O último Evangelho David Gibbins



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CAPÍTULO 18
Quando faltavam cinco minutos para onze horas, na manhã seguinte, Jack conduziu Costas através da Praça de São Pedro no Vaticano, guiando-o em direção à Ufficina Scavi, o escritório de escavações arqueológicas, no lado sul da basílica. Tinham voado de Londres naquela manhã, no avião Embraer da IMU, chegando ao aeroporto Leonardo da Vinci bastante afastados do exame público, e Jack tinha certeza de que não estavam sendo seguidos. A vasta extensão da praça e a seqüência de colunas ao redor faziam com que a multidão de turistas e de peregrinos parecessem anões, e eles passaram de maneira tão imperceptível quanto podiam. Quando se aproximaram da Ufficina, Jack começou a examinar os rostos ao redor deles, procurando algum sinal, algum reconhecimento. Não tinha idéia do que deveria esperar. Depois, saindo do nada, um jovem se pôs a andar ao seu lado, vestido de modo casual com jeans e usando óculos de sol. - Doutor Howard? - o jovem perguntou em voz baixa. Jack olhou para ele, e assentiu com um gesto de cabeça. - Por favor, siga-me. - Jack olhou para Costas, e seguiram o homem quando ele avançou com passos largos. Depois de passar a Ufficina, ele se aproximou da Guarda Suíça na entrada do Arco delia Campane, e mostrou sua carteira de identidade. - Estes são os meus dois convidados - ele disse em italiano. - Um passeio particular. - O guarda fez um gesto de concordância e ergueu o seu rifle automático para deixá-los passar. Cruzaram a pequena praça, e depois entraram no anexo sul das Grutas debaixo da Basílica de São Pedro. Na terceira sala, o jovem lhes fez um sinal para esperar, e depois se encaminhou para uma porta trancada. - Nós não seremos perturbados - ele disse em inglês. - A Ufficina fechou esta parte das Grutas para mais um trabalho de escavação. Esperem aqui. - Pegou uma série de chaves e abriu a porta, entrando por ela e deixando sozinhos Jack e Costas, subitamente envoltos pelo silêncio e pelas antigas paredes.

- Você tem alguma idéia do que está acontecendo? - perguntou Costas baixinho, a voz nasalada por causa do resfriado. - Tem alguma idéia de onde estamos?

- Em primeiro lugar, o seu palpite é tão bom quanto o meu. Em segundo, estas paredes são virtualmente tudo o que foi deixado da basílica anterior, aquela construída pelo imperador Constantino, o Grande, depois que ele se converteu ao cristianismo no início do século IV d.C. Antes disso, aqui era um circo romano, uma pista de corridas. E por onde o nosso guia desapareceu é a entrada de uma necrópole, uma rua mausoléu desbastada na rocha, datada do primeiro século d.C., descoberta quando as escavações começaram aqui nos anos 1940. A grande descoberta da tumba de são Pedro, a nossa frente, debaixo do Alto Altar.

A porta se abriu e o jovem reapareceu. Deu para Jack e para Costas uma vela e as acendeu com um isqueiro. - Aonde você vir uma vela no chão, vá direto, mas apague-a e leve-a com você - ele sussurrou. - Há doze degraus para descer, depois você verá uma outra vela através de outra porta. Passe por ela, e feche a porta atrás de si. Estarei esperando lá por vocês. Vão.

Costas parecia atormentado. - Nós vamos descer ao subterrâneo de novo, Jack?

- Isto é bem o tipo de coisa de que você gosta. Uma cidade dos mortos.

- Ótimo.

Jack fez uma pausa, olhou para o jovem durante um momento, decidiu não falar, depois fez um gesto com a cabeça assentindo e dirigiu-se para a porta, com Costas atrás dele. Passaram pela porta, que foi imediatamente fechada atrás deles. Estava escuro como breu, a não ser pelas velas e um brilho apagado em algum lugar mais adiante. Do lado de fora estava quente e seco, mas ali o ar era frio e úmido enquanto eles desciam, um pouco bolorento. Jack mostrava o caminho, descendo cuidadosamente os degraus até que alcançaram um chão de pedra áspera. Podiam ver que o brilho adiante era de uma vela no chão. Depois de alcançá-la, Jack fez como lhe fora instruído, apagando-a com os dedos e pegando-a, depois virou à direita e desceu outro lance de escadas, entrando em uma câmara escavada na rocha, evidentemente um antigo mausoléu despojado de seus conteúdos havia muito tempo. No fundo da câmara, à esquerda, havia uma porta com superfície de pedra que se abria para dentro da rocha, e, através dela, puderam ver outro foco distante de luz. Passaram através dela, e Jack empurrou a porta para trás até que se fechasse, ajustando-se sem emenda na rocha, como se fosse uma via de acesso secreta.

- Incrível - murmurou Jack, olhando ao redor sob a luz tremeluzente da vela, percebendo os nichos e as decorações das paredes. - Esta é uma catacumba. O mausoléu pelo qual acabamos de passar originalmente ficava acima do chão durante o período romano, uma rua de tumbas. Mas esta parte interior deve ter sido sempre subterrânea, desbastada na rocha viva. O Vaticano nunca revelou isto antes.

- Isto me faz pensar nas outras coisas que eles nunca revelaram - murmurou Costas.

Jack deu um passo à frente, percebendo de cada lado dele imagens, inscrições, pinturas. Parou ao lado de uma, e segurou a vela à frente. - Assombroso - sussurrou. - Está intacta. As catacumbas estão intactas, os sepulcros ainda estão aqui.

- Era exatamente o que eu queria saber - disse Costas.

- Os túmulos ainda estão lacrados, cobertos com gesso calcinado. Olhe, esta inscrição é legível. In Pace. - Jack balbuciou. - Isto é do antigo cristianismo, do cristianismo muito antigo. Data de uma época bem anterior a Constantino, o Grande. Um lugar de sepultamento secreto, usado quando os cristãos em Roma eram proscritos, perseguidos. Este é um achado fantástico. Não posso entender por que não o tornaram público.

- Talvez tenha algo a ver com isto. - Costas estava de novo à frente agora, não distante da vela no chão, e cuidadosamente Jack foi até onde ele se encontrava. - Esta é uma área elevada, coberta com telhas de cerâmica - disse Costas. Caminhou ao longo do lado esquerdo da via de acesso e agachou-se ao lado da vela.

- É uma tumba - disse Jack baixinho. - Algumas vezes são encontradas no chão das catacumbas, bem como ao longo das laterais. Às vezes eram as mais importantes.

- Jack, acho que estou alucinando. Estou tendo um flashback. Aquele déjà vu que você teve em Roma. Talvez seja um efeito retardado do nitrogênio.

- O que é?

- Aquela telha. Debaixo da vela. Há uma inscrição rabiscada nela. Ou eu estou vendo coisas ou é uma palavra idêntica a uma que vimos antes.

Jack moveu-se pouco a pouco até chegar atrás de Costas. Podia distinguir os rabiscos ao redor da beirada da telha, como uma grinalda de gavinhas de videira. No centro, viu o que fizera Costas estremecer. Era um nome, inequívoco, um nome que eles tinham visto antes rabiscado em cerâmicas como esta, em um antigo navio naufragado e a centenas de milhas distante dali, perdido por quase dois mil anos, nas profundezas do mar Mediterrâneo. O nome de um homem, escrito em latim.
PAULUS.
Seria possível? Jack olhou ao redor, viu a amplitude da passagem, as outras tumbas se amontoando neste lugar, mas não sobre ela, como se quisessem ficar muito perto de Paulo, em reverência. Viu símbolos cristãos por toda parte, uma pomba apenas visível na parede ao seu lado, um peixe, a fórmula cristã repetida várias vezes, in pace. E então, quando Costas movimentou sua vela sobre a telha,

Jack viu levemente rabiscado ao lado do nome o símbolo Qui-Rô. O sinal de Cristo. Não havia dúvida a respeito.

- A tumba de são Paulo - ele disse em tom incrédulo, descansando a mão sobre uma telha. - São Pedro e são Paulo, enterrados no mesmo lugar, ad catacumbus, exatamente como diz a tradição.

- É isso mesmo.

Jack deu um passo atrás, amedrontado. Era uma outra voz, uma voz que vinha de um nicho sombrio oposto a eles, na parede ao lado da cabeceira da tumba. Podia distinguir apenas a sotaina sobre as pernas, mas não a parte superior do corpo. A voz era autoritária, e tinha uma certa aspereza, o inglês apresentava um leve sotaque, possivelmente do leste da Europa. - Não tente se aproximar de mim. Por favor, apaguem as velas. Sentem-se no banco de pedra atrás de vocês. - Jack parou por um segundo, depois fez um gesto a Costas, e fizeram como foi instruído. A única fonte de luz agora era a da vela na tumba, e todo o resto ficou reduzido a sombras bruxuleantes e escuridão. A outra figura se deslocou ligeiramente, e eles puderam discernir apenas uma cabeça coberta com capuz, mãos colocadas sobre os joelhos. - Eu os convoquei hoje aqui dentro do maior segredo. Queria que vissem o que acabaram de ver.

- Quem é você? - perguntou Costas.

- Você não saberá meu nome, nem quem eu sou - repetiu o homem. - Não pergunte outra vez.

- Esta é verdadeiramente a tumba de são Paulo? - perguntou Jack.

- Esta é - o homem repetiu.

- E a Igreja de San Paulo Fuori le Mura? - indagou Jack.

- A tradição diz que ele foi enterrado ali, em um vinhedo - replicou o homem. - Ele, de fato, foi levado para lá depois de sua morte, mas foi secretamente trazido de volta para cá para reunir-se a Pedro, no lugar de seu martírio.

- Isto é verdade, então - murmurou Jack.

- Eles foram martirizados juntos pelo imperador Nero, no circo construído neste lugar por Calígula. Pedro foi crucificado de cabeça para baixo, e Paulo foi decapitado. Os romanos martirizaram os dois maiores pais da Igreja inicial, e ao fazer isso os imperadores pagãos ajudaram a trazer a Santa Sé para este lugar. In nomine patri, filii et spiritu sancti, amen.

- Você nos trouxe aqui para nos mostrar isso? - perguntou Jack.

Houve uma pausa, e o homem se deslocou de novo. A vela sobre a tumba vacilou, alongando a sombra de maneira que, durante alguns momentos, ele ficou completamente obscurecido, depois a chama queimou ereta outra vez. - Você já deve saber, a essas alturas, que o imperador romano Cláudio fingiu o seu próprio envenenamento, e sobreviveu em segredo durante muitos anos além do final de seu reinado em 43 d.C.

Jack olhou atentamente dentro da sombra, sem saber o quanto revelar. - Como você sabe disto?

- Ao lhe contar o que estou prestes a revelar, eu ponho à prova o meu vínculo com a santidade da Igreja. Mas assim será. - O homem fez uma pausa, e depois estendeu a mão e pegou das sombras ao seu lado, e ergueu, um antigo volume encadernado em couro que colocou sobre o colo. Podiam agora ver suas mãos, finas, mãos com dedos longos que tinham realizado muito trabalho físico pesado, mas não conseguiam ainda ver o rosto do homem. - Em 58 d.C., são Paulo veio do leste para a Itália, sobrevivendo ao famoso naufrágio do navio durante o caminho. Isso se passou como foi contado nos Atos dos Apóstolos, exceto que o naufrágio do navio foi na Sicília e não em Malta.

Costas olhou de maneira interrogativa para Jack, que lhe devolveu um olhar vivo. Nenhum deles falou.

- São Paulo veio em primeiro lugar para a baía de Nápoles, para Misenum, e se reuniu com irmãos cristãos que encontrou aqui, como foi contado nos Atos - disse o homem calmamente, quase sussurrando. - Depois da crucificação, este foi o evento mais importante na história inicial do cristianismo. Paulo foi o primeiro a tomar a palavra de Jesus além dos judeus, o primeiro verdadeiro missionário. Quando Paulo deixou Misenum e foi para Roma, aqueles que primeiro ele instruiu chamaram a si mesmos um concilium, o concilium ecclesasticum Sancta Paula.

- O concílio da Igreja de São Paulo - murmurou Jack.

- Eles eram em número de três, e permanecem sendo três hoje.

- Hoje? - perguntou Jack, grandemente surpreso. - Esse concilium ainda existe?

- Durante gerações, por quase três séculos, o concilium foi uma organização secreta, um pilar de força para a Igreja quando ela estava lutando por sua sobrevivência, enquanto o cristianismo ainda era uma religião subterrânea. No início houve um lugar de encontro secreto nos Campi Flegrei, perto de Misenum, e eles assumiram o controle da gruta da Sibila em Cumas, depois que a última das sibilas desapareceu. Mais tarde, quando o cristianismo se firmou, o concilium mudou para Roma, para estas catacumbas onde estamos sentados agora, para o lugar onde o corpo martirizado de são Paulo foi sepultado em segredo por seus seguidores depois de decapitado, próximo ao lugar do sepultamento santificado de São Pedro.

- E esse concilium tem se reunido aqui desde então? - perguntou Costas.

- Na época de Constantino, o Grande, o concilium havia aumentado em número, com a participação de membros de cidades de lado a lado do Império Romano. Mas, à medida que o número de participantes aumentava, a sua força e propósito enfraqueciam. Com a conversão do Império Romano sob Constantino, no século IV, os chefes do concilium viram seus propósitos decair e se dispersar, e lacraram a catacumba de são Paulo. Sua localização foi perdida, e só foi redescoberta durante a escavação da necrópole depois da Segunda Guerra Mundial. Somente a partir daí esta câmara se tornou de novo um local de reunião.

- O concilium foi recriado nos tempos modernos - perguntou Jack.

- Não. Ele foi reativado por Constantino, o Grande, perto do final de seu reinado. Ele reconstituiu o concilium no seu número original, com três participantes, e no maior dos segredos. Ele próprio era um, o fundador. Constantino tinha feito um grande investimento ao converter a nação para o cristianismo. Como estadista, como soldado, ele via a necessidade de defender a Igreja contra todos os que chegavam, de criar um conselho de guerra que enviaria soldados para lutar em nome de Cristo, que não mostrariam clemência diante do Diabo, que não seguiriam nenhum regulamento. Durante séculos, o concilium repeliu a mais perniciosa das heresias, aquelas que a Ufficina, a Inquisição da Santa Sé, foi incapaz de derrotar. Lutaram contra aqueles na Grã-Bretanha que procuravam arruinar gradativamente a autoridade da Igreja, os adeptos de Pelágio, perseguindo-os, destruindo-os, assim como suas obras, enviando o próprio Pelágio para o fogo do Inferno. Lutaram contra os protestantes depois da Reforma, uma guerra secreta de terror e assassinato que quase destruiu a Europa. Em sua raiva contra o demônio, ordenaram a destruição dos maias e dos astecas e dos incas, temendo uma profecia da antiga Sibila que profetizou uma escuridão vinda do oeste.

- E esses eram homens de Deus - disse Costas.

- Eles eram crentes, e acreditavam, sobretudo, na santidade e no poder da Igreja, na Igreja como o único caminho para a salvação e o Reino dos Céus - disse o homem. - Constantino, o Grande, era um estadista astuto. Sabia que a sobrevivência da Igreja dependia de lealdade completa e inabalável, de fé na igreja como o único caminho para Deus. No seu concilium recriado, ele encontrou seus perfeitos executores.

- Você pode provar tudo isso? - perguntou Costas.

O homem ergueu ligeiramente o livro para que pudessem vê-lo. - Está tudo aqui. Os registros do concilium ecclesiasticum Sancta Paula. Um dia o mundo ficará sabendo. A história será reescrita.

- O que isto tem a ver com Cláudio? - perguntou Jack.

O homem se inclinou ligeiramente adiante, e a luz da vela tremulou no contorno indistinto do seu rosto. - Esta é a maior ameaça que o concilium jamais enfrentou, e seu maior medo. Esta é a razão pela qual eu os trouxe aqui. Vocês e sua equipe estão sujeitos aos mais graves perigos, muito diferentes que aqueles que podem conceber.

- Sabemos como é olhar para a boca do cano de uma Beretta 93R com um silenciador - disse Costas. - Dentro de uma caverna debaixo do monte Palatino.

- Ele tinha instruções para não atirar - replicou o homem.

- Então, talvez o concilium deva empregar companheiros de crime mais obedientes - disse Costas em voz baixa.

- Como você soube? - perguntou Jack. - Como o concilium soube que estávamos em Roma? - O homem ficou silencioso e Jack persistiu. - Havia alguém escutando no túnel em Herculano? Era a inspetora, a doutora Elizabeth D'Agostino?

- Sabemos que ela falou com você fora da vila.

- Como você sabe?

- Há espiões por toda parte.

- Mesmo a bordo do Seaquest?

- Você precisa fazer todo o possível para encontrar o que está procurando e para revelar sua descoberta ao mundo antes que eles cheguem até você - disse o homem. - Assim que souberem onde está o que você busca, eles farão tudo que estiver em seu poder para destruí-lo. Fiz tudo o que pude, mas não posso detê-los por mais tempo.

- Por que você quer nos ajudar? - perguntou Jack.

O homem fez uma pausa. - Deixe-me primeiro contar-lhes sobre Cláudio. - Abriu o livro no início. Eles podiam ver com dificuldade a antiga escrita, com notas explicativas e nitidamente escrita com mãos diferentes, mas similar à página da História natural de Plínio que tinham encontrado em Herculano, porém em piores condições e mais manchada, como se tivesse sido manuseada repetidas vezes. - Esta página narra detalhadamente a criação do concilium, o original, no primeiro século d.C. - disse o homem, fechando o livro novamente e colocando as mãos em cima dele. - Um dos três primeiros membros era um homem chamado Narciso, um ex-escravo do imperador Cláudio.

- Meu Deus - murmurou Jack.

- O eunuco? Nós o encontramos - disse Costas. - Deitado de atravessado perto da porta de entrada para o estúdio de Cláudio. Parecia que estava entrando, procurando por alguma coisa. Ele ficou um pouco chamuscado.

- Ah. - O homem ficou quieto por um momento. - Vocês encontraram a sala dele. Durante quase dois mil anos tentamos descobri-la.

- Acho que agora eu adivinho o que Narciso estava fazendo ali - murmurou Jack.

- Como vocês sem dúvida sabem, Narciso era, havia muito tempo, o praepositus ab epistulis, o escriba, de Cláudio - disse o homem. - Quando Cláudio resolveu desaparecer de Roma, ele também planejou o falso envenenamento de Narciso para que este pudesse acompanhar seu mestre para o seu refúgio em Herculano, e ajudá-lo com seus livros. Mas, depois de 58 d.C., houve outro motivo para Narciso ficar. Ele sempre acompanhava Cláudio em suas visitas noturnas para a gruta da Sibila, onde Cláudio procurava uma cura para a sua paralisia. Narciso devia conhecer os cristãos que se escondiam nos Campi Flegrei e ele mesmo se converteu depois de encontrar São Paulo. Narciso já sabia que Cláudio tinha ido para a Judéia quando era jovem, que havia se encontrado com Jesus e retornado com o precioso documento. Paulo nunca tinha se encontrado com Jesus, e ficou espantado em saber que algo da mão do messias pudesse ter sobrevivido. Instruiu Narciso para que encontrasse e levasse o documento para ele em Roma, seu próximo destino. A história apossou-se de Paulo, é claro, e ele foi martirizado e Narciso nunca encontrou a oportunidade de ficar sozinho no estúdio do seu mestre por tempo suficiente para procurar o documento. Mas o clamor pelo documento cresceu entre os irmãos nos Campi Flegrei, e espalhou-se a palavra até Misenum de que Cláudio era um ungido, que ele tinha tocado em Cristo. Os outros dois membros do concilium viram a ameaça que isto colocava, uma ameaça contra a Igreja, e imploraram a Narciso para encontrar o documento, para destruí-lo. Eles acreditavam que o documento era falso, uma heresia, uma fábula sonhada por Cláudio. Finalmente, uma noite, Narciso deixou Cláudio na gruta da Sibila e voltou para Herculano, com a intenção de pôr fogo no estúdio e queimar todos os livros. Aquela noite foi a de 24 de agosto de 79 d.C.

- Quando todo o resto desapareceu em chamas, exceto aquela sala - murmurou Costas.

- O concilium não tinha jeito de saber se Narciso tinha tido sucesso ou não. Mas, com o desaparecimento de Herculano durante a erupção, a ameaça parecia ter-se extinguido para sempre - disse o homem. - O documento, o falso evangelho, foi recordado como herético, como a primeira de muitas falsificações que tinham a intenção de derrubar a Igreja, e como a primeira das muitas batalhas que foram ganhas pelo concilium. Então, mais de mil anos depois da queda de Roma, os reis Bourbon de Nápoles começaram a escavar o sítio de Herculano, e uma verdade agourenta foi revelada. A cidade de Herculano não tinha sido destruída na erupção. Ela tinha sido milagrosamente preservada. Pior ainda, um dos primeiros locais a ser explorado foi a Vila de Calpúrnio Piso, a Vila dos Papiros, que o concilium sabia que tinha sido o esconderijo de Cláudio. Em seguida, muito pior ainda, os livros começaram a ser encontrados, manuscritos carbonizados, mas alguns deles ainda legíveis. O concilium não teve escolha a não ser agir. Durante mais de dois séculos, o concilium tem feito tudo em seu poder para prevenir explorações posteriores em Herculano, na Vila dos Papiros. Tem usado quaisquer meios a sua disposição. Infiltrou-se no meio de autoridades arqueológicas, no serviço do museu, na polícia, na máfia. A corrupção em Nápoles não seria tão desenfreada se o concilium não quisesse que fosse assim, o poder do submundo não seria tão grande se ele não o apoiasse. O concilium tem toda a riqueza e os recursos da Igreja à sua disposição, mais do que o suficiente para escavar inteiramente a cidade de Herculano, ou impedir sua escavação para sempre. Ou é assim que eles pensam. Exatamente como em 79 d.C., uma catástrofe natural interveio de novo. O terremoto do mês passado revelou aquele túnel que tinha sido lacrado no século XVIII, aquele que podia abrigar mais manuscritos, que levava à sala de Cláudio. De repente, com toda a imprensa do mundo presente, não havia mais maneira de impedir uma investigação. O trabalho do Diabo podia ainda tornar-se público. Foi quando vocês foram chamados à cena.

- Puxa! - Costas tinha se sentado apoiado na tumba, depois subitamente percebeu o que tinha feito e deu um pulo, limpando o gesso. - Isto explica algumas coisas.

- Isto não explica quem é você, e como resolveu contar estas coisas - disse Jack. - Você é um membro do concilium?

Houve um silêncio, e em seguida o homem falou novamente. - Durante muitos anos fui missionário jesuíta. Uma vez, em uma canoa no lago Petén, no Yucatán, eu vivi uma manifestação divina, uma experiência reveladora. Quando se está na água, o movimento dela parece, ao mesmo tempo, concentrar e libertar a mente, até que se chega a não pensar em nada a não ser naquilo que se está experienciando, as sensações do momento. - O homem fez uma pausa, e Jack assentiu com a cabeça, sentindo que este podia ser um homem em quem podia confiar. - Comecei a pensar em Jesus no mar da Galiléia. Comecei a pensar que o mar era seu Reino dos Céus, que sua mensagem para os outros era que aquele Reino podia ser encontrado, do mesmo modo que ele havia encontrado. Que o Reino dos Céus se encontra na Terra.

- Como esta experiência o fez se desviar do concilium? - perguntou Jack.

- Ame o seu próximo, porque é mais fácil que odiá-lo. Ofereça a outra face, porque é mais fácil do que resistir. Liberte sua mente de tais preocupações, e concentre sua energia na descoberta do Reino dos Céus. Esta era a mensagem de Jesus. O concilium tinha uma causa sagrada, mas não prestava atenção a esse chamado. A procura por heresia, por blasfêmia, se tornou completamente desgastante, e o objetivo do cristianismo foi perdido. Os seus métodos se tornaram mórbidos. E agora há um entre os três membros que se dirigiu para uma região remota e escura, como já aconteceu com outros no passado. O Diabo atingiu sua meta e arrastou-o para dentro de seu rebanho.

- Quem é ele? E como você sabe sobre nós?

- Vocês já chamaram a atenção do concilium antes. Aquele de quem eu falo também era membro da fraternidade nórdica que preservava o segredo do tesouro perdido do Templo dos judeus, o félag, o companheiro.

- E foi quem assassinou o padre Patrick O'Connor - disse Jack severamente.

- Meu amigo e um notável erudito. Assassinado cruelmente e sem necessidade em nome da Igreja, parece.

- Os instrumentos usados pelo concilium sempre foram insensíveis. Mas agora eles recrutaram forças das trevas bem além do alcance de Deus. - O homem fez uma pausa e mergulhou no meio das sombras, sua voz agora era pouco mais que um sussurro. - O padre O'Connor era meu amigo. Era o outro iniciado, anos atrás, que encontrou este lugar comigo, a tumba de são Paulo. Investigou muito profundamente um passado que o concilium não queria que fosse revelado. Ele sabia acerca deste livro que eu seguro agora em minhas mãos. Acreditava que a vida de um cristão devia ser uma vida de verdade. E eu também acredito.

- Você pôs sua vida em risco - disse Jack.

- Tenho feito tudo que posso para proteger vocês. Você deve jurar manter segredo de tudo que eu disse até que eu possa me revelar. Tenho que continuar a trabalhar no interior, no lugar onde eu me encontro. E você deve compreender. Onde a verdadeira palavra de Jesus for encontrada, o concilium se regozijará. Onde a palavra provar ser falsa, como eles acreditam que possa ser, então os cães de guerra serão soltos para devorar aqueles que a transmitirão, aqueles que espalharão tal blasfêmia. Vocês devem ser cuidadosos. Não tentem me encontrar novamente. Agora vão.
Meia-hora mais tarde, Jack e Costas estavam sentados no alto sobre o topo do telhado ao lado da abóbada da São Pedro, espirrando água e deixando-se penetrar pelo sol da tarde enquanto olhavam para a grande Praça Bernini lá embaixo. Além das amplas colunas dispostas em semicírculo que rodeavam a praça, eles podiam distinguir o Castelo Santo Angelo, o antigo mausoléu dos imperadores romanos ao lado do rio Tibre, e, mais ao sul, podiam ver o coração da antiga cidade, o Capitólio e o monte Palatino. Costas reclinou-se sobre os cotovelos, o rosto inclinado e os olhos fechados atrás de seus óculos de sol de grife. - Considerando tudo, eu prefiro ficar no alto que no subterrâneo - ele murmurou.

- Acho que já tive o suficiente de lugares subterrâneos úmidos. - Olhou atentamente para Jack. - Você confia nesse sujeito?

- O que ele disse nós já tínhamos adivinhado, e o resto se ajusta perfeitamente.

- Não confio em ninguém que envia um outro para me apontar uma arma, desertor ou não.

- O momento crítico vai ser quando e se realmente encontrarmos algo.

- Ou se ficar claro que não vamos encontrar - disse Costas. - Eu não posso imaginar que queiram nos ver contar nem a metade desta história. A lista crítica se torna maior com cada nova pessoa que comprometemos nisto, Jack. Heibermeyer e Maria devem estar no topo da lista. Jeremy foi visto conosco, por aquele sujeito que nos deu a mensagem em Londres. Só Deus sabe o que mais foi ouvido sem que saibamos, quando conversávamos na catedral. Deveríamos ter sido mais cuidadosos.

- O sujeito que eu conheço na Reuters se encontra à distância de um telefonema apenas.

- Não há uma evidência sólida, Jack. Esse concilium pode ser uma completa invenção de nossa imaginação. E qualquer repórter investigativo vai pensar duas vezes antes de aceitar uma informação como esta. - Ele mostrou com o polegar a abóbada atrás deles.

- Nós simplesmente temos que confiar que o homem lá embaixo seja realmente quem diz que é - murmurou Jack. - E que Jeremy consiga algo em Londres.

Costas resmungou, e deitou-se. Jack ainda estava repetindo de memória o que tinham ouvido. Tinham mais uma hora para esperar antes que chegasse o táxi que os levaria para o aeroporto, e ele falara pelo celular com os Hiebermeyer e seu antigo mentor, o professor Dillen, informando-os sobre os últimos acontecimentos, passando cuidadosamente em torno das desmedidas revelações que lhes haviam sido feitas havia pouco. Muitas peças do quebra-cabeça tinham se ajustado, mas ele estava apenas começando a registrar a enormidade da dificuldade com a qual tinham de lidar. Concentrou-se na vista que se descortinava abaixo deles. Era alguma coisa para desviar o seu pensamento, sabendo que não havia nada que pudessem fazer, não havia indícios que pudessem seguir até que Jeremy esgotasse todos os possíveis caminhos de averiguação na Inglaterra. - Alguns dias atrás você me perguntou acerca do tamanho do navio de são Paulo - ele disse a Costas, guardando o celular no bolso. - Dê uma olhada no centro da praça.

Costas se ergueu, e olhou por cima do parapeito. - O obelisco?

- Trazido do Egito para cá pelo imperador Calígula, para decorar a parte central do circo que havia neste local, o lugar onde Pedro e Paulo foram executados - disse Jack. - Tem vinte e cinco metros de altura e pesa pelo menos duzentas toneladas. Esta é a melhor maneira de medir exatamente o tamanho dos maiores navios romanos, inclusive o navio com carregamento de grãos como aquele que Paulo trazia. O navio portador do obelisco foi afundado por Cláudio em seu novo ancoradouro em Óstia, enchendo-o com concreto hidráulico para fazer um dique. Plínio, o Velho, relata tudo isto em sua História natural.

- Bom velho Plínio - murmurou Costas, depois se deitou outra vez para curtir o sol. Jack olhou atentamente ao redor para várias outras pessoas que tinham vindo para o telhado da abóbada, com os olhos alertas em busca de qualquer coisa suspeita, sua vigilância aumentada depois da advertência que ouviu nas catacumbas. Não tinham motivo para acreditar que estavam sendo seguidos, e provavelmente estavam mais seguros ali do que na cidade lá fora. Jack relaxou ligeiramente, e olhou de novo sobre o parapeito. Tinha uma ampla visão da praça, cuja grandeza equivalia aos monumentos da Roma pagã, igualando-os, mas não os obscurecendo. Jack observou as pessoas que cruzavam a praça distante. Era como se estivesse vendo uma imagem gerada por computador de um épico de Roma produzido por Hollywood, da Roma da maneira que as pessoas pensavam sobre ela, não da maneira que era, como se, com uma inspeção mais atenta, as pessoas lá embaixo revelariam ser não de carne e sangue, mas figuras de madeira, meros ornamentos da arquitetura, transitórias e sem significado. Jack pegou sua carteira no bolso e tirou um papel que cobria a moeda de Cláudio que encontraram em Herculano, retirou-a do papel e segurou-a no alto de modo que ela tampava a sua visão da praça entre a seqüência de colunas do telhado.

- O meu achado! Você o roubou. Bom homem. Ninguém jamais a veria novamente se a tivéssemos deixado por lá. - Costas estava olhando com atenção para Jack e para a moeda.

- Eu a peguei emprestada.

- Certo.


- Estou pensando nas pessoas de novo - disse Jack. - Acho que história é dirigida por pessoas, não por processos. Aquelas pessoas lá embaixo são pessoas reais, e elas não estão subordinadas a toda esta coisa. Em algum lugar lá embaixo existe alguém que poderia criar algo mais grandioso que a Catedral de São Pedro ou destruí-la. Essas decisões são individuais, dependem de suas próprias fantasias, isto faz a história. E a beleza disso é que as pessoas também se divertem. Veja para onde Cláudio nos conduziu.

- Divertimento não é exatamente a palavra que me vem a mente, Jack. - Costas ficou de bruços. - Deixe-me ver. Ratos mortos, água de esgoto, secreções corporais, uma aterrorizante rainha que prediz a morte.

- Mas você conseguiu uma bomba não detonada.

- Nem consegui desativá-la.

O telefone de Jack produziu um som melodioso, e ele rapidamente embrulhou a moeda e colocou-a no bolso. Pegou o telefone, ouviu com atenção durante alguns minutos, falou brevemente e depois o recolocou no bolso. Ele mostrava um amplo sorriso no rosto.

- E então? - perguntou Costas. - Você está de novo com aquele olhar.

- Era Jeremy. Ele teve um pressentimento e fez uma busca nos registros de mortos disponíveis na web. Pesquisou todos os lugares óbvios onde Everett poderia ter desaparecido em 1912, Austrália, Canadá, Estados Unidos. Você vai adorar isto. O avião Embraer da IMU está sendo abastecido com combustível enquanto falamos.

- Ponha-me à prova.

- Quando foi a última vez que você esteve no sul da Califórnia?




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minas gerais
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Palavras chave
Colégio pedro
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Dispõe sobre
Serviço público
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