Nelson Motta



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No Brasil da ditadura era impensável. Mas por isso mesmo era um de nossos sonhos mais queridos e constantes. Para a paranóia militar, juntar algumas dezenas de pessoas, principalmente jovens, em qualquer lugar e a qualquer pretexto era uma abertura à subversão/oportunidade de contestação/tentativa de conspiração. Para ! realizar um evento musical ao ar livre, era indispensável cumprir incontáveis exigências burocráticas, tirar licenças e alvarás do Estado, do Município, da Polícia, dos Bombeiros e da Censura Federal, que só autorizava o espetáculo depois de checar uma relação individual de todos os músicos que se apresentariam, com todos os seus documentos, todas as letras completas de todas as músicas que seriam apresentadas com as respectivas liberações.

No final de 1971, depois de enfrentar a via-crucis burocrática junto com Carlos Alberto Sion, fizemos o I Concerto Pirata no Estádio de Remo da Lagoa, reunindo 800 jovens numa noite de sábado para ouvir e dançar rock com bandas novas. Foi lindo: o palco iluminado parecia uma nave espacial brilhando na noite carioca, com a deslumbrante paisagem da Lagoa ao fundo. Esperávamos muito mais gente, muita gente não pagou entrada, o aluguel dos equipamentos de som e iluminação era caríssimo, não tínhamos qualquer patrocínio e comemoramos a vitória contabilizando um baita prejuízo.

Mas pelo menos vivemos uma fugaz sensação de liberdade, por algumas horas nos sentimos mais perto dos jovens do mundo.

Mas na segunda-feira tudo voltou ao normal na Aquarius Produções Artísticas, firma que abri em sociedade com André Midani e os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle, para produzir jingles, shows e eventos musicais. Contas a pagar, trabalhos a fazer, clientes a visitar. Embora produzíssemos muito, ganhávamos pouco: as agências só pagavam pelos jingles aprovados, e como tínhamos que pagar todas as despesas de músicos e estúdio, o prejuízo com um jingle recusado comia o lucro de dois aprovados: era um péssimo negócio. No fim do ano, uma boa notícia: Boni e Magaldi nos encomendaram uma música de Natal, a ser cantada por todo o elenco da TV Globo, como mensagem de boas-festas da emissora. Marcos criou uma melodia que achamos linda, parecia Burt Bacharach, e Paulo Sérgio e eu fizemos a letra de acordo com o briefing que eles nos deram. Boni e Magaldi adoraram a música e acharam que a letra não era lá grande coisa mas também funcionava, que expressava muito bem a mensagem de esperança e fraternidade que queriam passar. Aprovada a música, chamamos o MPB 4 e o Quarteto em Cy e gravamos com eles, dobrando e quadruplicando as vozes no estúdio, para produzir a massa vocal das 60 pessoas — o elenco estelar da TV Globo — que ”cantariam” na gravação no Teatro Fênix.

No dia da gravação, animadíssimo, levei uma ducha gelada: minha amiga Dina Sfat estava furiosa com a música que teria que ”cantar” e me chamou de lado para uma amistosa mas dura cobrança: como tínhamos feito aquilo? Era uma vergonha: aquela música servia aos objetivos da propaganda da ditadura, com a cumplicidade da TV Globo. Fiquei chocado: mesmo em minhas piores paranóias nunca imaginei nada parecido. Reconheci que a letra realmente passeava entre o sentimentalismo e um delirante otimismo, mas Dina reconheceu que seria muito difícil escapar desses clichês natalinos e concordamos que seria impossível fazer uma música de Natal de oposição. Depois, Dina e as estrelas da Globo — Tarcísio Meira e Glória Menezes, Francisco Cuoco, Marília Pêra, Regina Duarte, Cláudio Marzo, Leila Diniz, Chico Anísio, Cid Moreira, Paulo José, Lima Duarte, Paulo Gracindo e grande elenco — cantaram animadamente:

”Hoje é o novo dia de um novo tempo que começou...”

Veiculada maciçamente, a campanha da Globo foi um sucesso nacional fulminante e o nosso jingle se transformou na música mais tocada e cantada do fim de ano: em todas as festas, em todas as churrascarias, em todas as casas, em vez de ”Jingle Bells” cantava-se ”Um novo tempo” e eu não sabia se sentia orgulho ou vergonha.

”Hoje a festa é sua, ! hoje a festa é nossa, é de quem quiser, é de quem vier.”

Em janeiro de 1972, a Aquarius viveu seu melhor momento: acertamos com o empresário Guilherme Araújo em Londres e fomos os produtores dos shows que marcaram a volta de Gil e Caetano do exílio, no Teatro João Caetano e no Teatro Municipal, gravados ao vivo pela TV Globo. Eles chegaram discretamente e foram recebidos festivamente como heróis, vieram com seus novos discos gravados em Londres, suas músicas em inglês, seus cabelos imensos, suas novas bandas (a de Caetano liderada por Jards Macalé) e suas novas músicas. E até seu próprio equipamento de som, pilotado pelo inglês Maurice Hughes. Os shows foram triunfais, com Caetano dando ênfase a melodias elaboradas e a um intimismo gilbertiano e Gil apresentando arranjos vigorosos, cheios de jazz e funk, e lançando seu rock ”Back in Bahia” e a sensacional ”Expresso 2222”. No final, em vez de uma apoteose roqueira, como tantos esperavam deles, vindos de onde eles vinham, os dois surpreenderam cantando juntos um samba-de-roda do velho baiano Riachão, que soou como um comentário irônico, uma forma tropicalista de expressar suas novas posições, com um pé na tradição e outro no futuro.

”Xô, xuá, cada macaco no seu galho xô, xuá, eu não me canso de falar...”

E fecharam com um surpreendente e antigo sucesso das irmãs Aurora e Carmen Miranda, rebolando alegre e provocativamente no palco: ”Nós somos as cantoras do rádio levamos a vida a cantar de noite embalamos seu sono de manhã nós vamos te acordar...”

Na platéia, Cacá Diégues adorou, mas sentiu um frio na barriga: era exatamente a música que ele tinha pescado no fundo do baú para ser o tema principal, o gran finale do seu filme Quando o carnaval chegar, que começaria a rodar em poucos dias com Chico Buarque, Nara Leão, Maria Bethânia e Hugo Carvana nos papéis principais.

Às vésperas do carnaval, encontrei Marília Pêra num corredor da TV Globo, me apresentei, conversamos um pouquinho e convidei-a para ir passar o carnaval na Bahia comigo. Ela riu e disse que já tinha compromisso: era o destaque da escola de samba Imperatriz Leopoldinense que apresentaria o enredo ”Alô, alô, taí Carmen Miranda”, onde encarnaria a própria.

Fui sozinho para a Bahia, onde não fiquei sozinho um minuto, tomando cerveja com Caetano e Bethânia e seus irmãos na Praça Castro Alves, dançando atrás do trio elétrico, mergulhando nas águas verdes do Porto da Barra e acabando na praia de Arembepe, transformada em uma colônia hippie, para onde tinham se mudado temporariamente muitos amigos. Lá, vivendo em cabanas de pescadores, entre o mar azul e a lagoa verde, dentro de uma paisagem idílica e selvagem, jovens rebeldes fugidos da cidade viviam com simplicidade e liberdade, comendo frutas e peixe frito, tocando violão, namorando, fumando maconha, viajando de ácido e conversando, conversando muito, enquanto o tempo parecia não passar. Foi o ”verão do desbunde”, que para mim durou três dias: tinha filha para criar, tinha que trabalhar na Philips, na Aquarius e na TV Globo, onde apresentava um programinha de cinco minutos todos os dias, antes da novela das sete, com as novidades musicais nacionais e internacionais. Chamava-se ”Papo firme” e tinha como tema de abertura o ”Domingo no parque” de Gilberto Gil. Na Bahia, vi Marília na televisão, de Carmen Miranda, cantando e dançando com infinita graça à frente da escola de samba no Rio e levando-a a surpreendente vitória. Com 28 anos, loura platinada, olhos e boca enormes e um talento efervescente, ela era a atriz do momento, produtora e estrela do maior sucesso teatral do ano: a revista A vida escrachada de Joana Martini e Baby Stompanato, de Bráulio Pedroso, com músicas de Roberto e Erasmo. Foi quando a vi pela primeira vez, maravilhado, no Teatro Ipanema. Ao mesmo tempo, Marília estourou na televisão como a ”Shirley Sexy” da novela ”O cafona”, também de Bráulio, ao lado de Francisco Cuoco. Depois do carnaval, já de cabelos curtos e escuros, ela estava estreando no tradicional night club Night and Day, um musical sobre Carmen Miranda, A pequena notável, que fui correndo assistir. Fiquei completamente apaixonado.

Por Marília e pela Carmen que ela vivia. Fui cumprimentá-la no camarim, saímos para jantar, voltei na noite seguinte e na outra e na outra e em poucos dias estávamos namorando.

Marília era fã de Elis e me contou que as duas, muitos anos atrás, no início de suas carreiras, tinham disputado o mesmo pequeno papel na montagem carioca do musical americano Como vencer na vida sem fazer força. Embora no teste de canto Elis tivesse arrasado, nos testes de dança e interpretação Marília acabou ganhando o papel. Também me falou com alegria de uma participação especial que tinha feito recentemente no programa de Elis na TV Globo, onde protagonizaram duas vedetes de teatro de revista, com maiôs de paetês, plumas na cabeça, meias arrastão e saltos altíssimos. Com imensos cílios postiços e figurinos idênticos, as duas brincavam de rivais, uma atropelando a outra, disputando os espaços, dançando e cantando ”Sucesso aqui vou eu”, um divertidíssimo pastiche de canção da Broadway, criado por Rita Lee e Arnaldo Baptista para o fashion show ”Blow Up”, da Rhodia.

Fui com Marília à estréia do show de Elis no Teatro da Praia. Com a platéia invadida por uma multidão de convidados, sobrou só um lugar na primeira fila, onde me sentei feliz com Marília no meu colo e dali assistimos ao show e aplaudimos intensamente. No dia seguinte, recebi um telefonema do cabeleireiro Oldy, grande amigo de Elis, me dizendo que ela queria muito falar comigo, que queria conversar, esclarecer umas coisas. Apareceu de madrugada na casa dos meus pais, onde eu passava uns dias, se desculpou muito pelo rompimento abrupto e me disse que estava se separando definitivamente de Ronaldo. Mas nada era mais como antes.

Marília não era um desafio ou uma vingança, era uma escolha.

No outro dia, Marília foi surpreendida com um telefonema de Elis, seca e agressiva, fazendo perguntas e cobrando direitos sobre a minha modesta pessoa. Quando encontrei Marília à tarde, ela foi logo dizendo que estava tudo acabado, que não queria confusão com Elis, que me dispensava, abria mão, e me aconselhou a voltar para Elis imediatamente. Não voltei. Fiquei com Marília. No dia seguinte Elis ligou de novo, ainda mais agressiva, e as duas acabaram brigando. Elis virou um assunto tabu entre nós.

No Night and Day, todas as noites, Marília e sua irmã Sandra cantavam como Carmen e Aurora Miranda: ”Cantoras do rádio”.

”Canto para te ver mais contente pois a ventura dos outros é alegria da gente...” Entusiasmado com o sucesso de ”Apesar de você”, Chico mergulhou no trabalho e produziu uma série de músicas extraordinárias, com melodias densas e elaboradas e versos virtuosísticos. A matemática ”Construção”, a indignada ”Deus lhe pague” e a sufocante ”Cotidiano” deslumbraram a crítica e empolgaram o público. Eram canções políticas, líricas, épicas, tudo ao mesmo tempo, e mostravam que as dificuldades não o abatiam mas até o estimulavam. Chico vive seu melhor momento criativo e transforma-se, contra a vontade, num herói da resistência. Mas ainda é visto e ouvido e discutido como oposto a Caetano, a quem os admiradores de Chico acusam de individualismo internacionalizado, de fazer o jogo da direita. Já os fãs radicais de Caetano consideram Chico um tradicionalista e populista, um atraso para a revolução socialista libertária. Os dois se incomodam com as divisões, que consideram injustas e estúpidas.

A melhor maneira de acabar com as polêmicas foi a mais bonita, a que eles encontraram, sob o sol de verão na Bahia: um show dos dois no Teatro Castro Alves, para ser gravado e transformado no disco Chico e Caetano —juntos e ao vivo. Um cantando músicas do outro, os dois cantando juntos.

Show e disco tiveram extraordinário impacto e sucesso, o encontro foi uma das melhores notícias que o Brasil recebeu num ano de poucas boas, de escalada da luta armada e da repressão, da tortura e da intolerância. Para mim a questão do ”um ou outro”, por todos os motivos, artísticos, políticos e afetivos, nunca existiu. Sempre os considerei complementares e indispensáveis. O encontro histórico teve especial repercussão entre os fãs radicais de Chico e de Caetano nas esquerdas brasileiras, nos muitos grupos e tendências em que se dividiam. Juntos e ao vivo era, além de um extraordinário encontro de dois grandes artistas muito diferentes, uma metáfora de união e de tolerância, da harmonia por contraste.

Já com a TV Globo e especialmente com seu poderoso diretor de programação, a coisa estava feia: Chico e Boni freqüentavam, em mesas separadas, o Antonio’s, onde se reuniam os artistas e intelectuais, a intelligentzia carioca (e também alguma burritzia rica). Numa mesa podiam-se encontrar Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos contando histórias. Em outra, Otto Lara Rezende, Walter Clark e Nelson Rodrigues às gargalhadas com Hélio Pellegrino. Na varanda, o Chacrinha com algumas chacretes comemorando alguma coisa. No bar, Glauber Rocha discursando para Arnaldo Jabor e Caca Diégues e belas atrizes do Cinema Novo. Numa mesa de fundo, Paulo Francis e Millor Fernandes debatendo acaloradamente, talvez em inglês. E Tonia Carrero, Fernanda Montenegro, Marina Colasanti, mulheres inteligentes e bonitas em toda a área.

No Antonio’s misturavam-se esquerdistas de diversos matizes, governistas, liberais, até mesmo um ou outro militar reformado e certamente informantes do SNI. Freqüentemente os ânimos se exaltavam, mas raramente explodiam brigas, mesmo quando se bebia muito, o que acontecia quase sempre. As relações de Chico com a TV Globo tinham azedado de vez no festival do ano anterior, quando ele e um grupo de compositores famosos retiraram suas músicas em protesto contra a Censura e o festival foi um fracasso absoluto. Houve muito bate-boca, o pessoal da TV Globo ficou furioso e Chico passou a ser persona non grata, ou pior, não-existente: era proibido, em qualquer programa, sob qualquer pretexto, mencionar o seu nome, mesmo para falar mal. Cantar, nem pensar.

As hostilidades entre Chico e Boni explodiram quando o espanhol Manolo, dono da casa, encheu as paredes do Antonio’s com grandes retratos de freqüentadores ilustres, entre eles os próprios Boni e Chico. Os pôsteres faziam parte da nova decoração, projetada por Mário Monteiro, cenógrafo da TV Globo, e paga por Walter Clark, Boni e outros diretores globais.

Chico entrou no Antonio’s e levou um susto: detestou a nova decoração e ficou furioso com o pôster sorridente de Boni ao lado do seu. Indignado, arrancou o retrato da parede, entre gritos e aplausos.

Atrás do balcão, Manolo, uma doce criatura, entrava em pânico. Afinal, ele adorava o ”Seu Francisco”, um de seus clientes mais ilustres e festejados (o menu tinha até um ”frango à Chico Buarque”), mas também amava o ”Seu Boni”, que era tão generoso e entendia tanto de vinhos e de cozinha, e ainda por cima tinha dado de presente a nova decoração — que Manolo achava linda. No dia seguinte, quando Boni apareceu, o próprio Manolo, constrangidíssimo, lhe deu a infausta notícia. Que ele já sabia. Ao contrário das expectativas, Boni, conhecido por suas explosões de temperamento e memorandos devastadores, ficou cool. Mas tirou o pôster de Chico da parede.

Alguns dias depois, após inúmeras interferências de amigos comuns, Boni encerrou o assunto e mandou recolocar o pôster de Chico. Mas, mesmo se quisesse, Chico não poderia retribuir: em sua fúria, tinha arrancado o retrato de Boni da parede, levado para a calçada, pisoteado e depois, a caminho de casa, jogado na Lagoa.

No fim do verão de 1972, Elis se separou mesmo de Ronaldo, num divórcio tão previsível quanto tempestuoso. Desde que rompeu comigo, no dramático telefonema ao lado de Ronaldo na clínica, eu tinha automaticamente deixado de ser seu produtor. E por sorte, ou pela amizade de André Midani, escapei de ser despedido da Philips por mau comportamento, como gostariam Elis e Ronaldo.

Como não produzia mais as trilhas de novelas, sem Elis, minha carreira de produtor sofria rude golpe. Roberto Menescal voltou a produzir seus discos, agora com a direção musical e o piano de César Camargo Mariano e uma banda totalmente diferente, talvez melhor, com um grande repertório, que lançava ”Águas de março”, de Tom Jobim, o sucesso ”Casa no campo”, um ”rock rural” de Tavito e Zé Rodrix, e ”Nada será como antes”, de Milton e Ronaldo Bastos, a única música do ”nosso” tempo que sobreviveu à sua nova fase:

”Eu já estou com o pé nessa estrada qualquer dia a gente se vê . I sei que nada será como antes, amanhã...”

Um grande disco, mais equilibrado e sem aventuras, com um repertório de alto nível e uma Elis mais discreta e precisa. No disco inteiro ela se apresenta mais técnica e contida, mas em uma música explode de emoção como nunca e se derrama, chora e soluça as palavras de ”Atrás da porta”, uma de suas maiores performances em disco. Quando Elis conheceu a música, levada por Menescal, a melodia de Francis Hime tinha só a primeira parte da letra de Chico Buarque. Elis e César ficaram apaixonados pela música e a gravação foi marcada para dentro de três dias. Nesse meio tempo, Menescal e Francis tentariam dar uma pressão em Chico para terminar a letra. À noite, separada de Ronaldo, sozinha na casa branca da Niemeyer, Elis resolveu fazer uma sessão de cinema, convidando alguns amigos, entre eles César, para ver Morangos silvestres, de Bergman, um clássico-cabeça da época. Mal o filme começou, César recebeu um bilhete de Elis, foi ao banheiro ler e se espantou: era um ”torpedo” amoroso. Atônito, César leu e releu, acreditou e sumiu: completamente fascinado por Elis, era tudo o que secretamente desejava. E temia. Então sumiu. Não foi encontrado nos dois dias seguintes em lugar nenhum, os amigos se preocuparam. Mas no dia e hora da gravação, duas da tarde, César estava no estúdio, Menescal se sentiu aliviado e Elis sorriu sedutora. César dispensou os músicos, pediu para todo mundo sair, para colocarem o piano no meio do estúdio, baixarem as luzes e deixarem só ele e Elis, para a gravação do piano e da voz-guia de ”Atrás da porta”.

Extravasando seus sentimentos, misturando as dores da separação com as esperanças de um novo amor, Elis cantou, mesmo sem a segunda parte da letra, com extraordinária emoção, com a voz tremendo e intensa musicalidade. Na técnica, quando ela terminou, estavam todos mudos. Elis chorava abraçada por César. Juntos, César e Menescal foram levar a fita para Chico, que ouviu, chorou, e terminou a letra ali mesmo, no ato.

”Dei pra maldizer o nosso lar, pra sujar teu nome, te humilhar e me vingar a qualquer preço te adorando pelo avesso pra mostrar que ainda sou tua...”

Assim, Elis Regina cantou a versão definitiva de uma das mais poderosas e dilacerantes letras de amor e ódio da música brasileira, produziu uma gravação antológica e emocionou o Brasil com sua arte. E ganhou um novo namorado, com quem esperava crescer na música e na vida. Na TV Globo, além de ser um dos repórteres do telejornal ”Hoje”, cobrindo a área de arte e cultura, passei a ser o primeiro VJ da televisão brasileira, apresentando o ”Sábado som”, onde foram vistos pela primeira vez grupos como o Pink Floyd e o Black Sabbath. Não eram videoclips, mas filmagens de concertos americanos e ingleses que eu implorava que Boni comprasse, selecionava os números e comentava os grupos. Antes, na televisão, não havia nada de rock internacional e o ”Sábado som” se tornou um must entre adolescentes como Renato Russo, Cazuza e Lulu Santos, que não perdiam um. No fim do ano, quando saí de férias, pedi a um querido amigo e colega na TV Globo (e que conhecia muito mais rock do que eu) para me substituir no ”Sábado som”: Big Boy, o maior disc-jockey da história do rádio brasileiro, que já apresentava música internacional no telejornal ”Hoje”.

Tímido e tenso, gorducho e sorridente, Newton Duarte se transformava diante do microfone: sua voz metálica metralhava palavras em ritmo vertiginoso e espantosa precisão, criava gírias e novas expressões, apresentava aos jovens cariocas as últimas novidades do rock internacional, em discos contrabandeados por comissários amigos. Coadjuvado por ”Doktor Sylvana”, seu técnico de som e criador de sensacionais efeitos sonoros, Big Boy explodia os rádios nas tardes cariocas, era o maior sucesso da cidade. Embora tecnicamente careta na vida real, Big Boy falava tantas loucuras e num ritmo tão alucinante que era ouvido como o doidão de todos os doidões. No início ele ainda viveu uma vida dupla: de manhã era o sisudo e tímido professor Newton, que ensinava Geografia no Colégio de Aplicação da Lagoa, e à tarde se transformava no enlouquecido Big Boy no microfone da Rádio Mundial.

Uma manhã, o professor Newton entrou na sala, de paletó e gravata, e, como sempre, com uma pesadíssima pasta, que jamais abria. Entre os alunos crescia a curiosidade por seu volumoso conteúdo, e alguns deles, ouvintes e fãs de Big Boy, já começavam a notar estranhas semelhanças entre a voz e o jeito rápido de falar, o ritmo, a dicção perfeita do mestre chatíssimo e do querido DJ.

Até que naquela manhã, no meio de uma dissertação tediosa sobre a Bacia Amazônica, o professor Newton parou de repente e começou a falar como Big Boy, com seu grito de guerra ”Hello, crazy people!”, e seguiu falando como Big Boy, no seu ritmo, com as suas gírias, os alunos deliravam, jogavam livros e cadernos para o alto, gritavam ”É Big Boy! É Big Boy! É Big Boy!”.

Arrancando a gravata e tirando o paletó, o professor Newton abriu sua famosa pasta e começou a jogar discos, discos e mais discos para os alunos, ”Discos para todos!”, gritava e gargalhava histericamente, falando vertiginosamente uma torrente de loucuras e proclamando que sua verdadeira identidade era Big Boy e que o professor Newton estava morto. A porta se abriu e ele foi interrompido pelo diretor furioso, pediu demissão no ato e saiu ovacionado pelos alunos.

Big Boy teve breve e fulgurante carreira, se transformou em uma legenda do rádio, fez inúmeros amigos, influenciou milhares de pessoas e morreu com 33 anos, sozinho em um quarto de hotel em São Paulo, sufocado por um ataque de asma. ”Fala, amizade!” era a saudação obrigatória dos hippies brasileiros. Era preciso muita vontade e alguma coragem para ser hippie numa ditadura militar boçal e truculenta. Visados pela polícia, muitos foram confundidos com militantes da resistência armada, presos e torturados por engano.

Duro também era agüentar a concorrência dos hippies argentinos, também fugindo da repressão deles, que chegavam aos milhares. Na praia, nas ruas de Ipanema, na porta de qualquer show eles estavam lá, numa boa, pedindo:

”Tiene um crucero aí, amissádgi? Un cigarillo?”

O verão de 1972 foi o apogeu do desbunde brasileiro. Massacrados pela repressão política e pelo autoritarismo violento, os jovens, muitos deles sem apetite para a luta armada, optaram pelo rompimento total com a sociedade. Viraram hippies pacifistas radicais e caíram de boca no ácido e na maconha, viviam em comunidades, faziam música e artesanato, comiam macrobiótica e tentavam abolir o dinheiro, o casamento, a família, o Congresso, as forças armadas, a polícia e os bandidos, tudo de uma vez só e numa boa. Muitos encontraram a felicidade, ainda que fugaz, vivendo com amigos numa ”nova família”, convivendo e se divertindo como irmãos.

Os mais famosos e talentosos hippies do Rio de Janeiro, os mais radicais e divertidos, eram os Novos Baianos. Conheci Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão no Rio, um ano antes, quando eles me fizeram uma visita para me mostrar ao vivo as suas músicas, na esperança de um contrato com a Philips, onde eu era produtor. As músicas eram sensacionais, eles cantavam e tocavam com grande alegria, e havia ainda Baby Consuelo, uma divertidíssima crooner roqueira, e dois soberbos instrumentistas ainda adolescentes, os irmãos Pepeu e Jorginho Gomes, guitarrista e baterista dos Leifs — que tinham acompanhado Gil e Caetano no i show de despedida do Brasil.

Fiquei doido com o som deles, com as letras muito loucas de Galvão, com o bom humor e a rebeldia, com o suingue e a malandragem, levei uma fita para a reunião da Philips, todo mundo gostou, mas quando os chamei para assinar um contrato, eles já tinham assinado com João Araújo, diretor da RGE, onde fizeram seu primeiro disco.




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