IntroduçÃO



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Capítulo 10

O habitar confiado e o aprender “com”

Viemos até agora analisando o espaço destinado, no saber psicológico, aos discursos de caráter eminentemente teórico, apontando os lugares nos quais eles se mostram insuficientes, e a necessidade de sua articulação através de outros tipos de conhecimento que lhes são alheios. Vimos o quanto os discursos teóricos se constituem no veículo por excelência do conhecimento na metafísica, colocando o mundo disponível diante de nós para cálculo e manipulação, através da representação. Exploramos ao mesmo tempo a possibilidade de instituição de uma outra fala, que nasce da ruptura com os modos cotidianos de interpretar o mundo e que institui o trânsito para o que, nele, se mantém como enigmático, não para representá-lo, mas para dirigir nosso olhar e nossa escuta para aquilo que pode se mostrar como surpresa, como o que contraria nossas expectativas.

Finalizada a análise de um segmento que nos evidenciou o modo de aprender "sobre" um mundo que está lá, estendido diante de nós por meio de sistemas organizados, inicia-se um novo, que visa apresentar um outro aprendizado, que chamaremos de aprender "com": aprender com a surpresa, com a alteridade irredutível, e que parte do encontro com a alteridade como o mínimo necessário.

Voltando à condição múltipla do saber psicológico observamos que ele, em princípio, evidencia um impasse quanto ao estabelecimento de uma identidade profissional única, quer dizer, é difícil precisar até que ponto é possível falarmos de uma única Psicologia, posição que pode ser estendida para a formação de nossos alunos.

Uma profissão caracterizada por uma variedade grande de matrizes de pensamento, por uma multiplicidade de campos de atuação possíveis, além das alterações de percurso vividas pelos praticantes ao longo de suas vidas profissionais acaba por dificultar a definição de uma identidade, que acaba por se constituir não mais a partir de aspectos que podem torná-los iguais uns aos outros, mas pela via do agrupamento em uma classe que se diferencia das demais, objetivando conquistar para si um lugar determinado na comunidade científica. Os psicólogos, assim, acabam por se definir enquanto tais por meio de estratégias de auto-legitimação, quando confrontados com áreas limítrofes, que vêm se constituindo num procedimento sistemático, ainda segundo Figueiredo (1993), de expurgo ou exclusão do mal, reivindicando para si um caráter de unidade e de cientificidade que não resistiria a exames mais criteriosos.

Ao mesmo tempo, ainda que não possamos pretender constituir uma identidade única, em nosso dia a dia sabemos quando estamos trabalhando e quando não estamos. Ou seja, podemos identificar, ainda que sobre apoios formais precários, os contextos nos quais nossa atitude se modifica, assim como os momentos em que abrimos ao outro nosso olhar e nossa escuta de forma diferenciada. Podemos reconhecer, mais do que nomear, um mínimo que, afinal de contas, permite que nos consideremos psicólogos.

Uma possibilidade de confluência já nos era apresentada por Porchat (1982), num texto ao qual já fiz referência, no qual a autora identifica o que chama de "realidades comuns" às diversas psicoterapias, reconhecendo que são abordadas por diferentes ângulos.Define como algumas dessas realidades comuns o estabelecimento e exploração de um vínculo entre cliente e psicólogo, a exploração de um "jogo entre o manifesto e o latente", e a existência de uma concepção de homem subjacente à atuação. Em última instância, nossa disponibilidade profissional está em ajudar um outro que nos procura com algum tipo de sofrimento psíquico.

Desse confronto diário com outros, Figueiredo (1993) retira uma outra referência para pensarmos sobre esse mínimo necessário, sugerindo que pensemos no profissional de psicologia como um profissional do encontro. Essa expressão relembra, momentaneamente, uma das vertentes sobre as quais foi apoiada a implantação da Oficina de Criatividade, aquela do estágio pelo qual eu mesma havia passado.

A experiência vivida por mim nos anos 70, carregada do forte sotaque humanista característico da época, atribuía ao encontro um caráter de experiência empática de comunhão com o próximo. Reconheço agora que não era apenas isso que ocorria lá, mas foi por este aspecto que ela foi por mim desenterrada para servir de pressuposto à Oficina de Criatividade: como a lembrança de uma experiência que nos unia num projeto destinado à familiaridade extrema, à proximidade de uns com os outros e com o questionamento reassegurador de nossas embrionárias iniciativas profissionais.

O amadurecimento nos grupos em Oficina, por outro lado, conduzia-nos, a cada semestre, para o estranhamento mais que para a convivência empática, para o encontro de uma outra natureza: o encontro com o diferente, com um outro irredutível, condição básica para a formação de psicólogos, conduzindo a própria definição de encontro para o sentido oposto. Nessa transformação acredito poder situar o principal objetivo da Oficina de Criatividade: sua principal função passa pela possibilidade de experimentar, a partir de atividades que se apresentam como situações inesperadas, o que é diferente e desconhecido, introduzindo aí um espaço para que os alunos possam vivenciar a impossibilidade de permanecerem, intocados, como iguais a si mesmos ao longo do tempo.

O estágio se mostra, então, como a oportunidade de deixar-se surpreender, com o outro e consigo mesmo: o lugar para aprender com a surpresa. E nesse ponto é importante pensarmos um pouco nas condições que temos para nos deixar surpreender, em que contexto essa surpresa assim se constitui, assim como sobre as maneiras como podemos lidar com ela transformando-a numa condição para aprender “com”.

Num universo concebido pela via da cisão, sujeito e objeto constituem-se como totalidades independentes. Uma delas é o sujeito metafísico, aquele que aprende sobre um mundo que está lá, à sua disposição, que se constitui, também ele, como totalidade1, exterior à primeira. Essa segunda totalidade é ao mesmo tempo composta tanto pelos objetos concretos do mundo, como por aquilo que lhes é subjacente como essência. Pela ótica da metafísica, então, lidamos com a alteridade (ou aquilo que é diferente de nós) como objeto concreto, acessível e disponível para manipulação, manifestação imperfeita de uma alteridade virtual, ideal, essencial, ou qualquer outro nome que pretendamos lhe dar. Como ordem subjacente, possibilidade última de cálculo e manipulação, ela se traduz como o Paraíso (perdido) concebido como todo organizado e harmônico, que nesta era contemporânea começamos a imaginar que possa nunca ter existido.

Com este outro entendido como totalidade oposta a nós mesmos estabelecemos uma relação de dominação, que visa em última instância forçar o essencial que está lá a se mostrar a nós, transparente, a partir do manejo dessas manifestações parciais, familiares e próximas, incorporáveis umas às outras dentro de sistemas, na esperança de que, virtualmente, tudo constitua um só todo organizado, o mesmo. Temos com ele um relacionamento auto-referente, egoísta, remetendo-o sistematicamente ao nosso modo de pensar sobre ele. Manejar as alteridades dessa forma permite que habitemos um mundo disponível, no qual sentimo-nos em casa. Segundo Lévinas (1992:21), na metafísica institui-se "um movimento que parte de um mundo que nos é familiar (...) de um habitar-sua-casa para um fora-de-si estrangeiro, um para lá", esse sim um Outro absoluto, impossível de ser reintegrado ao familiar, a ser eternamente perseguido sem que nunca se chegue ao fim da busca.

Se pensamos na surpresa de Stern (1990), ou na instituição de sentidos possíveis a partir da apresentação como alternativa à representação2, a relação apresentada acima impossibilita o surgimento do inesperado: temos, por um lado, os objetos, que podem ser sempre entendidos a partir do sujeito que os tem à disposição, nesse modo que chamamos de auto-referente. Por trás deles estão idéias (ou essências), presentes como o ainda desconhecido, mas nunca como o inesperado.

O próprio Stern, todavia, nos diz que o conhecimento apenas se dá enquanto surpresa porque, confrontados com as situações, se seguirmos apenas nossas expectativas, já saberemos tudo de antemão: não há o que aprender. O conhecimento, assim, deve obrigatoriamente surgir através do inesperado, que atravessa e permeia o que já sabemos. Podemos pensar, por esse ponto de vista, em dois modos possíveis de interpretação. Num deles, a compreensão prévia do fenômeno se realiza, e temos a experiência do apoio na tradição, do manejo dos entes como utensílios definidos pelo horizonte lingüístico no qual fomos lançados ao nascer. Outra possibilidade é a de que essa compreensão prévia seja contrariada, e que aí se insinue a aspereza, o inesperado, o surpreendente.

E mesmo aí, podemos, como já vimos, seguir dois movimentos. Um é o de procurar rapidamente as categorias às quais submeter o que aparece como contrariedade. O que era novo, deixa de ser. Os sentidos apontados são imediatamente trazidos de volta à segurança do conhecido. Neste caso, já vimos, incorporamos, aprendemos sobre. Caminho alternativo é o de aceitar o que se nos oferece como estranho, através da capacidade de mantermo-nos suspensos diante da tentação de um nomear precipitado, criando condições para aprender com. Essa posição de abandono mantém como universal a possibilidade de infinitos desdobramentos de sentidos, a virtual possibilidade da diferença, da instituição da alteridade a partir de momentos específicos de ruptura com o habitual, o tradicional. E mantém, também como virtualidade, o caráter insistentemente misterioso, enigmático, de tudo que é.

É aí que reside o encanto do existir humano, matéria prima do nosso ofício. É o contato com esse enigma que está pressuposto nos outros modos de aprender, diferentes do saber sistemático.

A possibilidade de sair do habitual, de lançarmo-nos como abertura para o que nos é estranho, para o encontro com a alteridade, pressupõe que, antes de sermos desalojados, tivéssemos constituído hábitos, tivéssemos habitado.

Território seguro ao qual nos reportamos, a habitação ou morada não é um objeto qualquer do mundo. Enquanto os objetos se apresentam a nós a partir de seu interesse imediato como utensílios, ou como meios para atingirmos um fim, a casa se mostra como condição (inicial) para estarmos no mundo. "A morada como construção, pertence de fato a um mundo de objetos. Mas essa pertinência, não anula o fato de que considerar os objetos - mesmo as construções - se produz a partir de uma morada" (Lévinas,1992:163). É "em casa" que estamos no mundo, uma vez que nele não aterrisamos, a cada relação, como se viéssemos de fora dele. Tampouco estamos nele abandonados, desprovidos de um lugar. Podemos dizer que a casa como construção é do mundo dos objetos, mas que o uso dos objetos se torna possível a partir da morada. E que o sujeito que é, também, pelo recolhimento, ao recolher-se o faz para sua morada.

É no habitar que constituem-se os hábitos, e é também a partir dele que podemos nos lançar para fora do habitual, para o desconhecido que se nos oferece a conhecer, agora não mais pelo caminho do discurso teórico, mas pelo da ética (outro sentido para os hábitos e costumes), pela qual - relembrando Vattimo - o reconhecimento por parte do sujeito do seu direito à singularidade e do caráter contingente e circunscrito de seus valores e referências, define, por princípio, a possibilidade da existência de outros que lhe sejam diversos e da convivência com eles. É da crítica sistemática quanto aos limites de sua existência (e de sua credibilidade, portanto) a que se auto-submete o sujeito metafísico cognoscente, tomado como polo interpretador do ser-a-conhecer, que a ética se instala. Ela nos confronta com esses limites em sua circunstancialidade, inserindo a presença de um outro diferente, também ele circunstancial.

Agora, ao invés de conhecer um outro reportando-o obrigatoriamente a nós mesmos através de uma relação de dominação egoísta, podemos nos arriscar a sermos afetados pelo outro enquanto alteridade irredutível: "...é somente a partir de um primordial sentir-se em casa que se criam as condições para as experiências de encontro da alteridade e para os conseqüentes acontecimentos desalojadores" (Figueiredo,1995a:48).

É pelas aberturas de nossa habitação que nos damos para, ou que nos deixamos atingir por um mundo que, se na maioria do tempo se adequa a nós, nos expõe ao risco da não adequação. O acolhimento nem sempre suave do outro, a partir do reconhecimento ético de sua existência, introduz a impossibilidade de adequação, e portanto, da totalização. O outro é sempre alguém que nos escapa, que contesta o nosso domínio, que transborda todas as possibilidades de representação, de categorização racional. Impõe-se a nós porque a própria constituição do "si mesmo" de cada um de nós passa por constatarmos que, por não sermos outros, somos nós mesmos. Na medida em que nos reconhecemos separados, temos que reconhecer o outro como tal, mesmo que a seguir passemos a reduzí-lo por meio do empreendimento teórico.

A alteridade, na medida que contesta e desaloja, rompe a totalidade. A aceitação da existência inexorável do outro, num contexto ético, nos submete a ele, numa relação de desigualdade que é a que permite que, ao invés de aprender "sobre" ele, possamos aprender "com ele", naquilo em que ele é diferente de nós.

Um outro que é não mais como identidade auto-contida, mas que expressa sua irredutibilidade através daquilo que nele não entendemos, daquilo que a despeito de toda interpretação permanece como enigmático. É nessa dimensão que o outro irredutível se constitui como uma ruptura da possibilidade de totalização por parte do sujeito: em sua virtualidade inatingível, permanece como desejo eternamente insatisfeito, impossível de compor, com o sujeito, uma totalidade que os anteceda a ambos. Ele se apresenta como o "outro para além da idéia de outro em mim. É, assim, receber d'Outrem além da capacidade de Mim; isso significa exatamente: ter a idéia do infinito. Mas significa também ser ensinado." (Lévinas, 1992:43).

Na condição de força expressiva ininterpretável que avassala, a alteridade irredutível nos intima ao acolhimento que visa o aprender com, à hospitalidade. A existência ética é, portanto, hospitaleira. O acolhimento ao outro (como já vimos, nem sempre suave, porque inexorável), ao mesmo tempo que nos aponta os aspectos enigmáticos dele, nos apresenta aos nossos próprios.

Vimos acima que apenas na medida em que nos percebemos como separados é que nos confrontamos com o outro enquanto tal. Vimos também que essa separação pode ser entendida como aquela que se constitui de dois entes-já-constituídos, pelo ponto de vista da cisão entre sujeito e objeto, à qual se contrapõe a possibilidade de uma "gênese simultânea da alteridade e do si próprio", apoiada na ontologia heideggeriana, pela qual "...pode-se ver o estranho despontando exatamente de onde não se esperava, ou seja, da mais absoluta proximidade" (Figueiredo,1998:1).

Um outro que a nós se apresenta como expressão sempre em princípio intraduzível, estabelece a desigualdade e o esforço de entendimento, nunca realizado plenamente, que se insinua como ruptura na trama do já estabelecido e rompe a idéia da totalidade. Podemos pensar, inicialmente, que o movimento gerado pelo enigma seria, então, o da "...implantação de um a-traduzir, que ao mesmo tempo obriga o sujeito a um trabalho de tradução/tecimento (sempre imperfeito) e torna, dada a imperfeição, qualquer tradução/tecido (ou trama) precária, vulnerável a de-traduções e já, numa certa medida, tendendo para re-traduções." (idem:5).

Na perspectiva auto-referente, as reconstruções da trama se dariam exclusivamente pela categorização do enigmático, pela atribuição de um sentido. A alternativa, crucial para o entendimento do que se constitui como pano de fundo para a Oficina de Criatividade, é a de que a possibilidade mesma de traduzir é sempre necessariamente incompleta, diante de um outro que acolhemos como tal. Dirigimo-nos na Oficina para a possibilidade de engendramento conjunto de histórias sem fim, mais do que para scripts acabados, auto-contidos, explicados e esgotados. Fazemos isso baseados na premissa de que essa é uma característica constitutiva do fazer psicológico diante da qual os alunos têm que se situar.

Esse outro que faz parte, desde sempre, de nós mesmos, na medida em que com ele compartilhamos uma comunidade lingüística na qual somos lançados ao nascer, emerge dela ao mesmo tempo em emergimos: numa relação indissolúvel, tornamo-nos nós mesmos enquanto os outros se tornam os outros, e vice-versa. Nesse processo, a alteridade irredutível institui o enigma frente ao qual sempre alguma coisa não faz sentido.

É necessária uma perspectiva que não parta de um outro enquanto uma idéia de outro em mim, mas sim de uma alteridade que emerge, enquanto tal, do familiar. Esse outro está já em nós, como mundo que habitamos, como um outro-mundo-circundante, na condição inicial de proximidade absoluta. Essa possibilidade de acolhimento a um outro diferente de nós, porque diferente dele mesmo, percebido como alteridade que ora compreendemos e ora não, instaura a percepção de que nós mesmos também somos dessa maneira, ou seja, diferentes de nós mesmos: é preciso que o outro seja outro para si para que ele seja outro para nós, e para que sejamos, nós também, outros para nós mesmos. E engendra a possibilidade de, a partir dessa diferença básica, afetarmo-nos mutuamente e produzirmos alguma transformação.



De volta à Oficina de Criatividade
A partir do acima apresentado é óbvio afirmar que a Oficina de Criatividade pretende instituir um espaço para o confronto com a alteridade, com a lacuna, com a surpresa, por meio da ruptura com o habitual. Exemplificar de que maneira pretendemos que isso aconteça por meio das atividades é, sem dúvida, tarefa mais fácil do que comprovar que o que esperamos de fato acontece: mesmo diante dos exemplos, o verdadeiro alcance do acontecido permanece como enigmático. Alguns dos fenômenos desencadeados e apresentados no capítulo 2 sugerem, de acordo com o que foi exposto, que podemos contar com uma certa abertura e, mais ainda, produzí-la artificialmente com base num pressuposto que nos diz que a aprendizagem com o inesperado não é completamente passiva, e que a surpresa pode ser cortejada. (Stern, 1990).

Se o flerte iniciado em nossa Oficina se consolida como uma união duradoura, não podemos ter certeza. Sabemos que ela é necessária, e que o terreno da atuação profissional está pleno de oportunidades para que nos deixemos atravessar pelo inesperado. O que pretendemos é que, no estágio, os alunos encontrem um lugar para prová-la com o duplo sentido de experimentá-la e de submetê-la à prova. Concebemos a Oficina de Criatividade, então, como um campo para experiências, como um campo no qual possamos nos fazer e refazer a partir de uma experiência. Não aquela rançosa e congelante, a do desapontamento progressivo em direção à totalização e às impossibilidades, mas a outra, vívida e transformadora, a experiência do diferente.

Agora, sim, os exemplos proliferam! Podemos incluir, a partir desse momento, em nossa análise, praticamente tudo que foi descrito como atividade, assim como todo o modo de funcionamento da Oficina. Lá atrás, onde ela se mostrava pelo negativo, os exemplos eram uma arbitrariedade porque forçavam as articulações. Aqui, eles são uma arbitrariedade porque é possível instituir qualquer recorte, uma vez que a própria (des)organização das atividades direciona, o tempo todo, para o inesperado, para o diferente. É assim que a Oficina de Criatividade se apresenta como um campo para a vivência das diferenças, assumindo que só há experiência onde, desde o início, já se constituiu uma diferença desta para com a expectativa, para com o conhecido.

Cabe assinalar, entretanto, que diferenças são essas. Constituir um campo para as diferenças pode querer dizer um campo onde se encontram vários diferentes, encapsulados, sujeitos constituídos. É um campo múltiplo, mas que não permite a articulação dessas diferenças, por ser composto de sujeitos que lidam com as alteridades como totalidades independentes. Na Oficina o que acontece é um pouco mais que isso: ela é um campo para convivência das diferenças, que pode também significar um campo constituído por ser diferente dos outros, que propicia, por vezes, sustos e o desafio de mobilizar-se em direção ao outro sem reduzí-lo ao si mesmo, um campo para o trânsito das experiências.

A Oficina se apresenta também como possibilidade recolhimento, de um habitar confiado, na medida em que se constitui como um espaço diferenciado, sem pressa e sem necessidade de mostrar serviço. O tempo dela é outro, é o tempo de parar o que se está fazendo, de interromper as rotinas, de olhar de uma outra forma para o familiar. Assim ela é também ruptura do hábito.

Ela é, por exemplo, isolada fisicamente. A sala que foi reservada para as atividades é no fundo da clínica, separada do resto do prédio por um quintal, por onde circulam os demais alunos que se encaminham para suas salas, e que é aproveitado nos dias agradáveis para que os alunos se espalhem fazendo seus trabalhos. Como a sala é envidraçada, dependendo do que fazemos, acabamos por nos tornar uma atração para quem passa. Quem nos vê, nos vê de fora, o que nos reserva um espaço privilegiado. Além disso, em algumas atividades, os alunos circulam pelo corpo principal da clínica, dedicando-se, no entanto, a tarefas dissonantes como, por exemplo, deixar-se fotografar em alguns ambientes. A Oficina se mostra assim, para os que dela participam e também para os que não vieram, como um espaço delimitado e protegido onde pode acontecer o diferente. Identificamos isso num excerto retirado, por exemplo, da proposta de oferecer um prato de comida.

S1 - Isso que você está falando... acho que foi a parte importante do que aconteceu hoje... o que mais me chamou a atenção, e o que me deixou comovida, mesmo. Foi esse movimento que vocês estão tendo em direção da outra pessoa, de... aprofundar as coisas, de estar aqui... prá fazer, de correr o risco... de trazer as coisas sem saber... tentando adivinhar o que vai acontecer... E uma coisa que vocês souberam... maximizar, porque fizeram com o maior cuidado. Não foi... ah, compra um suco aí e leva. Vocês cuidaram com carinho da atividade, de vocês, dos outros.

A9 (interrompendo) - ... é o tesão de fazer. Por inteiro!

Falam da diferença que sentem com relação aos demais, os que não estão fazendo OC.

A6 - É legal ver a cara das pessoas que passam por aqui (pela porta da sala, que dá para o pátio). Elas vão passando... param, continuam, voltam e ficam olhando.

A9 - É que essa experiência é totalmente nova. É tudo diferente. Do contexto... normal de uma clínica. Você chega aqui, e vai fazer um pic-nic... vai fazer um desenho. É uma coisa totalmente voltada prá gente mesmo, mexe muito com o interior nosso. E tem as pessoas que não fazem... e é difícil explicar. Porque o comentário normal: Você teve OC? O que que teve? Porque é diferente. Seria legal ver os que já estão trabalhando com isso... os outros grupos... se são do mesmo jeito que o nosso.
Essa oportunidade de ser invadido, inesperadamente, pela possibilidade de sair do habitual e entrar em contato consigo mesmo ocorreu, também, com um dos alunos, na visita à Casa Cor. Esse episódio demonstra o quanto a resposta às propostas surge, inadvertidamente, um pouco pelo simples fato delas serem muitas e variadas. Ou seja, ao solicitarmos aquilo que não é tradicional, às vezes só por fazermos isso já instituímos uma disposição para um novo olhar para o familiar. Mas isso só não basta, não garante esse novo olhar, que depende da disposição mas não só dela, que se ancora naquilo que não sabemos o que é nem quando vai acontecer. Na verdade, parece que na insistência em multiplicar as oportunidades reside a possibilidade de favorecermos que um acontecimento desse tipo se dê.

Outros relatos, melhores, descrevem o processo de identificação com o ambiente, de fruição do espaço. Não se apegam tanto a dizer "sou assim". Apenas descrevem a aproximação com "o seu lugar".

Ambiente escolhido: Escritório do dono da casa

"Pintou uma diferença sim, já de cara quando entrei no escritório, muito envolvente e acolhedor. Não tive vontade de sair e fiquei mais um pouco sentindo o clima. Havia algumas pessoas, mas insisti em ficar. A música, a luz, a TV ligada, o sofá... muita coisa enfim me prendeu ali, naquele ambiente que parecia ideal. Parecia ter tudo que eu precisava e ali estando, me bastaria, principalmente se ali estivesse numa tarde fria e cinzenta de inverno. Poderia até estar nevando, assistiria TV enrolado num cobertor, assistindo TV e comendo pipocas... Ao fim do passeio pela casa voltei lá, fiquei mais um pouco, tocava um blues da Natalie Cole que deu um toque especial àquele momento. Olhei cada parte com atenção e me prendi na estante, que ia até o teto e parecia tomar conta de tudo, cheia de livros e objetos de arte. Uma lareira central dominava o ambiente garantindo calor e conforto. Por um momento me senti dono de tudo e me perdi nos meus pensamentos de puro prazer em estar ali. Então fui despertado por um grupo de pessoas que acabava de entrar comentando em voz alta a disposição dos móveis e um tipo especial de papel de parede, feito de seda azul. Me dei conta de que era um ambiente de todos, e não só para mim. Tomei nota do nome da autora e saí."

A diferença desse tipo de descrição para uma outra, já apontada, marca alguns pontos importantes. Trata-se de um relato identificado, a partir do "anúncio de si mesmo", como uma fala sobre a experiência.

A9 - ...Eu de repente sou uma pessoa... muito individualista. Eu sou assim. Eu não quero que ninguém seja igual a mim. Eu costumo sempre ser diferente. Tava... chegando dum lugar onde pude pôr isso prá fora. De repente vem um cara passa a mão, outro me empurra eu vou prá lá, eu não gosto disso. Então eu fiquei meia revoltada. Mas o resto... e é bem isso, eu tou bem assim, eu tou bem light, tou bem calma... eu tou... diferente do que eu fui. É isso, é um mar, o pôr-do-sol (mostrando a colagem)... se tem alguém perto de você ou não... o momento é que vale... tem horas que seria legal estar com alguém do lado, tem hora que é legal estar com você mesma. E é outro esquema, de você saber o que você tem vontade. A vida é muito curta prá gente pensar... hum o que vão achar? O que vão achar dane-se. Uma frase que eu uso muito... quem paga minhas contas sou eu . Então eu acho que a gente tem que fazer aquilo que a gente tem vontade. É pegar um carro e viajar, é ficar um mês fora... as consequências de você ficar um mês fora é o seu emprego, é a faculdade... você vai abrir mão? Eu, nos 4 anos... não agora, que clínica é diferente, mas nos 4 anos de faculdade eu sempre me dei pelo menos um mês de férias, mas não nas férias. Férias durante as aulas. Eu não tava a fim, eu não ia. (risos) Eu acho... eu sentia necessidade... no 4º ano, então, eu me dei uns 8 meses (risos). Não tava mais ligada na faculdade, não fui. Aquele esquema, alguém assina a lista prá você... Então eu acho que você tem que se dar férias fora de férias. Você tá sufocada que nem ela (outra aluna, que acabara de desabafar), tem um monte de coisa, isso não vai te levar a lugar nenhum... tem tanta coisa prá fazer que... você fala e agora, prá onde eu vou? É mais ou menos por aí. É agora, é parar agora, é pegar o carro, ir viajar, sei lá... trabalhar aqui, trabalhar lá, acho que a gente tem que fazer o que a gente tem vontade, porque a idade é nossa, a gente só tem um ano de cada vez, eu não vou ter 24 anos o resto da vida, como não tive 22, como não vou ter 40. Então é aproveitar o máximo e fazer tudo aquilo que eu tenho vontade. E buscar minha paz interior, porque não adiante ter vontade, super histérica, e conviver com milhões de problemas.


Eu não saberia demonstrar, pela via da lógica, o que faz dessa uma fala diferente da outra. A distância entre elas permanece como sensação. De alguma maneira, considero que enquanto a primeira fala a partir da experiência, esta é uma fala sobre a experiência. A importância de marcar a diferença está no fato de que, para mim, elas nos intimam a escutas diferentes. A primeira nos carrega junto com ela, nos apresenta o "mundo-circundante, constituído de um clima, de cheiros, de um calor acolhedor, de uma tonalidade afetiva" (Figueiredo,1998:9), um acesso ao "seu lugar" tal como foi experienciado pelo aluno. A outra fala, ao contrário, instala-nos num contexto objetivado, cheio de recomendações e mensagens dirigidas, que visam condicionar nossa tradução. Frente a ela nos contrapomos, questionando ponto por ponto. A outra, ao contrário, nos convida a um recolhimento semelhante ao usufruído por seu autor.

Situações que lidam com esse aspecto são encontradas, mais do que em relatos específicos, em algumas das solicitações que fazemos, como a leitura de obras literárias, das quais o fragmento de 'Perdas e Danos' é um exemplo. A exibição de filmes ou o pedido para que assistam a exposições de arte ou peças de teatro podem ser encaixadas na pretensão de expô-los ao contato com maneiras de existir que são diferentes das deles. Quanto a isso, é importante a seleção de atividades que sejam, de fato, marcantes, muitas vezes por serem polêmicas. Nessas situações, é importante nosso posicionamento de sempre instituir a dúvida sobre o que faz uma forma de existência melhor que outra, com o objetivo de "...elaborar métodos e técnicas e critérios interpretativos que nos permitem ir além de uma comprensão ingênua e auto-centrada dos outros e de nós mesmos." (Figueiredo,1992:22)

Presente, a meu ver, em vários momentos ao longo das atividade descritas, o encontro com o outro em si mesmo, ou o deixar-se surpreender consigo mesmo pode ser apontado, de várias maneiras, nos excertos que se seguem. Acontece, por exemplo, a partir da solicitação de feitura de um gráfico da própria vida, quando o que subseqüentemente foi dito aparentemente mostra para a aluna alguns aspectos intrigantes para ela mesma.

Um gráfico de linhas paralelas

S1 - (...) Mas você botou tudo paralelo.(silêncio) Como se não tivesse relação um com o outro... Não são linhas que se entrecruzam... quando aumenta um desce o outro... Para mim, elas começam... meio de lugar nenhum... e correm paralelas.

A11 - Eu acho que correm mesmo paralelas.

S1 - É?

A11 - Mas eu mesma achei estranho, no final. Olhando... tá muito reto, tá uma coisa muito reta.



S1 - E você vê mesmo as coisas como paralelas?

A11 - É. Como se não desse uma visão de conjunto.

S1 - Então é isso aí mesmo, tá representado... certo.

(silêncio)

A11 - Tudo separado...

S1 - Hum,hum...

A11 - Mas o que é isso? o que quer dizer isso?

S1 - Aí você é que tem que pensar,não é... que pensar o que é isso. É você mesma que tem que descobrir e trabalhar em cima disso.

A11 - Posso levar prá terapia.
Na situação em que os alunos têm que oferecer aos colegas um prato de comida, podemos observar claramente os momentos em que a tarefa apenas confirma aquilo que sabem sobre si mesmos, e aqueles nos quais a oferta surpreende, neste caso pelo reconhecimento, por parte do ofertante, de aspectos que haviam, até então, sido habilmente escondidos.

No primeiro segmento, a apreensão superficial aponta para características óbvias, que assim permanecem para quem recebe.

Os relatos iniciais deixavam-me com a desagradável sensação de estar em uma festa de amigo secreto. Fossem ou não as pessoas conhecidas umas das outras, a apreensão havia se dado nas fímbrias da superficialidade, como no exemplo:

A10 - Eu comecei pelo arroz, porque lembra bem o oriental, então eu fiz acho que a metade do prato porque é forte. E pensei bastante nas formas... é Doritos que chama isso? Esse triângulo. Então eu armei esse lance bem do Oriente, e também porque eu conversei com ela, e ela foi prá praia... eu não conheço a pessoa, mas me lembra bem... coisa assim, natural, então um suquinho de laranja, assim, uma frutinha, um pão integral...

A11 - Bom, realmente o arroz tá muito presente, o japonês se empanturra de arroz. A decoração também, é super importante, os tons e cores, só esse pão aqui é que pesou, que é massa. Frutas, também, adoro, tá muito harmonioso. O arroz, os legumes. O docinho, que não tem e que eu não gosto mesmo.
Contrapõe-se a isso um outro exemplo que merece um comentário mais detalhado. Aqui, quem recebeu o prato foi a aluna que, no início, não havia sido reconhecida por seu anúncio, fato que entendemos após sua fala, que evidenciava que, no cartaz, ela havia optado por apresentar-se por meio de figuras que, segundo ela mesma, eram o oposto de como ela se percebia: frágil, afetuosa, em busca de contato.

A sensibilidade de sua colega em evidenciar esses aspectos ao preparar seu prato parece surpreendê-la, pela habilidade da outra em perceber aquilo que ela gostaria que fosse percebido pelos demais, a despeito de seus esforços em escondê-lo. A experiência a desconcerta momentaneamente.

A1 - Eu não conheço a pessoa. Então eu fui imaginando, fui criando, como eu achei que essa pessoa fosse, o que ela passava prá mim. Ela passa prá mim uma coisa tranqüila, leve, uma coisa meiga... Eu vou falar sobre um detalhe que eu coloquei. Eu coloquei essas duas uvinhas aqui porque ficava uma coisa delicada. Esse doce: não podia faltar esse doce porque essa pessoa, por ser assim uma pessoa que transparece calma, eu vou colocar o doce porque ela tem um pouco de doce. E o verde, que simboliza para mim um aspecto misterioso. E isso simboliza uma coisa que você me disse: isso aqui é uma pirâmide.

A5 - Ah!!! (começa a chorar) Pode chorar?

(O grupo fala todo ao mesmo tempo, ansioso e emocionado com a reação)

A5 - (depois de chorar) Eu tava assim... já... amando essa pessoa que você tava descrevendo. Eu tava louca prá saber quem era, porque eu queria conhecer melhor. (ri)


Para finalizar esse item, recupero as observações que eu mesma fiz ao proceder à descrição, pertinentes à análise: Das formas de existência inautêntica, a solicitação de concentrar a própria vida em um gráfico desentranha um novo olhar que resgata e amplia os modos de existir. Abre, para alguns, a possibilidade de retomada, re-visão. O contato com o outro em si mesmo permite a apropriação daquilo que foi importante ao longo do tempo, instituindo possibilidades de continuação.

O que aqui podemos observar é o trabalho de exploração das ramificações de sentidos apontados pelas observações alheias, numa elaboração do trabalho - inicialmente desestruturado - de fazer um anúncio de si mesmo. A atividade serve também como espaço para colocações pessoais mais profundas, para um mostrar-se mais intenso, muitas vezes a partir do que os outros disseram. São pessoas que se reconhecem no que foi dito sobre seu anúncio, e se deixam levar pelo processo de auto-percepção desencadeado.

A7 - Sabe o que ela falou das partes mais rígidas? Prá mim é assim, a gente vive uma vida hoje em que cada um tá dentro de si. Não, não, não tenho tempo. Você chega perto de uma amiga, pergunta como tá, ah, tô sem tempo, cheia de compromisso. Então as pessoas enfrentam uma carência muito grande. Muito vazio. Você vai nos lugares, você sente que as pessoas tem um vazio muito grande. E eu também tenho esse vazio dentro de mim, que de alguma forma eu gostaria de preencher. Como eu, tem mais pessoas nessa situação...

S1 - Hum hum...

A7 - Foi isso que me passou. (a imagem que ela selecionou é um bar completamente vazio) Um lugar que não tem ninguém. A solidão... eu acho que as pessoas hoje estão muito solitárias... Não sei o que tá acontecendo... mas eu acho que tudo tem a ver comigo e com as pessoas. Porque antigamente a gente tinha o prazer de sair mais, de ter uma vida um pouco... de ter uma vida social um pouco melhor... e hoje em dia não. Prá mim isso é bem nítido... assim... então eu acho que a A1 acertou.
Também são encontrados exemplos que insinuam (sem evidenciar, no entanto) o caminho percorrido por alguns alunos em direção a um novo conhecimento do outro, pelo preenchimento de lacunas que não podem ver mas podem imaginar. Podemos nos deter em um desses momentos, ainda relativo ao trabalho do anúncio.

A1 - Eu acho que é ela porque... não sei se você lembra, naquela aula de adolescente, (virando-se para a autora do cartaz) você falou: sexo.

(risos)

A1 - Você nem lembra disso, hein? (...) Então. Adolescente. Ela falou: sexo. Então a hora que eu vi ... os dois se beijando (a figura no cartaz)...eu pensei, é a ... seu nome é A2? É. A2. Sabe, tem assim aquele jeito dela... aquele jeito romântico, apaixonado...



Neste caso, quem identificou não sabia nem o nome da pessoa identificada, e lembrou-se dela por uma única e marcante palavra, acertando em sua intuição.
Numa outra ocasião, a identificação apoia-se, consensualmente, num dado aparente. Nós, supervisoras, chamamos a atenção para a necessidade da explicitação do processo, para que não incorra num fechamento repentino pelo qual o outro fica excluído, não aprendendo nada sobre si mesmo.

Há as adivinhações de consenso, que se apoiam solidamente em algum dado gritante, retratado pelo autor, aparentemente, com muito sucesso.

S2 - Então tá aqui, ó: Objetivo. O homem ama, sofre, questiona, e faz disso a sua arte. Quem acha que sabe?

Muitas pessoas acham que sabem e falam ao mesmo tempo. Todo mundo acha que é o A3. Todos falam ao mesmo tempo.

S2 - É você, A3?

A3 - É.


A4 - Tem o sentido crítico. Você lê a frase, você conhece a pessoa, você já sabe que é típica dela.

A5 - E quando a gente lê 'o homem questiona, não sei o que', tem um quê dele.

S1 - Dizer 'é a cara dele' não ajuda. Não elucida muito a percepção que você teve. Tem que ajudar também a outra pessoa a entender... Porque tudo bem, a gente olha e diz 'é a cara da pessoa'. É uma coisa meio intuitiva, pré-reflexiva, mas por que? Que coisas que você viu? Tenta pensar sobre a tua impressão, porque isso é importante prá pessoa que fez. Saber... o que o trabalho dela evoca nas pessoas.

A2 - Eu conheço o A3, que ele já trabalhou comigo, e eu sei que ele é bem prático, bem objetivo. Então só o nome, objetivo, já quer dizer...

S1 - Aqui, dá para perceber que ser objetivo é uma característica marcante do A3. É uma coisa que aparece prá nós antes mesmo da gente pensar... é uma característica que... aparece, não se sabe de onde. Por isso que precisa dizer o que no anúncio fez com que o autor fosse identificado. Dá prá entender? porque a gente não quer que fique só naquilo... é a cara dele!... Isso não diz nada prá pessoa.

Neste caso, 'ser objetivo' é muito marcante no autor do trabalho. Todo mundo reconhece isso. Ao esclarecermos nosso entendimento da tarefa, enunciamos um pressuposto: o de que a apreensão intuitiva consiste numa compreensão antecipada do que focalizamos. E que o que compõe esta antecipação, uma vez nomeado e dito, informa o outro do que, nele, aparece para nós.

Nesse momento, e em nossa fala final, repetimos um pressuposto que pode ser reportado, mais uma vez a Stern (1990:460), quando ele diz que "o analista persegue a aparição do que está ausente pela focalização detalhada do que está presente." Pensamos, como ele, que temos que considerar as limitações do conhecido como oportunidades para instalação do desconhecido. A partir disso as lacunas se evidenciam, e diante delas temos que aguardar que os sentidos se direcionem, já que "a verdadeira tarefa da terapia não tanto é dar sentido aos dados, mas resistir à tentação de dar sentido aos dados." Só assim criamos as condições para o engendramento conjunto de histórias sem fim. Dessa maneira, favorecemos um processo pelo qual, futuramente, nossos alunos poderão levar em consideração que

"Quando o analista questiona o que ele acha que já sabe sobre o paciente e sobre suas reações ao paciente, a incerteza está preservada. Torna-se difícil deixar-se convencer por uma simples resposta. Estas condições constituem o clima para que as percepções inesperadas floresçam. Ao tentar criá-las, o analista está fazendo o possível para cortejar a surpresa." (idem:470)


Há um trabalho no qual a alteridade emerge com toda sua força, fazendo com que nos sintamos, momentaneamente, como aquele robô em "Perdidos no Espaço", seriado de ficção científica dos anos 60. Programado para uma infinidade de situações, ainda diante de algumas o robô permanecia sem ação, afirmando repetidamente estar diante de algo que "Não tem registro".

Falamos aqui do que foi chamado, na descrição inicial, como "um gráfico desconcertante", que reproduzo aqui novamente.

A12 - O gráfico eu fiz do meu cérebro, tá. Dividi de 4 em 4 anos. Então dos 0 aos 4 anos, era(?), porque eu nasci doente, e tal... E aqui...

S1 - O que é o vermelho e o verde?

A12 - Eu vou explicar. Então é assim: saúde familiar, sou eu. A saúde mental é meu pai, e a saúde física é minha mãe. Então, dos 0 aos 4, dos 5 aos 9 e dos 10 aos 14, eu me identifiquei muto com a minha mãe. Sempre, sempre com a minha mãe. Sempre. Depois que eu fiz dos 5 aos 9, eu comecei a dar uma importância a mim. Então comecei a já chegar na saúde familiar, a questionar minha vida, minha saúde mental, e já comecei a me identificar com meu pai também. Depois, dos 10 aos 14, eu simplesmente esqueci de mim de novo, e fui pela minha saúde física, que era minha mãe, e minha saúde mental, que era meu pai. E depois que eu fiz dos 15 aos 20, eu matei meu pai, prá mim não existiu mais, voltei prá minha mãe, e comecei a me questionar, o que eu era, porque eu não trabalhava, porque eu não tinha namorado, tal. Aí então, dos 21 aos 25, que agora eu vou fazer 25 anos, agora eu integrei tudo. Tou conversando com meu pai, tou conversando com a minha mãe, e tou sendo eu mesma. Não estou sendo mais o que eles querem que eu seja.

S1 - E o que é o vermelho e verde, que eu ainda não entendi?

A12 - O vermelho é a parte, assim, mais importante, mais marcante. São as necessidades primárias. O verde é, assim, coisa que você já... deixa para o segundo plano.

S1 - E de onde vem esta relação de saúde familiar com você mesma, saúde mental com o pai e saúde física com a mãe?

A12 - Bom, isso vem da clínica onde eu trabalho. É o próprio ciclo, o que é mais importante. No caso, que minha mãe é Libra, é a saúde física dela.

S1 - (muito confusa, não entendendo nada) Dela ou sua?

A12 - Dela. Não é? Então, Libra,(o que tem isso a ver agora?) que é o dela, se identifica com Câncer, que é o meu. Então daí, eu me identifico mais... porque quando minha mãe está doente, eu fico doente. Se meu pai usa muito a mente, então eu também vou usar a mente.

S1- Sei... (SEI?) Mas não funciona assim prá todo mundo...

A12 - Funciona.

S1 - Sempre saúde física é a mãe e saúde mental é o pai?!?

S2 - Prá qualquer signo?

A12 - É. Só que muda algumas coisas.

(silêncio)

S1 - Se eu pegasse o gráfico eu não ia entender nada. (Como se com a explicação estivesse entendendo!)

S2 - Eu também não.

S1 - Por que cérebro triádico?

A12 - Tá integrado. Hoje em dia eu já entendi a relação de ser boa filha, posso entender tudo, integrar tudo. Porque antes eu ficava só com meu pai, então quando eu ia conversar com a minha mãe... dava briga. Aí eu ia só conversar com meu pai. Aí ele ficava tipo só parte intelectual. Aí se eu tava mais com a minha mãe, dava briga de novo.

Perguntas traduzem a perplexidade do grupo diante de um discurso mais "alternativo" do que estávamos preparados para agüentar, mas também sinal de um processo de confusão que iria se manifestar posteriormente, ao longo de outras sessões

? - Você é filha única?

? - Triádico?

? - Original!

O relato é categórico. Apesar do conteúdo desconexo (ou por causa dele), não é permeado por indecisões, falhas ou interrupções, a não ser as que o resto do grupo, perplexo e sem entender nada, faz. É como se qualquer interrupção abalasse certezas duramente conquistadas. Alarmante. Deixa a todos desconcertados.

Inegávelmente aqui nossa capacidade de abertura e acolhimento é abalada. A situação é um teste para nossa capacidade de surpresa. O relato apresenta um grupo atônito diante do que se mostra como incompreensível, nem tanto com relação aos têrmos empregados, provenientes de uma miscelânea de referências psicológicas e alternativas, como até já havia acontecido antes, na menção feita por uma das alunas ao tarô, por exemplo. O que nos desaloja para um território alienígena é a articulação, a união dos elementos, realizada com base numa convicção cujos fundamentos nos eram estranhos.

Recupero meu próprio processo ao tentar compreender o que era dito como uma seqüência desconexa de bifurcações que se seguiam umas às outras, sem chegar a um ponto onde fizessem sentido. Revejo-me seguindo as pistas: cérebro triádico (psicologia cognitivista)... Libra (Astrologia)... figuras estanques (indicador de fragmentação psicopatológica segundo os conceitos que fundamentam a interpretação de testes projetivos)... saúde familiar (psiconeurolingüística??)... Sentia a multiplicidade de referências como o “Não tem registro!”.

Diante dessa apresentação, devolvemos algo idêntico a si mesmo e (felizmente) diferente de nós, ao lugar onde pudesse fazer algum sentido (desde que longe). Encerramos rapidamente o assunto, passando para o próximo, até termos tempo de nos recuperar. A recuperação, ocorrida posteriormente, permitiu o aparecimento de um sentido possível: a desestruturação, que parecia se anunciar, diante da qual tivemos que assumir algumas posições cabíveis ao contexto ao longo do semestre.

Um risco que corremos em atividades desse tipo, tais situações intimam-nos ao questionamento quanto à oferta de experiências assim a todos os estagiários. A resposta não é simples, mas eu prefiro pensar que é preferível que aconteçam diante de nós.

Com esses exemplos, escolhidos entre uma multiplicidade de outros recortes possíveis, encerro esse segmento que teve como objetivo demonstrar uma outra possibilidade de aprendizado complementar à oficial, transmitida formalmente. A introdução de atividades pouco habituais e o trabalho a partir delas realizado visa resgatar da marginalidade a idéia de um conhecimento questionável, têrmo relegado a uma conotação depreciativa pelos ideais de segurança da modernidade. Através dessa perspectiva, pretendo sugerir que, assim como os currículos devem deixar a desejar, se procuramos pela surpresa, todo o conhecimento deve ser devolvido à condição de questionável, tomando-se o sentido positivo da expressão, daquilo que desencadeia um questionamento saudável sobre certezas adquiridas. Normalmente encarada como uma deficiência, a expressão pode significar manter-se na incerteza de preferência, fora da ortodoxia. Qualquer bom discurso ou articulação só tem sentido enquanto se mantiver questionável.




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