“o dentista”



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Encontro16.09.2019
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“O Dentista”

Em uma tarde de domingo, estava andando com meu táxi em busca de um passageiro. Descendo uma avenida principal da Aclimação, um homem dá sinal, ao entrar no carro, cumprimenta com um “boa tarde” e pede para eu fazer uma corrida perto. Digo que tudo bem, “vamos lá”. Chegando perto da tal rua, diz que pegará um presente e já retornaria no mesmo táxi. Respondi que o aguardaria no carro.

Aproximadamente cinco minutos depois o passageiro retornou. Entrou no táxi pedindo desculpas pela demora. Eu disse: “o senhor não demorou. Vai voltar para o mesmo local?” Ele respondeu que ficaria um quarteirão acima.

Em seguida passamos por uma igreja evangélica, quando ele perguntou se elas realmente conseguem tirar as pessoas das drogas e do mundo do crime. Respondi que já ouvi dizer que pessoas drogadas e alcoólatras se recuperaram devido à igreja. Mas teve alguns casos que o indivíduo voltou a praticar seus vícios mesmo assim. O passageiro disse que teve um amigo que entrou em uma igreja evangélica e se tornou um pastor. Perguntei se esse amigo tinha algum vício com álcool ou drogas? “Sim, era um alcoólatra, mas faz algum tempo que não o vejo”, falou.


Mais adiante pediu para que eu parasse o táxi. O valor da corrida estava marcando no taxímetro R$18,00, então ele deu uma nota de cinqüenta reais. Perguntei se não tinha trocado. Em seguida, enfiou a mão no bolso da calça para tirar o notas de valores menores. Quando puxou o dinheiro do bolso caíram alguns papelotes de cocaína no banco do carro.


Foi quando falou: “não consigo me livrar disso”. “Você não consegue ou não quer?”, perguntei. Contou-me que já havia tentado diversas vezes, mas não conseguia parar. “Eu posso lhe dar alguns conselhos?” Ele fixou seu olhar sobre mim e disse que “sim”. Primeiro, cobrei o valor da corrida que havia feito, ele pagou com uma nota de vinte reais e pediu para que eu ficasse com o troco.


Perguntei como ele se chamava, quando respondeu “Carlos”. “Olha Carlos, vou dizer uma coisa, tudo na vida tem estágios de dificuldades. Nós sempre dizemos que tais problemas que enfrentamos têm algum culpado, e realmente pode ser verdade. Os culpados podem ser vários: nós mesmos, uma grande revolta na infância, uma influência, uma impotência por se achar um excluído na sociedade ou até a própria família”.

Ele disse que, quando criança, seus pais eram pessoas muito frias, não lhe davam carinho. Também não podia fazer nada que gostasse, tudo era motivo para impor regras rígidas. Ele disse que também tinha um filho de oito anos de idade que, para ele, era a coisa mais importante de sua vida. Achava que se não tivesse esse filho certamente já teria se matado.

Na seqüência da nossa conversa, perguntei se ele era casado. Respondeu que sua esposa morava nos Estados Unidos. Disse com olhos cheios de lágrimas que ela quis continuar morando com ele por causa da droga que não consegue se livrar. Ele começou a chorar.


“Desculpe-me, eu estou tomando seu tempo”. Imediatamente respondi que ele não tomava meu tempo, pelo contrário. Hoje, devido à correria que a sociedade vive, nem sempre conseguimos sequer ouvir um amigo ou estranho. Ele respondeu que todos pensam apenas em si próprio.
“E você, como se chama?”, perguntou Carlos. Disse que era conhecido como Polaco. “Olha, Polaco, a minha vida não é tão ruim assim. Eu sou dentista formado, tenho meu consultório, casa própria, carro e, o mais importante, meu filho. “Tudo bem, Carlos, mas se você ama tanto o seu filho, então por que usa drogas?”, retruquei. “Às vezes eu fico muito triste, sinto-me infeliz. É quando encontro alguns amigos e começo a beber cerveja, conseqüentemente alguns desses amigos gostam de cocaína. Fico, também, com muita vontade de cheirar. E acho que usando a droga acabo esquecendo meus problemas”.
Disse que sou um homem de muitas experiências e que a cada dia que passa aprendo com a vida, enfrentando meus problemas como qualquer pessoa o faz. A diferença é que existem pessoas que são muito problemáticas e já outras encaram seus desafios com naturalidade.
Comentei que todos temos problemas, mas que basta resolvê-los e não permitir que eles cresçam em nossas vidas. “Você tem um filho de oito anos de idade que ama muito, então pense no futuro que quer dar para seu a ele”, disse. “Tenho toda certeza que ele imagina que você é aquilo que ele gostaria de ser no futuro”.
Os pais são um espelho para os filhos, por isso ele deveria se mostrar importante para a criança. “Como dentista, creio que você deva ser um bom profissional. Basta ter mais garra para eliminar de vez o vício em cocaína que tanto o faz infeliz”, aconselhei. E também orientei para que seja um bom exemplo para o filho para que se torne um homem de futuro brilhante.
Mais uma vez ele agradeceu e pediu desculpas por tomar meu tempo. Carlos disse que, sem dúvida alguma, havia ganhado o domingo por ter me conhecido. E, novamente, começou a chorar.
“Olha, cara, você parece ser uma pessoa muito especial enviada para que eu possa pensar melhor na vida, inclusive na vida de meu filho”, disse entre lágrimas. “Ótimo, espero que um dia a gente se encontre novamente só para eu poder ouvir você estará feliz por não cheirar mais cocaína”.
E ele, mais uma vez, agradeceu desejando que eu e minha família sejamos muito felizes. “Muito obrigado, com certeza serei feliz”, disse. Carlos desceu do táxi esfregando a mão nos olhos e olhando para traz. Depois acenou com a mão e entrou em uma farmácia.

Fim
“Samanta”

No bairro da Vila Marina há um instituto odontológico muito conhecido e freqüentado por vários artistas televisivos. Tive muitos passageiros que eram pacientes deste instituto.

Eu transportava em meu táxi artista e empresário, alguns deles eram muito famosos. Conheci uma paciente que não era estrela de televisão, mas, era uma verdadeira estrela que brilhava com luz própria e iluminava as pessoas que estavam ao seu redor.


Essa paciente, a Samanta, se tornou uma cliente constante em meu táxi e assim foi passando a fase de seu tratamento dentário. Ela continuou a precisar dos meus serviços, um dia me disse que gostou muito do meu atendimento, e que quando precisasse de um táxi, com toda certeza, me chamaria. Passando um tempo, ela voltou a usar meu táxi, indo para vários lugares, inclusive para a clínica. Nesse período entrelaçamos uma forte amizade, conversávamos de tudo um pouco e falávamos coisas pessoais.


Vou relatar a história dessa passageira, é uma senhora de 80 anos de idade de nome Samanta. Quando essa senhora entrava em meu táxi contava muitos fatos sobre sua vida, ela se achava muito falante e eu também. Fiquei sabendo que aos 80 anos de idade, freqüentava uma academia de musculação e hidroginástica, achei aquilo bárbaro, então, começamos a conversar muito sobre sua vida. Para mim e com certeza para outras pessoas a história dessa senhora servirá de exemplo. Na maioria das vezes, achamos que devido a idade nós não conseguiremos fazer tais coisas com garra e força de vontade, principalmente quando se chega aos 80 anos.

Aos seis anos de idade ela chegou ao Brasil. Veio com sua mãe da pequena cidade Tipare, na Romênia, seu pai já estava no Brasil há alguns anos, trabalhava como cozinheiro da imigração no bairro do Pari. Hoje, mais conhecido como Memorial do Imigrante.

Ao completar 14 anos foi trabalhar em uma fábrica de meias masculinas, como era uma garota muito versátil, seu patrão deixou operar três máquinas ao mesmo tempo, ela dava a maior parte do seu salário para sua mãe.


O seu pai tinha um certo preconceito por ela trabalhar em uma fábrica, porque era muito nova, mas, como ela achava que trabalhando poderia ajudar com as despesas da casa, não teve dúvidas, continuou a trabalhar. Quando completou 18 anos de idade, resolveu sair do emprego. O pai era um homem muito trabalhador e sempre dizia para a esposa que suas filhas não precisavam trabalhar fora. Nesse período a família já tinha conseguido comprar uma casa, que era o sonho de todos.


Passado um tempo Samanta começou a namorar um italiano, logo se casou. Sua felicidade veio de uma forma não somente por ter se casado com um homem muito trabalhador, mas porque os pais sempre foram uma ótima referência para ela. Aprendeu muito com seus pais, principalmente com a mãe, que era dona de casa. A sua mãe transmitiu ensinamentos humanos para ela e à irmã. Contava que a mãe era muito solidária com seus inquilinos. Sempre gostou de fazer o bem, quando uma de sua inquilina precisava de alguma coisa, lá estava sua mãe para ajuda-la.


Samanta conviveu muito tempo com a compreensão de fazer o bem para as pessoas que precisavam de ajuda, às vezes chegava a questionar sua mãe, por tanta generosidade. “Filha nós temos obrigação de fazer o bem, principalmente para as pessoas que estão ao nosso redor”, dizia. “Você não vê, como essas mães se esforçam para cuidar de seus filhos, e elas que também trabalham fora, então, filha, não custa nada em fazer alguma coisa por elas. Simplesmente eu recolho as roupas do varal e olho a panela de feijão que esta no fogão”.


A passageira também ouvia os conselhos do pai, que por sinal ele gostava muito de esportes, principalmente de natação. Ele fazia uma bela caminhada com um belo par de tamancos, até chegar no Clube do Corinthians, do qual era sócio, só para fazer seu esporte predileto: a natação. Um dia disse a ela: “Filha, o papai anda muito e também faz natação, então, nunca deixe de fazer esportes, nós dependemos muito da atividade física, porque somos iguais a uma máquina”. Ao passar algum tempo, Samanta se dedicou aos esportes, fazendo musculação, alongamento e todos os dias caminhada.


E assim, se passaram mais de 50 anos de dedicação ao esporte, inclusive, ela acabou influenciando um de seus filhos, que também se tornou amante do esporte, ele freqüenta a academia todos os dias para manter a saúde e o físico. A senhora Samanta, como gosta de fazer alongamento e uma musculação de leve, contratou até um personal trailer.

Ela também gosta muito de festas, adora passear, viajar, participar de almoços e reuniões com os amigos, filhos e netas. Quando seu marido ainda era vivo, ele também gostava de festas e de sair para comer uma bela pizza, com sua amada Samanta. Ela contou que quando completou seus 80 anos de idade, um de seus filhos deu uma mega festa no terraço Itália, com a presença do ilustre cantor Aguinaldo Rayol. Depois, quando Samanta estava perto para completar seus 81 anos de idade, seu filho ligou para mim e disse: “gostaria que você e sua esposa fossem na festa da minha mãe, eu tenho certeza que ela ira ficar muito feliz com sua presença. Ia ser um jantar, fiquei muito honrado pelo convite”,

A festa foi realizada em um buffet, no bairro do Tatuapé, chamado Mediterrâneo. Tudo foi maravilhosamente gratificante para ela e para os convidados. Principalmente, por estar completando 81 anos de idade com muita saúde, alegria e felicidade. A alegria estava estampada em seu rosto avermelhado e com um lindo par de olhos azuis. Todos os convidados presentes se divertiram muito e ficaram felizes por estar no aniversário de Samanta.


Assim continuei a prestar serviços, e sendo mais um amigo de Samanta. Ela me chamava quase toda semana para a levar a um salão de beleza que ficava nos Jardins. Dizia que iria se produzir um pouquinho porque mais a noite teria um jantar com seus amigos e familiares.

Eu falava à ela: “a senhora tem muito pique para fazer academia e participar de muitas festas”. Ela respondia: “antes de ficar viúva, eu que sempre amei muito meu marido, ele foi à coisa mais importante que aconteceu em minha vida. Nós saiamos muito, ele também gostava de freqüentar festas e reuniões familiares, principalmente ir à pizzaria, comer uma bela pizza. Então,com a ausência de meu marido, eu passei uma fase muito difícil, além de perde-lo, eu também perdi uma nora que faleceu um pouco antes dele, e quando meu marido estava internado no hospital, ele fez eu prometer que não arrumaria um outro homem, e que continuasse em ser feliz. Essa promessa eu cumpri, todas as vezes que eu iria a uma festa ou evento, eu sentia a presença de seu espírito e ali não tinha tempo para ser infeliz”.
Ela também dizia que todos nós temos problemas, mas, que não devemos deixa-los interferir em nossos relacionamentos, principalmente na nossa felicidade. “Agora vou viver sempre bem, com ajuda de Deus. Moro sozinha em um apartamento mas, sempre digo que nunca estou sozinha, estou sempre com Deus. Faço minhas caminhadas, vou a academia, ao banco, ao supermercado e a outros lugares sem ter nenhum problema.

Resumindo tudo, sou muito feliz e grata por ter 81 anos de idade, ter muita saúde e estar fazendo quase tudo que gosto, inclusive, se Deus me permitir vou comemorar meus 82 anos de idade, novamente no Terraço Itália. Diante mão, você fica convidado para meu aniversário, quero que você leve sua esposa e seus filhos”, falou ela.


Mais uma vez fiquei honrado por ser convidado para essa festa, que com certeza seria maravilhosa. O inicio do mês de dezembro foi totalmente compatível com a expectativa de Samanta por realizar mais uma mega festa que faria para seus convidado. Se realizou próximo ao natal com todo glamour e perfeição do terraço Itália, com a presença de muitos convidados. Logo na entrada da recepção, lá estava a senhora Samanta, linda com um brilho nos olhos, recepcionando seus convidados, tirando fotos para cada um que chegassem na recepção do restaurante. A festa estava muito boa, era um almoço com muitos comes e bebes, com a presença de um DJ que animou o evento com diversas músicas. Todos não resistiram e caíram na dança. Foi muito divertido, tinha vários convidados que demonstraram estar felizes, por terem a oportunidade de participar de uma festa de aniversário de um ser humano que, além de completar seus 82 anos de idade, era uma representante exemplar de que devemos ser felizes, não somente nas festas, mas sim, no nosso cotidiano. Que ela seja um marco de amor e alegria para todas as pessoas que estão dentro e fora de sua vida.




Fim


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