Jane Porter



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CAPÍTULO ONZE

Joelle não imaginava o que a mãe dele pretendia, ao aparecer ago­ra, às duas da manhã.



  • Vou esperar aqui em cima - sugeriu.

  • E perder o espetáculo? - brincou Leo, destrancando a porta.

Ele parecia transtornado, e tão logo saiu Joelle sentiu-se péssima.

Afinal, Joelle obrigou-se a desencavar uma calça e uma cami­seta. Enquanto abotoava a blusa branca, escutou vozes inflama­das. Uma mulher e Leo. Gritavam um com o outro, sem parar.

Já vira Leo zangado, mas nunca escutou-o berrar. Quando se aborrecia, espumava calado. Mas não descontrolado assim.

Joelle prendeu o cabelo num rabo-de-cavalo, espiou-se no espelho e desceu.

Na escadaria, o vozerio soava ainda mais alto. Joelle ouviu cada palavra e petrificou, pasma pela amargura na voz da Princesa Marina.

— Você iria se divertir mais, príncipe, caso se soltasse um pouquinho...



  • Agora não, mãe.

  • Não, claro que agora não. Nunca tem tempo para mim. Está ocupado demais anexando pequenos países aos seus investimentos.

  • Não anexei nada.

  • Mas fará um casamento lucrativo, não?

  • Por que não? Você fez.

Os pêlos da nuca de Joelle arrepiaram. Não queria escutar isso, mas as pernas ficaram inertes. Parecia grudada no lugar.

  • Príncipe Leo Borgarde, Rei de Melio e Mejia. Soa maravilhoso.

O silêncio de Leo foi eloqüente e apenas logrou provocar Marina.

  • Daqui a pouco será o dono do mundo - ela caçoou. - Mas uma mulher de cada vez.

  • Isso é revoltante.

  • Mas é verdade. Quem resistiria? É rico, bonito, nobre...

  • E isso não representa nada. Trocaria tudo por uma infância normal...

  • Eu lhe dei tudo!

  • Não, mãe. Você tomou tudo. Ainda é tão carente, e não posso dar mais nada, decerto não para você.

  • Você nem tenta!

Leo riu baixinho.

  • Tem razão. Não tento. Cansei. Chega!

De repente um estalo violento ecoou escadaria acima.

  • Egoísta! Desgraçado! Você é igual ao seu pai.

Passos atravessaram o corredor, a porta da frente abriu e a mu­lher - uma belíssima loura alta de terninho azul - virou-se, en­carou Joelle e saiu às pressas.

A porta bateu. Joelle não se mexeu, chocada.

Leo surgiu no corredor. Cabisbaixo, o semblante vago.


  • Perdeu o show.

Joelle sentiu um aperto no peito.

  • Na verdade, dei uma espiadela.

  • Ela é brilhante nas saídas triunfais, não é?

E nas entradas, Joelle complementou muda, estupefata. Porém tais dramas não eram novidade para Leo, concluiu.

  • O que aconteceu?

  • O habitual.

Fitou-o por um longo momento, sabendo que dúzias de emoções diferentes acometiam-no e que ele iria se recusar a falar delas.

  • Não entendo você - afirmou ela.

  • E entender vai resolver o quê?

A ira avassalou-a.

— No caso de estar grávida, e ser forçada a casar, gostaria de conhecer melhor o pai do bebê.

Uma sombra de emoção fremiu no rosto dele.

— Podemos conversar enquanto comemos.

E conduziu-a pelo corredor estreito, até a espaçosa cozinha.

Na antiquada cozinha de azulejos brilhantes, ele pôs-se a que­brar e bater os ovos, derretendo a manteiga em uma frigideira, pi­cando os temperos.

E ela sentou na bancada, observando-o atentamente, estudando os pômulos angulosos, e os lábios cheios, tudo para não olhar a marca vermelha na face onde a Princesa Marina esbofeteou-o.

Todavia, ao esticar-se para apanhar o ralador de queijo, ele vi­rou a cabeça e ela viu a marca, a silhueta dos dedos, e sentiu o mesmo choque gélido de quando Marina estapeou Leo. Como qualquer mãe podia tratar o filho assim?



  • Sua mãe esbofeteou você. - As palavras brotaram em um ímpeto.

Leo encarou-a. A expressão indiferente.

— Já fui mais agredido - respondeu calmo, salpicando os ovos com o queijo gratinado, embora ela percebesse a tensão na face.

Cortou a omelete pela metade, e ofereceu-lhe um prato com uma fatia de torrada.

— Está gostoso? - indagou, sentando-se a seu lado.

Ela aquiesceu, engoliu. O sabor era ótimo, e estava faminta, mas foi difícil comer. Sentia-se miserável.

Leo terminou primeiro, afastou o prato, contemplou-o.

Joelle teve o pressentimento de que ele não enxergava nada, só pensava. E tais reflexões pareciam sinistras.

— Estou preocupada... com você.

— Bobagem. - Ele fez uma careta. - Não foi nada.

— Mas a sua mãe bateu em você... como se não significasse nada.

— Ela anda frustrada. - Leo sorriu apesar da expressão desolada nos olhos. - Paciência nunca foi uma de suas virtudes.

A tristeza era palpável e inundou Joelle em ondas. Compreen­deu afinal que Leo não apreciava conflitos.



  • O que ela queria?

  • Não sei. Nunca sei ao certo... Creio que nem ela sabe. As vezes, fica desse jeito - psicótica, suponho.

Lágrimas arderam nos olhos dela.

  • E daí ela agride você?

  • Agride qualquer um que atrapalhe o seu caminho. Mas provavelmente sou o alvo favorito. Eu sou um banana.

O silêncio pairou na cozinha e Leo levantou. Rápido, empilhou e carregou a louça para a pia. Virando-se, encarou Joelle.

  • Café?

  • Por favor.

Custou-lhe poucos minutos para retomar com café e biscoitos, a máscara de pedra de volta no lugar.

  • Vou contar uma história - anunciou ele, sentando-se diante dela. - Mas deve prometer não comentar nada depois.

  • Não posso falar nada?

  • Não. Contarei essa história, mas quando terminar, terminou, e não quero perguntas nem comentários, nada de compaixão.

Ela ergueu o café, soprou o vapor delicadamente.

  • Não soa muito justo.

  • A vida não é justa.

  • Não, na vida cão come cão. Mas estamos sozinhos aqui e não pode decidir contar algo a alguém e impor restrições...

  • Mas é exatamente o que estou fazendo.

Ela contemplou-o, sem entender nada. O que o motivava. Que sentimentos importavam. O que desejava da vida.

Leo era tão complicado. O tempo todo ela pensou que a auste­ridade fosse arrogância, a arrogância pertinente a uma vida de poder e influência, mas havia mais que arrogância. Uma grande dose de mágoa.

Leo não deixava ninguém se achegar. E Joelle recordou os anos que Chantal passou em La Croix, os terríveis maus-tratos que so­freu na mão do primeiro marido e dos sogros.


  • Certo - concordou ela. - Prometo que não direi uma palavra.

  • Por onde começar? Meus pais se separaram cedo. Sem entrar em detalhes, decidi que ficaria melhor com a minha mãe. Não vi mais meu pai com freqüência depois disso.

  • Mas agora são próximos...

Leo deu-lhe um olhar fulminante.

  • Sem comentários. Certo. Desculpe.

  • Minha mãe não gosta de ficar sozinha. Contudo, sendo mãe, não se comportava como as outras, tampouco fazia escolhas normais.

"Assim viajávamos constantemente pelo mundo todo. Ela ten­tava fazer novas amizades, contatos, se preferir, e às vezes era bem-sucedida e outras, não. Sabia que era linda, e não agüentava ficar em casa, sozinha em um sábado à noite. Ficava quase deses­perada."

A boca crispou em um sorriso amargo.

— Tínhamos uma brincadeirinha - continuou. - Nos vestíamos. Com as melhores roupas. E saíamos, como namorados. Mamãe e eu. Íamos a algum lugar bonito, um restaurante superbadalado, um hotel luxuoso, algum lugar que homens atraentes, ricos costumam freqüentar, e entrávamos, de mãos dadas.

Os lábios contraíram novamente, o sarcasmo mais agudo, a dor lancinante. Detestava o que estava revelando a ela.

— Nos saguões dos clubes ou dos restaurantes, mamãe meio que sondava tudo. Procurava as melhores mesas, e me refiro a mesas com excelente visibilidade, já que o único motivo dos nossos passeios era ver e sermos vistos. E, por um curto tempo, mamãe se contentou em esperar que as rodas se abrissem, mas como nada acontecia, esforçou-se mais. Segurando a minha mão, ia de mesa em mesa, e perguntava se poderíamos ficar com a mesa...

— Ficar com a mesa? - Joelle não conseguiu evitar interromper. - Tipo, tomá-la das pessoas?

O sorriso sardônico disse tudo.

— Porque era meu aniversário, veja você. E nessa hora ela me empurrava para frente, me apresentava. O filho de cinco anos. De seis anos. Sete anos. E daí em diante. Às vezes as pessoas de fato nos entregavam as mesas, outras vezes, mamãe pedia que trocassem, mas nunca desistia. Avistava um lugar no bar, me deixava sentado do lado de fora, perto o bastante para me vigiar, mas muito mais disponível do que com um menino de sete anos pelo braço.

Joelle começou a enjoar. De verdade. Preferia que Leo parasse de falar, não conseguia imaginar alguém levando o filho para uma casa noturna e abandonando a criança do lado de fora.

— As noites de sábado eram longas. Não chegávamos antes das oito. E em geral ficávamos até meia-noite, ou até alguém se oferecer para levá-la em casa. Mas demorava muito até mamãe arranjar a mesa certa, e encontrar um consorte. E às vezes ficava tão entretida na conversa que me esquecia.

Leo tamborilou os dedos na bancada, esquadrinhou a memória.

— Eu esperava horas. Inevitavelmente alguém sentia pena, e me levava para a própria mesa.

Os lábios curvaram.

— Era quando mamãe se lembrava de mim, bem a tempo, justo antes de o gerente do restaurante ou do hotel ser chamado, e sorria faceira, como se a vida fosse uma deliciosa aventura, e mostrava-se gratíssima por alguém se dar ao trabalho de conversar comigo, especialmente porque era meu aniversário.

Cada palavra parecia entristecê-la mais.

— Você teve muitos aniversários - comentou, incapaz da manter-se quieta como prometeu.

— Centenas por ano.

O silêncio pairou. Como uma mãe podia ser tão mau-caráter? A Princesa Marina era uma desesperada, Joelle ponderou calada. Todavia, a profundidade do desespero... a incapacidade de proteger o filho, assombraram-na.

Sua mãe era tão diferente. Lutava com unhas e dentes para protegê-las. Desistiu de tudo - carreira, identidade e país - para dar estabilidade às filhas.

— Você ganhava os bolos? - sussurrou, contendo as lágrimas, procurando algo positivo.

— E doces, tortas, sorvetes. Tudo com velinhas acesas, claro. E os desconhecidos simpáticos, desconcertados, vinham cantar para mim. Batiam palmas quando eu soprava as velinhas, e algum bom-samaritano, nunca soube quem, tirou o meu retrato, um Polaroid, para não esquecer a data especial.

— Que horrível!

— Horrível era o jeito como olhavam para a minha mãe. Eu percebia. Pelo menos após os dois primeiros anos. Antes? - Deu de ombros. - Quem sabe?

Calou-se, e a cozinha pareceu estranhamente quieta. Joelle sentiu como se houvesse centenas de borboletas no peito, cujas asas, semelhantes a lâminas, dilaceravam o coração.

— Leo.

Ele sorriu, apesar do brilho das lágrimas.



— Deixe-me ver a sua mão - pediu ele, e segurou-lhe o pulso, destravou o bracelete prateado e atirou-o na lixeira. - Isso não é mais necessário

Ela sentiu o pulso leve. Não havia marcas, nem sinal. Contudo ambos compreenderam. Leo a estava liberando.

— Lamento. Perdoe-me.

Os olhos de Joelle arderam.

— Eu entendo.

— Merece coisa melhor. Alguém que a ame da maneira certa. Com bondade. - Leo fez uma careta. - Não sou um homem bondoso.

Será que ele não poderia pisotear o coração dela com mais força?

— Somos o que somos - retrucou Joelle. Dividida entre sugerir que talvez pudessem recomeçar, cientes de que cada um tinha carências que o outro não lograria suprir.

Mas Leo não confiava nela, e ela francamente não confiava nele. E mesmo sabendo que acabou, que podia levantar e sair, não conseguiu sair, ao menos não ainda.

— Vamos tomar um pouco de ar - sugeriu Leo. - Vamos à praia.

Joelle não estava de relógio, mas sabia que eram quase três da manhã. Porém, uma caminhada soou infinitamente melhor que fi­car se revirando na cama.

Ao saírem, Leo especulava por que se sentiu tão compelido a contar-lhe tudo. Decerto nunca conversou sobre o passado antes, sobre a vida com a mãe, e a Joelle confessou tudo. Cada detalhezinho sórdido.

Perdera o controle de novo, pensou, conforme atravessavam o jardim rumo à praia. Nunca perdia o controle. Até as últimas duas semanas era o mestre do sangue-frio.

Mesmo de madrugada, a brisa era morna, quase relaxante, e, ao chegarem à praia, Leo seguiu direto para a arrebentação. Descalço, entrou na água, deixou as ondas geladas açoitarem os tornozelos.

Incrível, pensou. Você passa vinte anos recalcando a mágoa, e então de repente ela contra-ataca. Explodindo bem na sua cara.

— As crianças são tão complacentes - comentou baixinho. Estava exausto, e especulava por que tudo saiu errado. Anos atrás, após fugir para a universidade, jurou que jamais ficaria vulnerável outra vez. Jamais permitiria que alguém o cativasse. E foi bem-sucedido - até agora

Não devia se apaixonar por Joelle. Optou pelo casamento ar­ranjado justamente por não querer amar. Só queria uma esposa que compreendesse as responsabilidades da realeza.

Alguém pronto para começar uma família. E ele foi assegurado pelo Rei Remi que Joelle era a princesa perfeita, a "jóia do seu coração". Segundo Remi, a princesa era tudo que exigia - inteli­gente, equilibrada, caseira.

Inteligente, sim, bastante equilibrada, mas caseira, não.

Entretanto, apaixonou-se por ela assim mesmo, e Remi tinha razão quanto a uma coisa - ela era uma jóia. Um esplêndido rubi - pleno de luz. Os defeitos nem sequer ofuscavam a beleza. Tornavam-na mais rara. E de súbito flagrou-se carente... apaixonado.

O amor o fez desabrochar, abrir-se. E não se sentia preparado para emoção tão intensa. O amor encheu-o de medo. E de raiva.

Assim fez à Joelle o que a mãe costumava fazer. Tentou apri­sioná-la, acorrentá-la a ele, usando a culpa... intimidação...

— Dentre todas as princesas no mercado, por que me escolheu? - Joelle virou-se para olhar para ele e o luar cândido mal lhe iluminou a face.

Nunca pareceu mais bonita, honesta ou natural. E Leo percebeu o erro que cometera. Joelle nunca foi como a mãe dele. Era apenas jovem. Crescera cercada pela família, à sombra das irmãs, e ja­mais teve oportunidade de ser ela mesma.

Agora compreendia o quanto ele - e até Remi - pressionaram-na, impondo-lhe as próprias necessidades.

Não era de admirar que Joelle fugisse. Ele fugiria também.

— Você seria uma aquisição perfeita para o meu império.


  • Melio - disse ela.

  • É um país incrível. Sempre senti uma afinidade com o povo... a paisagem. - Desde o exílio político da família na Itália, Leo não tinha um país para chamar de lar, e como passava as férias de verão em Mejia, sempre apreciou as ilhas gêmeas.

  • O que acontecerá com o seu império agora?

  • Ficará reduzido.

  • Lamento.

  • Não lamente. E melhor assim.

É mesmo?, pensou Joelle, curvando-se para tocar a água.

Precisava de um marido. Melio precisava de um casamento. De muitas maneiras, Leo seria o príncipe certo.

Aos 22 anos não sabia se conheceria alguém igual a Leo, um homem que a fizesse sentir-se tão viva, tão incrivelmente linda na cama. Todavia, não podia construir um futuro baseado em sexo espetacular, nem arriscar-se a construí-lo sobre o que ambos pos­suíam agora. Com o casamento tão próximo, não haveria tempo para conhecê-lo direito, desenvolver o relacionamento que resul­taria em um casamento feliz.

E por mais que soasse impossível, romântico e implausível, queria um casamento como o de seus pais.



  • Você conheceu meus pais? - indagou ela.

  • Não. - Ele hesitou. - Mas compareci ao funeral.

Ela respirou fundo.

  • Não me lembro do funeral.

  • Você só tinha quatro anos.

  • Mas eles eram meus pais. Devia recordar algo. - Não lembrava dos pais reais, só dos rostos nas revistas. Os pais, Julien e Star, eram lindos como em um conto de fadas. Garota da parte pobre da cidade conhece príncipe charmoso e fogem juntos, sem remorsos, sem dúvidas.

  • Já faz muito tempo.

  • Não é melhor irmos dormir?

No quarto, Joelle e Leo apenas se entreolharam, cientes que chegaram ao fim e que restavam apenas formalidades.

Seja rápida, disse Joelle a si mesma. Acabe logo com isso. Leo não dirá nada, provavelmente está até aliviado, embora não insi­nuasse isso e conforme permaneceram olhando um para o outro, a lascívia flamejando, ela não pretendia se oferecer.



  • Posso passar a noite? - perguntou ela, sabendo que a aurora estava prestes a raiar.

  • Quer dizer ficar até de manhã? - Avançou na direção dela, tomou-a pela cintura. - Sabe como os homens encaram essas coisas. Atestado de compromisso.

  • E os homens têm tanta fobia de compromisso...

  • Verdade.

Ela lutou contra as lágrimas com unhas e dentes.

— Vamos nos ver novamente algum dia? Com os polegares, ele afagou-lhe as faces e conforme baixou a cabeça, sussurrou. - Talvez - disse baixinho, antes de cobrir sua boca com a dele.

O beijo foi diferente de qualquer beijo que ela já experimenta­ ra. Pura doçura, inocência e desilusão e sentiu lágrimas sob as pál­pebras. Chegaram tão perto de algo tão belo. Decerto não era a hora certa, acaso se conhecessem mais velhos... mais sábios... apresentados por amigos, como as outras pessoas...

Joelle enlaçou-lhe o pescoço com os braços, abraçou forte, tentando recordar cada segundo daquela última noite.

Na cama fizeram amor, lentamente, sem desespero, apenas prazer. Leo se conteve por horas, prolongando as sensações, ambos determinados a tornar o momento significativo. Não era só sexo, pensou Joelle, extasiando-se pela segunda vez, enterrando o rosto no peito morno de Leo. Concernia aos corações, a parti-los e ten­tar consertá-los de novo.

Joelle não se lembrava de ter adormecido. Estava nos braços dele, a face úmida de lágrimas, e agora acordou. Sozinha.

Sentando-se, deu um pulo, o peito quase explodindo de dor. Algo aconteceu. Algo ruim. Então percebeu o quê. As coisas de Leo sumiram.

Ele saiu enquanto dormia.



Não custou a encontrar o bilhete que ele deixou. Usou o seu meio de comunicação favorito, e as lágrimas rolaram, conforme lia e relia as breves palavras. Bella, o mundo é todo seu. Leo.

CAPÍTULO DOZE

Nova Orleans, Louisiana

  • Ele deixou um bilhete e pronto? - repetiu Lacey, incrédula.

  • Isso mesmo. - Joelle reclinou na cadeira da varanda e olhou fixo para a garrafa de cerveja que segurava.

Regressara à Nova Orleans há um dia apenas, embora planejasse permanecer indefinidamente.

— Como se sente? - persistiu Lacey.



  • Um trapo.

Lacey suspirou.

  • Lamento.

  • Acontece.

Lacey olhou atarantada para Joelle e por um instante mordeu o lábio, procurando as palavras certas.

  • Acho que ele ama você.

  • Foi paixão, não amor - corrigiu Joelle ríspida. Sentia-se tão amargurada... confusa. - Quero dizer, como poderia ser amor? Nos conhecíamos só há dez dias. Ninguém se apaixona em dez dias.

  • Mas foram dez dias bem intensos.

Joelle tentou ignorar, embora não lograsse esconder a tristeza.

— Tudo com Leo foi intenso - admitiu afinal, erguendo a garrafa e tomando um gole.

Lacey não comentou nada.


  • Além do mais, ele não tinha idéia do que eu queria... precisava. - Joelle tomou fôlego. Não pretendia chorar, desabar. Adorava o corpo de Leo, mas queria mais que o corpo. Queria o coração. Seu respeito. Sua confiança. E sem isso, a incrível atração física e a química inebriante não significavam nada. - Pensei que poderia casar por obrigação, mas errei. Pensei que poderia ser uma noiva de conveniência, mas não me conhecia. Não atinei como considerava importante ser amada. Ter alguém que me queira por mim... não pelo título ou meu país.

Trovões retumbaram ao longe e Joelle suspirou.

  • Portanto, cancelamos o casamento. Rompemos o noivado. E estou pronta para voltar a trabalhar. Prosseguir com a minha vida.

  • E agora com a bênção do seu avô?

  • Vovô concordou que eu passasse outro ano ou dois por conta própria.

  • E suas irmãs?

  • Elas entenderam, muito mais que pensei, Nic e Chantal enfrentaram as mesmas coisas que eu. Só que eu não sabia. Nunca conversamos a respeito.

  • Devo admitir, Jo, ainda não compreendo essa coisa toda de casamento arranjado. Você realmente casaria com ele em outras circunstâncias... se ele fosse diferente?

Joelle contemplou o aglomerado de nuvens escuras, armadas para a enxurrada da tarde.

— Não sei. Pensei que poderia... casar por obrigação, mas agora não sei. Não sou quem pensei que fosse. Eu sou... - e sorriu, um sorriso doloroso. - ...um bocado mais forte que pensei. Não posso ser ninguém além de mim mesma, e por mais piegas que pareça, só eu sei o que é melhor para mim.

Os trovões retumbaram novamente e Lacey e Joelle voltaram para dentro. Ao fechar a porta da varanda, Joelle desejou que ela e Lacey não houvessem conversado, que o nome de Leo não viesse à tona, porque não podia pensar nele. Era melhor esquecê-lo.

Joelle não encontrou dificuldades para retomar o emprego no Club Bleu, e, após algumas semanas, estava de volta à anti­ga rotina.

A rotina lhe fez bem, aliás, cantar manteve-a ocupada, concen­trada. Quando estava no palco, esquecia tudo, incluindo o coração despedaçado.

As horas longe do palco é que eram complicadas. Suportar o verão foi brutal, porém o outono chegou, e o calor intenso arrefe­ceu, e no inverno Joelle sentia-se quase humana.

Joelle arrumou um emprego extra, como garçonete em um res­taurante próximo. Mais dinheiro era bom, a falta de tempo, me­lhor ainda. Estava aprendendo a tomar conta de si... sustentar-se, e era ótimo pagar as próprias contas... a seu modo. Era ótimo ser responsável. Capaz. Morar com Lacey também ajudava. Lacey tinha uma perspectiva de vida fenomenal, um senso de humor muito animador.

A porta se abriu no depósito onde Joelle sentava empoleirada em um caixote de madeira, com o celular ao ouvido. Chet, o gerente do Club Bleu, estendeu a mão.

— Josie, você entra em cinco minutos.

Balançou a cabeça, indicando para Chet que entendera e conti­nuou a ouvir a mensagem gravada que o avô deixara mais cedo. Já a segunda vez, mas precisava escutar de novo, com saudades do avô, de Melio. Ela apareceu em casa apenas no dia do seu aniver­sário de 23 anos. Talvez fosse época de outra visita.



  • Josie. - Chet voltou e enfiou o relógio bem debaixo do nariz dela. - Acorde. Hora de entrar. Agora.

  • Sem problema - respondeu calma. Por fora, nada a perturbava. Era a sensação mais quente dos clubes noturnos de Nova Orleans. Ninguém sabia quem era realmente. O que se passava no seu coração. — Estou pronta.

  • Tem certeza?

— Benzinho - retrucou, no sotaque sulista arrastado que escondia as raízes européias. - Já nasci pronta.

Assumiu a posição no palco e os refletores acenderam, e quan­do Benny atacou as primeiras notas no baixo, Joelle sentiu o calor exuberante de outra noite de verão.

Abrindo os olhos, agarrou o microfone. O Club Bleu estava lo­tado hoje. Todos vieram para assisti-la, pois tornara-se importante em Nova Orleans - não pelo título ou pelo sobrenome -, mas porque conquistara tudo trabalhando duro.

Entretanto, o sucesso era agridoce. Embora lhe oferecessem um generoso contrato de gravação, a música não supria todas as carências. O gosto do sucesso não se igualava ao amor.

Esqueça, disse a si mesma, não pense no que não pode contro­lar. E, contudo, sentiu um nó na garganta e quase perdeu a compostura. Precisou esforçar-se para descolar as letras das canções da boca, fazer a voz soar.

Não entendia o que estava errado consigo. Nada parecia normal esta noite. Estava irrequieta, inundada por intensa emoção.

Concentre-se, Jo, pensou, concentre-se e termine a canção.

Cerrando os olhos, Joelle segurou o microfone com ambas as mãos. De microfone em punho, Joelle deu tudo de si, cantando so­bre o desgosto que jamais comentava à luz do dia.

Ainda sentia saudade de Leo. Sonhava com ele quase toda noi­ te. Saiu com outros caras ano passado, beijou seu quinhão de ho­mens, mas nenhum igual a Leo.

Ao menos tem a música. Lembrou-se: ninguém pode tirar isso de você. E finalmente conseguiu esquecer tudo, exceto o baixo, a bateria e a melancolia noturna, e permitir que a emoção calcinante jorrasse através dela, inundando a boate, colorindo-a com um som poderoso.

Duas horas depois, as luzes se acenderam, e a platéia irrompeu em aplausos retumbantes. Joelle agradeceu com a banda, embora nada atenta aos assovios. Ficou tão imersa na última música, que lhe custou um minuto para retornar à realidade.


  • Muito bem - disse Johnny G, o baterista, com uma toalha enrolada no pescoço ao sair do palco.

  • Você arrasou hoje, menina - complementou Benny, guardando o baixo no estojo. - Acertou todas as notas.

Joelle logrou sorrir. De fato, sentiu-se engraçada hoje, Desliga­da. Talvez fosse o telefonema de casa, mas sentiu-se estranha­mente sentimental.

— Obrigada. Vejo você no sábado.

Agachou-se para guardar a guitarra no estojo e aproveitou a chance para enxugar as lágrimas, antes que o delineador borrasse. De guitarra a tiracolo, Joelle obrigou-se a descer do palco.

— Josie?


A voz grave deteve-a. Joelle paralisou, a pele arrepiada.

Passou um ano sem ouvir aquela voz, embora a escutasse em sonho, noite após noite até chorar.

Lentamente, ergueu o rosto até o dele, que esperava por ela, o olhar sombrio buscando o seu, mantendo-a imóvel.

Tudo o que conseguiu foi agarrar-se ao estojo da guitarra.



  • Leo.

  • Você foi sensacional.

A voz grave de Leo envolveu-lhe o coração.

  • Obrigada.

O silêncio sobreveio. Joelle não sabia o que fazer, o que dizer. O que ele fazia ali? Passou um ano sem uma palavra, um único telefonema. Por que estava ali, agora?

  • Como vai você? - indagou ele.

  • Ótima. - Engoliu em seco. - E você?

  • Ótimo. - Os lábios contraíram em um sorriso maroto. - Você está tão educada.

  • Somos amigos, certo? Não inimigos. - Entretanto, havia um resquício de amargura na voz dela e ele reparou.

  • Amigos - repetiu baixinho, mas os olhos verdes mostravam-se acesos. - Posso levá-la para jantar?

  • Não posso. Preciso acordar cedo.

  • Entendo.

Joelle sentiu um aperto doído no coração.

— Sou garçonete no Brennan's aos domingos. Lembra-se do Brennan's? - Viu-o anuir e afobou-se. - O café da manhã no Brennan's é famoso. Fica muito cheio de manhã. Uma loucura mesmo. Eles pegam no meu pé.



  • Vou experimentar qualquer dia.

Os olhos arderam.

  • Preciso ir.

  • Não vai a pé para casa, vai?

  • São poucos quarteirões.

  • Ela notou que Leo engoliu a desculpa.

  • Vou acompanhá-la até em casa. Me dê a sua guitarra.

  • Leo... - A voz embargou ao ver a expressão dele.

  • Pronto.

Caminharam em silêncio, a noite ainda tépida, as nuvens arma­ das. O ar parecia saturado de umidade.

Ao chegarem ao prédio de Joelle, Leo seguiu-a até as escadas. Houve um instante embaraçoso depois que Joelle girou a chave. - Quer entrar? - perguntou cerimoniosa.

Ele percebeu isso, também.

— Talvez outra hora - respondeu, dando as costas. - Boa noite.

Joelle entrou e trancou a porta.

Ele se foi. Devia sentir-se aliviada. Ao contrário, sentiu-se de­primida.

Não devia tê-lo deixado ir.

Não, melhor assim. Melhor por quê?

Leo estava ali. E permitiu que ele fosse embora.

A dor dilacerou-a, mais sombria que nunca. Tudo bem, disse a si própria, é a vida, o amor, é assim que deve ser.

Mas no fundo não queria que isso fosse verdade, porque ao olhar para ele hoje, tudo o que sentiu foi esperança e...

Desejo.

A veemente batida na porta fez o coração saltar. Ele voltou! O alívio avassalou-a e Joelle atrapalhou-se com a fechadura. Com as emoções caóticas escancarou a porta, mas não era Leo, e sim Lacey.

— Graças a Deus você está em casa - disse Lacey, esbaforida. - Perdi minha chave e tive medo de ficar trancada aqui fora.

A manhã chegou cedo demais, e Joelle arrastou-se para fora da cama, entrou no chuveiro, saiu e meteu-se em uma saia jeans e uma camiseta - no trabalho vestiria o uniforme - e tomou uma xícara de café na cozinha.



  • Oi. - Lacey já estava de pé, os cachos desgrenhados. -- Tudo bem? Não a vejo tão melancólica assim desde... junho.

  • Não dormi bem.

  • Aconteceu alguma coisa ontem à noite?

  • Não. Por quê?

  • Por nada.

Joelle virou o café e saiu. Enquanto caminhava até o Brennan's, elucubrou por que não contara a Lacey sobre a aparição surpresa de Leo. Talvez porque ela própria não assimilara a aparição dele, tampouco. Não fazia sentido que ele estivesse aqui para vê-la, a não ser...

A não ser...

Todavia Joelle não se permitiu especular mais, e ao chegar ao restaurante foi imediatamente sugada pelo ritmo frenético do des­jejum gourmet.

Ao completar o turno, eram quase duas da tarde e estava morta. Pensou em Leo, porém não em demasia. E após trocar de roupa, saiu pelos fundos. Só quando atingiu o fim do corredor avistou Leo.

Aguardava por ela na frente do Brennan's, posicionado de tal modo a poder ver todas as saídas do restaurante.

Ela meio que esperava vê-lo, mas não a reação violenta, a eletricidade. A emoção nunca atenuou. A ferida nunca cicatrizou.



  • Você não vai trabalhar no Club Bleu esta noite - afirmou ele, aproximando-se, com uma graciosidade felina.

Joelle esquecera tal graciosidade, a sensualidade, a sofisticação européia. Todavia, não poderia render-se a ele.

— Sei que está livre agora - complementou, cercando-a - Não vai trabalhar de novo até de manhã, e Lacey contou que não tinha planos para esta tarde.

Joelle ficou tonta. Ficar tão próxima assim de Leo era fatal.


  • Quando você viu Lacey?

  • Ontem quando cheguei na cidade.

  • Ela não me contou.

  • Porque eu pedi.

  • E ela diz que é minha amiga.

  • Mas é.

Os olhos se encontraram, travando uma batalha silenciosa. Nada mudou, pensou Joelle, mordendo a língua para não dizer qualquer desaforo. Ele ainda tentava mandar em tudo.

Controlá-la.



  • Então devia ter contado que você estava aqui - insistiu Joelle, sentindo-se encurralada.

  • Joelle.

  • Que foi? - De súbito, tudo aquietou. Como se as nuvens negras lá em cima tragassem todo som. Logo choveria.

  • Esqueça. Não vou forçá-la a nada, bella.

Leo se aproximava mais, e com os relâmpagos iluminando o céu ela sentiu medo.

Caso a tocasse, estaria perdida. Respirou fundo, tentou ser objetiva.

— Não sei como fazer isso. Me esforcei tanto para esquecer você que... É uma agonia ver você. Não é nada que eu pensei que aconteceria novamente.

— Você sabia que eu a amava.



  • Mas você foi embora.

  • Ambos sabemos o porquê.

Joelle sentiu-se à beira das lágrimas. A tarde escureceu tanto que ela previu que a tempestade era iminente.

— Quer entrar? - perguntou Leo, indicando a cafeteria da esquina, se é que se poderia chamar aquilo de cafeteria.

Parecia mais uma taverna, escura e fria, ventiladores girando no teto e música berrando na Juke-box.


  • Não especialmente.

As trovoadas ribombaram no céu.

— Vai chover.

Ele tinha razão. A rua estava quase deserta. Todo mundo sabia que a chuva se aproximava, até os turistas. E aquela prometia ser um dilúvio torrencial.

Se pretendiam escapar a tempo, precisavam correr agora. Em um minuto poderia ser tarde demais.

— Vamos para a minha casa - sugeriu ela, ajeitando a bolsa no ombro.

Então ela sentiu. A primeira gota.

E depois outra. E mais outra.

Leo conduziu-a para a cafeteria conforme a chuva começou a cair, mais e mais forte. Em menos de 30 segundos a enxurrada transformou-se em bruma, tão densa que lençóis de condensação elevavam-se do asfalto. O French Quarter virou uma cidade fan­tasma. Os carros desapareceram. Os transeuntes sumiram. Todas as lojas fecharam as portas.

Foi extraordinário. Joelle e Leo ficaram sozinhos para assistir à chuva inclemente.


  • Também devíamos pedir algo paia beber. Isso vai demorar um pouco.

  • Você está feliz por ficarmos presos aqui.

  • Tente pensar em mim como um missionário da paz - sugeriu, irônico.

Ela crispou as mãos.

  • Então por que não me sinto pacífica?

Leo riu de mansinho, os olhos brilhando. - Isso é algo que só você pode responder, bambina. Venha. Vamos encontrar uma mesa antes que fiquemos encharcados.

Pediram tigelas de sopa apimentada e vinho branco no balcão e sentaram-se em um canto remoto.



  • Isso não é sinal de prosperidade - cochichou Joelle.

  • Não, mas pelo menos é seco.

A sopa não foi a melhor que Joelle já experimentou, mas a re­ vigorou, e ao menos o vinho estava gelado. Após o garçom tirar a louça, ela foi até a porta e admirou as ruas inundadas.

  • Está horrível lá fora - comentou, sentando-se outra vez.

  • Então acho que teremos algum tempo para nos distrair.



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