Nelson Motta



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Os tropicalistas adoravam Jorge Ben, que tinha sido banido da MPB por tocar guitarra e cantar na ”Jovem guarda”, porque ele fazia o que eles queriam fazer, em termos de ritmo, de síntese, de liberdade. E mais: valorizaram as letras de Jorge, desprezadas como pueris e primitivas pela MPB universitária e literária, mas celebradas pelos baianos pela sonoridade de suas palavras, pelo ritmo de suas sílabas e rimas, pela liberdade e originalidade de suas abordagens do cotidiano. As letras de Jorge não eram literárias, eram musicais. Suas palavras eram puro som, diziam o que soavam.

Sua música ia além do samba e do rock. Nada mais tropicalista. Depois do AI-5 a minha coluna acabou e Samuel me propôs fazer uma página por semana, com muitas fotos e ilustrações. E textos mais leves, mais internacionais. Porque a coisa estava feia.

Prometendo a Samuel uma série de reportagens sobre a explosão da juventude americana, voei para Nova York. Assim que cheguei telefonei para Sérgio Mendes na Califórnia e ele me convidou para acompanhar sua turnê pelos Estados Unidos com o Brazil 66. Me mandou uma passagem de avião de primeira classe, para ir encontrá-los em El Paso, no Texas, de onde seguiria com eles por mais dez cidades, a bordo de um avião fretado.

Do frio de final de outono em Nova York cheguei eufórico à canícula texana e fui recebido no aeroporto por Sérgio e Flávio Ramos, ex-dono do Au Bon Gourmet no Rio e que se tornara seu secretário nos Estados Unidos. Sérgio era um big sucesso, vendia milhões de discos, tocava no rádio, aparecia na televisão, dava entrevistas nos jornais, se apresentava em ginásios abarrotados.

Mesmo sabendo de tudo isto, levei um susto à noite, quando entrei num enorme ginásio superlotado de jovens para ouvir Sérgio Mendes e o Brazil 66. Como abertura apresentava-se o Bossa Rio, produzido e empresariado por Sérgio, com músicos brasileiros e Pery Ribeiro e Gracinha Leporace nos vocais, cantando em português e em inglês. Depois, um comediante americano sem graça, que contava 15 minutos de piadas antes do show principal. O público vibrava com os hits de Sérgio, com o charme e as vozes de suas cantoras, entendia aquela linguagem musical que parecia ao mesmo tempo exótica e familiar, popular e sofisticada, jazzística e tropical. Ao final, uma standing ovation de 15 mil jovens texanos, fascinados com a alegria, a fluência e o ritmo do niteroiense Sérgio e seu pessoal, grandes músicos como o baterista Dom Um Romão, o baixista Tião Neto e o percussionista Rubens Bassini, alvo de inveja geral porque namorava Karen, a louraça.

Na manhã seguinte, partimos para Amarillo, a duas horas de vôo mas ainda no Texas, a bordo do Viscount de 60 lugares fretado para a turnê triunfal. No avião, igual aos que faziam a ponte aérea Rio-São Paulo e apelidado por Sérgio de ”Rodolfo”, viajavam o Brazil 66, o Bossa Rio, o comediante americano, o pessoal da produção o convidado. Uma festa nos ares. Com tanto sucesso e conforto, o bom humor era geral, mesmo de manhã. Sérgio divertia-se com os nomes esquisitos das cidades americanas — como Tampa, na Flórida, ou Mesa, na Califórnia — e inventava outros, pronunciados com sotaque radiofônico americano, como ”Pentello, Texas”, ou ”Cancro, Arizona”, às gargalhadas.

O percussionista Laudir de Oliveira, que tinha se formado nos tambores do candomblé da periferia carioca, se maravilhava com as possibilidades das múltiplas encruzilhadas de Los Angeles e garantia que um ebó bem-feito, com um cabritinho em cada uma daquelas cinco ou seis pistas sobrepostas, era tiro e queda:

”... dá pra derrubar até o Nixon”, concluía ele premonitoriamente.

Em Amarillo, a mesma coisa, ginásio abarrotado, show espetacular, palmas e gritos. Com uma diferença: no final do show, ainda que aplaudindo entusiasticamente, o público continuava sentado.

Em frente ao piano, Sérgio agradecia os aplausos e, de braços abertos, se curvava e dizia sorridente para o público:

”Levanta, putada! Levanta, putada!”

Até que eles levantaram. No dia seguinte, voamos para Sacramento, capital da Califórnia, para grande show no ginásio da universidade. À noite, antes do show, passeando pela platéia com alguns músicos, encontramos na primeira fila uma fã ardorosa, que tinha os discos, que esteve em outros shows, que era simpaticíssima, louca por música brasileira. E linda, uma gata californiana morena, que imediatamente acendeu a cobiça dos rapazes e deflagrou intensa disputa por suas atenções.

Simpática com todos, cheia de amor pra dar, ela estava maravilhada por conhecer brasileiros, que faziam aquela música maravilhosa, e os brasileiros loucos porela. Mas infelizmente para alguns, o dever os chamava ao palco.

Quando o show começou, sem concorrência e sentado ao lado da gata na primeira fila, pude explicar-lhe detalhadamente cada grupo, cada música, as peculiaridades e simpatias da alma brasileira, o caráter alegre e festivo, e até mesmo sensual, de nossa gente, a qualidade e variedade de nossa música, de nossa fauna e flora, e no final do show estávamos íntimos. Levei-a aos camarins, apresentei-a a Sérgio e a todo mundo e saí triunfante com a morenaça, sob intensa vaia dos vários pretendentes frustrados.

Na manhã seguinte, quando cheguei, encontrei o pessoal tomando breakfast no hotel e ouvi de novo acusações de golpe baixo e a renovação de pragas rogadas na noite anterior. Subi para o quarto feliz, pensando na noite passada na casa da moça, mas já me sentindo meio culpado: ela era casada, o marido estava no Vietnam.

Dois dias depois, já em Los Angeles, onde passaríamos três dias antes de seguir para Seattle, quando fui fazer pipi de manhã, não consegui. Senti uma dor fortíssima, uma ardência terrível, um entumescimento, não havia dúvida: blenorragia. Telefonei para Sérgio, que riu muito de minha desgraça, me indicou um médico e disse que Flávio me acompanharia. E certamente começou a telefonar para o pessoal para contar a novidade.

O médico me obrigou a telefonar para a moça em Sacramento comunicando a infausta ocorrência e enquanto eu sofria tomando uma injeção de uma dose cavalar de penicilina, Flávio ria e eu pensava como ia encarar a turma: à noite Sérgio me oferecia um jantar no Martoni, em Sunset Boulevard, comemorando meus 24 anos.

Grande sucesso popular nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, Sérgio Mendes voltou ao Brasil triunfante, para colher seus louros entre os patrícios. Não mais no Teatro Municipal, mas no Maracanãzinho, em um grande espetáculo promovido pela Shell e transmitido ao vivo pela TV Globo, o pontapé inicial da sua megacampanha promocional como patrocinadora da transmissão dos jogos da Seleção Brasileira na próxima Copa do Mundo.

Há um ano a Shell já vinha investindo maciçamente na associação de sua imagem à simpatia e popularidade de Wilson Simonal, em diversos shows, eventos, promoções, comerciais e programas de TV e agora, a um ano da Copa no México, dobrava a parada e apostava tudo em seu contratado.

E Simonal não decepcionou: muito pelo contrário, no Maracanãzinho, onde era esperado que somente fizesse as honras da casa e um showzinho de aquecimento da platéia para Sérgio Mendes, esquentou tanto o público que criou um imenso problema: não podia sair do palco. Depois de uma histórica performance, a maior de sua vida, Simonal tinha levado 20 mil pessoas ao delírio, cantando com ele, obedecendo alegremente a todos os seus comandos, se comportando como disciplinados coros de colégio, rindo de suas piadas, exigindo furiosamente que ele continuasse, continuasse sempre, mais-um! mais-um!

mais-um!, Simonal não conseguia (nem podia, nem queria) sair do palco, Sérgio Mendes cada vez mais nervoso nos bastidores. Naquelas alturas, na histeria em que estava, o público nem se lembrava mais de Sérgio: queria cantar com Simonal, queria ser regido por Simonal. Nos bastidores, os patrocinadores comemoravam.

Simonal era mesmo o ”algo mais”, o tema da campanha da Shell.

Depois de voltar à cena diversas vezes, finalmente Simonal não agüentou e desabou no camarim, com uma crise de choro, taquicardia e falta de ar, começou a gritar por sua mãe e desmaiou.

Enquanto corriam em busca de um médico, Sérgio Mendes entrava no palco com sua força máxima, seus músicos fabulosos, suas gatas com roupas ainda mais sexy, seu som internacional, seus hits planetários.

Mas o público gritava furiosamente por Simonal! Simonal!

Simonal!

Quando Sérgio tocava a sua versão de ”Sá Marina” com Lani e Karen cantando em português, na segunda parte, de surpresa, Simonal voltou à cena, cantando com elas e provocando uma das maiores ovações da história do ginásio. Não havia dúvida: Simonal era o Sérgio Mendes brasileiro. Reencontrei numa festa aquele francês simpático de cabelos cacheados que freqüentava as reuniões de bossa nova na casa de meus pais. André Midani tinha passado cinco anos no México dirigindo a gravadora Capitol e estava de volta ao Brasil, agora como presidente da Philips. Estava surpreso — e entusiasmado com a potência e vitalidade da música brasileira, com o tropicalismo, queria conhecer as novas gerações de cantores e compositores, queria criar estrelas.

Fui almoçar com ele no Museu de Arte Moderna. André queria se informar sobre o panorama atual da música e da cultura brasileira, sobre pessoas e nomes, sobre novas idéias e movimentos.

Conversamos umas três horas sobre tudo, sobre a efervescência do momento, sobre música e política, arte e comportamento. Recém-chegado, André testemunhou eletrizado todo o drama de ”É proibido proibir” e apoiou seus artistas Gil e Caetano. E foi além: lançou em disco o histórico e furioso discurso de Caetano aos estudantes.

André estava chegando ao Brasil em plena fervura. E era isso que mais o entusiasmava. No fim do almoço, ele me convidou para ser produtor da Philips, a gravadora de Gil e Caetano, de Elis e Jair, de Edu e Nara, de Chico e Bethânia, de Gal e Os Mutantes.

Em boa hora. Depois de três meses penosos, a página semanal na Última Hora tinha acabado.

Samuel estava assustado. Eu mais ainda. O arrocho político se somou a uma crise econômica, mais uma, do jornal, que entrou em parafuso, com os anunciantes sumindo, salários atrasados e Samuel procurando desesperadamente por compradores, enquanto havia o que vender.

André me convidou para fazer uma coisa que eu nunca tinha feito, que conhecia de longe, do outro lado do balcão, como crítico e jornalista, como compositor: produzir discos. Criar com o artista um conceito para o trabalho, escolher com ele um repertório, músicos, discutir arranjos e ritmos, dirigir as gravações, supervisionar a capa, ajudar no marketing e na promoção, na imagem do artista.

Eu estava pronto para começar. Minha primeira produção seria o disco da jovem cantora e compositora Joyce, bonita e talentosa, que conheci na cobertura do ”Véio”. Além de seus jovens amigos, discípulos e colaboradores, Samuel, que estava divorciado de Danuza Leão, apreciava a companhia de mulheres bonitas de várias gerações, que encantava e seduzia com seu charme e cavalheirismo. Uma noite na Sucata, nós dois, sentados numa mesa de pista, nos encantamos por uma jovem socialite que dançava sedutoramente à nossa frente. Enquanto ela dançava e sorríamos abundantemente e ela retribuía, Samuel me cochichou que a disputa pela jovem seria como uma metafórica luta de boxe em que um dos lutadores só sabe ganhar por nocaute, eu, e o outro só consegue ganhar por pontos, ele, o veterano ”Raposa Prateada”, como o chamávamos entre nós. Vários rounds e drinques e charmes depois a disputa terminou empatada: a moça foi para casa sozinha.

Na casa de Samuel, dias depois, conheci outra jovem amiga dele e fiquei fascinado com a beleza de seu rosto anguloso, seu corpo forte, sua voz grave e rouca e seu riso luminoso. Mônica Silveira era uma moça da sociedade carioca, educada na Suíça, personagem das colunas sociais, quatro anos mais velha do que eu. Fiquei louco.

Mas antes de enlouquecer completamente, procurei descobrir se havia alguma coisa entre ela e Samuel, porque o clima, pelo menos da parte dele, era meio dúbio. Ela me disse que eram amigos, que tinham saído juntos algumas vezes. Samuel, apesar de todo o seu espírito liberal, não parecia estar gostando muito dos nossos papos e risos na varanda. Convidei Mônica para ir comigo no dia seguinte visitar Sérgio Mendes, que tinha alugado uma cobertura na Vieira Souto e fazia um almoço com música para os amigos. Nocaute: dois dias depois estávamos namorando e seis meses depois casando.

Ronaldo e Elis foram meus padrinhos e na véspera nos ofereceram uma festança na sua casa suingue, em black tie. No casamento, na capela da Reitoria da Universidade do Brasil, Dom Hélder Câmara, amigo de meus pais, foi o celebrante. A igreja abarrotada suspirou quando a música começou: acompanhada por um quarteto de cordas regido por Luiz Eça, Joyce solfejou a ”Aria para a quarta corda”, de Bach, e em seguida Elis cantou, sem microfone e sem letra, ”O cantador”. Não foi só minha mãe que chorou.

Na festa, no apartamento de meus pais, na hora de cortar o bolo, todo mundo em volta da mesa começou a pedir em coro a Vinícius para dizer alguma coisa, ele que era especialista. Em casamentos e em dizer coisas. O poeta, já de ”pé queimado”, ria e se fingia de difícil.

”Fala! Fala! Fala!”, pediam os noivos, pedia a festa. Vinícius levantou a taça e falou, com voz poética:

”Que não seja imortal, posto que é chama... mas que seja infinito...”, fez uma pausa dramática e completou,”... enquanto duro!” As gargalhadas explodiram e tocou-se e cantou-se e comeu-se e bebeu-se até o dia clarear.

No dia seguinte, partimos para Lisboa, onde encontramos Caetano, Gil e Guilherme Araújo, que passavam uma temporada na cidade a caminho do exílio em Londres. Eles ficaram dois meses presos no Rio e depois de breve liberdade condicional na Bahia e de um apoteótico show de despedida no Teatro Castro Alves, foram mandados embora: seriam presos se voltassem. Era a primeira vez que os encontrava, desde o show na Sucata. Gil me pareceu muito bem, mais leve, alegre e animado. Caetano nem tanto, parecia mais tristonho, meio murcho. Guilherme animadíssimo, chamando todo mundo de ”meu querido” e fazendo pianos. Era divertido ver a reação dos portugueses, em plenas trevas salazaristas, diante das calças estampadas de Caetano descendo o Bairro Alto:

”Florzinha! Florzinha!”, gritavam os gajos. E Caetano ria. De Lisboa fomos de avião para o Marrocos, de Rabat cruzamos o deserto à noite num apavorante ônibus cheio de árabes até Tanger, onde atravessamos de barco para a Espanha; de lá fomos para Paris e depois Londres, onde reencontramos Gil e Caetano já instalados com Sandra e Dedé em Chelsea. E também Hélio Oiticica, que tinha acabado de fazer uma mostra de suas instalações na Whitechapell Gallery com extraordinária repercussão crítica. Uma noite Caetano me falou horas seguidas, com grande admiração e emoção, sobre um dos seus personagens favoritos: Jorge Ben. Mônica e eu desembarcamos no Brasil vestidos exatamente iguais, com idênticos conjuntos de calça e camisa e jaqueta, provocando olhares, espantos e risos: a moda unissex estava começando. ; A explosão de sons e cores da ”suingueing London” era uma revolução de jovens, de novas roupas e atitudes, de uma nova política de mais liberdade e independência, afrontando cada vez mais as regras do establishment. E o Brasil cada vez mais fechado e sufocante.

Como tinha vivido e trabalhado no México, terra dos boleros e das novelas, André Midani viu na popularidade das novelas da TV Globo uma ótima oportunidade para aplicar um bem-sucedido projeto mexicano: discos com as suas trilhas sonoras.

Até então na TV Globo as novelas eram sonorizadas com gravações já existentes, geralmente trilhas de filmes americanos, quase sempre instrumentais, com uma ou outra música cantada. A idéia de André era produzir trilhas criadas especialmente para as novelas, pelos melhores compositores, gravadas pelos cantores mais populares, que eram quase todos do elenco da Philips. A Philips pagaria todos os custos e daria à TV Globo uma participação nas vendas. Foi a proposta que levei a Boni e Walter Clark, depois de vender a idéia para Daniel Filho, diretor das novelas, que era meu amigo, adorava música e ficou entusiasmadíssimo com o projeto.

André foi lá e fechou o contrato: era um ótimo negócio para todo mundo, embora, diz a lenda, os royalties da TV Globo fossem de apenas 3% das vendas.

De todos na Globo, Daniel Filho, como diretor das novelas, era o mais empolgado com o projeto.

Grande fã de cinema americano, alucinado por musicais, Daniel conhecia muitas trilhas sonoras e sabia da importância que as músicas poderiam ter para enfeitar e modernizar as suas novelas. ”Véu de noiva”, escrita por Janete Clair, quebrava o modelo novelão de época, com sheiks, toureiros e ciganos, que tinha predominado no reinado da cubana Glória Magadan, desde o sucesso de ”O direito de nascer”. Nomeado por Boni, Daniel tinha tomado o lugar da cubana e queria modernizar as novelas da Globo. Não que fosse muito diferente nos personagens, situações e conflitos clássicos das novelas anteriores, mas ”Véu de noiva”, com Regina Duarte e Cláudio Marzo nos papéis principais, era passada em tempo atual, com personagens contemporâneos: ele protagonizava um piloto de Fórmula 1, no vácuo do campeonato mundial de Emerson Fittipaldi. Conversei muito com Daniel sobre a história, ele me deu um briefing dos personagens, falava que tipo de música imaginava para eles, citava exemplos americanos, falava dos pares românticos, dos ”temas de amor” indispensáveis. Me pendurei no telefone encomendando músicas, ouvindo dezenas de fitas, explicando para os compositores que tipo de música precisava, orientando as letras de acordo com o perfil dos personagens, escolhendo intérpretes, gravando no estúdio, produzindo uma trilha sonora de verdade.

Encomendei aos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle, que eram dinâmicos e esportivos, um tema de abertura sobre imagens vertiginosas de corridas de Fórmula 1. Era só instrumental, com um grande arranjo de orquestra, e Daniel delirou: parecia um filme!

Depois fiquei sabendo que Vinícius e Chico tinham feito uma letra para uma velha canção do violonista Garoto e que Ângela Maria tinha gravado. Uma das minhas promessas era que todas as músicas seriam inéditas. E ”Gente humilde” ainda não tinha saído. Daniel adorou, era romântica e sentimental, ideal para ser fundo sonoro de todas as ações do ”núcleo pobre” da novela. Para os jovens e ricos, para o par romântico, Antônio Adolfo e Tibério Gaspar produziram ”Teletema”, inspirada no tema do filme Um homem e uma mulher, de Francis Lai.

Precisávamos também de uma bela música para o personagem ”Lúcia”, de Betty Faria, e estava difícil. Foi quando ouvi na Philips a recém-chegada gravação que Caetano tinha feito de ”Irene” na Bahia, antes de partir para o exílio. Era sofrida e lindíssima, só com Gil acompanhando no violão, gravada num estudiozinho baiano.

Depois Rogério Duprat colocou baixo, bateria e pequenas intervenções de orquestra em São Paulo.

A música era tão boa que não foi difícil convencer Daniel a ligar para Janete Clair e pedir que ela trocasse o nome do personagem de Betty para ”Irene”.

”Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui, eu não tenho nada, nada, quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada.”

Janete topou e a música virou um sucesso. Outras músicas da trilha, como ”Gente humilde”, também. ”Teletema” foi um dos maiores hits do ano. O disco de ”Véu de noiva” vendeu mais de 100 mil cópias em poucos meses, lançou um novo produto, abriu uma poderosa frente de exposição para a música brasileira. Todo mundo queria fazer e cantar músicas para a novela.

Além da qualidade das músicas, o importante era a integração dos temas com os personagens, em diversas versões diferentes da música (triste, alegre, tensa), conforme as situações. Muito do sucesso da trilha e da novela deve-se à utilização intensa que Daniel fazia das músicas como recurso dramático, para ilustrar sonhos e memórias, para sugerir situações, para fazer clima, para encher lingüiça, para fazer o povo rir e chorar.

E para vender discos, acrescentaria André. Não só as músicas tocavam abundantemente na novela como a TV Globo, como parte do contrato, ainda veiculava maciçamente comerciais do Lp, que foi um dos mais vendidos do ano e abriu um novo caminho: para o disco e para as novelas. E para a TV Globo. Depois do sucesso das trilhas de ”Verão vermelho” (com abertura cantada por Elis Regina), ”Irmãos coragem”, ”Pigmalião 70” e ”Assim na terra como no céu”, terminado o contrato de um ano com a Philips, a TV Globo fez as contas e teve uma idéia: sua própria gravadora.

Boni me deu a notícia e determinou que eu continuaria produzindo as trilhas das novelas, só que agora para a Som Livre. Criei coragem, agradeci e expliquei que tinha um contrato com a Philips, que devia lealdade a André e que não poderia aceitar. Claro que ele não gostou. Como eu também era contratado da TV Globo e também lhe devia lealdade, esperei que ele berrasse uma de suas frases favoritas:

”Tá na rua, seu merda!”

Mas ele respeitou minha decisão. E procurou outro produtor.

O problema da Som Livre era que ela não tinha artistas: todos eram contratados das outras gravadoras, a maioria absoluta da Philips, e ninguém emprestava ninguém. Teria que inventar intérpretes para as músicas que os mesmos compositores que vinham fazendo as trilhas comporiam. Mas além das músicas e do marketing, uma das forças das trilhas era a qualidade e popularidade dos intérpretes, o primeiríssimo time da MPB. E isto só a Philips tinha. Mas talvez a minha principal razão para não sair da Philips e ir para a Som Livre fosse Elis Regina.

Depois do sucesso dos discos de novela, André sugeriu, Elis gostou e Ronaldo aprovou: eu seria o seu novo produtor.

O que mais poderia sonhar um produtor com menos de um ano de estrada? Ia trabalhar com a melhor, a maior, a minha mais querida voz. A era dos festivais começou a acabar melancolicamente em 1969, com a vitória da valsinha ”Cantiga por Luciana”, de Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, no Rio de Janeiro, e da sufocante ”Sinal fechado”, de Paulinho da Viola, em São Paulo, onde as guitarras elétricas foram proibidas. Não havia mais vontade de competir, havia muito medo e uma censura implacável. Depois de tudo que tinha acontecido, tão intensamente, o público também tinha se cansado e a fórmula estava se esgotando. Caetano e Gil estavam em Londres, Chico em Roma, Vandré no Chile, Edu e Francis em Los Angeles, Tom e João em Nova York.

Uma das poucas músicas interessantes dos últimos festivais foi ”Charles anjo 45”, de Jorge Ben, onde ele desenvolvia um estilo de canto falado, ou de fala cantada, ainda mais radical e balançado, com uma letra sonora e polêmica sobre um ”Robin Hood dos morros”, que antecipava o reinado dos traficantes nas favelas cariocas. A música foi inscrita no festival pela Philips, sua gravadora, sem que Jorge soubesse. Gravada por Caetano numa fita, foi enviada à comissão de seleção e surpreendentemente liberada pela Censura. Cantada no festival por Jorge e vaiada pelo público, depois foi lançada na versão original de Caetano, com um arranjo de cordas de Rogério Duprat, e tornou-se um sucesso, mantendo seu nome vivo e forte no Brasil.

”Oba oba oba Charles, ; como é que é my friend Charles, Charles, anjo 45, protetor dos fracos e dos oprimidos, Robin Hood do morro, rei da malandragem...”

Elis participou — pelo segundo ano seguido — do festival do MIDEM, em Cannes, a grande vitrine européia do disco, onde eram fechados os contratos de distribuição internacional e as turnês européias. Cantou três músicas de Edu Lobo — ”Corrida de jangada”, ”Memórias de Marta Sare” e ”Casa Forte” — e pôs o auditório abaixo. Foi recebida como uma grande estrela: no ano anterior ela tinha realizado a façanha de duas temporadas de sucesso no Olympia de Paris, um templo do show business internacional. Pouco depois voltou a Londres, onde gravou em dois dias, direto com a orquestra, cantando ao vivo, um Lp com arranjos do maestro inglês Peter Knight. Seis músicas em português e seis em inglês, entre elas versões de músicas de Tom Jobim, Edu Lobo e Roberto Menescal. Sem falar inglês, Elis tinha um ouvido tão apurado que lhe permitiu cantar ”Watch What Happens”, de Michel Legrand, e ”A Time for Love”, de Johnny Mandei, com um levíssimo sotaque que acrescenta charme à sua dicção perfeita e sua intensa musicalidade. Antes já tinha gravado em francês impecável, que também não falava, outra música de Legrand, ”Récit de Cassard”, de ”Les Parapluies de Cherbourg”, e uma versão francesa de ”Noite dos mascarados”, em dueto com Pierre Barouh. Um mês depois do disco inglês, gravou um Lp na Suécia com o gaitista — e jazzista respeitado internacionalmente — Toots Thielemans. Mas nenhum dos discos foi lançado no Brasil.




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