Nelson Motta



Baixar 1.04 Mb.
Página2/29
Encontro02.07.2019
Tamanho1.04 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   29

Na febre da Bossa Nova, as academias de violão se multiplicavam pela Zona Sul do Rio e numa delas, na Rua Dias da Rocha, no coração de Copacabana, conheci Wanda Sá, Mauricio Tapajós, Edu Lobo, Marcos Valle e outros, uma nova turma. Era uma casa de vila de dois andares, onde Roberto Menescal, Samuel Eliachar e outros davam aulas de violão e principalmente onde os alunos se encontravam para conversar e tocar. Todos os meus amigos tocavam melhor do que eu, mas era uma felicidade estar entre eles, ouvindo, aprendendo e sonhando.

Muitos dos alunos da academia logo se tornavam professores: os mestres iam ficando com as agendas lotadas e cada vez mais garotos e garotas queriam, precisavam aprender a tocar violão.

Edu Lobo, que já tocava razoavelmente de ouvido, foi para a academia para ser aluno de Wanda Sá, aluna de Menescal, que não tinha mais horários. Acabou tendo aulas com Samuel Eliachar e em pouco tempo já tinha aprendido o método e tinha quatro alunos: pagava as aulas de Samuel e ainda lhe sobrava o suficiente para transporte e lazer. .

Algum tempo depois até eu tinha algumas alunas.

Outro ponto de encontro era o Mau Cheiro, um botequim aberto para o mar de Ipanema, na esquina com Rainha Elizabeth. Era da praia para o bar e do bar para o mar, e vice-versa. De violão na mão.

Muita gente achava cafonice, mas era com certo orgulho que atravessávamos a Avenida Vieira Souto de violão na mão.

Quem carregava violão nas costas era Jucá Chaves, que era paulista e nunca teve nada a ver com a bossa nova. Com faro compatível com seu nariz, o esperto Jucá emplacou um hit com ”Presidente bossa nova”, que de bossa nova não tinha nada, era mais uma paródia do novo ritmo, perfeita para ambientar um retrato satírico de JK e suas novidades. Jucá gostava mesmo era de modinhas, mas ao mesmo tempo em que pegou carona na confusão inicial da bossa, com o sucesso de sua música ele contribuiu para popularizar a expressão. E além de tudo, JK era realmente bossa nova.

”Mas merecia música melhor...”, rosnavam os fundamentalistas da bossa e os guardiões de sua pureza, devotos da Santíssima Trindade — João, Tom e Vinícius. Nós nos considerávamos os apóstolos dos apóstolos. Mas tínhamos o supremo privilégio do acesso direto às divindades e a graça do testemunho. Mais que uma causa, vivíamos a bossa nova como uma religião.

Na praia em frente ao Mau Cheiro, de preferência à tarde, embora alguns fanáticos tocassem e cantassem até mesmo ao sol do meio-dia —, formavam-se rodinhas de moças e rapazes em volta de alguém com um violão. Para cantar bossa nova, uma música que parecia ter sido criada para ser a trilha sonora das praias cariocas.

Foi inspirado pelo querido botequim que fiz minha primeira letra, para um sambinha de Maurício Tapajós cheio de bossa: ”Um chope , no Mau Cheiro.” Já o título estava mais para Bukowski e Kerouac do que bossa nova e todo mundo achou que não cheirava bem. Tentei uma outra, para a mesma música: ”Amor de gente moça”, inspirado em um Lp de Sylvinha Telles de bossa romântica que tinha este título. Desta o pessoal (aparentemente) gostou: era uma sucessão de clichês românticos da bossa nova (”as flores não são flores/são amores sem saudade/ são cores feitas de felicidade...”). Como Maurício era filho de Paulo Tapajós, diretor e produtor da Rádio Nacional, vivi a emoção de ouvir nossa música no rádio, ao vivo, com um arranjo para grande orquestra de ninguém menos que Radamés Gnatalli e cantada por sua mulher, Nelly Martins. Ao vivo pela Rádio Nacional, numa noite carioca de verão. Minha mãe chorou. Nesse tempo, aquela música de praia era chamada pejorativamente de ”música de apartamento”, como se fosse uma música restrita e fechada, distante das ruas, apesar de a bossa nova ser um grande sucesso popular, que ia muito além da classe média de Copacabana.

Para nós o Rio era a Zona Sul, a praia de Ipanema e os bares de Copacabana. E o Brasil era o Rio e São Paulo e a construção de Brasília. Através de Jorge Amado, Guimarães Rosa e Érico Veríssimo conhecíamos um outro Brasil, de ficção, exótico e atraente, fascinante mas distante. Tão distante quanto os poetas da beat generation americana. Tudo parecia muito longe do Rio de Janeiro no final dos anos 50, mas a bossa nova começava a aproximar os jovens cariocas dos de São Paulo, de Salvador, de Belo Horizonte e de Porto Alegre. O rádio entrava em decadência, o disco e a televisão começavam a crescer no ambiente de liberdade, modernização e entusiasmo dos Anos JK.

O apartamento de Nara era um luxo. Imenso, com dois salões envidraçados de frente para o mar de Copacabana. Chamava-se Champs Elysées, era um dos edifícios mais modernos e um dos endereços mais valorizados da cidade. Ipanema era quase só casas e árvores e a Barra da Tijuca era selvagem e inacessível. Chique era a Avenida Atlântica. Chique era a bossa nova. E o cool jazz. E o jazz-samba. Ou samba-jazz. Que para muitos eram praticamente a mesma coisa e assunto para muita discussão na praia e nos bares de Ipanema.

As festas se sucediam, mas Tom e João raramente apareciam. Tinham discos gravados, eram profissionais, casados, tinham família para sustentar, trabalhavam. Viviam de música. E nós, para a música.

Rock and roll era visto e ouvido entre nós como uma boçalidade, com seus três acordes primitivos, seu ritmo pesado e quadrado e seus cantores gritando e rebolando. Era a antítese da bossa nova e tão desprezado quanto o sambão tradicional. Era coisa de Carlos Imperial e de Jair de Taumaturgo, que movimentavam as tardes cariocas apresentando ”Os brotos comandam” e ”Hoje é dia de rock” na televisão, com garotos e garotas dançando o novo ritmo e calouros fazendo dublagens de sucessos do rock americano.

”Alô, brotos, vamos tirar o tapete da sala... porque hoje é dia de rock!”, comandava Jair de Taumaturgo, veterano disc-jockey de rádio, um animado quarentão de cabeça branca, cercado de jovens no vídeo da TV Rio.

Em casa, diante da televisão, a gente ria.

Nos tapetes macios do apartamento de Nara, os brotos comandavam e geravam a música do futuro.

Foi onde vi pela primeira vez, tocado por Luiz Carlos Vinhas, um piano elétrico, novidade absoluta.

Nara tinha mesmo um look diferente. Parecia meio japonesa, meio índia, meio existencialista francesa, tinha uma voz pequena e tímida e vestia-se de uma maneira cool e moderna, sempre com as saias bem acima dos futuramente célebres joelhos. Nara era o protótipo da ”garota moderna”, que não queria saber do luxo e da quadradice da sociedade carioca e estava disposta a quebrar tabus, trabalhar, ser independente, estabelecer novos padrões de comportamento. E de música.

Encarnação da bossa nova, mais do que uma voz e um estilo, Nara tinha principalmente o que era mais fascinante no mundo do rock and roll: atitude.

Uma atitude bossa nova.

O rock parecia não se ambientar bem no calor do Rio ensolarado, sua agressividade e seus casacos de couro não combinavam com o clima relaxado e cordial da cidade nem com seu humor e simpatia.

As platéias de Imperial e Jair de Taumaturgo vinham principalmente da Zona Norte e dos subúrbios.

As praias da Zona Sul, antes do Túnel Rebouças, eram distantes e de penoso acesso, quase privativas dos locais: os habitantes das favelas da Catacumba, do Morro do Pinto, do Pavãozinho e da Rocinha, que conviviam em relativa paz e harmonia com a classe média de Copacabana e Ipanema, unificados pelas praias e pela paisagem deslumbrante.

Para nós o Rio não era rock, era bossa nova.

O pequeno estúdio da Rádio Guanabara, noCentro da cidade, se transformava em agitado auditório e se enchia de jovens para o programa ”Os brotos comandam”, de Carlos Imperial. Curiosamente, a primeira parte do programa era de mímica. No rádio. Mas funcionava: o público em casa ouvia o artista americano e também a gritaria do público do auditório delirando com as dublagens que Tony Tornado e Gerson King Combo faziam de Chubby Checker e Little Richard. Depois havia o concurso de dança, animado e comentado por Imperial, e finalmente começava a música ao vivo: anunciado estrepitosamente por Imperial como ”o Elvis Presley brasileiro”, Roberto Carlos, acompanhado pelos Snakes, com Erasmo Esteves no violão e nos backing-vocals. Em casa os ouvintes da Zona Norte e dos subúrbios ficavam incendiados com a gritaria e animação do estúdio. E a festa continuava:

”E atenção, brotos, porque vem aí o Little Richard brasileiro!”, anunciava Imperial.

E Tim Maia entrava e cantava um rock explosivo acompanhado pelos Snakes e levantava o auditório.

Tim era amigo de Erasmo desde criança na Rua do Matoso, na Tijuca, quando ainda se chamava Tião e entregava marmitas da pensão de seus pais, dona Maria e seu Altivo, considerado no bairro um mestre dos temperos. Antes de música, o pequeno Tião aprendeu a comer bem e sempre foi gorducho. Quando saía para entregar as marmitas, pendurava-as num cabo de vassoura que levava nos ombros, como um pescador chinês de carnaval. Todos os dias na hora do almoço ele saía para fazer as entregas e, balançando suas latas, passava pelo Largo da Segunda-feira, onde sempre rolava animada pelada. Era irresistível. Em campo, Tião era o mais pesado e, às vezes, o mais violento: ia na bola como quem vai num prato de comida. O exercício lhe abria o apetite e Tião abria as marmitas e tomava uns goles de sopa aqui, beliscava um pastel ali, umas bocadas de arroz e feijão acolá, um pedaço de doce, e com as marmitas mais leves seguia para a entrega.

Tanto quanto de comida, Tião gostava de música. Começou a aprender violão sozinho, ensinou três acordes para Erasmo e os dois tentavam tardes inteiras, em vão, fazer no violão as complexas harmonias do ”Desafinado” de João Gilberto, que adoravam. Quando depois Tião foi para os Estados Unidos, se correspondia com Erasmo assinando ”Tim Jobim” e recebia abraços de ”Erasmo Gilberto”.

Tião tinha 16 anos quando resolveu que iria para os Estados Unidos. Começou a dizer para todo mundo que ia morar com uma família americana num programa de intercâmbio, fez uma campanha de arrecadação de fundos na família e conseguiu, depois de suplicantes visitas, convencer o bondoso pároco da igreja da Tijuca a completar o que faltava para a passagem de avião, só de ida.

Tião tinha falado tanto para tanta gente e dado tantos detalhes da sua ”família americana” que acabou ele mesmo acreditando em sua ficção e se decepcionando: na chegada a Nova York ninguém o esperava no aeroporto. Em Manhattan e depois na vizinha Tarryton, Tião virou Tim e trabalhou de garçom, entregador de pizzas, aprendeu inglês, conheceu a música negra americana, cantou em grupos vocais, fez pequenos furtos e experimentou fartamente tudo que era droga leve e pesada. Uma noite, com três crioulos amigos, foi preso em Daytona Beach, onde estavam fumando maconha dentro de um carro roubado. Passou uma temporada na cadeia em Daytona e foi deportado para o Brasil.

Na Tijuca, de tanto cantar o rock ”Bop-a-lena”, Tim ganhou o apelido de ”Babulina”. Mas ”Babulina” também era o apelido de um garotão do Rio Comprido, um mulato atlético chamado Jorge, que também cantava ”Bop-a-lena”, tocava violão e fazia parte da gangue ”Os cometas”. Nas rodas da Praça da Bandeira, ponto de encontro das turmas da Matoso e do Rio Comprido, já se comentava que Tim iria ter problemas com Jorge, que se considerava o dono do apelido por cantar a música há mais tempo. Mas tudo se resolveu pacificamente e Jorge acabou participando de uma serenata com Tim e Erasmo, no Beco do Mota, debaixo da janela da generosa Lilica, que costumava receber a turma toda em sua cama, um por um. Chegavam a se formar alegres e ansiosas filas de dez, doze garotos à sua porta, e muitos jovens tijucanos e rio-compridenses tiveram com ela a sua iniciação sexual. Mas naquela noite acabaram todos na delegacia por reclamação dos vizinhos e o violão foi apreendido: a serenata não era de valsas e canções mas de twist e rock and roll.

Com suas festas de rua, na Casa da Beira e na Vila da Feira, os clubes portugueses da área, com suas quermesses e suas festas juninas, a vida na Zona Norte era animada e Jorge estava em todas com seu violão, cantando ”Bop-a-lena” e sempre agradando as meninas, até que começou a fazer suas próprias músicas, passou a usar o nome de Jorge Ben e começou a tentar a vida nos bares de Copacabana.

Tudo virou Bossa Nova, do presidente à geladeira, do sapato à enceradeira, a expressão ficou muito maior do que a música que a originara. Amplificada pela publicidade, caiu na boca do povo para designar tudo que era (ou queria ser) novidade: eventos e promoções, comidas e bebidas, roupas, veículos, imóveis, serviços e pessoas que nada tinham a ver com música e muito menos com a música de João Gilberto e Tom Jobim.

Não havia mais possibilidade de qualquer controle: se tudo era bossa nova, então nada mais era bossa nova. Até a bancada da UDN na Câmara tinha a sua ”bossa nova”. Era preciso fazer alguma coisa: Ronaldo chegou a pedir a um advogado, meu pai, que redigisse os estatutos de um ”Clube da bossa nova”, que daria shows, discos e um jornalzinho para seus sócios. Carlos Lyra registrou a marca ”Sambalanço” e lançou seu disco na Philips com este título.

A Odeon dispensou a ”Turma” e resolveu gravar apenas um disco com quatro faixas, então chamado compacto duplo, com o conjunto de Roberto Menescal.

Os dois discos passaram longe do sucesso popular mas provocaram intermináveis discussões nas rodas musicais de Copacabana.

O disco de Carlinhos, além de ”Rapaz de bem”, de Johnny Alf, tinha outras boas músicas, como ”Maria ninguém” e ”Ciúme”, arranjadas em estilo ”jobiniano” e com a batida da bossa nova, mas metade do disco — talvez a melhor — era de toadas e sambascanções.

E a performance do cantor não era entusiasmante. No de Menescal, ótimas músicas, como ”Céu e mar”, de Johnny Alf, mas nem cantor tinha: guitarra, baixo, bateria, piano, flauta e trompa produziam um balanço animado, um timbre diferente e tocavam arranjos bem jazzísticos, bem Copacabana. EEu ouvia os dois discos o dia inteiro.

Mas quanto mais ouvia mais sentia que João Gilberto e Tom Jobim estavam anos-luz, anos-som adiante deles.

Carlos Lyra e sua turma tinham preocupações sociais, acreditavam na música como instrumento de ação política, denunciavam a jazzificação da bossa nova, criticavam sua americanização e ”elitização” e buscavam as raízes populares na (re)descoberta de grandes sambistas cariocas como Cartola e Nelson Cavaquinho e de artistas populares nordestinos como Luiz Gonzaga, João do Vale e Jackson do Pandeiro. A sua ”linha musical” basicamente seguia as idéias do Centro Popular de Cultura da UNE, do qual Lyra foi um dos fundadores e que reunia a fina flor da jovem esquerda carioca, de onde sairia boa parte do Grupo Opinião de teatro e do Cinema Novo.

”Pobre samba meu foi se misturando, se modernizando e se perdeu e o rebolado, cadê não tem mais... e o samba meio torto, ficou meio morto, influência do jazz...”

Reclamava Carlos Lyra em ”Influência do jazz” com tanto talento e tão boa melodia, que a música acabou paradoxalmente se tornando um hit nos shows do Beco das Garrafas — a antítese do samba-social e reduto irredutível do samba-jazz —, onde recebeu exuberantes interpretações, naturalmente ultrajazzísticas. Coisas de Copacabana.

O samba-jazz dos músicos do Beco das Garrafas, com seus naipes de metais, sua percussão pesada, seus cantores improvisadores, chegou a ser chamado de ”heavy samba” por um crítico de jazz francês e, apesar do espanto que provocou, não estava longe da verdade musical.

Conheci Sérgio Mendes acendendo um peido em frente ao Little Club, no Beco das Garrafas. Numa roda de papo, ele empinou a bunda, acendeu um isqueiro na ”linha de tiro” e — como um engolidor de fogo de circo — lançou na noite carioca uma chama azulada e fugaz, entre aplausos e gargalhadas.

Sérgio era uma das grandes estrelas do samba-jazz do Beco das Garrafas. Celebrado por seu talento e bom gosto musical e temido pela língua ferina e divertida, ele era um jovem pianista de Niterói, fã de Bill Evans e Horace Silver, de grande sensibilidade harmônica e com um fraseado musical ágil e elegante. Sérgio Mendes não tocava só jazz, tocava Tom Jobim e músicas do moderníssimo maestro Moacyr Santos com seu sexteto Bossa Rio, que durante meses superlotou os 50 lugares do Bottle’s Bar, agora do ex-garçom Alberico Campana, e resultou num dos melhores discos instrumentais já produzidos no Brasil, que se intitulava desafiadoramente ”... e você ainda não ouviu nada”.

Sérgio no piano liderava Edson Machado na bateria, Otávio Bailly no baixo, o argentino Hector Costita no sax tenor e Raul de Souza e Edmundo Maciel nos trombones, tocando arranjos sensacionais de Tom Jobim, de Moacyr Santos e do próprio Sérgio para ”Corcovado”, ”Ela é carioca”, ”Nana” e ”O amor em paz”, que se tornaram históricos, pela audácia harmônica à Gil Evans, pela potência e precisão do ataque dos metais, pelo suingue e pegada da cozinha, pelos solos e improvisos, por sua linguagem moderna... e brasileira. O disco teve impacto extraordinário no meio musical e para muitos juntava o melhor do jazz e da bossa nova, mas não podia ser chamado de jazz nem de bossa. Porque era samba-jazz.

João Gilberto não tinha nada a ver com isso e dizia que sempre fez samba. E nunca levou a sério esta história de samba-jazz. Samba sempre foi samba, todo mundo (achava que) sabia o que era, só que João tocava e cantava samba tão diferente, que parecia mais próximo do cool jazz do que do batuque dos terreiros. Depois entendi que ele sintetizava em seu violão uma bateria de escola de samba.

Mas, além do samba e de Orlando Silva, João também amava Chet Baker, como todos nós.

Chet cantava como um músico, como todos os grandes cantores, màs não reproduzia no seu canto os fraseados e os solos que fazia em seu trompete. Parecia buscar um campo intermediário entre o som cool e intimista do seu instrumento e o sentimento da sua voz, frágil e vulnerável. Chet cantava com um fio de voz, murmurando, mastigando, soprando as palavras. Direto ao coração. De Manhattan a Copacabana.

Como João Gilberto, parecia que Chet Baker tinha descoberto a existência real do microfone. Antes deles, parecia que os outros — até mesmo Sinatra e Ella — usavam o microfone só para amplificar o volume de suas vozes, mas continuavam cantando como se estivessem no palco. Eles não: cantavam ali ao seu lado, no seu ouvido. A tecnologia os libertava da tirania da força vocal e do volume, e eles podiam criar uma nova expressividade, mais econômica e precisa, mais suave e elegante; novos ambientes sonoros para novos tempos. Com eles a música saía menos dos pulmões e mais do coração.

Eles eram radicalmente tecnológicos: não existiriam sem o microfone.

Nem nós sem eles.

A ala ”light” da bossa carioca se concentrava em torno de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, que começaram a compor juntos e a partir do estrondoso sucesso de ”O Barquinho” — gravado por João — emplacaram um hit atrás do outro, com Maysa, Os Cariocas, Sylvinha Telles e outros. ”Vagamente”, ”Nós e o mar” e ”Rio” eram músicas leves, com letras românticas e coloquiais, rimas sonoras e paisagens marinhas. Eles se acreditavam a ortodoxia da bossa nova carioca, defensores do que achavam ser o fundamentalismo jobino-gilbertiano, a arte pela arte, onde entre patos e lobos não havia lugar para retirantes ou favelados, personagens de destaque na nova bossa social.

Mas João Gilberto não tinha nada a ver com isso e Tom Jobim parecia representar um equilíbrio entre as duas tendências, talvez porque as duas tenham se originado dele, que se situava em algum ponto acima das facções que buscavam a sua aprovação. Tom não dizia que sim nem que não, nem se era samba ou jazz, gostava de Ary Barroso e Cole Porter e era adorado por todos. Mesmo nas mais ferozes polêmicas entre nativistas-sociais e parnaso-jazzistas, seu nome sempre pairava acima de qualquer dúvida ou suspeita e freqüentemente era até usado para acusar de traidores de sua música tanto uns como outros.

No final de 1962, no Beco das Garrafas só se falava em Carnegie Hall. Todo mundo ia para o show do Carnegie Hall, uma jogada do americano Sidney Fry, dono da gravadora Audio Fidelity, que queria marcar com um grande evento a chegada oficial da bossa nova aos Estados Unidos. Todo mundo no Beco dizia que ia tocar no Carnegie Hall. E muitos realmente foram e cantaram e tocaram, mas, quando ouvimos a fita com a gravação ansiosamente esperada, tirando João Gilberto, Tom Jobim e Sérgio Mendes, o mais era quase só nervosismo, amadorismo e tremedeiras.

João, Tom e Sérgio ficaram em Nova York. Disputados por gravadoras, assinaram contratos para discos, chamaram a atenção da imprensa especializada, encantaram os jazzistas. O resto do pessoal voltou para o Beco.

Nos Estados Unidos, os dois mestres e inventores, João e Tom, e o mais talentoso músico e bandleader a fundir samba e jazz, o niteroiense Sérgio, iniciavam carreira internacional, paparicados pelos grandes nomes do jazz como Stan Getz, Cannonball Adderley e Gerry Mulligan e pelos críticos mais influentes. A primeira vez que ouvi Stan Getz e Charlie Byrd tocando bossa nova, com todo o respeito, achei, achamos todos, que eles ainda teriam que comer muito feijão para chegar à síntese, à elegância e, sobretudo, ao suingue de Tom e João. Com o tempo, fui me acostumando e gostando. Afinal, apesar de o ritmo me soar meio ”quadrado”, pesadão, o fraseado e o timbre de Getz eram belíssimos, e as harmonizações de Byrd eram complexas e sofisticadas. O ritmo é que era o problema, parecia um violão meio gago, duro, não tinha aquela fluência e leveza do violão de João. Era duro ouvir, em outros discos, os primeiros bateristas americanos que tentavam fazer o suingue da bossa: era só aquele barulho de baqueia no aro da caixa, poc-poc, poc-poc. Mas também tivemos o orgulho de ver os cultuados Hilos,um dos grandes grupos vocais americanos, dedicando um disco inteiro à bossa nova. Mas para as novíssimas gerações não havia coisa mais velha do que a bossa nova. A expressão estava desmoralizada e os jovens músicos, que veneravam Tom e João com paixão xiita, não queriam mais fazer bossa nova: faziam ”samba moderno” ou então ”nova música brasileira”, ou simplesmente ”música popular brasileira”.

Uma noite no Bottle’s Bar ainda meio vazio, ouvi um mulato forte e bonito cantando e tocando um violão muito diferente. Não tinha nada de jazzístico, mas também não tinha nada de João Gilberto. Ele não dedilhava o violão, mas tocava-o vigorosamente com a mão inteira, rítmico e percussivo à maneira dos bluesmen. Mas o que ele tocava era indiscutivelmente samba. Mas um samba com uma batida muito diferente, talvez porque fosse um misto de maracatu, como dizia a letra e cantava Jorge Ben em ”Mas que nada”.

Fiquei impressionadíssimo, contei para toda a turma, cantei-lhes um pedaço da música e uma noite, no Juão Sebastião Bar, o templo da bossa em São Paulo, comentei entusiasmado com Carlos Lyra que tinha ouvido um tal de Jorge Ben, que estava fazendo uma mistura sensacional de samba com maracatu, mas ele não deu a menor bola. Se eu tivesse dito a verdade, que o que Jorge chamava de maracatu parecia rock, ele não teria acreditado. Nem eu.

Marcos Valle e Edu Lobo eram compositores de muito talento e tocavam violão muito bem, embora não tanto quanto Dory, um divertido baiano-carioca, que levava música a sério e era filho de Dorival Caymmi — o mestre de seu mestre, João Gilberto. Como João visitava Caymmi freqüentemente e cantava durante horas para ele, Dory desfrutou o privilégio de ver, ouvir e aprender com quem tinha inventado tudo. Tocava violão o dia inteiro e acompanhava a irmã Nana nos shows e nas festinhas com harmonizações moderníssimas para canções de Tom Jobim e de Caymmi. Nana era tão fã de João Gilberto que daria o nome dele a seu primeiro filho.

Os primeiros da turma a ter uma música gravada foram os irmãos Valle, Marcos e Paulo Sérgio, que emplacaram ”Sonho de Maria” no disco do Tamba Trio: uma bela melodia romântica com harmonizações sofisticadas, pura bossa nova jobiniana, com uma letra sobre o drama, o desespero e finalmente o suicídio de uma empregada doméstica:




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   29


©aneste.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
universidade federal
terapia intensiva
Excelentíssimo senhor
minas gerais
união acórdãos
Universidade estadual
prefeitura municipal
pregão presencial
reunião ordinária
educaçÃo universidade
público federal
outras providências
ensino superior
ensino fundamental
federal rural
Palavras chave
Colégio pedro
ministério público
senhor doutor
Dispõe sobre
Serviço público
Ministério público
língua portuguesa
Relatório técnico
conselho nacional
técnico científico
Concurso público
educaçÃo física
pregão eletrônico
consentimento informado
recursos humanos
ensino médio
concurso público
Curriculum vitae
Atividade física
sujeito passivo
ciências biológicas
científico período
Sociedade brasileira
desenvolvimento rural
catarina centro
física adaptada
Conselho nacional
espírito santo
direitos humanos
Memorial descritivo
conselho municipal
campina grande