Música na República Velha/Introdução



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Música na República Velha/Introdução

A República e a indústria fonográfica nasceram praticamente juntas no Brasil. Apenas treze anos separam a queda do Império, em 1889, das primeiras gravações comerciais feitas em nosso país pelo tcheco Fred Figner, da Casa Edison, do Rio de Janeiro, em 1902. Assim, nada mais natural que boa parte das peripécias e reviravoltas da República Velha tenha sido registrada nas ceras, chapas e discos das primeiras décadas do século XX.

Já na primeira fornada de gravações, em 1902, aparecem músicas sobre temas políticos, como “Laranjas da Sabina”, “Saldanha da Gama” e “Camaleão”, compostas anos ou décadas antes. Todas elas estão voltadas para trás: abordam costumes parlamentares dos tempos do Império e resgatam episódios ocorridos na turbulenta transição entre o fim da monarquia e a consolidação da República. Outras composições, como “Capanga Eleitoral” ou “Cabala Eleitoral”, lançadas pouco depois, ainda estariam marcadas pela mesma necessidade de ajustar contas com o passado.

Mas esse olhar para trás durou pouco, superado pela forte apelo dos fatos políticos imediatos. Se tivesse sido mais intenso, provavelmente teriam sido gravadas outras composições de sucesso sobre personagens e acontecimentos marcantes dos anos iniciais da República. João do Rio, cronista da época, em artigo publicado em 1905 na revista Kosmos, registrou as letras de algumas delas. Sobre Floriano Peixoto: “Quando ele apareceu, altivo e sobranceiro / Valente como as armas, beijando o pavilhão / A pátria suspirou dizendo: ele é o guerreiro / É marechal de ferro, escudo da Nação”. Sobre Antônio Conselheiro: “Quem será esse selvagem / Esse vulgo santarrão / Que encoberto de coragem / Fere luta no sertão?” Sobre o atentado ao presidente Prudente de Moraes, em que morreu o marechal Carlos Bittencourt, na recepção às tropas que voltaram de Canudos: “Cinco de novembro / Data fatal / Em que deu-se a morte / Desse marechal”. Luiz Edmundo, em “O Rio de Janeiro do meu tempo”, registra os versos de outra música, no caso sobre o canhoneio que a cidade sofreu dos navios que se sublevaram durante a Revolta da Armada: “Pé espalhado / Quem foi que te espalhou? / Foi uma bala / Que o Javari mandou”.

O cotidiano político imediato, porém, como se disse mais atrás, acabou falando mais alto que as recordações dos fatos passados. Assim, as gravações logo passaram a abordar os temas do presente, vividos e facilmente compreendidos pela população que podia comprar discos. “Vacina obrigatória”, de 1904, retrata o clima de resistência à campanha de erradicação da varíola no Rio de Janeiro, que desembocaria na sangrenta Revolta da Vacina. “Pega na chaleira”, sucesso estrondoso no carnaval de 1909, brinca com os aduladores do poderosíssimo senador Pinheiro Machado, eminência parda de vários governos. “Os reclamantes”, de 1910, canta a sublevação dos marinheiros contra os maus-tratos na Marinha, a chamada Revolta da Chibata, chefiada por João Cândido. “A Morte do Barão do Rio Branco” homenageia o maior nome da diplomacia brasileira, falecido às vésperas do carnaval de 1912. Já “A Revolução no Paraná” versa sobre a revolta messiânica ocorrida na região do Contestado em 1913.

As composições da época, no entanto, não se limitavam a fazer a crônica de fatos e a destacar personagens da vida política nacional. Iam mais além: também criticavam os vícios e as insuficiências da República, tão jovem e já tão velha. “Eleições em Piancó”, de 1912, mostra que as eleições “a bico de pena” e a “degola” dos candidatos eleitos tornavam a consulta às urnas um jogo de cartas marcadas. “Pai de toda a gente”, provavelmente composto um pouco antes de 1910, investe contra a “política de governadores”, que assegurava o poder absoluto das oligarquias nos estados.

A partir de 1915, as gravadoras, em estreita dobradinha com os teatros de revista, aceleraram o ritmo de lançamento de músicas políticas. Recorrendo aos gêneros musicais mais populares na época – as marchinhas, as modinhas, as polcas, as valsas, os lundus, os maxixes, os cateretês e, depois, os sambas –, os compositores passaram a mirar diretamente nos figurões da política com galhofa e a irreverência. Não houve presidente da República, salvo Epitácio Pessoa, que escapasse das gozações. Hermes da Fonseca sofreu em “Ai, Philomena” (1915), Wenceslau Braz em “Desabafo Carnavalesco” (1917), e Delfim Moreira em “Seu Derfim tem de vortá” (1919) – infelizmente ainda não se localizou uma gravação desse cateretê engraçadíssimo. Tampouco a oposição foi poupada. Que o diga Rui Barbosa, ridicularizado em “Papagaio Louro” (1920).

Nas eleições de 1922, quando o esquema do "café com leite", através do qual São Paulo e Minas revezavam-se na Presidência da República, começou a apresentar fissuras, o país já assistiu a uma verdadeira batalha musical, opondo “Ai, seu Mé” e “Goiabada”. As composições, embora tomassem partido na campanha eleitoral, não eram jingles e tampouco pareciam encomendadas. Na verdade, não apoiavam candidatos. Simplesmente eram do contra, mas sem perder o bom humor e sempre revelando certa dose de ingenuidade. Bernardes sofreu na pele de “seu Mé” e Peçanha pagou seus pecados como uma goiabada estragada.

Um esclarecimento: na época, era comum o uso de metáforas sobre comidas ou bebidas para designar os estados: Minas era o queijo, o leite ou a coalhada; São Paulo, o café; o Estado do Rio, a goiabada de Campos ou o arroz de Pendotiba; a Bahia, o vatapá e a pimenta. Também se abusava dos apelidos: Bernardes era o "Rolinha" ou o "Seu Mé"; Rui Barbosa, o "Papagaio louro"; Hermes da Fonseca, o "Dudu"; Wenceslau Brás, "São Brás", “Washington Luiz”, o “Bode” ou o “Cavanhaque”, e por aí vai. Como se vê, o Brasil urbano, onde se produzia a maior parte das músicas da época, ainda era muito rural.

Bernardes vence as eleições de 1922, mas debaixo de feroz oposição da opinião pública carioca e de boa parcela das Forças Armadas. Governaria os quatro anos seguintes sob estado de sítio. A reação foi imediata. No mesmo ano, com a revolta dos 18 do Forte de Copacabana, o movimento tenentista fez sua aparição. Em 1924, as guarnições da capital paulista deflagraram a “Revolta de 24”, sob o comando do general Isidoro Dias Lopes. No Sul, alguns quartéis também se levantaram, sob a chefia do capitão Luís Carlos Prestes. As sublevações seriam sufocadas, mas os rebeldes, batendo em retirada, prosseguiriam a luta no interior do país, através da Coluna Prestes. Sobre todos esses incidentes, não há gravações da época – a censura, inicialmente, e o isolamento dos tenentes, mais tarde, explicam o silêncio. Mas algumas músicas foram compostas no calor dos acontecimentos, sendo gravadas posteriormente. É o caso de “Moda da revolução”, que canta a rebelião da capital paulista e toma o partido dos “revortosos” e do general “Zidoro”. A partir daí, a música caipira seria uma das principais fontes da músicas políticas, competindo em pé de igualdade com o carnaval, as festas populares urbanas e o teatro de revista na crônica dos mais importantes acontecimentos da vida nacional.

Em 1926, já sinalizando que o clima no país era de degelo, aparece “Café com leite”, que mostra com humor e talento como a aliança entre São Paulo e Minas fazia os presidentes na República Velha. Sai Bernardes, mineiro, e entra Washington Luís, paulista. A sensação generalizada é de alívio. Livres da censura e do medo de represálias, os compositores não poupam críticas ao homem que havia governado com mão de ferro o Brasil por quatro anos. “Rolinha” transforma-se no “Passarinho do má (mal)” (1927), responsável pelas desgraças de todos os brasileiros. Já o novo ocupante do Palácio do Catete é recebido com otimismo e simpatia, como atestam a toada “Paulista de Macaé” e a marcha “O cavanhaque do bode”, ambas de 1927.

A lua-de-mel com o novo presidente, porém, duraria pouco. As dificuldades econômicas, os sucessivos adiamentos da prometida reforma monetária e o esgotamento do sistema político logo fariam crescer o sentimento oposicionista no país. “Já sei porque é (1928)”, “Seu doutor” (1928) e “Já quebrou (1927)” dão conta dessa virada no estado de ânimo do país.

As duas músicas seguintes passam em revista o período abrangido pelas demais músicas. Em “Pai João” (1932), o ex-escravo, liberto por combater na guerra do Paraguai, conta com melancolia sua participação em vários episódios da República Velha: a Revolta da Armada, a Guerra de Canudos e o combate ao cangaço. Em “Bataião Navá” (1930), o cantador de emboladas, também conta suas façanhas, mas o tom é outro, de otimismo e confiança. O Nordeste – o Norte, como de dizia na época – estava entrando com força na música política.

Fecha o CD um sambinha despretensioso, “Eu vou à feira”, de 1930. Trata-se de um fecho simbólico. Fala sobre a violência no dia das eleições, mesmo tema abordado numa das primeiras gravações dessa coleção, “Capanga Eleitoral”, que, por sua vez, já se referia a um problema que remontava aos tempos do Império. Ou seja, quase cem anos depois das Eleições do Cacete, de 1840, eram comuns as pancadarias e a intimidação de eleitores em todo o país. A república não havia sido capaz de enfrentar esses e muitos outros vícios da nossa política. Estava velha e exaurida. Não resistiria à tempestade que se abateria sobre o país nas eleições seguintes, que opôs Julio Prestes a Getulio Vargas e desembocaria na Revolução de 30. Mas essa já é uma história – e outros CDs.

Como é possível constatar nesta seleção musical, embora o viés de uma ou outra composição seja laudatório, na maioria delas predominam a crítica, a ironia, a brincadeira, o deboche. Tal inclinação reflete uma tradição da música política no Brasil, que veio do início do Império, acentuou-se depois da guerra do Paraguai e ganhou extraordinário impulso quando foi ficando claro que a monarquia estava fazendo água. Em alguma medida, o clima de irreverência que marcou as últimas décadas do reinado de Pedro II – Pedro Banana, para os adversários – entrou pela República adentro. Basta relembrar as quadrinhas que eram cantadas no Rio gozando o marechal Deodoro, que, segundo as más línguas, teria proclamado a República irritado com a notícia – falsa, aliás – de que o Imperador pretendia nomear nomeado para primeiro-ministro o senador Silveira Martins, seu rival na disputa pelos favores e ardores sexuais de uma certa viúva alegre chamada Adelaide: “Papagaio come milho / Coruja bebe azeite / Mas a pomba da Adelaide / Come carne, bebe leite”. Esse clima de pândega marcou os diversos campos de expressão da música popular nas primeiras décadas da República: o carnaval, as festas populares, os terreiros, os cafés cantantes, os chopes berrantes e o teatro de revista.

No caso da música política, tem especial importância a produção dos cafés-cantantes, dos chopes-berrantes e dos teatros de revistas – além do carnaval, é claro. Os cafés-cantantes, mais comportados, e os chopes-berrantes, mais escrachados, eram a versão nacional dos cabarés europeus. Para estimular o consumo de bebida, esses estabelecimentos ofereciam espetáculos curtos, marcados pela pândega e pelas músicas de letra maliciosa, que formaram o gosto do público. Daí vieram muitas das primeiras estrelas da nossa indústria fonográfica, como Catulo da Paixão Cearense, Eduardo das Neves, Bahiano, Cadete, Geraldo e Mário Pinheiro.

Em matéria de produção, os teatros de revista estavam um degrau acima dos chopes berrantes. Seus espetáculos, ricos e bem cuidados, atraíam autores renomados, como Arthur de Azevedo e, mais tarde, Luiz Peixoto, além de cantores e humoristas consagrados. Trazido para o país pelas companhias portuguesas, o teatro de revista caiu em pouco tempo no gosto popular. No contato com o povo, abrasileirou-se, mas sem nunca perder um certo sotaque lusitano, facilmente detectável nas interpretações das cantoras e cantores mais famosos. Ágeis, debochadas, ligadas ao dia-a-dia, as peças faziam a crônica dos fatos políticos, econômicos, sociais e culturais praticamente no mesmo momento em que eles aconteciam. Divertiam, criticavam, adulavam, lançavam moda e estabeleciam padrões de linguagem e comportamento.

Foi nesse caldeirão, onde se cruzaram as influências das festas populares, como a da Penha, o carnaval, os cafés-cantantes, os chopes-berrantes e o teatro de revista, que se cozinhou a irreverência e a criatividade da música política brasileira nas três décadas iniciais do século passado.

Cabe ainda fazer três registros.

Primeiro, quase todas as músicas deste CD foram gravadas pelo método mecânico – as gravações elétricas somente fariam sua aparição no Brasil em 1926. Isso explica não só a baixa qualidade dos registros, mas também a escolha de vozes e instrumentos usados nas gravações. Os cantores precisavam ter voz potente e estridente para impulsionar o mecanismo que permitia a gravação dos sulcos nas chapas. Na parte instrumental, pianos e pianolas sumiam, sufocados pelos metais, que sempre levavam a melhor na briga para serem ouvidos. Como se verá, quase todos os discos deste CD são lançamentos da Casa Edison, de Fred Figner, ou da Odeon, selo representado no Brasil naquela época também pela Casa Edison, que praticamente detinha o monopólio da gravação mecânica no país. Essa situação seria desfeita em 1927, quando, com o advento do sistema elétrico, as grandes gravadoras vieram instalar-no Brasil, como a própria Odeon e sua subsidiária Parlophon, a Brunswick e a Columbia. Em pouco tempo, a Casa Edison estaria relegada a uma posição secundária como gravadora.

Segundo, apesar do trabalho de limpeza que eliminou boa parte dos chiados e ruídos nos discos, há muitos trechos em que se perde parte da letra. Esse problema deve-se em parte às deficiências técnicas das gravações, mas em parte também à ação do tempo sobre discos que sobreviveram a um século de guarda e armazenamento em condições nem sempre adequadas. Apesar de tudo, o resultado vale a pena. Eventuais impurezas aqui e ali não são nada perto do valor histórico das gravações e do clima da época que elas nos transmitem.



1- As laranjas da Sabina (1904)


Autor: Aluízio Azevedo
Intérprete: Pepa Delgado
Gênero: Tango
Gravadora: Casa Edison

Não é por acaso que “As laranjas da Sabina” está entre as primeiras músicas gravadas no Brasil. Composta por Arthur Azevedo, o maior nome do teatro de revista da época, para a peça “A República”, encenada meses depois da queda do Império, a canção caiu logo no gosto do povo.

Foi talvez o maior sucesso musical do final do século XIX. No teatro, o tango – tango brasileiro, bastante diferente de seu homônimo argentino – foi cantado não por uma negra, como Sabina, mas pela atriz italiana Ana Manarezzi. Mais tarde, seria gravado por Bahiano, em 1902, e pela atriz de teatro de revista Pepa Delgado, em 1904. É esta última gravação que faz parte desta seleção.
A música faz referência a uma brincadeira de estudantes que se transformou em manifestação republicana, em 25 de julho de 1889, no Rio de Janeiro. Tudo começou quando o subdelegado de polícia proibiu Sabina de continuar vendendo frutas na frente da Escola de Medicina. Indignados, os jovens organizaram um protesto bem-humorado contra a decisão. Saíram em passeata pelo centro da cidade. À frente do desfile, uma coroa feita de bananas e chuchus, trazia uma faixa onde se lia: “Ao eliminador de laranjas”.

Saindo do Largo da Misericórdia, os rapazes tomaram a rua 1º de Março e depois, a rua do Ouvidor, onde ficavam as redações dos principais jornais, que visitaram defendendo o direito de Sabina vender laranjas onde quisesse. Por onde passavam, os jovens eram aplaudidos pelos populares. Aos poucos, a manifestação foi engrossando e ganhando um tom nitidamente republicano, com vivas a Rui Barbosa. Depois de receber a adesão dos estudantes da Escola Politécnica, a passeata dirigiu-se para a sub-delegacia de São José, onde depositou a coroa. “O eliminador de laranjas” não estava mais lá. Havia deixado o prédio antes da chegada do cortejo.

No dia seguinte, os jornais deram ampla cobertura ao protesto, ressaltando seu caráter pacífico e brincalhão e criticando as autoridades. A decisão acabou sendo revogada. Assim, Sabina continuou a vender frutas nas proximidades da Escola de Medicina e, sem querer, converteu-se em bandeira republicana.

“Sou a Sabina
Sou encontrada
Todos os dias
Lá na carçada
Lá na carçada da academia
Da academia de Medicina

Os rapazes arranjaram
Uma grande passeata
Deste modo provaram
Quanto gostam da mulata, ai

Sem banana macaco se arranja
E bem passa monarca sem canja
Mas estudante de medicina
Nunca pode passar sem as laranjas
As laranjas, as laranjas da Sabina

O senhor subdelegado
Homem muito restingueiro
“Amandou” por dois sordados
Retirá meu tabuleiro, ai.

Sem banana macaco se arranja .”.

2 - Cabala eleitoral (1904-1907)


Autor: Bahiano e Cadete
Intérprete: Bahiano e Cadete
Gênero: Desafio
Gravadora: Casa Edison

Bahiano e Cadete foram as duas principais estrelas dos primeiros tempos da Casa Edison. Geralmente cantavam separados, mas às vezes formavam uma dupla, como neste desafio.

A música tem cerca de cem anos, mas a prática que ela satiriza existe até hoje: a troca do voto por favores. O chefe político (o “coroné”) pede o voto ao eleitor e promete, em troca, dar emprego, terno e cavalo ao cidadão. Mas o sujeito, escolado, sabe que não se pode confiar em promessa de político nas vésperas da eleição. Quer garantias: “Hoje você me dá tudo/ Amanhã me mete o pé”. E termina sem prometer votar no candidato do “coroné”.

Em tempo: no jargão político, “cabalar votos” é o mesmo que tentar conquistá-los. “Ladino” é sinônimo de “esperto”. Nos tempos da escravidão, dizia-se que o negro que falava português era “ladino”; o que não falava era “boçal”.

“Desejo, prezado amigo,
Com grande satisfação
De ter o vosso votinho
Na próxima eleição

Não posso, meu coroné,


O (voto) de graça eu não dou
É breve lição do meu pai
Conselho do meu avô

Eu prometo meu amigo


De lhe dar colocação
Se vancê votar comigo
Ao menos nesta eleição

Tem algo (?) essa paciência,


Meu ladino coroné,
Meu voto eu dou de espontâneo
A quem quer que me faça o pé

Eu vos dou terno de roupa


Dou cavalo, dou terneiro
Em troca do vosso voto
Dou até mesmo dinheiro

Já tenho calo na sola


Meu ladino coroné,
Hoje você me dá tudo
Amanhã me mete o pé

Eu vos quero muito bem


Meu caro eleitor amigo
Não seja tão emperrado
Venha cá votar comigo

Vai armar pra quem quiser,


Coroné, sua arapuca
Eu cá sou macaco velho
Não meto a mão na cumbuca”

3 - Rato, rato, rato (1904)


Autor: Casemiro Rocha e Claudino Manoel da Costa
Intérprete: Claudino Manoel da Costa
Gênero: Polca
Gravadora: Odeon

Em 1902, depois de uma epidemia de peste bubônica no Rio de Janeiro, o recém-nomeado diretor da Saúde Pública, o médico Oswaldo Cruz, lançou uma grande campanha para reduzir o número de ratos, que proliferavam nas favelas, cortiços e bairros pobres da cidade – a doença transmite-se através de pulgas alojadas nos roedores.

Um esquadrão de 50 “homens da corneta” passou a percorrer os bairros pobres espalhando raticida, removendo lixo e pagando à população cem réis por bicho morto. Chegou-se a criar o cargo público de “caçadores de ratos”. Estima-se que 10 milhões de animais tenham sido abatidos. As medidas sanitárias desencadearam uma enorme onda de comércio de ratos, havendo, inclusive, quem tenha passado a criá-los com o objetivo de vendê-los às autoridades.

Várias músicas foram compostas sobre o assunto, geralmente usando como mote o pregão dos compradores: “Rato, rato, rato”. Esta polca, com música de Casemiro da Rocha, pistonista da Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, recebeu letra de Claudino Costa.

Ficou famosa outra música com o mesmo nome, gravada por Orestes Matos, muito cantada no carnaval de 1904 (1). O teatro-revista também fez graça com o problema. Em “Avança”, também de 1904, o ator Alfredo Silva cantava uma cançoneta que dizia: “Faço negócio de ratos / Sou uma grande ratazana/ Sustento um mano e uma mana/ Três filhos e quatro gatos/ O que me faz afligir/ O que agora mais me dói/ É não poder impingir/ Mais ratos de Niterói”.

“Rato, rato, rato
Assim gritavam os compradores ambulantes
Rato, rato, rato,
Para vender na academia aos estudantes
Rato, rato, rato
Dá bastante amolação
Quando passam os garotos, todos rotos
A comprar rato, capitão

Quem apanha ratos?
Aqui estou eu para comprar, para comprar
Ratos baratos
São necessários para estudar, para estudar
Já que vens saber
Que este viver é minha sina
Rato, rato, rato, rato
Na parada da vacina

Rato, rato, rato
Só se vê aqui no Rio de Janeiro
Rato, rato, rato
Quem os tiver já não passa sem dinheiro
Rato, rato, rato
É a nossa salvação
Pra esses nossos malandrotes não passarem
Todo dia sem o pão

Tem vendedor que compra ratos
Nunca tive um casamento
Nem procuro trabalhar
Ratos quando estou em casa estou prendendo
Ratos que no outro dia estou vendendo
Com (...) que é desconhecido
Nem por isso meu negócio assim produz
Tem que trazê-lo na memória,
O belo tempo de glória, dr.Oswaldo Cruz

Rato, rato, rato
Assim gritavam os compradores ambulantes
Rato, rato, rato,
Para vender na academia aos estudantes
Rato, rato, rato
Dá bastante amolação
Quando passam os garotos, todos rotos
A comprar rato, capitão(?)”

4- Vacina obrigatória (1904/1907)


Intérprete: Mario Pinheiro
Gênero: Cançoneta
Gravadora: Odeon

De todas as campanhas realizadas, no início do século XX, para tornar salubre o Rio de Janeiro, a que despertou resistências mais fortes foi a da vacina obrigatória contra a varíola. Em parte porque a população não acreditava na eficácia da medida, em parte porque as autoridades pretendiam higienizar a cidade a qualquer custo, num comportamento já classificado de “despotismo sanitário”, a campanha acabou provocando uma sublevação popular, só sufocada com a intervenção de tropas do Exército.

O saldo da “Revolta da vacina” foi trágico: pelo menos 23 mortos, dezenas de feridos, quase mil presos. A lei tornando obrigatória a vacinação foi aprovada pelo Congresso em 31 de outubro de 1904. Menos de uma semana depois, em 5 de novembro, a oposição criou a Liga contra a Vacina Obrigatória, e, em 10 de novembro, começaram os confrontos entre populares e forças policiais. No dia 14, os cadetes da Escola Militar da Praia Vermelha aderiram ao movimento. O governo federal, então, ordenou o bombardeio dos morros do bairro da Saúde, no centro do Rio, reduto da insurreição. No dia 17, a polícia ocupou o bairro e, com o apoio do Exército e da Marinha, acabou com a revolta.

Não se sabe ao certo a data da gravação desta música, mas a impressão que fica é que ela foi composta em 1904. Seria anterior à Revolta, pois não faz menção aos choques com a polícia e o Exército, mas posterior aos debates que precederam à aprovação da lei, pois revela disposição para resistir à sua implantação: “Eu não vou deixar ação sem fazer o meu barulho/ Os doutores da ciência terão mesmo que ir no embrulho”.

Em vários momentos, a letra associa a vacinação ao ato sexual, com duplo sentido, como era muito comum nas composições cantadas nos cafés-dançantes e chopes-berrantes para um público predominantemente masculino (ver também “Rato, rato, rato” e “Febre amarela”, na seção “Outras músicas”, que abordam, respectivamente a campanha contra a febre bubônica, que incluiu a compra de milhões de ratos pelas autoridades, e a campanha contra a febre amarela, que buscou eliminar o mosquito transmissor da doença).

“Anda o povo acelerado com horror a palmatória
Por causa dessa lambança da vacina obrigatória
Os manatas da sabença estão teimando desta vez
Em meter o ferro a pulso bem no braço do freguês

E os doutores da higiene vão deitando logo a mão


Sem saber se o sujeito quer levar o ferro ou não
Seja moço ou seja velho, ou mulatinha que tem visgo
Homem sério, tudo, tudo leva ferro, que é servido.

Bem no braço do Zé povo, chega um tipo e logo vai


Enfiando aquele troço, a lanceta e tudo o mais
Mas a lei manda que o povo e o coitado do freguês
Vá gemendo na vacina ou então vá pro xadrez

Contam um caso sucedido que o negócio tudo logra


O doutor foi lá em casa vacinar a minha sogra
A velha como uma bicha teve um riso contrafeito
E peitou com o doutor bem na cara do sujeito

E quando o ferro foi entrando fez a velha uma careta


Teve mesmo um chilique eu vi a coisa preta
Mas eu disse pro doutor: vá furando até o cabo
Que a senhora minha sogra é levada dos diabos

Tem um casal de namorados que eu conheço a triste sina


Houve forte rebuliço só por causa da vacina
A moça que era inocente e um pouquinho adiantada
Quando foi para pretoria já estava vacinada

Eu não nesse arrastão sem fazer o meu barulho


Os doutores da ciência terão mesmo que ir no embrulho
Não embarco na canoa que a vacina me persegue
Vão meter ferro no boi ou nos diabos que os carregue.”

5 - Febre amarela (1904/1907)


Intérprete: Geraldo Magalhães
Gênero: humor
Gravadora: Odeon

No final do século XIX e no início do século XX, o Rio de Janeiro era uma cidade a tal ponto insalubre que chegou a ser chamada de “túmulo de estrangeiros”. Estima-se que entre 1897 e 1906 tenham morrido cerca de 4 mil imigrantes, vítimas da febre amarela, à época atribuída pelo povo e por muitos médicos aos “ares pestilenciais”.

Como parte do esforço de modernização da capital da República, o presidente Rodrigues Alves convocou o médico Oswaldo Cruz para comandar a reforma sanitária da cidade. Apoiando-se na descoberta do médico cubano Carlos Finlay de que a febre amarela era transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, Oswaldo Cruz formou brigadas de “mata mosquitos”, que percorriam casas, cortiços e barracos, eliminando os focos do inseto com a queima de enxofre, piretro e outras substâncias químicas. Foi fixada a meta de livrar a cidade da doença até 1907.

A campanha iniciada em 1903, deu excelentes resultados. No primeiro semestre de 1903, ocorreram 469 mortes por febre amarela. No primeiro semestre do ano seguinte, o número de óbitos caiu para 39. Em 1906, o Rio estava livre da doença.

Os visitadores sanitários, porém, muitas vezes cometiam excessos, entrando nas casas à força e, no caso do combate à varíola, vacinando as pessoas contra sua vontade, o que motivou protestos dos moradores e serviu de pretexto para a eclosão da famosa “Revolta da Vacina” (ver música “Vacina Obrigatória”).

“Febre amarela”, cantada por Geraldo Magalhães, faz menção a tudo isso. Brinca, inclusive, com a hipótese de que Oswaldo Cruz pudesse vir a comprar esqueletos de mosquito, como fora feito com os ratos na campanha contra a peste bubônica (ver música “Rato, rato, rato”). Mas não há mais ceticismo como na composição anterior. O clima é de confiança: “Porque o grande mestre Oswaldo/ Vai dar cabo da maldita (febre amarela)".

Em tempo: manata, termo usado na época, é sinônimo de figurão, pessoa importante, magnata.

“Hoje em dia em falso rente (?)
Acabou-se a sua guerra
Do senhor, seu Presidente
Não há mais febre amarela

Entornou-se todo o caldo


E o mosquito já não grita
Porque o grande mestre Oswaldo
Vai dar cabo da maldita

Foi-se (.........),


Foi de embrulho,
Foi de embrulho a passeata
Um manata fez barulho,
Arrumou-se a grande lata
Diz o Oswaldo da amarela
Que lhe tira o seu topete
Antes de 7 de março
De 907

(Ri)


Pois compra sempre o Oswaldo
Por subir com o figurão
Ratos 300 réis
Camundongos a tostão
Isso todo vale cobre
E o micróbio lança grito
Porque o Oswaldo anda comprando
Esqueleto de mosquito

Fiz economia, fiz barulho


Foi de embrulho, passeata,
Um manata fez barulho,
Arrumou-se a grande lata
Diz Oswaldo da amarela
Que lhe tira o seu topete
Antes de 7 de março
De 907

(Ri)


Que ela acaba ou não acaba
Se apertar muito as varetas
Machucar todo o micróbio
Eu estou vendo as coisas pretas
Quero o tal mata-mosquito
Pra que não se faça feio
Que se bote (...........)
Que tem mais de metro e meio

E a economia foi de embrulho


Foi de embrulho, passeata
Um manata fez barulho,
Arrumou-lhe a grande lata
Diz Oswaldo da amarela
Que lhe tira o seu topete
Antes de 7 de março
De 907

6 - Capanga Eleitoral (1904 -1907)


Autor: Barros
Intérprete: Barros
Gênero: Humor
Gravadora: Odeon

Não se sabe o ano exato da gravação, feita entre 1904 a 1907. A música refere-se a uma prática muito comum nos tempos do Império, que continuou a existir na República: a violência no dia das eleições (a esse respeito, ver também “Eu vou à feira”, de 1930).

A menção aos “tempos do cacete velho” certamente tem a ver com a chamada ”Eleição do Cacete”, de 1840, vencida pelos liberais, marcadas por tumultos generalizados. No império, os capangas que afugentavam das proximidades das seções os eleitores adversários eram também chamados de “cacetistas”.

Na música, o capanga eleitoral, já idoso, conta suas proezas e rememora as pancadarias em que se meteu. Tanto fez que acabou desterrado na ilha de Fernando de Noronha.



“Foram-se os tempos em que a sorastite (?)
Dava um fidalgo de barril (......)
Eram nos tempos do cacete velho
Junto de umas terras onde eu punha o pé
Quantas histórias que eu contei um dia
Do meu reinado que já lá se vão
Cartas eu dava, bajulado eu era
Tinha excelências pruma eleição

(.....) fazia de meus pulos quera (?)
Dez mil urbanos sempre conquistei
Na cabeçada derrubei mil caras
Numa rasteira muitos tombos dei
Quando eu pulava qual cabrito novo
Brincando à frente da procissão
Alas abria num (...) doido
Rodopiava mais do que um pião

Não passe perto da navalha minha
Pelo gostinho de me ver a só
Triscava um traço de união com sangue
Num corpo quente sem pesar nem dó
Gente traidora que na própria igreja
Tira essa imagem da vida ruim
A minha faca não fazia graça
E Deus parecia desviar de mim

Não tinha pernas que sambassem todos
Quando a crioula me desanda a olhar
E se me olhava (............) dengosas
Senti meu peito de paixão magoar
Mas ai daquele que ........... fizesse
Num danço samba com esse brucutu
(.............) samba eu sei
Matava bifes de batata, fu

Mas se a crioula descorna (?) um cabra
Pagava caro por querer sair
Tudo certo, já leva e pronto
Nunca fez graça, ninguém sorrir
Eu por ciúme de mulher sincera
(........................) real
No ferro velho, no cacete certo
Na campadagem nunca vi rival

Deixo o meu nome à execução da pátria
Eu fui magro e vivi no lé
A minha gente não retinia
Quando eu me rolo espalhava o pé
Hoje estou velho, escangalhado e pobre
Mas a parceira (.........ar)
Foram-se os tempo de prazer e glórias
Mas muito pronto para me elogiar

Não, não me lego à execução da pátria
Aos poderes de (.........) que eu sei
(.............) e ao cacete executado
Da monarquia segundo o rei
Arrebatou-me da cidade um dia
Um certo ingrato (............)
Fui pra Fernando de Noronha logo
Que um raio pode se desculpar”

7 -As eleições de Piancó (1912)


Intérprete: Eduardo das Neves
Gravadora: Odeon

A música faz uma crítica feroz ao sistema eleitoral da República Velha, em que os votos depositados nas urnas valiam menos do que as atas produzidas pelos membros das seções eleitorais – a famosa “eleição a bico de pena”. Goza também a “degola” – antes da posse, os eleitos precisavam passar pelo crivo das comissões revisoras das câmaras municipais, do Senado e da Câmara, que tinham poderes para confirmar ou não os mandatos legislativos.

Freqüentemente, nos bastidores, os vencedores transformavam-se em vencidos e vice-versa. Diante de um quadro viciado como esse, para Eduardo das Neves, os eleitores não passavam de “toleirões”. “Acreditam em eleições”, espantava-se o compositor.
Em tempo: a legislação da época permitia a inscrição de candidatos avulsos, ou seja, sem partido.

A referência a Piancó, cidade do interior da Paraíba, parece ser fortuita. Os fatos e procedimentos criticados não ocorriam apenas no município do interior da Paraíba. Obedeciam a um padrão existente em todo o país.



“Anda um certo fato
Que corria o Rio de Janeiro
Correm tantos boatos
Que circulam o mundo inteiro.

Agora há nessa época
De tantas revoluções
O quadro que nos inspira
É o das tais eleições.

(fala)
Ora, (?)
- Porque quem foi eleito foi o Sr. Fulano dos Anzóis Carapuça etc e tal, General.
- E o outro não?,
- Senhor, quem foi eleito foi o Sr. Dos Anzóis Carapuça etc. e tal, (...).
- Ora, senhor, eu então entro no meio dessas conversações e discussões.
- Meus camaradas, sabe quem foi eleito? Fui eu. Pelo Estado Maior da cidade de Bananeiras, onde eu sou vereador municipal, sou intendente, e sou general, sou comandante das Forças de Operações. Onde ficam todos babosos pela minha alta posição e eu saio rindo.

(Ri)
Ah! Ah! Ah!
Eh! Eh! Eh!
Ó que grandes toleirões
Ah! Ah! Ah!
Eh! Eh! Eh!
Acreditam em eleições.
Ah! Ah! Ah!
Eh! Eh! Eh!
Isso não passa de brincadeira
Ah! Ah! Ah!
Eleições são verdadeiras.

(Ri e fala)
ah, ah, ah, ah. Eleições nada... Se houvesse eleições sérias, minha vó seria ministra da Guerra...............

Se houvesse eleições que fossem sérias
Eu então diria prum certo vereador:
Meu compadre, por amizade,
Seria um grande doutor
Haveria de ser contente
O nosso presidente

E então lá do Palácio
Ah! Ah! Ah!
Eh! Eh! Eh!
Ele ia comandar o povo
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
(...............)
Ih! Ih! Ih!
Ih! Ih! Ih!
Que fazia tudo novo
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!

(Fala)
Faz uma idéia do meu compadre, que é lá do Piancó, como presidente do Palácio. Que coisa bonita não fazia…

Vai de carruagem só
Pela rua, então, então
A fazer o seu bonito
Fon, fon, fon
Fon, fon, fon
E um tal de automóvel
Pela rua a passear
Saiu andando na avenida
Que o povo chama Centrá

(Fala)
- E eu então todo recostado ao lado do meu compadre presidente.
- E eu como ministro, já sabe? Foi nas eleição que fui eleito, embora fosse a cacete, ou a pedrada, não sei. Fui eleito sem ser reconhecido avulso. Porque meus camarada lá em Piancó, de cada família lá por trás, na casa da filha do ............ tem um compadre que também foi eleito. Então quando ele passa por mim me cumprimenta:

O compadre como vai
Ah! Ah! Ah!
Cumprimenta bem contente
Eh! Eh! Eh!
Agora vereador
Ah! Ah! Ah!
Mais tarde presidente
Eh! Eh! Eh!”

8 - A Revolução no Paraná (1913)


Intérprete: Eduardo das Neves
Gênero: Humor
Gravadora: Odeon

A música aborda um dos conflitos sociais mais sangrentos da história brasileira, a Guerra do Contestado, travada numa faixa de fronteira disputada por Santa Catarina e Paraná. Como ocorrera em Canudos anos antes, os camponeses pobres da região, liderados por um beato, resolveram construir um mundo menos injusto aqui na Terra.

A partir de 1912, concentraram-se em Campos do Irani, hoje município da Concórdia (SC), vivendo em comunidades religiosas e enfrentando as milícias dos fazendeiros locais.
Tropas enviadas pelo governo do Paraná, então presidida por Campos de Carvalho, foram batidas pelos camponeses armados. No confronto, morreram o monge José Maria e o comandante das tropas, coronel João Gualberto Gomes de Sá. A morte do beato, longe de debilitar o movimento, reforçou-o, pois a fama de santo do monge atraiu lavradores de outras regiões e impulsionou o surgimento de novos líderes.

O conflito só foi sufocado em 1916, com a intervenção de forças federais. No mesmo ano, o Paraná e Santa Catarina chegaram a um acordo. Estima-se que 6 mil pessoas morreram na Guerra do Contestado. É possível que a música de Eduardo das Neves, pouco conhecida, tenha sido feita de encomenda, sob o impacto da morte do coronel João Gualberto. Mesmo assim é interessantíssima. Revela a visão das autoridades e da sociedade urbana sobre os movimentos messiânicos no campo, em que se misturam espanto, medo e preconceito diante do desconhecido.



“Tenham atenção senhores
Venho de Paranaguá
Tenham atenção, senhores
Venho de Paranaguá
Fugindo aos grandes horrores
Que vão ter no Paraná.

Um senhor José Maria,


Compadre fanfarrão,
Anda fazendo arrelia
Entre o povo do sertão

Esse tal de Zé Maria


É um Conselheiro novo (bis)
Com a sua profecia
Vai fanatizando o povo (bis)

A família sertaneja


Olvida afazeres seus
E do monte até a estradeira
Pensando ser ele um Deus

(Fala)
Eu é que não acredito que aquele monge seja deus. Um bicho tão feio, com cara de mono...

De aldeia em aldeia
Tal qual um judeu errante (bis)
Vai na sua odisséia
Esse monstro petulante (bis)

Vai ferindo, vai matando


Com seu rosário na mão
Aos matutos enganando
Prometendo a redenção (bis)

Doutor Carlos Cavalcante


Honrado governador (bis)
Deu providências urgentes
Mereceu grande louvor. (bis)

Mas a força enviada


Com seu bravo comandante
Lá foi toda decepada
Morreu tão fulminante

(fala)
Foi mesmo um horror a revolução do Paraná. O coronel João Gualberto morreu, mas morreu como um herói no posto de honra, defendendo a Pátria, defendendo seu torrão natal.”


09 - Moda da Revolução (1924)


Autor: Cornélio Pires e Arlindo Santana
Intérprete: Cornélio Pires e Arlindo Santana

Esta moda de viola somente foi gravada em 1929, mas, pela letra, deve ter sido composta em 1924 ou, no máximo, em 1925, quando a sorte da revolta das guarnições militares da capital paulista, liderada pelo general Isidoro Dias Lopes, ainda não estava decidida. Tanto que a dupla caipira sonha com a vitória dos revoltosos que se retiraram para o sertão: “Aí eu pulo e rolo no chão”.

O levante em São Paulo foi o mais bem organizado de todos os deflagrados pelo movimento tenentista, que reivindicava o afastamento do presidente Arthur Bernardes, mudanças radicais no sistema político, a adoção do voto secreto e a independência do poder legislativo, além da modernização do país.

Num primeiro momento, os rebeldes do Exército e da Força Pública conquistaram o apoio das principais unidades militares da cidade de São Paulo, controlando a capital e provocando a fuga do governador. Mas o governo, mobilizando tropas de outros estados, conseguiu fazer frente à situação, apelando inclusive para o bombardeio de alguns bairros da cidade, como Brás e Mooca, onde houve forte adesão popular ao levante. Depois de 23 dias de combates sangrentos, Isidoro decidiu recuar para o interior, fazendo a junção, na fronteira com o Paraná, com as tropas comandadas pelo capitão Luís Carlos Prestes, que haviam se rebelado no Sul (ver também “Nega Maria, no CD “Revolução de 30”).

Nasceu aí a coluna Miguel Costa – Carlos Prestes, mais tarde conhecida simplesmente como Coluna Prestes. Durante dois anos, sempre perseguida por tropas federais e estaduais, ela marcharia pelo sertão do Brasil, entrando pelo estado de Mato Grosso, atravessando o país até o Maranhão, percorrendo parte do Nordeste, retornando por Minas Gerais, dirigindo-se em seguida para a Bolívia, onde se dispersou em fevereiro de 1927. Ao todo, foram 25 mil quilômetros de marcha. A coluna não sofreu derrotas, mas tampouco logrou levantar o país.

Dois esclarecimentos: a) devido à idade, o general Isidoro Dias Lopes não acompanhou seus comandados na marcha da coluna Prestes, tendo se exilado na Argentina em 1925; b) o Potiguara citado na moda de viola é o general legalista Tertuliano de Albuquerque Potiguara, que comandou os ataques ao bairro da Mooca e participou da perseguição aos rebeldes no interior de São Paulo.

Deve-se assinalar também que “Moda da Revolução” marca a entrada da música caipira na crônica dos fatos políticos do país. Daí em diante, ela seria uma das principais fontes de acompanhamento das peripécias da política nacional, especialmente depois de 1929, quando Cornélio Pires bancou com dinheiro do próprio bolso as primeiras gravações das músicas cantadas no interior de São Paulo por sua companhia de espetáculos. O estrondoso sucesso comercial do selo “Caipira Cornélio Pires” – na prática, a primeira produção independente do país – levou a indústria fonográfica a rever seu descaso pelo gênero. Duplas foram contratadas pelas diversas gravadoras e discos prensados e lançados para atender a demanda de um público fiel e apaixonado. Quando a Revolução de 30 chegou, a música caipira estava em ponto de bala para contar a história toda.

A revolta de São Paulo
Para mim já não foi bão
Pela notícia que corre
Os revortoso tem razão
Aí estou me referindo
A essa nossa situação
Se os revortoso ganhar
aí eu pulo e rolo no chão.

Quando cheguei em São Paulo


O que cortou meu coração
Eu vi a bandeira de guerra
Lá na torre da estação
Se encontrava gente morto
Por meio dos quarteirão
Dava pena e dava dó,
Ai, era só da judiação

Na hora que nós seguimos


Perseguindo o batalhão
Saimo por baixo de bala,
Ai, sem ter aliviação
E a gente ali deitado
Sem alevantar do chão
É só bala que passava
Roncava que nem trovão

Zidoro se arretirou


Ai, lá pro centro do sertão
Potiguara acompanhou
Ai, mas prá fazer a traição
Zidoro mandou um presente
Que foi feito por sua mão
Acabaram com Potiguara
E acabou-se o valentão

Nós tinha um 42


que atirava noite e dia
Cada tiro que ele dava
e só mineiro que caía
E tinha um metralhador
que encangaiava com quanto havia
Os mineiro com os baiano
C'os paulista não podia


10- Eu vou à feira (1930)


Autor: Átila Soares

Intérprete: Ildefonso Norat

Gênero:Samba

Gravadora: Brunswick

O sambinha não tem maiores pretensões políticas e apresenta rimas sem pé nem cabeça –“agrião” com “eleição”, por exemplo –, mas registra bem o clima da época: a política estava danada, confusa, cheia de gente escovada (esperta), e descambando claramente para a violência. Por isso, quem tivesse juízo deveria tirar o corpo fora.

Como se vê, o ambiente em 1930 não era muito diferente daquele descrito em “Capanga Eleitoral”, uma das primeiras músicas dessa coleção, gravada no comecinho da República Velha. Eleição continuava sendo sinônimo de “cacete velho” e de intimidação do eleitor, como era corrente desde os tempos do Império.

“Eu vou à feira
Comprar agrião
Só depois de votar
Lá nas eleição (bis)

Que política mais danada


E que gente tão escovada (bis)

Mandaram o nêgo


Apanhar o cacete
E arrochar os votantes
Lá do Catete (bis)

Mas o nêgo que não é besta


(................) fazer a festa”

11 - Café com leite (1927)


Autor: Freire Júnior
Intérprete: Fernando
Gênero: Maxixe
Gravadora: Casa Edison

Poucos textos políticos seriam capazes de explicar de modo tão claro e com tanto talento a engenharia das eleições presidenciais na República Velha como "Café com Leite", da revista teatral do mesmo nome, encenada no início de 1926.

O mestre cuca, ou seja, o ocupante do Palácio do Catete, convocava os chefes dos executivos estaduais ao Distrito Federal ou mandava emissários aos estados, propunha os nomes dos candidatos a presidente e a vice e, ao final do processo, indicava a chapa oficial. Geralmente, ela era vitoriosa.

Apenas em algumas oportunidades, cozinheiros dissidentes opuseram-se frontalmente ao esquema do “café com leite” (São Paulo com Minas) e lançaram chapas alternativas. Nas eleições de 1o de março de 1926, por exemplo, o indicado por Arthur Bernardes, de Minas, Washington Luiz, de São Paulo, foi eleito facilmente. Teve mais de 688 mil votos, contra 1.126 do segundo colocado, o gaúcho Assis Brasil. Mas o sistema já estava exausto. Seria a última vez que ele funcionaria. Nas eleições seguintes, o país levantou-se na Revolução de 30.



“Nosso Mestre Cuca movimentou
O Brasil inteiro,
Cada um estado pra cá mandou
O seu cozinheiro.
Mexeu-se a panela, fez-se a comida
Com perfeição.
Assim foi a bóia, bem escolhida
Com precaução

Café paulista,
Leite mineiro,
Nacionalista
Bem brasileiro. (bis)

Preto com branco,
Café com leite,
Cor democrata.
É preto com branco,
Meu bem, aceite.
Cor da mulata.
O leite é bem grosso, café é forte
Agüenta a mão.
As novas comidas têm que dar sorte
Na situação

Café paulista...”


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