O amor d'Estranja e a globalização da sátira no período das invasões francesas



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O Amor d'Estranja e a globalização da sátira no período das invasões francesas
1. A presente abordagem de O Amor d'Estranja, peça de teatro composta por Hipólito José da Costa em Londres, em 1811, integra a dissertação de doutoramento a apresentar à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa com o título “Castigar a rir. O humor na imprensa periódica em Portugal 1797-1834”. Trata-se de uma investigação no âmbito da história das ideias sobre o humor na imprensa periódica publicada em Portugal e a sua circulação no âmbito do espaço lusíada, com destaque para o Brasil e os núcleos de emigração onde, a partir das invasões francesas, se verificou o lançamento de publicações em português.

O objectivo é recensear e estudar as manifestações de humor (considerando o termo em sentido lato, incluindo as acepções de anedota, cómico, chiste, dito espirituoso, facécia, graça, ironia, dito jocoso, pilhéria ou sátira) em função de um conjunto de problemas que constituem a hipótese de partida do trabalho. “Pergunta-se” aos periódicos se o humor é usado como arma política, contra quem e a favor de quem: um humor crítico, subversivo, progressista, porventura revolucionário, contra o Governo, a censura, a Igreja, a Inquisição; ou um humor conservador, tomando como alvo do ridículo aqueles que se afastam da norma vigente - os liberais, os pedreiros-livres, os admiradores dos valores da Revolução Francesa. Procura-se identificar a dimensão do humor veiculado através dos periódicos como arma social - crítica de costumes (e de quais costumes) e de modas (ridicularizando por vezes a novidade pela novidade, servindo o propósito de perpetuar o statu quo) - e em que sentido ou sentidos foi utilizado no contexto do final do Antigo Regime e no início do Liberalismo.

2. Na obra Hipólito da Costa e o Correio Braziliense, estudo de referência sobre o patriarca da imprensa livre em Portugal e no Brasil, Carlos Rizzini regista uma "extravagante incursão de Hipólito no terreno da ficção em 1811", remetendo para um "apógrafo adquirido por Plínio Salgado na Feira da Ladra, em Lisboa" (RIZZINI, Carlos, Hipólito da Costa e o Correio Braziliense, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1957, p. 45). Trata-se de O Amor d'Estranja, peça de teatro que ficou manuscrita até 1992 quando, graças a um exemplar gentilmente facultado pelo professor José Esteves Pereira, a publiquei em anexo a O Jornalismo na Emigração (FERREIRA, João, O Jornalismo na Emigração. Ideologia e Política no Correio Braziliense, Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1992).

O texto, datado de Londres, 1811, é apresentado como um "drama composto pelo redactor do Correio Braziliense e oferecido às senhoras portuguesas para seu divertimento" (as citações de O Amor d'Estranja aparecem nesta comunicação com ortografia e pontuação actualizadas). Em epígrafe, duas citações ajudam a entender o escopo da obra: da Sátira I do neoclássico português Correia Garção (1724-1772), cultor de Horácio e membro fundador da Arcádia Lusitana, morto nas prisões pombalinas; e da Sátira I do clássico latino Juvenal: "Tam quis iniquae tam patiens urbis, tam ferrens [sic], ut teneat se" ("É preciso ser-se de ferro para se conter nesta cidade iníqua").

O prólogo esclarece que o autor se inspirou em correspondência de Portugal, contendo "uma colecção de anedotas sumamente bizarras e extravagantes" que lhe provocaram "grandes gargalhadas" e o levaram a compor uma "obra moral" destinada "em primeiro lugar, aos bons pais de famílias que quiserem conservar a virtude e a honra ilesa nas suas casas, em segundo lugar pode sê-lo também a algumas senhoras a quem, não obstante servirem as carapuças que aqui vão talhadas, não as tenha abandonado a razão...." Deixa no ar uma ameaça, com ecos de proclamação ritual - convém aqui lembrar o lugar de destaque ocupado por Hipólito na Maçonaria em Inglaterra: "Semelhante a este sairá todos os meses um drama no qual farei a devida justiça à virtude, rasgando ao feio vício a imunda máscara." Rizzini congratula-se por Hipólito não ter cumprido a promessa, classificando O Amor d'Estranja uma "composição sem nenhuma qualidade, que nada acrescenta à sua reputação".

A preocupação do biógrafo é compreensível em termos estéticos. Já o estudioso da história das ideias e da cultura não pode deixar de congratular-se por ter à disposição um texto tão revelador de conceitos, preconceitos e sensibilidades.

Desde logo, os nomes atribuídos às personagens principais são significativos: as jovens protagonistas D. Fúfia Britânica e D. Sentenciosa Reticência; EstáPorTudo (pai daquelas); as tias D. Crocodilha Espantosa e D. Seba Azevia; Torneadinho (negociante, amante de Fúfia); Dr. Minuete (um "sujeito de representação", parente das senhoras); Mr. Stronk (cirurgião inglês, também amante de Fúfia).

A família de EstáPorTudo refugiou-se em Lisboa na sequência das invasões francesas, tendo abandonado terras e bens em Coimbra. Na capital do reino, pai, filhas, tias e outro parente vivem todos à custa do abastado Torneadinho que está apaixonado por Fúfia, vértice de um triângulo amoroso de que também faz parte Mr. Stronk, cirurgião do exército aliado/ocupante.

A intriga denuncia em termos satíricos a moralidade ambígua das famílias da alta sociedade portuguesa da época, cujas mulheres são apresentadas como presas/predadoras em relações afectivas e carnais com oficiais ingleses, um fenómeno de moda que alimentou o ressentimento "patriótico" contra o ocupante britânico. Como diz D. Fúfia a D. Seba: "Mas, minha tia, é necessário atender à moda, bem sabe que é prática usada há três anos por todas as senhoras portuguesas.... o tomarem por chichisbéus oficiais ingleses, que todas as que os não têm em grande número são olhadas das outras com desprezo.... Eu só com um volver de meus olhos sou capaz de fazer depor em terra as armas aos britânicos guerreiros.... Assim, ainda que Mr. Stronk não seja de grande patente nem seja rico, entretanto serve-me de chamariz para outros oficiais ingleses, mas isto não se opõe a que eu favoreça um negociante tão rico como Torneadinho, antes pelas vossas lições e das outras minhas tias eu não só posso mas devo trazer arrastados e agrilhoados todos aqueles de quem nos pode vir algum proveito."

Torneadinho organiza uma excursão a Mafra com a amante e a família desta mas o eixo de uma das carruagens parte-se durante a viagem. O acidente permite que sejam alcançados por Mr. Stronk, que os perseguia, acompanhado por outros oficiais britânicos, depois de ter obrigado uma das tias que ficara em Lisboa a revelar o paradeiro de Fúfia, acabando todos engalfinhados numa cena digna dos primórdios do cinema mudo. Depois de atirar Torneadinho ao chão, Stronk "sobe à sege onde estão D. Fúfia e D. Crocodilha e começa descarregando sobre elas um sem número de bofetões", ao mesmo tempo que desabafa: "Mas ele [Torneadinho] no culpado; estes putes sim."

No terceiro e último acto, o Dr. Espalha, outro parente que participou na excursão e foi espancado pelos ingleses, desfia o seu rol de queixas a um oficial português numa fala que é uma paródia a todo o "processo" em linguagem jurídica: "Pois meu amigo, o caso é sumário e com efeito decidiu-se a demanda em poucas horas e, apesar de ser civil, parece criminal porque me foi imposta e executada a pena, sem apelação nem agravo, com brevidade espantosa que admirariam os praxistas mais celebrados...."

O oficial português tira a moral da história: "Bem hajam os ingleses que tal fizeram, nunca as mãos lhes doam…. Diga-me, senhor Dr. Espalha, não merece ir para casa, depois de bem açoitada, toda essa vil canalha das mencionadas senhoras que antes merecem outro nome?... umas desavergonhadas.... abraçando-se e beijando-se escandalosamente com esses bifes que vieram desenvolver em Portugal os germes da devassidão e da imoralidade.... as solteiras o fazem diante dos pais e mães, as casadas na presença dos maridos e as viúvas vão mesmo ao templo insultar as cinzas de seus defuntos maridos…. Tal é a paciência, sofrimento e cornudagem deles! Oh devassidão! Oh desacato! Oh pouca vergonha!"



O oficial português narra então uma história dentro da história com características de humor negro e traços pré-românticos típicos da literatura gótica, cujos primórdios Hipólito terá acompanhado em Londres: uma orgia que termina numa noite de tempestade, com relâmpagos, trovões e um fantasma vingador, num cenário com certeza inspirado pela aparição do espectro do Comendador em Don Giovanni, o libertino castigado: ".... da afogueada brecha sai um grosso fantasma, que ainda agora me parece que estou vendo.... 'é o meu marido' (exclama a que era dentre elas a mais velha).... 'não contentes com os ultrages que me fizestes durante a vida.... fazeis que os meus manes ainda agora não descansem.... servindo a minha sombra às outras sombras de irrisão’...." Antes do coro final, é ainda o oficial português que deixa o aviso: "Conservem-se as senhoras nos limites que prescrevem a honestidade e o decoro, que eu lhes prometo que se livram de ultrajes e que serão respeitadas."

3. Escrito por um brasileiro radicado em Londres que tinha como público-alvo a corte do Rio de Janeiro e a burguesia mercantil de Lisboa e do Porto, O Amor d'Estranja é um exemplo da globalização da cultura no início do século XIX. Trata-se de drama joco-sério que, apesar da sua fraca qualidade literária, se integra na corrente satírica que outros levaram a melhor porto e que o próprio Hipólito da Costa deu provas de saber cultivar. Pelo menos quando ajudado pela actualidade, como aconteceu ao noticiar no Correio Braziliense a publicação do diploma legal de 17 de Junho de 1817 renovando a proibição da circulação do jornal. A "portaria dos governadores do Reino" viu-se transformada por uma oportuna gralha em "porcaria"... (Correio Braziliense, nº 110, Julho de 1817, pp. 3-4).


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