Marcas identificatórias da psicanálise luso-brasileira



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Salvador, ABP, 17/11/2007

Marcas identificatórias da psicanálise luso-brasileira
Cláudio Laks Eizirik
A primeira questão, e talvez a essencial neste tema, é: existe uma psicanálise luso-brasileira? Se existe, deve haver marcas identificatórias. Onde procurá-las? Iniciei assim a reflexão sobre este tema a partir de uma fonte simples, mas informativa: as referências bibliográficas dos trabalhos publicados na Revista Portuguesa de Psicanálise e na Revista Brasileira de Psicanálise.

Examinando os últimos números de ambas revistas, constata-se que, na Revista Brasileira de Psicanálise não se encontra qualquer menção a autores portugueses, em todos os trabalhos publicados. Na Revista Portuguesa de Psicanálise, há um artigo de um autor brasileiro, e nos demais trabalhos, apenas duas referências a autores brasileiros. Por outro lado, em ambas revistas encontram-se referências abundantes a autores norte-americanos e europeus, e em cada uma delas naturalmente diversas referências a autores de cada um dos respectivos países. O que isto parece significar? Minha hipótese é de que este dado singelo pode estar expressando uma realidade que marca as relações entre as psicanálises brasileira e portuguesa: o predomínio de um desconhecimento recíproco, que só recentemente estamos procurando modificar. Embora haja alguns contatos individuais, e convites recíprocos para visitas e apresentações de trabalhos, ou mesmo a presença de analistas de ambos países em eventos do outro, em termos globais pode-se dizer que cada psicanálise está vinculada a movimentos psicanalíticos de outros países, ou da mesma região. Para exemplificar, gostaria de descrever o que me parecem ser algumas marcas identificatórias da psicanálise brasileira, para depois examinar algumas hipóteses provisórias para tentar entender a atual relação entre as psicanálises lusa e brasileira.

A experiência de imigração estruturou a formação do caráter nacional brasileiro. O Brasil, um país de 8.547.403 quilômetros quadrados e uma população atual de 174.632.935, possui uma notável diversidade étnica e cultural, e ao mesmo tempo, graves diferenças socioeconômicas. Inicialmente habitado por várias tribos indígenas, o Brasil foi colonizado por portugueses a partir de 1500, e nos séculos seguintes esses primeiros colonizadores europeus mesclaram-se com indígenas, africanos (trazidos como escravos durante o século XVI) e espanhóis para formar os principais alicerces desse novo grupo étnico. (A presença dos holandeses e franceses na região nordeste do país foi uma influência adicional.) Durante os séculos XIX e XX ocorreram novas ondas imigratórias, trazendo alemães, italianos, japoneses, árabes, russos e poloneses, principalmente para as regiões sul e sudeste. Assim, a imigração é um fenômeno cultural que foi plenamente integrado à história do país, ajudando a criar uma sociedade multirracial cujas diversas expressões étnicas, a despeito da esporádica tensão acompanhada de violência e da existência de um certo nível de preconceito, hoje apresentam uma convivência predominantemente tolerante.

Assim como na sociedade brasileira em geral, a implantação da psicanálise no Brasil apresentou certa sinergia que pode ser observada entre seus diferentes elementos constitutivos. A história do movimento psicanalítico brasileiro pode ser dividida em três períodos. O primeiro se inicia em 1919, com a publicação das primeiras traduções de Freud: grupos de curta duração interessados em psicanálise foram criados, com a presença de psiquiatras e intelectuais destacados de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. O segundo período começou em 1937, com a chegada da psicanalista alemã Adelheid Lucy Koch em São Paulo para oficialmente começar a formar psicanalistas de acordo com os padrões estabelecidos pela IPA. Durante esse período, um dedicado grupo de pioneiros, enfrentando grandes dificuldades, esforçou-se para estruturar um sistema de formação e construir instituições sólidas, promovendo a presença da psicanálise na cultura. O terceiro período vai dos primeiros anos da década de 1950 até hoje, com o sucessivo reconhecimento da Sociedade de São Paulo (1951), da Sociedade psicanalítica do Rio de Janeiro (1955), da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro e da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (1963) caracteriza-se pela plena institucionalização e pelo desenvolvimento de uma prática psicanalítica acompanhada pela produção de teorias, publicações, congressos e uma intensa interface com a cultura, assim como pelas inevitáveis vicissitudes da vida científica institucional.

Como mencionado antes, existem atualmente sociedades reconhecidas pela IPA em Recife, Brasília e Pelotas, Ribeirão Preto, Campo Grande e grupos de estudo, assim como núcleos em várias outras cidades, cada um deles sob a responsabilidade de uma das sociedades oficiais.

Em termos de idéias analíticas, Freud é o autor mais importante, como se confirma pela avaliação objetiva de artigos e referências nas principais revistas brasileiras. Melanie Klein foi muito influente em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro – influência que diminuiu nas últimas décadas. Bion é um dos autores mais estudados, principalmente em São Paulo (onde seu trabalho moldou o pensamento analítico de seus membros) e em Porto Alegre. Em Recife, a psicanálise francesa é uma forte influência, seguindo a formação do pioneiro da cidade, José Lins de Almeida, e de outros colegas em Paris.

Em anos recentes, tem havido uma tendência crescente em estudar autores de tradições diferentes, como os pós-kleinianos britânicos (Segal, Betty Joseph, Steiner), freudianos contemporâneos (Sandler, Fonagy) e independentes (Winnicott). A tradição francesa também é cada vez mais conhecida, principalemnte mediante o trabalho de Lacan, Green, Laplanche, Chasseguet-Smirgel e MacDougall. Apesar do relativo menor interesse pela psicologia do ego e do self, alguns autores norte-americanos como Kernberg e Wallerstein são influentes. Desde o início do movimento analítico no Brasil, como demonstrado anteriormente, houve estreita ligação com a Argentina e com o trabalho de seus autores, principalmente Racker, Liberman e os Barangers. Atualmente, os autores influentes na Argentina são Horácio Etchegoyen, Norberto Marucco e Isidoro Berenstein.

A psicanálise brasileira, assim como a cultura brasileira, apresenta uma mescla de tradições e um desenvolvimento local específico. Existe um pensamento psicanalítico brasileiro? Essa pergunta foi tema de muitos debates nos últimos anos, e o cenário atual mostra que vários analistas brasileiros estão produzindo uma crescente mistura de contribuições teóricas e clínicas – entre eles, Fábio Hermann com sua teoria dos campos analíticos; Renato Mezan com seus estudos sobre o impacto cultural da psicanálise; Elias Rocha Barros com suas contribuições à técnica analítica.

Em todas as instituições analíticas existe uma vida científica muito ativa e uma interface crescente com a cultura circundante. Mais recentemente, a influência da psicanálise na medicina e na psiquiatria diminuiu, mas existem muitos centros universitários em atividade, onde a pesquisa e os estudos de doutorado atraem muitos estudantes.

Os principais desafios atualmente enfrentados pela psicanálise no Brasil são: manter sua relevância como tratamento efetivo; manter elevados padrões de formação, a despeito das dificuldades econômicas; encontrar um modo adequado de regulamentá-la ou regulá-la como profissão; expandir sua presença na universidade e na cultura; tornar a produção teórica e clínica brasileira mais conhecida no exterior (Eizirik, 2002).

Isto posto, retornemos à questão proposta anteriormente: tendo em vista a existência de uma língua comum e uma longa história compartilhada entre os dois países, por que razão as psicanálises brasileira e portuguesa têm se mantido predominantemente distantes?

Penso que precisamos aqui ousar lançar um olhar mais abrangente e entender um certo estranhamento que parece existir entre Portugal e Brasil. Talvez uma expressão do conflito entre pais e filhos, no momento da separação, levado ao nível social, é como se, passado um período de íntimo convívio, pais e filhos, ou matriz e colônia, afastam-se, algo ressentidos e com queixas recíprocas. Neste caso, os pais portugueses queixam-se da ingratidão dos filhos brasileiros que se independizaram e foram procurar outros modelos e outras parcerias. Os filhos brasileiros queixam-se da exploração de que foram vítimas, e do abandono dos antigos pais que passaram a se integrar na comunidade européia.

Em suma, metaforicamente, pode-se dizer que Brasil e Portugal passaram a viver de costas um para o outro. Como diria Chico Buarque: “tanto mar a nos separar”. Isto ecoaria o poema de Fernando Pessoa: “Oh mar, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal”.

Que mar é este que tem nos separado ao longo de séculos? Como já aludi, penso ser o mar do ressentimento, o mar da desconfiança, o mar das piadas depreciativas, o mar da indiferença, o mar da inveja recíproca. Por que inveja? Porque, assim como na relação entre pais e filhos, temos nessa relação entre dois povos e dois países com tudo para serem fraternos, sentimentos hostis e invejosos, nos termos descritos por Melanie Klein: por um lado a inveja do novo, do enorme, do continental Brasil e de suas inúmeras riquezas e quase infinita potencialidade. Do outro, inveja do tradicional e europeu Portugal, com sua história e sua recente expansão em níveis de comunidade européia.

Uma das defesas contra a inveja, que em essência impede o reconhecimento do que há de bom no objeto, consiste em negá-la e desprezar o objeto. A tríade maníaca descrita por Klein – desprezo, triunfo e controle – pode ser invocada aqui. Portugal volta-se para a França; o Brasil volta-se para a Argentina.

Ao mesmo tempo, a outra face dessa complexa relação aparece quando se visita, como no caso brasileiro, Lisboa e outras regiões de Portugal e os nomes, os locais, os hábitos, as comidas, produzem associações imediatas com um passado comum e um presente cheio de semelhanças. Algo análogo deve ocorrer com portugueses visitando o Brasil.

Além disto, apesar de haver no passado uma situação de matriz e colônia, em termos culturais tanto Brasil como Portugal têm aspectos de colônia e de consumidores do que é produzido nos grandes centros, inclusive produtores de idéias psicanalíticas.

E, no entanto, apesar desse desconhecimento no campo psicanalítico, o paradoxal é que nas artes, na literatura, no teatro, na televisão, e mesmo na economia o que se observa é uma crescente troca e tendência à escuta recíproca. Não deve ser por acaso, ou por alguma idiossincrasia pessoal, o fato de que iniciar meu discurso de posse na presidência da IPA com uma citação de Camões que está inscrita em seu túmulo, no impressionante Mosteiro dos Jerônimos: “Para servir-nos, braço às armas feito / para louvar-nos, mente às musas dada.”

Ora, o que se observa nestes últimos anos? Um movimento de descentralização da psicanálise. Algo semelhante à escuta analítica, como propõe Baranger: descentrar o discurso do paciente. Esse movimento nos revela que, na psicanálise internacional, a clássica relação entre as matrizes inglesa, francesa, norte-americana, argentina e os demais centros, predominantemente importadores e habituados a uma postura de colônia, vem sendo questionada a ativamente confrontada. Um exemplo disso é o CAPSA, que visa exatamente estimular o intercâmbio entre as três regiões geográficas, dentro de uma distribuição mais equilibrada e recíproca.

Em anos recentes autores psicanalistas italianos, alemães, uruguaios, brasileiros, canadenses, australianos, espanhóis têm sido cada vez mais solicitados a participar e visitar outros centros.

Também cabe destacar o papel dos encontros clínicos entre regiões e entre sociedades de duas regiões ou da mesma região.

Alias, dentro desse espírito que norteou a criação do CAPSA, o próximo congresso da IPA será justamente sobre Prática Analítica: convergências e divergências.

Por todas essas razões a emergência do encontro luso-brasileiro de psicanálise insere-se nesse movimento de descentralização e de busca ativa de ressonância e identidade entre grupos que ainda estão em desenvolvimento e que podem apoiar-se e estimular-se mutuamente.

A criação de um pólo psicanalítico unido pelo idioma comum, e que deve incluir os países africanos de língua portuguesa representa um estimulante desafio. O diálogo que estamos desenvolvendo tem como pano de fundo a ambivalente relação anterior entre matriz e colônia, com seu conjunto de identificações, competições, trocas e violências recíprocos. Ao mesmo tempo, temos como estímulo os diálogos e mútuas influências que unem, real ou simbolicamente, Camões, Eça, Fernando Pessoa, José Saramago, Mia Couto, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Rubem Fonseca, Carlos Drummond de Andrade.



Aliás, é deste poeta justamente a proposta que talvez estejamos agora desenvolvendo, naquilo que considero a marca identificatória central da psicanálise contemporânea: seu caráter de uma obra em construção. Assim, podemos concluir dizendo com Drummond: ”oh vida futura, nós te criaremos”.






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