História da educaçÃo do rio grande do sul



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UMA CARTOGRAFIA DA PESQUISA EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NA REGIÃO SUL:

PARANÁ, SANTA CATARINA, RIO GRANDE DO SUL (1980-2000)
Maria Helena Camara Bastos1

Marcus Levy A. Bencostta2

Maria Teresa Santos Cunha3


RESUMO


O estudo realiza uma cartografia do conhecimento produzido em História da Educação na região sul - Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul -, nos anos 80 e 90. Identifica temas privilegiados pelos pesquisadores, os que carecem de desenvolvimento, tentando avançar as questões de pesquisa na área. A significativa produção de estudos evidencia o importante espaço de discussão e de consolidação da área como campo de pesquisa.

Palavras-chaves: História da Educação; Historiografia; Pesquisa; Região Sul


ABSTRACT
This study makes a map of the knowledge which is being based on History of Education in Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, in the 80's and 90's. Identifying themes which have been privileged by the researchers as well as those that need to be developed , attempting to make progress in the questions of research in this field. The significative production of studies is an
evidence of the important discussion space and consolidation of that area
as a field for research .

key-words : Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul; History of Education; Research; State of Art




INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, ampliaram-se significativamente os espaços de produção em história da educação no Brasil. Criaram-se grupos de pesquisa e/ou associações de pesquisadores regionais, estaduais (ASPHE – 1995) e nacional (SBHE – 1999).4 Foram realizados inúmeros congressos - nacionais e internacionais5 -; aumentou a participação de pesquisadores brasileiros nos encontros anuais da Association internationale pour l’histoire de l’éducation (ISCHE), tendo a SBHE filiado-se em 2000. Publicam-se períodicos especializados na área, como por exemplo, a Revista História da Educação (ASPHE/1996), a Revista Brasileira de História da Educação (SBHE/2001), os Cadernos de História da Educação (UFUb-Uberlândia/2002), a revista eletrônica da HISTEDBR (Grupo de Estudos e Pesquisas História, Sociedade e Educação no Brasil/1996?). Também há um aumento significativo de publicação de livros, destacando-se as coleções: CDAPH e Estudos CDAPH/ Centro de Documentação e apoio à Pesquisa em História da Educação, da Editora da Universidade de São Francisco; Memória da Educação e Documentos da Educação Brasileira, da editora Autores Associados; Série Clássicos de História e Filosofia da Educação, da Seiva Publicações (Pelotas/RS).

A ampliação da produção, leva à necessidade de um balanço dos estudos e pesquisas em história da educação brasileira, na perspectiva do processo de construção da memória e do conhecimento educacional e escolar. Essa necessidade de operar a crítica interna da produção da área tem sido realizada por Warde (1984, 1990, 1998), Nunes (1989, 1993, 1998), Barreira (1995), Tanuri (1998, 1999), Monarcha (1996, 1999), Kuhlmann (1999), Carvalho (1998; 2000), Bontempi Jr. (1995, 2002). Outros estudos têm se preocupado em olhar mais particularmente para alguns espaços de produção, como a apresentada nos congressos luso-brasileiros de História da Educação (Nunes, 1996; Alves, 1998; Veiga, 2000; Stephanou e Werle, 2002); no GT História da Educação (Catani e Faria Filho, 2001); no I Congresso Brasileiro de História da Educação (Xavier, 2000); ou sobre a historiografia da História da Educação do Rio Grande do Sul (Bastos, 1999; 2002).

Muitas das análises da produção historiográfica na área têm privilegiado uma abordagem em dimensão nacional, geralmente sem realizar recortes para identificar os estudos que abarquem universos educacionais e escolares regionais. O avanço da produção em vários estados brasileiros, a partir do fortalecimento da pesquisa com os programas de pós-graduação, especialmente de dissertações de mestrado e teses de doutorado, evidencia a necessidade de analisar essa produção a partir das diversidades/singularidades regionais para melhor compreender a leitura, a interpretação e o uso da história nas escritas recentes da história da educação (Barreira, 1995, p.6).

Os estudos em História da Educação nos estados do sul do país – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul -, a partir dos anos 80, permitem justificar o privilegiamento de um balanço dessa produção.

Cabe destacar, portanto, algumas ações na área que têm estimulado a pesquisa. Uma delas é a disseminação de grupos de pesquisa vinculados ao Grupo de Estudos e Pesquisas História, Sociedade e Educação no Brasil (HISTEDBR), coordenado por Dermeval Saviani, que desde 1991 tem articulado a participação de outros grupos de pesquisa em vários estados brasileiros, promovendo encontros e estimulando o levantamento e catalogação de fontes da educação brasileira6. Outra, é a constituição de grupos de pesquisas nos programas de pós-graduação, incrementando a produção do conhecimento em História da Educação. Nesse sentido, a Associação Sul Rio-Grandense de Pesquisadores em História da Educação – ASPHE (11 de dezembro de 1995) - tem sido um espaço privilegiado de socialização das pesquisas, de dinamização da produção historiográfica e de importantes debates no campo da investigação histórica7.

Nóvoa (1997, p.16) considera que a História da educação é parte integrante da história total e, conseqüentemente, deve abandonar uma perspectiva institucional estrita, de maneira a integrar o conjunto das dimensões econômica, social e política; deve adotar as metodologias e paradigmas científicos, refutando a narração gloriosa de um progresso continuamente assegurado pela escola. Considera que a perspectiva sócio-histórica não é suficiente para dar conta da complexidade dos processos de mudança de longa duração, de apreender as permanências profundas e os pontos de ruptura das dinâmicas escolares e educacionais. Assinala que, atualmente, a história da educação passa a incorporar outros temas e questões: gênero, dificuldades de aprendizagem, raças, etnias, religiões, culturas locais, o que a conduz a olhar de outra forma os processos de escolarização e o status do conhecimento, levando à novas interpretações das relações individuais e coletivas da educação. Assim, destaca quatro tendências da história da educação: história dos atores educativos, aqueles estudos que trazem para o retrato histórico os alunos, os professores, as famílias, etc.; história das práticas escolares face a um novo conceito de cultura, abordando a história das disciplinas escolares, a história do currículo, a história da leitura e do livro escolar, a história da alfabetização; história das idéias pedagógicas e a construção social do discurso, na perspectiva de explorar a construção, reconstrução, transmissão e recepção das idéias através do tempo e do espaço, com atenção especial às práticas discursivas, particularmente nos momentos de ruptura e de conflito; história dos sistemas educativos, na perspectiva de uma educação comparada em sintonia com as transformações do político numa dialética entre o local e o regional. (NÓVOA, 1994, p.91)

Na perspectiva dessas tendências, procuramos estabelecer alguns indicadores de análise:



  1. a periodização dada pelos marcos consagrados pela história brasileira- Colônia, Período Pombalino, Império, Primeira República, Período Vargas, República Populista, Regime Militar e Período de Redemocratização. A utilização desses marcos não considera que haja um paralelismo sincrônico entre desenvolvimento sócio-econômico e educação, mas uma influência em termos de ações político-econômicas nos sistemas educativos;

  2. por temas: fontes e metodologia, análise sócio-política do sistema de ensino, educação infantil, processos de alfabetização, formação de professores e profissão docente, história das disciplinas e saberes escolares, história das idéias pedagógicas, história dos atores educativos, história das instituições educativas, gênero e educação, educação de adultos, ensino especial, imprensa educação e ensino, educação e etnias, movimento operário e educação, história da leitura e do livro escolar, memórias, biografias, história de vida, ensino médio, universidade e ensino superior8;

  3. natureza: monografia, dissertação de mestrado, tese de doutorado, artigo em revistas, capítulo de livro, livro, relatório de pesquisa;

A primeira etapa dessa pesquisa tratou do levantamento dos dados em bibliotecas universitárias, catálogos, anais de encontros acadêmicos com publicação de trabalhos completos no sistema eletrônico, nas próprias secretarias dos programas de pós-graduação, e, finalmente, nos currículos Lattes do CNPq, especificamente o item que trata da produção bibliográfica dos pesquisadores que desenvolvem suas atividades nas universidades envolvidas ou que tiveram sua produção publicada e/ou defendida sobre o contexto histórico da educação no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Optou-se, inicialmente, pela análise das listagens de dissertações mestrado e teses de doutorado defendidas nos programas de pós-graduação em educação das universidades dos três estados que mantêm programas strictu sensu. Destaca-se como uma das dificuldades encontradas ao longo desse levantamento a ausência, em muitos programas de pós-graduação, de um banco atualizado de dados informatizado, com as principais informações dos trabalhos ali defendidos, disponíveis à consulta. Em alguns casos, o próprio exemplar impresso foi de difícil acesso, o que tornou ainda mais árdua a tarefa de captar as informações concernentes à identificação do universo das dissertações e teses, diante dessa situação nos restou a consulta aos arquivos das bibliotecas.9

A segunda etapa buscou a identificação dos títulos de todos os itens bibliográficos arrolados relacionando-os aos principais temas da produção do conhecimento em História da Educação. Para tornar possível uma tabulação sumária por temas foi utilizado como base de informação os títulos, os recortes temporais, os objetivos pontuados em abstracts, palavras-chave, fontes10 e referências.

A terceira e última etapa tratou de examinar os dados inventariados a fim de tentar elaborar um mapeamento dos percursos investigativos em História da Educação no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

No Paraná, o repertório analisado11 foi constituído a partir da produção bibliográfica (livros, capítulos de livros, artigos completos publicados em periódicos na forma impressa, artigos completos publicados em anais de eventos na forma eletrônica, capítulos de livros, dissertações e teses) dos professores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), Universidade Estadual de Maringá (UEM), Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Universidade Estadual de Londrina (UEL) e Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Consiste ainda esse corpus, a produção discente (artigos, trabalhos completos publicados em anais de eventos da área e dissertações defendidas) dos programas de pós-graduação em educação12 das universidades paranaenses que possuem programa de mestrado scricto sensu.13 Como resultado foram arrolados mais de 300 títulos onde foi nítida a concentração da produção na década de 1990, sendo a produção anterior, a de 1980, ainda muito inibida (anexo1).

A produção do conhecimento em História da Educação do Paraná ficou assim representada: teses (20), dissertações (60), livros (12), capítulos de livros (06), artigos (56) e trabalhos completos publicados em anais de encontros acadêmicos (153). Dentre as temáticas de maior representatividade foram reconhecidas as seguintes: Idéias Pedagógicas com 79 produtos, História das Instituições Escolares com 40 produtos, Sistema Escolar com 32 produtos, Disciplinas Escolares com 29 produtos e Estudos Medievais14 com 21 produtos.

Os dados colhidos em Santa Catarina relativos á produção do conhecimento em História da Educação estão, ainda, precariamente apresentados e não totalmente arrolados. O trabalho não foi realizado como se previra, limitando-se aos títulos ( retirados dos resumos de dissertações) do único Programa de Pós-Graduação em Educação/UFSC ( Universidade Federal de Santa Catarina) efetivamente consolidado e credenciado pela CAPES. Apenas uma primeira etapa foi realizada e estará sendo apresentada somente para fornecer indícios da produção. Por este motivo, acredita-se que o presente levantamento não contempla, ainda, o estado da arte em História da Educação em Santa Catarina.15 É importante salientar que não foram realizadas pesquisas em periódicos locais e nacionais para esta primeira síntese.

Criado em 1984, o Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina contabiliza, até 2000, um total de 224 dissertações defendidas. Quando de sua criação, o PPG/Educação/UFSC não contemplava linha de pesquisa destinada especificamente á História da Educação. As dissertações cujas temáticas estivessem vinculadas à História da Educação, apresentavam-se diluídas nas linhas de pesquisa chamadas Teoria e Prática Pedagógica e Educação e Trabalho. Em 1998, foi criada uma linha de pesquisa chamada Educação, História e Política , motivo pelo qual nos registros oficiais do programa a área de História só contém uma dissertação defendida.16

Analisando-se este material, foram arroladas 21 Dissertações de Mestrado, cujas temáticas, identificadas a partir da leitura cuidadosa dos resumos disponíveis , caracterizam-se como assuntos pertinentes à História da Educação. Um dado a ressaltar neste levantamento , é o fato de que apenas quatro(4) destes trabalhos trazem como palavras-chave história da educação. As dissertações em pauta foram realizadas, principalmente, na linha de pesquisa Teoria e Prática Pedagógica . Dos 21 trabalhos, 1 detém-se no período colonial brasileiro, 4 no século XIX, 2 abarcam os finais do século XIX até a década de 30 do século XX, e 14 realizam estudos sobre o século XX. As temáticas desenvolvidas tratam de políticas educacionais (9), história das instituições escolares (8), formação docente (2), imprensa e educação (1), e ontologia e método (1). As abordagens teórico-metodológicas , em sua maioria, ainda estão ligadas a uma tendência em analisar grandes temas educacionais. Percebe-se, também, que os estudos referem-se a diferentes regiões do estado de Santa Catarina. Assim, há trabalhos sobre a cidade de Lages, no planalto serrano; dissertações sobre educação no Vale do Itajaí; sobre educação o Sul Catarinense, evidenciando uma abrangência geográfica não restrita à Capital. (anexo2)

No Rio Grande do Sul analisou-se a produção dos programas de pós-graduação em educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, criado em 1972 (dissertações e teses); Pontifícia Universidade Católica - PUCRS, criado em 1972 (dissertações e teses); Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS, criado em 1994 (dissertações); Universidade Federal de Pelotas – UFPel, criado em 1995 (dissertações); Universidade de Santa Maria – UFSM, criado em 1970 (dissertações); Universidade de Passo Fundo - UPF, criado em 1997 (dissertações). Além dessa produção, realizou-se o levantamento de artigos publicados por pesquisadores rio-grandenses na revista de História da Educação/ASPHE; de trabalhos completos publicados nos anais do primeiro e segundo Congresso Luso-brasileiro em História da Educação, do primeiro Congresso Brasileiro de História da Educação (Cdrom). A produção selecionada apresenta aproximadamente 316 títulos.( anexo 3)

Em uma análise do conjunto da produção em História da Educação na região Sul, pode-se constatar que:


  1. no conjunto de dissertações e teses defendidas nos programas de pós-graduação, a representatividade da área ainda é muito pequena, conforme os quadros abaixo. No entanto, constata-se um significativo crescimento operado a partir dos anos 1990, com a constituição de grupos de pesquisas, associações regionais e nacional.

Quadro 1. Número de dissertações e teses defendidas nas instituições do Paraná

(1980-2000)



Instituições

Dissertações

Dissertações em

História da Educação



Teses

Teses em

História da Educação



Total

Total História da Educação

UFPR

2235

20

291

1

2526

21 (0,83%)

UEM

847

26

46

0

893

26 (2,9 %)

UEPG

57

0

0

0

57

0 (0%)

UEL

739

0

13

0

752

0 (0%)

PUCPR

284

7

0

0

284

7 (2,4%)

UTP

51

0

0

0

51

0 (0%)

UNIOESTE

15

0

0

0

15

0 (0%)

Total

4228

53

350

1

4578

54 (1,17%)

Quadro 2. Número de dissertações e teses defendidas nas instituições

de Santa Catarina (1980-2000)



Instituições

Dissertações

Dissertações História da Educação

Teses

Teses em História da Educação

Total

Total História da Educação

UFSC

224

21

0

0

224

21 (9,3)

TOTAL

224

21

0

0

224

21 (9,3)

Quadro 3. Número de dissertações e teses defendidas nas instituições



do Rio Grande do Sul (1974-2000)



Instituições

Dissertações

Dissertações História da Educação

Teses

Teses em História da Educação

Total

Total História da Educação

UFRGS

680

17

125

13

805

30 ( 3,7%)

PUCRS

684

08

50

04

734

12 (1,6%)

UNISINOS

67

08

-

-

67

08 (12%)

UFPEL

67

06

-

-

67

06 ( 9%)

UFSM

399

17

-

-

399

17 (4,9%)

UPF

41

06

-

-

41

06 (15%)

TOTAL

1938

62

175

17

2113

79 (3,2%)



  1. Quanto à natureza da produção, há discrepância significativa entre os Estados, conforme o quadro n.4. No Paraná, a maior incidência é em trabalhos completos em anais de congressos (153), seguida de dissertações (60) e artigos publicados (56). Já em Santa Catarina, o levantamento realizado abarca somente 21 dissertações de mestrado. No Rio Grande do Sul, o quadro configura-se com a maior representatividade de artigos (70), seguida de dissertações (68) e trabalhos completos em anais (54); no entanto, apresenta um número significativo de produção em livros (46) e capítulos de livro (40). Em uma visão de conjunto, pode-se afirmar que a origem da natureza dessa produção decorre das dissertações e teses defendidas em programas de pós-graduação; que encontros, congressos – nacionais e internacionais - são eventos importantes para a divulgação do conhecimento – caixa de ressonância da produção acadêmica (CATANI; FARIA F°, 2001).

Quadro 4. A natureza da produção do conhecimento em História da Educação na Região Sul (1980- 2000)







Paraná

Santa Catarina

Rio Grande do Sul

Total

Livros

12

*

46

58

Capítulos de livros

06

*

40

46

Artigos

56

*

70

126

Dissertações

60

21

68

149

Teses

20

*

27

47

Monografias

*

*

1

1

Relatórios de Pesquisa

*

*

4

4

Trabalhos completos em Anais

153

*

54

207

Total

307

21

310

638

* Não foi possível fazer levantamento




  1. Quanto ao recorte temporal (Quadro n.5), o período republicano centra o maior número de pesquisas. No Paraná, representa 57%, em Santa Catarina, totaliza 90% da produção analisada. No Rio Grande do Sul, esse índice é também bastante elevado – 78%. Nesse conjunto, a Primeira República concentra o maior número de estudos. Como assinala Xavier (2001, p.225), para os trabalhos do I Congresso Brasileiro de História da Educação, há um esforço teórico articulado à busca racional de parâmetros elucidativos da gênese e desenvolvimento de nosso sistema republicano de educação e expressa um movimento de revisão da própria historiografia da educação. Há um privilegiamento dos séculos XIX e XX por parte dos pesquisadores, sendo ainda limitado o interesse por pesquisas em História da Educação no período colonial. Cabe assinalar os estudos sobre a Antigüidade Clássica e período medieval presentes na produção da Universidade Estadual de Maringá/Paraná.

Quadro 5. - Períodos pesquisados





Paraná

Santa Catarina

Rio Grande do Sul

Total

Antigüidade Clássica

16 (5,2%)

0

0

16 (2,49)

Período Medieval

21(6,8%)

0

0

21 (3,27)

Séculos XVI-XVIII

27 (8,8%)

1 (5,3)

18 (5,7%)

46 (7,16)

Século XIX

67 (21,8%)

4 (21,0)

50 (15,8%)

121 (18,84)

1889-1930

68 (22,1%)

4 (21,0)

109 (34,5%)

181 (28,19)

1930-1945

26 (8,5%)

2 (10,5)

48 (15,2%)

76 (11,83)

1945-1964

12 (3,9%)

2(10,5)

44(13,9%)

58 (9,03)

1964-1990

32 (10,4%)

1 (5,3)

34(10,8%)

67 (10,43)

Tempo Presente

38 (12,4%)

5 (26,31)

13 (4,1%)*

56 (8,72)

Total

307

19 **

316

642

*Esse número não é representativo, tendo em vista que no levantamento não foram considerados estudos nessa perspectiva.

** Nos resumos consultados não consta o período pesquisado de duas dissertações


4. Quanto as temáticas pesquisadas, observa-se uma pluralidade e multiplicação de temas, com discrepâncias entre os Estados (Quadro n.6). No Paraná, as temáticas de maior representatividade foram as seguintes: Idéias Pedagógicas com 79 produtos, História das Instituições Escolares com 40 produtos, Sistema Escolar com 32 produtos, Disciplinas Escolares com 29 produtos. Em Santa Catarina, o quadro configurou-se com ênfase em temas como: Políticas Educacionais (9); seguido de História das Instituições Escolares (8); Formação de professores (2); Imprensa e Educação (1); Ontologia e método (1). No Rio Grande do Sul, os temas mais pesquisados são Profissão Docente (42), Etnias, raça (imigração) (42), Sistema Escolar (31), Idéias Pedagógicas (31), História das instituições escolares (23). Em uma análise de conjunto, observa-se que os temas mais pesquisados são: idéias pedagógicas, história das instituições educativas, profissão docente, disciplinas escolares, sistema escolar. Constata-se que os níveis de ensino primário e secundário são mais pesquisados que os estudos consagrados ao ensino superior ou às universidades. Os professores, como agentes do processo educativo, também têm sido mais pesquisados do que os alunos, principais destinatários do ensino.

Quadro 6. - Temas examinados







Paraná

Santa Catarina

Rio Grande do Sul

Total

Sistema Escolar

32

9

31

72

Profissão Docente

16

2

42

60

Fontes e metodologia

16

1

16

33

Estudos de gênero

15




14

29

Livros e práticas de leitura

04




11

15

Saberes escolares

05




14

19

Idéias Pedagógicas

79




31

110

História das Instituições Escolares

40

8

23

71

Escola e Trabalho

02




7

09

Livro didático

04




13

17

Educação infantil

03




12

15

Ensino Primário

08




10

18

Ensino médio

04




19

23

Ensino Superior

02




17

19

Disciplinas escolares

29




7

36

Etnias, raça (imigração)

15




42

57

Memórias, biografias, história de vida

02




21

23

Imprensa: professores/alunos

06

1

17

24

Estudos sobre a Antigüidade Clássica

16




0

16

Estudos Medievais

21




0

21

Total

307

21

336*

664

* A diferença decorre de que alguns estudos entrecruzam dois temas. Por exemplo: profissão docente e gênero.

AMPLIANDO...
É muito difícil e, às vezes, perigosa uma análise que busca aproximar a produção em História da Educação de três Estados da Região Sul. Contextos, histórias e as próprias trajetórias diferenciadas dos programas de pós-graduação e dos intelectuais que neles atuam comprometem uma avaliação global e sintetizadora. Cada estado apresenta particularidades quanto aos objetos de estudo, quanto às interrogações, à história, as predileções de pesquisa. No entanto, a realização desse estudo estimulou um olhar particular para cada realidade, o que nos parece uma contribuição significativa17.

Em uma primeira análise da produção da Região Sul pode-se dizer que são os programas de pós-graduação em educação que centralizam a organização de grupos de pesquisa e estimulam a produção na área. Nunes e Carvalho (1993, p. 10) colocam que para entender como o campo da história da educação é produzido, devemos ter duas preocupações associadas: o conteúdo dessa história e a organização institucional que lhe dá suporte, “já que o exame dos produtos não exclui a análise dos lugares e das práticas que os instituíram”. Nessa perspectiva, seria interessante um mapeamento dos grupos de pesquisa e de pesquisadores por região, e uma análise da produção individual e coletiva dos pesquisadores. Quem são, afinal, os “novos” historiadores da educação brasileira?

O estudo constata uma ampliação do campo de pesquisa: história institucional, estudos biográficos, história oral, história intelectual, história social e urbana, história dos conteúdos de ensino, história das disciplinas, história da profissão docente, história das mulheres, história das políticas de educação em seus diferentes níveis – federal, estadual, municipal -, estudos regionais, história da criança. Observa uma tendência de cada estado centrar-se em sua própria história, o que pode levar a uma visão fragmentada da construção da história da educação brasileira. Essa constatação não desconsidera a necessidade de um olhar local e regional para a compreensão das diversidades, mas enfatiza a necessidade, por outro lado, de não perder de vista uma perspectiva de longa duração, das continuidades, para permitir captar os momentos de conflito e rupturas.

O levantamento também sinaliza aos pesquisadores e/ou orientadores para temas (educação rural, história da adolescência, história dos estudantes, história da educação das minorias, história das práticas docentes, etc) e períodos históricos que devem merecer maior atenção na área de História da Educação, em especial aqueles anteriores ao século XVI (antigüidade clássica, período medieval).

Destaca a necessidade de uma interface com outras áreas do conhecimento, especialmente das ciências sociais – antropologia, sociologia, literatura, etc -, buscando caracterizar a história da educação como campo de múltiplas fronteiras e amplo campo temático e documental.

Esse levantamento, mesmo que preliminar, deixa entrever outras possibilidades de pesquisa sinalizadas por Nóvoa (1997, p.7), no estudo que faz do estado da arte da História Americana da Educação, a partir dos anos 80, em que fornece pistas e critérios de análise das tendências da história da educação, a partir dos debates historiográficos atuais. Assinala que as perspectivas de pesquisa histórica centram-se não só na materialidade dos fatos, mas também sobre as comunidades discursivas que os interpretam e os inscrevem num espaço-tempo dado. Para ele, as preocupações dos historiadores e dos historiadores da educação centram-se em três problemas: a articulação entre teoria e história, o debate em torno da escrita da história e a reflexão sobre a nova responsabilidade social da história. Para o primeiro, afirma que existe uma atitude estimulante de romper as fronteiras entre diferentes campos científicos, diversificando os suportes teóricos e metodológicos. Quanto à escrita da história, as novas tendências apontam para o projeto de integrar os aportes literários sem anular, para tanto, o conjunto das práticas nos sistemas discursivos. Assim, insiste na necessidade de articular os textos com seus contextos de produção e recepção, mas suas práticas permanecem históricas, ou seja, baseadas sobre a produção/reprodução de sentido através de diferentes espaços-tempos. A responsabilidade social do historiador afirma-se não pelas respostas que dá, mas sobretudo pelas questões/problematizações que se colocam. A valorização de uma história de problemas permite situar seu compromisso como intelectual hoje - contribuir para o melhoramento da vida de homens e de mulheres. Essa outra práxis histórica caracteriza-se por um esforço de mostrar a pluralidade de mini- racionalidades que organizam a vida social e o trabalho científico. Ou seja, diante da especialização do conhecimento, é necessária a compreensão global dos problemas, não em direção a um sentido único, mas sobretudo na perspectiva de reconstrução de múltiplos sentidos a partir das histórias que os diferentes grupos são portadores/construtores.

Uma análise necessária e ainda não realizada aponta para um estudo mais verticalizado de fontes, de metodologias, de diálogos intelectuais adotados pelos pesquisadores da área. Essa abordagem possibilitaria o avanço da discussão teórico-metodológica na área, especialmente na virada dos anos 1980, com as perspectivas abertas e os desafios lançados pela nova história cultural para a pesquisa em história da educação (NUNES; CARVALHO, 1993). Nesse sentido, cabe destacar o expressivo diálogo dos pesquisadores brasileiros com seus pares da França, Espanha, Portugal, Itália e Argentina. Há, no entanto, um desconhecimento da significativa produção da história da educação norte-americana, analisada por Nóvoa ( 1997) e Jablonka (2001), pouco abordada e referenciada pelos pesquisadores brasileiros.

Em outra etapa, também seria interessante o levantamento da produção anterior ao período de 1980, buscando analisar os textos fundadores da história e da historiografia da educação em cada Estado da Região Sul. Essa perspectiva mostra-se importante para a análise dos recortes de tempo, de temas privilegiados, de aportes teórico-metodológicos, para uma análise das continuidades/descontinuidades e das marcas deixadas na pesquisa e no ensino na área, cotejando-os com outras realidades, épocas, contextos.

O estudo também aponta a carência de pesquisas envolvendo o ensino de história da educação. Poderíamos afirmar que há um hiato entre a pesquisa e o ensino, questão que tem sido silenciada pelos pesquisadores da área em geral. Nesse aspecto, cabe a pergunta: que resultados tem trazido para a disciplina de História da Educação nos cursos de graduação a significativa produção da pesquisa na área?

Convém, ainda, ressaltar a necessidade de constituição de bancos de dados acessíveis via Internet, que facilitem ao pesquisador o acesso a repertórios de fontes documentais. O avanço da pesquisa na área sinaliza para a necessidade premente de um inventário de fontes local, regional e nacional, visando fundamentalmente a conservação, salvaguarda e preservação da memória da educação brasileira.

Essas perspectivas remetem à necessidade de outros estudos que abarquem outras regiões do Brasil, bem como estimulem a pesquisa por Estado, para a produção de uma coletânea sobre o estado da arte da história e historiografia da educação brasileira no período de 1970 a 2000. Nesse sentido, seria interessante o estabelecimento de categorias e recortes temporais mais precisos, para evitar a dubiedade, expressando, o mais fidedignamente possível, o estado da pesquisa em história da educação. O estudo, igualmente, evidencia a necessidade de se consolidar pesquisas de cunho comparativo, tanto reunindo trabalhos sobre a mesma temática como por regiões geográficas diferenciadas, as quais não têm merecido o devido investimento acadêmico.




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