Noah Gordon, o xamã



Baixar 2.32 Mb.
Página14/51
Encontro18.09.2019
Tamanho2.32 Mb.
1   ...   10   11   12   13   14   15   16   17   ...   51

Williams, mulher do ferreiro, fazia roupas e vestidos sob encomenda. Durante alguns anos, Harold Ames, de uma agência de seguros em Rock Island, aparecia no

129

armazém-geral de Holden’s Crossing, todas as quartas-feiras, para fazer negócios. Mas, à medida que todos os lotes do governo eram vendidos e alguns fazendeiros,



que não tinham sorte, revendiam suas terras para recém-chegados, tornou-se necessário um escritório de compra e venda de imóveis e Carroll Wilkenson instalou-se

na cidade com uma firma de seguros e de vendas de imóveis. Charles Anderson - que, alguns anos mais tarde, tornou-se presidente do banco - foi eleito prefeito da

cidade na primeira eleição e em todas as seguintes, durante anos. Todos gostavam de Anderson, mesmo sabendo que era o candidato escolhido por Holden e que estava

no bolso de Nick. O mesmo acontecia com o xerife. Mort London não precisou nem de um ano para se convencer de que não dava para fazendeiro. O trabalho de marcenaria,

na comunidade, não dava para viver, porque quase todos faziam sua própria carpintaria, sempre que possível. Assim, quando Nick se ofereceu para apoiar sua candidatura

para xerife, Mort aceitou alegremente. Era um homem calmo, dedicado aos seus deveres, que consistiam especialmente em controlar os bêbados no Nelson’s. Para Rob

era importante quem ocupava o cargo de xerife. No campo, cada médico era um legista e era o xerife quem determinava qual deles fazia a autópsia em caso de crime

ou acidente. Muitas vezes, a autópsia era a única oportunidade que os médicos tinham para dissecar um cadáver e aprimorar sua habilidade de cirurgião. Rob J. sempre

seguia à risca os padrões científicos que vigoravam em Edimburgo, quando fazia uma autópsia. Pesava todos os órgãos vitais, anotava e arquivava os resultados. Por

sorte, dava-se muito bem com Mort London e podia fazer muitas delas.

Nick Holden conseguiu se eleger três vezes seguidas para a legislatura do estado. Às vezes, os cidadãos de Holden’s Crossing aborreciam-se com a atitude possessiva

assumida por ele e comentavam que Nick era dono do banco, de uma parte do moinho, do armazém geral e do bar, e só Deus sabia de quantos acres de terra, mas, por

Deus, não era dono deles, nem da terra deles\ Mas, de um modo geral, viam com orgulho e admiração seu desempenho de verdadeiro político, em Springfield, tomando

uísque com o governador nascido no Tennessee, servindo em comitês do Legislativo e manejando os cordões com tanta rapidez e habilidade que eles só podiam sorrir

e balançar a cabeça.

Nick confessava abertamente duas ambições.

- Quero trazer a estrada de ferro para Holden’s Crossing, assim, talvez algum dia esta cidadezinha se transforme num grande centro - ele disse a Rob, certo dia,

fumando um fino charuto, sentado na varanda do armazém de Haskins. - E desejo ardentemente ser eleito para o Congresso dos Estados Unidos. Não vou trazer a estrada

de ferro para cá se continuar em Springfield.

O relacionamento entre Nick e Rob J. tinha esfriado depois que Holden tentou dissuadi-lo de casar com Sarah, mas sempre que se encontravam tratavam-se cordialmente.

Rob olhou para ele com ar de dúvida.

130


- Vai ser difícil ser eleito para o Congresso, Nick. Você terá de conseguir votos de outros distritos, não apenas deste. E há também o velho Singleton.

O senador eleito, Samuel Turner Singleton, conhecido em todo o Condado de Rocky Island como “o nosso Sammil”, estava firmemente entrincheirado no cargo.

- Sammil Singleton está velho. Logo vai morrer ou se aposentar. Quando isso acontecer, farei com que todos no distrito compreendam que votar em mim é votar pela

prosperidade - Nick continuou, com um largo sorriso. - Fiz tudo certo para você, não fiz, doutor?

Rob tinha de admitir que sim. Era acionista do moinho e do banco. Nick controlava o financiamento do armazém-geral e do bar, mas não havia convidado Rob para participar

desses investimentos. Rob compreendia; estava profundamente enraizado em Holden’s Crossing agora e Nick não desperdiçava agrados quando não eram necessários.

A farmácia de Jay Geiger e a contínua chegada de colonos logo atraíram outro médico a Holden’s Crossing. O Dr. Thomas Beckermann era um homem de meia-idade, pálido,

com mau hálito e olhos vermelhos. Era de Albany, Nova York, e instalou-se numa pequena casa de madeira na Village, perto da farmácia. Não era formado por nenhuma

faculdade de medicina e era muito vago quando falava sobre os detalhes do seu aprendizado da profissão que, dizia ele, fora feito com um certo Dr. Cantwell, em Concord,

New Hampshire. A princípio, Rob gostou da presença de mais um médico na região. O número de pacientes era suficiente para dois médicos que não fossem ambiciosos

demais, e para Rob, significava dividir os chamados distantes e difíceis, em toda a planície. Mas Beckermann não era um bom médico e bebia demais e a comunidade

logo verificou esses dois fatos. Assim, Rob continuou a percorrer longas distâncias e a atender um número muito grande de pacientes.

Apenas na primavera isso era quase impossível para ele, quando apareciam as epidemias, febres nas margens dos rios, a sarna Illinois nas fazendas da planície e doenças

contagiosas por toda a parte. Sarah tinha imaginado trabalhar ao lado do marido, atendendo os aflitos e, na primavera, depois do nascimento do segundo filho, começou

uma campanha intensa para acompanhá-lo e ajudá-lo com os doentes. Mas escolheu o momento errado. Naquele ano, as doenças mais comuns eram a febre de leite e sarampo

e, quando ela começou a insistir com ele, Rob estava tratando de muitos doentes, alguns à morte, e não tinha tempo para dar atenção a ela. Assim, Sarah o viu sair

com Makwa-ikwa por mais uma primavera e o tormento do ciúme voltou.

No meio do verão as epidemias começaram a ceder e Rob retomou a rotina dos seus dias. Certa noite, depois de se refazer do trabalho do dia, tocando o Dueto em Sol

para violino e viola, com Geiger, Jay abordou

131


o assunto da infelicidade de Sarah. Os dois homens eram agora amigos íntimos, mas mesmo assim Rob J. ficou chocado com a presunção de Geiger de interferir num mundo

que para ele era inviolavelmente particular.

- Como é que você conhece os sentimentos de Sarah?

- Ela fala com Lillian, Lillian fala comigo - disse Jay. Depois de um silêncio embaraçado, continuou. - Espero que compreenda. Estou falando movido por... uma afeição

genuína... por vocês dois.

- Eu compreendo. E, além da sua preocupação afetuosa, tem... algum conselho?

- Pelo bem da sua mulher, você tem de se livrar da mulher índia.

- Somos apenas amigos - disse Rob, sem disfarçar seu ressentimento.

- Não importa. A presença dela é a causa da infelicidade de Sarah.

- Ela não tem para onde ir! Nenhum deles tem! Os brancos dizem que eles são selvagens e não permitem que vivam como sempre viveram. Chega Cantando e Lua são os melhores

lavradores que se pode encontrar, mas ninguém está disposto a empregar um sauk. Makwa-ikwa, Lua e Chega Cantando mantêm o resto do grupo com o pouco que eu pago.

Ela trabalha arduamente e é leal e não posso mandá-la para a reserva ou para coisa pior.

Com um suspiro, Jay concordou e não tocou mais no assunto.

A entrega de uma carta era uma raridade. Quase uma ocasião especial. Rob J. recebeu uma, enviada pelo chefe dos correios de Rock Island, que a guardou durante cinco

dias, até Harold Ames, o agente de seguros, precisar visitar Holden’s Crossing, a negócios.

Rob abriu o envelope ansiosamente. Era uma longa carta do Dr. Harry Loomis, seu amigo de Boston. Quando terminou, Rob a releu, mais devagar. E outra vez.

A carta era de 20 de novembro de 1846, e levara todo o inverno para chegar ao destino. Harry evidentemente estava com sua carreira muito bem encaminhada, em Boston.

Contava que fora recentemente nomeado professor-assistente de anatomia, em Harvard, e sugeria o casamento próximo com uma moça chamada Julia Salmon. Mas a carta

continha mais informações de ordem médica do que pessoais. Uma descoberta tornava possível a cirurgia sem dor, dizia Harry, com entusiasmo. Era um gás chamado éter,

há muitos anos usado como solvente na fabricação de ceras e perfumes. Harry lembrava na carta antigas experiências nos hospitais de Boston para medir a eficácia

do óxido nitroso, ou ‘ ‘gás hilariante” como anestésico. Acrescentava, maliciosamente, que Rob J. devia estar lembrado também de brincadeiras com o óxido nitroso,

fora do hospital. Rob lembrou, com um misto de culpa e prazer, a noite em que ele e Meg Holland usaram o vidro de gás dado por Harry. Talvez

132

o tempo e a distância tornassem a lembrança melhor e mais engraçada do que realmente fora.



No último dia 5 de outubro, escrevia Loomis, outra experiência, desta vez com éter, foi marcada para ser levada a efeito no anfiteatro cirúrgico do Hospital Geral

de Massachusetts. As tentativas para dominar a dor com o óxido nitroso falharam completamente, com estudantes e alunos, nas galerias, vaiando e gritando “Farsa!

Farsa!” As experiências nesse sentido caíram no ridículo e aproxima, no Hospital Geral de Massachusetts, não prometia ser melhor. O cirurgião era o Dr. John Collins

Warren. Estou certo de que está lembrado que o Dr. Warren é um cirurgião agressivo e capaz, mais conhecido por sua rapidez com o bisturi do que por sua paciência

com idiotas. Assim, o anfiteatro estava repleto de médicos e estudantes, no dia marcado.

Rob, procure imaginar a cena: o homem que ia administrar o éter, um dentista, chamado Morton, está atrasado. Warren, furioso, aproveita a espera para descrever como

pretende retirar o grande tumor canceroso da língua de um jovem chamado Abbott, que já está na cadeira operatória, quase morto de medo. Depois de quinze minutos,

Warren não tem mais nada a dizer e, carrancudo, tira o relógio do bolso. Começam as risadas abafadas na galeria quando chega o dentista. O Dr. Warren faz um gesto

de assentimento, ainda furioso, arregaça as mangas e escolhe o bisturi. Os assistentes abrem a boca de Abbott e puxam e seguram a língua. Outras mãos o prendem à

cadeira para evitar que ele agite o corpo. Warren inclina-se para o homem e faz a primeira incisão, rápida e profunda, e o sangue escorre do canto da boca do jovem

Abbott.

Ele não faz o menor movimento.



Faz-se silêncio completo na galeria. O menor gemido ou suspiro poderá ser ouvido. Warren retoma o trabalho. Faz a segunda incisão e depois a terceira. Cuidadosa

e rapidamente, ele retira o tumor, faz a raspagem do local, sutura e aplica a compressa para controlar o sangue.

O paciente dorme! O paciente dorme. Warren ergue o corpo. Se você pode acreditar, Rob, os olhos daquele amargo autocrata estão cheios de lágrimas!

“Cavalheiros”, diz ele, “isto não é uma farsa.”

A descoberta do éter para eliminar a dor foi anunciada na imprensa médica de Boston, informava Harry. Nosso Holmes, sempre na vanguarda, propõe que o processo seja

chamado de anestesia, do grego, insensibilidade.

A farmácia de Geiger não tinha estoque de éter.

- Mas eu sou um bom químico - disse Jay. - Posso talvez fabricar éter. Terei de destilar álcool etílico com ácido sulfúrico. Não posso usar meu alambique porque

o ácido perfura o metal. Mas eu tenho uma espiral de vidro e um garrafão.

133


Procuraram nas prateleiras da farmácia e encontraram muito álcool etílico, mas nem uma gota de ácido sulfúrico.

- Você pode fazer ácido sulfúrico? - perguntou Rob.

Geiger coçou o queixo, evidentemente divertindo-se intensamente com tudo aquilo.

- Precisaria misturar enxofre com oxigénio. Tenho muito enxofre, mas a química é um tanto complicada. Oxidando o enxofre uma vez, obtemos dióxido de enxofre. Preciso

oxidar novamente o dióxido de enxofre, para fazer ácido sulfúrico... certo, por que não?

Em poucos dias Rob J. possuía uma boa quantidade de éter. Harry Loomis, na carta, explicava como se fazia o cone de arame e pano, para aplicação. Primeiro, Rob experimentou

o gás num gato que ficou insensibilizado por vinte e dois minutos. Depois fez um cão dormir por mais de uma hora, um tempo tão longo que Rob teve certeza de que

o gás era perigoso e devia ser tratado com respeito. Administrou o éter a um carneiro antes da castração, e os testículos foram retirados sem um balido.

Finalmente, ele explicou a Geiger e a Sarah como aplicar o éter e fez o papel de paciente. Rob J. ficou inconsciente apenas por alguns minutos porque Geiger e Sarah,

nervosos, aplicaram uma dose mínima, mas foi uma experiência singular.

Alguns dias mais tarde, Gus Schroeder, com apenas oito dedos e meio, amassou o indicador da mão direita, a que estava ainda completa, sob a roda do seu reboque.

Rob deu éter a ele e Gus acordou com sete dedos e meio e perguntou quando Rob ia começar a operar.

Rob estava assombrado com as possibilidades. Era como se estivesse vendo uma pequena parte da vasta extensão além das estrelas, reconhecendo que o éter era mais

poderoso do que seu Dom. Apenas alguns membros da sua família possuíam o Dom, mas todos os médicos do mundo podiam operar agora, sem provocar dor. No meio da noite

Sarah foi até a cozinha e encontrou o marido sentado, sozinho.

- Você está bem?

Rob estudava o líquido incolor dentro do vidro, como que procurando guardá-lo na memória.

- Sarah, se eu tivesse isto antes, não a teria feito sofrer quando a

operei.

- Você se saiu muito bem sem isso. Salvou a minha vida. Eu sei.



- Este líquido - ergueu o vidro. Para Sarah, não era diferente de água pura - vai salvar muitas vidas. É a espada contra o Cavaleiro

Negro.


Sarah detestava quando Rob falava da morte como se fosse uma pessoa que podia abrir a porta e entrar na sua casa a qualquer momento. Cruzou os braços com força sobre

os seios fartos e estremeceu.

- Venha para a cama, Rob J. - disse ela.

134


No dia seguinte Rob entrou em contato com os médicos da área e os convidou para uma reunião, que se realizou algumas semanas depois, num quarto em cima da loja de

rações, em Rock Island. A essa altura, Rob já havia empregado o éter em três outras ocasiões. Sete médicos e Jason Geiger ouviram o que Loomis dizia na carta e o

relatório de Rob J. sobre seus casos.

As reações variaram entre interesse e ceticismo. Dois dos médicos presentes encomendaram a Jay éter e máscaras aplicadoras.

- É uma moda passageira - disse Thomas Beckermann - como aquela bobagem sobre lavar as mãos. - Alguns médicos sorriram porque todos conheciam o uso excêntrico que

Rob J. fazia da água e do sabão. - Talvez os hospitais metropolitanos possam perder tempo com coisas como essas. Mas nenhum bando de médicos de Boston vai nos ensinar

a como praticar a medicina na fronteira do oeste.


  • Outros médicos foram mais discretos. Tobias Barr disse que apreciava a experiência de se encontrar com outros médicos para trocar idéias e sugeriu a formação da

Sociedade de Medicina do Condado de Rock Island, com o que todos concordaram. O Dr. Barr foi eleito presidente, Rob J., secretário correspondente, uma honra que

não podia recusar porque todos os presentes receberam um cargo ou a presidência de um comité que Tobias Barr garantia serem de grande importância.

Não foi um bom ano. Numa tarde quente e úmida, quase no fim do verão, quando as plantações estavam quase prontas para a colheita, de repente, o céu ficou pesado

e escuro. O trovão ribombou e relâmpagos rasgaram as nuvens negras. Sarah, que estava tirando o mato da horta, viu, no fim da planície, um funil esguio que descia

das nuvens em direção ao solo. Coleava como uma serpente gigantesca, emitindo um silvo que se transformou num rugido quando sua boca chegou na planície e começou

a sugar terra e pequenos objetos.

O funil estava se movendo para longe da sua casa, mas Sarah correu para apanhar os filhos e os levou para o celeiro.

A doze quilómetros de casa, Rob J. também viu o tornado de longe. O funil desapareceu em poucos minutos, mas quando ele chegou à fazenda de Hans Buckman, percebeu

que quarenta acres de plantação de milho da melhor qualidade estavam arrasados.

- Como Satanás brandindo uma foice enorme - disse Buckman, com amargura.

Alguns fazendeiros perderam milho e trigo. A velha égua branca dos Mueller foi sugada pela espiral e cuspida, morta, num pasto a trinta metros de distância. Mas

nenhuma vida humana se perdeu e todos sabiam que Holden’s Crossing teve sorte naquele dia.

135

Congratulavam-se ainda por terem escapado do tornado, quando chegou o outono e a epidemia. Era a estação em que o frio cortante supostamente garantia vigor e boa



saúde. Na primeira semana de outubro, oito famílias ficaram doentes, e Rob J. não conseguia identificar a doença. Era uma febre, acompanhada de alguns sintomas de

tifo, mas ele suspeitava não ser tifo. Quando começou a aparecer pelo menos um caso por dia, Rob J. compreendeu que tinha um grande problema nas mãos. Rob saiu e

dirigiu-se para a cabana a fim de avisar Makwa-ikwa de que iam visitar doentes, mas, no meio do caminho, parou e voltou diretamente para a cozinha da sua casa.

- Está havendo muitos casos de febre grave e vai se espalhar mais ainda, certamente. Posso ter de ficar fora de casa por algumas semanas.

Sarah balançou a cabeça afirmativa e compreensivamente. Quando ele perguntou se gostaria de acompanhá-lo, seu rosto se iluminou.

- Vai ficar longe dos meninos - disse ele.

- Makwa pode tornar conta deles. Ela é muito boa com crianças - disse Sarah.

Partiram naquela tarde. Sempre que começava uma epidemia, Rob visitava todas as casas onde havia um doente, para evitar que a doença se alastrasse. Verificou que

sempre começava do mesmo modo, com uma rápida elevação da temperatura ou com inflamação de garganta, acompanhada de febre. Geralmente, no princípio, aparecia diarréia,

com muita bile verde-amarelada. Em todos os pacientes, a boca ficava cheia de pequenas papilas, independente do fato de a língua estar seca ou úmida, escura ou esbranquiçada.

Ao fim de uma semana, Rob constatou que, quando o paciente não apresentava outros sintomas, a morte era certa. Quando os primeiros sintomas vinham acompanhados por

arrepios de frio e dores nas extremidades, quase sempre muito fortes, o paciente geralmente se recuperava. Bolhas e abscessos, que apareciam quando a febre terminava,

eram bom sinal. Ele não tinha idéia de como tratar a doença. Uma vez que a diarréia geralmente acabava com a febre, às vezes recomendava um catártico. Quando os

pacientes tinham calafrios, Rob dava a eles o tônico verde de Makwa com um pouco de álcool, para provocar a transpiração, e fazia compressas de linhaça. Logo depois

que a epidemia começou, ele e Sarah encontraram Tom Beckermann que ia atender alguns doentes.

- Tifo, sem dúvida - disse Beckermann.

Mas Rob não achava que fosse tifo. Não havia manchas vermelhas no abdome e nenhum doente apresentava hemorragia anal. Mas não discutiu. Fosse o que fosse, chamar

disto ou daquilo não fazia a doença menos assustadora. Beckermann disse que dois dos seus pacientes tinham morrido no dia anterior, depois dele ter feito uma grande

sangria e aplicado ventosas. Rob procurou convencê-lo de que não era prudente fazer sangria num paciente com febre alta, mas Beckermann não estava disposto a seguir

a recomendação do único outro médico da cidade. Rob

136

e Sarah não passaram mais de alguns minutos conversando com o Dr Beckermann. Nada preocupava mais Rob J. do que um médico incompetente.



A princípio, Rob estranhou a companhia de Sarah ao invés de Makwaikwa. Sarah esforçou-se ao máximo apressando-se a fazer tudo que ele pedia. A diferença era que

ele precisava ensinar e pedir, ao passo que Makwa sabia o que fazer sem que ele pedisse. Ao lado dos pacientes, ou cavalgando entre uma casa e outra, ele e Makwa

mantinham longos e confortáveis silêncios. No começo, Sarah falava o tempo todo, feliz por estar com ele, mas depois de terem tratado muitos pacientes, a exaustão

a obrigou a ficar calada.

A doença alastrou-se rapidamente. De um modo geral, quando uma pessoa ficava doente, logo toda a família ficava também. Porém, Rob J. e Sarah foram de casa em casa

e não adoeceram, como se estivessem protegidos por um escudo invisível. De três em três, ou quatro em quatro dias, eles voltavam para casa, para tomar banho, mudar

de roupa e dormir algumas horas. A casa estava sempre aquecida e limpa, com o cheiro bom da comida que Makwa preparava para eles. Os dois brincavam um pouco com

os filhos, renovavam o estoque do tônico verde preparado por Makwa, misturado com um pouco de vinho, como Rob queria, e saíam outra vez. Nos intervalos dessas visitas,

dormiam abraçados onde podiam, geralmente nos jiraus dos celeiros ou no chão, na frente da lareira de alguma casa.

Certa manhã, um fazendeiro chamado Benjamin Haskell entrou no celeiro e arregalou os olhos ao ver seu médico com a mão enfiada debaixo da saia da mulher. Foi o mais

perto que chegaram do ato do amor durante as seis semanas de duração da epidemia. As folhas estavam mudando de cor quando começou e havia uma poeira de neve no solo

quando terminou.

No dia em que voltaram para casa, sabendo que não precisavam sair outra vez, Sarah mandou as crianças na charrete, com Makwa, até a casa dos Mueller, apanhar maçãs

ácidas para fazer molho. Depois de um banho demorado, na frente do fogo, aqueceu mais água e preparou o banho de Rob J. e quando ele estava dentro da banheira de

lata, começou a lavar as costas do marido, lenta e suavemente, como eles lavavam os doentes, mas com uma diferença, com as mãos e não com um esfregão. Molhado e

tremendo de frio, Rob a acompanhou pela casa fria, subiram a escada e entraram debaixo das cobertas, onde ficaram durante horas, até Makwa voltar com as crianças.

Alguns meses depois, grávida de poucos meses, Sarah teve um aborto natural e a hemorragia intensa preocupou Rob. Ele compreendeu que seria perigoso para ela ter

mais filhos e começou a tomar precauções. Passou a observar Sarah ansiosamente, temendo detectar manchas roxas

137

no corpo dela, como acontecia muitas vezes depois de um aborto, mas além de uma leve palidez e longos períodos de distanciamento, com os olhos cor-de-violeta fechados,



Sarah parecia se recuperar rapidamente.

24

A MÚSICA DA PRIMAVERA



Assim, freqüentemente e por longos períodos, os meninos Cole eram deixados aos cuidados da mulher sauk. Xamã se acostumou ao cheiro de morangos amassados de Makwa-ikwa,

tanto quanto ao cheiro branco de sua mãe natural, à cor escura da pele de Makwa, tanto quanto à brancura loura de Sarah. E com o passar do tempo, mais acostumado

ainda. Sarah parecia querer se afastar dos deveres de mãe e Makwa aproveitava avidamente a oportunidade, aconchegando o menino, o filho de Cawso wabeskiou, ao calor

do seu seio com uma satisfação que não sentia desde quando abraçara o irmãozinho, O Dono-da-Terra. Envolveu o menino num feitiço de amor. Às vezes, cantava para

ele.

Ni-na ne-gi-se ke-wi-to-se-me-ne ni-na



Ni-na ne-gi-se ke-wi-to-se-me-ne ni-na

Wi-a-ya-ni

Ni-na ne-gi-se ke-wi-to-se-me-ne ni-na

Eu caminho com você, meu filho,




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   10   11   12   13   14   15   16   17   ...   51


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande