Foram três longos meses após a demissão para que (nome) entrasse no quarto completamente bêbado e começasse a redigir a carta



Baixar 108.86 Kb.
Página3/3
Encontro02.07.2019
Tamanho108.86 Kb.
1   2   3

  • Eu não vou fazer nada no impulso, eu não quero morrer se é seu medo.

  • Você pode dizer com algum grau de certeza qual é seu medo?

  • Não, eu só quero uma mudança radical. E sei que não vou ser capaz disso, que ninguém será. Está tudo preso em uma ilusão e o real fica me pressionando aqui enquanto penso em...

  • Desistir?

  • Não, idiota. Em mudar. Em me mudar.

  • Desista enquanto é tempo de...

  • EU NÃO SEI O QUE QUERO MUDAR. Eu não sei quem sou, eu sei que sou esse algo pequeno que todos somos, mas sei como é ser maior e sei que não consigo isso.

  • Acho que finalmente eu não posso te ajudar. Eu não sei o que é isso que você sente por há uma arrogância em mim que me impede de ser tão inferior e um carinho em mim que me impede de ser tão nocivo. Até que descubra o que é isso, não volte aqui. Você me dá medo agora.

    Foi-se uma carteira de cigarros em questão de horas. Eu não conseguia ficar só com as idéias desse homem e fui onde ele não me alcança, sendo que ele era a pessoa que resolvia minhas dúvidas, que mantinha um passo a frente sempre. E eu pensando que veria um aviário maior que o dele, agora não vejo ave nenhuma do aviário lotado que herdei ele, um aviário caindo aos pedaços.

    Conversei com Ana Maria e pedi para não continuar, disse que estava mal. Ela insistiu que eu ficasse, mas eu falei que nem mesmo o homem queria minha presença ali. Depois ela continuou falando que estava mal, que havia saído da casa do pai e estava morando com a mãe por uns tempos, seu término do namoro, de como estava a pouco mais de um mês mudando. Claro, era o interesse dela por mim, já que ofereci ouvidos a ela enquanto estava precisando disso. Ana Maria é muito simples. O destinatário agora estava muito simples. Isso lateja na minha cabeça incessantemente.

    Cap. 5
    Mandei uma carta visando ao cuidador do dia de hoje, Ana Maria pediu colo, me abraçou, tentou me beijar, mas eu não queria mais. Mesmo assim a beijei, mas avisei que não poderia permitir isso, já que ela ainda tinha muito para resolver e eu não tinha cabeça para aquilo. Que ela tomou por ofensa minha frieza é fato, mas deveria ter aplaudido minha capacidade de ser verdadeiro. Ela me cansa como uma alergia, um lembrete de tempos em que aquilo que a aflige parecia muito quando é tão efêmero quanto ela. Tudo isso refletido naquele olhar autômato.

    Conversei bastante com ela sobre as coisas que me afligiam por telefone em seguida, e ela não pôde falar coisas melhores que “ah, entendo”, e foi quando soube que nada daquilo entraria na cabeça dela. E foi quando escrevi a ele novamente.
    17/12

    (...)Estou cada dia mais cansado, comecei a fumar compulsivamente e andar por aí para cansar o corpo mais que a mente e dormir antes das 2, o que tem me feito um bem danado para o corpo já que costumam ser longas caminhadas observando o dia a dia noturno incessante dessa colméia. Isso é um oi.

    ...


    Ele não me responderá, sei que não.

    Cap. 6
    18/12



    Sua paixão me procurou, disse que estava preocupada em entender o que ocorria com você. Claro que contei um pouco de nossas conversas para ela e isso a deixou chocada, um por não entender que não havia pânico algum em mim e dois por se tocar de como as coisas são fáceis. Acho que Ana Maria poderá me suprir a carência que você me causou e que não pode mais me sanar, visto que não é o mesmo cuidador, nem alguém que possa ajudar alguém.

    Boas festas.

    E minhas cartas em punho estavam todas juntas dessa carta.

    E já se passaram quatro dias, Ana Maria apareceu pouco nas ruas esses dias, imagino que pensativa. Esse homem quer estragar mais alguém, isso não pode ocorrer. Mas ainda me falta coragem de falar com ela do perigo de falar com um monstro daqueles. E não consigo tirar ela da cabeça.

    Cap. 7


    Passei a caminhar observando ela diariamente, uma coisa meio psicótica, eu sei, mas apenas para ver se ele já está afetando a sanidade já abalada pelas coisas que antes ocupavam a mente dela. Problemas em família podem ser preocupantes para quem nunca teve que se preocupar com o mundo real e Ana Maria é presa fácil daquele lobo. Seus olhos estão mais mortos que nunca, mas sua beleza permanece intocada, sinal de que a sanidade social está lá, sinal de que ainda não foi tocada profundamente.

    Se estivesse descuidando de si poderia me preocupar, a fachada é a realidade da maioria dessas pessoas, e mesmo que não se possa confiar nas estruturas das casas internas, uma varada decente afasta medos. E sei como anda a casa de Ana Maria. Mas ela não sabe e não sabe que está convidando serpentes para sua mesa. Ela logo estará condenada, como eu estou.

    Isso me arranca a fome desde a última carta, era um peso sufocante na altura do diafragma, alguma conexão havia sido feita ao romper todas as conexões com ela e com o destinatário.Estava possuído por um espírito de mudança e sabia exatamente o que fazer, só precisava protege-la. Mas como faria isso sem poder proteger a mim mesmo? E agora que ela havia começado nesse caminho n]ao sabia como voltar para trás, pois como disse o destinatário, certas coisas não voltam. E engoli minha desesperança com muito mais sabor que qualquer hóstia da infância.

    E logo agora, que amanhã é natal.


    Cap 8.
    Essa é Ana Maria. Essa é minha paixão. E na noite que a vi, como de costume, estava sentado em uma cadeira perto da entrada de uma dessas redes de junk food, observando as pessoas que chegavam do clube noturno no outro lado da rua. Enquanto o gelo no meu copo derretia e o queijo no sanduíche voltava ao ponto sólido, observei a moça entrar. Tem seus vinte e tantos anos, visíveis, não pelo rosto, mas pela postura automática de quem não conta os passos por saber exatamente onde eles vão levá-la. Sorria do lado de fora da rua para os amigos de quem se despedia, mas foi só cruzar a soleira e entrar na luz hospitalar do ambiente que sua expressão neutralizou-se. O pedido foi automático, carregado por suas pequenas mãos alvas, com cicatrizes tão curtas que apenas aquela luz sóbria podia revelar. E ela própria parecia ter esquecido, pois a expressão de ter achado algo enquanto olhava para a bandeja em sua mão foi familiar.


    O que tinha nessa figura que tanto me intrigou? Até aí, apenas a expressão anulada. Não era mistério algum, imaginei que se tratava de cansaço da noite longa e dançante. Mas a música ainda ecoava dentro da lanchonete, incapaz de reverberar na altura considerável da moça. Sua pele alva parecia impermeável ao contato da música que deixou sua roupa molhada de suor. Isso era curioso. Ana Maria caminha para uma mesa no canto inferior da lanchonete, olhando não a comida, mas a rua. Olhando a casa noturna. Olhando a luz dos semáforos que não param ninguém, com medo dos pivetes ou pessoas que saibam o que fazem de verdade. E eu olhava tudo por seus olhos vítreos, como que de um bicho de pelúcia desgastado pelos anos.

    Ana Maria baixou o olhar para a comida. Aquela estrutura franzina não permitia aquilo no cardápio, e era óbvio para mim que ou a garota não comeria nada, ou comeria tudo para vomitar em casa e continuar firme no 36. Não, ela não olhava a comida, que permaneceu intocada. Olhava reto em minha direção. E no fundo do vidro eu notei uma fagulha, só para ver o movimento do rosto da garota (nessa hora pareceu uma eternidade de contato) continuar enviando aquelas bolas de gude de rosto em rosto e notar que a fagulha que vi era minha, refletida nos olhos de vidro daquela escultura. Tão jovem, tão desgastada, o que teria feito isso em tão pouco tempo? Tanta coisa.

    Aquela situação foi tirando meu ar. Só o que precisava era de um cigarro, e deixei o sanduíche quase inteiro na mesa, o refrigerante já sem gás, para desembrulhar o estômago com algo menos sólido. Nunca antes alguém havia tirado meu fôlego daquela forma. Mas o que podia eu fazer se não podia deixar de achar obsessivo aquilo que era tão necessário, ou vice versa. O cigarro foi chegando ao fim, olhei e ainda via a garota lá. Apaguei o cigarro nas costas da mão, como vinha fazendo havia dias e sentei novamente na minha mesa, olhando a comida de Ana Maria já na metade. Brinquei um tempo com meu sanduíche, imaginando como acender aquela fagulha em seus olhos, mas era difícil. Só sabia seu nome e o lanche dela logo acabaria, impedindo a garota de permanecer na lanchonete e quebrando nossa conexão.

    Tiro e queda. Ana Maria, marmorizada, levanta-se da cadeira em que havia se escondido e sai para o estacionamento. E fico na lanchonete apenas o tempo necessário para notar que precisava daquela figura mais tempo. Um tempo que não pode ser medido, mas menor que o tempo da porta da lanchonete fechar. Seguro a maçaneta e me dirijo em passos lentos no caminho da garota, privilégio de ser sutil graças à alta estatura. E meu rosto impassível certamente não assustou a moça quando me aproximo e repito seu nome como pergunta. Ao lado daquele estacionamento escuro, Ana Maria olhou nos meus olhos conscientemente, com uma pergunta por trás do vidro que ficava escuro fora da luz. Queria saber o que eu queria. Não a conhecia mais. E com um passo de cautela, Ana Maria entra na luz amarela de um poste, e vejo minha fagulha refletida nos olhos de Ana Maria novamente. E vou me aproximando, sentindo o cheiro de cigarro nas roupas dela, de álcool no hálito dela, da saliva alheia em sua boca, e de sangue, que molhou sua garganta enquanto apunhalo seu pulmão, abafando o grito de dor da moça no meio do beijo. Não foi surpresa quando, ao desgrudar os lábios dos da linda estátua (ao notar o fim de sua respiração turbulenta), vejo minha fagulha ir embora. Seguro suas mãos cheias de cicatrizes e cubro a faca com ambas, pois estava frio. E volto a sentir fome.

    5

    Destinatário.


    Cap. 1
    27/12



    Ana Maria não voltou do feriado. Vivia me dizendo de como minha vida seria boa no futuro, de como o inferno astral estava passando, ela comentou algo sobre ter visto que esse mês ela precisava ser mais aberta a novidades e imprevistos, mas que as coisas não foram tão simples, acho que tem a ver com você um pouco.

    Soube que começou a fumar, emagreceu nesse tempo, tinha um cão de estimação a mais e voltou a morar com a mãe, correto?

    28/12

    Ela não estará para o jantar da virada.

    Desculpe. Precisamos conversar.
    Triste que o regozijo de um foi a desgraça do outro. E do outro. Não respondi a carta, óbvio, afinal enfim tinha minhas mãos sujas de sangue. Não vou negar que a idéia de matar a princípio tenha sido muito galopante, mas peguei as rédeas e fiz outro galopar esse cavalo irracional enquanto blindava ainda mais meu escudo com a perspectiva de ver o cuidador agindo conforme a natureza mais predatória que é prerrogativa da espécie.

    Tenho a segurança necessária para me deleitar no que ocorreu enquanto a prisão química me impede de ter algum grau de afetividade pelo destino do cuidador, que a essa altura deve estar perdido em algum lugar de seu prédio esperando minha carta. Eu apenas aproveito a refeição abstrata caminhando pelo quarto, consciente de que meu único erro foi ter enviado as cartas de volta. Agora dependerei da minha memória, que será judiada o suficiente pela medicação, para me lembrar da minha própria obra. E quando essas memórias sumirem, provavelmente depois do cuidador, sobrará o tédio. Mas até que já sinto saudades dele. Cinco longos anos de trabalho demandam um pouco de descanso.

    6.

    Corredor
    Corredor de prédio



    Luz hospitalar

    Automática


    Movimento e luz ligada

    Cigarro aceso

    Cicatriz ardendo

    Brilho


    Tragada

    Luz apagada


    Movimento e luz ligada

    Parede fria

    Joelhos dobrados

    Quadris no chão

    Cinza no chão

    Luz apagada


    Movimento e luz ligada

    Braços molhados

    Pulsos pesados

    Escarlates

    Tragada difícil

    Cigarro na vinte

    Luz apagada
    Movimento e luz ligada

    Cigarro na vinte

    Culpa

    Medo


    Raiva

    Luz apagada

    Movimento difícil

    Luz ligada

    Cigarro caído

    Molhado


    Espera

    Luz apagada


    Frio

    Calma


    Silêncio

    Luzes apagadas.


    Compartilhe com seus amigos:
  • 1   2   3


    ©aneste.org 2020
    enviar mensagem

        Página principal
    Universidade federal
    Prefeitura municipal
    santa catarina
    universidade federal
    terapia intensiva
    Excelentíssimo senhor
    minas gerais
    união acórdãos
    Universidade estadual
    prefeitura municipal
    pregão presencial
    reunião ordinária
    educaçÃo universidade
    público federal
    outras providências
    ensino superior
    ensino fundamental
    federal rural
    Palavras chave
    Colégio pedro
    ministério público
    senhor doutor
    Dispõe sobre
    Serviço público
    Ministério público
    língua portuguesa
    Relatório técnico
    conselho nacional
    técnico científico
    Concurso público
    educaçÃo física
    pregão eletrônico
    consentimento informado
    recursos humanos
    ensino médio
    concurso público
    Curriculum vitae
    Atividade física
    sujeito passivo
    ciências biológicas
    científico período
    Sociedade brasileira
    desenvolvimento rural
    catarina centro
    física adaptada
    Conselho nacional
    espírito santo
    direitos humanos
    Memorial descritivo
    conselho municipal
    campina grande