Nelson Motta



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”Minhas mãos já não fazem mais a rede voltar e meus olhos são tristes por não verem o mar...”

”O velho pescador” foi nossa primeira gravação e considerada pela crítica uma das melhores faixas do primeiro disco solo de Luiz Eça, o criador do Tamba Trio, celebrado como um dos melhores do ano. A gravação era só instrumental, sem vocal nem letra, com o piano exuberante de Luizinho cercado por uma formidável massa de cordas em movimento: Luiz Eça e cordas revelava a extraordinária musicalidade de Dory Caymmi, sua originalidade harmônica e melódica, e poupava o público das contrafações jorjamadianas de um garoto de Ipanema, que sonhava com a Bahia e de peixe não gostava nem para comer. Depois fizemos ”O mar é meu chão”, na mesma praia, agora com um pescador que vai morar no campo e sofre com saudade dos perigos do mar. Sérgio Mendes ouviu e adorou: gravou-a nos Estados Unidos, com lindíssimo arranjo de orquestra de David Grusin, produzido pelo legendário Nesuhi Ertegun. Mas a letra continuava inédita: o disco também era todo instrumental, piano e orquestra.

Foi na ESDI que fiquei sabendo, antes de Edu e Vinícius, que ”Arrastão” era uma das 36 selecionadas entre centenas de músicas concorrentes do festival, entre elas minha parceria com Dory Caymmi, ”Saveiros”. Meu querido mestre Décio Pignatari tinha feito parte da comissão de seleção em São Paulo e me antecipou o resultado oficial.

Decepção: nosso saveiro não tinha zarpado.

Mas a música que mais tinha impressionado Décio era de um garoto de São Paulo, talvez um japonês, chamado Taiguara. Concretista e modernista militante, Décio, que adorava o ”É sol/ é sal/ é sul” de ”Rio” (Menescal e Bôscoli), tinha gostado das interações entre ”ilha” e ”Cecília” da letra. Para ele era a favorita.

Eu conhecia Taiguara, que não era japonês, mas uruguaio, de São Paulo, onde cantava todas as noites no Juão Sebastião Bar com o balançadíssimo Trio Sambalanço de César Camargo Mariano.

Taiguara tinha belo timbre, grandes recursos vocais e muita musicalidade, era jovem e simpático e um pouco exagerado em suas interpretações e firulas vocais. Mas cantava e compunha bem, e ”Cecília”, que era apenas uma balada assim-assim, revelou mais o cantor do que o compositor quando foi apresentada no festival. O mestre tinha exagerado no entusiasmo.

Quando souberam que estavam nas finais, Edu e Vinícius imediatamente pensaram em Elis Regina para cantar ”Arrastão”. E Solano Ribeiro, diretor do festival e namorado de Elis, também.

Na tela da televisão em preto-e-branco, onde a vi pela primeira vez, Elis Regina parecia bem baixinha, estava sentada numa escada cenográfica, com uma saia escura curta e uma blusa clara de mangas bufantes, rindo e abrindo os braços e cantando. Os cabelos eram pretos e fartos e formavam um horrendo capacete de laquê, as sobrancelhas grossas e a maquiagem carregada lhe davam um ar adulto e vulgar. Ela ria muito e mostrava mais a gengiva do que os dentes pequenos, e um ligeiro estrabismo se acentuava com seu nervosismo. Mas aquela garota de 18 anos cantava uma barbaridade, cantava muito mais do que todas que a gente tinha ouvido.

No fim da música já não parecia tão feiosa assim. Era uma imagem radiante de talento e energia.

As garotas modernas da turma debocharam das suas roupas e cabelo, os garotos da bossa-jazz minimalista fizeram restrições a seu fraseado muito mais próximo de Ângela Maria do que de João Gilberto, mas todo mundo ficou besta com aquela voz.

Desde João não se ouvia nada melhor do que Elis.

Ou seria Élis?

Conheci Elis no estúdio Rio Som, nas vizinhanças da Praça Tiradentes, no coração do Rio Antigo.

Um buraco horroroso que se pretendia um templo tecnológico, com uma mesa de som com cerca de dois canais comandada por um engenheiro de som americano, Norman Sternberg. Elis estava colocando voz em ”João Valentão”, o clássico de Caymmi, com um arranjo audacioso e ultrajazzístico de Paulo Moura, uma das melhores faixas de seu primeiro disco para a Philips, que provocativamente se chamava Samba — eu canto assim. Era praticamente jazz.

Elis estava apaixonada pela música de Edu e escolheu três canções dele para gravar, ”Aleluia”, ”Resolução” e o sucesso ”Reza”, duas de Francis (”Minha” e ”Último canto”, com letras de Ruy Guerra) e um futuro clássico dos irmãos Valle, ”Preciso aprender a ser só”.

Levado por Edu, eu estava ali boquiaberto com o que estava ouvindo no ”aquário” da técnica, quando ela entrou, toda espevitada e sorridente e me estendeu a mão:

”Eu sou a Elis.”

E não Élis, aprendi.

No final da gravação, Norman fez questão de tocar para nós um disco recém-chegado da nova maravilha americana, da sensacional revelação que estava arrebentando nos Estados Unidos: Bárbara Streisand cantando ”People”. Todo mundo adorou e ficou impressionadíssimo. Eu também. Mas gostei ainda mais de Elis.

Elis era a nova sensação do Beco das Garrafas. Ela e Wilson Simonal, um típico ”mulatus copacabanensis” e discípulo de Carlos Imperial, que enchia as casas com seu suingue e simpatia, sua malandragem carioca, sua voz de veludo afinadíssima, cantando samba-jazz de primeira, com naipes de sopros, scats e firulas vocais, muitas vezes exagerados e às vezes de mau gosto, que faziam delirar as platéias. Com todas as restrições que as brigadas gilbertianas poderiam fazer, era impossível negar que Simonal tinha todas as qualidades de que precisava um grande cantor popular no Brasil de 1964. Seu primeiro disco, Nova dimensão do samba, foi um espetacular sucesso nacional.

O Beco das Garrafas fervia, nos bares tocava-se cada vez mais alto, com mais músicos, cantava-se cada vez mais ”pra fora”. Com 19 anos, Elis, filha de uma lavadeira de Porto Alegre, e Simonal, 22, filho de uma lavadeira carioca, eram as melhores vozes e as maiores revelações da nova geração. A maior influência dos dois não tinha sido João Gilberto mas Lennie Dale, que introduziu no Beco das Garrafas o profissionalismo americano, os ensaios exaustivos, um jeito de cantar que aproximava o samba mais da Broadway do que do jazz, com um fraseado exuberante, uma ênfase nos ritmos dançantes e uma atitude extrovertida — em tudo opostos ao intimismo minimalista da bossa nova.

O Brasil também estava muito diferente do tempo de ”Chega de saudade”. João Gilberto e Tom Jobim não tinham nada a ver com isso: estavam nos Estados Unidos, fazendo shows e gravando discos, encantando e influenciando grandes nomes da música e da imprensa musical. O jazz americano nunca mais seria o mesmo depois da bossa nova.

Nem a música brasileira depois de 1964.

1964 também foi um ano maravilhoso para Roberto, Erasmo e Jorge Ben.

Roberto estourou um sucesso nacional com o rockabilly ”É proibido fumar” e com o divertido rock ”Um leão está solto nas ruas”, que tocaram em todas as rádios e TVs e bailes, e as crianças cantaram nas ruas. Até o Beco das Garrafas agora sabia que ele era um sucesso, e apesar (ou por causa) disso o desprezava.

Jorge Ben se tornou uma das grandes estrelas do Beco, do Rio e do Brasil, lançando a seqüência de hits ”Por causa de você, menina”, ”Mas que nada” e o maior de todos, ”Chove chuva”, onde estabeleceu um novo padrão de ritmo, aceito tanto pelos jovens fãs de rock dos subúrbios quanto pelos sambistas dos morros da Zona Norte e pelos músicos e ouvidos mais sofisticados de Copacabana.

Não era nada de ”misto de maracatu”, como ele dizia, era samba sim, heavy samba certamente, mas também era um misto de rock e de funk, uma batida diferente que antecipava o reggae.

A sensacional levada do violão de Jorge não era dedilhada, cheia de síncopes e sutilezas, acordes complexos e dissonantes: era com todos os dedos enormes, rasqueando, como se tocasse com uma palheta. Jorge integrava acordes básicos e melodias intuitivas com letras diretas e sonoras.

Suas palavras eram puro ritmo e o violão soava como percussão: sua música era a melhor e mais animada novidade do momento.

Ao contrário de Elis e Simonal, colegas de início de estrelato no Beco das Garrafas, Jorge compunha seu próprio material e se acompanhava com o violão. Não precisava de músicas de ninguém, nem de músicos: sozinho era uma banda.

Em São Paulo, 1964 foi um ano decisivo para Elis Regina. Com sua voz potente e seu temperamento explosivo, a baixinha foi o ponto mais alto do show da Faculdade de Odontologia, ”Primeira denti-samba”, que Walter Silva produziu no imenso Teatro Paramount, se apresentando acompanhada pelo Jongo Trio, a resposta paulista ao Tamba Trio. Elis era gaúcha mas não tinha nenhum sotaque, nem paulista ou carioca, cantava numa perfeita dicção nacional, sua voz tinha a exuberância extrovertida dos grandes sambistas, o sentido harmônico dos grandes jazzistas, o volume e potência das grandes vozes. No show da Faculdade de Medicina, ”O remédio é bossa”, Elis provocou uma explosão no auditório cantando uma nova música dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle, que se tornaria um sucesso imediato, um de seus primeiros e maiores, ”Terra de ninguém”, um hino à reforma agrária:

”Quem trabalha é quem tem direito de viver pois a terra é de ninguém.”

Só não saiu do palco carregada pelo público porque não quis.

No Rio, em suas cada vez mais freqüentes apresentações no Beco das Garrafas, Elis conheceu Lennie Dale, que era amigo de seu namorado Solano, e, como todos os jovens que o conheceram naquele tempo, se apaixonou pelo seu jeito apaixonado de ver e interpretar a vida como um espetáculo.

Lennie não veio do jazz, veio da Broadway, dos sonhos dos grandes musicais, das coreografias provocantes em perfeita sincronicidade, das iluminações e cenografias luxuosas. Veio parar no Brasil quando as filmagens de Cleópatra, em Roma, e as seqüências de dança romana — ou egípcia — foram canceladas. Fascinada pelo carisma de Lennie, por seu sentido de profissionalismo, tão diferente do jeito carioca relaxado dos músicos do Beco, Elis encontrou nele um grande amigo, um mentor, um mestre, a quem dedicou o seu disco Samba — eu canto assim.

De simpatia irradiante, Lennie era exuberantemente gay num tempo em que isto não era comum nem recomendável, castigado pelo machismo latino-americano com piadas e desprezo. Mas com Lennie ninguém folgava porque, além de bailarino atlético e ágil, com a agressividade e malandragem treinadas nas ruas de Nova York, ele era uma boa briga e uma parada indigesta para todos que desafiavam sua fúria e seu pavio curto de ítalo-americano.

Como o Beco viu várias vezes, a bicha era machíssima. Mas normalmente Leonard Laponzina era um personagem doce e elétrico, alegre e entusiasmado. Chamando homens e mulheres de ”baby” e falando rápido com seu sotaque forte e hilariante, cheio de gírias, aquele americano doidão e amoroso era querido por todo mundo e estava absolutamente apaixonado pela música brasileira, pelos rapazes cariocas e pela maconha baiana, que fumava o dia inteiro, em qualquer lugar, com grande naturalidade.

Lennie não tinha grande voz, mas como todo artista americano aspirante à Broadway, cantavadançava-

representava com competência.

E tinha ouvido musical, sentido rítmico, musicalidade e sentido de espetáculo. Sabia reconhecer em poucas notas um grande talento: ficou louco quando ouviu Elis. Tomou-a sob sua proteção, encantou-se com a sua agressividade e determinação, tão parecidas com ele, ensinou à garota ingênua e provinciana o que tinha aprendido sobre show business em Nova York, ante(ou)viu o brilho fulgurante da estrela. Com Lennie, Elis aprendeu outras divisões rítmicas, outros fraseados, outras maneiras de cantar, muito diferentes de Ângela Maria. Aprendeu a ensaiar exaustivamente e buscar sempre mais, melhor, mais uma vez.

As festas continuavam no Rio. Depois de uma noite de uísque e violão com Edu Lobo, Gianfrancesco Guarnieri se empolgou e convidou-o a escrever um musical em parceria, para ser encenado pelo Teatro de Arena de São Paulo, que tinha grande prestígio e fazia montagens de temas brasileiros com leitura política. Era uma espécie de CPC profissional, onde brilhavam os atores Paulo José, Dina Sfat e Lima Duarte. Edu, que tinha só três ou quatro músicas, em parceria com Vinícius, achou um pouco exagerada mas muito bem-vinda a empolgação de Guarnieri e acreditou: uma semana depois pegou um ônibus e estava em São Paulo, de violão na mão, tocando a campainha da casa de Guarnieri: tinha vindo para fazer com ele o tal ”musical brasileiro” que tinham sonhado naquela já remota noite carioca. Mas Guarnieri não tinha nenhum tema ou idéia ou talvez não se lembrasse bem da proposta que tinha feito a Edu. Mas um musical sobre o que mesmo?

Uma das músicas que Edu tinha mostrado a ele no Rio era a tal ”Zambi”, que Vinícius imaginara na selva, entre pios de pássaros e onomatopéias noturnas, um líder organizando seus guerreiros para a luta pela liberdade. Era perfeito para o Arena, que já tinha encenado ”Castro Alves pede passagem” com grande sucesso e agora contaria e cantaria a história de Zumbi dos Palmares, o herói popular, o rebelde, o mártir da liberdade, uma metáfora de resistência ao golpe militar, oportunidade para driblar a censura e dar uma visão brasileira da luta contra a opressão. Edu e Guarnieri saíram imediatamente para comprar os livros e iniciar as pesquisas, começaram a trabalhar naquele mesmo dia, viraram a noite e foram dormir às 11 da manhã. Mergulharam no trabalho e produziram grande volume de texto e músicas em pouquíssimo tempo: estavam entusiasmados, inspirados, num outro mundo e num outro tempo, lutando pela liberdade na Serra da Barriga.

No boteco Redondo, na esquina do Teatro de Arena, numa noite fria de abril, bebendo com Guarnieri, Edu acompanhava pelo telefone a final do festival no Rio. Não havia transmissão direta pela TV e do outro lado da linha Fernando Lobo ia narrando os eletrizantes acontecimentos. Quando foi anunciado que o segundo lugar era ”Valsa do amor que não vem”, de Vinícius e Baden, Edu achou que estava fora, por causa de Vinícius: não iriam dar também o primeiro lugar para o poeta, seu parceiro em ”Arrastão”.

Passou o telefone para Guarnieri e voltou cabisbaixo para o teatro.

No meio do caminho, foi chamado de volta aos gritos:

”Você ganhou! Você ganhou!”

Com ”Arrastão”, uma melodia bem construída e de forte apelo popular, e com a letra de Vinícius engendrando uma fantástica história em que Iemanjá em pessoa vem na rede dos pescadores, Elis passou como um trator sobre as finalistas do I Festival da Música Brasileira no palco da TV Excelsior, em Ipanema, ganhando também o prêmio de ”melhor intérprete”.

Apoiada por empolgante arranjo de Luiz Eça, com uma levada rítmica rápida e agalopada no início e o refrão cantado com o ritmo desdobrado, Elis explodia na entrada da massa de cordas e sopros, o aplauso era unânime e entusiástico.

Na maneira que Elis cantou, na exuberância de seus gestos, na utilização que fez das mudanças de ritmo, em seu fraseado, em sua vitória havia muito de Lennie Dale. E o início de uma grande parceria com Edu.

Levado de roldão no arrastão, ”Sonho de um carnaval” passou quase despercebido pelo público. Era um belo e sombrio samba de Chico Buarque em tom menor, cantado por um paraibano do Rio, parceiro de Carlos Lyra, um moreno bonitão de olhos verdes que estava nervosíssimo durante toda a música. Com uma expressão dramática intensa, ao mesmo tempo desafiadora e sofrida, Geraldo Vandré cantava com voz trêmula:

”Carnaval, desengano, deixei a dor em casa me esperando, e brinquei e gritei e fui vestido de rei, quarta-feira sempre desce o pano...” Depois do festival, Elis foi a São Paulo para fazer mais um show de Walter Silva, ao lado de Jair Rodrigues e do Jongo Trio, no Teatro Paramount:

”O fino da bossa”. A lotação para as duas noites esgotou em poucas horas e foi acrescentado um terceiro show, que também superlotou os dois mil lugares, escadas e corredores do teatro. Elis e Jair foram eleitos os melhores cantores do ano no ”Prêmio Roquete Pinto”, o mais prestigiado evento da TV Record. Na noite da premiação, transmitida ao vivo, o auditório foi à loucura com Elis e Jair e eles foram contratados pela emissora para comandar um novo programa musical, que não podia se chamar ”O fino da bossa” porque os direitos do nome eram de Walter Silva, e seria somente ”O fino”, dirigido por Manoel Carlos. Com a fina flor da nova música brasileira, como Baden Powell, Edu Lobo, Marcos Valle, Os Cariocas, Wilson Simonal, Geraldo Vandré, Nara Leão, Tamba Trio, Zimbo Trio e, naturalmente, Lennie Dale.

Graças a uma manobra de seu empresário Marcos Lázaro, que fez um leilão entre Cassiano Gabus Mendes, da TV Tupi, e Manoel Carlos, da TV Record, que disputavam seu passe, Elis assinou um contrato para fazer ”O fino” ganhando um salário de US$ 17 mil, astronômico numa época em que o cantor mais bem pago da casa, Agostinho dos Santos, ganhava US$ 2 mil. Era tanto dinheiro que com seus dois primeiros salários, descontados os 20% de comissão de Marcos, Elis comprou, à vista, um apartamento no mesmo prédio onde morava há três meses com a família Lázaro, na esquina das avenidas Ipiranga e Rio Branco, no Centro da cidade. E ainda sobrou o suficiente para comprar uma infinidade de roupas, perfumes e principalmente sapatos, muitos, tamanho 35.

O sucesso de ”O fino” foi imediato e contagiante. Filas imensas se formavam na calçada horas antes do programa. Moças com os cabelos duros de laquê e vestidas para festa e muitos homens de paletó e gravata disputavam o privilégio de ver um show com 15 artistas do primeiro time por uma entrada um pouco mais cara que um cinema.

O programa era gravado às segundas-feiras e exibido na quarta às nove da noite na Record, líder absoluto de audiência em todo o Brasil. A dupla Elis e Jair se completava e excedia: um negro e uma branca, jovens e talentosos, animados e cheios de ritmo, alegres e populares. Juntos eles lançaram um dos maiores sucessos populares da história do disco brasileiro, Dois na bossa, acompanhados pelo Jongo Trio. O forte do disco eram sucessos do momento reunidos em pot-pourris, junto com sambas extrovertidos e novidades da nova geração: a dupla se tornou um estrondoso sucesso nacional. Muito maior do que Elis e Jair separados. Mas Elis não pensava em fazer uma carreira em dupla com Jair. Ou com quem quer que fosse.

Com 21 anos, Elis tinha recursos vocais e ambições artísticas que pareciam ilimitados e uma paixão secreta por Rubinho, baterista do Zimbo, mais velho e experiente do que ela, um músico de jazz prestigiado que tinha aderido à nova onda. Uma das grandes influências de Elis nesse início de estrelato foi o núcleo jazzístico do Zimbo (Rubinho e o baixista Luiz Chaves), já que o pianista, Amilton Godoy, era de formação erudita. O calor e exuberância de Elis somavam-se aos solos virtuosísticos e harmonizações jazzísticas do Zimbo e produziam o popular e o sofisticado, ampliavam o público do trio e da cantora.

Até João Gilberto fez ”O fino”. Mas foi como se não tivesse feito.

Primeiro foi difícil convencer Elis, que não queria saber da sofisticação cool de João Gilberto e Tom Jobim. Elis detestava bossa nova. Depois de árduas negociações, Marcos Lázaro conseguiu trazer João de Nova York para participar do programa. Trancado no hotel, concentrado, João não quis falar com ninguém, não participou do ensaio e chegou em cima da hora da gravação. Para seu intimismo cool não havia ambiente menos favorável que a animação efervescente das jovens platéias barulhentas do ”O fino”, onde tudo era feito para excitar e levantar o público. João cantou seus sambas quase em segredo e foi ouvido como um objeto sonoro não-identificado, algo de um passado remoto. Ou de um futuro distante. A hora era de refrões poderosos, para serem cantados junto com o público, a hora era para letras fortes e palavras duras, para ritmos desdobrados e sambas animados, a hora era para fora.

O esperto Marcos Lázaro deu outra grande tacada quando conseguiu que a Record dobrasse a proposta da TV Tupi para Wilson Simonal comandar um musical. Simonal saiu direto da assinatura do contrato para uma agência de automóveis e comprou um Impala cor de vinho no ato. Com seu mentor Carlos Imperial na produção e com o trio de César Mariano, agora chamado Som Três, Simonal se tornou um dos maiores salários — e sucessos — da Record com o seu ”Show em Si... monal”. Contava piadas, brincava com o público e fazia-o cantar, tocava instrumentos, fazia imitações, como um entertainer americano. Apresentava números musicais com os contratados da Record e duetos divertidos com artistas populares, como o genial Jackson do Pandeiro ou o megabrega ) Orlando Dias.

Simpático e irreverente, Simonal não só sabia como poucos sentir e interagir com o público, como estava criando um gênero musical próprio, um estilo, uma batida, uma levada, uma atitude: a ) ”pilantragem”. Uma jogada dele e de Imperial com a ajuda musical de César Mariano, que adaptava temas populares como ”Meu limão, meu limoeiro” para o ritmo dos hits de Chris Montez, uma espécie de samba americano com sabor latino, muito gostoso.

O público adorou, acompanhava com palmas, todo mundo dançava: finalmente Imperial acertava no milhar. Bem que o gordo tentou chamar a nova onda de ”samba jovem” em vez do duvidoso ”pilantragem”. Mas Simonal gostava e usava a palavra como atualização da antiga malandragem, como sinônimo de esperteza, de vivacidade, de criatividade, sem qualquer sentido pejorativo: era uma qualidade. Era impossível sobreviver sem uma certa pilantragem: ele mesmo se considerava um bom pilantra.

Num fim de noite no Beco das Garrafas, naquela afetuosidade alcoólica que estimula confissões, ele suspirou e me disse:

”Veja você, até pouco tempo atrás eu era secretário do Imperial, um crioulo filho de uma lavadeira, e hoje... tenho um dos carros mais bonitos da cidade.” Como a velha Hollywood e a antiga Rádio Nacional, a TV Record tinha um imenso elenco de artistas contratados, que ganhavam salários mensais e eram escalados para participar dos diversos programas da casa. A Record também não acreditava em cheques: todo mundo era pago em dinheiro vivo.

Com a vitória no festival com ”Arrastão”, o lançamento de seu primeiro disco e o sucesso de ”Arena conta Zumbi”, Edu Lobo se tornou uma das estrelas da nova geração: foi contratado pela Record, ganhava salário, se apresentava de smoking em ”O fino” e em outros programas musicais. A Record tinha contratos de exclusividade com praticamente todas as grandes estrelas da música brasileira, de todos os estilos e gerações. Quem não estava na Record não estava em lugar nenhum. Nos contratos, os artistas também assumiam o compromisso de se apresentar todo mês no ”Show do dia 7”, que era o número do canal da Record em São Paulo.

Todo o elenco, de todas as facções e gerações, era obrigado a participar, os camarins pegavam fogo. Mas, ao contrário de Elis, Nara Leão, a musa da oposição, se dava bem com o pessoal da ”música jovem”.

No Rio, foi anunciado que Nara sairia do show ”Opinião” e seria substituída por uma jovem cantora de 18 anos, que a própria Nara tinha conhecido e escolhido na Bahia. Naquela noite, na última semana de 1964, subi as escadas rolantes que não rolavam até o Teatro de Arena e me juntei à multidão para a reestréia de ”Opinião”, o maior sucesso teatral do ano. Com os cabelos crespos puxados para trás e com as mesmas calças caqui e camisa masculina vermelha de Nara, com seu nariz adunco e suas mãos de dedos longos e expressivos, vi Maria Bethânia pela primeira vez. Como poucos, achei-a de estranha e misteriosa beleza, entre muitos que se espantaram com a dureza de seus traços. Sua voz grave e potente maravilhou a todos pela força e delicadeza, cantando as canções de João do Vale e de Zé Keti com vigor e emoção, e apresentando pela primeira vez uma bela música, a primeira que o Rio ouviu, de seu irmão Caetano Veloso.

”... mas a flor amada, é mais que a madrugada, e foi por ela que o galo cocorocou...”

Maria Bethânia se tornou uma estrela da noite para o dia no Rio de Janeiro, no início de 1965. Tudo nela era diferente de todas as outras, muito diferente: voz, figura, gestos, sexualidade, sotaque baiano. Atitude.




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