Manual de procedimentos básicos em microbiologia


INFECÇÕES INTESTINAIS INTRODUÇÃO



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4.INFECÇÕES INTESTINAIS



INTRODUÇÃO

A doença diarréica continua a figurar como o maior problema da saúde humana. Foi estimada uma ocorrência de um bilhão de episódios de diarréia no mundo por ano em crianças abaixo de cinco anos de idade, resultando em 5 milhões de óbitos. A diarréia é particularmente devastadora em crianças que sofrem concomitantemente de doenças infecciosas, como sarampo, imunodeficiência e subnutrição protéica, fatores muito freqüentes nos países em desenvolvimento. Em tais países, estima-se que a criança apresenta três a quatro vezes mais episódios de diarréia por ano do que as que vivem em países de elevado nível de saneamento básico e com sistemas adequados de suprimento de água.


Embora a morbidade e a mortalidade devido à doença diarréica sejam mais importantes em crianças lactentes, esta enfermidade tem impacto importante também em adultos. Os adultos em média sofrem de um a dois episódios de diarréia anualmente. Este fato resulta em custos econômicos devido à utilização das fontes de recursos para saúde e perda da produtividade.
As causas das síndromes gastrointestinais acompanhadas de dor, diarréia ou desinteria podem ser:

  • Infecciosas, causadas por bactérias, fungos (menos freqüentes), vírus, parasitas e protozoários.

  • Não infecciosas, alérgicas, causadas por erro alimentar, envenenamento, etc.

O custo para se fazer um exame de fezes de qualquer paciente para todos os patógenos em potencial descritos na literatura é proibitivo. Devem ser desenvolvidas estratégias para assegurar a maior taxa de positividade possível, uma vez que a coprocultura tem um custo alto por resultado positivo.


A identificação daqueles casos de doenças diarréicas causadas por agentes que necessitam de terapia que não seja apenas a hidratação oral é de particular importância. Também é importante identificar o agente etiológico responsável por surtos de toxinfecção alimentar, para que as técnicas de manuseio alimentar possam ser notificadas para prevenir transmissões posteriores.
A maioria dos casos de diarréia comunitária em adultos é de causa inflamatória e, as fezes, podem ser triadas para verificar a presença de leucócitos através da coloração de azul de metileno. Entretanto, a sensibilidade da pesquisa de leucócitos nas fezes é menor que 90%. A ausência de leucócitos não poderá descartar agentes causadores de diarréia inflamatória, mas a presença destes pode diferenciar dos agentes causadores de diarréia não inflamatória, incluindo microrganismos toxigênicos como Vibrios, E. coli (ETEC), agentes virais e certos agentes parasitários.
Nos meses de inverno, as crianças com diarréia devem ser triadas primeiro para Rotavirus e, somente quando o exame for negativo, as amostras fecais devem ser testadas para outros patógenos bacterianos.
Estudos de vigilância realizados por Laboratórios de Referência, como triagem de fezes para vários agentes por um período de 3 a 6 meses e a avaliação do impacto destes estudos na taxa de positividade do exame de fezes, poderão auxiliar na determinação de quais microrganismos deverão ser incluídos na triagem de rotina pelos laboratórios que atendem a comunidade.
Um outro papel importante que o laboratório desempenha no controle da diarréia de pacientes da comunidade é na detecção de surtos de fontes comuns. O laboratório deve notificar as autoridades da Saúde Pública toda vez que houver crescente isolamento de patógenos entéricos. Por exemplo, em muitas instituições infantis como a creche, o isolamento de mais de um caso de Shigella spp. em crianças menores de cinco anos de idade, dentro de um período de uma semana, poderá sugerir um surto de shigelose.
A diarréia de origem hospitalar é descrita na literatura como um episódio que ocorreu após três dias de internação. Esta definição é razoável quando se reconhece que certos pacientes, serão admitidos no hospital devido a sintomas de diarréia (especialmente em crianças pequenas) ou pode ter episódio de diarréia auto-limitada, geralmente induzida por vírus durante ou próximo ao momento da internação.
Em crianças, o Rotavírus é a causa principal de infecção hospitalar sendo este o único agente para o qual as fezes de crianças com diarréia desenvolvida no hospital devem ser rotineiramente pesquisadas. Em adultos, os estudos têm mostrado que o Clostridium difficile é o único agente bacteriano confiavelmente detectado em fezes de pacientes com diarréia de origem hospitalar.
Deve-se entender também que alguns pacientes, particularmente os imunocomprometidos e em destaque os portadores de HIV, podem estar infectados com mais que um agente e que o encontro de um agente infeccioso não exclui a possibilidade da presença de outros; assim, o exame deve ser realizado de forma completa.


PRINCIPAIS CAUSAS INFECCIOSAS DE DESINTERIA





Evacuação acompanhada de tenesmo, sangue, muco e dor

  • Desinteria bacilar: Shigella spp., E. coli (EIEC)

  • Campylobacter jejuni

  • Desinteria amebiana: Entamoeba histolytica

  • Outros protozoários: Balantidium coli, Giardia lamblia

  • Parasitas: Schistosoma mansoni, Strongyloides stercoralis, Trichinella spiralis, Cyclospora spp., Microsporidium spp.

  • Vibrio cholerae e Vibrio parahaemolyticus

  • Febre tifóide: Salmonella typhi e outras Salmoneloses

  • Yersiniose - Yersinia enterocolítica

  • Proctite gonorreica, sifilítica, por Chlamydia e herpética



Diarréia

  • Intoxicação alimentar por Staphylococcus aureus, Bacillus cereus, Clostridium perfringens, Clostridium botulinum

  • E. coli enterotoxigenica (ETEC)

  • E. coli enterohemorrágica (EHEC)

  • E. coli enteropatogênica (EPEC)

  • E. coli entero-agregativa (EaggEC)

  • E. coli difusamente aderente (DAEC)

  • Enterocolite necrotizante do recém-nascido, enterocolite pseudomembranosa (Clostridium difficile), diverticulite, tiflite ou enterocolite do neutropênico/ imunossuprimido

  • Helicobacter pylori

  • Rotavirus

  • Norwalk vírus

Nas últimas duas décadas o conhecimento sobre agentes virais, bacterianos e protozoários e os mecanismos pelos quais a diarréia é produzida (induzida) expandiu-se bastante. Por exemplo:



  • Retocolite ulcerativa e doença de Crohn.

  • Diarréia crônica causada por Cryptosporidium spp. e por Isospora spp., reconhecidos como um dos maiores problemas em pacientes aidéticos

  • Surtos de diarréia devido à contaminação da rede de água pública com Giardia lamblia.

A detecção do patógenos entéricos bacterianos é complicada pela presença de microflora fecal normal abundante e complexa. Tal flora aparece logo após o nascimento, envolvendo o intestino grosso durante o primeiro mês de vida, principalmente em resposta à mudança da dieta alimentar. Por volta do primeiro aniversário, a microflora intestinal é totalmente estabelecida e permanece durante a vida inteira, a menos que seja induzida uma grande mudança pela terapia antimicrobiana.


A flora fecal obtida de adulto normal contém entre 1011 -1012 microrganismos por grama de fezes, das quais 99% são anaeróbios estritos, predominantemente os pertencentes aos gêneros: Bacteroides, Fusobacterium, Bifidobacterium, Eubacterium e Propionibacterium. Quando comparados com a microflora fecal facultativa, esta é mais modesta em número e variedade, com 108 - 109 organismos por grama de fezes.
O desafio para o microbiologista clínico é a tentativa de detectar vários enteropatógenos em meio incrivelmente complexo. As infecções intestinais ocorrem em função de fatores ligados ao hospedeiro, como baixa acidez gástrica que reduz significativamente a dose infectante, como sua microbiota, imunidade, motilidade, etc. E fatores ligados ao agente, destacando-se os fatores de virulência e inóculo.


Dose infectante de patógenos intestinais


Shigella

10 – 102 UFC/ml

Campylobacter jejuni

102 – 106 UFC/ml

Salmonella

105 UFC/ml

E. coli

108 UFC/ml

Vibrio cholerae

108 UFC/ml

Giardia lamblia

10 – 102 cistos

Entamoeba histolytica

10 – 102 cistos

Cryptosporidium parvum

1 – 103 oocistos


Escherichia coli

As cepas mais importantes com potencial de causar diarréia são: E. coli enterohemorrágica (EHEC) ou produtora de toxina Shiga, E. coli enterotoxinogênica (ETEC), E. coli enteropatogênica (EPEC) e E. coli enteroinvasora (EIEC). Outras E. coli produtoras de toxina e outros fatores de virulência, como a E.coli enteroagregativa (EaggEC) foram descritas, mas de importância clínica ainda não bem definida.


EHEC - E. coli produtoras de toxina Shiga (verocitotoxina) características são a O157:H7, mas mais de uma centena de outros sorotipos podem produzir esta toxina. A E. coli O157:H7 é a mais bem estudada e esta relacionada a síndrome hemolítico urêmica, caracterizada por trombocitopenia, anemia hemolítica einsuficiência renal aguda. Em geral é encontrada em produtos de origem animal como carne, leite e derivados, mas pode também ser disseminada através de água não clorada, alimentos, etc. Dose infectante é baixa, por isso pode ser transmitida de pessoa a pessoa. A sorotipagem é o método de triagem mais comum, existindo antisoro específico para O:157 (simples) ou teste com partículas de latex, devendo a cepa ser enviada ao laboratório de referência para confirmação.
ETEC - E. coli produtoras e enterotoxinas LT e ST, não são distinguidas de outras E. coli por métodos bioquímicos e sua caracterização somente é realizada por laboratórios de referência, o que dificulta seu diagnóstico. É comum em crianças e uma das causas da diarréia dos viajantes. Raramente encontrada em surtos.
EPEC - As E. coli enteropatogênicas conhecidas como clássicas, são dezenas de sorotipos de E. coli não produtoras de enterotoxina e não invasoras, que são causa freqüente de diarréia em crianças em países em desenvolvimento, podendo ocorrer em surtos hospitalares. O quadro clínico característico é a diarréia severa, não sanguinolenta, prolongada, associada à má-absorção e desnutrição. O diagnóstico é realizado por triagem com soros polivalentes contendo anticorpos contra antígenos somáticos (O) e capsulares (K) específicos para os sorotipos prevalentes. Existem comercialmente soros monovalentes para caracterização específica. A sorotipagem pode dar resultado falso positivo, que pode ser reduzido com sorologia para antigenos H ou provas de virulência em Laboratórios de referência .
EIEC - São E. coli que invadem as células epitelias do cólon, causando síndrome semelhante à causada pela Shigella com diarréia aquosa, cólica e eventualmente diarréia sanguinolenta. São menos freqüentemente isoladas que as E. coli anteriormente descritas. Em geral as cepas são lisina desaminase negativas e imóveis. Existem comercialmente soros polivalentes e monovalentes contra os sorotipos prevalentes. A duração do período de incubação pode sugerir alguma etiologia específica principalmente quando há surtos.

Sintomas associados a patogenia da doença diarréica


Variável

Produção de Toxina

Invasão Tecidual

Consistência das fezes

Aquosa

Amolecida

Volume fecal

Grande

Pequena

Vômito

Presente

Ausente

Febre

Ausente

presente

Desidratação

Importante

Leve

Sintomas após inoculação

Poucas horas a 2 dias

1 a 3 dias

Leucócitos nas fezes

Negativo

presentes

Sangue e muco nas fezes

Negativo

presentes

Local de infecção

Intestino delgado

Intestino grosso

A procura do agente etiológico de diarréia, desenteria ou dor abdominal, deve-se contar com a colaboração importante do médico, dando informações clínicas e se possível a suspeita clínica para orientar quais os agentes a serem pesquisados. Constituem informações importantes:



  • Idade do paciente

  • Principais sintomas: diarréia, presença de sangue, pus ou muco, tenesmo, dor abdominal, freqüência e volume das evacuações, febre, quadro simultâneo em outras pessoas do convívio.

  • É imunossuprimido? Diarréia após uso de antibióticos? etc.

  • Pedido específico quando suspeitar de agentes como cólera e campylobacter.

  • No exame proto-parasitológico é necessário especificar a pesquisa de Cryptosporidium spp. e Isospora belli.





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