Jane Porter



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CAPÍTULO TREZE

Joelle reparou no divertimento dele quando os olhos verdes pousaram no seu rosto, e pôde jurar que Leo sorria, saboreando a des­graça dela em segredo.

— Você planejou tudo - acusou, cruzando os braços, tentando impor o máximo de distância possível.

O olhar sombrio de Leo fulgurou. Os dentes reluziram em um puro sorriso predatório.

— Foi mesmo. Encomendei a tempestade quando fiz a reserva no hotel.

Ela desviou os olhos, incapaz de encarar aquele intenso olhar. Leo a estudava, possessivo, e tudo nela pareceu desabrochar.

— Não podemos simplesmente sentar aqui.

— Por que não?

Joelle rangeu os dentes e sentiu uma arrebatadora onda de de­sejo. Não era justo que ele continuasse lindo. Não era justo que a cada vez que a fitasse fizesse-a sentir como a única mulher da ter­ra. Não era justo que aquele olhar a deixasse tensa, voluptuosa.


  • Porque isso é uma espelunca.

  • Eu estou confortável.

  • Mas eu não. Eu não confio em você.

  • Você nunca confiou.

Ele era maior do que Joelle recordava, mais forte, mais robusto. Relembrou o desejo, porém não o fascínio que exercia sobre ela, e de algum modo, sentada nessa minúscula mesa de bar, sentiu-se incrivelmente ameaçada. Leo representava tudo o que desejava. E também tudo o que temia.

Acaso permitisse que Leo se aproximasse mais, ele a possuiria de novo. Joelle duvidava da segurança das barreiras que construiu contra ele, das defesas que erigiu em torno do coração.



  • Meu avô enviou você? - indagou amarga, os braços cruza dos ao peito, como se pudesse manter o coração a salvo.

  • Não.

  • Ele sabe que você está aqui?

  • Não. Eu devia ter pedido a permissão dele para visitá-la?

  • Então o que você quer?

  • O que você acha, bella?

Ela sentiu um aperto no coração, comprimiu os seios com os punhos, a pele macia, o íntimo ardente, lívido de emoção... espe­rança... mágoa... sonhos.

  • Você não pode me ter.

  • É claro que posso. Eu fui feito para você...

  • Não.

  • Justo como você foi feita para mim.

  • Besteira.

Ele riu tranqüilo, o som rouco inundando os ouvidos dela, aca­riciando os sentidos exaltados.

  • Permiti que tivesse um tempo, mas nunca desisti de você.

Encarou-o incrédula.

  • Um ano se passou, Leo, um ano. Não existe mais nenhum relacionamento, nenhum noivado, nenhum casamento...

  • Não ainda.

  • Nem nunca.

  • Você ainda me quer tanto quanto eu quero você.

Joelle virou a cabeça, a fúria roubou-lhe as palavras, a voz, a respiração. Como ele podia fazer uma coisa dessas? Como podia vir aqui e fazer declarações tão arrogantes? E como podia fazer tais suposições ainda por cima?

  • Você não tem idéia do que eu quero.

  • Não? - Pronunciou a palavra tão baixinho que os pêlos da nuca de Joelle arrepiaram.

Com o peito em chamas, ela forçou-se a levantar o queixo e encarar aquele olhar debochado.

— Não - arremedou em resposta.

Leo não faria aquilo com ela novamente... subjugar, espezi­nhar, usar seu próprio corpo contra ela. Desta vez estava atenta.

Se a queria de verdade, então deveria conquistá-la pelo coração, não pelos instintos.



  • Deixe-me contar-lhe uma história - disse ele.

Ela quase gargalhou.

  • Acho melhor não.

  • Mas é uma história interessante.

  • Duvido.

Os olhos dele se aguçaram.

— A sua mão está traindo você, bambina. Você está reveladora demais. Se acaso espera mostrar-se indiferente, então precisa de menos emoção. Você precisa demonstrar indiferença.

Ela corou e não comentou nada, querendo ver onde isso ia parar e sabendo que Leo tinha razão, embora saber que ele tinha razão não ajudasse.


  • Então me conte a sua história - retrucou, tentando parecer impassível.

Os lábios dele contraíram no mais tênue sorriso de divertimento.

  • Você tem que prometer que não dirá nada, e que não vai interromper.

De novo não. Joelle mal logrou manter o semblante imparcial.

  • Certo.

O triunfo flamejou nos olhos dele.

  • Era uma vez, não há muitos anos, uma garota chamada Josette Destinee d'Ville, mais conhecida como Star. Star veio de uma família muito pobre da periferia de Baton Rouge...

  • Já ouvi essa história.

  • Mas ela tinha uma voz incrível e sonhos grandiosos - continuou sem dar ouvidos à interrupção. - Ninguém trabalhava com mais afinco que Star e um dia ela se tornou a maior cantora pop da América. E então, no auge da carreira, Star conheceu um belo príncipe, ambos se apaixonaram e ela se mudou para a Europa com ele, desistindo da carreira.

Joelle sentiu cãibras no estômago.

  • Esta não é a minha história favorita.

  • Mas fica cada vez melhor.

  • Eu acho que não.

  • Eu acho. Já que conhece a história, deve saber que Star teve duas menininhas, duas princesas chamadas Chantal e Nicolette, e Star e o príncipe amavam muito as filhas. Mas Star não se sentia completa...

  • Porque sentia falta da música.

Leo sorriu

  • Não. Ela queria mais um filho, outro bebê Ducasse. E Star passou os seis anos seguintes tentando gerar aquele bebê tão especial. Ficou grávida outras três vezes e perdeu todos os três bebês no fim da gestação, e após o terceiro aborto o médico avisou que ela não poderia mais ter filhos.

Leo viu a tristeza e a dor nos olhos dela, o fulgor das lágrimas de todos aqueles anos de solidão.

De leve, tocou a face de Joelle. Ela não se retraiu, não o repeliu.

— Mas Star não conseguia aceitar que não haveria uma terceira criança. Queria essa criança, não podia explicar isso a Julien, nem a mais ninguém. Todavia Star não poderia ter outro bebê e por isso o príncipe tentou distrai-la, tentou empurrá-la outra vez para a música. Construiu um estúdio para ela, estimulou-a a voltar, a escrever músicas novamente, porém Star não queria a música. Queria um bebê. Havia mais um bebê para ela. Star sabia disso.

Lágrimas inundaram os olhos de Joelle, mas bravamente ela mordeu o lábio.

— E contrariando as ordens médicas, Star engravidou outra vez. Foi uma gravidez difícil, tão difícil quanto as outras, porém ela se recusou a perder o bebê, e lutou por aquela criança a cada etapa do caminho. Nove meses depois, Star deu à luz a menininha mais bonita de todas, e o Príncipe Julien e Star batizaram o bebê
milagroso de Joelle. E Star, com todas as suas abundantes conquistas, e todo o sucesso vibrante, enfim, sentiu-se completa.

Joelle não conseguia mais olhar para ele, suportar mais nada. As lágrimas rolaram pelas faces e esforçou-se para enxugá-las, embora houvesse mais lágrimas que mãos, e sufocou um soluço. Não podia desmoronar desse jeito na frente de Leo.

— Não é de admirar que tenha tanta vontade de ser você mesma. Você tem a sua mãe no coração, e todos os seus sonhos e desejos dentro de você.

Joelle sabia que estava prestes a desabar, explodir, ciente de que gastou tempo demais tentando ser forte e independente, ten­tando ficar bem sozinha. Contudo estava solitária. E foi duro. E sentia saudades de casa e dos pais e da família.

Sentia falta de amar e ser amada. Sentia falta de Leo mais do que nunca lograria descrever.

De súbito, Leo tomou-a nos braços, abraçando-a forte.

— Você merece o melhor. Você merecia o melhor de mim.

Joelle não conseguiu responder, não encontrou palavras para expressar qualquer das emoções desconexas que a inundaram. Foi um ano tão difícil, um longo ano solitário. E é claro que enquanto parte dela esperava vê-lo de novo, ela não pensou honestamente que jamais teriam outra chance. Começou a pensar que o relacio­namento deles era reles química, um impulso sexual que não tinha nada a ver com os corações de ambos, as carências emocionais, e, no entanto, ali estava Leo, abraçando-a, o coração batendo forte. Aninhou a face molhada no pescoço dele sem querer pensar, só sentir. Ninguém jamais a abraçou dessa maneira. Ninguém jamais fez com que se sentisse tão viva.



  • Senti sua falta.

  • Foi um inferno ficar longe de você.

Tomando fôlego, Joelle descobriu que nunca enjoou do aroma, da força dele, do modo como olhava para ela e a fazia queimar.

  • Então por que ficou?

  • Eu tinha coisas a resolver.

  • Como o quê? - A voz embargou, o ressentimento e a carência aparentes.

  • Como chegar a termos com o meu passado. Aceitar o fato de que andei muito zangado com a minha mãe, que precisava controlar a raiva ou ela arruinaria o futuro. Era isso que já estava destruindo a relação que eu desejava ter com você.

Ela mal conseguia respirar, forçar o ar a entrar nos pulmões, de tão concentrada nas palavras que ecoavam na sua cabeça.

— Estou envergonhado por ter colocado aquele bracelete de vigilância em você, bella. Envergonhado por magoá-la e manipulá-la. Eu estava tão desesperado... tão determinado a não perder você. Amar você tanto assim me encheu de medo.

Amar você...


  • Você me ama?

As pontas dos dedos acariciaram-lhe a nuca, desenhando círcu­los lânguidos com tanta doçura que ela palpitou da cabeça aos pés.

  • Mais do que pensei ser capaz de amar alguém.

As mãos de Joelle agarram a camisa dele, apertando o tecido nos punhos. Leo estava proferindo as palavras que ela necessita­va, as palavras pelas quais ansiava e ainda... ainda assim... sentiu medo, medo da esperança, medo de acreditar.

  • Aprendi muito este ano - acrescentou ele -, me esforcei muito para fazer as pazes com a minha mãe, perdoar pelo que me causou, pelo que não pôde me dar, e estou pronto para um futuro com você, pronto para a vida que quero viver ao seu lado.

— Só por causa de Melio, não é?

Ele gargalhou.

Bella, eu sou revoltantemente rico, com mais mansões e casarões e solares do que idéias do que fazer com eles. Não preciso de Melio nem de Mejia. Mas preciso de você. Eu amo você. Não quero ir para a cama nunca mais sem lhe dar um beijo de boa-noite. Não quero acordar sem ter você ao meu lado.


  • Pois aposto que as mulheres são loucas por você - fungou, tentando conter as lágrimas que empoçavam nos olhos.

  • Mas eu quero a mulher que me deixou louco - redargüiu, levantando o queixo dela para enxugar-lhe as lágrimas. - Eu quero a mulher que me fez amadurecer, encarar a mim mesmo, encarar meus temores. Você me transformou, me fez mais forte, mais generoso, me fez real. E há tanto envolvido... tanto que sentimos para desistir sem lutar. Estou lutando por nós dois agora, Joelle. E continuarei lutando. Diga-me que vai lutar, também.

Ela viu um homem desarmado, um homem com um rosto adorável, com um queixo anguloso e forte, mas despido da aspereza, da amargura, da irritabilidade.

  • Eu gostaria de lutar por nós - disse ela após um instante - quero acreditar em nós...

  • Mas?

  • Você é mais velho que eu.

Leo esforçou-se para tentar parecer sério.

  • Pelo menos 12 anos de diferença.

  • E você falou que era revoltantemente rico.

  • Isso é verdade. Enquanto a maioria das mulheres aprecia um determinado estilo de vida - roupas, viagens, carros e jóias - tenho a impressão que você não.

Ela assentiu

— Eu acho a idéia toda de sustentar uma mulher com luxos ofensiva. Não quero ganhar um estilo de vida luxuoso. Eu quero um relacionamento.

Houve um momento de silêncio.

Ela umedeceu os lábios, a boca seca, o coração batendo mais forte. Leo a contemplava como um lobo espia uma ovelhinha. Ele a teria. Ela sabia que ele a teria.

— Confie em mim, bella - pediu, rompendo o silêncio angustiante -, sabe que terá um relacionamento.

Joelle pressentiu a autoridade na voz dele e foi acometida por calafrios.



  • Talvez - continuou ele - a verdadeira questão seja que você não se sente atraída por mim.

  • Não me sinto atraída?

  • Decerto a química se foi.

A entonação rouca, provocante na voz dele, fez o sangue dela subir, e arrepios titilaram pelo corpo todo. Não se sentia atraída? Sem química? Seria fácil caso o problema fosse esse.

  • Diga que não se sente atraída por mim e deixarei você em paz - persistiu, e os olhos verdes arderam, uma luz perigosa flamejava ali.

  • O coração disparou dentro do peito.

  • Eu não me sinto atraída.

Leo sorriu.

— Claro. - E então começou a provar o quanto ela estava enganada.

Beijou-a enquanto a chuva caía, beijou-a até que ela não lo­ grasse pensar, respirar, ver, beijou-a até que ela tivesse certeza de que ele levou embora toda a dor, tomando-a com os lábios e, quan­do Leo ergueu a cabeça, sorria sutil, ironicamente.


  • Entendo você, bella, muito melhor do que imagina.

Joelle plantou as mãos no peito dele para repeli-lo.

  • O que você sabe?

  • Que tudo o que você sempre quis foi ser igual a todo mundo. Queria sentir como é ser igual às outras pessoas,

Joelle sentiu um aperto engraçado no coração. As palavras eram familiares, soavam exatamente como os seus pensamentos.

— Você quer usar jeans e botas e tênis. Jaquetas de couro com um monte de franjas.

Essas eram as palavras dela, as palavras que escrevera no início do ano e que se transformaram em música. Quero ir ao bar e to­mar uma cerveja e me embebedar em público se eu quiser...

— Você andou escutando as minhas canções - protestou, emburrando e depois arruinando a farsa ao explodir em risos. - Não posso acreditar que alguém escutaria isso com atenção.

— Pensei que já era hora de prestar atenção no que você me dizia, pensei que se teríamos uma chance de sermos felizes, eu precisava conhecer você, a verdadeira Joelle.

Tais palavras fizeram seus olhos arderem outra vez, e espiando para fora, por sobre o ombro dele, Joelle viu a chuva começar ai amainar, a enxurrada transformar-se em bruma de condensação.



  • Você quer me conhecer.

  • Sim, você, sua verdadeira personalidade, aquela que se apaixonou há um ano.

  • Você não gostou da minha verdadeira personalidade.

  • Eu amei a sua verdadeira personalidade, apesar de estar vestida feito uma gatinha sexy.

  • E o que há de errado com uma gatinha sexy?

Ele resmungou alguma coisa em italiano, e depois, enroscando a mão nos cabelos dela, puxou seu rosto para perto, tão perto do dele que o hálito morno acariciou-lhe as faces, a pele, os lábios.

  • Nada, bambina. Contanto que você seja minha.

Subitamente uma ruga vincou-lhe a testa, os olhos aguçaram.

  • Você é minha, não é?

Lançando os braços em torno do pescoço de Leo, colou os lábios no ouvido dele.

  • Sou sua desde que me olhou pela primeira vez, desde a inauguração.

  • Inauguração?

Abraçou-o mais forte, abraçou-o com toda a paixão.

  • Ora vamos, você sabe.

Ergueu a cabeça, contemplou-lhe os olhos.

  • Eu amo você, Leo.

  • Eu sei.

EPÍLOGO

— Estamos atrasadas - disse Joelle pela décima vez em idênti­ca proporção de minutos. - Não posso me atrasar. Não quero me atrasar.

Nic e Chantal lançaram-lhe olhares embevecidos, apesar de exasperados.

— Se você não tivesse desatado a chorar, não precisaria refazer a maquiagem - retorquiu Chantal.

— Se alguém me contasse sobre o véu mais cedo, eu não teria chorado.

— Você ainda assim choraria - retrucou Nic, tentando ajeitar o véu. - Você está linda, Jo. Essa tiara foi feita para você.

Joelle tocou a delicada tiara de diamantes, a tiara no formato de cinco estrelas brilhantes que ostentava uma galeria de ornamentos cravejados de diamantes. O pai, Príncipe Julien, comprara a tiara para o casamento com Star e desde então ela permaneceu guardada.

Em pensar que a tiara fora poupada para ela. Todos esses anos, À espera do seu dia de núpcias, e de repente não acreditou que se­ ria capaz de conter as lágrimas.

— Estou desmoronando! - soluçou em protesto.

— Está tudo bem, Tia Joelle. - Lilly largou os braços da mãe para agarrar-se a Joelle. - As noivas sempre choram.

Joelle gargalhou, e retribuiu o abraço de Lilly mesmo ao enxugar as lágrimas.

— Como sabe tanto a respeito da vida, Lilly?

Lilly suspirou.

— Já tenho oito anos, tia Jo. Você perdeu a noção do tempo enquanto você e o Príncipe Leo estavam atrapalhados com todos aqueles problemas.

Chantal cutucou Lilly, mas Nic riu e Joelle lançou um olhar maroto para as irmãs.

— Obrigada, Lilly. Agora me lembro.

Em qualquer outra ocasião, o percurso do palácio até a catedral levaria minutos, mas com a multidão aglomerada o motorista do clássico Rolls-Royce bege foi forçado a driblar as antigas ruas do centro, permitindo que o povo tivesse a chance de ver as três Prin­cesas Ducasses.

O automóvel estacionou cm frente à catedral, a porta dos fun­dos se abriu, o longo tapete vermelho foi estendido, e Joelle impulsivamente deu um beijo na face de cada irmã.

— Obrigada - sussurrou, grata, comovida por tê-las consigo hoje. No seu dia de núpcias. Sempre foi a princesa caçula, a última das irmãs Ducasses, mas algo parecia diferente... ela estava diferente... mudara nos últimos dois anos. Estava pronta para pertencer a Melio, pronta para o futuro.

Ao saltar do Rolls-Royce, ouviu alguém gritar:

— Nós amamos você, Princesa Jo!

E a multidão aglomerada na catedral acompanhou o brado, ce­lebrando seu nome conforme Remi lentamente descia os degraus, apoiado na bengala, para tomá-la pelo braço.

— Eles amam você - comentou o avô.

Ela anuiu, o peito explodindo de emoção. Todos foram tão bons com ela, tão pacientes, e era mais grata do que qualquer um imaginaria.

— Eu os amo também - replicou, e ajeitando o buquê de açucenas brancas, tulipas e frésias, estendeu a mão trêmula, agradecendo a saudação.

— Estão alegres que esteja em casa - acrescentou o Rei Remi.

Joelle acenou para o povo, sorridente.

— Eu também, vovô.

Escalaram os degraus da catedral, adentraram a colossal igreja de rocha através das portas em arco, o piso de mármore rosa-escuro, e o altar em meio círculo com uma dúzia de janelas com vitrais coloridos, cada uma emoldurada por delicadas frisas de gesso, os detalhes arrebatadores.

Joelle conhecia bem a catedral. Foi ali que os pais e a avó foram sepultados, as irmãs casaram, e a pequenina Lilly foi batizada. Mas nada a comovia mais do que o homem que a aguardava diante do altar.

Leo.

Esperava por ela, ladeado por dois distintos padrinhos.



— Malik Nuri, o sultão de Baraka, e Demetrius Mantheakis, o magnata grego que não dava satisfações a ninguém, e Leo era tudo que ela sempre quis ter, tudo o que sempre sonhou.

Príncipe Leo Fortino Marciano Borgarde. O amor da sua vida.

Com o som do órgão e centenas de velas acesas, Joelle esperou Nic e Chantal e depois Lilly precederem-na ao longo da nave da igreja.

E então foi a sua vez. Até que enfim. Três anos após o noivado cura o príncipe e dois anos após perder a virgindade.

Sentiu-se vacilante ao caminhar com o avô.

O coração palpitava a cada passo lento, estudado.

Joelle tremia quando afinal ela e o avô chegaram à frente da catedral, e contemplando o querido avô, um homem que precisou seu avô e pai assim como rei ao mesmo tempo, percebeu que so­brevivera à longa jornada - não só esta ao longo do interminável tapete branco da igreja -, mas os três anos que aproveitou para amadurecer apropriadamente, o último ano com Leo, quando am­bos aprenderam a amar, a não guardar rancores, a deixar as discus­sões fenecerem e a aceitar pedidos de desculpas com gratidão.

Apertou a mão do avô.

— Obrigada - murmurou, justo antes de ele pousar a mão dela na de Leo. - Devo tudo a você.


  • Não me deve coisa nenhuma. Apenas seja feliz.

  • Eu já sou.

O órgão cessou. O bispo começou dirigindo-se à congregação.

  • Estou atrasada - cochichou, espiando o perfil de Leo.

  • Só meia hora - cochichou ele de volta.

  • Desculpe.

Leo cobriu-lhe a mão com a dele. Seu calor relaxou-a.

  • Estou ficando bom nesse negócio de esperar.

Joelle quase riu. Não devia rir. Era o dia de núpcias. Estava des­posando um príncipe. A vida seria muito séria de agora em diante.

  • Você se tornou um homem muito paciente.

  • E por que não? Todos nós precisamos de um tempo extra de vez em quando.

As duas horas seguintes voaram, música, cor, palavras e som. E Joelle adorou tudo isso, a cerimônia, a recepção, o jantar e o baile,mas chegou a hora em que ela e Leo deviam escapar. E escapara para o quarto no Palace Hotel que Leo reservou. Amanhã parti riam para um cruzeiro de duas semanas pela Grécia. Todavia resto da noite era deles, e com a segurança reforçada no hotel, ti­nham a garantia de uma noite sem quaisquer interrupções.

Joelle sentou-se em frente ao espelho da penteadeira e come­çou a desprender a grinalda que não saía de jeito algum.



  • Leo, pode me dar uma ajudinha? Não quero rasgar o véu.

Leo surgiu do banheiro. Ela ouviu a água correr. Estava en­chendo a banheira. E no espelho seus olhos se encontraram. Ele sorria, aquele sombrio sorriso sensual que ainda agora irradiava calafrios de alto a baixo.

Silenciosamente, ele atravessou o tapete do quarto, o olhar no espelho jamais abandonou o dela.



  • Você é linda.

O coração de Joelle disparou, aos saltos, conforme derreteu por dentro, puro fogo e desejo.

Leo aproximou-se por trás dela, uma das mãos acariciando os ombros nus e ela suspirou, os lábios cindiram.

Mesmo erguendo um dos cantos da boca, Leo pôs-se a soltar os grampos da grinalda um de cada vez.


  • É uma bela tiara - comentou, soltando o véu e a tiara com habilidade e entregando-as à Joelle.

  • Vovô a guardou para mim.

  • Sua família a ama.

Ela anuiu, mordeu o lábio, dominada pela emoção. Sentia-se tão afortunada, tão abençoada. Tudo de bom e adorável transfor­mou-se em verdade, e toda a tristeza e ressentimento já não pareciam reais.

Nada disso importava.

E de súbito sentiu uma palpitação de calor, um fluxo de energia alçando o olhar, descobriu que Leo a admirava.

Como a amava, pensou, sentindo seu amor transbordar sobre si, transpassá-la, um amor tão tangível, tão visível nos olhos dele. Talvez fosse isso que tornava a vida com Leo tão intensa, tão ex­citante. Bastava olhar para ele e pressentia sua presença, desejava-o, e o desejo não diminuiu, mas tornou-se mais forte com o tempo.

— Você está tão calado - sussurrou ela, sentindo o pescoço nu, os seios latejarem, até os lábios pareciam estranhamente cheios, os nervos dançando.

O olhar de Leo mergulhou devagar até o rosto de Joelle, esqua­drinhando cada centímetro de pele nua tão carente do seu toque, tão ávida pelos seus lábios.



Joelle sentiu a pele aquecer, corar e a onda de desejo e adrena­lina tornou-se dolorosa.

  • Só estou olhando para você - disse ele.

Verdade, e a energia entre os dois parecia elétrica.

  • Você realmente lutou por mim.

  • Eu não tive escolha.

  • Por quê?

O canto da boca repuxou. A expressão dele ameigou, o olhar esverdeado abrasou.

  • Você já sabe a resposta.

Ela aproximou-se dele, ainda usando o vestido branco de noi­va, a seda fresca, leve em contato com as pernas.

  • Mas eu quero escutar de novo.

Leo sentou-se na beira da cama, e puxou-a para si.

  • Eu amo você.

  • De novo.

  • Eu amo você.

  • Outra vez.

  • Eu amo você.

E aproximando-se então, ela o beijou, lenta, avidamente, saboreando o desejo que irrompia entre ambos.

  • Prometa que nunca vai parar de dizer que me ama.

  • Eu prometo.

  • E prometa que ainda vai me amar quando ficarmos velhos e grisalhos.

  • Eu prometo.

  • E prometa que sempre vai se lembrar de hoje.

Ele gargalhou, o som rouco.

  • Eu prometo.

Joelle respirou fundo, ainda tentando assimilar tudo.

  • Sabe, nós temos a história mais incrível para contar aos nossos filhos.

  • Eles não vão acreditar.

  • Eles terão de acreditar. É a nossa história.

  • Uma história e tanto - brincou ele.

  • Fora de série.

  • Cheia de teimosias e uma cabeça-dura muito...

Ela o beijou, interrompendo as palavras.

  • Você está descrevendo a si próprio, é claro.

Leo gargalhou outra vez, muito grave e muito sexy.

  • Talvez nós precisemos chegar a um acordo quanto à história... esclarecer os fatos.

  • Concordo. Na verdade, talvez enquanto estivermos de lua-de-mel possamos começar a repassar os detalhes... concordar a concordar... concordar a discordar também.

  • Bella, acho que temos todo o tempo do mundo.

  • Não tanto tempo assim. - E, aconchegando-se nele, pressionou os lábios nos seus e murmurou: - Estou grávida. Nós estamos esperando um bebe de Natal.

FIM


1 .*(Descendentes de imigrantes franco-canadenses).



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