Foram três longos meses após a demissão para que (nome) entrasse no quarto completamente bêbado e começasse a redigir a carta



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Intro

Cap. 1
Foram três longos meses após a saída para que (nome) entrasse no quarto completamente bêbado e começasse a redigir a carta que mudaria seu destino. Um menino simples, de mente ágil, que não agradava nem desagradava numa primeira visão, apenas existia, estava entrando num caminho em estado de cegueira, guiado por um lobo que latia como labrador.

A carta chegou dois dias depois ao destinatário, enviada em mãos pelo único carteiro seguro naquele estabelecimento, ele mesmo. Trabalhou ali por cinco anos que passaram explosivamente, reduzidos aos diálogos de varanda, mantendo grau de sigilo verdadeiro, compartilhado apenas por ambos, as únicas pessoas que poderiam se entender ali dentro.



16/09

Eu perco o sono há três meses pedindo um pouco de clareza. Trabalhei cinco anos como cuidador nessa instituição de saúde mental esperando trabalho árduo e recompensador, mas o que achei foi um paciente completamente lúcido. Tão lúcido que podia enganar as outras pessoas e se passar por louco. Tão lúcido que sabia que não podia viver em sociedade.

Você faz idéia do impacto que três dedos de conversa com você numa varanda tiveram sobre minha cabeça? Você se mostrou um ser humano coerente, inteligente, versado, refinado, apenas para comentar aos poucos da monstruosidade dentro de você, que não podia lidar com pessoas como iguais, mas como pedaços de seu fetiche monstruoso. E as ameaças veladas em seu discurso somente me aproximaram mais dessa cabeça fragmentada entre o mais humano e o mais bestial, predatório, e era algo que despertava em mim uma sede por aquela clareza de idéias.

Para quê matar descontroladamente e ser preso algum dia podendo manter algum sigilo no meio da turba de loucos, medicado e observado, enquanto pagava pela segurança de um coquetel psicológico que deixava sua clareza gélida a ponto de perturbar minha natureza mínima. Para quê sofrer, cheirar aquela carreira que demandaria mais? Sabia que não era mais esperto que o destino? Valorizava seu fetiche mais do que devia? E porquê compartilhou comigo? Não podia questionar nada, devia ficar em silêncio dentro daquelas salas esterilizadas, mas chegava em casa com a cabeça formigando com sua capacidade de percepção.

Desisti de levar a sério qualquer outra coisa, queria apenas poder aliviar a cobiça pelo entendimento. Me afastei do hospital por isso. Agora vi que não deveria. E por isso essa carta. Eu preciso entender o que é você.

A carta saiu sem um ponto de vista fixo, cheia de nortes para onde podia receber respostas mas, sagaz como era, o destinatário se ateve a notar que havia uma fagulha ali despertando. Uma cobiça não de entendimento, mas de algo que incutira naquela cabeça por sessenta meses produtivos e agora traria frutos. Mas antes, uma dose de diversão.



20/09

Quer mesmo me entender? Durma com uma mulher qualquer, arrume um emprego desidentificador, tome valium todas as noites para dormir, aprecie música que não entende a mensagem, veja novelas em reprise e mantenha-se assim, pois terei prazer em trata-lo com alguma margem de segurança. Pois você também não valerá a pena.

Um mísero parágrafo cortando o rapaz. Era tudo o que precisava para notar quem era este. E após um longo silêncio que duraria mais um mês, houve resposta do próprio destinatário ao cuidador, que mantivera o silêncio por um tempo de happy-hours em bares e descanso para a mente em shoppings, privilégio negado ao destinatário, que sentia o peso das horas com uma intensidade muito mais avassaladora. Mas mesmo sabendo de sua posição inferior, respondeu com todo o cuidado que a etiqueta permitia naquela situação de hierarquia. De mestre e aspirante.



20/10

As uvas amadureceram, me procure assim que estiver sóbrio para a colheita.

2

Flashback


Cap. 1
Durante anos, (nome) trabalhou no spa da região dos subúrbios sabendo do que se tratava: podres de rico entravam ali mal sabendo que eram pessoas. Entre portadores de doenças venéreas que destruíram suas capacidades, senhores com Alzheimer que mal lembravam a fortuna que possuíam, entre outros, executou calmamente um trabalho de cuidador, tarefa crucial de observar, interagir, estimular e, claro, cuidar daqueles corpos e mentes frágeis.

Mas nem todos compactuaram para essa aparente simplicidade. Ali estavam realmente apenas pessoas que já não pensavam por si próprias e as paredes alvas encarceravam em apartamentos luxuosos o conteúdo que rechearia os antigos manicômios em segundos. Claro, quem lá estava não possuía essa consciência... ou possuiu algum dia... ou...

Na primeira semana de trabalho foi quando entrou em contato com o destinatário das futuras cartas, um homem imponente e ligeiramente jovem, com algum grau de cultura mais refinada que o resto da elite ali trancada parecia nunca ter entrado em contato. Era também o paciente mais jovem do local, ainda assim mais velho que toda a mão de obra mais pesada do ambiente, incluindo aí o cuidador. Intrigado, mas sabendo de sua função, o cuidador apenas entrava mudo e saía calado, observando o homem fumar compulsivamente (deveria estar ali para se ver livre de algum vício) e organizava as coisas no quarto, sempre atento para as necessidades do homem, que nunca tinha alguma.

E foi ao fim da primeira semana de trabalho que o cuidador recebeu a primeira carta. Bem, não era uma carta, visto que estava escrita como nota na dedicatória de um livro, sem data, esperando para ser lida.

Vejo que se interessa por minhas obras, visto que foram folheadas por alguém sem cuidado nas duas vezes em que esteve aqui. Alguma em particular que queira conversar?

O cuidador possuía uma vaga noção de que a tarefa incluía conversas e, por ter ouvido a voz do homem apenas num resmungo quando foi apresentado, resolveu falar.



  • Senhor?

  • Sim?

  • Nenhuma em particular... apenas... as obras não são suas.

O homem riu um pouco, engasgando com a fumaça dentro de seus pulmões. Ainda era muito simplório, mas deveria servir para matar o tempo.

  • Não são minhas?

  • Não senhor... são de Flaubert, Goethe, Tolstoi

O jovem deveria ter achado engraçada a piada, sem ter olhado o olhar inquisidor do homem à frente no primeiro momento. Mas no segundo, em que notou, fechou o semblante um pouco e voltou a arrumar as coisas. E assim foi o resto da hora de trabalho, num silêncio agora marcado pela respiração rascante das tragadas do senhor na varanda. E quando teve que voltar dois dias depois, o cuidador já não esperava uma receptividade salubre.

Ao abrir a porta do quarto, porém, viu o quarto impecavelmente mantido e, visto que não obteve recepção do destinatário, calou-se e esperou na cama um lampejo de cordialidade, enquanto buscava com os olhos algo para ser feito.



  • Você fuma? – trovejou do lado de fora.

  • Não senhor.

  • Venha então. – E o jovem entrou a tempo de ver o homem apagar o cigarro no cinzeiro improvisado e joga-lo no ralo da varanda.

  • Sim senhor?

  • Os livros... as obras não são daqueles homens que escreveram. A motivação da escrita deles pode ter sido seus demônios, mas sem dúvida alguma os livros pertencem aos leitores das obras, quem usufrui e recebe um legado novo e faz daqueles livros algo vivo no seio da raça humana. O autor só intermedia as idéias que Platão colocou em outro plano e de lá saem por cabeças privilegiadas de notarem o que deixam de lado por arrogância ou preguiça.

Um silêncio.

  • Já possui o seu legado?

  • Meu?

  • Sim, já absorveu algo dessas páginas? Suponho que não, somente as mortes, os romances e as frases mais engraçadinhas em suas construções.

Outro silêncio.

  • Leve algum livro que o satisfaça, rapaz. Por hoje não precisa de nada além disso.

Cap. 2
Havia cinco meses que o cuidador mantinha conversas com o destinatário, sempre ligadas aos parcos pontos que unissem os dois, o que por si só era uma vitória visto que vinham de realidades tão distintas. O ritual incluía leitura e conversa, mas quase sempre sobre assuntos fora das obras, mas que surgiam delas. E foi assim durante cinco meses, quando, numa tarde, a conversa tomou novos ares, o interno começou a surgir, mas o timidamente que poderia vir aqui foi expurgado.

Pequenos romances policiais geravam alguma busca por perguntas maiores que as relacionadas às pistas dos assassinatos e suas descobertas, suscitadas por um novo destinatário, este apenas interessado em ouvir o cuidador, que comentava suas opiniões espontaneamente sem perceber que a expressão neutra do destinatário não estava ali por acaso. Era necessária essa sensação de não julgamento, que surgiu naturalmente com os meses de contato.

E claro que o cuidador também admirava aquela figura estranha sentada ali, diagnosticada com síndrome do pânico, mas estranhamente plácida. Lendas surgiam sobre a vida pregressa do homem, lendas que envolviam orgias, drogas, seitas, idéias que o cuidador ignorava por conhecer a absoluta aversão do homem ao comportamento mais social. O paciente destilava em suas palavras uma certa dose de desconfiança sim, mas pânico mesmo não podia ser reconhecido. A medicação calmante forte que ele tomava sempre era bem genérica e em nada contribuía para dar uma luz ao que teria enviado um homem tão seguro de si para aquela prisão química.



  • Trata-se de imaginar o que vale a vida, rapaz.

  • Como assim? – essa era a reação mais comum do jovem, mesmo passados cinco meses de conversa longa.

  • É o que penso quando leio um romancesco desses que podem aparecer em jornais, o que vale a vida para essas pessoas. Elas matam dezenas de pessoas pelas quais milhares aprendem a se apaixonar para satisfazer a sede dessas pessoas... de quê?

  • Não é assim... são personagens. Fechou o livro, acabou.

  • Só porquê não caminham por aí? Eles dão rostos para essas pessoas, dão respiração, modos, passado, presente e futuro, apenas para arrancar deles. Não parece familiar?

  • Com o que?

  • Com o que ocorre todos os dias fora dessas paredes.

Seria mais uma noite mal dormida? O cuidador se acostumou a ouvir cautelosamente as palavras do homem, pois elas tinham a estranha habilidade de reverberarem na mente do rapaz sempre que este ia para sua casa descansar do árduo dia de trabalho, privando-o de um descanso de verdade. Recusava-se a voltar para o quarto como entrara antes, queria impressionar um pouco aquele homem cheio de valores (físicos, é claro). Com o tempo o raciocínio do cuidador foi ficando mais ágil e algumas vezes ele saía da sala com o círculo completo, mas raramente mantinha isso um hábito. Ficava muito para trás, quando comparado com a incógnita da varanda. Mas aos poucos

  • Bem, a inspiração surge de algum lugar, não surge?

  • Claro... e é por isso que podemos nos regozijar com a justiça da ficção.E chorar com suas mortes. Você provavelmente tem um relacionamento mais profundo com a feiticeira de Jules que com a chefe da psiquiatria, por mais que ela seja de carne, e que carne, e osso.

O cuidador deixou uma risada escapar. Ana, a chefe da psiquiatria, herdou do pai a tarefa após concluir seu curso de medicina numa conceituada universidade particular. Mas sua paixão pela medicina parecia estar nas técnicas de melhoramento de seu corpo, a cada década (e já estava na terceira) que passava, mais belo.

  • Rapaz, se pudesse impedir alguma dessas mortes de ocorrer, ainda assim o faria?

  • Que mortes?

  • Dos livros.

  • Bem, acho que não. É por isso que são obras de arte.

O destinatário, que roia a unha do indicador, viu um filete de sangue escorrer enquanto rasgava seu dedo ao puxar uma lasca particularmente difícil com uma risada nervosa. Talvez não fosse a hora, mas pouco importava.

  • Eu não poderia. Eu não deveria. Eternizar algo é um valor acima de muitos outros, mas o que pode, deve ser extirpado, não acha? Não deseja a morte de seus vilões? Não sente nenhuma comoção com as perdas de coadjuvantes?

  • Bem... não sei onde quer chegar mais...

  • Quero que abra os olhos para o que não ocorre apenas lá fora. Onde foi parar o nosso ato criativo? Estamos mesmo só lendo as obras alheias sem pausa, sem criar nada nosso. Mas não é mais esse o caso. O meu caso, no caso. Eu me mantenho trancafiado aqui por já ter feito minha obra.

Silêncio, dessa vez ameaçador, onde o cuidador olhava o sangue no dedo do homem, mas se recusava a abrir a boca e oferecer auxílio, sem entender o que estava ocorrendo.

  • Eu não posso criar a vida pois sou homem, mas posso criar a morte. E eu desejo. E esse desejo não some simplesmente. Mas não podia ficar andando por aí e arriscar ser preso. Antes então que meus planos tomassem forma física eu tomei a decisão de me encarcerar, pois apenas assim viveria longe da ameaça de ir preso.

  • Eu não...

O nervosismo do homem adquiriu novos ares. Mas, controladamente, pediu auxílio para o dedo que sangrava. O cuidador buscou algo para limpar a ferida e um curativo, ainda pensativo, o que o fez demorar. Enquanto limpava a ferida cuidadosamente, o homem respirou profundamente, acendeu um cigarro usando a mão livre, tragou, expirou e falou baixinho como poderia.

  • Somente você sabe disso aqui, rapaz. Do meu desejo pela morte.

Cap 3.
Então o cuidador soube que estava a cinco longos meses conversando com um assassino em série, que agora sabia de sua infância, maturidade, que havia lido seu diário que guardava desde a quinta série. Tinha medo do que tais desabafos pudessem lhe acarretar problemas. Mas ouviu bem e relia a página rasgada de seu diário que era mencionada como motivo do homem ter escolhido o jovem para fazer a revelação. Queria entender o porque, o que ligava uma coisa à outra, mas não entendia como o trecho longo (Brasília é o tipo de cidade que tomou para si os arredores. Toda aquela região metropolitana foi engolida sob o signo de capital quando na verdade apenas uma minúscula parte é a real área da capital e o resto orbita ao redor, não passando de meros dormitórios auto-suficientes. Mesmo assim é Brasília que eu odeio. A Brasília toda, é como se essa terra não me resgatasse, me privasse de me identificar com ela. Claro, no auto de meus 12 anos fica até complicado achar que isso será pra sempre, mas não vejo a menor possibilidade de algum dia ver essa cidade com aquela identificação que meus amigos conseguem, os que aqui nasceram, diferente de mim. Acho que essa coisa de patriotismo infecta até em menores escalas nosso pensamento e minha graça é ver toda essa idiotice sumindo com o tempo.



Bem, ao menos esse inverno está sendo muito melhor que o do ano passado. Ano passado amanhecia com neblina mas na educação física das dez da manhã eu já tava com os lábios rachando. Se a intenção do governo quando juntou as aulas de educação física ao horário normal foi evitar que os alunos não sofressem com a seca, acho que a justiça divina que sabe que essa cidade é balaio da danação fez sua parte e puniu a todos com uma seca horrenda. E agora nesse ano essa mesma justiça ameniza as feridas do ano passado mandando chuvas que só deviam aparecer meses depois. Isso me alegra, adoro chuva.

Aliás, tava comentando com a Rê, minha melhor amiga aqui, que esse ano tava de um todo diferente. Ano passado eu tava saindo da igreja, esse ano estou no fim da catequese. Ano passado era amigo de todos, esse ano desapareci. Sinto falta do ano das provas que foi o passado, ao menos tinha gente puxando meu saco pra poder passar de ano e eu me alegrava com essa amizade hipócrita aliada a deliciosa sensação de poder que tinha. Poder manipular alguém que você vê que pode desprezar quem quiser por algum direito instituído entre alunos apenas por aquela pessoa ser uma porta traz uma sensação de que você fez o bem e coloca sua estima no topo mesmo que você apenas faça o que ela pediu de clara má vontade para saborear a fúria no rosto dela.

Mas a maior diferença que notei, sem dúvida alguma, é o clima. Clima urbano, quer dizer, não o clima tempo. É um ano pacífico, o tipo de ano que acho que quando tiver 18 não vou lembrar de mais que 3 ou 4 coisas que aconteceram nele. Sabe, eu lembro com tanta força de todo o meu período de vida desde os 2, quando aprendi a ler. Agora esse ano não sou capaz de lembrar do meu primeiro mês de aula. A Rê só me disse que as coisas vão ficando assim quando a gente tem mais tempo na bagagem. A cabeça não guarda tudo então prioriza o que vale a pena. Acho isso tudo uma palhaçada, pra dizer a verdade. Tenho 12 anos e ela quer pôr na minha cabeça que sou saudosista. Se ela quer pagar de velha tudo bem, mas com 12 anos eu acho que ainda tenho muito tempo para saber onde serei e onde não serei saudosista e certamente não é aqui nessa etapa.

Acho que o que ocorreu é que finalmente comecei a me assentar. Na aula de geografia que vi essa palavra e me identifiquei com ela. Sabe aquela rocha formada por detritos de outras? É rocha sedimentar. O detrito das outras rochas desgastadas pelo tempo vai se assentando nas áreas mais baixas e se fundindo até se tornar uma coisa só. Alegoria perfeita para nossa sociedade. No começo a gente é lapidado, lapidado, vai se desgastando, sofrendo as ações do meio e de repente vira um monte de detrito que se assenta onde a vida nos leva, lentamente se fundindo ao meio até virar uma coisa só. Tenho pensado muito nisso no meu tempo livre. Acho também que tenho tido livre demais.

Claro, a Rê não é a pessoa que vai saber disso, ela só sabe dos meus problemas externos. Ela sabe bem que esse meu aniversário foi uma bosta enorme por causa de, que eu cheguei atrasado por causa da briga tal e assim por diante, mas meu terreno interno ainda é muito meu, muito privado. Abro muito minha varanda mas a porta da casa fica sempre trancada. Não é por não confiar, apenas por não achar necessário.

Todo mundo que me vê com ela sabe que amo aquela guria. Ainda acham que vou namorar ela, mas a verdade é que a Rê é uma guria que me atrai tanto quanto minha fronha. E eu não sou um maluco punheteiro para pensarem que tenho algum interesse carnal nela. Não é frigidez minha, é só que minha cabeça pouco pensa nisso e, quando pensa, pensa diferente. Mas isso o tempo vai deixar mais claro, acho.

Bem, no fim das contas me sinto feliz por estar com essa idéia de sedimento. A falta que sinto da hipocrisia é uma falta legal, mas aquilo também incomoda, de verdade. Eu mesmo vivia descendo o pau naquelas pessoas quando tava com a Rê e a Mina (minha primeira grande amiga aqui). Claro, sempre tive uma língua ferina, eu falar já era fazer algo. Mas acho que nunca fiz de fazer mesmo alguma coisa sobre isso, sempre fui muito passivo nessas histórias. Acho que meu destino era mesmo me mesclar aos detritos para ser um detritinho, por mais que tenha a vida inteira sido o modelo da classe, o orador, o cabeção, o que todos mendigam atenção perto das provas. Minha função de destaque foi para o ralo e eu gostei. Agora não tenho do que reclamar e gasto palavras de forma muito melhor que antes. Sei lá, acredito nessa coisa de que falar atrai para si, ainda porque, sei bem o poder de uma palavra bem aplicada. Herança de família.

A Rê é quem mais reclama desse meu lado, ela acha que eu poderia fazer mais para deixar as máscaras caírem, mas ela não sabe o que é dar a cara à tapa porque, e não quero que levem na maldade isso porque eu já falei como amo a guria, ela é meio... ingênua nesse ponto. Não é só falar, é ouvir também. Meu dom de lidar com as palavras me ensinou muito até hoje sobre falar, acho que é até genético. O que falei para minha mãe na véspera do meu aniversário certamente não é normal para uma pessoa de doze anos falar, mas também não é normal uma pessoa de doze descobrir camisinhas no criado mudo da mãe. Mesmo assim sei que fui muito além do que seria normal para minha idade. Mas para ouvir sei bem pouco e notei isso ao ouvir as palavras de minha mãe. Ali eu notei de onde veio meu talento. Dona Lívia sabe ser mais perigosa com as palavras que com as mãos (e olha que ela não é nenhuma donzela, se querem saber).

Mas estou no caminho para saber ouvir. Falando como falo e tendo preparo para ouvir quem sabe poderei fazer a justiça que a Rê tanto pede, mas até lá vou lidando com as lições de nível principiante que tomo dela quando passo cola para um dos populares e ela fica bufando de raiva por permitir que mais um babaca se safe (como se aquele tipo de pessoa não soubesse contornar esses problemas, como a Rê me choca com a ingenuidade às vezes...). E vou lidando com a paz incomum esse ano. Vou me assentando, por mais que ainda odeie essa cidade. Mas agora é “ainda odeie” e não “odeie”.)) podia atrair aquela revelação. Sabia que nada poderia fazer para provar o real ponto de vista para alguém, o homem estava pagando ao pai de Ana para ficar ali preso, pagando algo que o jovem jamais poderia ser maior que. Foi quando pensou pela primeira vez em se demitir, mas foi impedido pelas emergências momentâneas. Notou então que praticamente só ele falou de si nas conversas. A partir de agora, o assunto seria o outro, não mais ele. Risco demais já havia corrido, era momento de seguir um outro tipo de conversa e torcer para que a boa vontade demonstrada até então não mudasse pelo seu medo inicial.

Após duas semanas e quatro encontros amedrontado, voltou ao quarto do homem e nem esperou a voz lhe dizer oi, respondeu antes. E começou a dialogar sobre as histórias dos irmãos Grimm, com o pretexto de ter revisto algumas enquanto limpava o quarto da mãe, recém morta.


Cap. 4
As conversas continuaram e o jovem manteve uma segurança maior ao notar que, mais do que as paredes, a prisão química era algo da qual o homem ali não mais poderia escapar. Com certeza absoluta já estava viciado naquelas tarjas pretas, mais do que mesmo em comer ou fumar, hábito adquirido pelas horas de espera pela próxima dose cavalar de ansiolíticos.

Com toda a postura profissional que pôde reunir, trazida de volta pelos fatos novos colocados na relação, o cuidador passou a ouvir as frases do destinatário sobre a sociedade, a vida e morte, se esforçando para ver um louco, mas havia algo no seu cérebro, algo em sua alma que o impedia de encaixar as deduções puramente racionais, inclusive a que o mantinha naquela prisão psiquiátrica, como frutos de uma mente que não merecesse tratamento respeitoso. De fato, jamais havia conhecido alguém com tamanha habilidade ponderativa, o que o tornava mais... correto? Mais correto que qualquer pessoa com a qual tenha trocado palavras.

Toda pessoa que se preze precisa de uma fé, a fé desse cuidador era em coisas que pudessem receber uma explicação prática. E ali estava trancada uma caixa de Pandora ansiando por ser aberta, sibilando pequenas respostas diárias para suas incógnitas, fazendo o cuidador ir mais longe do que jamais foi por méritos próprios enquanto dialogava sobre as pessoas, as filosofias, as artes, em interlúdios entre a vida profissional do cuidador. E foi assim que, após cinco anos na clínica, o cuidador percebeu que aquilo tinha ido longe demais.


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