Muitos professores e tutores cometam que não gostam de realizar chats educativos



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O uso do Chat em EaD: uma proposta metodológica
Eduardo S. Junqueira

Instituto UFC Virtual

1 Introdução
Parece haver uma forte concordância entre os pesquisadores da área: a autonomia (do aluno) e o diálogo (entre alunos e professores) são pilares fundamentais de boas práticas em Educação a Distância (EaD). Pretti (1996), citando Pineau, diz que autonomia “significa a capacidade que o sujeito tem de ‘tomar para si’ sua própria formação, seus objetivos e fins; isto é, tornar-se sujeito e objeto de formação para si mesmo” (p. 6). O diálogo parece tornar-se produtivo em EaD ao constituir-se em linha com as formulações da Teoria da Ação Comunicativa de Habermas (1987, 1987a). O autor propõe que essa competência comunicativa forma-se no evento do agir comunicativo mediado simbolicamente, o que estabelece e preserva sentidos, ou seja, confere significação aos atos dos alunos. Tal agir se orienta por normas estabelecidas, que definem expectativas recíprocas (entre o aluno e o professor) quanto aos modos de intercâmbio, que devem ser compreendidos e reconhecidos pelos participantes.

Pesquisadores têm apontado as razões e os benefícios do desenvolvimento de experiências em EaD alicerçadas por esses dois pilares pedagógicos visando a satisfatória aprendizagem dos alunos e o bom uso dos recursos tecnológicos digitais (Peters, 2001; Andrade e Vicari, 2006, Belloni, 2001). Menor atenção tem sido dada, no entanto, à aplicação desses dois pilares nos momentos de ação pedagógica em EaD. Sabe-se que a realização de um debate na sistemática do Fórum de Discussões deve privilegiar ações que visem o incremento do diálogo e da autonomia, o que em geral tem sido buscado em muitas experiências de EaD documentadas em diversas regiões do país1. Procura-se fugir das práticas tradicionais baseadas em pedagogias conteudistas, em que o papel do professor centra-se na transmissão de “saberes” ao aluno. As práticas correntes em geral adotadas no Fórum de Discussões ajudam a concretizar os pilares fundamentais da EaD, além de utilizar os recursos tecnológicos disponíveis e de abrir caminhos para que se estabeleçam laços afetivos entre os participantes. No caso do Fórum de Discussões parece haver, portanto, um alinhamento bastante produtivo entre os pilares pedagógicos da EaD, os objetivos de aprendizagem e os recursos tecnológicos da ferramenta tecnológica digital.

Tal sintonia não tem sido observada, porém, no caso das ferramentas para a realização de bate-papos virtuais (os chamados chats). Segundo Gonzalez (2005), “essas ferramentas promovem discussões interativas entre duas ou mais pessoas simultaneamente, disponibilizam uma ou mais ‘salas’ (canais) para discussão de assuntos distintos e permitem que se enviem mensagens para todos os usuários conectados num canal ou apenas para um usuário, privativamente” (p. 62). Levantamentos informais junto a designers de cursos em EaD e a tutores que atuam na modalidade têm revelado o desuso dessa ferramenta. Curiosamente, a justificativa para tal desuso tem se constituído a partir de considerações acerca dos dois pilares da EaD já mencionados, a autonomia e o diálogo. Em outras palavras, designers e tutores têm desenvolvido o senso de que o uso da ferramenta Chat instrumentaliza – de modo excessivo – a autonomia e o diálogo dos alunos. Isso tem gerado dificuldades no desenvolvimento da experiência do Chat em EaD.

Há relatos de experiências em que o tutor reclama da dificuldade em gerir o Chat, pois os alunos “não paravam de falar”. Referem-se ao ritmo frenético em que alunos teclam para expressar suas idéias, o que gera sucessivos blocos de textos dos vários alunos na tela, surgindo e se movendo muito rapidamente a dificultar a leitura. Tal ocorrência caracteriza práticas de diálogo ou, mais especificamente, de multiálogo. Esse termo caracteriza “conversas realizadas simultaneamente, sobre assuntos relacionados direta ou indiretamente com o foco principal do encontro, com participantes envolvidos, às vezes em mais de uma discussão ou ‘ saltando’ de uma para a outra” (Borba, p. 42). Ainda segundo o autor (op. cit.) parece haver “uma adaptação ‘natural’ por parte dos participantes, que após alguns encontros não mencionam mais suas dificuldades diante da ‘avalanche’ de informações e questões que ocorrem simultaneamente” (p.43).

Há também relatos de que os alunos não se concentram somente no debate do tópico sugerido pelo professor, propondo outros tópicos que desviavam o foco planejando do Chat. Trata-se de uma ocorrência que, em alguns casos, está ligada à prática da autonomia pelos alunos. Existem outros elementos que dificultam o uso da ferramenta Chat, em particular no campo das Ciências Exatas. Nesse caso, a interface predominantemente textual em que as atividades do Chat se processam não favorece o uso de recursos gráficos necessários para que alunos e professores possam se comunicar e avançar a compreensão sobre conteúdos específicos da área. Ocorrem também dificuldades de caráter mais geral quanto à utilização da ferramenta, em particular a necessidade de agendamento prévio de horário e comparecimento com hora marcada, o que limita a flexibilidade do aluno, dado o caráter síncrono das comunicações que se processam durante a atividade (troca de mensagens entre os participantes em tempo real). Acredita-se também que, em muitos casos, o uso da ferramenta seja associado a práticas menos formais, até mesmo de lazer, pelo alunos, o que diluiria o potencial educativo e reflexivo de atividades desenvolvidas através do uso da ferramenta.

A despeito de tais dificuldades, é importante atentar para a importância do uso da ferramentas em ações de EaD. O Chat tem forte potencial interativo. Mesmo em situações com frágil acesso a internet, o Chat permite trocas entre alunos e professores que parecem suprir, de forma mais satisfatória, a carência dos alunos por espaços e práticas que remetam às tradições da sala de aula presencial. Muitos alunos revelam prazer em poder contar com um horário marcado em que certamente terão acesso ao professor, ainda que mediado pela tecnologia digital, quando poderão trocar idéias e receber imediata resposta dos colegas e do tutor. Segundo Leal, “o retorno imediato, síncrono, ao retorno do aluno, incentiva cada vez mais sua participação no curso de EaD; muitas vezes o aluno passa um e-mail que só será respondido dias depois, e isso desestimula” (Leal, 2007, p.58). Além disso, o Chat permite ao professor ou tutor obter imediata percepção sobre compreensões ou dificuldades de compreensão dos conteúdos trabalhados, permitindo correções de rumo no curto prazo. Isso tem impactos positivos na aprendizagem e na relação com os alunos. Afinal, sentir a presença do professor e dos colegas é um dos princípios para o sucesso de cursos a distância (Palloff e Pratt, 2002). Faz-se necessário, portanto, buscar respostas mais adequadas para a pergunta fundamental proposta por Kenski (2003): “Como utilizar as tecnologias interativas de comunicação e informação na docência para superar a solidão e viver a emoção da ‘aula’?” (p.120).

2 Chat Educativo
Antes de prosseguir, porém, deve-se frisar que a proposta delineada a seguir não contradiz as práticas mais avançadas de EaD que se constituem em linha com uma perspectiva pedagógica sócio-interacionista, à qual se relacionam os pilares, já mencionados, do diálogo e da autonomia. De acordo com tal perspectiva, busca-se cooperação ativa dos alunos, e não meramente o acúmulo de dados por eles. Na perspectiva sócio-interacionista (Vygotsky, 1978), portanto, a aprendizagem se constitui como processo social em um dado contexto, a partir das trocas (atividades complementares e interdependentes) entre os participantes no uso de “ferramentas” e na manipulação e produção de textos.

Muitos problemas vivenciados por professores e tutores na realização do Chat podem ser evitados com planejamento do tutor e com disciplina dos alunos, que devem ser informados sobre o caráter educativo do Chat – ou seja, a dinâmica do Chat educativo será um pouco diferente do Chat tradicional, destinado ao bate-papo informal entre amigos. O tutor deverá evitar o “excesso democrático”, prática que “pode levar ao caos da discussão” (Leal, 2007, p.50).

Nesse caso, o tutor deverá preparar as etapas-chave da conversa que será desenvolvida com os alunos previamente, como se faz ao planejar uma aula. O tutor deverá escrever, antecipadamente, as questões-chave que deverão ser debatidas ao longo do Chat para certificar-se de que os conteúdos mais importantes sejam abordados durante a sessão de Chat programada. Durante o Chat, o tutor terá essas questões já escritas e poderá apenas copiar e colar essas questões na “janela” do Chat. Além disso, o tutor deverá escrever previamente as saudações e orientações iniciais do Chat, bem como as informações finais. Como todos esses textos já estarão escritos antecipadamente, o tutor não perderá tanto tempo digitando durante o Chat e poderá prestar mais atenção aos textos postados pelos alunos durante a atividade. Isso irá ajudar o tutor a acompanhar as mensagens trocadas pelos alunos durante o Chat de forma mais adequada.

Também não será demérito do tutor se não conseguir ler todas as mensagens enviadas pelo alunos. O importante é que o tutor tenha um senso geral do desenvolvimento do debate no Chat, ou seja, deve perceber se os principais elementos da temática proposta estão, de fato, cobertos pela “conversa” que se desenrola durante o Chat. Não se recomenda que o tutor procure responder perguntas individuais dos alunos, mas, sim, que concentre a atuação em pontos comuns propostos por ele no planejamento prévio ou pelos alunos ao longo do Chat. Em casos de perguntas muito específicas, o tutor deve optar por responder ao aluno por e-mail após o encerramento do Chat. Isso ajudará o tutor a não perder o eixo do debate ao longo do Chat, ou seja, manterá uma ação voltada a todo o grupo e não a alunos isolados.

Outro problema comum está em compreender o Chat educativo como uma atividade isolada, Não é. Pode-se, por exemplo, associar ao Chat uma atividade complementar, que ajudará os alunos a refletirem um pouco mais detidamente sobre as principais questões debatidas ao longo da atividade, como exemplificado mais adiante.

Por fim, é preciso atentar para o caráter afetivo do Chat, pois constitui um momento de “encontro” do tutor com os alunos, que em geral estão ávidos por trocar idéias e impressões com seu “professor virtual”. Isso reduz a sensação de “distância” e de isolamento do aluno e constitui prática importante para o bom desenvolvimento dos estudos. Pode, em certa medida, reduzir índices de evasão discente. Por isso, é importante que o tutor procure dar atenção a todos, mesmo que tenha que dizer que só poderá responder uma questão do aluno posteriormente, por e-mail. Dessa forma, o aluno perceberá que há um canal de comunicação efetivo com o tutor e que sua participação não foi desconsiderada.


3 Desenvolvimento de Chat educativo estruturado

A seguir será apresentada uma proposta de chat educativo a partir dos parâmetros formulados anteriormente.


Duração – 60 minutos (frisando junto aos alunos que o Chat terá início efetivo no horário agendado)
00-05 min.: Orientações iniciais

Comentário:

O tutor deve se mostrar muito amistoso, cumprimentando os presentes pelo nome e de outras formas que indiquem valor afeito na relação com os alunos.

Tipos de mensagens formuladas pelo tutor:

[O tutor aguarda cerca de 5 a 10 segundos entre a postagem de cada mensagem, para que os alunos possam ter tempo de lê-las. Pode-se usar maiúsculas para se destacar palavras ou frases, evitando-se o excesso, ou uma fonte gráfica diferenciada]

1) “Caros(as) alunos(as), durante o Chat não serão aceitas conversas paralelas e fora do tópico”.

2) “Não responderei questões individuais dos alunos. Ou seja, ao enviar uma mensagem use sempre a opção falar com TODOS. A troca de mensagens dirigidas a indivíduos tumultua e atrapalha o andamento de Chats educativos, como o que está proposto”.

3) “Evite digitar muitas mensagens seguidas – caso contrário ficará um pouco caótico e difícil de acompanhar os comentários. Fiquem atentos”.

4) “Vamos focar o debate em uma questão de cada vez, para não nos perdermos ao longo do debate”.

5) “Procure contemplar e completar idéias e posições diversas, ainda que conflitantes”.


06-10 min.: Espaço para que alunos formulem as principais questões que levantaram sobre as leituras realizadas.

Comentário:

O tutor deve se mostrar interessado nas questões formuladas pelos alunos, se possível parabenizando-o pelo nome após cada comentário realizado no Chat. Não será preciso responder essas questões nesse momento, mas o tutor deve deixar claro que está ciente do que foi perguntado pelo aluno.

Tipo de mensagens formuladas pelo tutor:

1) “Caros(as) alunos(as), essas questões são muito importantes e demonstram que vocês procuraram explorar muitos aspectos do texto. Iremos debater alguns desses tópicos ao longo do nosso Chat.”
11-20 min.: Tutor formula primeira questão-chave e convida alunos ao debate desta questão.

Comentário:

O tutor deixará claro que a participação e contribuição de todos é fundamental para o bom desenvolvimento no Chat. No entanto, caberá ao tutor conduzir o desenvolvimento do Chat, o que implica em promover um debate na esfera dos principais elementos conceituais que integram a temática específica do Chat educativo, evitando-se a pura transmissão de conceitos. Caso os alunos comecem a fugir da temática proposta o tutor deverá solicitar que se mantenham dentro do tema e informar que outras questões serão abordadas ao final do Chat.

Tipo de mensagens formuladas pelo tutor:

1) “Caros(as) alunos(as), a partir de agora debateremos algumas questões-chave que preparei para o nosso Chat educativo. Essas questões irão permitir uma melhor compreensão dos conceitos relacionados à temática do Chat. A primeira questão para debate é ... [para maior destaque, o tutor poderá digitar essa questão em letras maiúsculas, essa questão em maiúsculas poderá ser repetida pelo tutor após 5 minutos, para reforçar o tema em debate no momento]”.

21-30 min.: Tutor formula segunda questão-chave e convida alunos ao debate desta questão.

31-40 min.: Tutor formula terceira questão-chave e convida alunos ao debate desta questão.
41-50 min.: Tutor utiliza esse tempo para retomar outras questões formuladas pelos alunos durante o Chat.

Comentário: Ao longo do Chat recomenda-se que o tutor memorize ou tome nota das principais questões que foram levantadas pelos alunos dentro da temática proposta. Podem surgir aí novas idéias ou conceitos que o tutor poderá explorar, seja no próprio chat ou em momento posterior. Esta será a etapa em que o tutor irá retomar algumas dessas questões, dando crédito aos seus autores. O tutor irá solicitar que os demais debatam o ponto levantado pelo colega. O tutor também poderá utilizar esse tempo para solicitar que alunos com menor índice de participação durante o Chat se manifestem. Ao final do tempo reservado a essa etapa o tutor deve se desculpar com os demais alunos cujas questões não foram abordadas devido à exigüidade do tempo.

Tipo de mensagens formuladas pelo tutor:

1) “Nessa etapa do Chat gostaria de retomar algumas questões levantadas por vocês. Por exemplo, [citar o nome do aluno] perguntou algo interessante. Ele disse que [reproduz a questão do aluno]. O que vocês acham?”


51-60 min.: Tutor esclarece dúvidas remanescentes e encerra o Chat educativo

Comentário:

Nessa etapa o tutor avisa aos participante que o Chat será encerrado dentro de 10 minutos. Pergunta se ainda restam questões específicas sobre a temática do Chat que deverão ser abordadas. Pode propor também algum tipo de síntese sobre o que foi debatido durante o Chat indicando, por exemplo, pontos comuns entre as três questões-chave que nortearam boa parte do debate. O tutor também deve avisar os alunos que enviará cópia do Chat por e-mail e que será necessário realizar uma atividade complementar, com detalhes a serem enviados também por e-mail ou postados em área específica do AVA. Por fim, caso restem perguntas não respondidas, o tutor deve solicitar a seus autores que a reenviem por e-mail para posterior resposta.

Tipo de mensagens formuladas pelo tutor:

1) “Caros(as) alunos(as), o Chat de hoje está sendo muito produtivo. No entanto deveremos encerrar dentro de 10 minutos. Alguém tem alguma questão final que gostaria de debater?”

2) “Para finalizar, gostaria de indicar uma breve síntese dos pontos abordados hoje no Chat. É importante que vocês percebam que o conceito .... [o tutor demonstra algumas conexões entre os diversos aspectos discutidos no Chat dentro da temática]”.

3) “Gostaria de agradecer a todos pela pontualidade, pelo interesse e pela disciplina que fizeram desse encontro virtual uma ótima oportunidade para que pudéssemos debater importantes tópicos [citar os tópicos] da temática [citar a temática]. Como sempre, estarei à disposição para esclarecer outras dúvidas por e-mail. Aguardem nova mensagem minha com a cópia do Chat de hoje e a atividade complementar [o tutor deve incluir algum tipo de mensagem pessoal de agradecimento para o encerramento]”.
4 Chats educativos nas diversas áreas das Ciências Exatas
Para os Chats educativos nas áreas de Ciências Exatas o tutor poderá encaminhar previamente aos alunos materiais diversos, além de textos tradicionais, que poderão servir de suporte ao trabalho a ser desenvolvido durante o Chat. Por exemplo, pode-se distribuir via email ou através do AVA do curso figuras e equações com questões associadas para que os alunos possam refletir sobre a atividade ou até mesmo desenvolver alguma atividade antes da realização do Chat, incluindo o uso de softwares gráficos para a realização de experimentos que poderão ser debatidos durante o Chat. Deve-se recomendar que os alunos mantenham esse arquivo aberto em outra janela do computador durante todo a atividade para que possam consultar, ao longo do Chat, o material enviado previamente pelo professor. Alguns Chats contam com convidados, em geral professores especialistas no tema enfocado que procuram ajudar os alunos na compreensão de temas complexos, evitando-se a pura transmissão de conhecimentos ou a apresentação de uma resposta às indagações dos participantes.

Também será possível desenvolver um Chat sobre uma atividade que foi realizada anteriormente pelos alunos no laboratório. Nesse caso o Chat servirá para esclarecer dúvidas e para auxiliar a compreensão dos fenômenos observados durante aquela atividade.


5 Atividades complementares ao Chat educativo
Recomenda-se que o tutor armazene o texto completo do Chat em arquivo do tipo doc (basta selecionar e copiar o texto completo do Chat e colar o material em arquivo do processador de textos, de preferência sem formatação para se evitar a criação de arquivos muito extensos, de difícil transmissão pela internet; alguns AVA possuem a função “gerar cópia do Chat”). O tutor pode então enviar o material a todos os alunos como um anexo de e-mail ou postar em área específica do AVA. Deve-se orientar os alunos quanto ao uso da função “Localizar” do processador de textos. O uso dessa função permitirá, por exemplo, localizar o próprio nome ao longo do Chat, permitindo verificar a participação na atividade. O uso do recurso “Localizar” facilita muito a pesquisa no texto, pois o arquivo completo de um Chat contem uma enorme quantidade de texto, o que em geral desmotiva a releitura do material bruto.

Recomenda-se, também, que o tutor proponha uma atividade complementar em que o aluno poderá fazer um resumo dos principais temas debatidos no Chat. Isso ajudará a reduzir a sensação de superficialidade e de falta de síntese vivenciada por alguns alunos que participam dessa atividade. Esse resumo pode ser desenvolvido em diálogo com os textos indicados para leitura em preparação para o Chat. Por exemplo, o aluno poderá produzir um resumo do Chat indicando como as principais idéias dos autores dos textos foram criticadas durante a sessão de Chat; ou os alunos poderão partir das principais conceitos dos textos lidos e identificar idéias debatidas ao longo do Chat que estenderam e aprofundaram as proposições iniciais dos autores, se for o caso. Tudo isso permitirá que o aluno reflita, de forma mais detida e crítica, sobre os conteúdos gerados durante o Chat. Isso possibilitará uma melhor compreensão dos conceitos por parte do aluno.

Ao reexaminar os conteúdos do Chat o aluno também poderá desenvolver um senso mais preciso de sua participação na atividade: se participou muito ou pouco, se os comentários realizados estavam mais ou menos em linha com as questões propostas pelo tutor e as contribuições dos colegas, e como poderá aprimorar a participação para o próximo evento. Isso também terá valor educativo para a autonomia do aluno na medida em que lhe permitirá desenvolver uma meta-avaliação sobre seu próprio processo de aprendizagem podendo, inclusive, dialogar com o tutor sobre como aprimorar a participação em Chats futuros.

Por fim, o tutor poderá retomar algumas idéias ou conceitos apresentados pelos alunos durante o chat e desenvolver novas atividades de aprendizagem que propiciem uma melhor compreensão das mesmas. Isso não só caracterizará uma valorização da participação discente no curso. Permitirá também que o tutor desenvolva novos momentos de aprendizagem em maior sintonia com os interesses e curiosidades dos alunos a partir de prática dialógica.


6 Relato de experiência
Durante um curso de extensão para a formação de tutores para o programa Universidade Aberta do Brasil, no qual participam alunos graduados e pós-graduandos, foram realizada duas atividades programadas pelo Chat. Em ambas os alunos foram divididos em grupos de cerca de 10 alunos e receberam um texto para leitura prévia, que deveria nortear os debates durante a atividade. O primeiro Chat foi realizado de forma estruturada, com a proposição de perguntas pelo tutor que deveriam ser debatidas pelos alunos. Utilizou-se um sistemática semelhante à detalhada anteriormente neste artigo. A proposta do Chat era “conversar sobre as idéias apresentadas por José Manuel Moran no texto intitulado ‘O que é um bom curso a distância?’”. O segundo Chat também contou com leitura prévia dentro da temática e foi realizado de forma não-estruturada, com abertura para o debate de qualquer questão proposta pelos alunos dentro da temática estabelecida. A orientação fornecida ao aluno para o Chat era “Leia o artigo ‘O Que os Aprendizes Esperam dos Professores na Educação a Distância On-line’, Fonte: Site Comunicar, e reflita sobre as estratégias de moderação que os alunos da EaD consideraram mais significativas” para debate durante o Chat. Não houve atividade complementar específica para nenhum dos dois Chats, mas, sim, outras atividades ainda dentro da mesma temática (leituras adicionais, participação em Fórum e redação de texto).

Após a realização dos chats o tutor solicitou aos alunos, por mensagem de e-mail, que avaliassem os Chats realizados e sugeriu as seguintes categorias para essa avaliação comparativa: melhor ou pior compreensão de conceitos; melhor ou pior intercâmbio de idéias e opiniões; maior ou menor interesse e prazer com a atividade; outros. As respostas dos alunos oito alunos que responderam, através de mensagens enviadas individualmente ao tutor por e-mail, estão listadas a seguir:

A aluna 1 achou que o primeiro Chat foi “mais organizado” e que “a compreensão, o intercâmbio de ideias e opiniões foram melhor colocadas”2. A aluna 2 escreveu: “Gostei mais do primeiro Chat quando vc direcionou toda a discussão, pois no segundo algumas colegas se afobaram, não esperaram pra refletir sobre o que estava sendo falado e já foram dizendo que não entendiam nada...achei desnecessária toda afobação. Tudo o que estava sendo dito fazia parte das leituras propostas anteriormente. De alguma maneira isso me desestimulou e tirou meu prazer de discutir”. A aluna 3 corrobora a perspectiva da aluna 2, ao afirmar que achou “o primeiro Chat bem mais organizado e estruturado, o que facilitou mais a compreensão dos conceitos e as idéias também foram expostas de forma mais organizada. Eu não tive dificuldade em participar e compreender o segundo Chat, mas observei que algumas pessoas (...) estavam bem confusas. Acredito que isto ocorreu devido a liberdade inicial de exposição do tema para debate, pois cada aluno poderia propor um tema  no início do Chat”. Ela conclui dizendo que “as duas formas foram prazerosas e válidas, mas o que observei foi que quando o Chat é mais direcionado as pessoas participam mais”. A aluna 4 avaliou que houve “pior compreensão de conceitos e pior intercâmbio de idéias [no segundo Chat] em relação ao primeiro”, mas afirmou que houve “interesse igual porque é necessário para o processo, mas [com] menor prazer na realização da atividade [no segundo Chat]”. Outras três alunas responderam com comentários que sustentam as opiniões anteriores.

A aluna 5 mostrou-se mais favorável ao modelo estruturado, mas não deixou de apontar qualidades no segundo Chat. Ela disse: “particularmente gostei mais do primeiro. Acho que as idéias ficam um pouco mais organizadas, mas um ponto negativo para mim foi a pouca possibilidade de interação que tivemos, talvez devido ao tempo ‘cronometrado’ para as discussões de cada idéia ou tópico central. No segundo, apesar de ter participado apenas durante 20 minutos, senti que houve mais debate, mais troca de idéias, mas a estrutura mais livre me deixou um pouco confusa”.

A aluna 6 foi a única a avaliar em sentido contrário ao das colegas. Ela disse, ao comparar o primeiro Chat e o segundo, que “acho este último de maior abrangência na questão de desenvolver assuntos, inclusive a própria abordagem na qual pudemos demonstrar como compreendemos o texto; o desenrolar das idéias foram fluindo mais espontaneamente, não tínhamos a preocupação com conceitos, era tudo natural. Resumindo, foi bem mais interessante e prazeroso [o segundo Chat]”.

Observa-se, portanto, uma forte tendência dos alunos, que serão futuros tutores de EaD, em apreciar as vantagens do Chat estruturado para o ensino de conceitos, apesar do esforço demonstrado em reconhecer a importância e a necessidade de participar em ambas as modalidades. Nota-se também uma apreciação do caráter “prazeroso” da atividade, o que parece estar associado ao caráter afetivo constituído pelas trocas entre os participantes durante a atividade. Esses relatos estão em linha com prática reportada por Leal (2007). Segundo a autora, “nas experiências [de chat educativo] realizadas, quando era lançada uma pergunta (referente ao texto proposto) para a turma, presencialmente, apenas um, no máximo dois, alunos manifestavam-se. Durante o bate-papo virtual, ao lançarmos uma pergunta, mais alunos conseguiram escrever alguma idéia sobre o assunto” (p.61). Essas experiências positivas e animadoras contrastam com a baixa freqüência do uso de tal ferramenta nos processos de EaD e indica a necessidade de sua inclusão de forma mais sistemática.


7 Para concluir
Os pilares do diálogo e da autonomia sustentam as boas práticas de EaD, norteadas por um projeto pedagógico que procura, também, maximizar as potencialidades educativas e interativas das ferramentas digitais, como o Chat. Faz-se necessário, porém, especificar e detalhar metodologias de utilização da ferramenta que a tornem um auxiliar adequado – e não um entrave – ao profícuo desenvolvimento de práticas dialógicas e autônomas em EaD, a partir de uma perspectiva sócio-interacionista.

A metodologia apresentada neste artigo propõe uma estrutura básica que preserva tais elementos, ainda que enfatize a necessidade de uma atuação mais acentuada e pontual do tutor a fim de garantir a consecução dos objetivos de aprendizagem traçados. Vale salientar que a utilização do Chat em processos de EaD não constitui apenas a exploração dos recursos interativos de uma ferramenta digital. Configura um rico momento de trocas e de aprendizagem entre os participantes, podendo ser precedido por atividades propostas pelo tutor e podendo criar novos momentos de aprendizagem a partir, principalmente, das contribuições e questões dos alunos. O uso do Chat ganha destaque pelo seu potencial de reproduzir, ainda que de maneira restrita, práticas comunicativas que, ao simularem a dinâmica da sala de aula tradicional, também produzem efeitos de motivação e de coesão entre os participantes. Isso é benéfico aos processos de EaD e ultrapassa o aspecto técnico do uso da ferramenta eletrônica, sem no entanto desprezá-lo.

Dessa forma, ao concluir parece adequado resgatar a experiência do navegador Amir Klink, que, durante suas longas travessias marítimas, diz nunca se sentir só, apenas se sente desacompanhado. Como elaborou Kenski (2003) sobre as experiências de Klink, “pela aparelhagem eletrônica que dispõe em seu barco, ele consegue interagir e se comunicar o tempo todo com os técnicos que o auxiliam na viagem, a família, os amigos e muitas outras pessoas. Sem a interação e a colaboração permanente dessas pessoas, o navegador jamais conseguiria levar adiante seus audaciosos projetos” (p.120).
Referências bibliográficas
ANDRADE, Adja F. e VICARI, Rosa M. Construindo um ambiente de aprendizagem a distância inspirado na concepção sociointeracionista de Vygotsky. In: SILVA, Marco (org.) Educação online. São Paulo: Loyola, 2006.

BORBA, Marcelo, MALHEIROS, Ana Paula S., ZULATTO, Rúbia B. Educação a distância online. São Paulo: Autêntica, 2007.

DOTTA, Sílvia e GIORDAN, Marcelo. Elementos constitutivos do diálogo virtual em interações discursivas mediadas por um serviço de tutoria pela internet. Anais do II Encontro Paranaense de Informática Educacional – ENINED. Foz do Iguaçu, 2006.

GONZALEZ, Mathias. Fundamentos da tutoria em educação a distância. Campinas: Avercamp, 2005.

HABERMAS, Jurgen. Teoria de la acción comunicativa I - Racionalidad de la acción y racionalización social. Madri: Taurus, 1987

__________________. Teoria de la acción comunicativa II - Crítica de la razón funcionalista. Madri: Taurus, 1987a.

KENSKI, Vani M. Tecnologias do ensino presencial e a distância. São Paulo: Papirus, 2003.

LEAL, Viviane P. O chat quando não é chato. O papel da mediação pedagógica em chats educacionais. In: ARAÚJO, Júlio César (Org.). Internet & ensino: Novos gêneros, outros desafios. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007.

PETERS, Otto. Didática do Ensino a Distância. São Leopoldo, Unisinos. 2001.

PRETI, Oreste. Educação a Distância: uma prática mediadora e mediatizada. In: PRETI, O. (org.) Educação a Distância: inícios e indícios de um percurso. Cuiabá: NEAD/UFMT, 1996, p.15-56.



VYGOTSKY, Lév. S. Mind in Society. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1978.


1 Os vários grupos de pesquisa que se dedicam à compreensão dessas práticas podem ser localizados através do Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional/

2 Transcrição literal das mensagens recebidas pelo tutor.






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