Nelson Motta



Baixar 1.04 Mb.
Página8/29
Encontro02.07.2019
Tamanho1.04 Mb.
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   29

”Há várias formas de se fazer música brasileira: Gil prefere todas.” Com o dinheiro do prêmio do festival comprei um fusca bege e, seguindo a práxis revolucionária que Glauber Rocha pregava, aprendi fazendo: saí dirigindo pela cidade sem me preocupar com burocracias como carteira de habilitação, vistoria, seguro, essas coisas. Duas semanas depois o carro foi roubado na porta de casa. Arrasado, fui pedir ajuda ao segurança da boate Le Bateau, meu conhecido da noite, que era da polícia e que já tinha recuperado carros de amigos. Na porta do Bateau, contei-lhe o problema, dei uma descrição do carro, disse onde ele tinha sido roubado. Muito simpático e amistoso, Mariel Mariscott disse para eu me tranqüilizar:

”Você deixa uma grana para a investigação que a gente acha o carro...”

Deu uma risada e completou:

”... e ainda apaga o vagabundo!”

Desisti das investigações e peguei um táxi para casa.

Um mês depois fui cobrir uma coletiva do produtor de rádio e televisão Flávio Cavalcanti em que ele denunciaria a baixeza e obscenidade das músicas de carnaval e iniciaria uma campanha moralizadora para acabar com elas. Flávio se caracterizava por um moralismo dramático e sensacionalista, que interpretava com grande sentido de espetáculo. Lá estava eu, papel e caneta na mão, me divertindo com algumas hilariantes ”obscenidades e baixezas” que Flávio denunciava, tirando e colocando os óculos quando lia as letras, fazendo expressões exageradas de pasmo e de indignação.

”Isto tem que acabar, em nome da família e da autêntica música popular brasileira”, clamava Flávio, passando para o mundo do espetáculo o estilo de seu ídolo político Carlos Lacerda.

A maioria das letras era de bobagens e baixarias, algumas poucas eram realmente grossas, mas entre essas algumas eram irresistivelmente engraçadas, como ”Toco cru pegando fogo”, proibida pela Censura Estadual a pedido de Flávio. Afinal, o que se pode esperar das músicas de carnaval, que são a trilha sonora para a libertinagem e os excessos que caracterizam a folia?, pensei mas não disse. Depois da coletiva, conversando com Flávio, contei-lhe que tinha ganho o festival com ”Saveiros” e era repórter do JB, falamos um pouco sobre música e ele me convidou para fazer parte de um grupo de jornalistas que formariam um júri musical em seu programa da TV Excelsior, ”Um instante maestro”, para julgar as músicas de carnaval que ele apresentaria.

”Pode dizer o que você quiser”, assegurou.

E completou, com voz mais baixa:

”E tem até um cachezinho.”

Na noite seguinte, de smoking, no auditório da TV Excelsior em Ipanema, participei pela primeira vez de ”Um instante maestro” junto com os jornalistas Mister Eco, veterano colunista da noite, Hugo Dupin, diagramador e colunista do Diário de Notícias, Carlos Renato, um quarentão simpático especialista em consultórios sentimentais que se esforçava em imitar Nelson Rodrigues, totalmente alheio ao mundo da música, o sisudo crítico musical José Fernandes, ultraconservador, comicamente inflexível, e Sérgio Bittencourt, um jovem cronista e compositor, filho do legendário Jacob do Bandolim. Com 22 anos eu era o mais jovem e menos experiente da mesa, tanto em jornalismo como em televisão. E falei o que me veio à cabeça, de acordo com meu temperamento: a maioria era bobagem, algumas eram baixarias e algumas poucas realmente eram de muito mau gosto e não eram para famílias.

Como o carnaval, pensei, mas não disse.

Depois do programa recebi o cachezinho e exultei: era o salário de uma semana de trabalho no jornal. Flávio gostou tanto que convidou todo mundo para o programa da semana seguinte.

Sempre gostei de músicas de carnaval, dessa mistura de ritmo com humor que aprendi a amar nas chanchadas da Atlântida. Mas ouvindo as novas músicas carnavalescas ficava claro que as antigas eram melhores. Antigamente, os melhores, Ary Barroso, Lamartine Babo, Assis Valente, é que faziam as músicas de carnaval. Já os que vieram depois da bossa nova não achavam carnaval coisa séria, musicalmente, e os políticos e engajados então, nem pensar. A música de carnaval era considerada um gênero menor, primário, comercial. Com a cabeça cheia de velhas marchinhas e sambas alegres, maliciosos e espontâneos, comecei a imaginar como seria bom se todos aqueles mestres como Tom e Vinícius e aqueles jovens tão talentosos, como Chico, Edu, Caetano, Gil, pudessem usar seu talento para criar novas músicas de carnaval, alegres, maliciosas, espontâneas, e dessem essa alegria ao povo.

E a nós mesmos. Com essa idéia na cabeça e lápis e papel na mão fui ouvir vários diretores de gravadoras para uma matéria no JB sobre a decadência das músicas de carnaval. Conversei bastante com João Araújo, diretor da Philips, que eu já conhecia de shows e festas, e ele ficou entusiasmado com a possibilidade de os novos compositores renovarem o carnaval — e decidiu convocá-los para fazer um disco na Philips. Falou com Vinícius, que adorou a idéia. Todos os chamados gostaram da idéia.

Dias depois, na cobertura de Vinícius, no Jardim Botânico, nos reunimos para o lançamento do projeto para a imprensa. Meio como repórter do JB e meio como compositor da nova geração, me encontrei com Edu, Chico, Caetano, Capinam, Torquato Neto, Paulinho da Viola, Luiz Bonfá, Maria Helena Toledo, Tuca, Dory Caymmi, Francis Hime, Eumir Deodato, João Araújo e naturalmente Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Para evitar qualquer mal-entendido ou animosidade em relação às velhas gerações, Vinícius fez questão de chamar João de Barro, o Braguinha, veteraníssimo grande mestre e autor de grandes clássicos carnavalescos. E também Linda Batista, a cantora, uma das melhores de todos os carnavais. E por via das dúvidas, uma simpática senhora, que diziam ligada à música, chamada Jandira, filha do governador Negrão de Lima. Todos juntos, no terraço de Vinícius, foi feita a foto histórica por Paulinho Sheuensthul para grande matéria na revista Manchete. A matéria e as fotos saíram gloriosas.

Mas ninguém fez música alguma. Só o Braguinha fez o dever de casa.

Líder absoluta com seus musicais para todos os gostos, a Record lança mais um programa de sucesso, uma mistura de jogo de salão com música, com nome tirado de peça de Pirandello: ”Esta noite se improvisa”.

Cinco cantores se sentavam diante do auditório lotado e quando o apresentador Blota Júnior anunciava ”a palavra é...”, corriam para apertar o botão que daria direito a cantar uma música que tivesse aquela palavra na letra. Quem apertasse primeiro o botão, respondia: se acertasse ganhava e se errasse perdia pontos e outro podia responder e ganhar. O vencedor ganhava um carro Gordini. O público delirava.

Acompanhados pelo conjunto de Caçulinha, que com sua grande experiência em bailes e programas de calouros parecia conhecer todas as músicas, as grandes estrelas de todos os musicais da Record passaram a participar do programa. Assim que o cantor começava, Caçulinha e seu pessoal saíam atrás, mais em perseguição do que em acompanhamento, e o público se divertia com seus ídolos brincando de cantar.

Mas as grandes estrelas do ”Esta noite se improvisa” não eram necessariamente as melhores vozes, nem os artistas mais populares: eram os de melhor memória musical. Como Chico Buarque, que demonstrava conhecimento enciclopédico de letras brasileiras e uma vez inventou na hora uma música e uma letra com a palavra pedida, inventando também uma dupla de autores e provocando protestos dos concorrentes: nem Caçulinha nem ninguém da produção conheciam a música e os pontos foram impugnados. Mas Chico estava apenas levando ao pé da letra o nome do programa e exibindo seu humor e seu talento de improvisador.

O grande rival de Chico era Caetano Veloso, que apenas começava a ficar conhecido como compositor e uma noite, improvisadamente, substituiu sua irmã Maria Bethânia, que estava escalada mas não quis participar porque ficava nervosa e na hora não se lembrava de música nenhuma. Mas Caetano parecia que lembrava de todas, velhos sambas e boleros, marchas de carnaval, valsas, choros e bossas.

No palco do ”Esta noite se improvisa”, Chico e Caetano iniciaram uma amistosa rivalidade e protagonizaram memoráveis batalhas de memória musical, muitas vezes com lances eletrizantes, como quando a palavra pedida aparecia somente nas últimas frases da música e o auditório acompanhava ansioso em suspense e explodia em aplausos no final. Mas os dois tiveram que enfrentar um surpreendente concorrente, que também sabia muitas músicas, era brigão e cafajeste, provocava tumultos e contestações, sacaneava os adversários, tentava todos os truques, respondia com beijos às vaias do auditório e se tornou uma antiestrela do programa: o gordo Carlos Imperial, sempre de chinelos e com os pés sujos, fazia o papel de vilão com grande competência e ótima memória e várias vezes foi de carro novo para casa.

”Prefiro ser vaiado numa Mercedes do que ser aplaudido num ônibus”, era sua máxima, plagiada de uma frase de Françoise Sagan. Todo mundo riu com a resposta do cronista Rubem Braga a um amigo que voltava depois de três anos no exterior e perguntou excitado o que havia de novo no Brasil. ”Cigarro Hollywood com filtro”, rosnou o mestre rabugento. Mas quando Tom Jobim voltou depois de uma longa temporada americana e os jornalistas lhe fizeram a mesma pergunta, respondeu com entusiasmo:

”Chico Buarque de Hollanda.”

Com a ”Bandamania”, Nara e Chico percorreram o Brasil em seqüências exaustivas de shows, alguns em cima de caminhões, em praças de cidades do interior. Em todos os lugares eram recebidos por bandas, que, com o sucesso da música, saíram do esquecimento e voltaram aos coretos e às ruas. Fazer o show não era nada: duro era ouvir a bandinha da cidade.

A Record bem que tentou faturar a nova paixão nacional, à sua maneira: Chico e Nara tiveram imediatamente seu próprio programa semanal, onde apresentavam convidados do cast da emissora, menos os da jovem guarda. Mas durou pouco: a timidez dos dois, a pouca vontade e muito sofrimento para interpretar aquele papel fizeram o diretor Manoel Carlos concluir — e Nara e Chico concordaram, aliviados — que eles eram perfeitos ”desanimadores de auditório”, encerrando a breve carreira de ”Pra ver a banda passar”.

Antes do festival, Chico já tinha se mudado para o Rio, morava num pequeno apartamento na Rua Prado Júnior, no coração de Copacabana, zona de bares e putas, de boates e inferninhos, tradicional ponto de fim de noite carioca, do sanduíche de churrasquinho do Cervantes e do caldo verde da Lindaura no Beco da Fome. Numa produção do amigo Hugo Carvana, fez uma curta e festiva temporada na boate Arpege, no Leme, ao lado da atriz e cantora Odete Lara e do MPB 4.

Chico já era conhecido, seu primeiro Lp era um estrondoso sucesso, e estava se apresentando para pouco mais de cem pessoas (entre as quais fui assíduo autoconvidado) que abarrotavam a casa para ouvi-lo cantar ”Olê olá”, ”Morena dos olhos d’agua”, ”Tem mais samba” (”tem mais samba no porto que na vela/ tem mais samba o perdão que a despedida...”) e seus outros hits. Todas as noites ele encaixava nas músicas versos que criava de improviso para homenagear os amigos presentes.

Além da música, o futebol — e a paixão pelo Fluminense — nos aproximavam: íamos (quase) todos os domingos ao Maracanã, onde ficávamos tomando cerveja nas cadeiras e gritando no meio da torcida ”Jovem Flu”, que fundamos junto com Hugo Carvana, Ronaldo Bôscoli, Carlos Leonam, Paulo César Oliveira e outros fanáticos tricolores. Fizemos muito barulho nos estádios incentivando o time — e na imprensa, pressionando a diretoria para comprar craques ou trocar de técnico.

Uma tarde Chico apareceu com uns amigos no jornal. Queria protestar porque seu samba ”Tamandare” tinha sido proibido pela Censura, por desrespeitar a memória do patrono da Marinha.

Fui o repórter escalado para ouvir o amigo. O samba de Chico reclamava da vida e do salário e gozava o Marquês de Tamandaré, que ilustrava as notas de um cruzeiro, que não valia nada. A matéria inflamada saiu, mas a música ficou: a Censura não tinha o menor humor e estava cada vez mais intolerante.

O ritmo da pilantragem se popularizava: ”Carango”, um samba-jovem balançado de Imperial e do maranhense Nonato Buzar, gravado por Simonal e o Som Três, estoura nas paradas:

”Ninguém sabe o duro que dei, pra ter fon-fon trabalhei, trabalhei...”

Novo gol da dupla Imperial e Simonal: ”Nem vem que não tem”, uma nova pilantragem com uma primeira parte inteira falada no ritmo da música, um proto-rap com molho carioca:

”Nem vem que não tem, nem vem de garfo que hoje é sopa, nem vem de escada que o incêndio é no porão...”

Outro petardo de Imperial, na mesma levada dançante, se torna um sucesso nacional com Simonal, mais pilantra do que nunca, explicando por que as garotas gostam tanto dele: ”Eu era neném, não tinha talco, mamãe passou açúcar ni mim.”

Louras e morenas choviam na horta do ”Simona”, navegando nas noites cariocas a bordo de um dos carros mais bonitos da cidade.

Simonal é contratado pela Shell para estrelar suas campanhas comerciais. Uma idéia-bomba da Magaldi, Maia & Prósperi: pela primeira vez um negro brasileiro, além de Pelé, tinha sua imagem associada a uma grande companhia estrangeira. A peso de ouro.

O merchandising da jovem guarda ia de vento em popa, com a juventude paulista comprando calças ”Calhambeque”, chapéus ”Tremendão” e coletes ”Ternurinha”. Mas Simonal não tinha nenhum produto com seu nome. Mas tinha tudo para ter, pensava Horácio Berlinck, ativo participante do lançamento da jovem guarda e produtor de diversos shows universitários.

Mas não seriam roupas nem brinquedos: Simonal, como o slogan da Shell, tinha ”algo mais”. De reuniões com Horácio e João Evangelista Leão surgiu uma nova e audaciosa pilantragem: um amuleto.

Um boneco de pano preto de um palmo de altura, redondo, com braços e pernas moles e sem pescoço, um monstrengo que parecia uma mistura de Pelé com o marechal Castello Branco, que foi chamado de ”Mug” e apresentado por Simonal no programa como o seu amuleto da sorte. Todos os convidados ganharam seus ”Mugs”, alguns foram distribuídos no auditório, outros artistas receberam em casa. E logo Chico Buarque, Jair Rodrigues, Jorge Ben, Imperial e vários outros começaram a aparecer nos programas da Record com o ”Mug” e a fazer piadas e brincadeiras com ele, a imprensa começou a falar, as crianças gostaram, o público se apaixonou.

O boneco estourou nas lojas e naquele Natal em São Paulo todo mundo ganhou o seu.

O ”Mug” realmente deu muita sorte para Simonal, que mostrou o poder de fogo de sua pilantragem.

Muito mais do que um boneco, ele vendeu sorte, como estava vendendo gasolina, como vendia alegria. Fustigado pela ”Jovem guarda” e pelo ”Show em Si... monal”, pelo sucesso estrondoso do ”Esta noite se improvisa”, ”O fino” perde audiência: Elis pede à produção que tire Jair, mas não é atendida.

No Rio, uma provocação: a jovem cantora Cláudia, vinda de São Paulo como grande revelação, com um timbre de voz parecido e diziam — uma potência vocal semelhante à de Elis, é a estrela do novo show de Ronaldo Bôscoli, ”Quem tem medo de Elis Regina?”.

Ajudado pela polêmica, o show foi um sucesso e encheu o Rui Bar Bossa durante três semanas.

Elis ficou furiosa, mas não tinha nada a temer: ela sabia que Cláudia era dona de uma voz poderosa, mas que não tinha o seu carisma e musicalidade. Mas não sabia que estava mordendo a isca de Ronaldo Bôscoli.

Na sua cobertura de Ipanema, tomando sol e cerveja e cercado de brotos, o ”Véio”, que em nenhum momento acreditou no título do seu show, gargalhava triunfante com as reações furibundas de Elis.

Ele tinha 38 anos e ela 22.

Por via das dúvidas, Elis baniu Cláudia de ”O fino”, onde tinha se apresentado algumas vezes com algum sucesso. E pediu à direção da Record para tirar Manoel Carlos e contratar a dupla Miele e Bôscoli — com quem não falava há dois anos, desde uma briga no Beco das Garrafas — para dirigir o programa.

Enquanto Ronaldo assinava contrato com a Record, Elis se sentia ameaçada não por Cláudia, mas pela jovem guarda. Em São Paulo, junto com Gilberto Gil, Edu Lobo, Geraldo Vandré e outros nacionalistas acústicos, ela formou uma ”Frente Única da Música Popular Brasileira”. E comandou uma passeata que saiu às ruas com faixas, cartazes e palavras de ordem contra a guitarra elétrica, contra a dominação estrangeira, contra a ”música jovem” alienante. Contra a jovem guarda vitoriosa.

A passeata saiu do Largo de São Francisco e, entre vaias e aplausos, foi até o Teatro Paramount, onde Chico, da janela, assistiu a sua chegada. Da janela do apartamento do empresário Guilherme Araújo, Nara Leão e Caetano Veloso assistiram à passagem da passeata e se divertiram muito: achavam tudo aquilo uma grande bobagem.

Sábado de manhã, cobertura do ”Véio” em Ipanema. Ele e Miele tinham passado duas semanas em São Paulo para começar a ( reformular ”O fino”. Enquanto tomava uma cerveja no terraço com um casal amigo, quase não acreditei no que vi: Elis, descalça e de camiseta, atravessando a sala e indo para a cozinha. Mal-humoradíssima. Olhei para o ”Véio” pasmo. Ele riu do meu espanto, triunfante.

Se alegrou quando a campainha tocou e outros amigos teriam a mesma espantosa surpresa: o ”Véio” estava orgulhoso de sua mais difícil e trabalhosa conquista, a inconquistável arquiinimiga, a melhor de todas. Ronaldo dizia que não, mas talvez não soubesse que estava apaixonado por Elis.

O ”Véio” estava feliz, mas cada vez mais rabugento e intolerante com tudo que não fosse bossa nova, Frank Sinatra, o Fluminense e Ipanema. E cada vez mais engraçado, com seus exageros, sua rapidez e seu talento para o mal falar. Era implacável com a esquerda musical, a antibossa nova, reagia à ameaça dos novos compositores que estavam fazendo uma música oposta à dele.

Detestava a valorização de sambistas de morro e artistas nordestinos. E tinha o mais profundo desprezo pela jovem guarda. Beatles, nem pensar. Os musicais políticos do Teatro de Arena e os filmes do Cinema Novo mereciam dele saraivadas de piadas. Outro de seus alvos favoritos era Elis Regina, cafona, mal vestida, mal-educada, grossa, cafajeste, mau-caráter, a melhor cantora do Brasil. Em suas mãos experientes, ele imaginava, a baixinha seria a maior.

! Nos dias seguintes, Elis mudou da água para o uísque. Cortou os cabelos bem curtinhos por sugestão de Ronaldo, iguais aos de Mia Farrow, então casada com Sinatra. Ficou uma graça: mais jovem, mais moderna, mais bonita. Fez uma plástica para diminuir os seios, comprou roupas novas, mais leves, mais discretas, mais elegantes, acariocou seu guarda-roupa. Continuou desbocada, aceitando todas as provocações de Ronaldo e respondendo com uma torrente de palavrões enquanto ele ria e ela saía batendo porta. Na entrega dos prêmios ”Roquette Pinto” na Record, Elis era outra, de minivestido de Denner e meias prateadas ”espaciais”. Estava cantando cada vez melhor.

Na cobertura de Ipanema, onde passou a morar, Elis tratava os amigos de Ronaldo com distância e desconfiança. Com ele, alternava momentos de ternura explícita com ataques furiosos, pelos menores motivos e diante de quem quer que fosse, fazendo uma versão brasileira, mais apimentada, de ”Quem tem medo de Virginia Woolf”, a peça de Albee. Ronaldo estava feliz e parecia se divertir com as brigas, tratava Elis como se fosse uma menina, como uma potranca puro-sangue que precisava ser domada. Aos poucos ela foi se acostumando com a sua nova turma, ficando mais segura e simpática, chegou até a ir ao Maracanã com a gente, no meio da torcida ”Jovem Flu”, e dizia para a imprensa que era tricolor desde criancinha, quando torcia para o Grêmio de Porto Alegre. Com seu poder e influência sobre Elis, Ronaldo pensava que poderia restabelecer um pouco de ordem e hierarquia na música brasileira em seu maior palco — ”O fino”. Que poderia enfrentar os populistas, demagogos, esquerdistas e jovem-guardistas e talvez fazer renascer a bossa nova.

Até o carnaval foram mais três programas ”Um instante maestro” e os cachezinhos representaram considerável reforço para o meu caixa momesco. As discussões sobre músicas de carnaval foram animadas, não só se falava mal das novas, como se celebravam as velhas, que eu conhecia e amava desde criança. O auditório participava ativamente vaiando e aplaudindo as opiniões dos jurados, e Flávio Cavalcanti percebeu logo que tinha encontrado um novo formato de programa.

Depois convidou todos para jantar, pediu atenção, baixou a voz e com seu habitual estilo conspiratório e bombástico nos disse que depois do carnaval iria estrear na TV Tupi. E que levaria com ele o seu júri musical, que comentaria e debateria não apenas músicas de carnaval, mas toda a música popular brasileira. E ganhando um cachê de verdade. Depois do carnaval, virei crítico musical na televisão. De smoking, gravava uma vez por semana ”Um instante maestro” no auditório do Cassino da Urca e debatia acaloradamente com os jurados — que ou eram ultraconservadores e agressivos ou simpáticos que não entendiam nada de música.

Desde o início, defendi sincera e apaixonadamente aquilo em que acreditava, novidade e qualidade, sofisticação e rebeldia, e muitas vezes me chocava contra a intolerância e falta de humor da mesa, mas freqüentemente o auditório me apoiava nessas posições mais liberais. Todos aqueles dias e noites ouvindo discos, lendo, estudando e discutindo música não tinham sido em vão: a ESDI começava a perder um aluno.

Na televisão, me tornei o porta-voz da nova música, que era abominada pelos outros jurados.

Defendia a esquerda musical e Roberto Carlos, me divertia com o samba-jovem e a pilantragem, que eles detestavam, defendia e promovia meus amigos. Flávio provocava, incentivava as discussões, levava cantores para apresentar músicas polêmicas, que eram julgadas de corpo presente.

Muitas vezes era constrangedor ver alguém sendo esculhambado ao vivo e em preto-e-branco, mas o público gostava. Nunca fiz isso.

Fazia minhas críticas com cuidado, quase pedindo desculpas ao réu. O público gostava. O programa em poucas semanas era um sucesso, a fórmula de Flávio tinha dado certo: juntando a ânsia nacional por debates e a música popular, um tema querido e cotidiano dos brasileiros, dava ao público a oportunidade de se identificar com algum dos jurados, através de seus pontos de vista, de sua personalidade, de seus valores, e sentir-se representado e ouvido.

Havia para todos os gostos, com uma exceção: até no júri de ”Um instante maestro” Chico Buarque era uma unanimidade.

Depois de ”A banda” e da sensacional primeira safra, Chico lançou uma seqüência impressionante de sucessos: o primeiro foi ”Com açúcar, com afeto” (”fiz seu doce predileto/ pra você parar em casa...”), carro-chefe do disco de Nara e mais uma polêmica: a letra lírica cantada por uma mulher apaixonada e submissa de um malandro, pronta a recebê-lo de braços abertos, depois de suas noites de perigos e orgias, não casava com a imagem de Nara, mulher independente e moderna, politizada, revolucionária, sexualmente igualitária. Na vida real, Nara era o oposto da protagonista da canção, mas cantava com tanta graça e ironia que os belos versos e a melancólica melodia eram entendidos e amados pelo que eram: talento e sentimento. A polêmica só ajudou e a música foi um hit instantâneo.

Depois, ”Quem te viu, quem te vê”, na melhor tradição do samba carioca, também dolente e melancólica, com um sambista de escola lamentando em versos impecáveis a perda da cabrocha que virou madame. Em seguida, ”A noite dos mascarados”, um belo dueto de dois mascarados num baile de carnaval antigo, uma marcha-rancho com versos estupendos e nostálgica melodia, gravada por Chico e Elis Regina.

Roberto e Erasmo detonam uma saraivada de hits jovens e agressivos como ”Eu sou terrível” e ”Não presto mas eu te amo”, mas Roberto assina sozinho, pela primeira vez, um grande sucesso.

Os motivos logo ficam claros e contribuem para a polêmica e a promoção de ”Namoradinha”, em que Roberto confessa que está amando loucamente a namoradinha de um amigo, que, diz a lenda, era o costureiro Denner, casado com a estonteante Maria Stella Splendore. ”Negro gato”, de Getúlio Cortes, é outro dos grandes sucessos do disco de Roberto:




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   29


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande