Nelson Motta



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Encontro02.07.2019
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Voltei muitas vezes ao teatro para vê-la e ouvi-la e uma noite, levado por Dory Caymmi, troquei algumas palavras com ela no camarim, quando também fui apresentado a seu irmão, magro, tímido e delicado, que eu já admirava por ”Boa palavra”, finalista do festival, e agora pelo cocorocar do galo. Caetano sorria com grande doçura e irradiava sensibilidade e inteligência.

Rapidamente Bethânia conquistou uma legião de fãs de todos os sexos. Como Jerry Adriani, um dos mais disputados galãs da ”música jovem”, que passou a ir buscá-la todas as segundas-feiras na saída das ”Noitadas de samba” que Thereza Aragão produzia no Teatro de Arena e Bethânia freqüentava. No Aero Willis vermelho de Jerry, eles passeavam pela cidade, comiam e bebiam, riam e conversavam, se abraçavam e se beijavam, quase namoravam.

Nara estava cansada de carregar bandeiras e vocalizar protestos, estava cansada de dar opinião. O namoro com Ruy Guerra tinha terminado: Nara também não agüentava mais a falta de atenções e de romance, a dureza e o ”espírito revolucionário”, e virou o jogo: começou a namorar o diplomata Zóza Medicis e uma noite, na porta da boate Zum Zum, em Copacabana, me contou feliz que estava encantada com alguém que a levava a bons restaurantes, abria a porta do carro, puxava a cadeira para ela, que a tratava como uma lady.

”Pela primeira vez na vida”, disse rindo.

Pouco depois Nara provocou espanto e comoção nas hostes oposicionistas da música brasileira.

Acusada pelos homens de alta (ou baixa) traição e invejada pelas mulheres, a musa começou um namoro com o ”arquiinimigo” Jerry Adriani.

Esse Jerry Adriani, hein? Jovens tardes de domingo Em São Paulo, a Record transmitia, de graça, jogos de futebol do campeonato paulista nas tardes de domingo.

Considerava-os eventos públicos, não pagava nada e vivia às turras com a Federação Paulista e os clubes. Até que um mandado de segurança impediu a Record - que era da família do megacartola Paulo Machado de Carvalho, o ”marechal da vitória” da Copa de 58 — de transmitir os jogos e o lucrativo horário nas tardes de domingo ficou vazio. Por pouquíssimo tempo. A emissora já vinha fazendo sucesso com ”O fino”, com as novas estrelas da MPB, como Elis Regina, Jair Rodrigues e Wilson Simonal, e os musicais estavam na moda. Nada mais natural para a Record do que dobrar a parada, lançando um programa de ”música jovem” e popular para competir com ”O fino”. Uma idéia audaciosa da nova agência de publicidade de João Carlos Magaldi, Carlito Maia e Carlos Prosperi, que acompanhavam atenta e entusiasmadamente a revolução dos Beatles e do rock na Inglaterra e nos Estados Unidos, a vertiginosa transformação no comportamento dos jovens e sua crescente influência na sociedade e no mercado consumidor. E achavam que Roberto Carlos tinha carisma e potência para se tornar um superstar e que a hora era boa para dar aos jovens brasileiros a sua própria música, sua moda, sua dança e seus Beatles. O seu programa de televisão.

Para comandar a novidade, eles queriam um trio, Roberto, Erasmo e Celly Campello. O problema era que a primeira estrela da ”música jovem” brasileira, depois de breves anos de fulgurante sucesso, no auge da popularidade, com 23 anos abandonou a vida artística para se casar e ir morar em Campinas. De nada adiantaram as propostas milionárias de Marcos Lázaro: Celly e seu marido eram irredutíveis. A escolha da companheira de Roberto e Erasmo seria entre Wanderléa ou Rosemary, uma lourinha muito bonitinha, uma bonequinha suburbana que cantava baladas italianas em português. Rose era mais bonita, mas Wanderléa, além de ótimas pernas e de dançar com muita graça, cantava músicas mais alegres, mais adequadas para animar um programa de auditório e foi a escolhida.

Roberto, Erasmo e Wanderléa participaram de uma reunião com o pessoal da agência, a direção da Record e Marcos Lázaro, que negociava todas as contratações da emissora. Na primeira proposta da Record, a Roberto foi oferecido um salário de US $ 4 mil e a Erasmo e Wanderléa US$ 3 mil cada, mas ele exigiu que os salários fossem iguais, concordando em diminuir o seu. Como um gentleman, e um homem de negócios, Paulinho Machado de Carvalho aumentou os de Erasmo e Wanderlea para o mesmo de Roberto e os contratos foram assinados no ato, em clima de grande euforia e imensas esperanças. O programa iria ao ar às cinco da tarde de domingo, ao vivo, e se chamaria ”Jovem guarda”, que era o título da coluna que o jovem Ricardo Amaral mantinha na Última Hora com grande sucesso, muito atrevimento e eventuais brigas e broncas com a brotolândia paulistana por seus comentários e indiscrições.

Era a primeira coluna ”jovem” da imprensa brasileira, uma invenção de Samuel Wainer, onde o futuro empresário Ricardo Amaral começava sua carreira como jornalista irreverente e lançava as novas gírias, personagens, lugares e modas.

A agência e a Record bancaram sozinhas os programas, até conseguirem convencer os primeiros anunciantes do fabuloso mercado que se abria com aquele canal direto com a juventude consumidora. Em pouco tempo, havia uma fila de patrocinadores e o programa se tornava muito mais rentável do que ”O fino”.

Os planos de Magaldi, Maia & Prosperi eram ambiciosos: transformar o pessoal da ”música jovem” em ídolos nacionais, fabricar calças, camisas, chaveiros, bonecos, bonés, brinquedos e tudo o mais que pudesse ser comercializado com a marca ”jovem guarda”, como Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli pensaram um dia em fazer com a bossa nova. Como nem Carlos Imperial tinha ousado sonhar.

Roberto e Erasmo se mudaram para São Paulo e foram morar no Hotel Lord, no Largo do Arouche, e Wanderlea no Normandie, na Avenida São João, com a mãe e os irmãos, todo mundo por conta da Record.

Domingo ao meio-dia todos estavam na televisão para a reunião de produção e o ensaio. Com os cabelos crespos alisados em tentativas heróicas de imitar as franjinhas dos Beatles e vestidos com imitações de seus terninhos justos e gravatinhas finas, com os pés apertados em suas botinhas, Roberto e Erasmo esperaram nervosos a hora de entrar em cena. Quando a cortina abriu, uma explosão.

Brancas, negras e orientais, ricas e pobres, feias e bonitas, as meninas que gritavam o tempo todo representavam a diversidade étnica e social de São Paulo, com garotas da sociedade paulistana lado a lado com as filhas de suas empregadas e dos operários das fábricas de seus pais, todas gritando por Erasmo, Roberto e Wanderléa e cantando junto com eles seus sucessos. E os de Wanderley Cardoso e Jerry Adriani, de Renato e seus Blue Caps, dos Vips, de Leno e Lilian e dos Golden Boys.

O sucesso foi estrondoso e imediato, as lotações do teatro se vendiam com uma semana de antecedência. Na saída, as estrelas e os músicos tinham ampla escolha entre a múltipla oferta de admiração e carinho das fãs. Ou depois, na boate da moda, o Moustache, onde as menininhas da sociedade dançavam e flertavam ao som dos Beatles e de baladas italianas, onde os personagens da ”Jovem guarda” de Ricardo Amaral encontravam os da ”Jovem guarda”da TV Record. Dançavam, flertavam, conversavam e pouco mais do que isto: aqueles cabeludos cheios de colares e anéis e roupas esquisitas eram diferentes dos jovens bem vestidos e penteados que as acompanhavam, mas não entrariam em suas casas nem nos clubes que elas freqüentavam, não sentariam em suas mesas.

As noites terminavam no Cave, reduto de músicos e da boêmia ”profissional” e ponto de encontro do fim de noite paulistano, onde se dançava não ao som dos Beatles, mas de James Brown, onde as garotas de programa iam se divertir com os amigos e namorados depois do trabalho e o pessoal da ”Jovem guarda” era muito bem recebido.

Mas o Hotel Lord não deixava os hóspedes subirem acompanhados. A clássica manobra via restaurante do segundo andar não funcionava, rigidamente policiada pelo hotel.

Quem os salvava era a Baiana, simpática dona de um casarão de alta rotatividade na Rua Riachuelo, que alugava seus seis quartos para casais sem-cama, num tempo em que não existiam motéis.

Na sala de visitas do térreo, ela instalou um bar onde sua clientela bebia e conversava enquanto esperava que vagasse um dos quartos do segundo andar. Cada quarto era decorado com cortinas, tapetes e móveis antigos e pesados, sedas e rendas finas, e as camas cheias de almofadas tinham dosséis, que faziam Roberto, Erasmo, Simonal, Jorge Ben e Tim Maia se sentirem no século XVIII.

Com o sucesso do programa, dos discos e dos shows, o dinheiro começou a entrar, mas Erasmo não confiava em bancos nem em cheques: guardava tudo que ganhava em erva viva numa gaveta de seu quarto de hotel. Dois meses depois da estréia de ”Jovem guarda”, comprou seu primeiro carro, um Volkswagen verde metálico, e pagou à vista. E em dinheiro.

Roberto e Erasmo foram visitar um apartamento que estava para alugar na Avenida Paulista: morar no hotel estava ficando chato, era frio, impessoal e cheio de restrições, e a Baiana era uma alternativa salvadora, mas estava saindo muito cara. O apartamento era uma beleza, com uma grande sala envidraçada dando para o trânsito que enchia a Avenida Paulista, com o skyline de São Paulo ao fundo, os quartos eram ótimos, mas o aluguel assustou. Como o contrato do ”Jovem guarda” era de seis meses e ninguém sabia o dia de amanhã, assinar um compromisso de um ano por aquela quantia seria uma responsabilidade que eles não poderiam assumir.

Logo depois Roberto mudou-se para um pequeno apartamento, com o amigo-secretário Luiz Carlos Ismail, e transformou um dos quartos em estúdio, de onde gravava um programa diário de uma hora para a rádio Jovem Pan, divulgando a ”Jovem guarda”.

Erasmo trocou o fusca por um Karman-Ghia, mas continuou morando no Lord. Três meses depois, alugou sua primeira casa, no Brooklyn, e chamou Jorge Ben para dividir o aluguel.

Quando se mudou para o Brooklyn, Jorge chegou num Karman-Ghia vermelho, que batizou como ”Thor”, e com ele destruiu , parte da garagem. Já estava elétrico, tocava guitarra o dia inteiro, sentado na janela, com as pernas balançando, criando músicas improvisadas sobre os mais diversos e banais acontecimentos do cotidiano. Não fumava nem bebia e tinha verdadeiro horror a drogas. Era de uma vitalidade animal.

Mas depois da explosão inicial do sucesso, os discos de Jorge já não vendiam tanto, suas novas músicas soavam repetitivas e ele parecia estar numa fase de transição. De vez em quando, se apresentava em ”O fino”, mas depois que participou dos primeiros programas ”Jovem guarda”, foi vetado no musical comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues.

Foi o primeiro tiro de uma guerra musical e mercadológica (e até mesmo política, para alguns mais inflamados) entre ”Jovem guarda” e ”O fino” — que era tudo o que a TV Record poderia querer como promoção, gerando polêmica, debates e paixões, num tempo em que música popular era discutida nas ruas de São Paulo como se fosse futebol.

Além de ter se apresentado no programa do ”inimigo”, Jorge agora tocava uma guitarra elétrica — uma afrontosa provocação para as brigadas da ”autêntica” música brasileira, que seria acústica pela própria natureza, simbolizada pelo violão: a guitarra era um instrumento da dominação americana, do colonialismo e do imperialismo. Devia ser destruída.

Estimulada e amplificada pela TV Record, a briga entre a ”música jovem” e a ”música brasileira” — como muitos colocavam com involuntário humor, em tempos de radicalismo político e paixão nacionalista — ganhou os jornais, as rádios e as ruas e gerou conflitos entre fãs-clubes e torcidas, encheu auditórios, estourou as audiências de televisão, vendeu discos como nunca.

Pouco depois de se mudar para a casa do Brooklyn, Erasmo comprou o Rolls Royce do folclórico político populista Adhemar ”Rouba-mas-faz” de Barros, um dos dois ou três que existiam no Brasil. Os carros ingleses, não os políticos populistas.

Em São Paulo, foi um escândalo ainda maior do que em Londres, quando John Lennon comprou um Rolls, símbolo da aristocracia, da tradição e da qualidade inglesas, e pintou-o com cores e desenhos psicodélicos. O de Erasmo continuou preto e foi pago com os direitos autorais de ”O calhambeque” e ”Quero que vá tudo pro inferno”, gravados por Roberto e mega-hits nacionais, os primeiros da jovem guarda. Ao mesmo tempo a Magaldi, Maia & Prosperi lançava no mercado três linhas de roupas, brinquedos e adereços:

”Calhambeque”, de Roberto, ”Tremendão”, de Erasmo, e ”Ternurinha”, de Wanderléa, dentro de seu plano de comercialização da imagem dos novos ídolos: os fabricantes pagariam royalties à agência, que dividiria com os artistas.

Em pouco tempo, o visual do pessoal da jovem guarda mudou completamente: os terninhos Beatles de quatro botões foram substituídos pelas calças boca-de-sino coloridas, pelos paletós de veludo, pelas camisas de babados, pelos chapéus; as garotas passaram a usar minissaias mínimas e calças Saint Tropez de cintura baixa que mostravam as barriguinhas, as mãos foram se enchendo de anéis, os cabelos crescendo. A jovem guarda emplacava um sucesso atrás do outro: ”Festa de arromba”, de Roberto e Erasmo, é cantada e dançada no Brasil inteiro, celebrando as estrelas da jovem guarda:

”Mas... vejam quem chegou de repente, Roberto Carlos com seu novo carrão...”

A festa de arromba imaginada por Roberto e Erasmo não só era animadíssima como promovia nacionalmente os personagens do programa de televisão, da nova onda que estava tomando conta do país. Na festa, todo mundo se divertia, mas ninguém comia ninguém: as jovens estrelas, Wanderléa, Martinha, Rosemary, eram todas virgens, marcadas de perto por pais, mães e irmãos.

Festa mesmo era o vestiário dos músicos no auditório da TV Record, que era separado do camarim das cantoras por uma fina parede de madeira, onde um voyeur mais audacioso abriu um discreto buraquinho. Já às onze da manhã, antes de começar o ensaio, lugares na fila eram disputados a tapa. E não só nos programas ”Jovem guarda”, mas em todos os musicais da Record, desde ”O fino” ao ”Bossaudade” de Elizeth Cardoso e Hebe Camargo, passando pelo ”Show em Si... monal”, produzido por Carlos Imperial.

Por causa desse programa, Roberto e Erasmo brigaram feio, pela primeira vez. Para homenagear Erasmo e dar-lhe um troféu como ”Destaque de compositor”, a produção preparou um potpourri com os grandes sucessos da dupla — ”Não quero ver você triste” (que foi gravado até pela bossa-novista histórica Sylvinha Telles), ”Calhambeque”, ”Parei na contramão” e ”Festa de arromba” — para ser cantado por Erasmo e Simonal. Mas o nome de Roberto não foi falado em nenhum momento. Uma hora depois, no Rio, ele já sabia de tudo e estava furioso: telefonou esculhambando Erasmo pela omissão. E Simonal e Imperial pela pilantragem. Parecia que ele se metia nas músicas como um intruso, como um ”bicão”.

Roberto se sentiu traído: afinal, a combinação era que, além do que fizessem em parceria, tudo que cada um fizesse sozinho seria sempre assinado e dividido pelos dois, como Lennon e MacCartney.

O pau comeu feio entre os Carlos.

Ficaram seis meses sem se falar, fazendo juntos o programa de televisão todos os domingos, se comunicando através do diretor e dizendo estritamente os textos escritos pela produção. E se esforçando para manter publicamente o calor de um companheirismo, uma alegria e um espírito de turma que eram uma das forças e graças da ”Jovem guarda”. No palco, todo mundo continuou se abraçando e se festejando, Roberto continuou anunciando fraternalmente a entrada em cena ”do meu amigo... Eraaaaaaasmo Caaaaarlos!” e nem na platéia e nem em casa ninguém percebia nada: a jovem guarda estava cada vez melhor e mais unida. A jovem guarda estava pegando fogo. ”É uma brasa, mora!” era o bordão de Roberto que se tornou a mais popular gíria nacional, ”Quero que vá tudo pro inferno” se transformou no grande hit, o maior de todos, no sucesso incandescente que levou Roberto ao primeiro lugar absoluto nas paradas. Onde ficou meses.

”Só quero que você me aqueça neste inverno, e que tudo mais vá pro inferno!”

Quase todos os programas ”Jovem guarda” terminavam com todo mundo no palco cantando a música, que se tornou uma espécie de hino do iê-iê-iê nacional. O Brasil inteiro, dos vovôs aos netinhos e da classe A à Z, cantou ”Quero que vá tudo pro inferno”, e mesmo entre as novas gerações mais sofisticadas e politizadas, que torciam o nariz para a jovem guarda simplória e alienada, Roberto começou a ganhar admiradores. E principalmente admiradoras.

Nas mesas dos bares de Ipanema, a princípio timidamente mas depois com entusiasmo, simpatizantes ofereciam teses, interpretações e leituras políticas para a música e seu sucesso: o desejo reprimido do povo de mandar os militares para o inferno, uma mensagem cifrada de rebeldia, metaforizadapara escapar da censura. Ou a interpretação sexual de ”me aqueça neste inverno”, como slogan libertário. Tudo pretexto para poder gostar de Roberto Carlos sem parecer simplório nem alienado. Mesmo entre os músicos, onde ainda era considerado vulgar e superficial, Roberto começava a ser reconhecido pela doçura de seu timbre, por sua afinação, pela precisão do seu fraseado e pelo inegável charme com que cantava. Afinal, ele tinha começado imitando João Gilberto, argumentavam jovens sofisticados, já atraídos irresistivelmente pelo fascínio de Roberto Carlos. Como o Brasil inteiro.

Na última carta de Erasmo que recebeu na prisão em Daytona, Tim ficou sabendo que eles tinham um programa de televisão só deles, mas não levou muita fé. Assim que chegou ao Rio, viu que era verdade, procurou Erasmo e Roberto e foi a São Paulo fazer a ”Jovem guarda”. Anunciado com grande entusiasmo por Roberto, entrou em cena um mulato gordo, de cabelo black power, casaco de couro negro e cara de bandido saído da cadeia, e as meninas se assustaram mas aplaudiram, porque aplaudiam tudo e todos, mas sem o menor entusiasmo. Elas gostavam mesmo era dos galãs Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Ronnie Von, Erasmo e Roberto. Depois foi pior ainda: Tim cantou duas músicas em inglês, funk, soul, James Brown, brabeira. A platéia não entendeu nada. E Tim saiu reclamando do som.

Com o sucesso estrondoso de ”Meu bem”, versão de ”My Girl”, dos Beatles, Ronnie Von se tornou uma nova estrela dentro da ”Jovem guarda” e dos outros programas do circuito de musicais da emissora. Tinha longos cabelos lisos em corte pajem, olhos verdes e belos dentes: era um rapaz bonito e suave, que também cantava.

A Record imaginou que Ronnie poderia transformar-se numa alternativa a Roberto Carlos, promoveu sua imagem de ”Pequeno príncipe” e ele passou a ter o seu próprio programa nas tardes de sábado, onde se apresentavam todos que faziam todos os outros programas. E mais alguns, bem iniciantes, que participavam só do seu. Como os Baobás, trio formado pelos irmãos Sérgio e Arnaldo Baptista e sua namorada, a lourinha Rita Lee.

Era tal o sucesso da ”Jovem guarda”, assistida no resto do Brasil com atraso, em videoteipe, que uma versão carioca ao vivo passou a ser feita todas as semanas na TV Rio, dirigida por Carlos Manga. Mas nunca chegou a ter o sucesso da versão paulista, muito pelo contrário.

Numa dessas idas ao Rio, Erasmo deu um mau passo.

Depois do programa, como sempre, fazia-se uma ”colheita de brotos”, como dizia Imperial, e iam todos, Erasmo, Eduardo Araújo, Luiz Carlos Ismail e outros, para o apartamento de Imperial, em frente à TV Rio, para o que o gordo chamava dubiamente de ”comes e bebes”.

Naquela noite não só os brotos eram menores de idade, mas tinham vindo de São Paulo e foram encontradas de madrugada pela polícia cheirando a bebida e vagando como zumbis pela Praia de Copacabana. Erasmo, que tinha saído no início da festinha, escapou do processo. Mas os outros dançaram. Depoimentos, investigações, escândalo: voz de prisão, sujeira geral. Rádios e jornais associando a jovem guarda à corrupção de menores. Roberto Carlos e a TV Record e a Magaldi & Maia, preocupadíssimos, lançam uma blitz de relações públicas. Eduardo Araújo e Imperial, com prisão decretada no Rio, fogem para São Paulo e de lá para o interior de Minas, onde ficam três meses escondidos numa fazenda de parentes de Eduardo. Juntos, compõem futuros hits como ”O bom”:

”Meu carro é vermelho, só uso o espelho pra me pentear, botinha sem meia, só na areia eu sei trabalhar, cabelo na testa, sou o dono da festa, pertenço aos dez mais ha ha ha ha se você quiser experimentar sei que vai gostar.”

E o coro ficava repetindo o refrão:

”Ele é o bom, é o bom, é o bom, ele é o bom, é o bom, é o bom demais.”

Erasmo não foi preso mas proibido pelo juiz de Menores de se apresentar em shows e programas de rádio e televisão no Rio de Janeiro por um ano. E pior: foi proibida também a presença de menores em programas de rádio e TV de ”música jovem”. Banido do Rio, Erasmo ficou em São Paulo, fazendo a ”Jovem guarda” e outros shows da Record. Mas não pôde mais fazer shows ao vivo: nas primeiras tentativas em cidades do interior do estado, onde as notícias se espalharam rapidamente, seu carro foi apedrejado e o show suspenso. O cerco estava se fechando. Depois de um programa ”Jovem guarda”, Erasmo foi levado apressadamente por uma saída de fundos do teatro e colocado em um carro. Assustado, ele ficou sabendo pelo chefe da segurança da Record que a polícia do Rio tinha enviado uma ordem de captura para a polícia de São Paulo. O chefe da segurança sabia da ordem de prisão porque era também delegado da polícia paulista, com muitos contatos e informações, freqüentador do Cave e conhecido de todos os artistas: o delegado Sérgio Paranhos Fleury levou Erasmo para casa e aconselhou-o a sumir por uns dias.

Antes que sumissem com ele. A briga entre a ”música brasileira” e a ”música jovem”, isto é, entre ”Jovem guarda” o ”Fino da bossa”, se transformou em uma verdadeira guerra musical.

Discutida apaixonadamente nas esquinas e nos botecos, nas farmácias e nos velórios, a música brasileira, jovem ou não, era o assunto do momento no início de 1966, quando a Record anunciou que faria o seu Festival da Música Brasileira, com grandes prêmios em dinheiro e o ”Berimbau de ouro” ao primeiro colocado.

Ao mesmo tempo, a TV Rio de Walter Clark anunciou o seu I Festival Internacional da Canção, com prêmios em dinheiro maiores que os da Record e o troféu ”Galo de ouro”, desenhado por Ziraldo.

Todo mundo inscreveu suas melhores músicas, inclusive Dory e eu, com a nossa ainda inédita ”Saveiros”, que havia sido rejeitada no festival da TV Excelsior.

No meio do ano, graças à generosidade de meu pai e de meu tio Max, fui para Londres assistir à Copa do Mundo. Antes passei uma semana em Paris, onde vivi um breve e intenso romance com uma mulher brasileira bem mais velha do que eu, amiga de Ronaldo Bôscoli, que foi para mim uma fonte de alegria e de revelações e me fez chegar a Londres me sentindo um adulto.

Em Londres, me maravilhei com a força e criatividade da juventude nas ruas, com suas roupas coloridas, invejei sua liberdade e sua democracia, seu acesso à arte e à cultura, sua música alegre e vibrante.

Tremendo de emoção entrei no trem que nos levaria a Liverpool, onde eu andaria pelas ruas por onde andaram os Beatles e assistiria o Brasil de Garrincha decadente e Pelé machucado ser massacrado em campo pela Hungria e por Portugal. Durante a Copa, fiquei muito amigo de um americano quarentão, baixinho e barrigudinho, ultrafã do futebol brasileiro e amigo de meu tio Max, que foi a todos os jogos no nosso grupo: Nesuhi Ertegun, fundador da Atlantic Records e lenda viva do disco americano. Nesuhi era um homem finíssimo, não era americano, mas filho do embaixador da Turquia em Washington, educado na Sorbonne, um dos grandes críticos de jazz dos Estados Unidos e depois produtor de Miles Davis, John Coltrane, Tom Jobim e outras estrelas do jazz. Nesuhi adorava música brasileira, feijão-preto e maconha, mas do que mais gostava era nosso futebol. Foi quem mais sofreu com a derrocada de Liverpool.

Voltei de Londres derrotado mas feliz.

E me perguntava por que no Brasil a música não podia ser ”brasileira” e ”jovem” ao mesmo tempo?




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