O consenso de Washington já não é um consenso, mesmo para organizações, como



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O Consenso de Washington já não é um consenso, mesmo para organizações, como

o Banco Mundial, que participaram de sua formulação. Fruto de um seminário

que reuniu, em Washington, em 1990, economistas do governo norte-americano e

de instituições internacionais, como o Fundo Monetário, o Consenso de

Washington passou a ser sinônimo de medidas econômicas neoliberais voltadas

para a reforma e a estabilização de economias "emergentes" -notadamente as

latino-americanas.

Privatização, controle da inflação, Estado mínimo e liberalização do

comércio são algumas de suas receitas, que passaram a ser adotadas por

governos do continente -e também de outras regiões- para promover o

desenvolvimento de seus mercados.

Para Joseph Stiglitz, vice-presidente sênior e economista-chefe do Banco

Mundial, chegou a hora de se falar no "Pós-Consenso de Washington". Em

conferência realizada em Helsinque, em janeiro deste ano ("Mais instrumentos

e objetivos mais amplos: rumo ao Pós-Consenso de Washington"), Stiglitz

levantou uma série de críticas às políticas do Consenso, procurando

demonstrar, em retrospectiva, que elas não conseguiram dar respostas a uma

série de questões vitais para o desenvolvimento.

O economista do Banco Mundial fala da emergência de um novo consenso, que

incluiria necessariamente aspectos relativos ao desenvolvimento humano, à

educação, à tecnologia e ao meio-ambiente. "Um dos princípios que faz parte

dessas idéias emergentes é que, seja qual for o novo Consenso, não poderá

ser baseado em Washington", disse.

O Mais! selecionou três passagens da extensa conferência de Stiglitz, nas

quais ele aborda questões relativas à crise asiática, ao controle da

inflação, ao papel do Estado e à privatização.


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O vice-presidente do Banco Mundial, Joseph Stiglitz, critica as decisões do

Consenso de Washington, conjunto de medidas que divulgou a receita

neoliberal nos anos 90; Stiglitz propõe um novo consenso, que contemple

emprego, saúde, educação e meio ambiente

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JOSEPH STIGLITZ
Gostaria de colocar nesta palestra o tema do nascimento do chamado

pós-Consenso de Washington.

Meus comentários levarão em conta dois aspectos. O primeiro é que hoje

compreendemos melhor o que deve ser feito para que os mercados funcionem. O

Consenso de Washington estabeleceu que para obter bons resultados seria

preciso haver comércio liberalizado, estabilidade macroeconômica e sistemas

capazes de fixar preços reais. Bastaria que o governo cuidasse dessas

questões -essencialmente, bastaria que ele "saísse do meio", deixando de

intervir- para que logo os mercados privados passassem a gerar crescimento e

alocações eficientes.

Certamente essas questões são importantes para o funcionamento dos mercados.

Afinal, é muito difícil os investidores tomarem boas decisões se a inflação

está a 100% ao ano. Contudo, as políticas propostas pelo Consenso de

Washington são bastante incompletas e, algumas vezes, equivocadas. Coisas

importantes foram deixadas de lado: por exemplo, para que os mercados

funcionem não basta inflação baixa, é preciso que haja regulação financeira

confiável, políticas pró-competição, políticas para facilitar a

transferência de tecnologia e transparência nas informações.

Ao mesmo tempo que temos avançado na compreensão dos instrumentos

necessários para promover o bom funcionamento dos mercados, também temos

ampliado as metas do desenvolvimento: o conceito já inclui outros objetivos,

como desenvolvimento sustentável, igualitário e democrático. Hoje, um

aspecto importante do desenvolvimento é a procura de estratégias

complementares para caminhar simultaneamente no sentido desses objetivos. Na

busca dessas políticas, porém, não devemos ignorar dilemas ou escolhas

conflitivas, que são inevitáveis. Esse será o segundo tema a ser tratado

nesses comentários.
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Algumas lições da crise na Ásia do Leste

Antes de entrar nos meus dois temas, gostaria de mencionar um assunto que é

uma preocupação de muitos: o significado da crise da Ásia para nosso

pensamento sobre o desenvolvimento.

Uma das motivações para que se avançasse além do Consenso de Washington foi

precisamente o bem-sucedido, até miraculoso, segundo alguns, desenvolvimento

da Ásia do Leste. Afinal, nessa região os países não haviam seguido muito

bem os preceitos do Consenso de Washington, mas, apesar disso, de alguma

maneira conseguiram o desenvolvimento mais bem-sucedido na sua história.

Na verdade, muitas das políticas adotadas -como controle da inflação e

disciplina fiscal- cabiam perfeitamente no Consenso de Washington. Mas não

era o caso da política para o setor financeiro. Foi percebendo isso que

preparamos e editamos o informe do Banco Mundial intitulado "East Asian

Miracle" (O Milagre do Leste Asiático, 1993). O milagre da Ásia do Leste foi

também um estímulo para que repensássemos o papel do Estado no

desenvolvimento econômico.

Depois da recente crise financeira, as economias da Ásia não são mais

citadas como exemplos de sucesso e já são condenadas por suas políticas

equivocadas, tidas como responsáveis pela confusão atual. Alguns ideólogos

vêm aproveitando os acontecimentos em curso para sugerir que a raiz do

problema é o sistema de intervenção ativa do Estado. Falam dos empréstimos

canalizados pelo governo e das estreitas relações que ele mantém com os

grandes "chaebol" na Coréia.

Esses ideólogos esquecem, entretanto, os êxitos das últimas três décadas,

que não foram poucos. Apesar de um ou outro erro, houve, certamente,

contribuição do governo para esse sucesso. Foram conquistas reais, não um

castelo de areia: a expectativa de vida aumentou, a educação foi expandida e

a pobreza reduzida, acompanhando os grandes aumentos do PIB per capita. A

confusão financeira temporária não pode, nem deve, diminuir a importância

desses avanços.

Mesmo nos casos de empreendimentos diretamente conduzidos pelos governos,

vitórias foram conquistadas. Foram construídas siderúrgicas muito

eficientes, apesar de os ideólogos da privatização considerarem essas

vitórias, no melhor dos casos, acidentais, e, no pior dos casos,

impossíveis. Concordo que o Estado deva tratar apenas daquilo que é de seu

domínio, deixando a produção de mercadorias para o setor privado. Diria,

porém, que o coração do problema em curso não é o fato de que o governo

tenha intervindo demais, mas sim, de menos.

Na Tailândia, o principal problema não foi o governo ter orientado os

investimentos para o setor imobiliário. O problema foi que os reguladores do

governo não conseguiram parar esse movimento no momento certo. Do mesmo

modo, na Coréia houve créditos concedidos a empresas já com muitos

financiamentos, além de problemas na legislação societária, incluindo uma

prática generalizada de subsídios cruzados.

O problema não foi o governo ter canalizado mal o crédito -na verdade, os

problemas que enfrentam tantos bancos norte-americanos, europeus e japoneses

fazem pensar que eles também canalizaram mal os créditos. O verdadeiro

problema foi a insuficiente ação do governo, que subestimou a importância da

regulação financeira e da legislação societária.

A crise na Ásia não desmerece o milagre que houve na região. As versões mais

dogmáticas do Consenso de Washington não oferecem uma estrutura adequada

para entender nem os sucessos das economias da Ásia, nem seus problemas

atuais. As respostas à crise asiática fundamentadas nessa visão do mundo

provavelmente serão, no melhor dos casos, muito defeituosas e, no pior,

contraproducentes.

Fazendo com que o mercados funcionem melhor

O Consenso de Washington foi catalisado pela experiência dos países

latino-americanos nos anos 80. Àquela altura, as economias da região não

estavam funcionando. O PIB se encontrava em contração há três anos

consecutivos no início da década. A incapacidade funcional dos mercados foi

claramente relacionada a políticas públicas ineficientes. Registraram-se

altos déficits fiscais -muitos deles no leque de 5 a 10% do PIB- e os gastos

governamentais, que causavam os déficits, não estavam sendo usados para fins

produtivos, mas sim desviados para subsidiar o enorme e ineficiente setor

estatal.

Com importações fortemente restritas e pouca ênfase nas exportações, as

empresas não recebiam estímulos suficientes para aumentar a sua eficiência

ou manter padrões internacionais de qualidade. Num primeiro momento, os

déficits foram financiados por meio de créditos -incluindo grandes

empréstimos internacionais. As elevações na taxa real de juros nos EUA

fizeram frear o processo de endividamento e aumentaram o peso dos pagamentos

de juros, obrigando muitos países a recorrer à senhoriagem para financiar o

déficit causado pelo alto nível de gastos públicos e a base tributária em

processo de retração. O resultado foi inflação muito alta e extremamente

variável.

Nesse ambiente, a moeda tornou-se um meio de troca muito caro, o

comportamento econômico foi desviado para a proteção do valor mais do que

para o investimento produtivo e a variação nos preços relativos causada pela

alta inflação minou a transmissão de informações, que é uma das principais

funções do sistema de preços.

Em meio a esses graves problemas, formou-se o chamado Consenso de Washington

entre economistas do governo norte-americanos, do Fundo Monetário

Internacional (FMI) e do Banco Mundial (Bird). Creio que este seja um bom

momento para reexaminarmos o Consenso. Muitos países, como Argentina e

Brasil, fizeram a estabilização com sucesso e agora enfrentam desafios na

estruturação das reformas de segunda geração.

Outros países sempre tiveram políticas relativamente boas ou enfrentaram

problemas bastante diferentes daqueles da América Latina. Por exemplo, na

Ásia do Leste, muitos governos têm mantido excedentes fiscais e inflação

baixa, que, antes das desvalorizações, estava caindo. As origens das atuais

crises financeiras são outras e as soluções não serão encontradas nos termos

do Consenso de Washington.

Eu diria que a ênfase na inflação -a doença macroeconômica central dos

países latino-americanos, que foi o pano de fundo do Consenso de Washington-

levou à implementação de políticas macroeconômicas que talvez não sejam as

melhores para o crescimento econômico a longo prazo. Ela desviou a atenção

de outras fontes importantes de instabilidade macroeconômica, notadamente os

setores financeiros debilitados.

O foco na liberalização dos mercados, no caso do mercado financeiro, pode

ter tido um efeito perverso, que contribuiu para a instabilidade

macroeconômica. Em termos mais gerais, a ênfase na abertura do comércio

exterior, na desregulamentação e na privatização deixou de lado outros

ingredientes importantes para construir uma efetiva economia de mercado,

especialmente a competição. A competição pode ser tão importante ou mais do

que esses outros ingredientes para o sucesso econômico de longo prazo.

Quero argumentar, ainda, que outros ingredientes essenciais ao crescimento

econômico foram deixados de lado ou foram pouco enfatizados pelo Consenso de

Washington. Um deles, a educação, já foi amplamente reconhecido no seio da

comunidade de estudiosos e técnicos do desenvolvimento. Mas outros, como a

evolução tecnológica, ainda não receberam a devida atenção.

O sucesso do Consenso de Washington como doutrina intelectual repousa na sua

simplicidade. Embora muitos de seus proponentes pensem de forma sutil e

sofisticada, as recomendações de políticas derivadas do Consenso puderam ser

ministradas por economistas com a ajuda de pouco mais do que simples

estruturas contábeis. Os economistas teriam que acompanhar uns poucos

indicadores -a inflação, a expansão da base monetária, as taxas de juros, os

déficit fiscais e comerciais- e deles retirar um quadro da economia e uma

série de medidas.

De fato, houve casos de economistas aterrisarem num país, verificarem esses

dados, formularem recomendações macroeconômicas para reformas e logo pegarem

o avião de volta -tudo isso em menos de 15 dias.

Há importantes vantagens na abordagem do Consenso de Washington para a

formulação de recomendações de política econômica. Ele enfoca problemas de

primeira ordem de importância, oferece um esquema facilmente reprodutível e

reconhece claramente seus limites para estabelecer os pré-requisitos do

desenvolvimento. Contudo, por esses mesmos motivos, o Consenso de Washington

não oferece as respostas mais importantes para todas as questões do

desenvolvimento. Se nos iludirmos achando que ele possa fazê-lo, as

consequências podem ser políticas equivocadas.

Por outro lado, as idéias que quero discutir não são tão simples. Não há

termômetros que ofereçam uma leitura fácil do estado de saúde de uma

economia. Pior ainda, podem surgir "trade-offs", diante dos quais a tarefa

do economista é descrever alternativas, explicando as consequências das

diferentes políticas econômicas, sem esquecer, entretanto, que nessas

decisões o processo político pode vir a ter um peso determinante. Logo, nem

sempre bastam os técnicos e especialistas para definir a política econômica!

Controlando a inflação

O elemento mais importante dos pacotes de estabilização promovidos pelo FMI

e outros tem sido o controle da inflação. O argumento a favor de medidas

agressivas e preventivas contra a inflação se fundamenta em três premissas.

A primeira delas é a de que a inflação é custosa. Daí a motivação para

tentar evitá-la ou reduzi-la. A segunda premissa é a de que, uma vez em

alta, a inflação tende a se acelerar descontroladamente. Essa crença oferece

uma forte motivação para o erro por excesso de cautela, ou seja, demasiada

prevenção na luta contra a inflação.

Finalmente, a terceira premissa é a de que um recrudescimento da inflação

custa muito caro para ser revertido. Por essa premissa, mesmo que você hoje

esteja muito mais preocupado com o desemprego do que com a inflação, você

deverá concentrar-se no controle da inflação para evitar que mais adiante

surja a necessidade de uma profunda recessão para reduzi-la. Todas as três

premissas são hipóteses que podem ser testadas empiricamente.

Em outro lugar apresentei uma discussão mais detalhada dos dados empíricos.

Aqui, gostaria de ser breve. A única evidência que ficou demonstrada é que

inflação alta custa caro. Bruno e Easterly (1996) descobriram que quando um

país passa da taxa de 40% ao ano, fica preso na alta inflação e no baixo

crescimento.

Abaixo desse nível, contudo, nada comprova que a inflação custe caro. Barro

(1997) e Fischer (1993) também confirmam que a alta inflação, em média, é

negativa para o crescimento, mas falham na tentativa de encontrar provas dos

custos de uma inflação em níveis mais baixos. Fischer também encontrou os

mesmos resultados para a variabilidade da inflação. Recentes pesquisas de

Akerlof, Dickens e Perry (1996) sugeriram que baixos níveis de inflação

podem até melhorar o desempenho da economia.

Não pode haver dúvida sobre a falta de provas para a hipótese

"aceleracionista" (também conhecida como o conto do gênio que saiu da

garrafa para nunca mais voltar ou como a história do plano inclinado, onde

só se pode ir para baixo, sendo impossível voltar a subir). Não há provas de

que a aceleração da taxa de inflação esteja relacionada a aumentos passados

da inflação.

Finalmente, quanto à terceira premissa, alguns trabalhos recentes sugerem

que a curva Phillips pode ser côncava e que os custos de redução da inflação

podem ser menores do que os benefícios auferidos quando a inflação estava

subindo.

Do meu ponto de vista, a conclusão dessas pesquisas sobre as consequências

da inflação é a de que controlar a inflação alta ou média deve ser uma

política prioritária, mas pressionar uma inflação já baixa não vai levar a

um funcionamento significativamente melhor dos mercados.

Em 1995 mais da metade dos países em desenvolvimento tiveram inflação abaixo

de 15%. Para esses 71 países o controle da inflação não deve ser uma das

grandes prioridades. Nos 22 países com taxas de inflação acima de 40%, o

controle da inflação é, provavelmente, uma parte importante de programas de

estabilização e reformas -a maior parte desses países está na África, Europa

do Leste e antiga União Soviética.

Curiosamente, a ênfase do Consenso de Washington sobre a inflação foi menos

relevante na década de 80, quando um número ainda menor de países teve taxas

muito altas.

Sobre a privatização

O Consenso de Washington enfatizou mais a privatização do que a competição.

De certo modo, foi natural o que fizeram. Não somente havia estatais

ineficientes, como suas perdas estavam contribuindo para aumentar os

déficits fiscais dos governos e, portanto, para a instabilidade

macroeconômica. A privatização iria matar dois coelhos com uma cajadada.

Iria, ao mesmo tempo, melhorar a eficiência econômica e reduzir os déficits

fiscais. A idéia foi que, uma vez estabelecidos os direitos de propriedade,

logo o comportamento dos proprietários na busca da maximização de lucros

iria eliminar a ineficiência e o desperdício. Também, a venda das estatais

geraria entradas de dinheiro nos cofres vazios dos governos.

Nas economias de transição do Leste Europeu a privatização rápida foi uma

aposta razoável. É verdade que houve quem tivesse preferido estabelecer

antes uma estrutura jurídica eficiente (incluindo contratos, falência,

legislação societária e competição). Mas ninguém sabia por quanto tempo

existiria a possibilidade de intervir antes que se fechasse a janela de

oportunidades aberta com as reformas. Naquela altura parecia ser uma aposta

razoável privatizar rapidamente de maneira global e, depois, mais para a

frente, resolver os problemas.

Em retrospectiva, os que defenderam a privatização urgente superestimaram os

benefícios e subestimaram os custos, principalmente os custos políticos -com

o surgimento de barreiras ao aprofundamento das reformas. Hoje, com o

benefício de sete anos de experiência, haveria muito menos justificativas

para aceitar os riscos daquela aposta.

Mesmo naquela altura, muitos de nós advertimos contra a privatização

excessivamente rápida, sem que antes fosse criada estrutura institucional

necessária -incluindo mercados competitivos e agências regulatórias. Junto

com David Sappington, em "Fundamental Theorem on Privatization" (Teoremas

Fundamentais sobre a Privatização"), mostrei que há algumas pré-condições

muito específicas para que a privatização possa realizar os objetivos

públicos de eficiência e equidade.

Essas pré-condições são muito similares às condições nas quais os mercados

competitivos atingem eficiência. Se, por exemplo, há insuficiente

competição, o resultado provável de estabelecer um monopólio privado não

regulado será consumidores pagando preços ainda mais altos. Há indicações de

que os monopólios privados, se isolados da competição, podem sofrer várias

formas de ineficiência e podem não ser inovadores.

Na verdade as grandes empresas, tanto públicas quanto privadas, têm muitas

características em comum e, em muitos casos, enfrentam os mesmos desafios

organizacionais. Os dois modelos incluem a necessidade de delegar as

responsabilidades -nenhum dos dois, nem as assembléias legislativas nem os

acionistas, exercem o controle direto das atividades cotidianas da empresa.

Nos dois casos, no topo da hierarquia de autoridade há gerentes que

geralmente gozam de uma grande dose de autonomia e livre arbítrio. Tal como

nas empresas públicas, a busca de renda sem risco acontece nas empresas

privadas. Por exemplo, Shleifer e Vishny (1989) e Edlin e Stiglitz (1995)

mostraram não somente que há fortes incentivos para a busca de renda sem

riscos por parte de gerentes privados, mas também para ações que possam

ampliar as oportunidades para essa busca. Na República Tcheca parece que o

experimento audaz com a privatização "voucher" ou de bônus já falhou

precisamente devido a esses problemas.

Não há uma distinção muito clara entre o caráter das empresas públicas e

privadas. Mais ainda, existe um espectro contínuo de organizações entre os

dois pólos. Por exemplo, a "corporatization" (estabelecimento de empresas

públicas com autonomia gerencial) mantém a propriedade estatal, mas caminha

no rumo de restrições orçamentárias e autofinanciamento. Outra alternativa

seria a de organizações estatais avaliadas por desempenho.

Alguns dados sugerem que grande parte dos ganhos com a privatização acontece

no período que as antecede. Eles surgem do processo de "corporatization",

com a introdução de eficientes incentivos individuais e organizacionais.

A grande importância da competição, mais do que a da propriedade, já foi

mostrada pela experiência da China e da Rússia. A China conseguiu

crescimento sustentado de dois dígitos depois de ampliar a abrangência da

competição, sem privatizar as estatais. Certamente se deparam com vários

problemas nas suas estatais, que serão enfrentados, espera-se, na próxima

etapa das reformas. Por outro lado, a Rússia já privatizou grande parte da

economia, mas até hoje não fez muita coisa em favor da competitividade. Como

consequência desse e de outros fatores, o país vive um grave colapso

econômico.

Para a teoria econômica convencional é muito difícil abordar o tamanho e a

extensão no tempo desse colapso. A economia soviética era repleta de

ineficiências, com grande parte da produção dedicada às forças militares. Em

tese, ao eliminar essas ineficiências haveria um aumento do PIB -e com a

redução dos gastos militares deveria haver um crescimento de consumo. Mas

nenhuma das duas coisas está acontecendo.

Também é de difícil abordagem para a teoria econômica convencional explicar

o tamanho e o sucesso da economia chinesa nas últimas duas décadas. A

economia não só evitou uma estratégia de privatização total, mas também

desprezou muitos outros elementos da doutrina de liberalização do Consenso

de Washington.

Contudo, a China é a melhor história de sucesso das últimas duas décadas.

Isso é visível de várias maneiras. Por exemplo, se as 30 províncias da China

fossem consideradas como economias nacionais (na verdade, muitas delas têm

mais habitantes do que grande parte dos países de baixa renda), elas teriam

ocupado os primeiros 20 lugares no ranking das economias que mais cresceram

entre 1978 e 1995 (Banco Mundial, 1997).

Outra maneira de constatar o crescimento chinês está nos dados do

crescimento agregado dos países de baixa renda, entre 1978 e 1995: dois

terços disso correspondem ao aumento do PIB chinês (apesar de o PIB chinês

de 1978 ter sido apenas um quarto do PIB agregado dos países de baixa renda,

e sua população era somente 40% do total).

Uma das lições mais importantes do contraste entre a China e a Rússia diz

respeito à economia política da privatização e da competição. A privatização

de monopólios cria enormes ágios. Tem sido difícil administrar a

privatização sem gerar corrupção e outros problemas. Os empreendedores são

incentivados a arrematar empresas privatizadas antes de investir e criar

suas próprias empresas. Por outro lado, a política de fomentar a competição

geralmente cria incentivos para a criação de riquezas. Além disso, uma

questão muito importante é o procedimento sequencial da privatização e da

regulação. Ao privatizar um monopólio é possível que se crie um poderoso

interesse fático que mine a possibilidade de regulação ou competição no

futuro.


O Consenso de Washington está certo em enfatizar a importância da

privatização. O governo precisa dedicar seus escassos recursos aos setores

em que o empreendimento privado hoje não investe -e provavelmente não irá

investir no futuro. Não faz sentido que o governo administre uma

siderúrgica. O governo deve concentrar toda sua atenção nos setores em que

tem claras vantagens que o diferenciam de organizações privadas.

Mas também devemos dizer que há questões decisivas a serem tratadas em

relação à privatização, que dizem respeito à sua abrangência e às medidas

que devem ser tomadas. Mesmo quando a privatização aumenta a eficiência

produtiva, pode haver problemas para garantir que se cumpram os objetivos

públicos mais gerais, que não são refletidos claramente nos preços de

mercado -e a regulação, não necessariamente, será um remédio perfeito.

Devem ser privatizados os presídios, os serviços sociais, a fabricação de

bombas atômicas (ou melhor, o urânio enriquecido, que é o ingrediente mais

importante das bombas)? Qual deve ser a abrangência da privatização? Pode-se

introduzir mais atividade do setor privado dentro das atividades públicas,

por exemplo, por meio de terceirização ou mecanismos de incentivos como

leilões? Esses métodos são ou não uma alternativa eficiente à privatização

total? Essas são as questões que o Consenso de Washington não colocou devido

à sua ênfase exclusiva na privatização, como se fosse um mantra.

Além disso, como vimos acima, a sequência das medidas é importante, não

somente porque muitos dos benefícios da privatização são realizados

unicamente num ambiente de mercados competitivos, mas também porque podem

surgir grupos poderosos defendendo seus interesses e que sufocam a

competição ou resistem às regulações dos abusos do poder de monopólio.

O governo como complemento dos mercados

Viemos até aqui discutindo os aspectos insuficientes na abordagem do

Consenso de Washington em relação aos temas de estabilização macroeconômica,

reforma financeira, comércio liberalizado e privatização. O Consenso tem

elementos importantes, mas há muitas coisas que faltam quanto à promoção de

questões como a reforma do setor financeiro e a política pró-competição.

Agora vou entrar em questões vitais que não foram ressaltadas ou nem sequer

abordadas pelo Consenso de Washington.

O primeiro pacote dessas questões trata das funções que o governo deve

assumir, e o segundo, de como ele pode cumprir suas funções mais

eficientemente. Durante grande parte deste século as pessoas esperavam do

governo a ampliação de sua abrangência -mais gastos e mais intervenção.

Acompanhando estas exigências, houve um aumento na fatia do PIB gasta pelo

governo.

As políticas do Consenso de Washington que venho discutindo se fundamentaram

na rejeição do papel ativista do Estado e na busca de um Estado mínimo e

não-intervencionista. A premissa não-manifesta é que os governos são piores

que os mercados. Portanto, quanto menor o Estado, melhor (quer dizer, menos

ruim) ele é. Como já deve ter ficado claro, eu não acredito em afirmações

generalizadas do tipo "os governos são piores que os mercados". Eu já

argumentei que o governo tem um papel importante: o de responder aos

fracassos do mercado, que são uma característica geral de qualquer economia

com informações imperfeitas e mercados incompletos. A implicação desse ponto

de vista é a de que a tarefa de fazer o Estado funcionar mais eficientemente

é bem mais complicada do que simplesmente reduzir seu tamanho.

Tipicamente, o Estado mexe em coisas demais sem enfoques adequados e,

portanto, é menos eficiente do que poderia ser. O sucesso de qualquer

organização depende do enfoque. É fundamental tentar conseguir um enfoque

melhor do governo nas questões fundamentais -as políticas econômicas, a

educação básica, a saúde, sistema viário, segurança, proteção ambiental. Mas

o enfoque nos fundamentos não significa que o governo deva ser minimalista.

O Estado tem que cumprir um papel importante na regulação, na política

industrial, na segurança social e no bem-estar.

A questão não é se o Estado deve ou não intervir. A questão é saber de que

forma deve intervir. O mais importante é que não devemos considerar o Estado

e os mercados como substitutos um do outro.

Quero propor que o governo deva se considerar como um complemento aos

mercados, atuando para que os mercados cumpram melhor as suas funções, além

de corrigir suas eventuais falhas. Nós já discutimos um exemplo importante,

no setor financeiro, em que, sem regulação governamental adequada, o setor

simplesmente não funciona bem. Os países que têm economias bem-sucedidas

também têm governos envolvidos numa ampla gama de atividades.

Em alguns casos pode ser colocado que o governo já mostrou ser um

catalisador eficiente -as suas ações ajudam a resolver o problema de

insuficiente oferta de inovação social. Mas, uma vez que cumpriu seu papel

de catalisador, ele deve se retirar. Assim, nos EUA o governo estabeleceu um

sistema nacional de hipotecas, reduzindo os custos de crédito e dando acesso

a milhões de norte-americanos. Isso levou o país a ter uma das porcentagens

mais altas do mundo de pessoas com casa própria. Mas, feito tudo isso,



talvez seja hora de transferir essa atividade ao setor privado.
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