar de algo - disse Maria. - O ateniense Sólon visitando o Sumo Sacerdote. O local onde ele registrou a história da Atlântida.

- Você tem passado algum tempo com Jack.

- Eu sou professora assistente da Universidade Marítima Internacional agora, lembra? Exatamente como você. É como se nós todos tivéssemos voltado à escola novamente. Jack me contou a história toda à bordo do Seaquest na nossa viagem de volta do Yucatán. Fantástico. Eles têm planos para voltar e encontrar um naufrágio grego que viram perto do local, um trirreme, eu acho.

Hiebermeyer resmungou. - Quero que Jack me dedique algum tempo. Consegui algo muito melhor para ele. Supõe-se que seja nossa função, fornecer-lhe quaisquer indícios novos. Estou tentando dizer-lhe isto há meses. - Ele suspirou exasperado, depois olhou para a estátua. - Mas voltemos para o que temos aqui. O historiador grego Heródoto visitou Sais e descreveu um lago do lado de fora do Templo de Neith, um santuário rodeado por estátuas como esta, faraós e deuses trazidos de lugares antigos de todo o Egito. Por volta do período romano, a cidade de Sais estava cheia de lodo e abandonada, mas ela teria sido acessível aos navios romanos e foi despojada de toda sua estatuária e pedras preciosas.

- Você está dizendo que esta estátua foi pilhada?

- Eu prefiro a palavra transferida. Os romanos que construíram esta vila tiveram acesso a grandes obras de arte de todo os lugares do Mediterrâneo e além, de muitas culturas diferentes de um período bem anterior na história. Eles eram exatamente como os colecionadores particulares ou curadores de museus de hoje. Algumas das melhores estátuas gregas de bronze que foram encontradas vieram desta vila, encontradas a apenas alguns metros de nós quando bons mergulhadores abriram caminho para entrar no século XVIII. Alguns romanos compararam Anúbis com Cérbero," guardião do rio Estige, mas para muitos romanos ele era uma figura de escárnio, que late, um cachorro. Esta estátua deve ter sido uma antiguidade, uma curiosidade, vista como um trabalho de arte divertido e nada mais.

- Eu não sei - disse Maria baixinho. - Ela parece estar olhando para nós, metade dentro e metade fora da história, exatamente como um guardião. - Ela olhou atentamente para Hiebermeyer. - Alguma vez você foi supersticioso, Maurice? Estou pensando na tumba do faraó Tutankamon, a maldição da múmia, coisas assim?

- Não. - Hiebermeyer falou asperamente. - Eu sou um mero arqueólogo.

- Ora, Maurice. Você deve pelo menos ter ficado impressionado com isto. Lembre-se de quando éramos estudantes universitários, e você falava o tempo lodo sobre isto. Admita.

Hiebermeyer olhou para a cabeça do chacal, e permitiu-se um raro sorri-l,u estou impressionado. É claro que estou. Isto é maravilhoso. Mal posso esperar para ver o restante da inscrição. - Ele pressionou a palma da mão contra a esteatita polida, depois olhou para o túnel. - Mas eu realmente penso que este é o fim do caminho. Esta estátua deve ter sido revelada no abalo sísmico da noite passada, e devemos ser os primeiros a vê-la. Mas outros chegaram até aqui no túnel antes de nós, antes que ele fosse vedado para aprontá-lo para a nossa chegada. O pessoal da segurança local teria estado aqui quando o primeiro terremoto abriu o túnel. Se eles encontraram algo é provável que já esteja no mercado negro agora. Duvido que vamos encontrar mais alguma coisa.

- Não posso acreditar que você seja tão cínico. - Maria parecia genuinamente ofendida. - Eles nunca teriam permitido isto. Você se esqueceu de onde nós estamos? Na Vila do Papyri em Herculano, o maior tesouro não escavado na Itália. Enterrado pela erupção do Vesúvio em 79 d.C., redescoberta pelos reis Bourbon de Nápoles no século XVIII, e depois quase nunca mais foi feita alguma escavação. Esta é a única biblioteca de manuscritos em rolos de papiro que sobreviveu da Antiguidade, no entanto todos sabem que a maior parte dela deve permanecer aqui para ser encontrada, selada por estas paredes. Você não deixa simplesmente qualquer um entrar aqui e surrupiá-la.

- Também é um dos maiores desapontamentos em arqueologia - disse Hiebermeyer. - Quase todos os manuscritos desenterrados são de Filodemo, um filósofo de terceira classe sem significado duradouro. Nenhuma grande obra de literatura, quase nada em latim. - Recolocou os óculos. - Você não se pergunta por que a vila nunca foi completamente desenterrada?

- Por uma série de razões. Questões estruturais. A escavação pode arruinar gradativamente as construções modernas que se situam acima do local. Recursos necessários para a manutenção da escavação existente, a principal parte de Herculano já foi revelada. Burocracia. Falta de fundos. Você pode escolher.

- Tente de novo.

- Bem, existem grandes problemas no que se refere à melhor maneira de conservar e ler os papiros carbonizados. Você se lembra de nossa visita à oficina do papiro em Nápoles. Eles ainda estão trabalhando no material encontrado no século XVIII. E precisam encontrar a melhor maneira de desenterrar um novo material e de recuperar o maior número de manuscritos que possa existir. Isto requer o melhor. É um local sagrado.

- Precisamente. - Hiebermeyer estalou os dedos. - A última coisa que você disse. Um local sagrado. E como outros locais sagrados, como as cavernas dos Manuscritos do Mar Morto, em Israel, as pessoas anseiam por encontrar o que há lá dentro, no entanto elas também receiam. E, acredite-me, há um grupo de pessoas muito poderosas na Itália que preferiria não encontrar mais nenhum registro escrito do primeiro século d.C.

Naquele momento, a poeira no ar pareceu toldar a visão e eles sentiram alguns tremores palpáveis, seguidos por um som como que provocado por algo feito de alvenaria caindo em algum lugar à frente. Maria apoiou as mãos no chão do túnel e olhou alarmada para Hiebermeyer. Ele rapidamente puxou um aparelho do tamanho de uma palma com um pino e apertou-o contra a parede do túnel, observando a leitura atentamente enquanto o tremor cedia. - Um choque secundário, um pouco maior do que aquele na noite passada, mas provavelmente nada com que precisamos nos preocupar - ele disse. - Avisaram-nos para esperar por isso. Lembre-se de que as paredes ao nosso redor são de lama piroclástica solidificada, não como a cinza e as pedras-pomes que caíram em Pompéia. A maior parte delas é mais dura que concreto. Provavelmente estaremos salvos.

- Posso ouvir os outros, se aproximando atrás de nós - disse Maria baixinho.

- Ah, sim. A misteriosa senhora da superintendência. Você sabe que ela é uma velha amiga de Jack? Depois de Cambridge. Por alguma razão, eles não conversam. Posso ver a luz agora. Bom comportamento.

- Não, eu não sabia - Maria retrucou calmamente, depois olhou para o focinho. - Certamente, Anúbis vai deixá-los boquiabertos.

- Provavelmente Anúbis irá parar o projeto todo - disse Hiebermeyer. - Ele será aclamado como uma grande descoberta, uma justificação para sua decisão de explorar o túnel. Será o suficiente para eles retirarem a permissão para a escavação e selar o túnel. A única razão pela qual estamos aqui é que alguém vazou a descoberta do túnel para a imprensa depois do terremoto, e as autoridades não tiveram escolha senão montar um show para a imprensa.

- Você está sendo cínico outra vez.

- Acredite-me. Tenho participado deste jogo há muito tempo. Existem forças muito maiores em jogo aqui.

- Então, vamos aproveitar a chance enquanto ela está ao nosso alcance - disse Maria. - Você encontrou o seu tesouro, agora preciso achar o meu.

Hiebermeyer guardou o oscilador no bolso da frente do seu macacão, espirrou fazendo muito barulho e depois olhou atentamente para Maria. - Posso ver o que Jack viu em você. Ele sempre disse que você poderia se tornar alguém especial, se você saísse de Oxford e viesse trabalhar com ele.

Maria lhe lançou um olhar destruidor, depois rastejou adiante até ficar bem atrás da estátua. A poeira estava se depositando, e adiante deles podiam apenas distinguir um remendo branco onde um outro fragmento da parede do túnel tinha sido arrancado pelo tremor. Quando os feixes de suas headlamps se concentraram na parede quebrada, eles puderam ver algo no centro. Hiebermeyer se arrastou para frente e voltou-se para Maria, o rosto brilhando de excitação. - Ok, passamos por Anúbis, e ainda estamos só com uma peça.

- Superstição, Maurice?

- Vamos adiante.

CAPÍTULO 3
23 de agosto de 79 d.C.
O velho bebeu um gole de vinho, segurando a taça com mãos trêmulas, depois cerrou os olhos e agarrou o pilar até que o pior do espasmo passasse. Nesta noite ele iria aos Campi Flegrei, ficar diante da gruta da Sibila pela última vez. Mas havia trabalho a fazer antes disso. Ele balançou para um lado por cima do banco de mármore, agarrando violentamente sua toga para impedi-la de escorregar, depois deu um passo em falso e caiu pesadamente sobre os cotovelos. Seu rosto se contorceu de dor e de frustração, desejoso de lágrimas que não vinham mais, fazendo esforços para vomitar sem ter nada para isso. Na verdade, estava fingindo. Ele não sentia quase mais nada.

Levantou-se e olhou com seus olhos cobertos de muco para a lua que agora estava tremeluzente no outro lado da grande extensão da enseada, depois para as estátuas dos deuses egípcios e gregos que se alinhavam no pórtico da vila. A estátua mais próxima dele, aquela com cabeça de cachorro, parecia emoldurar a montanha, o nariz e o focinho brilhando ao luar. De sua localização vantajosa no belvedere da vila, podia ver os telhados das casas na cidade que ele conhecia profundamente, mas que nunca tinha visitado, Herculano. Ele podia escutar o tinido e os sons baixos da atividade do final da tarde, a elevação e a diminuição da conversa, o soar de risos e de música ligeira, as ondas batendo na praia.

Ele tinha tudo de que necessitava. Vinho das rampas do Vesúvio, um magnífico vinho vermelho que descia como xarope, sempre o seu favorito. E moças, trazidas para ele das escuras ruelas abaixo, moças que ainda lhe proporcionavam um prazer fugaz, anos depois que parou de ponderar sobre o que isso causava a elas. E ele tinha a papoula.

Inalou e enrugou o nariz, e depois olhou para cima. Os adivinhos estavam certos. Havia algo no céu naquela noite.

Olhou para o outro lado da enseada, para o oeste, passando pela antiga colônia grega de Neapolis em direção à base naval em Misenum, no distante promontório ao lado do mar aberto. A sombra da montanha escurecia a enseada, e tudo o que ele podia distinguir eram alguns navios mercantes ancorados perto da costa. Estava habituado a procurar a fosforescência deixada na esteira das galeras rápidas, mas nesta noite não podia ver nada. Onde estava Plínio? Será que recebera a sua mensagem? Ele sabia exatamente o que o comandante da frota romana em Misenum fazia. A esquadra não tinha saído para uma ação desde que o avô do velho, Marco Antônio, havia sido derrotado na batalha de Actium, mais de um século antes. Pax Romana. O velho assentiu para si mesmo. Ele, Cláudio, havia ajudado a manter aquela paz. Olhou para trás, para o cântaro meio vazio sobre a mesa. Era melhor Plínio chegar logo. O que ele tinha para dizer nesta noite requeria uma cabeça clara. Estava ficando tarde.

Estendeu a mão para verter mais vinho em sua taça, deixando o vinho transbordar e gotejar sobre a mesa para se juntar com a grande mancha vermelha que tinha permeado o mármore com o passar dos anos. Podia rever seu pequeno quarto e a fileira de imagens de cera arrumadas ao longo da parede, iluminadas pelo luar. Imagens ancestrais, as únicas coisas que salvara de seu passado. Seu pai Druso, lembrado com prazer. Seu amado irmão Germânico. Com sua pele cor de cera, Cláudio sentia que já era idêntico a eles. Estava velho, Velho bastante para ter vivido do começo ao fim a Era de Augusto, a Idade de Ouro maculada para sempre pela devassidão de Tibério, Calígula e Nero. Algumas vezes, em seus momentos mais tristes, geralmente depois de beber vinho, ele sentia que o tempo o transformara em um monstro, assim como arruinara Roma, não por causa de alguma deformidade horrenda, mas por uma devastação lenta e inexorável, como se os deuses que lhe tinham imposto a doença, a paralisia, estivessem fazendo com que ele suportasse o tormento até o último limite nesta vida, antes de o atirar dentro dos fogos do inferno.

Ele sacudiu-se para sair deste transe, tossindo dolorosamente e olhou por cima do balcão da vila novamente, para os telhados das casas de Herculano. Quando fingira o seu envenenamento e escapado de Roma, seu velho amigo Calpúrnio Piso tinha bloqueado completamente um anexo para sua vila e feito uma casa para ele aqui, seu refúgio por quase um quarto de século, de onde podia contemplar do alto o mar e a montanha. Ele sabia que devia ser mais agradecido, mas sempre experimentava irritações. O avô de Calpúrnio havia sido um protetor do filósofo grego Filodemo, cuja biblioteca repleta de absurdos que não mereciam ser lidos estava sempre atrapalhando. E depois o pobre Calpúrnio fora forçado a cometer suicídio, aqui, diante de seus próprios olhos, depois de sua fracassada conspiração contra Nero, deixando a vila a um sobrinho rancoroso que nem mesmo sabia quem Cláudio era, que achava que ele era apenas mais outro grego charlatão que parecia suplicar sua entrada em cada casa aristocrática por ali. Era o anonimato, ele pensou, mas era também a humilhação máxima.

Mas ele tinha memórias, uma se impondo sobre todas as outras. A memória de um pescador que encontrara dentro de uma embarcação, numa parte do mar afastada da orla, durante urna tarde, e que permanecera todos aqueles anos desde então. A promessa que Cláudio fizera a ele. Tudo que o pescador predissera havia acontecido. Agora, forças além do controle de Cláudio estavam se fechando sobre ele. Cláudio não se deixaria ser abatido.

- Ave, Princeps.

Cláudio ergueu-se com ímpeto. - Plínio? Meu caro amigo. Eu lhe disse para parar de me chamar desse jeito.

O outro homem entrou rapidamente e ajudou Cláudio a voltar para sua cadeira, pegando sua taça e enchendo-a. Ele a passou para Cláudio e encheu uma para si, segurando-a formalmente. - Que os deuses o saúdem no seu nonagésimo aniversário.

- Isto foi há três semanas. - Cláudio fez um gesto com a mão recusando-se a levado a sério, depois olhou para o outro homem com afeto. Plínio era alto, o que não era habitual para um romano, mas ele viera de Verona, no norte, terra dos celtas. Em lugar de uma toga, usava uma túnica vermelha ornada e botas amarradas com correia de um oficial naval, e aparentava obstinação. Ele era tudo o que Cláudio mais admirava, um veterano de guerra condecorado, um líder natural, um erudito prodigioso. Cláudio agarrou seu punho para parar sua gagueira. - Você me trouxe seu livro?

- Os primeiros vinte volumes. - Plínio apontou orgulhosamente para um baú de couro ao lado da porta, colocado cuidadosamente longe do vinho, cheio até a borda com manuscritos. - Alguns detalhes sobre a flora e a fauna da Grã-Bretanha eu quero verificar com você, e também o espaço em branco que você me pediu para manter na seção sobre a Judéia. Fora isso está completo. A primeira história natural do mundo não escrita por um grego.

Cláudio fez um gesto em direção às estantes quase vazias na sala, depois para os manuscritos que jaziam em pacotes no chão. - Pelo menos agora consegui espaço para guardá-los. Narciso tem me ajudado a encaixotar estes outros livros. Eu nunca consegui jogar fora livro algum, e nunca tive coragem de contar para o velho Calpúrnio, mas estes livros escritos por Filodemo não valem o papel em que foram escritos.

- Onde você quer que eu os ponha? Os meus livros, quero dizer. Posso colocá-los na estante para você.

- Deixe-os onde estão, perto da porta. Narciso vai abrir espaço na minha biblioteca amanhã. Os seus terão um espaço de honra. Todo este contra-senso grego será removido.

- Narciso ainda faz toda a sua escrita para você?

- Ele se castrou, pobre companheiro, para poder me servir, você sabe. Foi quando ele era menino, um jovem escravo. Eu ia libertá-lo de todo modo.

- Eu nunca confiei completamente em Narciso, você sabe - disse Plínio com bastante cuidado.

- Você sempre pode confiar em um eunuco.

- Isto sempre foi o seu calcanhar de Aquiles, se posso me expressar assim. Esposas e servos libertos.

- Aquiles é uma coisa que eu definitivamente não sou. Eu posso ser um deus, mas não sou Aquiles. - Cláudio abafou uma risadinha, depois se tornou sério. - Sim, Narciso é um tanto misterioso. Eu às vezes penso que sua desistência em ser comandante da Guarda em Roma para se tornar pouco mais que um escravo de um velho eremita deve ter sido duro de suportar, participar do meu próprio ato de desaparecimento. Mas Nero o teria executado se ele também não fingisse a lua morte. Narciso tem sido sempre um companheiro perspicaz, e ele tem seus próprios interesses em negócios, você sabe, principalmente na Grã-Bretanha. E sua religião, aquela tolice estranha que ele adquiriu quando era escravo. Ele é um sujeito muito devoto. E sempre foi muito leal a mim. - Cláudio sorriu de repente, moveu-se de maneira não muito firme, e pegou no braço de Plínio. - Obrigado pelos seus livros, meu amigo - ele disse calmamente. - Ler sempre foi minha maior alegria. E haverá neles muita coisa para me ajudar com a minha própria história da Grã-Bretanha. - Apontou para um manuscrito aberto sobre a mesa e preso com alfinetes, uma das extremidades manchada com vinho. - É melhor começarmos a trabalhar enquanto eu ainda tenho um pouco de senso comum. Foi um dia longo.

- Eu posso perceber.

Os dois homens se debruçaram ao mesmo tempo sobre a mesa, o matiz do luar naquela noite dava ao mármore uma coloração vermelha. O calor que fazia não era típico de um final de agosto, e a brisa que soprava sobre o balcão era quente e seca como o siroco que algumas vezes chegava com força da África. Cláudio às vezes se perguntava se Plínio, o grande enciclopedista, não estava apenas lisonjeando-o ao solicitar seu conhecimento especializado sobre a Grã-Bretanha, um triunfo sem valor, se se podia considerá-lo como tal. Cláudio havia estado lá, é claro, tinha se livrado das ondas geladas, transportado por um elefante treinado para combate, pálido e trêmulo, não por medo do inimigo, mas aterrorizado de que pudesse ter uma tontura e cair, provocando desonra para o nome de sua família. No entanto, a Grã-Bretanha era a sua única façanha imperial heróica, consistia no seu único triunfo e ele tinha se dedicado a escrever uma história da província dos primeiros tempos. Tinha lido tudo o que havia para ler sobre o assunto, desde o diário do antigo explorador Píteas, o primeiro a dar a volta na ilha, até os horríveis relatos sangrentos de algumas tribos selvagens, que tiravam a cabeça de seus inimigos como troféu, história que seus legionários extraíram dos druidas antes que estes fossem executados. E ele a tinha encontrado, a princesa de uma família nobre, a moça que Sibila lhe havia dito para procurar, aquela que seria a rainha guerreira.


- Diga-me - Cláudio falou repentinamente. - Você viu meu pai em um sonho?

- Foi por isso que escrevi minha Histórias das Guerras Germânicas - replicou Plínio, repetindo a história que contara para Cláudio várias vezes antes. - Foi quando eu estava estacionado no Reno, comandando um regimento de cavalaria. Acordei uma noite e um fantasma estava parado perto de mim, um general romano. Era Druso, eu juro. O seu venerado pai. Ele estava me obrigando por compromisso a defender sua memória.

- Ele morreu antes mesmo de eu conhecê-lo. - Cláudio olhou de soslaio para o busto de seu pai na sala, depois apertou as mãos com angústia. – E envenenado, como meu querido irmão Germânico. Se pelo menos eu tivesse sido capaz de viver à altura de seu legado, de conduzir as legiões como Germânico, de ganhar a confiança dos homens.

- Mas você o fez - disse Plínio, olhando ansioso para Cláudio. - Lembre-se da Grã-Bretanha.

- Eu lembro. - Cláudio curvou os ombros e sorriu abatido. - Este é o problema. - Começou a mexer numa moeda na mesa, uma antiga moeda romana de prata com seu retrato nela, virando-a repetidas vezes. Era um hábito nervoso que Plínio o havia visto repetir com muita freqüência, mas ele a deixou escapar de seus dedos e ela rolou em direção aos manuscritos perto da porta. Cláudio suspirou irritado e pareceu querer levantar, mas depois afundou-se na cadeira e olhou melancolicamente para suas mãos. - Eles construíram um templo para mim na Grã-Bretanha, você sabe. E estão construindo um anfiteatro agora, você sabia? Em Londinium. Eu o vi quando viajei incógnito neste verão, quando fui até a tumba dela.

- Não me conte sobre isto novamente, Princeps, por favor - disse Plínio. - Isto me provoca pesadelos. E Roma? Sua realização em Roma? Você construiu muitas coisas maravilhosas, Cláudio. O povo se sente agradecido.

- Não que alguém vá vê-las - disse Cláudio. - Elas são todas subterrâneas, debaixo da água. Eu lhe contei sobre o meu túnel secreto debaixo do monte Palatino? Bem debaixo de minha casa. Apolo ordenou-me construí-lo. Eu resolvi o enigma com as folhas, na gruta da Sibila. Deixe-me ver se consigo lembrá-lo.

- E Judéia - disse Plínio rapidamente. - Você proporcionou uma tolerância universal para os judeus, através do império. Você deu para Herodes Agripa o reino da Judéia.

- E depois ele morreu - murmurou Cláudio. - Meu caro amigo Herodes Agripa. Mesmo ele foi corrompido por Roma, por meu desprezível sobrinho Calígula.

- Você não teve escolha - continuou Plínio. - Não tendo ninguém para substituir Herodes, você precisou fazer de Judéia uma província.

- E deixá-la ser governada por oficiais venais e vorazes. Afinal, Cícero chamou a atenção, um século atrás, acautelando sobre a administração na província. As lições da história - Cláudio acrescentou amargamente. - Veja como eu as aprendi.

- A revolta judaica era inevitável.

- Irônico, não é? Quinze anos depois que Roma concede tolerância universal para os judeus, ela mesma faz tudo o que pode para erradicá-los da face da Terra.

- Os deuses assim o desejaram.

- Não eles não quiseram. - Cláudio tomou um longo gole segurando o copo com mãos trêmulas. - Lembra-se do templo sobre o qual me falou em sua última visita? Aquele que Vespasiano erigiu em Roma? Para o Cláudio deificado. Eu também sou um deus agora, lembra? Eu sou um deus, mas este deus não quer a destruição dos judeus. Você está escutando isto dito por uma autoridade divina.

Plínio enrolou rapidamente o manuscrito e deslizou-o dentro de uma bolsa de couro ao lado da mesa, longe dos respingos de vinho, depois, de maneira hesitante, puxou um outro. - Você vai me contar alguma coisa sobre a Judéia. Num outro dia?

- Não, agora.

Plínio sentou-se bem equilibrado com um indicador pontudo de metal sobre o pergaminho, ávido e determinado. Cláudio olhando atentamente para a escrita no pergaminho, o espaço vazio no meio. - Diga-me, então. Esta nova seita judaica. O que você pensa dela?

- Foi por isso que eu o chamei aqui. - Cláudio respirou profundamente. - Os seguidores daquele ungido. O messias, o christos. E sei deles por causa da minha visita aos Campi Flegrei. As pessoas que moram ali são exatamente o tipo de pessoa que ele quer que o sigam. O aleijado, o enfermo, os proscritos. Pessoas que almejam a felicidade tão desesperadamente que seu anseio se torna contagiante, levando outros a encontrar seu próprio alívio dos fardos da vida, sua própria salvação.

- Como você sabe de tudo isto?

- Porque eu sou um deles.

- Você é um deles? - Plínio pareceu incrédulo. - Você é um judeu?

- Não! - Cláudio zombou, a cabeça movendo-se para um lado com um estalido. - Um aleijado. Um proscrito. Alguém que foi até ele em busca de cura.

- Você foi ver esse homem? Mas eu pensei que você nunca tinha viajado para o leste.

- Foi tudo obra de Herodes. Meu querido amigo Herodes Agripa. Ele tentou me ajudar, me levar embora de Roma. Havia ouvido falar de um fazedor de milagres na Judéia, um nazareno, um homem que diziam ser descendente do rei David dos judeus. Esta foi a minha única viagem para o leste. O calor tornou tudo pior.

- Então a viagem foi em vão.

- Com exceção de algumas horas num lago. - Cláudio subitamente exibiu um olhar distante em seus olhos. - A cidade de Nazaré fica ao lado de uma grande massa de água no interior do país, o mar de Kineret como a chamam, ou mar da Galiléia. Não é composto de água salgada, sabe, mas é realmente um vasto lago, e se situa a vários estádios abaixo do nível do mar.

- Fascinante. - Plínio estava anotando rapidamente. - Conte-me mais.

- Ele era um carpinteiro, um condutor de barco. Herodes e eu, juntamente com nossas mulheres, saímos com ele em seu barco, pescando, bebendo vinho. Eu estava com a minha amada Calpúrnia, longe das garras de minha mulher. Éramos todos mais ou menos da mesma idade, homens e mulheres jovens, e eu até constatei uma exuberância que pensava que nunca poderia experimentar. Derramei vinho no lago e ele brincou sobre transformar água em vinho e pescar o peixe daquele jeito.

- Mas não houve milagre.

- Depois de pescar nos sentamos na praia até o sol se pôr. Herodes se tornou impaciente, e foi para a cidade em busca de prazer. O nazareno e eu ficamos sozinhos.

- O que ele disse?

Ele disse que eu devia suportar minha desgraça, que ela me protegeria e me impulsionaria para uma grandeza que eu mal poderia imaginar. Eu não tinha idéia do que ele estava falando, para mim, Cláudio o aleijado, o embaraçoso sobrinho do imperador Tibério, quase não tolerado em Roma, escondido e ao qual era negado um cargo público enquanto todos os outros jovens encontravam glória com o comando das legiões.

- Ele viu um erudito e um futuro imperador - murmurou Plínio. - Ele conhecia o seu destino, Princeps. Ele era um homem sagaz.

- Não acredito em destino. E lá vem você novamente. Princeps.

Plínio rapidamente dirigiu-se a ele novamente. - E o que aconteceria com o próprio futuro do homem? O nazareno?

- Ele falou do seu futuro. Disse que um dia desapareceria no deserto, então o mundo todo chegaria a conhecê-lo. Eu o adverti para não ser subjugado pela trama pegajosa daqueles que desejariam explorá-lo e enganá-lo. Este foi o meu conselho para ele. Nazaré era um lindo lugar fora do caminho, e eu não sei se ele percebia então o que os homens são capazes de fazer. Duvido que ele jamais tenha visto uma crucificação.

- E Herodes Agripa?

Herodes ainda estava conosco quando o nazareno disse que não queria ter nem intermediários nem intérpretes. Herodes usava uma palavra grega para eles, apóstolos. Herodes era um homem impassível e objetivo, um companheiro querido. Ele não tinha interesse nas visões do nazareno, mas podia ver que eu tinha ficado abalado, e estava orgulhoso de mim. Herodes resolveu que, se chegasse ao poder, toleraria o nazareno.

- Mas esse homem foi executado, não é? - disse Plínio.

- Crucificado em Jerusalém. No último ano do reinado do meu tio Tibério. O nazareno havia me dito que iria oferecer a si mesmo como um sacrifício. Se ele realmente previu sua própria execução, sua crucificação, é um outro assunto. O homem que eu encontrei não desejava morrer. Estava cheio de alegria de viver. Mas nós falamos sobre as antigas lendas de sacrifício humano entre os semitas, os judeus. Ele conhecia sua história, como atingir seu povo. Acho que o sacrifício que ele tinha em mente era simbólico.

- Fascinante. - murmurou Plínio distraidamente. - O mar de Kineret, você disse? Não o mar Morto? Este mar é notavelmente salgado, eu creio. - Ele estava escrevendo no último espaço estreito que havia deixado em seu manuscrito, mergulhando sua pena num pote de tinta que tinha colocado ao seu lado. - Isto vai constituir um esplêndido acréscimo ao meu capítulo sobre a Judéia. Obrigado, Cláudio.

- Espere. Há mais coisas. - Cláudio levantou-se e mancou oscilando até a estante onde a biblioteca de Filodemo estivera, empurrando para o lado os poucos manuscritos que restavam no meio da estante e alcançando um esconderijo escuro atrás. Ele voltou cambaleando até a mesa, sentou-se pesadamente e passou para Plínio um pequeno tubo de madeira, para guardar manuscritos.

- Aqui está - Cláudio arquejou. - Isto é o que quero que fique com você.

- Acácia, eu não deveria me surpreender. - Plínio aspirou o odor da madeira. - O que os judeus chamam sittim, a árvore mirrada que cresce ao longo das costas do leste. - Ele tirou a rolha do tubo e procurou cuidadoso dentro dele, tirando um pequeno manuscrito de cerca quadrado de trinta centímetros de lado. Ele amarelecera com o tempo, embora não tanto como os manuscritos em papiro de Filodemo, e um pouco da tinta havia cristalizado e manchado a superfície. Plínio segurou a folha perto do nariz e aspirou a tinta. - Provavelmente não é sulfato - ele murmurou. - Embora seja difícil dizer, há muito enxofre no ar hoje em dia.

- Você também o sente? - perguntou Cláudio. - Pensei que fosse só eu, trazendo-o de volta de minhas visitas aos Campi Flegrei.

- Betume. - Plínio cheirou a tinta de novo. - Betume, sem dúvida alguma.

- Isto faz sentido - disse Cláudio. - Um alcatrão oleoso se ergue para a superfície ao redor de todo o lago de Kineret. Eu o vi.

- Realmente? - Plínio escreveu uma nota na margem do texto. - Fascinante. Você sabe que eu venho fazendo experiências com tinta? Meu administrador alexandrino enviou-me alguns galhos excelentes, cortados de uma espécie de árvore na Arábia. Você sabia que elas são formadas artificialmente por insetos minúsculos que exalam o fel? É muito extraordinário. Eu os esmago e misturo com água e resina, depois adiciono ferro e sais de enxofre que encontro nas praias de Misenum. Isto dá uma tinta maravilhosa, uma cor preto-azeviche e que não borra. Eu estou escrevendo com ela agora. Dê uma olhada. Muito melhor do que este material inferior, fuligem oleosa e cola de pele animal. Não deveria me admirar. Eu gostaria que as pessoas não a usassem. Seja o que for este escrito, temo que ele não dure tanto tempo como os escritos bombásticos de Filodemo.

- Este manuscrito foi tudo que encontrei. - Cláudio tomou um gole de vinho e limpou a boca com as costas da mão. - Usei quase toda a minha tinta que levei na viagem para o leste.

- Você escreveu isto?

- Eu forneci o papel, e aquela preparação que é aceita como tinta.

Plínio desenrolou o papiro e o alisou sobre um tecido que havia colocado sobre a desordem pegajosa da mesa. O papiro estava coberto com uma bela escrita, nem grego nem latim, linhas fluentes com singular talento artístico, compostas com mais cuidado do que seria o caso para alguém acostumado a escrever com freqüência. - O nazareno?

Cláudio contraiu-se. - No final do nosso encontro, à margem do lago naquela noite. Ele queria que eu levasse embora o manuscrito para mantê-lo a salvo até uma época adequada. Você lê aramaico?

- É claro. Você me ensinou com habilidade a linguagem fenícia, e creio que elas são similares. - Plínio examinou cuidadosamente o escrito. No final havia um nome. Ele leu rapidamente as linhas imediatamente acima. - Ah, eu percebo.

- Deixe-o de lado - disse Cláudio, estendendo o braço e agarrando o pulso de Plínio. - Mantenha-o em segurança, o lugar mais seguro que puder encontrar. Mas transcreva aquelas linhas finais em sua História natural. Agora é chegado o tempo.

- Você fez cópias?

Cláudio olhou para Plínio, depois para o manuscrito, e subitamente sua mão começou a tremer. - Olhe para mim. O paralítico. Nem posso escrever meu próprio nome. E para fazer uma cópia disto eu não confio em copista, nem mesmo Narciso. - Ele levantou-se, pegou o manuscrito e foi até um nicho escuro repleto com folhas de papiro e antigas tabuletas de cera ao lado da estante de livros, depois com dificuldade ajoelhou-se dando as costas para Plínio. Tateou de maneira desajeitada durante alguns minutos, levantou-se e voltou-se, com um recipiente cilíndrico de pedra em suas mãos. - Estes vasos vêm de Sais no Egito, você sabe disse ele. - Calpúrnio Piso os roubou do Templo de Neith quando saqueou o local. Aparentemente, eles estavam repletos com antigos manuscritos egípcios antigos, escritos com hieróglifos, mas ele os queimou todos. O velho tolo. - Colocou o jarro de lado, depois pegou uma travessa de bronze com alças que continha uma substância preta e segurou-a sobre uma vela, com as mãos sem vacilar. O ar se encheu com uma incrível fragrância aromática, que por um breve instante disfarçou o enxofre. Colocou a travessa de lado novamente, pegou uma espátula de madeira e espalhou a resina ao redor da tampa do recipiente, deixou-a esfriar por um momento, e depois entregou o cilindro para Plínio. - Aí está. Ele está selado, como eu fui instruído nas folhas, de acordo com o augúrio divino.

- Este documento - persistiu Plínio. - Por que é tão urgente?

- É porque o que ele predisse aconteceu. - Cláudio estremeceu novamente, agarrando de maneira ostensiva a mão para fazê-la parar de tremer. - O nazareno conhecia o poder da palavra escrita. Mas ele disse que nunca mais escreveria novamente. Disse que um dia sua palavra viria a ser considerada como uma espécie de expressão sagrada. Disse que seus seguidores pregariam sua palavra como um mantra divino, mas o tempo iria distorcê-la e algumas pessoas procurariam usar sua versão das palavras para seus próprios fins, para se promover no mundo dos homens. Ele estava rodeado por iletrados em Nazaré. Queria que um homem erudito ficasse com sua palavra escrita.

- As palavras escritas de um profeta - murmurou Plínio. - Usualmente, esta é a última coisa que um clero deseja. Ela os priva de trabalho.

- É por isso que a absurda Sibila fala por enigmas. - Cláudio disse, excitado. - Apenas os adivinhos podem interpretar sua palavra. Que absurdo.

- Mas por que eu? - insistiu Plínio

- Porque eu não posso publicar isto. Supõe-se que eu morri um quarto de século antes, lembra-se? Mas, agora que a sua História natural está quase terminada, a publicação é perfeita. Você tem autoridade. As pessoas irão ler seu livro por toda parte. O seu trabalho é um dos maiores jamais escritos, e irá sobreviver Roma em muito. Uma fama imortal aguardará aqueles cujos feitos são registrados por você.

- Você me lisonjeia, Princeps. - Plínio inclinou-se visivelmente satisfeito. - Mas eu ainda não entendo completamente.

- O nazareno disse que primeiro suas palavras necessitariam de outros para pregá-las. Mas chegaria um tempo em que as pessoas estariam prontas para receber sua palavra diretamente, quando haveria suficientes convertidos pela palavra para espalhá-la de um para outro, quando poderiam dispensar os professores. Ele disse que esse tempo chegaria enquanto eu estivesse vivo. Ele disse que eu saberia quando.

- Um concilium - murmurou Plínio. - Eles estão formando um concilium, um clero. Era sobre isto que ele estava advertindo.

- Nos Campi Flegrei. Eles usam esta exata palavra. Concilium. Como você sabe?

- Porque eu a ouvi falada entre os meus marinheiros em Misenum.

- Eu lhe contei sobre aqueles nos Campi Flegrei, os seguidores de christos - continuou Cláudio. - Cada vez mais gente está indo para a congregação de fiéis, o concilium. As pessoas já estão falando sobre um kyriakum boma, uma Casa do Senhor. Já há discordância, já existem facções. Alguns dizem que Jesus disse isto, outros, aquilo. Eles já estão falando por enigmas. Está se tornando sofisma, como em Filodemo, como com a Sibila. E há homens que chamam a si mesmos de padres, patres.

- Padres - Plínio murmurou. - Mais propriamente, homens entre os quais nenhum sabia do que sabemos agora.

- Enquanto eu ainda era imperador de Roma, um deles veio aqui, um apóstolo judeu da cidade de Tarso chamado Paulo. Eu estava disfarçado, indo fazer uma de minhas visitas a Sibila, e ouvi-o falar. Ele encontrou seguidores nos Campi Flegrei, muitos que ainda permanecem lá hoje em dia. No entanto, nenhuma dessas pessoas conhecia o nazareno, nem mesmo Paulo, nenhuma delas o tocou como eu fiz. Para elas, o homem que eu conheci já era uma espécie de deus. - Cláudio fez uma pausa, depois olhou atentamente para Plínio. - Este manuscrito deve ser preservado. Ele será sua derradeira influência, pelo que você escreve na História natural.

- Eu o manterei a salvo.

- E o pior. - Subitamente Cláudio abaixou o olhar desesperado. - A papoula me faz falar, faz minha mente divagar, me faz dizer coisas das quais nunca me lembro em seguida. Eles sabem quem eu sou. Cada vez que eu saio agora, eles parecem aparecer saindo da névoa, procurando me alcançar.

- Você deve ser mais cuidadoso, Princeps - murmurou Plínio.

Eles virão aqui. Todo o trabalho de minha vida, todos os meus manuscritos. Eles destruirão tudo. É por isso que preciso dá-lo a você. Não confio em mim.

Plínio pensou durante um instante, depois pegou o manuscrito da História Natural que tinha estado escrevendo e colocou-o na prateleira de livros. - Eu voltarei para buscar este manuscrito amanhã. Estará seguro aqui por uma noite, e eu vou acrescentar mais coisas sobre a Judéia, qualquer coisa a mais que você puder me contar. Eu voltarei. Há mais alguém que eu preciso visitar aqui ao entardecer. Talvez até mesmo esta noite. Tenho estado desejando por ela há muito tempo. Quer se juntar a mim?

- Algumas vezes eu me utilizo delas. Mas, nestes dias, penso cada vez mais em minha querida Calpúrnia. Tais prazeres fazem parte do passado para mim, Plínio.

- Hoje vou pegar minha galera rápida e ir direto para Roma - disse Plínio. - Estarei de volta pela manhã. Depois que encontrá-lo novamente, farei o mesmo acréscimo sobre a Judéia em minha versão principal, depois vou enviá-la para os escribas de Roma copiarem - ele murmurou, metade para si mesmo. - A História Natural ficará pronta por fim. A edição final. A menos que você possa me contar mais coisas sobre a Grã-Bretanha. - Pensou durante um momento, tamborilando os dedos sobre a mesa, depois bateu de leve no cilindro que Cláudio lhe dera e colocou-o numa bolsa sob sua toga. - E acho que conheço o lugar exato para guardar isto. - Pensou por mais um momento, tirou o manuscrito da prateleira, colocou-o sobre a mesa, pegou o indicador pontudo de metal que usava para escrever e escreveu algumas linhas, novamente pensou por um momento, borrou as linhas com o dedo, depois fez uma nota na margem. Cláudio observava, e resmungou sua aprovação. Plínio deixou as duas extremidades do manuscrito se enrolarem até se encontrarem e o recolocou rapidamente na prateleira, experimentando uma necessidade súbita de ir embora. Naquele momento, ouviu-se um som de pés se arrastando na via de acesso, algo que poderia ser uma pancada, e apareceu um velho inclinado, vestido com uma simples túnica e carregando dois mantos de lã.

- Ah, Narciso - disse Cláudio. - Eu estou pronto.

- Você vai até a Sibila? - perguntou Plínio.

- A última vez. Eu prometi.

- Então uma última coisa, Princeps.

- Sim?


- Eu faço isso por você como amigo, e como companheiro historiador. É o meu trabalho apresentar os fatos como eu os conheço, e não esconder nada.

- E...?


- Você? Por que é tão importante para você? Esse nazareno?

- Eu sou muito leal aos meus amigos. Você sabe disso. E ele era um deles.

- Meus marinheiros falam de um reino do céu na terra, que pessoas com bondade e compaixão podem encontrá-lo. Você acredita nisto?

Cláudio começou a falar, hesitou, depois olhou diretamente para o rosto de Plínio, os olhos úmidos e subitamente marcados com sulcos pelos anos. Ele estendeu o braço e tocou o de seu amigo, depois deu um pequeno sorriso. - Meu caro Plínio. Você se esquece de que eu sou um deus? Os deuses não necessitam de céu.

Plínio sorriu de volta, e inclinou-se. - Princeps.




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