O coronel já NÃo manda mais no trecho miguel Carneiro o coronel já NÃo manda mais no trecho



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O Coronel já não manda mais no trecho

O CORONEL JÁ NÃO MANDA MAIS NO TRECHO

Miguel Carneiro



O CORONEL JÁ NÃO MANDA MAIS NO TRECHO
São Paulo - 2008

C289c Carneiro, Miguel.

O coronel já não manda mais no trecho / Miguel

Carneiro. – São Paulo: Editora Nelpa, 2008.

1. Novela – Coronelismo – Brasil 2- Novela – Latifúndio – Brasil

I. Título.


CDD - 791.4570981

NORMALIZAÇÃO BIBLIOGRÁFICA:

Tânia da Conceição Abreu Torres.


CAPA:

FLORIVAL OLIVEIRA (fotografia, janela da Oficina de Luíz Ferreiro, Riachão do Jacuípe, 2007)


Página 13 - Xilogravura: Calazans Neto

DO AUTOR


Même Si Maman Me L’Interdit, J’Y Arriverai, tradução de Pedro Vianna, Paris: 1976. – Pelas Lupas do Jaguaracambé e Outros Poemas. Salvador: Empresa Gráfica da Bahia, 1986. – No País dos Kiriris. Salvador: Editora do Brasil na Bahia, 1995. – Os Cânticos. Salvador: Gráfica da Assembléia Legislativa da Bahia, 1996. – Esconso e Outras Histórias. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, Coleção Selo da Bahia, 1996. – O Diabo em Desordem. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, Coleção Apoio, 2001. – Boca do Tempo. Salvador: Editora Maracujá de Vez, 2002. A Peleja da Mulher Cacaueira Contra o Pão Que o Diabo Amassou. Cadernos do CEAS, 211, Cordel. Maio /Junho 2004.

PRESENÇA EM ANTOLOGIAS



  • Antlhogia Punhética da Bahia, Editora dos Esquecidos / Tempostal, Salvador, 1973.

  • Sete Cantares de Amigos, (Organizador), Edições Arpoador, Salvador, 2003.

  • E os Poemas de Que Falei, Banco Capital, Salvador, 2005.

  • MídiaPoesia2, FAZCULTURA / DaRim Produções, Oscar Dourado, Salvador, 2004.

DRAMATURGIA



Pã, Escola de Teatro da UFBA, 1973; Sob o olhar do Cordeiro, Sala 5, Escola de Teatro, 1993; Onde se escondeu Rasgaluna que não quis ver o luar? Sala 5, Escola de Teatro, 1994; Tamatião Fumega, O Anacoreta, Teatro Expresso Bahiano, 1995; La Nonna di Palermo, Teatro Santo Antonio, 1996; Pensão Paraíso, Teatro Casa do Comércio, 1995; Os Dragões da China, Teatro Martim Gonçalves, 1997.
 

CINEMA


Dirigiu, roteirizou o documentário “Eu vi a Coluna Prestes passar”, prêmio Fernando Coni Campos, Governo do Estado da Bahia, 2003. Roteirizou e co-dirigiu: O Glorioso São Roque do Jacuípe, direção de Luís Wenderhausen, 1998. Co-dirigiu o curta-metragem, em 16 mm, Riachão do Jacuípe, direção de Ilya São Paulo, 1975.

AOS POETAS E AMIGOS

José Ferreira Filho

José Eduardo Terrin de Souza

José Abraão Carneiro Neto

Ildásio Tavares

Eleonora Cajahyba

Olny Silva

Maria da Conceição Paranhos

Edelzuita Melcliades Conceição

Rita de Cássia Conceição Carvalho

Henrique Wagner

Gustavo Felicíssimo

Bernardo Linhares

Adelmo Oliveira

Renato Sutana

Soares Feitosa

Milton Primo

Herculano Neto

Sérgio Damião Pereira

Gabriel Tiacci de Souza Mello.
E em memória de meu pai

José Abraão Carneiro.


Os fantasmas andam



E desandam pela casa

Perseguem minha sombra

E meus tormentos
Discutem filosofia com o silêncio

E adoram ouvir na escuridão do pátio

Quebrarem-se espelhos e vidraças”
In Oliveira, Adelmo, Três Fragmentos/ II Os Fantasmas,

Salvador, Edições Arpoador/ EGBA, 2005.

E daquelas pessoas,



quando perguntei por elas,

fizeram-me um gesto distante.
Perguntei por mim;

ninguém sabia quem era.
Eu disse:

é um conhecido meu que gostava muito

daqui.”
In Feitosa, Soares, Réquiem em Sol da Tarde, Carmina Effigies, Salvador, Edições do Autor, 1996.

Por último, este fantasma,



com que eu não tinha contado:

seu vulto esquerdo, parado

(tal mecanismo me pasma!)

........................... 

este estar só, num caminho

(não haver outro), este rosto

que me surgiu num agosto,

este ferrão, este espinho.”
In Suttana, Renato http://www.arquivors.com

O coronel Trazíbulo Fernandes da Cunha vivia na safação, à tripa forra e, com aquela cabeça de arromba-navio, mantinha-se pesado, sentado no imenso gabinete, no sofá de palhinha, na tarde calorenta. Pelas paredes fotos dos antepassados se distinguiam de chofre numa moldura oval: o tenente-coronel Alexandre Fernandes da Cunha, seu pai, e D. Ebonina Carneiro da Cunha, a mãe, uma espécie de fração imprópria que todos tratavam de Dona Rola. Num canto da sala havia um cabide para colocar chapéus, bengalas e a capa colonial. No outro canto quase à mostra, à porta de entrada, ficava o enorme cofre, onde ele guardava armas brancas e de fogo, a fortuna de documentos de suas sesmarias, o ouro e o vil metal. Dali de sua sala, através de um binóculo, o coronel enxergava embaçadamente o passar dos transeuntes pela praça do pequeno arruado e divisava o entra-e-sai de devotos e beatas na igreja matriz daquela freguesia.

De invernadas e estiagens brabas que assolavam aquele ermo contava com suas noventa e nove quadras natalinas no calen-dário gregoriano dos homens. Vestia-se feito um lorde inglês, a enorme calça de casimira, com o relógio de bolso à mostra e seu cordão de ouro, a camisa de linho pérola com abotoaduras de prata no punho e monograma no bolso da dita vestimenta esporte, o suspensório segurando a calça na arreata, o bandulho na caixa do peito e o anel de brilhante no anular esquerdo. Tinha a estampa de barões da renascença veneziana. O bigode cheio, descendo no canto da boca, e o falar arrastado parecendo que carregava nas cordas vocais um carro de boi rangendo na ladeira do Corcovão.

Desde as cercanias da Serra do Ouro, em Jacobina, passando pela Serra do Bugio, na Ingazeira do Norte, e confrontando com a Mumbuca, nas proximidades de Serrinha, onde os Carneiros vieram a fundá-la, nas cabeceiras do Rio Ingazeira, o Coronel Trazíbulo, mantinha seu domínio territorial. Dividia, porém, o seu poder com o coronel João Paulo da Silva Carneiro, que se estabe-lecia numa fazenda de gado para lá do Rio Tocós, e o coronel José Rufino Carneiro, na Fazenda Harmonia, onde, nesse quinhão de léguas, de senzalas no sótão do sobradão e instrumentos de tortura para domar negros africanos fujões, querelava com o coronel do bangalô da Praça de Ingazeira do Norte.

No tempo em que Joaquim Carneiro se tornou intendente daquele arruado, seu companheiro de partido, o coronel Trazíbulo Fernandes da Cunha, teve um dia de largar sua sala de visita, reunir seu próprio corpo de milicianos para rechaçar a invasão do capitão da Guarda Nacional, Francolino Pedreira, que descera da freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Gavião, onde reinava, naquele cafundó do Judas, para derrubar a intendência e tomar o poder de assalto.

Foi quando o Coronel Trazíbulo Fernandes da Cunha se envolveu naquelas brenhas de caçutinga, velame, favela e incó para restabelecer a ordem a seus munícipes naquela revolução sertaneja.

Havia lutado na Guerra de Canudos o destemido capitão Francolino Pedreira, e de lá tinha trazido a patente, a espada e os galões dourados que ostentava em seu palácio, regaliando grandeza bélica. Dizem que quem vai à guerra dela nunca se esquece e carrega pelo resto da vida aquela cena fantasmagórica na retina do olhar. Francolino Pedreira, pelo que representava para a Nação, vivia postergado na solidão de morcegos. Sem autoridade e sem poder sequer nomear um inspetor de quarteirão em seu próprio reduto. E assim, de sangue no olho, aquele arranca-rabo banzé se deflagrou naquele borocotó em três dias e três noites com Francolino tomando balaço de açoite pelas costas, e quando viu que não havia mais alternativa senão recuar e bater em retirada com seus homens e quando a cara da batalha mostrou-se inglória, marchou com seus capangas a galope na retirada do flanco, deixando para trás o arruado para seus verdadeiros alcaides. E, com seu bilhete de suma-se, encanfifou-se em Gavião a grupar veado. A quem o diabo tomou uma vez sempre lhe fica o jeito. Aquele seu jaculebu, aquela sua laúza não obteve o menor sucesso. E ficou como lexéu, naquela sessão de atrapalha durante muito tempo, feito sobejo de defunto. A espada e o fardamento tomando poeira e ele zoró por dentro do velho casarão. Foi assim que o tempo armou a zagaia da armadilha para o capitão da Guarda Nacional das terras do Gavião.

Com o tempo o arruado aos poucos começava a respirar, ganhar novos ares, e o Coronel Trazíbulo caía mais uma vez na graça do povo. Aquele reduto se mantinha pertencente juridicamente a Cachoeira, que ficava distante da sede por três rios: Tocós, Peixe e Ingazeira do Norte. Só se ia lá a negócio, viagem essa que custava um dia e meio no lombo de uma mula de picado. Com o tempo, Cachoeira tornou-se para aquele povo a capital da Bahia. Na cidade heróica se achava de tudo. Desde artigos importados da Europa às especiarias mais caras do Recôncavo Baiano. Para aquela gente não era necessário se dirigir à verdadeira capital, Cachoeira abastecia o Sertão. O próprio Coronel Trazíbulo tinha sua tropa de burros que a cada mês descia para Cachoeira para buscar farinha, charque e aguardente para abastecer a caatinga durante duas quadras.

O corone Trazíbulo, foi se mantendo em seu estado durante quase um século. Seu pai, o tenente-coronel Alexandre Fernandes da Cunha, já tinha dominado, o século passado. Parecia que aquela terra estava fadada a condição de capitania hereditária. Os governos se sucediam, e o caudilho se mantinha na vanguarda do poder. E a cada ano sua extensão territorial se ampliava com a posse ilegal de terras com barulhos e questões.

Durou cerca de trinta anos a questão de litígio da área da fazenda Bom Gosto nas lides dos tribunais contra os herdeiros de Zé Adolfo. Foram anos e anos de embargos contestatórios, de audiências, de ouvidas de testemunhas, de perícias, de protelações, de pagamentos de honorários aos advogados. O volume dos autos a cada ano aumentava ao ponto de, ao término da sentença final, chegarem a ocupar uma sala inteira do Cartório dos Feitos Cíveis.

A fortuna do Coronel Trazíbulo a cada ano se multiplicava. Sem ele nunca ter plantado na vida uma cova de feijão, sem nunca ter tangido uma boiada, sem ter nunca ferrado uma rês. Seus vaqueiros, que eram inúmeros espalhados por suas propriedades; constituíam um séqüito de eleitores sub-missos com filhos e agregados espalhados pelas caatingas. Cada vaqueiro tinha tratamento de escravo, sem direito a nada. Um mísero soldo a cada semana para sustentar a enorme prole e uma quarta de farinha e charque para aliviar a fome. A preguiça morava no lombo do Coronel da Praça dos Tamarineiros. E ele vivia a la godaça. Mesmo nas festas de apartação os vaqueiros dele não tinham direito a nenhuma regalia, na hora do almoço o repasto era servido em casco de cágado para mostrar que vaqueiro não devia ter soberbia.

O vaqueiro Antônio Santana fora seu serviçal e vaqueiro durante quarenta anos, sendo-lhe fiel, trazendo riqueza. Morava na fazenda Amargoso, para os lados do Tolete e da Toca da Onça, com sua numerosa prole. Nunca o traiu, nunca lhe passou a perna na ferração do gado. Um dia, sem mais pra quê, emitiu uma opinião sobre a passagem de um corredor numa querela do Coronel em que ficou por questão de justiça ao lado do desafeto do cabrunco. A notícia chegou aos ouvidos do demônio e numa manhã de sábado, dia de feira, quando Antônio Santana foi ao palacete do Coronel buscar sua feira, recebeu seu bilhete de alodê. A desgraça, para ser completa, precisa ser bem feita. Foi posto pra fora da fazenda, sem direito a nada. Choqueado com a desfeita para quem trabalhou a vida inteira, morreu enfartado num beiço de tanque, com aquela desfeita provocada pelo sisudo. Vaqueiro dele não tinha ter opinião e só podia rezar pela cartilha do patrão. “Vaqueiro e sal” pelo sertão era a coisa mais barata de se arranjar, essa era a opinião de Trazíbulo. Para o Coronel, macaco não briga com o pau aonde sobe, e sempre se disse que palavra de mais só custa dinheiro em telegrama.

No tempo de 1849, quando o barão Homem de Melo foi o presidente da Província da Bahia, a estiagem tomou conta da caatinga, trazendo calamidade e morte. E para aliviar o sofrimento do povo, o governante baiano doou à intendência uma quantia vultosa para erguer o templo de Nossa Senhora da Conceição de Ingazeira do Norte, ficando à frente da obra o tenente-coronel Alexandre Fernandes da Cunha, que era pai do Coronel Trazíbulo. A igreja velha era semelhante a uma tapera, de parede de barro cru atravessado e pindoba no telhado. O templo foi erguido e as torres ficaram com um aspecto moscovita. Na fachada, após o término das obras, o tenente-coronel mandou colocar no pórtico do templo suas inicias demarcando para o futuro como se fosse ele quem deu o dinheiro para construir a igreja. E até hoje o povo do arruado induz que foi Alexandre quem construiu a igreja matriz.

Alexandre era filho de Tote Cunha, que viera de Cachoeira, na Bahia, para mascatear na terra e por ali ficou. Casou com uma moça da família dos Carneiros, que foram os primeiros desbravadores da região. Conforme relata Dr. Antônio José de Araújo, juiz de Jacobina, em sua obra A Família de Serrinha, publicada em junho de 1926. Afirma o autor que Antônio Carneiro morava em São Bartolomeu, hoje termo de Ingazeira do Norte e então de Cachoeira; tinha seu lar no lugar mais tarde conhecido por Sítio dos Carneiros, por haver ali fixado residência o alferes José da Silva Carneiro, filho de Antônio Carneiro da Silva , e ter-se tornado chefe da numerosa prole, toda com o sobrenome de Carneiro.

Essas famílias ramificaram-se depois por Cachoeira, Feira de Sant’Anna, São José de Itapororocas, Santo Amaro, Água Fria, Pedrão, Inhambupe, Ingazeira do Norte, Coité, Monte Alegre, Jacobina, Sento Sé. Em 12 de janeiro de 1741, por escritura pública passada na Cidade do Salvador, Bahia de Todos os Santos, Antônio Carneiro da Silva comprou a Santa Casa de Misericórdia, representada por seu procurador Francisco de Sá Peixoto, a fazenda São Bartolomeu, no termo da Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto de Cachoeira. Vinte e cinco anos depois, Antônio Carneiro da Silva, comprou a Manoel Saldanha, por escritura pública passada em notas do tabelião da Cidade do Salvador, Antônio Barbosa de Oliveira, o sítio Bom Sucesso, Boqueirão e Tocós, que parte ao meio com a fazenda da Serrinha, pelo lado do Morro.

O mestre de campo Antônio Guedes de Britto, bisavô de D. João de Saldanha, Conde da Ponte, sertanista como seu pai, Antônio Correia de Britto, que já havia tido muitas sesmarias e posteriormente teria ainda de possuir várias outras mais importantes, por Carta Régia de 21 de julho de 1609, obteve todas as terras existentes entre os rios Itapicuru e Inhambupe, nas cabeceiras das que já possuia nas nascentes dos rios Real e Piagoay, e, para o sertão, mais dez léguas medidas rumo direito com todas as pontas, enseadas, matos,águas e mais pertences e essa data de 1609 compreende os então conhecidos por sertões dos Tocós, do Pindá e do Tucano. Abrange os atuais municípios de Queimadas, Tucano, Araci (Raso), Conceição do Coité, Serrinha e Ingazeira do Norte, que separados por pequenas distâncias entre si se ligavam pela comunidade de interesses de seus habitantes.

Alexandre casou-se com a moça da fazenda Bom Sucesso, da família dos Carneiros, e após a morte dos pais tornou-se tutor de toda a família, inclusive de um menino que mais tarde seria alferes, vereador, coletor do Estado e primeiro professor público para uma escola de rapazes. Esse moço era possuidor de toda a faixa de terra da antiga fazenda Ingazeira do Norte, de onde se originou a cidade. Ao ver o menino crescer e ganhar corpo, Alexandre deserdou o pobre infante, deixando-o sem eira nem beira, surrupiando-lhe as terras. O menino Ângelo Ambrósio de Figueiredo ficou feito bilhete de sereno, na rua. Cresceu em meio às perseguições dos Fernandes da Cunha, e já velho, tomando conta da coletoria estadual no município, na partilha de um bem semovente, um escravo de nome Justino, que pertencia a sua família, avaliou pela quantia exata e justa. Cada um com sua certeza. E ninguém é moeda de vinte patacas pra agradar a todos. Foi o bastante para pedirem a sua cabeça ao Governador da Província, botando-o para fora da coletoria, alegando que ele era um alcoólatra e terem-no colocado para fora da cidade num carro de bois, ele e sua família, com destino a Santo Antônio de Jesus. E assim com o tempo os Fernandes da Cunha iam fazendo a fortuna territorial.

O Coronel Trazíbulo era detentor de um estranho poder de clarividência. Por cinqüenta anos esse fenômeno o acompanhou, livrando-o de emboscadas, tiros e envenena-mento. Quando o sujeito ia procurar o Coronel e subia as escadarias que levavam a seu gabinete, de onde ele estava, sentado como sempre em seu sofá de palhinha, já lia o bilhete no bolso do portador. Quando o mensageiro entregava a comunicação o coronel já dizia, antes mesmo de ler: “Diga a fulano de tal que....”.Quem tava de parte não entendia nada. Mas como todo mingau tem seu dia de araruta, numa casa de santo em Cachoeira, à qual um dia o coronel se dirigiu para uma consulta, esse seu estranho poder lhe foi tomado por uma sacerdotisa africana, ficando o coronel como todo mortal, sujeito às intempéries do destino.

As terras do Coronel eram medidas por Aguinaldo, um velho agrimensor, que passara a vida toda a trabalhar para a família Cunha. E nessas medições muitas terras dos outros foram passadas para trás, na mira da vara e do jalão, na medição da perna. Foram inúmeras braças perdidas, pois nesse tempo os rumos de demarcação eram alguns aciden-tes geográficos. Não existiam cercas, eram léguas e léguas de terra, com o gado solto na caatinga, apenas o ferro no lombo do animal com as inicias do dono. E assim como seu gado que era criado solto pelas caatingas, o coronel Fernandes também mantinha seus currais de fêmeas, espalhados que eram pela redondeza de suas fazendas. Naquele tempo em casa de pobre, ao meio-dia, mosca fazia samba debaixo da panela vazia. E na época, que ele reinou virar sua amante tornava-se um privilégio. Decerto elas teriam: trancelim de ouro, tecidos, perfumes, pistom de capa e terras.

Tempo é remédio e foi o Coronel Trazíbulo se amasiando pela vizinhança com todo tipo de quenga, botando filho bastardo no mundo, enquanto a velha mulher dentro da casa, de rosto parecido com anjo de altar, daquelas imagens barrocas que mais parecem estar chupando limão, ficava alheia ao mundo e à sua volta, a ver passarinho verde. Louca, trasvariando, sentada numa cadeira de plásti-co, ainda com a autoridade de nobreza inglesa, digladiando com a própria claridade do sol.

As quengas do Coronel Cunha eram marcadas como se fossem suas reses na vasta caatinga. Bastava andar pelo arruado para serem apontadas como propriedade daquele que mandava e desmandava na grei.Suas feiras semanais eram entregues em suas próprias casas, em fartos bocapios e em cada banca de açougue do Mercado Municipal tinham suas contas de fiado em nome de seu amante. Não passavam fome e, quando qualquer questão envolvia o coração de seu macho, eram as sujeitas quem, com treita e jeito, domavam o espírito do sisudo e fazia ele atender seu pedido.

Em 1850, o intendente da joça, tenente-coronel Alexandre Fernandes da Cunha, mantinha seus currais de porteiras abertas e seu gado e sua criação solta pelo ermo da caatinga. Foi nessa época que o arruado sentiu o peso da ignorância. O governo da província mandou construir a Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco, também denominada de Bahia and S. Francisco Railway, que tinha em seu traçado original a passagem dos trilhos e uma estação ferroviária na cabeça de porco que Alexandre dominava. Mas o intendente fez ver ao governo da província que aquela ferrovia só ia causar prejuízos, pois os trens de ferro e os maquinistas bêbados iriam matar os bodes que ele criava soltos. Além de economicamente mais viável, aquele traçado original da ferrovia pela Ingazeira do Norte traria vantagens a seus construtores e ao próprio Estado, porém o governo recuou com os apelos do tenente-coronel e a dita estrada teve de mudar o roteiro e seguiu via Serrinha, alcançando a estação de Salgadália, no município vizinho de Con-ceição do Coité. Ficou assim, pela primeira vez naquele século passado o capricho do mandatário atrasando o progresso de seus conterrâneos.

Em 1966, o governador Lomanto Júnior construiu a estrada que liga Feira de Santana a Juazeiro, dotando a cidade de um anel rodoviário que contempla as regiões circunvizinhas - tais como Ipirá, Serra Preta, Coité, tal como fez em Capim Grosso. Mas o Coronel Trazíbulo junto com seus asseclas proibiu tal intuito. E mais uma vez o progresso passou ao largo do velho Ingazeira do Norte dos Bodes. Em Capim Grosso, Lomanto mandou erguer um esquisito e pavoroso monumento para celebrar o intento da via rodoviária mais extensa do estado, com mais de oito metros de altura, todo em ferro retorcido, que os catingueiros locais denomi-naram de “pau do governo”.





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