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as Câmaras ou os Senados. Aventureiros enriquecidos nas minas,

alguns deles reirióis, dos chamados pés-de-chumbo, bem sucedidos

nos negócios, "marinheiros" que começaram vendendo alho e ce-

bola, ou mascateando pelo interior e pelas ruas, para terminarem

mercadores de sobrados3-são esses os novos elementos brancos,

ou quase brancos, ansiosos de domínio. Ricaços de cazas nobres,

ue às vezes, por imitação à nobreza rural, tornam-se também

onos de fazendas ou proprietários de engenhos de cana ou de

sítios, onde suas famílias vão passar a festa. 0 desdém da gente

das casas-grandes de engenho e de fazenda confunde-os, às vezes,

com os outros, com os mercadores de quitandas ou de casas

terreas, a todos considerando mascates. Mas eles são de sobrado.

Fazem-se identificar e distinguir por um tipo nobre de casa

urbana ou semi-urbana, utilizado também pelos senhores rurais

mais opulentos nos meses de chuvas, quando vêm com as famílias

para as cidades.

Aos antigos assamentos de festa nas cidades-em Olinda, por

exem, - Jeram-se, no século XVIII e no XIX, passamentos

de festa em sítios e até em engenhos, que se tornaram, em certo

sentido, dependências pitorescas de sobrados burgueses. Sítios e

engenhos conservados pelos donos, não como base de sua vida

econômica, mas por prazer e para recreio; e, também, por uma

espécie de decoração social.

Esboçado, desde o século XVII, o antagonismo entre os começos

de cidades coloniais e as casas- randes de fazendas e engenhos

e desenvolvida a força das cidaNes, a nobreza rural conservaria,

entretanto, quase intatos, alguns dos seus privilégios, e principal-

mente o elemento decorativo da sua grandeza, até os fins do

século XIX. Esse elemento, como todo ritual, toda liturgia ou

mística social, sabe-se que tem uma extraordinária capacidade

para prolongar a grandeza ou pelo menos a aparência de gran-

deza, e, extinta a grandeza, a vida, ou aparência de vida, de

#

instituições já feridas de morte nas suas raizes.



0 mercador ou reiríol de origem baixa-plebéia ou pequerio-

-burguesa-como o aventureiro das minas, a maior sedução por

que se deixava empolgar, quando bem sucedido nos negócios, era

a de tornar-se membro da nobreza rural, ou imitar-lhe o gênero

de vida, comprando engenho, plantaudo cana ou café. 0 caso,

no século XVIII, de L~tirenço Gomes Ferraz, que sendo filho

de Portugal, e tendo feito fortuna no Recife como mercador, tor-

nou-se depois senhor de engenho e vereador da Câmara de Olinda

e um dos mais duros adversários dos mascates. 0 caso, no século

XIX, de Bento José da Costa. 0 casamento foi o meio de vários

desses triunfadores, de olgem burguesa ou plebéia, se elevarem

socialmente até à classe iral, ao hábito de Cristo, ao título de

sargento-mor ou capitão nos tempos coloniais, ao de barão ou

visconde, no Império.

Nesse sentido, o exemplo que se pode considerar mais com-

pleto, reunindo todos os caraterísticos de ascensão social é, talvez,

o de João Fernandes Vieira, herói da guerra contra os holandeses.

Vieira era ao mesmo tempo ilhéu, e, se rundo boas evidências

ic

que resistem à própria "carta de branqu rade" com que se pre-



tende provar sua condição de branco puro, mulato e homem de

formação social baixa: fora até moço de açougue e caixeiro de

mercador. Entretanto acabou um dos representantes mais deci-

didos e enérgicos da nobreza pernambucana, sua figura de aven-

tureiro tendo eclipsado a de Antônio Cavalcanti, homem prova-

velmente louro e muito mais autêntico na sua fidalguia rural e

de sangue que o ilhéu. Vieira se incorporara à classe de que tudo

o distanciava, pelo casamento com a filha de Francisco Berenguer

de Andrade, homem rico e da nobreza rural,

A ascensão de elementos dos sobrados e, até, das casas térreas

ou dos casebres aos casarões dos grandes proprietários de terras,

seria mais freqüente no século XIX, com o maior prestígio das

cidades; com o prestígio de um elemento novo e brilhante-os

bacharéis e médicos, alguns filhos de mecânicos ou de mascates

com negras ou mulatas; com a maior dependência dos senhores

rurais de seus correspondentes e comissários de escravos, de açú-

car e de café. Dependência que só veio a enfraquecer-se com o

desenvolvimento das comunicações por estrada de ferro, ja quase

no fim da era imperial. Mas para acentuar-se outra: a da lavoura

com relação aos bancos-ainda mais desprestígiadores da gente

rural endividada ou necessitada de adiantanientos.

#

10



GELBERTo FREYRE

Os senhores rurais, pelas próprias condições sociologicamente

feudais em que se iniciou a colonização agraria do Brasil-con-

dições que vêm resumidas do modo mais claro no Regimento de

Torné de Sousa-como que se tinham habituado a um regime

de responsabilidade frouxa, ou mesmo de írresponsabilidade, com

relação aos financiadores de suas lavouras. Nisso os favoreceu por

longo tempo a Coroa, interessada nos lucros dos grandes proprie-

tários e necessitando deles e de seus cabras e índios de arco e

flecha, para a segurança da colônia contra as tentativas de invasão

de estrangeiros.

Mesmo cheio de riscos, o financiamento à grande lavoura co-

lonial-a de açúcar-atraiu desde cedo agiotas, que parecem ter

se dedicado ao mesmo tempo à importação de escravos para as

plantações. E há indícios de haver preponderado entre esses nego-

ciantes, judeus com o espírito de aventura comercial aguçado

como em nenhuma outra gente. Dai, talvez, o relevo que alguns

historiadores-um deles Sombart-dão aos judeus na fundação da

lavoura de cana e na indústria do açúcar no Brasil.

Com esses intermediários, talvez em grande numero judeus,

parece ter se iniciado a riqueza das cidades coloniais no Brasil.

A capacidade de diferenciação que revelaram esses burgos, cres-

cendo de simples pontos de armazenagem e embarque dos pro-

dutos da terra, em populações autônomas, com os senhores dos

sobrados falando grosso e forte para os das casas-grandes do

interior, ou perdoando-lhes as dívidas mediante os ajustes de

casamento entre a moça burguesa e o filho de senhor de engenho,

ou então entre o filho do mercador, ou o próprio mercador, e a

sinhazinha fina da casa-grande-ajustes de que falam tantas tra-

dições de família-parece ter sido, em grande parte, conseqüência

das fortunas acumuladas pelos intermediários e negociantes,

alguns de origem israelita.

A situação de endividados, dos senhores de engenho do Norte,

é fato que vem indicado pelas primeiras crônicas: pela do Padre

Cardim, por exemplo, que aliás sugere a ligação entre esse estado

de coisas e a base principal da riqueza coloníal-o escravo. Riqueza,

na verdade, em extremo corrutível, apodrecendo facilmente a um

sopro mais forte de epidemia de bexiga ou de cólera.

De modo que a figura do intermediário-negociando principal-

mente com escravos-não podia deixar de assumir importância con-

siderável dentro do regime mórbido de economia patriarcal. Este

a exigiu pelas duas feridas sempre abertas da monocultura e da

escravidão. Duas bocas enormes pedindo dinheiro e pedindo negro.

0 intermediário viveu, como médico de rim doente a quein explo-

rass e, dessas feridas conservadas abertas. E aç cidades começaram

PÁTIO INTERIOR DE SOBRADO MINEIRO DO SÉCULO XM

(Desenho de M. Bandeira, segundo notas do autor.)

#

a crescer à custa dos senhores de terras e de escravos, assim



explorados.

João Lúcio de Azevedo, na obra de mestre que é Épocas de

Portugal Econômico (Lisboa, 1929), não admite a tese, defendida

por Sombart e por historiadores judeus mais ou menos apologé-

ticos; de sua raça, da agricultura de cana, ou antes, da indústria

do açúcar, no Brasil, ter sido obra exclusiva, ou principal, de

judeus. De terem sido estes os fundadores dos en enho a i

se estabeleceram no século XVI, inundando de tal modo o mer-

cado europeu com o seu açúcar, a ponto de excitarem a cobiça

holandesa. Para João Lúcio de Azevedo, sendo "considerável o

cabedal necessário para erigir uma fábrica" não se pode crer o

trouxessem consi o os imigrantes "da família hebréia, gente na

maior parte fugiE à Inquisição, degredados e outros a quem na

penúria sorrira a esperança de sorte fagueira além-mar". Ponto

que, na verdade, merece ser tomado na maior consideração.

Mas e preciso não esquecer, por outro lado, que entre os da

família hebréia, dispersos por vários países e em todos eles entre-

gues a formas diversas, irias entrelaçadas, de mercancia e de usui a,

existia então-como, até certo ponto, existe hoje-uma como maço-

5 ~ 11-1li-

#

12

GiLBERTo FREYRE



naria. Espécie de sociedade secreta de interesses comerciais, li-

gados aos de religião ou de raça perseguida, e funcionando com

particular eficiência nos momentos de grande adversidade.

Lembra o Abade Raynal, para quem os judeus teriam sido, com

efeito,, dos primeiros a cultivar a cana e a fabricar o açúcar na

América, que "plucíeurs trovèrent des parens tendres, des amis

fidèles; les autres, dont Untelligence & la probité étaient connues

obtinrent des fonds des négocians de differentes nations avec les-

uels ily avoient de liaísons dafiaires. Ces secours mirent des

Emmes entreprenans au état de cultiver des cannes de sucre,

dont les premières leur vinrent de I'Isle de Madère." São alavras

que tiram um pouco a força às de João Lúcio de AzeveSo .4

É bem provável que, expulsos de Portugal, os judeus que to-

maram o rumo da "terra de Santa Cruz" tenham sido amparados

fraternalmente por outros, de comunidades prósperas. Daí lhes

teria advindo capital, não diremos Xara iniciativas agrícolas-que

o

estas aqui, como em toda part , evem ter repugnado ao seu



horror tradicional e "canônico~' (a expressão é , de Max Weber)

pela terra e à sua política calculada de aventura comercial em

países cujo solo sentiam não lhes pertencer, de preferência a ~lual-

quer gênero de vida estável ou sedentária-mas para o financia-

mento da lavoura e da indústria que então nasciam, no Brasil,

ansiosas de dinheiro e de negro. Nessas duas atividades e que

provavelmente se especializou no Brasil dos primeiros tempos-o

assunto exige estudo especial e demorado antes de admitir gene-

ralizações em tom definitivo-o gênio econÔmico dos imigrantes

judeus, dando àquela lavoura e àquela indústria suas condições

comerciais de desenvolvimento. Sem o intermediário judeu, é

quase certo que o Brasil não teria alcançado dominio tão rápido

* completo sobre o mercado europeu de açúcar a ponto de só

* produto dos engenhos de Pernambuco, de Itamaracá e da Pa-

. 1 .

raíba render mais à Coroa, nos princípios do seculo XVII, que



o comércio inteiro da India, com todo o seu brilho de rubis e

todo o seu ruge-ruge de sedas.

Os traços que se encontram da presença do judeu nos começos

da agricultura da cana e da indústria do açúcar entre nós per-

mitem a reconstituição ou, pelo menos, a tentativa de reconsti-

tuição, de sua figura. Não é a de um grande criador de riqueza

e de vida nacionais ou subríacionais que se confunda sequer com

a do português dessa primeira fase de formação do Brasil-por-

tugueses do tipo de Duarte Coelho e dos seus colonos que abriram

claros enormes no mato virgem e levantaram engenhos, casas-

-fortes, fortalezas; que deitaram raizes na terra, embora a saudade

de Portugal os acompanhasse a todo instante como uma coceira

não de todo desagradável no coração: nesse coração que o por-

#

SOBRADOS E MUCAI-UOS - 1.0 Tomo



13

tuguês se pudesse vivia volutuosamente coçando; que construíram

casas-grandes de pedra e, dentro delas, ou a seu lado, capelas

ou igrejas com o lugar marcado para seus túmulos; que trouxeram

família de Portugal ou ligaram-se a mulheres da terra,cujos filhos

seus testamentos reconheceram. A figura do judeu não teve essa

grandeza de criador, com um sentido profundo de ermanência

a animar-lhe o esforço. Ao contrário: viveu à sombra ~ó português

patriarcal. E quase sempre móvel e provisório nos lugares. Tanto

que do Brasil muitos israelitas aqui enriquecidos se transferiram

a outras áreas da América.

Mas não foi, de modo algum, o judeu no Brasil colonial um

parasita que só tivesse sugado a riqueza do outro-o "Cristão

velho" e proprietário de terras ou plantador de carias-e os dois

a energia do negro, que era quem mais duramente trabalhava

nessa !~ocíedade ~ova. Ou a do indígena, tão utilizado no trans-

porte de pessoas e de coisas.

Os judeus é evidente que chegaram ao Brasil com dinheiro

bastante, se não para se estabelecerem como industriais de açúcar,

para emprestarem aos senhores de engenho as somas de que es-m

senhores necessitavam para as despesas de safra e de renovação

de escravatura. 0 próprio João Lúcio de Azevedo depois de

retratar Qs degredados judeus uns pobretões incapazes de aqui

fundarem engenho para o fabrico de açúcar, reconhece que "adian-

tando mercadorias ou dinheiro, mas principalrnente escravos aos

senhores de engenho constantemente em dificuldade" alguns he-

breus "por aí chegaram a possuir terras e fábricas. .,"5 Sinal de

que não eram pobretões tão ralos, mas homens de algama solidez,

capazes de mover mercadorias e escravos e ate de adiantar di-

nheiro aos fidalgos do interior, das casas-grandes. Não importa

que esse capital, eles o desenvolvessem com o talento, especia-

lízado nos "homens de nação" por uma experiencia muitas vezes

secular, para adquirir, diz João Lúcio de Azevedo un tanto enfa-

ticamente, "a vil preço, os salvados de naufrágios". Os naufrágios,

no caso, não eram os de mar, mas os de terra: os engenhos que

encalhavam por falta de negro e de dinheiro para as safras.

Para o historiador português era aos judeus que se referia Bran-

donio naquelas palavras a Alviano sobre umas tantas criaturas

que viviam no Brasil do seculo XVII de "comprarem fazendas aos

mercadores assistentes nas villas ou cidades, e as tornarem a levar

a vender pelos engenhos e fazendas, que estão dali distantes, com

ganharem muitas vezes nellas cento por cento". Nascates que

S?r esses lucros de cento por cento se faziam "riquissirnos". Bran-

onio refere ainda nos Diálogos o caso, que parece também arte

de "homem de nação" ou de cidade que explorasse velhacamente

matutos-arte que, depois, tanto se desenvolveu nos negócios de

#

14 GILLBERTo FREYRE S111iBA1J0,b E MUCAN1130S - L' Tomo



açúcar, de ouro e de café-de comprar um espertalhão "para pagar

de presente uma partida de peças de escravos de Guine por

quantidade de dinheiro e logo no mesmo instante, sem lhe entra-

rem os taes escravos em poder", os tornar a vender a um lavrador

"fiados por certo temPOi que não chegava a um anno, com mais

de oitenta e cinco por cento de avanço".6

Mas não foi só entre os fidalgos das capitanias açucareiras que

se exerceu a atividade do intermediário e do usurário-provável-

mente, em grande numero de casos, "homens de nação". Também

entre os Mineiros, quando para as minas de ouro e de diamantes

começou a deslocar-se o comércio mais grosso de escravos. Com-

boeiro ficou se chamando na região das minas esse papão, não

de meninos, mas de homens; esse boitatá, não do mato, mas da

cidade, a quem o mineiro acabou criando o mesmo horror que

o filho pequeno àqueles bichos fantásticos. Horror enorme, mas

não sem certa atração. Um cronista das minas de diamante define

o comboeiro: "o comboeiro era o judeu usurario [ .... 1. 0 com-

boeiro era o hediondo vampiro". 0 Mineiro temia-o; fugia dele;

mas afinal "a necessidade ou novas esperanças o lançavam em

suas garras" .7

Cronista mais antigo deixara pormenores interessantes sobre a

figura do comboeiro. E não só sobre a figura: sobre sua técnica

sutil de vendedor de homens a prestações.

Os escravos, ele os comprava nos portos a 100$000, os melho-

res, a 120$000; gastava de direitos e em despesa de viagem uns

20$000; e ia vendê-los aos mineiros e aos roceiros de serra-acima,

fiados por dois anos, mas por 180 ou 200 oitavas de ouro em

pó, de uma vez ou "em dois pagamentos eguaes de armo a anno".

Os mesmos lucros, que Brandônio tinha por ilicitos, dos nego-

ciantes de escravos em Pernambuco no século XVII; os mesmos

lucros de cento por cento sobre fazendas e mercadorias das

cidades vendidas nos engenhos. "Não tomam outra informação"-

acrescenta o cronista das minas-"não tomam outra informação

para venderem mais do que si o comprador, que quer comprar

um escravo, tem ao menos outro pago; e sendo dois, melhor.""

No século XVIII e através do XIX, a força do intermediário,

vinda do século XVII, só fez acentuar-se. Sua figura acabou eno-

brecida na do correspondente, na do comissário de açúcar ou

de café, na do banqueiro. Aristocrata da cidade, de corrente de

ouro em volta do pescoço, de cartola inglesa, morando em sobrado

de azulejo, andando de vitória de luxo, comendo passa, figo,

ameixa, bebendo vinho-do-porto, as filhas uns encantos quando

vestidas pelos figurinos de Paris por alguma Madame Theard

para assistirem a estréias de cantoras italianas no teatro lírico.

Tudo à custa, muitas vezes, do maria-borralheira que ficava no

15

mato, junto à fornalha do engenho, moendo cana, fabricando



#

açúcar, destilando aguardente; ou então plantando seu café ou

cavando sua mina. bivertindo-se com os bumbas-meri-boi e as

palhaçadas dos negros da bagaceira ou do cito ou do terreiro.

Muitas vezes não corirendo senão carne-seca e bebendo vinho de

jenipapo ou alegrando-se com cachaça. E nem sempre capaz de

mandar para Coimbra, para Paris, para São Paulo, para Olinda,

o filho que ia ficando em casa e dando para viver com os mu-

leques, depois com os cabras, atrás de muleca, de canário de

briga c-nos grandes dias-atrás de mestra ou contramestra de

pastoril.

"0 antigo fazendeiro ou senhor de engenho"-diria Joaquim

Nabuco erir 1.884, recordando a vida do velho senhor de terra-

trabalhava para o traficante, que lhe fornecia escravos "como o

atual trabalha para o correspondente. . ."' Para o correspondente

11 ou para o I)arieo"-otitra instituição de cidade que com a chegada

de Dom João VI se levantou no Brasil, modificando-lhe a pai-

sagem social rio sentido da urbanização; no sentido do domínio

dor cairipos pelas cidades. Acentuando a gravitação de riqueza

e de energia para as capitais, particularmente para a Corte. Para

as cai itaís e para os capitalistas, pode-se dizer, sem receio de pre-

p

judicar a verdade com o trocadilho fácil.



Repita-se que a lavoura no Brasil gozara nos primeiros tem-

pos-principali-riente nesse extraordinário século XVI, que mareou

o esplendor da ati-vidade criadora de Portugal, ou antes, do colono

português, na América-de favores excepcionais. Favores com que

a Coroa prestígiou a iniciativa particular dos colonos de posse,

concedendo-lhes grandes privilégios políticos e, à sombra desses,

privilégios econômicos. Os desbravadores de mato virgem, os des-

virginadores de, sertões, os fundadores de grandes lavouras viram-

-se, por mais de um seculo-por dois séculos inteiros, pode-se

dizer-rodeados de merces dando-]bes o domínio político dos Se-

nados das Cãinaras. E com esse domínio, os contratos, a arre-

cadaçao de impostos, as obras públicas. Viram-se ao mesmo tempo

resguardados dos credores menos pacientes, que se pusessem com

afoitezas para os lados das casas-grandes.

Mas com o desenvolvimento da indústria das minas, com o

crescimento das cidades e dos burgos, sente-se declinar o amor

del-Rei pelos senhores rurais, enfraquecer-se a aristocracia deles,

reduzida agora nos seus privilégios pelo prestígio novo de que

vêm investidos os capitães-generais, os ouvidores, os intendentes,

os bispos, e, vice-rei. Alguns desses capitães-generais como o Conde

de Valadaies cin Minas, fazendo dos midatos e dos nearos oficiais

de Reginiento c desprestigiando assim os brancos da terra.10

0

#

16



Ga,BERTO FREYRF-

Os capitães mandados para as Minas eram como se viessem

para terras que acabassem de ser conquistadas: arrogantes, domi-

nadores, seu olhar duro fiscalizando tudo, até as libertinagens

dos frades. A própria tradição dos grandes proprietários açoitarem

criminoso em suas fazendas, dentro da porteira tabu dos seus

engenhos, é quebrada em Minas em pleno século XVIII: o Conde

de Assumar manda prender certo Brigadeiro Macedo-que matara

a mulher-não na fazenda de um joão-ninguém, mas na do Mes-

tre-de-Campo Pascoal da Silva Guimarães, o dono de Ouro Podre,

o proprietário das lavras mais férteis do mundo, senhor de dois'

mil homens, de não sabemos quantos cavalos e de dois grandes

engenhos. Aliás, alguns nobres da colônia haviam sofrido dimi-

nuição no seu prestígio, com a carta de 25 de abril de 17 19 man-

dando dar baixa dos postos aos oficiais de Ordenança onde não

houvesse corpos organizados." 0 que lhes cortava as asas e

punha-os quase no mesmo pé que os plebeus, os mulatos e os

mascates das vilas. E agora, aquele horror. Fazendas e engenhos

invadidos pela polícia. Quebrado o maior tabu da aristocracia

rural.


2 nas terras do Sul-em São Paulo, nas Minas-que se faz sentir

mais forte, a partir dos princípios do século XVIII, a pressão do

imperialismo português, agora simplesmente explorador da riqueza

ue nos dois primeiros séculos ajudara a descobrir ou deixara

esenvolver-se. Convem-lhe a aliança com a plebe das cidades,

contra os magnatas rurais; com os mascates, contra os nobres;

com os nwrcadores de sobrado do litoral, contra os senhores das

casas-grandes do interior; com os mulatos, até, contra os brancos

de água doce.

Essa nova politica da metrópole, saBente-se mais uma vez,

ficara claramente indicada por ocasião do conflito entre a aris-

tocracia rural de Pernambuco e a cidade do Recife. E indicada

ainda com mais clareza em Minas Gerais durante o governo do

Conde de Assumar. Este não hesitou em investir contra as pró-

prias oligarquias dos Senados das Câmaras.




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