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manidades.

Entretanto, Ú do sÚculo seguinte que data verdadeiramente a

ascensão do homem formado na vida polÝtica e social da col¶nia.

Gonzaga, Clßudio, os dois Alvarenga, BasÝlio da Gama marcam

esse prestÝgio mais acentuado do bacharel na sociedade colonial;

a intervenþão mais franca do letrado ou do clÚrigo na polÝtica.

Marcam, ao mesmo tempo, o triunfo polÝtico de outro elemento

na vida brasileira-o homem fino da cidade. E mais: a ascensão

do brasileiro nato e atÚ do mulato aos cargos p·blicos e Ó aris-

#

tocracia da toga.



Nesses bacharÚis de Minas se faz, com efeito, anteci ar a deca-

P

dÛncia do patriarcado rural, fen¶meno que se tornaria tÔo evi-



dente no sÚculo XIX. Eles são da aristocracia dos sobrados: mas

uma nova aristocracia de sobrado diversa da semi-rural ou da

comercial. Aristocracia de toga e de beca.

Ainda que sentindo-se diferenciados da Europa ou da Metr¾-

pole, onde estudaram, e querendo um Brasil independente e re-

publicano, a formaþão europÚia lhes tirara o gosto pela natureza

bruta e quente do tr¾pico substituindo-o por um naturalismo

m¶rno e apenas literßrio, ß sombra de mangueiras de sÝtio e entre

macacos amansados pelos negros da casa e papagaios que em

vez de palavras tupis, repetiam frases latinas e atÚ francesas

aprendidas jß com esses novos senhores. De Morais do Dicionßrio,

pelo menos, Ú tradiþão que gostava de divertir-se ensinando latim

e francÛs a papagaios.

Embora mulatos, alguns desses bacharÚis, quando escrevem

verso para celebrar a paisagem dos tr¾picos, Ú sentindo dentro

do peito, inflamando-o, "pastores louros", do doce lirismo rural

da Europa:

"O pastor louro que meu peito in f lama

Darß novos alentos a meu verso"

diz Alvarenga Peixoto no seu "Canto GenetlÝaco".g

Clßudio Manuel da Costa, de volta ao Brasil, depois de cinco

anos de Europa, nÔo contÚm nem disfarþa o desencanto diante

da paisagem tristonha. Não eram estas na verdade "as aventu-

rosas praias da Arcßdia" onde "o som das ßguas inspirava a har-

Sosx .nos E Mvc...sos - 2 ░ ToMo 577

monia dos versos". Depois de cinco anos de volutuosa formaþão

intelectual, junto ao Mondego, de ßguas tão azuis, s¾ lhe restava

aqui, Ó sombra dos cajueiros, Ó margem de rios de ß as bar-

rentas e entre gente tÔo pervertida como a paisagem, pega "ambi-

ciosa fadiga de minerar a terra" "entregar-se ao ¾cio, sepultar-se

na ignorÔncia".

O mesmo desconsolo sentiriam, depois de Clßudio Manuel, uma

sÚrie de brasileiros que tendo estudado fora do Brasil, aqui expe-

rimentariam, de volta Ó casa, verdadeiro tormento: a d fÝcil rea-

daptaþão ao meio, Ó paisagem, Ó casa, Ó pr¾pria famÝlia: "A des-

consolaþão de não poder subestabelecer aqui as delÝcias do Tejo,

do Lima e do Mondego me faz entorpecer o engenho dentro do

meu berþo" conclui melancolicamente o bacharel mineiro; e pela

sua boca parecem falar centenas de outros bacharÚis e doutores,

que voltaram formados da Europa, sonhando com Arcßdias, para

encontrarem camos para eles feios e tristes, a terra acinzentada

pelas "queimadas e devastada pela mineraþão. Adolescentes que

se europeizaram de tal modo e se sofisticaram de tal maneira

que o meio brasileiro, sobretudo o rural-menos europeu, mais

bruto-s¾ lhes deu a princÝpio nojo, enj¶o fÝsico: aquela vontade

de vomitar aos olhos de que fala o pregador.

E sendo eles os mais moþos, por conseguinte os mais incli-

nados Ó libertinagem do corpo, como ß da inteligÛncia, tornaram-

-se, entretanto, os censores dos mais velhos e dos exageros de

vida sexual que aqui substituÝam, para os senhores de escravos,

principalmente nos engenhos e nas fazendas, gostos mais finos,

preocupaþÓes mais intelectuais. De volta Ó coloma, um dos ba-

charÚis mais europeizados nÔo esconde a repugnÔncia que lhe

causa ver as margens do riacho que banha Vila Rica transfor-

madas em lugares de bacanal; e o batuque africano danþado não

apenas nos mucambos de negros, mas nos sobrados grandes dos

brancos:

"Oh, danþa venturosa! Tu entravas

Nas humildes choupanas, onde as negras,

Aonde as vis mulatas, apertando

Por baixo do bandulho, a larga cinta,

Te honravam c'os marotos e brejeiros,

Batendo sobre o chão o pÚ descalþo.

Agora jß consegues ter entrada

Nics casas mais honestas e palacios!!!"4

Entretanto esses desencantados quando deram para patriotas

#

foi para se tornarem nativistas exaltados, alguns indo atÚ ao mar-



tÝrio que nem estudantes de romance russo. Passado o enj¶o dos

S¤H GILBERTO FREYRE

I

primeiros anos, os bacharÚis e doutores formados na Europa tor-



naram-se-alguns pelo menos, porque noutros o desencanto durou

a vida inteira, havendo atÚ os que se deixaram reabsorver pelo

! meio agreste, como o Doutor JosÚ de Melo Franco, sertanejo de

Paracatu-um elÚmento de diferencia Ôo criadora dentro da inte-

þ ,

graþão brasileira que se processava, quase por inÚrcia, em volta



das casas-grandes patriarcais. Por um lado, inimigos da aristo-

cracia matuta, a cujos gostos e maneiras dificilmente se readap-

tavam, por outro lado, encontraram nela, esses bacharÚis novos,

seus aliados naturais para os planos revolucionßrios de indepen-

dÛncia polÝtica da col¶nia e atÚ para as aventuras de aþão ro-

mÔntica.


Alvarenga Peixoto, o mesmo que se sentia "pastor louro" diante

destes "sertÓes feios e escuros", seria tambÚm o cantar desta

"bßrbara terra mas abenþoada"

e atÚ dos seus escravos, trabalhadores de campo, homens jß de

vßrias cores, os sangues misturados-pretos, pardos, morenos-tão

diferentes dos tais pastores louros da Europa:

"( . . . ) homens de vßrios acidentes

pardos, pretos, tintos e tostados

[....) os fortes braþos feitos ao t'rabalho".6

E JosÚ BasÝlio da Gama capricharia em exaltar no seu estilo

de letrado-embora querendo Ós vezes fazer-se de instintivo

puro-as ßrvores, os bichos, as plantas, as frutas mais picante-

mente brasileiras. Ele e Santa Rita Durão.

Deu-se em vßrios bacharÚis e clÚrigos essa meia reconciliaþão

com o meio nativo, ainda que "feio e escuro" tornado não s6

objeto de planos de reforma polÝtica e de reconstruþão social,

como campo de maior aproximaþão do homem com a natureza.

Porque os brasileiros que se formaram na Europa, principalmente

na Franþa, na segunda metade do sÚculo XVIII, tinham lido lß,

e mais a c¶modo do que entre n¾s os padres e maþons mais

curiosos das novidades polÝticas-padres e maþons que s¾ muito

na sombra podiam entregar-se a essas libertinagens intelectuais-

og livros franceses em que se exaltava o idÝlio do homem com a

natureza: idÝlio sobre o qual vinham se levantando novas teorias

de Liberdade, de Estado, de Direitos do Homem, de Contrato

Social. Talvez jß sob a influÛncia desse naturismo revolucionßrio

Ú que Alvarenga Peixoto vira nos homens "pardos, pretos, tintos

e tostadns", nos negros, Ýndios e mestiþos de "f nrtes braþos f eitos

ao trabalho", os verdadeiros construtores do Brasil: os que vinham

mudando as correntes aos rios e rasgando as serras "sempre arma-

SosRnos E MoceMsos - 2.░ ToMo 579

dos de pesada alauanca e duro malho". Em nossa literatura co-

lonial, essa voz de bacharel Ú talvez a primeira que exalta o

trabalho do escravo, a aþão criadora, brasileiramente criadora,

do proletariado negro, Ýndio e principalmente mestÝþo na formaþão

nacional.

A InconfidÛncia Mineixa foi uma revoluþão de bacharÚis; como

revoluþÓes de bacharÚis-pelo menos de clÚrigos quÚ eram antes

bacharÚÝs de batÝna do que mesmo padres, alguns educados em

Olinda, no seminßrio liberal de Azeredo Coutinho, ░em todos

os principais ramos da literatura pr¾pria não s¾ de um eclesißs-

tico mas tambÚm de um cidadão que se propÓe a servir ao es-

tado"-foram as duas revoluþÓes pernambucanas, preparadas por

homens ainda do sÚculo XVIII: a de 1817 e a de 182. Esses

intelectuais, ansiosos de um Brasil independente e republicano,

repita-se que a melhor alianþa que encontraram foi a de pode-

rosos senhores de escravos e de terras. Aristocratas jß com vßr´as

geraþÓes na AmÚrica, alguns com sangue de Ýndio e atÚ de negro:

de Silva Alvarenga se sabe que era mulato como mulato ou

quadrarão ou pelo menos "moreno" parece ter sido o pr¾prio

Tiradentes, de quem o Padre Martinho Freitas diz nas suas Me-

m¾rias ( citadas pelo Sr. Aires da Mata Machado Filho Ó pßgina

17 do seu Tirad ntes, Her¾i Humano, publicado em Belo Hori-

#

zonte em 1948) que quisera desposar certa moþa de São joão



del-Rei, ░opondo-se o pa´ da mesma por ser o pretendente co ono

e de cor morena".

Eram, assim, vßrios dos revolucionÔrios, gente a quem eonvinha

precisamente a Rep³blica ou um Brasil independente-pelo menos

independente de Portugal. A Rep·blica, alißs, segundo alguns dos

nossos historiadores polÝticos, jß fora tentada em 1710 por 'se-

nhores de engenho de Pernambuco, diz-se que inspirada no mo-

delo da de Veneza. O que parece, entretanto, Ú que Óqueles revo-

lucionßrios, quase todos fidalgos, embora r·sticos, faltara justa-

mente a direþão intelectual de alguma grande figura de bacharel

ou de clÚrigo mais esclarecido. O que não faltaria, antes sobrarÝa,

Ó conspiraþão mineira e Ós duas insurreiþÓes de Pernambuco, dos

princÝpios do sÚculo XIX.

Mas em qualquer uma dessas, sÞ porventura tivesse triunfado

o ideal revolucionßrio, teria talvez se verificado, dentro da vi-

t¾ria, o choque entre os partidßrios da independÛncia que visavam

interesses de produtores de aþ·car ou de mineradores e os par-

tidßrios da independÛncia por motivos menos econ¶micos e mais

ideol¾gicos, ou, pelo menos, de natureza mais psicol¾gica ou mais

socÝol¾gÝca do que econ¶mica. Entre estes estariam os bacharÚis:

rande n·mero deles. Principalmente os bacharÚis mulatos ou

morenos". E estariam tambÚm os que, sem serem bacharÚis nem

r-

580 GQ.stTo FnExxz



doutores, como o Tiradentes, tinham, como ele, alguma coisa de

doutor, sendo "dentistas" e curandeiros, e não apenas mascates,

bacharelescamente ret¾ricos. Gente de meia-raþa a fazer as vezes

de classe mÚdia.

Sentiriam estes bacharÚis, doutores e semidoutores de cor, como

ninguÚm, a necessidade de melhor ajustamento social que viesse

dar aos intelectuais, aos homens formados, a essa espÚcie de aris-

tocracia nova e mais indiferente que as outras Ó pureza de san-

gue, maior responsabilidade na direþão polÝtica do PaÝs. Bem

caraterÝstico da dualidade ou do antagonismo de interÛsses cjue

separava, pelo menos em dois grupos, os homens de 1817, e o

choque entre a opinião do ouvidor Andrada, encarnando pre-

conceitos de branquidade, e as idÚias de extrema democracia

social do Dr. Manuel de Arruda CÔmara.

Arruda CÔmara era um afrancesado. Seus bi¾grafos informam

que foi egresso carmelita secularizado por breve pontifÝcio. Estu-

dou em Coimbra e sustentam alguns que formou-se depois em

Medicina na Universidade de Montpellier, embora o historiador

Alberto Rangel nos tenha informado que em suas pesquisas em

Montellier não encontrara confirmaþão dos estudos re lares

de Camara naquela Universidade. Foi-segundo ainda se ama-

companheiro de JosÚ Bonifßcio em viagens de estudo pela Europa.

Nele, porÚm, o afrancesamento não deu para que perdesse o

sentido social do Brasil-um Brasil jß de muito mulato e de muito

pardo. Para Arruda CÔmara, a revoluþão que separasse o Brasil

de Portugal não devia ser simplesmente polÝtica, mas a recons-

truþÔo inteira da sociedade. E nessa reconstruþÔo devia ser in-

clufdo o melhor ajustamento de relaþÓes entre senhores e opri-

midos. Entre brancos e homens de cor.

Em contraste com a opiniÔo do ouvidor Ant¶nio Carlos, brasi-

leiro partidßrio da IndependÛncia que, entretanto, exagerava-se

no horror, nÔo s¾ polÝtico, como atÚ fÝsico, a uma revoluþão de

ide¾logos radicais como a de 17, revoluþão capaz d.e derrubß-lo,

se vitoriosa, "da ordem da nobresa" e de p¶-lo-fals o pr¾prio

ouvidor-"a par da canalha e ralÚ de todas as cores" e atÚ de

"segar-lhe em flor as mais bem fundadas esperanþas de ulterior

avanþo e de mores dignidades"; em contraste com palavras tão

caraterÝsticas do sentimento de raþa superior que se ligara ao

de domÝnio de classe, a opinião de Arruda CÔmara, em carta-

-testamento que deixou para o Padre João Ribeiro, seu discÝpulo,

datada de Itamaracß em 2 de outubro de 1810, chega aos nossos

ouvidos com outra compreensão do problema brasileiro de re-

laþÓes entre as raþas e entre as classes. "Acabem com o atrazo

da gente de cor", escrevia Arruda CÔmara ao discÝpulo de quem

ele mais gostava, o pobre padre cuja cabeþa de sonhador sete

#

Sosxanos E MvcMsos - 2.░ Toi.so 581



anos depois ia apodrecer espetada num pau, para servir de exem-

plo aos revolucionßrios; "isto deve cessar para que logo que

seja necessario se chamar aos logares publicos, haver homens para

isto, porque jamais pode progredir o Brasil sem elles intervirem

collectivamente em seus negocios; não se importem com essa aca-

nalhada e absurda aristocracia `cabundß' que ha de sempre apre-

sentar futeis obstaculos. Com monarchia ou sem ella, deve a gente

de cor ter ingresso na prosperidade do Brasil".s

A ascensão do bacharel ou doutor-mulato ou não-afrancesado

trouxe para a vida brasileira muita fuga da realidade atravÚs de

leis quase freudianas nas suas raÝzes ou nos seus verdadeiros mo-

tivos. Leis copiadas das francesas e das inglesas e em oposiþão

Ós portuguesas: revolta de filhos contra pais. Mas, por outro lado,

afrancesados como Arruda CÔmara Ú que deram o grito de alarme

contra certos artificialismos que comprometiam a obra patriarcal

de integraþão do Brasil, como aqueles exagerados sentimentos de

nobreza encarnados por Antanio Carlos.7

Quando Melo Morais aparece, no meado do sÚculo XIX, recor-

dando cheio de saudade os velhos do seu tempo de moþo, o pres-

tÝgio que tinham, o bom senso com que administravam a entÔo

co78nia, Ú para lamentar, entre outros horrores dos novos tempos,

o predomÝnio dos bacharÚis afrancesados; para contrastar-Ihes a

inexperiÛncia de puros letrados com a sabedoria prßtica dos velhos

administradores. Destes se pode dizer, na verdade, que estavam

para os filhos e netos, formados em Direito e em Filosofia, ou

em Matemßtica e Medicina, na Europa, ou sob influÛncia fran-

cesa ou inglesa, como muito curandeiro da terra para os rapazes

formados em Medicina em Montpellier e em ,Paris: superiores

aos doutos-os curandeiros-pelo seu traquejo e pela sua prßtica;

pela sua sabedoria de grandes intuitivos que lidavam face a face

com os males e as doenþas de meio tão diverso do europeu, que

, conheciam pelo nome e Ós vezes pela exeriÛncia do pr¾prio

j corpo as resinas, as ervas e os venenos indigenas ou trazidos da

Africa pelos negros. Na mesma relaþÔo de curandeiros para mÚ-

I dicos, estiveram, entre n¾s, os guerrilheiros para os guerreiros.

' A guerra contra a Holanda, por exemplo, foi ganha principal-

mente pelos guerrilheiros da terra contra os guerreiros da Europa.

Por homens de Conhecimentos concretos da terra em que se ba-

talhava contra guerreiros, a eles vastamente superiores, na arte

ou na ciÛncia abstrata das batalhas.

O Professor Gilberto Amado salienta cue ß polÝtica e Ô admi-

nistraþÔo do ImpÚrio, os homens mais uteis não foram os mais

bem preparados com "sua fßcil e inexaurÝvel erudiþão Ó margem

dos fatos e das coisas". E num dos seus mais l·cidos ensaios

observa desses "mais preparados" que eram homens de "eru-

SH2 GILBERTO FREYRE

II

diþão abstrata", "preocupados mais com o espÝrito que com o



fundo dos problemas"; fazendo discursos cheios de "citaþÓes de

estadistas franceses e ingleses" sem, entretanto, se darem ao pe-

queno trabalho de fazer um estudo ligeiro das condiþÓes de raþa,

de meio, das contingÛncias particulares" do ImpÚrio. Os estadistas

! mais realizadores foram, muitas vezes, homens de feitio oposto

ao dos bacharÚis, mais cultos: "os menos preparados". Isto sem

exceþão, desde Paranß a Cotegipe.8

Se houve doutores e bacharÚis formados na Eropa do fim do

sÚculo XVIII que reuniram, como Arruda CÔmara, a teoria euro-

pÚia a qualidades de curandeiros dos nossos males sociais por

processos brasileiros, muitos se exageraram na doutrina. E foram

uns romÔnticos ou entÔo uns livrescos, imaginando que dirigiam

paÝs castiþamente europeu; e não uma populaþão mulata, mestiþa,

plural.


Em 1845, jß em pleno domÝnio o segundo Imperador e em

pleno funcionamento as Faculdades de Direito do Recife e de

São Paulo, Ó frente da administraþão das provÝncias e nas maiores

responsabilidades polÝticas e de governo comeþaram a s¾ apa-

'. recer homens formados. Os edifÝcios onde foram se instalando

as sedes de governo e as repartiþÓes p·blicas mais Ýmportantes

-uns novos, em estilo francÛs ou italiano, outros, antigos casarÓes

#

de convento ou de patriarca rico adaptados Ó burocracia do Im-



pÚrio-principiaram a avultar na paisagem brasileira. Ao mesmo

tempo, jß indicamos em capÝtulo anterior que comeþaram a ir

diminuindo de tamanho as casas-grandes dos particulares: dos

capitães, dos brigadeiros, dos senhores de escravos.

├ gente do povo nÔo passou despercebida a transferÛncia de

poder de uns edifÝcios para outros. Mas de tal modo se habituara

ao prestÝgio das casas-grandes patriarcais que, em algumas pro-

vÝncias, os palßcios dos presidentes ficaram conhecidos pelas

"casas-grandes do governo' ; e em quase todas parece que o povo

custou a admitir nos bacharÚis, nos doutores e atÚ nos barÓes

e nos bispos, a mesma importÔncia que nos "capitães-mores" ou

nos "sargentos-mores". Ainda hoje sobrevive a mÝstica popular no

Brasil em torno dos tÝtulos militares: para a imaginaþão da gente

do povo o Messias a salvar o Brasil serß antes um Senhor Capitão

ou um Senhor General que um Senhor Bacharel ou um Senho

Doutor.


Entretanto, o prestÝgio do tÝtulo de "bacharel" e de "doutor"

veio crescendo nos meios urbanos e mesmo nos r·sticos desde

os comeþos do ImpÚrio. Nos jornais, notÝcias e avisos sobre "Ba-

charÚis formados", "Doutores' e atÚ "Senhores Estudantes", prin-

cipiaram desde os primeiros anos do sÚculo XIX a anunciar o

novo poder arist¾crßtico que se levantava, envolvido nas suas

Sosxnos s Mvc.sos - 2.░ ToMo 583

sobrecasacas ou nas suas becas de seda preta, que nos bacharÚis-

ministros ou nos dontores-desembargadores, tornavam-se becas

ricamente bordadas" e importadas do Oriente. Vestes quase de

mandarins. Trajos quase de casta. E esses trajos capazes de aris-

tocratizarem homens de cor, mulatos, "morenos".

╔ verdade que, Ós vezes, eram avisos indiscretos os que

a areciam nos jornais sobre bacharÚis. Alfaiates que revelavam,

 dÚois de anos de pachorrenta espera, que o Senhor Bacharel

Formado Fulano, o Senhor Doutor Sicrano ou o Senhor Estu-

dante Beltrano continuava a lhe dever uma sobrecasaca ou um

fato feito por medida no mÛs tal ou no ano qual. Mas os alfaiates

foram sempre inimigos das aristocracias. Em arquivos particula-

res de velhas casas-grandes de engenho, que pudemos examinar,

verificamos o mesmo quanto a filhos de bar¶es e de viscondes:

não uma nem duas, mas vßrias cartas de alfaiates )ß de paciÛncia

gasta com o atraso no pagamento das contas. Filhos e netos de

senhores de engenho-nem sempre bacharÚis-que ficavam a dever

croisÚs, coletes de ramagens, calþas. de listras, atÚ que a conta

ia para o pai visconde ou o av8 barÔo ou simplesmente major,

que as mandava pagar pelo correspondente.

A ascensão social do bacharel pobre que, abandonado aos pr¾-

prios recursos, não podia ostentar senÔo eroisÚs ruþos e f tos

sovados, ou, então, sujeitar-se a indiscriþÓes de alfaites pelos

apedidos dos jornais; que não dispunha de protetores polÝticos

para chegar Ó Cßmara nem subir ã diplomacia; que estudara ou

se formara, Ós vezes, graþas ao esforþo her¾ico da mãe quitan-

deira ou do pai funileiro; a ascensÔo do bacharel assim, se fez,

muitas vezes, pelo casamento com moþa rica ou de famÝlia

poderosa.

Diz-se de al ns moþos inteligentes, mas pobres ou simples-

mente remediagOs, que não foi de outro jeito que chegaram a

deputado s Cortes e a ministro do ImpÚrio. Uns, de nome bonito

,

ou sonoro, a quem s¾ faltava o calor da riqueza ou do poder



para se enobrecerem ou ganharem o prestÝgio. Outros, de nome

vulgar, que, 1gando-se pelo casamento com moþas de nome ilus-

tre, os f lhos do casal adotaram o nome da famÝlia da mãe.

JosÚ da Natividade Saldanha, por outro lado, foi no Brasil o

tipo do insubmisso: o dos bacharÚis mulatos que ã vit¾ria por

meios macios preferiram sempre a insubmissão. Foi sempre um

insubmisso. Filho de padre, estudou para padre no Seminßrio

de Olinda. Mas rebelou-se contra o Seminßrio "apesar das qua-

lidades hereditßrias que lhe deviam gritar no sangue de filho dum

sacerdote de Cristo", diz um dos seus bi¾grafos. Foi então estudar

Direito em Coimbra "cheio da independÛncia nativa que deve

forrar os organismos dos filhos do amor livre". E quando pu-

#

SH4 GILHERTO FREYRE



I

blicou-se a sentenþa de morte contra ele, devido Ós suas ativi-

dades de revolucionßrio em Pernambuco, comentou de Caracas

a sentenþa do juiz branco, Mayer, na qual ele, Saldanha, era

chamado de mulato: "[ . . . . ] esse tal mulato Saldanha era o mes-

mo que adquirira prÛmios quando ele Mayer tinha aprovaþão por

empÚnho e quando o tal mulato recusava o lugar de auditor

de guerra em Pernambuco ele o alcanþava por bajulaþão" s

Se no tempo de Koster, proprietßrios rurais dos lugares mais

afastados ou segregados, encomendavam aos correspondentes, cai-

xeiros que fossem brancos e soubessem ler e contarl░-evitando,

ainda, bacharÚis brilhantes mas mulatos, como Saldanha-com o

ImpÚrio a exigÛncia aumentou por um lado-o sociol¾gico-e di-

minuiu por outro-o biol¾gico. Jß não serviam simples caixeiros

brancos-alißs ·teis Ó economia patriarcal e Ó pureza de raþa das




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