O cérebro seria modelado pelo meio ambiente



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O cérebro seria modelado pelo meio ambiente?

Adalberto Tripicchio MD PhD
"(...) E os homens devem saber que de nenhum lugar, a não ser do cérebro, provém alegrias, prazeres, risos e zombarias; tristezas, amarguras, desprezo e lamentações. E por isso, de uma maneira especial, nós adquirimos sabedoria e conheci­mentos, aprendemos a ver e a ouvir o que é certo e errado, doce e amargo (...)."

 Hipócrates



Resumo

A interação entre mundo externo e cérebro é discutida, a partir das neurociências, da relação entre genética e ambien­te, e dos avanços em neuropsicoimuno-endocrinologia. São realçados o papel da psicoterapia, como influência do mun­do externo, e suas correlações com os achados apresentados.



lnteração cérebro-meio

Para Hipócrates, todo funcionamento é derivado do funcio­namento cerebral, toda atividade e afeto, alegria, prazer, tris­teza e lamentações. Ao lado disto, há aquisição de conhecimen­tos; sabedoria e aprendizado ligados ao pensamento e aos sen­timentos. Como se dá esta interação? Aprender, ver, ouvir, rela­cionar-se com o meio? Onde se localizam as emoções? Quais as sinapses que mediam o contato entre mundo externo e mundo interno?

O postulado básico das neurociências é que todo compor­tamento é reflexo do funcionamento cerebral. De acordo com este ponto de vista, a ação do cérebro está subjacente não ape­nas a comportamentos simples, mas também a funções elabo­radas, como pensar, aprender e sentir.

Estudos mostraram a especialização funcional das regiões cerebrais. As evidências da localização das funções cognitivas ligadas à linguagem, com os trabalhos de Broca, estimularam pesquisas para a localização cerebral do comportamento. Emo­ções relativamente específicas podem ser provocadas por es­timulação de regiões específicas do cérebro, em animais de experimentação. Achados importantes provêm do estudo de pacientes com distúrbios de linguagem, com formas particu­lares de epilepsia temporal e com ataques de pânico.

Células com propriedades basicamente similares podem produzir ações muito diferentes porque estão conectadas en­tre si e com a periferia de diferentes formas. De acordo com as pesquisas sobre o desenvolvimento do cérebro e do com­portamento, as principais conexões do sistema nervoso são estabelecidas sob controle genético e de desenvolvimento. En­tretanto, as seqüências de desenvolvimento não são rígidas e podem ser influenciadas pelo ambiente e pela experiência.

Como se dá o desenvolvimento perceptivo? Como ocorre a interação entre o ambiente perceptivo e o cérebro, durante os períodos críticos, influenciando o funcionamento de célu­las nervosas individuais? Atualmente, se tem evidências de que privação sensorial precoce pode alterar a estrutura do córtex cerebral. Estamos apenas começando a desenvolver técnicas para a exploração estrutural do cérebro e de suas possíveis al­terações pela experiência e pela doença(1).

Os estudos de Merzenich e Kaas demonstraram que os ma­pas somáticos sensoriais não são estáticos, mas dinâmicos. Os mapas corticais de um adulto e todo o sistema sensorial adul­to estão provavelmente sujeitos a modificações constantes com base no uso ou atividade das vias sensoriais periféricas. As­sim, a estrutura arquitetônica do indivíduo será sempre úni­ca, interagindo com sua constituição genética também única e contribuindo para moldar a base biológica e a expressão psi­cológica da individualidade.

A demonstração de que a experiência e o aprendizado se acompanham de alterações na eficácia de conexões e podem levar a alterações no mapa somatotópico cerebral nos leva a uma nova forma de ver a relação entre os diversos processos na gênese do comportamento. A tendência em medicina e em psicoclínica de se pensar que determinantes biológicos do com­portamento agem em diferentes níveis da mente do que de­terminantes sociais e psíquicos presentes, por exemplo, na di­visão de doenças psiquiátricas em duas grandes categorias, or­gânicas e funcionais, torna-se obsoleta. À luz dos novos expe­rimentos, eventos diários - estimulação sensorial, privação, e aprendizado, por exemplo - têm profundas conseqüências biológicas, causando efetivamente ruptura ou reativação de conexões sinápticas em diferentes condições.



Genética e ambiente

Robert Cancro(2) dis­correndo sobre a ação genética na esquizofrenia, diz: ''A relação entre o gene e o fenótipo final não é fixa. Todo gene é multipotencial e tem um espectro de possíveis resulta­dos. Se um determinado gene é ativado por um ambiente par­ticular, ele produz um fenótipo particular. Um segundo am­biente operando sobre o mesmo gene produz um fenótipo que difere do primeiro fenótipo." "(...) A quantidade de variabilida­de inerente no genótipo não é predeterminada, mas apenas pode ser respondida pela exposição do genótipo a uma gama de estímulos ambientais".

Parece-nos difícil reduzir a complexidade cerebral ao ge­noma ou a um código estático e preestabelecido. Isto não sig­nifica, no entanto, absolutamente, desconhecer ou diminuir a importância da hereditariedade. Implica reconhecê-Ia, ques­tionando o dito darwiniano de que "a hereditariedade é a lei". O modo de ação genética requer ativação ambiental e demons­tra a futilidade da controvérsia genética x mundo externo. Am­bos são necessários.

Sabemos que o suporte material da hereditariedade, o DNA (ácido desoxirribonucléico), é composto pelo encadeamen­to de nucleotídeos em dupla hélice. A seqüência destes nucleotí­deos que o compõe define integralmente a seqüência de ami­noácidos de todas as proteínas do organismo.

Todos os neurônios provêm de uma única célula, o ovo, com seus 46 cromossomos. Que mecanismos direcionam a evolu­ção de gerações de células, a partir deste ovo único?

Chan­geux(3) propõe o modelo de um "embrião-sistema", que se cIi­va em elementos-autômatos, as células embrionárias, cujo nú­mero, estado de diferenciação, posição, (...) evoluem em função do tempo. Um sistema é definido pelo número de seus elemen­tos, por suas diversas classes (se existentes) e, sobretudo, pe­las relações, no espaço e no tempo, dos elementos entre si e por suas regras de interação. No caso do embrião, as regras de interação dão lugar às trocas de sinais entre as células e às re­lações entre sinalização intercelular e posição das células no embrião. Os genes de cada célula embrionária não constituem mais unidades independentes. Esta rede de comunicações es­tabelecida entre células coordena, a cada instante, sua expres­são.

Os hormônios e outros fatores químicos participam em um conjunto de interações que harmonizam e coordenam a ex­pressão dos genes presentes nas células. O modelo de "embrião-sistema" permite libertar-se do conceito absoluto de programa genético e realça a contribuição das interações en­tre células no desenvolvimento do organismo e na evolução para a complexidade da organização do adulto.

Após o nascimento, o cérebro continua a crescer dramati­camente. De um peso aproximado de 365-400g, atinge cerca de 1.000g ao final do primeiro ano pós-natal. Prosseguem as "divisões e multiplicações de células gliais; o sistema visual co­meça a ser mielinizado por volta da quarta semana; por volta do segundo ano, completa-se a maior parte da mielinização do cérebro e dos tratos principais. O crescimento do cérebro continua, em ritmo mais lento, até 12 a 15 anos, quando o pe­so médio do cérebro adulto atinge aproximadamente 1.230 a 1.275g nas mulheres e 1.350 a 1.410mg nos homens.

Há ainda mielinização, embora mais lenta. No entanto, o processo de migração dos neuroblastos se completa ao final do quinto mês fetal e, presumivelmente, nesta época o cérebro já adquiriu seu total de neurônios(4). A importância do patrimônio genético é clara e, qualquer que seja o clima ou ambiente, garante os grandes traços da organização cerebral e a unidade do cére­bro humano no seio da espécie.

Um mesmo gene pode cumprir diferentes funções, em di­ferentes momentos no curso do desenvolvimento, possibili­tando maior aproveitamento de um mesmo número de genes. Outro meio que permite aos genes diversificarem suas ações é a combinação de seus efeitos no tempo e no espaço. Alguns implicados na comunicação e nos sinais entre células podem coordenar a expressão de estoques de genes distribuídos no embrião e no sistema nervoso em desenvolvimento.

Um pe­queno número será suficiente para regular, de forma progres­siva e seqüencial no tempo, as divisões, migrações e diferen­ciações dos neurônios que formarão o córtex cerebral. No curso do desenvolvimento, as múltiplas representações do corpo, dos órgãos e dos centros nervosos aí se inscreverão. Enfim, as pro­jeções e associações diversas darão lugar a uma trama de com­binações múltiplas.

Podemos então manter o termo determinismo genético, ao falar da organização funcional do sistema nervoso central. No entanto, enquanto há uma relação direta entre a estrutura de uma proteína e a seqüência de nucleotídeos do DNA, ao falar­mos de uma função cerebral ou da estrutura que se constrói no decorrer do tempo e do desenvolvimento, não mais será possível fazer tal correspondência. Não encontramos o gene da loucura, da inteligência, ou da linguagem.

As pesquisas de genética molecular no Campo Psi têm tra­zido importantes contribuições ao estudo dos transtornos mentais, mas não há evidências de efeitos genéticos exclusivos e de­terminantes, a partir de nenhum estudo(5).

No curso da ontogênese e da filogênese, o período de pro­liferação sináptica se alonga, o número de ramos de ramifica­ções neuronais cresce, o número de conexões possíveis au­menta. Em parte, as mutações genéticas podem dar conta deste crescimento. Mas esta amplificação celular e sináptica, dos ma­míferos primitivos ao homem, é apenas transitória. A cada ge­ração, a interação com o mundo exterior a modula. O desen­volvimento do encéfalo "se abre" para o ambiente. O tempo de contato se prolonga enormemente no homem. "Uma ou algumas mutações que criam uma assimetria entre os dois he­misférios, favorecem então a ocupação máxima de sua super­fície. O homem possui, doravante, a capacidade de apreender uma linguagem articulada, de inventar a escrita e de empre­gá-Ia"(3).

A interação com o ambiente contribui para uma organiza­ção neural sempre mais complexa. Esta estruturação seletiva do encéfalo pelo ambiente se renova a cada geração. Sobre o patrimônio genético, se superpõe uma variabilidade individual da organização dos neurônios e de suas sinapses, que permi­te imprimir em cada encéfalo humano traços próprios ao am­biente particular no qual ele se desenvolveu.

Neuropsicoimunoendocrinologia

Segundo Alfred M. Freedman(6): "Experiência, fisiologia e anatomia compõem um todo di­nâmico em constante modificação. É a totalidade que é críti­ca (...)."

O desenvolvimento da imunologia e os avanços das neu­rociências propiciaram maior conhecimento sobre a capaci­dade integrativa do Sistema Nervoso Central em relação ao Sis­tema Imune, fornecendo evidências de interações recíprocas entre ambos.

Efeitos de lesões no hipotálamo e em outras áreas cerebrais sobre as respostas imunes; presença de receptores para hormônios e neurotransmissores nos linfócitos; efeitos de respostas imunes sobre a atividade hipotalâmica; e evidên­cias neuroanatômicas e neuroquímicas de inervação direta do tecido linfóide têm sido observados.

A associação entre Sistema Nervoso Central e Sistema Imu­ne é apontada em diversos estudos relacionando comporta­mento condicionado e resposta imune. Uma variedade de es­tressores em animais e humanos altera medidas imunológi­cas e os efeitos parecem ser mediados pelos sistemas neuroen­dócrinos, de neurotransmissores e neurossecretores(7-9).

Estresse, sobretudo estresse incontrolável, produz disfun­ção do eixo Hipotálamo-Hipófise-Suprarrenal (HHS), medido por elevações de ACTH. Estas alterações assemelham-se às encon­tradas na depressão(2,10). O início e o curso de doenças infec­ciosas, câncer e doenças auto-imunes é freqüentemente rela­cionado com situações de estresse e disforia; imunossupres­são é relatada no luto; o luto conjugal ou da pessoa amada é considerado um dos maiores estressores, associado com maior morbidez e mortalidade e, por vezes considerado, na literatu­ra, causa potencial de asma, retocolite ulcerativa e sintomas depressivos(11). Melhor adaptação, psicológica e interpessoal, após o luto parece estar relacionada positivamente com o apoio social recebido(12). Redução da função imune é relatada em presença de depressão, dificuldades e vivências de amea­ça(13).

As respostas imunes não ocorrem, portanto, de forma au­tônoma, apenas devido à presença ou ausência de antígenos. Influências ambientais e cerebrais têm sido demonstradas - ­condições estressantes levando à supressão de mecanismos imunes, observada através de medidas de linfócito-citotoxici­dade, de fagocitose, de proliferação em resposta à estimula­ção linfocitária, de produção de intérferon, diminuição de cé­lulas T-helper e da relação T-helper / T-supressor. Weiss & cols.(14) relataram aumento da função de resposta celular em condições de estresse crônico.

Nos últimos 20 anos, muitas pesquisas têm documentado alterações do eixo hipotálamo-hipófise-tireóide (HHT) e hipo­tálamo-hipófise-suprarrenal (HHS), em pacientes com distúrbios afetivos, especialmente depressão. Aproximadamente 25% destes pacientes apresentam níveis de TSH não responsivos à estimulação com TRH e o eixo HHS encontra-se hiperativo em 50-75 % dos pacientes com depressão maior(15).

Os principais efetores biológicos da resposta generalizada ao estresse são o hormônio de liberação de corticotropina (CRH) e o sistema locus ceruleus-noradrenalina. Colocados em ação quando é vivenciada uma ameaça à homeostase, agem diretamente no Sistema Nervoso Central para facilitar vias neu­rais adaptativas, que promovem atenção, alerta, agressão, ini­bindo as vias de funções vegetativas. Na periferia, agem atra­vés da liberação de catecolaminas e glicocorticóides.

Os glicocor­ticóides também mediam a imunossupressão e estão relacio­nados às atividades do eixo HHT. Estes efeitos agudos asseme­lham-se às alterações crônicas freqüentemente encontradas na depressão. Tais similaridades parecem ser o resultado do trabalho de efetores similares, se não idênticos. Várias outras doenças na clínica podem ser também relacionadas a processos fisiológicos adaptativos que falham em responder normalmente à regulação homeostática(16,17).

No entanto, no dia-a-dia, não podemos fazer relação dire­ta entre estresse incontrolável no laboratório e as possibilida­des humanas que alteram uma situação particular, como ati­tudes, recursos espirituais, desejos, esperanças, expectativas e ideais. Idade, sexo, hospitalização, gravidade do quadro tam­bém estão associados a alterações nas respostas imunes, tra­zendo dificuldades metodológicas de avaliação de muitos dos achados da literatura sobre o assunto.

Schleifer & cols.(18) sugerem que a alteração de imunidade encontrada na depressão possa ocorrer apenas em subgrupos de pacientes deprimidos, não sendo um correlato biológico es­pecífico de depressão. Os estudos relacionados a situações de luto apresentam complexidade devido à natureza altamente subjetiva do fenômeno e à multiplicidade de fatores antece­dentes que participam no curso e evolução do período de lu­to.

Stein & cols.(19) em revisão da literatura sobre sistema imu­ne e depressão, consideram os achados inconcIusivos e incon­sistentes, devido a falhas no desenho dos estudos, nos grupos-controle e a dificuldades conceituais. Sabe-se, entre­tanto, que a ativação do sistema imune está associada a alte­ração da atividade noradrenérgica no hipotálamo, que as cé­lulas imunes produzem uma variedade de moléculas, incluin­do interleucina-1 e corticotrofina e que há amplas relações neuro-imunes.

Não podemos afirmar que o tratamento da depressão pos­sa influenciar o Sistema Imune com conseqüências para a saú­de física. No entanto, o valor de intervenções psicossociais na qualidade de vida e no estado mental de pessoas gravemente doentes não deve ser subestimado. O papel destas interven­ções no tratamento de indivíduos com distúrbios relaciona­dos à imunidade como câncer, AIDS e doenças auto-imunes não deve estar na dependência de comprovações de relações significativas entre estados psicossociais e estado imune.



Psicoterapia como influência do mundo exterior

Mohl(20) assegura que "medicação, interpretação de sonhos e empatia se tornam simplesmente diferentes formas de alterar diferentes neuro­transmissores em diferentes partes do cérebro. Que a lingua­gem dos impulsos, conflitos, sentimentos e memória serve me­lhor do que a linguagem de neurotransmissores, sinapses e estruturas cerebrais, quando aplicando psicoterapia ou discu­tindo casos ou teorias não afasta o sentido mais amplo e pro­fundo dado à linguagem psicodinâmica por estes dados."

A divisão: biológico x psicodinâmico não pode ser manti­da inalterada, a partir dos dados provenientes da interface entre neurociências e ciências do comportamento. Evidências con­sideráveis demonstram que eventos ambientais alteram a es­trutura e a função do cérebro e que o aprendizado (memória) se associa a alterações a nível de bioquímica neu­ronal. Mohl(20) sugere que os distúrbios neuróticos possam ser causados pela interação com o meio, levando a facilitações si­nápticas errôneas, enganos na ativação de genes, atividade de canais de cálcio inapropriada e níveis enzimáticos alterados. O trabalho do psicoterapeuta seria o de reverter tais erros, criando um ambiente que produziria efeitos neuronais mais saudáveis.

Freud(21) (1895/1950), em seu "Projeto para uma Psicolo­gia Científica", procura relacionar suas observações psicoló­gicas com conhecimentos da biologia: "(...) a memória está re­presentada pelas diferenças de facilitação entre os neurônios w. De que depende então, a facilitação dos neurônios w?

Se­gundo o conhecimento psicológico, a memória de uma expe­riência (isto é, a força persistente atuante) depende de um fa­tor que se pode qualificar como a magnitude de uma impres­são, também da freqüência com que a mesma impressão se repete." "(...) Por conseguinte, a facilitação não pode basear-se em uma catexia que permaneça retida, pois isso não produzi­ria as diferenças de facilitação nas barreiras de contato de um mesmo neurônio". Encontramos aí a idéia de facilitações in­terneuronais, a partir da experiência; de catexias ou energias, em estado fluente e, portanto, não rígidas e passíveis de mo­dificação pelo aprendizado e experiência e de barreiras de con­tato entre os neurônios do sistema nervoso.

Winson, estudando os sonhos, encontrou evidências para as formulações iniciais de Freud sobre a natureza dos traços de memória, do sonho e dos processos inconscientes, através de processamento hipocampal de percepções do dia e com­paração destas com as memórias armazenadas no córtex as­sociativo, estabelecendo conexões límbicas e utilizando tais informações para reforçar ou alterar o planejamento de res­postas comportamentais no córtex frontal(20).

Estudos sobre a natureza da ansiedade aguda, crônica e an­tecipatória confirmam escritos de Freud e Pavlov sobre o apren­dizado da ansiedade e sua função adaptativa biológica, pre­parando o indivíduo para fuga ou luta, em reação a estímulos externos ou, como apontou Freud, através de mecanismos de­fensivos em resposta a estímulos internos. A possibilidade de aprendizado ou aquisição de aspectos da ansiedade não ex­clui a possível contribuição genética na predisposição à an­siedade. Talvez, a predisposição para aprender certas relações com estímulos seria herdada(22).

Que alterações devem ocorrer nos neurônios para que o aprendizado e a memória ocorram? Pode a experiência levar a alterações estruturais duradouras no sistema nervoso? Tais alterações estruturais envolvem mudanças na expressão ge­nética? E seria, então, a psicoterapia apenas útil quando en­volve tais mudanças? Estas questões, embora tenham origem a partir de perspectivas comportamentais e neurobiológicas, convergem para um campo comum.

Schwartz & Kandel(22) propuseram que o aprendizado pro­vavelmente envolva alterações duradouras na expressão ge­nética. Esta idéia é consistente com a sugestão de que novas sínteses protéicas são necessárias para a memória de reten­ção e evocação. A informação do DNA não é transcrita direta­mente para uma proteína, mas sim para um RNA mensagei­ro, e este é traduzido em proteína. Assim, genes alterados ge­ram RNA mensageiros alterados e proteínas alteradas.

Bradley(23) propõe um modelo, a ser utilizado pelos profis­sionais de saúde mental, relacionando formação reticular, sis­tema límbico e sistemas cerebrais frontais. Procura dar conta dos aportes genéticos e biológicos, dos componentes neuro­lógicos e do aprendizado/experiência e enfatiza a necessida­de de integrar modelos anteriores com as vias cerebrais que controlam o comportamento.

Karasu(24) busca novos modelos neurobiológicos para a compreensão da complexidade dos fenômenos psicológicos; Glucksman(25) propõe a utilização da psicoterapia na preven­ção e acompanhamento de distúrbios somáticos, investigan­do respostas fisiológicas a abordagens mentais e físicas.

"Estas investigações abrem horizontes inteiramente novos para a aplicação integrada e complementar de fenômenos mentais e físicos, ampliando a base e o impacto do campo da psicoterapia."(26)

O pensamento psicanalítico tem sido particularmente va­lioso por seu reconhecimento da diversidade e complexida­de da experiência mental humana, e pelo discernimento da importância de fatores genéticos e ambientais na determina­ção da representação mental do mundo. "A emergência de uma neuropsicologia empírica dos processos cognitivos baseada na neurobiologia celular já está produzindo o nascimento de uma psicanálise científica. Esta forma de psicanálise está fun­dada em hipóteses teóricas mais modestas do que as previa­mente utilizadas, mas também mais testáveis, porque mais pró­ximas da investigação experimental."(22)

Conclusão

Concluo que modelar significa assinalar os contornos, ajustar-se, contor­nar, moldar. Contudo, assinalar os contornos de algo que já tem uma forma, não rígida, é diverso de dar forma a algo amorfo, inerte e passivo. Não se trata de um cérebro-barro, sen­do moldado por um mundo exterior-escultor. Absolutamen­te.

Abordo a relação cérebro-mundo externo, a partir de uma visão de desenvolvimento, de influências recíprocas, de interações. Gene-ambiente (gene-meme), mundo interno-mundo externo, cérebro-sistema psicoimunoendócrino, e suas vá­rias combinações.

Falo em um cérebro que "se abre" para o meio. Dota­do de um patrimônio genético que garante sua organização e possibilidades, somente se completa e individualiza, a par­tir deste contato. Contato, sem um único sentido, de escultor modelando o barro, mas com sentido duplo ou múltiplo, com ajustes constantes, contornos que se definem continuadamen­te.

Ressalto o papel da intervenção psicoterápica, enquan­to influência ambiental, com repercussões biológicas, agindo sobre problemas biológicos. Por facilitação sináptica interneu­ronal, provisão de regulação fisiológica externa ou exploração de processamento de memória hipocampal, atuando sobre a interação gene-ambiente, facilitação sináptica errônea, ativi­dade inapropriada do locus ceruleus e por aí vai.

O limite entre comportamento e biologia é arbitrário. Foi imposto por falta de conhecimento. À medida que o conheci­mento está avançando, as disciplinas biológicas e comportamentais vão, cada vez mais, convergindo em determinados pontos.

Espero que novas pesquisas tragam maiores dados de genética molecular, neurobiologia celular e aprendizado e comportamento, com importantes conseqüências para o Campo Psi, em suas vertentes psicoterápica e psicofarmacológi­ca.

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