Nilton bonder nunca chegou a sair de cena



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Jornal: O GLOBO - Revista O Globo - 15/04/2007
CAPA - AUTOR DA PEÇA DE MAIOR SUCESSO DA TEMPORADA
Autor da peça de maior sucesso da temporada, Nilton Bonder não tem medo de fazer da religião
um fenômeno pop



Chamada pág.2 - NILTON BONDER NUNCA CHEGOU A SAIR DE CENA. DESDE QUE SEUS PRIMEIROS LIVROS CAÍRAM NO GOSTO POPULAR E VIRARAM
Nilton Bonder nunca chegou a sair de cena. Desde que seus primeiros livros caíram no gosto popular e viraram
best-sellers, as idéias do rabino passaram a ter ressonância também fora da comunidade judaica. Mas Bonder está mais pop do que nunca. É dele o texto de “A alma imoral”, a peça mais bem-sucedida da temporada, estrelada pela atriz Clarice Niskier. E quem poderia imaginar que uma peça como essa — um monólogo que ocupava o horário alternativo do Teatro do Leblon (a partir desta semana ele ganha espaço nobre na programação) — faria tanto sucesso? O segredo está justamente na forma — corajosa, provocante, rebelde — com que Bonder trata de temas como traição, pecado, dinheiro e angústia. Sem falar na graça e na nudez de Clarice no palco, mas isso é outra história. Na reportagem de capa desta edição, de Renato Lemos, quem está nu, ainda que entre aspas, é Nilton Bonder.

Marcelo Balbio, editor assistente




Pág.20 - O TRANSGRESSOR
No teatro e
na vida real,
o rabino Nilton Bonder propõe a discussão de temas como traição, dinheiro e perversão

Nilton Bonder inicia uma reza na sinagoga da Barra, no último domingo

A

idéia inicial era fotografar o rabino Nilton Bonder de quipá. Só de quipá. Em todo o resto, ele estaria nu. Sem camisa, sem calça, sem meia, sem sapato, sem abotoadura, sem gravata e sem cueca. Nu. Pelado mesmo. No momento em que ouviu a proposta, Bonder soltou uma gargalhada comprida, bateu um joelho de encontro ao outro e, instintivamente, amassou o quipá que tinha nas mãos. Depois, óbvio, disse que não.



Talvez não fosse mesmo preciso.

Ainda que não queira, Nilton Bonder está nu três vezes por semana no Teatro do Leblon. É ali que a atriz Clarice Niskier — coberta apenas por um pano preto em alguns momentos — apresenta o monólogo "A alma imoral", baseado em livro homônimo do rabino. Durante uma hora e dez minutos, Bonder fica nu nos seios pequenos, no quadril proporcional e na pele branquinha de Clarice.

Em cima do palco, a atriz repete seu texto sobre traição, busca do prazer, pecado, dinheiro, angústia, desejo e perversão, temas não muito comuns no discurso de um religioso. A platéia chora, ri, bate palminhas nervosas, levanta o dedo quando não entende, rói as unhas, dá gritinhos e sai prometendo voltar. E volta mesmo. O negócio vai tão bem que, depois de acumular mais de 20 mil espectadores, a partir desta semana a peça deixa o horário alternativo e passa a ser apresentada de quinta-feira a domingo. Aí, para quem quiser ver, o rabino estará nu quatro vezes por semana.
Quando a Clarice propôs se apresentar nua, eu hesitei num primeiro momento. Na verdade, hesitei num segundo e num terceiro momentos também. Mas acabei topando. A nudez ali não é sensual, é um recurso fundamental para a peça. Acho que a gente tem que saber o momento certo de chutar o pau da barraca.


Pág. 22 - O RABINO
O rabino
no bosque
do luxuoso condomínio onde mora, em São Conrado: ele gosta de chope, de surfe e de ver o Botafogo no Maracanã

Clarice Niskier encena “A alma imoral” no Teatro do Leblon: o sucesso é tanto que a peça vai para o horário nobre esta semana


Aos 48 anos, Bonder é um homem magro e de físico socado, resultado dos 12km corridos e dos cinco mil metros nadados por dia. Parece um ponta esquerda dos antigos, o tronco menor que as pernas. Sabe driblar. Seus olhos são opacos e a boca, enorme, ocupa boa parte do rosto. É habilidoso com as palavras. Normalmente faz uso de trocadilhos. Traição versus tradição, letra da lei versus espírito da lei, poder de veto versus poder de voto. Funciona. Bonder quase sempre consegue o que quer sem ter que chutar o pau da barraca.

O estilo Bonder de vender idéias está em muitos dos 16 livros que escreveu. Na maioria das vezes, ele transforma complicadas parábolas religiosas em algo simples de entender. Mais ou menos como Paulo Coelho faz. Tem gente que detesta, mas tem muito mais gente que adora. No total, o autor está batendo a marca de um milhão de exemplares vendidos. O título que mais saiu foi “A cabala do dinheiro”, de 1991, que chegou à 14ª edição com 350 mil livros vendidos. Na época, o rabino era constantemente convidado para shows de variedades e programas de debates. Convivia intimamente com celebridades. O sucesso — somado ao estigma que ele mesmo admite estar colado a qualquer judeu — criou para Bonder a fama do “topa tudo por dinheiro”. É uma pecha que o incomoda à beça:

— Não tenho problema algum em falar sobre dinheiro, é um assunto como outro qualquer. Mas vivo para o meu trabalho e para a minha fé. Venho de uma família de camponeses, não há nenhum banqueiro entre nós.

Bonder vive em uma casa de quatro pavimentos em um condomínio luxuoso de São Conrado. A casa é silenciosa e, como está construída sobre um terreno inclinado, a entrada fica no nível do segundo andar. Ali está a sala espaçosa com sofás, mesas compridas, um oratório, algumas plantas e um quadro pintado por Esther, sua segunda mulher. Nos andares superiores ficam os quartos dos três filhos (Ana Laura, 7 anos, Alice, 12, e Daniel, 14) e a suíte do casal. No térreo está o escritório de Bonder, num ambiente de paredes brancas, livros e divisórias de vidro. Nos fundos, cercada por um jardim de árvores grandes, está a piscina. O rabino mora ali há oito anos.

Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade de Columbia (EUA), Nilton Bonder optou pelo rabinato em 1981 e se formou pela Jewish Theological Seminary de Nova York. No Rio, está há mais de 20 anos à frente da sinagoga da Barra da Tijuca, um prédio enfeitado com jardins desenhados por Burle Max. É contratado pela comunidade judaica do bairro, que paga seu salário e tem o poder de demiti-lo no momento que quiser. O salário é um mistério. Especula-se que um rabino receba entre R$15 e 20 mil por mês, mas não dá para saber com exatidão: Bonder, como qualquer cidadão, não gosta de mostrar seu contracheque.

O segredo de seus ganhos é apenas mais um ponto que aproxima Bonder do cidadão comum. Ele gosta de chope, de surfe, de ver o Botafogo no Maracanã (“Torcer para o Botafogo deve ser uma conseqüência de todo o sofrimento judaico” ), de Woody Allen, de comprar sua própria roupa, de hambúrguer e de mergulhar no mar. Gosta de cantar também. Ele confessa que não imaginava ver um texto seu adaptado para o teatro, mas não pensou duas vezes em autorizar Clarice Niskier a montá-lo. Bonder, talvez mais que tudo, adora arriscar.

— Quando eu propus fazer a peça, ele imediatamente disse que eu deveria ir em frente. Ali eu vi a confiança que ele deposita nas coisas, sua profunda lucidez. Ele agia como se fosse um velho amigo meu ou alguém da minha família. Isso sem dúvida é uma forma de sabedoria — conta Clarice.
Pág. 24 - CORPO E ALMA: BONDER CORRE 12 QUILÔMETROS POR DIA NA PRAIA DA BARRA E AINDA NADA CINCO MIL METROS NO CLUBE MARINA
A alma imoral” foi escrita em 1998, mas só agora o público realmente a descobriu, levando Bonder de volta à mídia e ao mundo das celebridades. Ele diz que não gosta de estar ali. Mas está. Irremediavelmente. Comenta-se, por exemplo, que a atriz Carolina Dieckemann pretende que o rabino celebre seu casamento com Tiago Worcman, que é judeu. Não é só. Aos domingos, fotógrafos já fazem ponto na frente da sinagoga da Barra em busca de flagrantes de gente famosa. O homem que com “A cabala da inveja” serviu de guru para o ex-presidente Fernando Collor é cada vez mais procurado por atores de teatro e de TV em busca de aconselhamento. Bonder voltou a ser pop.

Na livraria DaConde, situada na galeria onde fica o teatro, “A alma imoral” vende que nem banana. Já rivaliza com “A menina que roubava livros”, do australiano Markus Zusak, título que está no topo da lista dos mais vendidos. Depois que acaba cada apresentação, as pessoas saem do teatro e vão em fila indiana atrás de seu exemplar. Costumam gostar do que lêem.

— O texto é uma sacudida no nosso espírito. O autor mostra que temos sempre que nos reinventar, ou então a vida não faz sentido — avalia Rúbia Amaranto, católica de formação e absolutamente seduzida pela retórica do rabino.

Bonder seduz com coragem, conhecimento religioso e um bocado de provocação. A começar pelo título. A alma imoral, segundo ele, é a alma aberta ao novo, que não tem medo de trair a tradição. Bonder também surpreende ao pregar que alguns mandamentos — como mentir ou matar, por exemplo — podem ser transgredidos. Podem?

— Há situações-limite. Se por exemplo alguém exigir que você mate para salvar a vida de um filho, talvez a morte se justifique. Da mesma forma, há circunstâncias em que a mentira deve ser aceita — diz Bonder.

As propostas do rabino nem sempre encontram eco entre os seus. Desde que iniciou seu ofício, Bonder se acostumou a enfrentar resistência de setores mais tradicionais do judaísmo, que não vêem com bons olhos sua busca desenfreada pela renovação.

— Infelizmente não tive o prazer de assistir à peça. Gosto muito do Bonder, por todo o trabalho que ele faz. Mas, a princípio, acho que a tradição deve ser sempre mantida e repassada para as outras gerações — diz o empresário da construção civil Rogério Zylbersztajn.

Em 1992, Bonder lançou “O crime descompensa — Um ensaio místico sobre a impunidade”. Ali, o rabino trabalhava com a idéia de que o crime deve ser combatido não apenas porque “não compensa”, mas porque compromete profundamente valores humanos. Num momento em que a comunidade judaica no Brasil sofre o baque do episódio do rabino Henry Sobel, preso por furto de gravatas nos Estados Unidos, Bonder procura pistas para uma explicação:

— Não sei como julgar o que aconteceu, mas posso me colocar no lugar do Sobel e saber que ele está vivendo sob uma violenta tempestade. Ele é um modelo, esse é um momento muito difícil para todos.

Ser um modelo nem sempre é fácil. Enquanto separa as fotos de infância que ilustram esta página, Bonder se emociona falando do passado, dos amigos, da dor da separação no primeiro casamento, das festas e das viagens com os filhos. Admite suas imperfeições. Diz que se irrita no trânsito, que às vezes solta um palavrão impensado e que muitas vezes já pisou na bola. Diz que é um ser humano como qualquer outro. Imperfeito. Depois, larga uma última frase de efeito:



— Prefiro morrer como um traidor do que como um hipócrita.

ÁLBUM DE FAMÍLIA


  1. Nilton Bonder com 1 ano, em Porto Alegre, onde nasceu, em 1958


2. Na Praia da Barra, bairro onde hoje comanda a sinagoga, aos 10 anos
3. Em 1981, durante o primeiro ano de seminário no Jewish Theological Seminary, em Nova York
4. Mais uma vez em Nova York, em 1991, casando-se pela segunda vez, com a atual mulher, Esther: só 25 convidados participaram da cerimônia, que foi marcada fora do país justamente para garantir o clima de intimidade
5. De férias em Israel, em 2005, com os três filhos: Alice, a caçula Ana Laura e Daniel


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