O último Evangelho David Gibbins



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CAPÍTULO 15
Quatro horas mais tarde, Jack e Costas agacharam-se dentro da câmara mortuária atrás da luz forte e ofuscante de suas lâmpadas de tungstênio. Uma aeronave bimotor, turbo-hélice de médio porte, De Havilland Dash-8, da IMU, havia trazido todo o equipamento de que necessitavam do campus de Cornwall para o aeroporto de Londres, inclusive um novo par de macacões para substituir aqueles que tinham deixado com Massimo em Roma. Jeremy havia obtido uma permissão imediata das autoridades da igreja para um reconhecimento exploratório atrás da parede de tijolos na parte lateral da câmara. Em uma conversa reservada e intensa com o clérigo, na cripta, eles tinham concordado sobre a necessidade de segredo absoluto, e seu equipamento tinha sido trazido para dentro em um furgão de televisão emprestado por pessoas disfarçadas de equipe de filmagem. No andar superior, o concerto do meio-dia havia terminado e eles podiam ouvir um canto gregoriano chegando até eles, cantado pelo coro da igreja que estava praticando na nave, um som que Jack achou estranhamente tranqüilizador enquanto consideravam outro buraco negro para dentro do desconhecido.

- Muito bem. Está feito. Definitivamente há um espaço aí atrás, mas não posso ver muita coisa sem entrar lá dentro. - Jeremy tinha feito um buraco na parede de tijolo, que mostrou ter sido deficientemente construída com argamassa que não tinha assentado, o que permitiu que ele removesse os tijolos com facilidade.

- Obrigado - disse Jack. - O seu trabalho agora é proteger o forte. - Jeremy concordou com um gesto de cabeça, voltou para trás para verificar o ferrolho na porta que dava para a cripta e depois se sentou apoiado na parede, observando-os pegar o equipamento necessário.

- Poderíamos ir abaixo do nível do lençol de água. - Costas estava olhando para uma imagem num laptop, enquanto verificava a vedação do seu macacão na altura do pescoço. - Estamos três metros abaixo do atual nível do Guildhall Yard, cerca de dois metros acima das camadas romanas. Abaixo disso há um afluente do rio Walbrook em algum lugar bem na nossa frente. Com toda esta chuva é provável que esteja bastante molhado.

- De qualquer maneira vamos precisar dos macacões - disse Jack. - Pode estar bastante tóxico lá embaixo.

Costas resmungou. - Vazamentos de gás?

Jack fez um gesto ao redor da câmara mortuária. - Dois mil anos de ocupação humana, Costas. Eu não vou explicar isto nos mínimos detalhes para você.

- Não o faça. - Costas se inclinou e abaixou o visor de Jack, depois ajus¬tou o regulador na lateral de seu capacete para verificar o fluxo de oxigênio. Ele rapidamente fez o mesmo em seu próprio capacete. Repentinamente, ficaram completamente fechados ao mundo exterior, e apenas capazes de falar um com o outro através do intercomunicador. - O oxigênio dos rebreathers deve nos dar um prazo de quatro, talvez quatro horas e meia - ele disse.

- Podemos estar de volta dentro de dez minutos - disse Jack. - Pode ser que nos encontremos em um beco sem saída.

- Se eu tivesse o equipamento de sensoriamento remoto do Seaquest, então poderíamos introduzir uma câmara lá dentro e ver o que há atrás daquela parede.

- Nada supera o olho humano - disse Jack. - Venha. - Ele acenou novamente para Jeremy, que tinha tirado um laptop de sua mochila e espalhado suas anotações. Jack se pôs de gatinhas e passou pelo buraco na parede de alvenaria, com sua headlamp iluminando a escuridão a sua frente. Assim que ele passou, Costas o seguiu e chegou ao seu lado. Estavam empoleirados em cima de uma pedra, e na frente deles cerca de doze degraus conduziam para uma outra via de acesso, uma entrada baixa e em forma de arco de mais ou menos um metro e meio de altura. Jack agachou-se e começou a descer as escadas silenciosamente, com sua lanterna de mão se deslocando de um lado a outro da escada de pedra diante dele.

- Vamos esperar que o teto não ceda - murmurou Costas.

Jack ergueu o olhar. - Ele é de pedra sustentada sobre modilhão, quase tão forte quanto você poderia almejar. A alvenaria parece idêntica àquela da parte antiga da câmara mortuária, século XIV, talvez de antes. Posso ver telhas romanas reutilizadas e de ardósia, provavelmente tiradas das ruínas do anfiteatro. - Continuou a descer os degraus, alcançou o último e ficou em pé com as costas inclinadas desajeitadamente. Na frente dele, a entrada de pedra em forma de arco estava parcialmente bloqueada pelos restos podres de uma porta de madeira, com uma janela de grade de cerca de vinte e cinco centímetros de largura diretamente na frente dele. Jack passou sua headlamp por ela enquanto Costas o alcançava.

- Isto se parece com uma cela de prisão - disse Costas.

- É uma cripta - murmurou Jack. - Uma outra câmara mortuária. Exatamente como o diário do pedreiro descreve. E ela parece intocada.

- O que você quer dizer com intocada? Pensei que os rapazes de Wren entraram aí dentro.

- Quero dizer que ela parece repleta. Não há lugar para entrar dentro dela.

- Oh, não.

Jack empurrou cautelosamente a porta, e ela cedeu ligeiramente. - Ela ainda está sólida - ele disse. - Estas condições úmidas são ideais para a sobrevivência orgânica. Podemos encontrar uma preservação assombrosa lá dentro.

- Oh, isso é bom - disse Costas debilmente.

Jack empurrou de novo com ambas as mãos, e a porta ficou completamente entreaberta. Olharam com cuidado dentro do espaço à frente deles. Era uma simples câmara abobadada, de extensão similar à da câmara mortuária que tinham acabado de deixar, mas cerca de três vezes mais larga. Dispostas ao longo de cada lado havia cavidades na pedra, algumas grosseiramente fechadas com tijolos, outras abertas e cheias até a borda com conteúdos. Eles podiam ver as extremidades de velhos caixões de madeira, alguns intactos e com tampa, outros desagregados e em decomposição, formas escuras disformes apenas visíveis dentro deles. Jack deu alguns passos adiante, enquanto Costas permanecia grudado no local, olhando direto à frente. - Este é o meu pior pesadelo, Jack.

- Venha - disse Jack. - Todas as partes da vida são como uma rica tapeçaria. Costas moveu-se à frente pouco a pouco, parou, depois adiantou-se com resolução e olhou muito de perto para um dos caixões estourados, tendo nitidamente decidido que a investigação científica era a melhor terapia. - Interessante - murmurou, pigarreando. - Há um cano de porcelana emergindo do alto deste caixão de defunto, escurecido de um lado. Nunca pensei que as pessoas fizessem libações em sepultamentos cristãos.

- Bela tentativa, mas errada - disse Jack. - Como você levantou o assunto, estou lhe contando. Aqueles canos eram para deixar passar vapores.

- O quê? Não.

- Você encontra estes canos nas catacumbas vitorianas - disse Jack. - O problema com um caixão de defunto forrado com chumbo é que ele pode explodir, especialmente se o corpo é fechado dentro dele muito rapidamente depois da morte. Trata-se do primeiro estágio da decomposição, você sabe. A saída de gases.

- Saída de gases. - Costas parecia oscilar ligeiramente, mas permanecia fixado no esquife.

- Os canos eram acesos para queimar os gases - disse Jack. - É por isso que eles ficam escurecidos.

Costas balançou para trás, depois escorregou para o chão, agarrando-se bem a tempo na extremidade de um nicho aberto na parede oposta. Ele se endireitou de novo, depois ergueu o pé de uma poça pegajosa que se estendia debaixo de um dos nichos perto da entrada. - Devemos estar mais próximos do nível da água do que eu pensava - ele disse. - Há muita água aqui para ser apenas condensação.

- Eu tenho mais algumas más notícias para você, receio.

Costas olhou para a poça, depois para a mancha escura que escorria do nicho mortuário localizado acima na construção de pedra, em seguida de novo para a poça. - Oh, não - ele sussurrou.

- Saponificação - disse Jack alegremente. - Existe sobre isso um maravilhoso relato de Sir Thomas Burns, uma espécie de Plínio do século XVII que gostava de escavar velhas sepulturas. Eu e Hiebermeyer fizemos uma vez um curso sobre mumificação com o pessoal forense do Ministério dos Negócios Interiores, e posso recordá-lo palavra por palavra. Nós nos deparamos com uma concreção gordurosa, quando o salitre da terra e a leve e lixiviada secreção orgânica do corpo coagularam grandes massas informes de gordura, com a consistência de uma vela de sabão extremamente dura; parte do que permaneceu conosco.

- Secreção do corpo - sussurrou Costas, esfregando freneticamente o pé num tijolo caído. - Tire-me fora daqui, Jack.

- Cera mortuária - replicou Jack. - A lenta hidrólise de gorduras em adipocera. Especialmente provável de ser encontrada em condições alcalinas, quando os corpos estão vedados ao ataque das bactérias, e quando há umidade. Como eu disse, vamos encontrar assombrosas condições de preservação aqui.

- Não poderia ser pior do que isto.

- Não conte com isso. - Jack se agachou para examinar a inscrição no bloco de pedra que, podia perceber agora, se encontrava diante de cada nicho intacto, construído no centro do revestimento de tijolos. Ele andou ao longo, de um para o próximo. - Fascinante - murmurou. - Em geral, nas igrejas de Londres, as criptas eram usadas extensivamente por algumas décadas, talvez um século ou mais, eram preenchidas completamente e depois seladas. Mas esta aqui é muito estranha. A fórmula de cada uma destas inscrições é quase idêntica, mas elas variam em um enorme espaço de tempo. Cada uma delas tem um símbolo Qui-Rô, seguido por um nome latino. Olhe aqui. Maria de Kirkpatrick. E ali, Bronwyn de Llewelfyn. A maior parte deles está em latim, mas são versões de nomes britânicos. E as datas estão em números romanos. Aquele perto de você, aquele na prateleira mais baixa perto da porta, é o último de 1664, apenas poucos anos antes do Grande Incêndio que destruiu a igreja medieval.

- Aquelas figuras. - Costas ainda estava olhando a meia distância, claramente tentando se concentrar em algo diferente do que aquele horror físico que via ao seu redor. Pigarreou. - O diário do pedreiro. Ele diz que a cripta foi selada pelos homens de Wren nos anos 1680. Isto faz pensar que não deveria haver mais nenhum sepultamento depois disso.

Jack alcançou o lado mais distante da câmara, dando a volta cuidadosamente ao redor do lugar pegajoso no chão. Ele se agachou de novo, examinando mais algumas inscrições na pedra, deslocando alguns tijolos quebrados com as mãos. - E a primeira destas inscrições é incrivelmente antiga - ele murmurou. - As mais velhas neste lugar se desagregaram, mas há duas aqui com nomes anglo-saxões. Aelfrida e Aethelreda. Não posso ler o nome nesta outra, mas posso ler a data. 535 d.C. Meu Deus - ele disse com a voz rouca. - É da Idade das Trevas, da época do rei Arthur, de Gildas. Isto é de antes de Agostinho trazer o cristianismo romano de volta para a Grã-Bretanha, no entanto, esse sepulcro mostra um símbolo cristão.

- Os nomes são todos de mulheres - disse Costas baixinho.

- Esta câmara é de uma época mais antiga que a da igreja medieval - Jack continuou a examinar ao redor. - Parece que ela foi mantida em reparo durante o período medieval até a época do Grande Incêndio, mas os modos de sepultar nas prateleiras mais baixas parecem romanos. - Ele ajoelhou-se, e passou a mão ao longo do canto da câmara debaixo do nicho mais distante. - Não há dúvida sobre isto. Estamos dentro de uma catacumba romana. A única encontrada na Grã-Bretanha.

- Verifique a inscrição acima da porta de entrada.

Jack examinou em cima da porta, e viu uma um único registro de letras esculpido na alvenaria, coberto com um acréscimo por justaposição, escurecido. Costas leu as palavras lentamente:
URI VINCIRI VERBERARI FERROQUE NECARI
- Bom Deus - exclamou Jack, ficando em pé e olhando, sua mente girando. - Este é o juramento do gladiador. O sacramentum gladiatorum.

- A profecia da Sibila - disse Costas. - A tabuleta de cera de Roma. É a mesma, não?

- Idêntica. Ser queimado pelo fogo, ser acorrentado, ser açoitado para morrer pela espada. Bom e velho Cláudio - murmurou Jack. - Acho que estamos exatamente onde ele quer que estejamos.

- E onde a Sibila queria que ele estivesse.

- Originalmente, aqui deve ter sido a câmara mortuária dos gladiadores, onde os cadáveres mutilados eram deixados antes de serem levados para outro lugar e queimados - murmurou Jack. - E depois ela foi usada como cripta mortuária, durante mais de mil anos. Uma cripta mortuária para mulheres, para mulheres que de algum modo eram ligadas, durante todo aquele tempo.

- Talvez fizessem parte de uma sociedade secreta, uma corporação - disse Costas. - Talvez elas quisessem ser sepultadas perto do que quer que esteja deitado atrás daquela parede.

- De acordo com o diário, foi aqui que as ânforas romanas foram encontradas pelos homens de Wren - disse Jack. - E esta deve ser a parede, onde estamos agora.

Costas colocou as duas mãos na parede de tijolos diante dele, e empurrou cuidadosamente. Recuou enquanto vários dos tijolos se deslocavam. - Não estão assentados com argamassa - disse. - Parece que eles simplesmente empilharam os tijolos.

- Isto faz sentido - disse Jack. - O diário relata que eles decidiram selar a cripta inteira lá atrás na câmara mortuária, onde deixamos Jeremy, então devem ter desistido de selar esta câmara mais profunda, que estava na metade do caminho para a outra. Vamos ter que tirá-los desde o topo, tijolo por tijolo.

Costas empurrou, experimentalmente, um pouco mais, e um dos tijolos que tinha mudado de posição caiu para trás. Subitamente, a parede inteira desmoronou para dentro, e ambos se deslocaram para trás enquanto o ar se enchia com poeira vermelha. Costas, com muito cuidado, evitou a poça pegajosa no chão.

- Eu estava a ponto de dizer que nós não temos tempo para delicadezas - disse Jack, limpando a frente do seu visor.

- Examine - disse Costas, se recompondo e indo para frente novamente. Jack orientou sua lanterna de mão para o local onde Costas fazia gestos.

Onde tinha estado a parede de tijolos, agora havia um buraco, mas logo dentro à esquerda, encontrava-se uma fileira do que pareciam ser antigas pipas de cerâmica para drenagem, dispostas em uma fileira e apontando para cima. Jack introduziu-se através da pilha de tijolos caídos e acenou excitado. - Você reconhece aquelas?

- Ânforas. Ânforas romanas. Exatamente o que estávamos procurando.

- Certo. E elas são exatamente do mesmo tipo que as ânforas de vinho que encontramos no navio naufragado de são Paulo, aquelas fabricadas em Campânia, perto de Pompéia e Herculano. Você se lembra da data do naufrágio?

- 58 d.C., aceite o meu palpite ou diga o seu.

- Certo. Estas eram as típicas ânforas de vinho daquele período. E aqui nós estamos na Londres romana, exatamente onde estas ânforas estavam sendo negociadas. Qual era a data da rebelião de Boudica? 60, 61 d.C. Se ânforas de vinho estavam sendo deixadas em sua tumba por seus seguidores, estas são exatamente do tipo que se esperaria encontrar naquela época.

Costas comprimiu-se ao lado de Jack e olhou atentamente para a escuridão além. - Não tenho certeza de onde iremos dar saindo daqui. Parece ser uma espécie de escavação vertical.

Jack também olhou atentamente ao redor. À esquerda havia uma massa instável de entulho, feita de muitos tijolos quebrados, mas também um pouco de madeira de construção chamuscada, tudo misturado e comprimido formando uma massa compacta. Ela se projetava dentro de uma estrutura vertical formada por madeira de construção enfileirada de cerca de dois metros de largura e três de profundidade, com água no fundo. - Muito bem - disse Jack. - O que temos aqui são detritos da destruição causada pelo Grande Incêndio de 1666, provavelmente descarregados em massa durante a reconstrução da igreja feita por Wren. Se qualquer um de seus homens andou além da cripta, é por este caminho que deve ter passado. Nunca passaremos por ela sem uma grande escavação. Isto está fora de questão. A única esperança é descermos esta escavação vertical.

- O que ela é?

- Parece ser um poço. Havia fontes de água fresca nos pedregulhos ao lado do Tâmisa. A água de Londres era notavelmente saudável até se tornar um brejo por causa da água de esgoto. Em geral, os poços eram rodeados por madeira de construção enfileirada como este aqui. - Jack inclinou-se e examinou a madeira. - Fascinante. É madeira de navio reutilizada. Estas são pranchas sobrepostas e seguras com pregos revirados, viking. Você se lembra dos nossos barcos vikings, compridos, que estavam no gelo?

- Nunca pensei que diria isso, mas eu preferiria estar por lá agora.

- Eu vou entrar. - Jack se movimentou até a extremidade do buraco, e agarrou a mão de Costas enquanto se dependurava por cima da beirada, com os pés pendentes um metro ou mais por cima do poço escuro. - Vamos esperar que ele não seja um buraco sem fundo. - Ele se soltou e caiu com um grande barulho sobre uma superfície líquida, parando com seus joelhos na lama, a parte superior do seu corpo fora da água. - Agora é você. - Experimentou cuidadosamente ao redor com o pé. - Eu acho que é uma aterrissagem segura.

Costas resmungou, depois se abaixou muito cuidadosamente por cima da extremidade, seu visor pressionado contra a madeira úmida do revestimento do poço. Deslocou-se ligeiramente ao longo do poço para evitar cair sobre Jack. Alcançou uma pequena seção da madeira que havia apodrecido, e, de repente, gelou.

- O que é - perguntou Jack.

Houve um silêncio, e depois a voz de Costas soou distante e rouca. - Este poço, Jack. Ele não foi escavado através de cascalho.

- O quê?

- Ele foi cavado através de ossos, Jack - disse Costas, sua voz soando além dos limites da emoção. - Ossos humanos, milhares deles, amontoados ao nosso redor. É tudo o que posso ver.

- Provavelmente não é um poço contaminado - disse Jack pensativo. - Provavelmente é um ossuário, os ossos foram despejados aqui trazidos de algum outro local de sepultamento. Ainda assim, foi bom termos vindo com os macacões, a título de prevenção.

Costas se soltou, e caiu ao lado de Jack, espirrando muita água, desaparecendo completamente dentro da água antes de se erguer em meio a um tumulto de lama. A água se acalmou e ele ergueu as mãos, olhando para as listras de lama em suas luvas. - Uma boa sujeira à moda antiga - murmurou. - Acho que já tive o bastante de resíduo humano em cima de mim.

- O que você disse me faz pensar - comentou Jack. - Sobre um poço, escavado através de um antigo ossuário. Acho isso muito improvável. Acho que percebi errado. Acho que o que de fato temos aqui é uma cloaca.

Costas limpou o visor, deixando-o listrado de marrom, e olhou sem fala para Jack.

- Na verdade, é muito higiênico - disse Jack. - Cada habitação tinha uma. Somente quando elas ficavam inundadas é que se tornavam um problema, e foi quando as pessoas começaram a usar canos de esgoto que não eram adequados para o serviço.

- E você acha isso tranqüilizador? - Costas parecia estar à beira de lágrimas. - Venha mergulhar com Jack Howard. Nenhuma latrina é demasiado profunda. - Ele tentou se esforçar para ir para cima, depois subitamente desapareceu de vista, em seguida sacudiu-se acima novamente. - Imaginei isto - ele disse. - Ha água fluindo abaixo de nós. Isto se precipita em uma corrente subterrânea.

- O afluente do Walbrook - disse Jack. - Acho que, no fim, tivemos sorte.. Se pudermos entrar no afluente e achar uma outra abertura, seremos capazes de ir para cima por detrás daquela obstrução de entulho.

- Ou podemos nos juntar à cidade dos mortos aqui embaixo. Permanentemente.

- Esta é sempre uma possibilidade.

- Muito bem. - Costas pegou o seu pequeno computador GPS à prova de água, e procurou um esboço topográfico em 3-D que tinha programado dentro dele enquanto esperavam que o equipamento chegasse à igreja. - O fluxo é em direção ao leste, para o Walbrook, que depois flui para o sul, para dentro do Tâmisa. A beirada exterior do anfiteatro está apenas a cinco metros ao norte de onde estamos. Se de alguma maneira formos além daquele ponto, depois também podemos voltar. Estaremos dentro da área que foi cavada nas recentes escavações.

- Vou ficar bem atrás de você - disse Jack.

- Eu o vejo do outro lado. - Costas ficou fora de vista. Durante alguns momentos houve uma comoção na água quando seus pés atingiram a superfície, depois ela se acalmou e o poço se tornou de um negro brilhante e reluzente. Jack se agachou com água até o peito, e ouviu Costas respirando através do intercomunicador. Durante um instante pensou no seu medo secreto novamente, a claustrofobia com a qual lutava tão fortemente para controlá-la, e percebeu que sua mente sentia que havia segurança neste lugar, uma saída fácil através da antiga cripta e da câmara mortuária para a igreja acima delas. O que havia além deste poço era outro assunto, e ele respirou profundamente algumas vezes enquanto olhava para a superfície límpida. Sentiu uma vibração, um tremor através de seu corpo, e observou a superfície da água iluminar-se fracamente. Sabia que se tratava de um trem subterrâneo passando por um túnel em algum lugar bem distante. Por um instante, a sensação o trouxe de volta para a realidade do século XXI, e em sua visualização todos os tumultuados eventos do passado, os sombrios rituais da pré-história, o sangue do anfiteatro, o Grande Incêndio, a Blitz dos alemães passaram por ele como um filme de movimentação rápida, deixando sua impressão maléfica e detestável dentro do sedimento nauseante ao seu redor. Fechou os olhos, depois os abriu novamente. Jack pressionou o mostrador de leitura digital dentro de seu visor, examinando cuidadosamente a numeração que mostrava a quantidade de oxigênio remanescente em seu rebreather - os níveis de toxicidade do dióxido de carbono. Era uma verificação da realidade, e nunca havia falhado para ele. Ele se ergueu e percebeu que quase tinha ficado firmemente preso em mais de um metro de lama no fundo da poça. Depois de se arrancar dali flutuou com o rosto para baixo na superfície, com o visor debaixo da água, olhando para um redemoinho escuro com a fraca quantidade de luz da headlamp de Costas diretamente abaixo dele. Ele se arqueou e mergulhou na escuridão. Cerca de dois metros mais abaixo, ele podia sentir o fluxo da corrente subterrânea, e ver o tumulto da água clara onde o lodo estava sendo levado de roldão. Ainda havia apenas poucos centímetros de visibilidade, mas era melhor do que o caldo escuro na superfície do poço.

- Há uma obstrução. - A voz de Costas chegou pelo intercomunicador. - Estou quase perto dela.

Jack podia sentir os pés de Costas quase diante dele, formando redemoinhos na água enquanto ele se içava ao redor de uma curva no túnel. Jack permaneceu atrás para evitar ser chutado, e depois, quando a turbulência se acalmou, ele se deixou apenas cair para diante, as mãos abertas à frente para sentir qualquer obstáculo. Depois de dois metros sentiu algo liso, metálico, e em seguida seu peito tocou nos pés de Costas. Houve um movimento em ziguezague, depois mais nenhum movimento, seguido por uma pancada metálica abafada, e finalmente apenas o som de sua respiração.

- É um detonador Série 17. Bom.

- O que é? - perguntou Jack. - O que é bom?

- Isto. - Ouviu-se um barulho ressoante, seguido de uma imprecação.

- O quê? Eu não consigo ver nada.

- Esta bomba.

O coração de Jack quase parou de bater. - Que bomba?

- Uma SC250 soltada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, com o propósito geral de bombardear. Bombardeiros e caças: Stuka, Junkers 88, Heinkel 111. Eles jogaram milhares delas por aqui. Simples rotina.

- O que você quer dizer com simples rotina?

- Quero dizer que elas não eram detonadores de ação retardada, então eram jogadas como simples rotina.

Jack teve outra sensação de que ia desmaiar. Pensou de novo no tremor, na vibração do trem. De repente, este lugar parecia menos confiável, menos estável, pronto para a história ter um outro prosseguimento. - Não me conte o que você está fazendo.

- Está tudo bem. Já fiz. Fiz tudo o que podia. - Os pés de Costas se deslocaram para frente, e Jack desceu mais um metro. - O pequeno detonador dianteiro estava bem na frente do meu nariz, e por acaso eu tinha a ferramenta correta. O detonador posterior é que é um problema. Posso senti-lo, mas ele está todo enferrujado. Não é do meu feitio, mas temos que deixá-lo como está.

- Sim, nós podemos - disse Jack baixinho. - Isso é muito perigoso?

- O suplemento usual era de apenas 127 quilos de Amatol e TNT, mistura de 60/40.

- Apenas? - exclamou Jack incrédulo.

- Bem, nós seríamos torrados, é claro, mas o círculo financeiro do mundo provavelmente permaneceria intacto.

- Acho que possivelmente já houve bastante sacrifício humano neste lugar - disse Jack. - Quão estável ele é?

- O problema está no detonador enferrujado - disse Costas. - Ele tem estado dormindo feliz por quase setenta anos, mas, com a nossa chegada, quem sabe o que pode ocorrer.

- Você quer dizer depois que mexeu indevidamente nele, quem sabe... - O lodo tinha se depositado levemente, e Jack podia ver o invólucro da bomba a cerca de sete centímetros de seu rosto. Estava corroído, profundamente enterrada sem marcas visíveis, e parecia tão ameaçador quanto Jack podia imaginar. Estava fazendo os cálculos mentais habituais, e desta vez as probabilidades vantajosa: não pareciam boas. - Acho que está na hora de irmos.

- Oh, não.

- Como não? Esta coisa ainda está viva. Precisamos sair daqui.

- Não. Não foi isso que eu quis dizer. Estava falando disso que está à minha frente. É um outro pesadelo. É o mesmo pesadelo, apenas tornando-se pior.

- Certo. Estou chegando. - Jack tranqüilizou-se mais profundamente, o invólucro corroído bem diante de seu rosto, até que viu onde ele se curvava para o cone do nariz e o sistema de suspensão LUG. Ele se virou de costas e colocou a mão no LUG para impedir que seu corpo ficasse se sacudindo contra o envoltório, que parecia estar perigosamente suspenso no meio da água. Ele se ergueu lentamente até sentir o envoltório entre as pernas, e depois debaixo dele. No ponto em que imaginava onde estariam a placa de base e as nadadeiras da cauda, repentinamente chegou à superfície, seu rosto a alguns centímetros de uma parede de lama viscosa. Ele havia se sentido bem na lama debaixo da água, com o rosto pressionado muito perto do envoltório, mas subitamente se sentiu nervoso, como se estes poucos centímetros extras de visibilidade fossem apenas suficientes para lhe dar a sensação do quanto este espaço era confinado. Sabia que precisava lutar muito agora, para se concentrar inteiramente no que estava fazendo. Girou devagar o corpo, tomando cuidado para não mexer no envoltório da bomba, até ficar ao lado de Costas, olhando para a mesma direção. Podia sentir o pedregulho compactado do leito do rio debaixo dele, mostrando que tinham chegado abaixo das camadas arqueológicas. Jack dirigiu sua headlamp para cima. Encontravam-se dentro de uma espécie de estrutura, uma câmara, com troncos não lavrados de árvores revestindo o teto a cerca de dois metros acima dele. Viu vigas maciças de carvalho escurecido e amarração de tábuas de madeira ao redor das paredes. Olhou para baixo, e então ele a viu, diretamente na frente de Costas. Fechou os olhos, respirou profundamente, depois olhou de novo.

Era um crânio humano, escurecido pelo tempo, deitado sobre a parte de trás e olhando diretamente para cima, a mandíbula ainda em posição. Ele podia ver as vértebras do pescoço, as omoplatas, tudo assentado sobre um material fibroso vermelho. Depois ele se deu conta. Era cabelo. Cabelo vermelho.

Jack movimentou novamente seu feixe de luz para baixo, para algo que tinha visto sobre os ossos do pescoço. Colocou as mãos sobre uma tábua de madeira molhada e ergueu-se ligeiramente. Jack respirou com dificuldade sem acreditar no que via. Era ouro, resplandecente, um colar de ouro maciço. Exatamente como aquele que eles tinham visto no dia anterior, em outro corpo, em um local profundo debaixo de Roma. Um torque. Depois Jack percebeu. Esta não era uma cripta mortuária medieval. De repente não havia dúvida quanto a ela. Eles tinham encontrado algo que as pessoas tinham estado procurando havia centenas de anos, no coração da City de Londres, em um pequeno local do solo inalterado em um dos lugares mais revolvidos, escavados e bombardeados do mundo.

Jack olhou novamente para o crânio. Inclinou-se sobre ele, e olhou mais cuidadosamente, bem em cima das órbitas oculares vazias. O acréscimo por justa-posição preto que cobria o crânio não era bem preto. Era azul, azul-escuro. Ele suspirou e percebeu. Isatis tintoria, murmurou. - Bem, eu vou ser condenado ao inferno.

- Hein?


- Ísatis. Ísatis azul. Ela foi pintada com ísatis azul. - Ele se voltou para Costas, sua apreensão subitamente esquecida. - Acho que você pode ter acabado de descobrir para nós uma rainha da Idade do Ferro.

Costas parecia estarrecido, preso ao solo, esparramado na beirada da poça de água barrenta, olhando para o crânio através de seu visor.

- Este é um novo momento Agamenom? - perguntou Jack.

- Aquela coisa não é um fantasma. Ela é real - sussurrou Costas. - Depois da decomposição orgânica do corpo e tudo o mais. Eu nunca mais vou dormir.

- Ora - disse Jack. - Isto é inacreditável. Mas não vou ficar rodando por aqui mais do que o necessário, tendo por companhia uma bomba enferrujada aquecendo lentamente. - Rastejou para fora do buraco, e Costas se arrastou para fora com dificuldade. Ambos se puseram em pé, gotejando profusamente, com seus capacetes e equipamentos de respiração ainda colocados, a lama escorregava suavemente sobre seus macacões como tinta marrom. Jack aumentou a largura do feixe de luz da headlamp e pegou uma tocha de halogênio. Olharam para a cena diante deles cheios de admiração.

Era uma visão de tirar o fôlego. Jack instantaneamente viu imagens que lhe eram familiares, os tipos de artefatos, a exposição dos bens da sepultura, mas nada do que havia sido encontrado antes na Grã-Bretanha estava tão intacto como se encontrava ali. Ela se parecia com uma das tumbas que Jack tinha visitado de um antigo nobre da Cítia nas estepes russas, envolta por tábuas de madeira maciça e milagrosamente preservada no subsolo permanentemente congelado; no entanto, esta se encontrava no coração de Londres. De alguma maneira, a atmosfera saturada de água e a densa lama que circundava a tumba tinha impedido que as madeiras apodrecessem e que a tumba implodisse.

E essas condições não preservaram apenas o esqueleto. Jack percebeu que ela tinha sido deitada em um esquife, uma plataforma quadrada de madeira de cerca de três metros de lado a lado, a um metro mais ou menos das extremidades da câmara. Havia formas estranhas, formas curvas, na frente dele, de cada lado das pernas do esqueleto. Jack reteve a respiração quando percebeu o que era. - Isto é uma carruagem funerária - ele exclamou. - Estas são as duas rodas inclinadas em direção ao corpo. Podem-se perceber os raios da roda, o aro de ferro e os cubos da roda.

- Dê uma olhada nisso. - Costas estava olhando atentamente para a base do esquife, para as pernas do esqueleto, e depois entre as rodas. - Há antigas marcas de cortes nos ossos, marcas de golpes cortantes, um par de fraturas curadas. Parece que ela participou de guerras. Esta era uma dama forte. E ela está descansando em uma espécie de canoa.

Jack deslocou-se, escorregando na lama. Costas tinha razão. O esqueleto estava deitado em uma canoa de madeira de um tronco só. - Fantástico - ele disse. - Existem botes funerários do período anglo-saxão avançado, navios funerários vikings, mas eu nunca vi um como este da Idade do Ferro.

- Talvez esta seja a canoa com a qual eles costumavam levá-la para subir o rio até o santuário, até o seu núcleo de trevas - disse Costas. - Talvez eles a tenham colocado nisso e a arrastado corrente acima na sua jornada final.

Jack se ergueu o mais que podia, e olhou direito, pela primeira vez, para o torso do corpo. Era uma das coisas mais incríveis que ele jamais vira, como uma imagem gerada por computador de um perfeito sepultamento da Idade do Ferro. Começou a se mover pouco a pouco ao longo da lateral do esquife, depois escorregou e caiu sobre um joelho ao lado de uma das rodas da carruagem.

- Atenção - disse Costas, alarmado. - O cubo da roda tem um prego de metal saliente.

Jack olhou para a protrusão de ferro corroído, e sentiu seu peito se comprimir ao perceber quão perto estivera de ser espetado. Fechou os olhos, forçou-se a se concentrar. Olhou novamente. Era um prego comprido e forte, perigoso, um dos três que tinham se projetado do cubo da roda por cerca de um metro, curvados como as lâminas da hélice de uma aeronave. Esta não era uma carruagem comum. Jack ergueu-se com cuidado e movimentou-se indo ficar ao lado de Costas, que dera a volta ao redor de Jack e estava agachado perto do torso. - Parece que esta dama estava se preparando para lutar com os deuses - murmurou Costas. - E acho que ela ia ganhar. - Ambos olharam com admiração para as peças e ornamentos em cima do esqueleto. Ao redor deles havia lanças pontudas moldadas em chapas finas de ferro, suas hastes se romperam quando as lanças bateram nos degraus de pedra. Espalhados por cima havia numerosos cones de pinheiros, carbonizados nos locais em que foram queimados como incenso. Paralela ao corpo, desde o pescoço até o quadril esquerdo, havia uma grande espada de ferro, tendo ao lado uma bainha decorada em bronze. A decoração gravada na bainha combinava com a forma do fio incrustado no cabo da espada, linhas de ouro que descreviam movimento circular para cima em direção a uma grande pedra preciosa verde engastada no botão do punho da espada. Do outro lado encontrava-se um pedaço de madeira, como uma varinha de feiticeiro. Mas a visão mais extraordinária de todas estava colocada de lado a lado do torso do esqueleto, um grande escudo de bronze com a forma de um oito, com um ornamento central, em esmalte, rodeado por formas curvilíneas girando e uma decoração de ornamentos metálicos em relevo.

- O escudo de Battersea - disse Jack com voz rouca. - Ele é virtualmente idêntico ao escudo de Battersea, encontrado no rio Tâmisa no século XIX.

- Ele é feito com finas folhas de bronze - disse Costas, olhando com atenção para a borda. - Não é muito prático durante a batalha.

- Provavelmente ele era um escudo usado em cerimônias - disse Jack - Sempre se pensou no escudo de Battersea como sendo um objeto ritual, depositado no rio como uma oferenda aos deuses, como aqueles crânios encontrados apenas algumas centenas de metros daqui no rio Walbrook.

- A espada parece ser bem real. E também aquelas segadeiras sobre as rodas da carruagem.

- Você não encontrou apenas a sepultura de uma rainha - murmurou Jack - Você encontrou a sepultura de uma rainha guerreira. - Olhou novamente e, de repente, elas brotaram dele, imagens que não tinha registrado de início, mas que agora pareciam unir todos os artefatos deixados e que se encontravam à sua frente. Havia cavalos, cavalos por toda parte, girando de uma parte a outra através dos padrões curvilíneos no escudo. Correndo ao longo da bainha da espada, gravados nas madeiras do esquife. Sua mente estava acelerada, ousando acredita no inacreditável. Cavalos, o símbolo da tribo dos icenos, a tribo da grande rainha guerreira. Ele viu moedas espalhadas debaixo do escudo, e inclinou-se para pegar uma. Sua excitação aumentou. Era exatamente o que ele esperava encontrar. De um lado um cavalo, abstrato, com uma crina flutuante, símbolos misteriosos acima dele. Do outro lado uma cabeça, dificilmente reconhecível como humana, com um cabelo longo e desordenado. A imagem de uma pessoa que não deixou retratos, no entanto aqui ele estava parado na frente dela, uma rainha que tinha sido reverenciada como deusa, cuja imagem ninguém ousou capturar. Jack recolocou a moeda cuidadosamente, depois olhou de novo ao redor, avaliando catalogando em sua mente, permitindo-se ver o inesperado. - Os emalhetamentos nas tábuas mostra que esta tumba foi feita depois que os romanos chegaram, por carpinteiros que conheciam as técnicas romanas - murmurou. - Mas não bi artefatos aqui dentro. Ela não teria permitido. Aquelas ânforas devem ter estado fora da tumba, oferendas feitas depois do sepultamento.

- Jack, você está errado. Parece que ela tinha uma obsessão por gladiadores. - Costas tinha voltado para onde estavam os pés dentro do esquife, e fez um gesto chamando-o. Jack se aproximou escorregando e foi confrontado com outra visão impressionante. Havia uma fileira de capacetes, cinco elaborados capacetes dispostos em fileira logo abaixo do nível do esquife, de frente para o esqueleto.

- Inacreditável - ele disse. - Mas estes não são capacetes de gladiadores. São capacetes de legionários romanos, de nível bastante elevado por sua aparência. Centuriões, talvez comandantes de coortes. E eles estiveram em ação. - Estendeu o braço e virou com cuidado o que estava mais próximo, que tinha um amassado profundo de lado a lado do topo. Era mais pesado do que esperava, e estava fixado à madeira. Puxou com força e ele cedeu. Jack o deixou cair e recuou chocado. Eles ainda estavam ali.

Costas também os viu, e gemeu. - Beam me up, Scotty.

Jack se enrijeceu e olhou mais de perto, ao longo da fileira de capacetes. Cada um deles tinha um crânio humano, olhando de soslaio, alguns deles esmagados e fragmentados. Os crânios estavam brancos, haviam sido branqueados, claramente eram de cabeças que tinham sido expostas e se decompuseram antes de serem colocadas dentro da tumba. - São troféus de batalha - murmurou Jack. - Eles foram recolhidos no campo ou, mais provavelmente, são cabeças de prisioneiros executados. - Sua mente estava novamente acelerada. A última batalha da rainha guerreira. Ele se lembrava dos relatos de Tácito e Dio Cássio. Troféus de guerra vivos, trazidos com ela para sacrifício, no lugar mais sagrado, enviados a ela em eterna submissão.

Em seguida, Jack as viu. Enormes formas disformes emergindo da parede mais distante da tumba. Formas que pareciam lutar e levantar-se do chão nas patas traseiras, como os cavalos do Partenon de Atenas, só que estes não eram esculpidos, e sim reais, com a pele escurecida e as crinas ainda esticadas sobre os crânios, dentes expostos e ameaçadores, presos para sempre nos espasmos da morte. Era uma visão aterradora, muito mais que a fileira de crânios romanos, e Jack começou a se sentir nervoso novamente, com a sensação de que não pertencia a este local.

- Está na hora de partir - disse Costas baixinho.

Jack se desprendeu da imagem. - Nós não encontramos o que estávamos procurando. Há algo aqui, sei disso. Dê-me um momento. - Escorregou de volta em direção ao esquife, e olhou novamente com atenção para a rainha morta e suas armas. Costas pegou a sua bússola e apontou-a em direção ao esquife. - Ele está alinhado exatamente na posição norte-sul - disse. - Aponta diretamente para a arena do anfiteatro.

- Aquele anfiteatro foi construído mais tarde - murmurou Jack. - Se isto é o que penso que é, ela foi sepultada pelo menos uma década antes que começasse o trabalho de construção do anfiteatro.

- Você viu o eixo das rodas? - perguntou Costas. - Está colocado debaixo aos ombros dela. Com a vara da carruagem alinhada na posição norte-sul debaixo do seu corpo, isto forma uma cruz.

Jack resmungou, ouvindo apenas pela metade. - O eixo geralmente era colocado debaixo dos pés. - Subitamente ele ficou ofegante, e estendeu a mão para o escudo. - Eu sabia. Isto estava saliente e bem diretamente na nossa cara. Foi colocado direto sobre o ornamento do escudo.

- Quem fez isso?

- Alguém que esteve aqui antes de nós. - Jack começou a estender a mão para o objeto, um cilindro de metal. Em seguida parou e retirou a mão.

- Você deve ser o único arqueólogo que tem problema para pegar artefato* dos sepulcros, Jack.

- Eu não poderia violar a sepultura de Boudica.

- Concordo com você nisso. Não gostaria que esta dama se erguesse de seu leito de morte. E, se ela vier atrás de nós, não teríamos nenhum lugar para fugir. - Costas fez uma pausa. - Mas, se você está certo, este cilindro não fazia parte dos artefatos originais da sepultura. Não acho que pegá-lo significa violá-la. Estou querendo assumir o risco. - Estendeu a mão e pegou o cilindro, depois o passou para Jack. - Tome. O feitiço está quebrado.

Jack segurou o objeto, girando-o lentamente em suas mãos, olhando para ele. Uma corrente dependurada de um rebite de um lado. Podia perceber que o cilindro era feito de lâminas de bronze, marteladas na junção para formar o tubo, e que uma extremidade tinha sido dobrada sobre um disco de bronze que formava a base. Sobre ela havia um disco de esmalte vermelho, e movendo-se para cima e em torno do cilindro havia ornamentos esculpidos de forma curvilínea. Jack virou o cilindro e viu que o ornamento tinha a forma de um lobo, um animal grande e abstrato que envolvia o cilindro de forma que seu focinho quase tocava seu rabo. - É um trabalho em metal feito na Grã-Bretanha, não há dúvida quanto a isto. Existe um cilindro de bronze exatamente como este na sepultura de um guerreiro em Yorkshire. E o lobo é também um símbolo dos icenos, a tribo de Boudica.

- E a tampa? - perguntou Costas.

- Há uma grande corrosão, doença do bronze - replicou Jack, olhando atentamente para a outra extremidade do cilindro. - Mas você está certo. Ela é definitivamente uma tampa, não foi dobrada como a base. Há algum tipo de material resinoso ao redor da junção, mas ele está bastante rachado. - Jack empurrou o dedo com muito cuidado contra a crosta bastante desenvolvida de corrosão no topo, depois retirou o dedo quando ela se rompeu. - Graças a Deus, os responsáveis pela manutenção dos museus não me viram fazer isto. - Ao redor da borda havia os restos de esmalte vermelho de um disco semelhante ao da base. Mas aqui o esmalte parecia ter sido grosseiramente quebrado e substituído por uma decoração entalhada. A incisão era angular, desconjuntada, não se assemelhava às linhas harmoniosas do lobo na lateral do cilindro, e se parecia mais com o grafite que viram rabiscado nas ânforas romanas encontradas no navio naufragado, Jack olhava para aquilo. De repente, ele gelou.



Era um nome.

- Bingo - disse Costas.

As letras eram largas, trêmulas, o nome se curvava na parte de cima, a outra palavra estava embaixo, como uma inscrição em uma moeda:
CLAVDIVS DEDIT
- Cláudio deu isto - disse Jack, subitamente em êxtase. - Nós estamos certos. Cláudio de fato veio até aqui. Ele veio aqui, onde estamos agora, e colocou e cilindro na tumba de Boudica. - Jack segurou o cilindro com súbita reverência, olhando para o nome e depois para a junção quebrada na tampa, quase sem ousar pensar no que podia estar lá dentro.

- Como Cláudio chegou a possuir um cilindro de bronze da Grã-Bretanha? - perguntou Costas.

- Talvez ele o tenha conseguido quando veio pela primeira vez para a Grã-Bretanha durante a conquista - disse Jack. - Talvez a própria Boudica o tenha dado a ele, e mais tarde ele o usou para esconder seu tesouro, aquele que estamos procurando. Este cilindro seria menos óbvio do que um daqueles jarros de pedra egípcios.

- Ele teria se encaixado exatamente dentro de um daqueles vasos, como o que encontramos em Roma - murmurou Costas. - Talvez também haja um daqueles por aqui.

- Não se este cilindro estava inalterado - disse Jack.

- Você vai abri-lo?

Jack respirou profundamente. - Estas não são exatamente condições controladas por laboratório.

- Já escutei isso antes.

Jack olhou de novo para a mistura de água e lama por que tinham passado para entrar na tumba, ainda se movimentando para frente e para trás e nitida¬mente marrom sob a luz de sua tocha. - Estou preocupado com o fato de que o lacre pode ter apodrecido. Se o levarmos de volta passando por esta lama, podemos destruir o que está dentro para sempre. E não quero arriscar voltar para conseguir um recipiente impermeável. Quem sabe nunca voltemos para cá. E o lugar inteiro pode ser pulverizado.

- A qualquer momento - disse Costas, olhando para a cauda da bomba erguendo-se acima da água. - Muito bem, vamos abri-lo.

Jack assentiu com a cabeça, e pôs a mão sobre a tampa. Fechou os olhos, e silenciosamente murmurou umas palavras para si mesmo. Tudo pelo qual eles estavam se esforçando parecia subitamente depender deste momento. Abriu os olhos, e girou a tampa. Ela saiu facilmente. Muito facilmente. Ele inclinou o cilindro em direção ao feixe de luz, e olhou dentro.

Estava vazio.





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