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eram, inglesas, alemãs ou francesas bem instruídas, superio-

res, sob vários aspectos, às matronas da terra. De modo que

não se deve imaginar um Norte ou um Nordeste de todo fecha-

dos, durante o meio século que se seguiu à Independência, a

influências européias que lhe alterassem a ortodoxia de so-

cialidade e de cultura. Faltou ao Norte, durante aquele pe-

?-iodo, o impacto de influência européia representado pelas

ondas de imigração de suíços e alemães, de franceses e italia-

nos, que se espalharam pelo Sul. Não lhe faltou, porém, a pre-

sença de europeus do Norte - franceses, ingleses, alemães e

até escandinavos - que, em número muito menor do que no

Sul do Brasil, i.,,ieravi reeuropeizar a vida e a paisagem da

região através de novas tecnicas de ensino de meninos, de culi-

INTRODUg;O I SEGUNDA Em(;,~o LXXXIX

#

nária, de confeitaria, de arquitetura, de engenharia, de marce-



naria, de jardinagem, de medicina, de cirurgia, de alfaiataria.

Suprindo com a qualidade a inferioridaãe em número, es-

ges técnicos europeus, tantos dos quais constituíram famílias

brasileiras, tiveram, no Norte do Brasil, durante o meio sé-

culo que se seguiu à Independência, uma influência geralmen-

te esquecida pelos estudiosos de História ou de Sociologia que

imaginam a parte setentrional do nosso país inteiramente f e-

chada, durante aquele período, ou durante o século XIX in-

teiro, a contatos íntimos e pessoais com europeus do Norte ca-

pazes de resultarem em alteraçÓes na paisagem, na vida e na

cultura da região. A verdade é que o sistema patriarcal bra-

sileiro, considerado sociologicamente em conjunto, sofreu, du-

rante o primeiro meio século da Independência - na verdade,

desde a abertura dos portos em 1808 - penetraçÓes de ele-

mentos grandemente perturbadores de sua ortodoxia patriar-

cal, tanto no Norte quanto no Sul do país. No Sul, esses ele-

mentos foram, de modo geral, mais importantes pela quanti-

dade ou pelo número do que pela qualidade. No Norte, foram

mais importantes pela qualidade do que pelo número relati-

vamente insignificante.

De modo que esses elementos quase se igualaram em impor-

tância, dado o fato de terem atuado no Norte técnicos supe-

riores, em qualidade, ao grande número de simples homens

do campo chegados da Alemanha e de outros países europeus

para o Sul. Compensação da quantidade pela qualidade.

A desigualdade de influências socialmente renovadoras ou

tecnicamente revolucionárias, seria um fenômeno menos da-

quele período que dos últimos decênios do século passado e dos

primeiros do atual - assunto do estudo que se segue ao pre-

sente e que se apresenta com o título de Ordem e Progresso e

o subtítulo de Transição do Trabalho Escravo para o Livre.

Durante a época propriamente de domínio, no Brasil, da famí-

lia patriarcal ou tutelar sobre o conjunto social, aquelas desi-

gualdades como que se compensaram de subárea para subárea,

de área para área, de região para região, permitindo ao pro-

cesso sociológico de dominação -não só do indivíduo como, até

certo ponto, do Estado e da Igreja, pela Família poderosa, de-

8envolver-se transregionalmente, sem perturbaçÓes que gran-

demente lhe diferenciassem as expressÓes ou manifestaçÓes

sociológicas e até culturais. .

0 que houve de região para região, de área para área, de

subárea para subárea, dentro do complexo patriarcal no Bra-

sil, repita-se que foi diferença antes de intensidade que de

qualidade de caraterísticos comuns aos vários tipos de socie-

I

I

#



XC

dades baseadas sobre a monocultura latifundiária e patriarcal.

Dentro desses caraterísticos comuns é que se formou e se de-

senvolveu a sociedade brasileira nas áreas mais antigas de

colonização portuguesa da América: a do açúcar, a do couro,

a do cacau. Depois, nas do café, do ouro, da borracha. Houve

zonas ou áreas de exceção: porém insignificantes do ponto de

vista sociológico ou histórico-social que não deve ser confun-

dido nunca - acentue-se mais uma vez - com o etnográfico.

Sob o critério de generalidade de formas sociológicas - e

não de peculiaridades etnográficas - é que vimos procurando

estudar e interpretar a mesma sociedade; é que vimos acom-

panhando seu desenvolvimento até os nossos dias: época de

franca desintegração do sistema patriarcal se não em todas as

áreas brasileiras, nas mais expostas ao impacto das influên-

cias individualistas, estatistas ou coletivistas mais particular-

mente hostis às antigas hierarquias sociais dominantes entre

nós - país de quase tanto familismo quanto a China - e às

antigas formas de domínio do Estado pela pessoa ou pela fa-

mília economicamente poderosa; e da própria religião pela fa-

mília patriarcal e semipatriarcal. Estudo por nós empreen-

dido desde a mocidade com um pouco daquela esperança que o

inglês Lecky confessou certa vez, em carta a um amigo, ter

animado suas pesquisas de historiador: "[ .... ] to detect

in the slow movements of the past the great permanent

forces[....

A Família, sob a forma patriarcal, ou tutelar, tem sido no

Brasil uma dessas "grandes forças permanentes". Em torno

dela é que os principais acontecimentos brasileiros giraram

durante quatro séculos; e não em torno dos reis ou dos bispos,

de chefes de Estado ou de chefes de Igreja. Tudo indica que

a família entre nós não deixará eompletamente de ser , a in-

fluência se não criadora, conservadora e disseminadora de va~

lores, que foi na sua fase patriarcal. 0 personalismo do bra-

sileiro vem de sua formação patriarcal ao mesmo tempo que

cristã - um cristianismo colorido pelo islamismo e por outras

formas africanas de religiosidade inseparáveis da situação fa-

milial da pessoa; e dificilmente desaparecerá de qualquer de

nós.

Sob forma nova, que lhe permita resistir à pressão de for-



ças hoje mais poderosas do que ela, e adaptar-se a novas cir-

cunstâncias de convivência humana, a família, no Brasil, ten-

de a desenvolver-se com a Igreja, a Cooperativa, a Comuna,

o Sindicato, a Escola, num dos órgãos de renovação e de des-

centralização de poder, numa sociedade, como a nossa, ainda

impregnada de sobrevivêveias feudais e tutelares. Como fa-

GILBERTO FREYRE INTRODUgXO ~, SEGUNDA EDIgXO XCI

mília patriarcal, ou poder tutelar, porém, a energia da famí-

#

lia está quase extinta no Brasil; e sua missão bem ou mal



cumprida.

Suas sobrevivências terão, porém, vida longa e.talvez eterna

ndo tanto na paisagem quanto no caráter e na própria vida

política do brasileiro. 0 patriarcal tende a prolongar-se no

paternal, no paternalista, no culto sentimental ou místico do

pai ainda identificado, entre nós, com as imagens de homem

protetor, de homem providencial, de homem necessário ao go-

verno geral da sociedade; o tutelar - que inclui a figura da

mde de família - tende a manifestar-se também no culto,

igualmente sentimental e místico, da Mãe, identificado pelo

brasileiro com imagens de pessoas ou instituiçÓes protetoras:

Maria, Mãe de Deus e Senhora dos Homens; a Igreja; a ma

drinha; a mãe - figuras que freqüentemente intervêm na vi-

da política ou administrativa do país, para protegerem, a seu

modo, filhos, afilhados e genros.

De maternalismo, ou maternismo, se mostra, na verdade,

impregnado quase todo brasileiro de formação patriarcal ou

tutelar. Era como se no extremo amor à mãe ou à madri-

nha ou à mãe-preta o menino e o próprio adolescente se refu-

giassem do temor excessivo ao pai, ao patriarca, ao velho -

senhor, às vezes sádico, de escravos, de mulheres e de meni-

nos.


Ainda há pouco estivemos relendo velha carta de Joaquim

Nabuco conservada por Pedro Afonso Ferreira, senhor do En-

genho Japaranduba e genro do Visconde de Rio Branco -

carta que o filho de Pedro Afonso destacou, há mais de vinte

anos, do arquivo daquele engenho para*que a guardássemos

entre nossos papéis de estudo. "A perda da nossa Mãe" -

escrevia Nabuco em 1885 - "é o maior golpe que pode ferir

o coração de cada um de nós.. . " Maternalismo do mais puro.

E maternalismo manifestado por alguém que, dentro da estru-

tura patriarcal em que nasceu, teve formação um tanto dife-

rente da comum, criado, como foi, com muito mimo, mais pela

madrinha, senhora de engenho, que pela própria mãe ou pelo

próprio pai, ao qual cedo passou, aliás, a admirar e não ape-

nas a temer.

Entre as figuras paterna e materna parece que, no Brasil,

se desenrolou o drama de muito menino de formação patriar-

cal ou tutelar, a figura materna servindo de refúgio ao te-

mor e às vezes terror à figura do patriarca. Esse terror ao

pai patriarcal e aquele refúgio à sombra da figura da mãe

e quase sempre companheira de sofrimentos ou experiências

de opressão as vezes se prolongou em traços caraterísticos

I

#



XCI1 GILBERTo FREYRE I~DUÇÃO À SEGUNDA EDIÇÃO XC111

de personalidade em alguns dos homens mais representativos

da antiga ordem brasileira.

0 caso de Dom Vital, por exemplo. Do que temos colhido

a respeito dessa figura extraordinária do bispo do tempo do

Império - o oposto da figura de Dom Romualdo, tão acomo-

datício em suas relaçÓes com o Estado ou com o Imperador -

na personalidade de homem feito de Dom Vital Maria Gon-

çalves de Oliveira o terror ao pai patriarcal parece ter se

transformado, por um processo de transferência que a psica-

nálise talvez explique, em ódio ao Estado dominador da Igre-

ja; e o extremado amor à mãe, em devoção à Santa Madre

Igreja, a Maria, à Mãe de Jesus - a sofredora, a mártir, a

perseguida. 0 certo é que o pai de Dom Vital deixou na famí-

lia a recordação de homem áspero e excessivamente autoritá-

rio em seu domínio sobre a mulher e os filhos tanto como so-

bre os escravos e moradores do engenho ou sítio de que foi

rendeiro: rendeiro com todos os caraterísticos de senhor da

terra ou proprietário do solo numa época em que mais impor-

tava o número de escravos que possuísse o patriarca, e o domí-

nio sobre eles, que a plena posse da terra ou da casa; mais a

qualidade do material de construção da casa senhorial que a

extensão em léguas das terras possuídas ou arrendadas pelo

senhor; mais a quantidade de servos que a de bois, de cavalos

ou de cabras, de carros ou de barcaças, embora todos esses ele-

mentos concorressem para o maior ou menor prestígio de uma

figura autenticamente patriarcal.

0 excessivo autoritarismo de patriarca do pai de Dom Vital

é informação que colhemos de mais de uma fonte. Notada-

mente da melhor ou mais pura de todas: o velho sobrinho do

bispo, há pouco falecido, Bráulio Gonçalves de Oliveira.

Enquanto ao Viscond-, de Rio Branco parece ter sucedido

quase o oposto ao que sucedeu a Dom Vital: criara-se num

ambiente de menor autoritarismo patriarcal e de menor opres

são da figura materna pela paterna. Filho de negociante de

cidade que enriquecera com a importação de escravos numa

época - saliente-se bem - em que esse gênero de comércio

não se tornara ainda, vo Brasil, atividade degradante para

o homen-i, de negócios ric'cnen~ para sua far-alia,

embora já implicasse conflito de interesses do comércio bra

sileiro com o imperialismo britânico - o futuro Visconde não

se fez homem com o terror de menino a um despotismo fa

milial a dominar-lhe parte importante da personalidade e a

exigir trans , ferência, para outro plano, do seu ressentimento

ou do seu ódio ao opressor doméstico. Seu sentimento de me

nino mais forte foi, porventura, o de brasileiro revoltado con-

tra intrusÓes estrangeiras em atividades consideradas não só

racionais como benéficas à nação; e no sobrado paterno tal-

vez tenha se familiarizado com alguns dos segredos como que

#

maçônicos necessarios ao chamado "resgate" e tidos como



meios de defesa da "liberdade de comércio" contra o imperia-

lismo britânico. 0 equilíbrio de personalidade do primeiro

Rio Branco parece ter resultado do relativo equilíbrio de sua

formação mais oceânica e menos rústica que a de um Gonçal-

ves de Goiana; menos rigidamente patriarcal que a do bispo

com quem, grande do Império, teve de defrontar-se no duro

combate travado entre o Estado e a Igreja no Brasil dos dias

de Pedro II. Apenas o primeiro Rio Branco, como aqueles ho-

mens ilustres da Nova Inglaterra que, descendentes de impor-

portadores de escravos, se distinguiram na campanha norte-

americana da abolição por seu abolícionismo militante, pare-

ce ter encontrado na atividade militantemente abolicionista

uma espécie de purgação do grave pecado paterno - pecado

cuja gravidade o filho só deve ter sentido ao fazer seus pri-

meiros estudos de Direito sob a influência de autores ingleses

e franceses.

Outro ponto a destacar é que o sobrado da meninice do fu-

turo Visconde de Rio Branco era provavelmente daqueles on-

de havia salão com janelas escancaradas para o mar; e aonde

chegavam com alguma freqüência rumores de gentes mais

sofisticadas que a brasileira, produtos de outras civilizaçÓes,

notícias ou novidades da Europa, porcelanas e sedas da China,

marfim e perfumes da índia. Esses requintes custavam a che-

gar aos alpendres das rústicas casas-grandes de engenho ou

de sítio do Norte de Pernambuco como aquela onde nasceu e

se criou o futuro Dom Vital; e aonde os próprios negros da

Costa foram deixando de chegar com a antiga freqüência, da-

da a vigilância britânica nos mares e nas próprias praias. Era,

portanto, natural que nos Gonçalves de Oliveira, de Goiana, se

acentuassem tendências à introversão; e nos Paranhos, da

Bahia, tendências à extroversão. E se nos alongarmos em tais

análises, veremos que o estudo da casa em relação com a for-

mação da personalidade do brasileiro não é tão banal quanto

tem parecido a alguns críticos. Nem tão fútil - "feminina-

mente fútil" - como pretendem, outros censores.

Aliás, nem mesmo de um ensaio como o recente, do Sr. Wan-

derley de Pinho, intitulaao SalÓes e Damas do Segundo Rei-

nado (São Paulo, s.d.) e co,~n-,-oosto sob a sugestão um tanto cv-

11

languescente de "flores murchas de recordação de um baile ,



de "daguerreó tipos esm,aecidos", de veli~as 1uvas amareleci-

das pelos anos", se pode dizer que seja obra feminina no sen-

I

i

#



XCIV

GILBERTo FREym

tido de ser fútil. 0 próprio autor de ensaio tão sugestivo -

ainda que escrito, este sim, sob o exclusivo ponto de vista do

descendente da classe dominante incapaz de identificar-se, por

empatia, com a gente dominada - defende-se da acusacão

de banalidade que possa ser feita a semelhantes estãos

de História Social. E opÓe às generalizaçÓes injustas de

Tobias Barreto sobre os salÓes das velhas casas-grandes (que

o Sr. Wanderley de Pinho sistematicamente denomina "gran-

des casas") e dos antigos sobrados brasileiros (às vezes intitu-

lados inexata ou exageradamente, pelo mesmo autor, de "sola-

res" ou de "palácios") - e nos quais, segundo o mesmo To-

bias, preponderavam "o canto, a música, o jogo, a maledicên-

cia" e não, como ele desejara, as conversas eruditas de ba-

charéis com bacharelas - os reparos inteligentes de José de

Alencar: "se a palestra vai bem, procura-se alguma chaise-

longue num canto de sala e a pretexto de tomar sorvete ou ge-

lados faz-se uma transação, efetua-se um tratado de aliança".

Em ensaio recente, "A Mulher'na Literatura Brasileira"

(Nordeste, agosto, 1947), um crítico esclarecido das letras

nacionais, o Sr. Aderbal Jurema, baseia-se justamente no tra-

balho do Sr. Wanderley de Pinho para escrever que, durante

o Segundo Reinado, mesmo "vigiado de perto" pelos patriar-

cas, o "talento feminino começou a brilhar" entre nós. A ver-

dade é que esse começo de brilho da inteligência feminina nos

salÓes patriarcais do Brasil data do Primeiro Reinado e até da

época colonial: é o que indica o depoimento de Maria Graham

que até uma "bas bleue" conheceu no Rio de Janeiro. Mas não

nos iludamos com a participação da mulher na vida intelectual

do Primeiro Reinado e mesmo do Segundo: o que houve foi

uma ou outra flor de estufa. Tanto que Nísia Floresta seria

um escândalo para a sociedade brasileira do seu tempo, mere-

cendo o seu caso estudo à parte que bem poderia ser empreen-

dido pelo próprio Sr. Aderbal Jurema. E a Marquesa de San-

tos, se nos seus dias de matrona recebeu honras quase de ma-

triarca da parte da sociedade paulista, foi pelo reflexo, sobre

sua pessoa, da condição de mulher de Imperador que lhe abri-

lhantara os dias de moça.

Matriarcas houve, no Brasil patriarcal, apenas com,) equi-

valentes de patriarcas, isto é, considerando-se matriarcas

aquelas matronas que, por ausência ou fraqueza do pai ou do

marido, e dando expansão a predisposiçÓes ou caraterísticos

masculinóides de personalidade, foram às vezes os "homens

de suas casas". Basta que nos lembremos da que o cônsul rus-

so, o infeliz Barão de Langsdorff e Hércules Florence, conhe-

ceram no interior do Brasil na primeira metade do século

INTEODUÇÃO À SEGUNDA EDIÇÃO

#

XCV


XIX. Mas nunca que esses casos excepcionais de "matriarcas"

nos autorizem a falar num matriarcadO que florescesse den-

tro da sociedade patriarcal do Brasil com o vigor de uma ins-

tituição rival da econômica e politicamente dominante. Nada

de confundirmos - voltemos a este ponto - matriarcalismo

com maternalismo: o maternalismo de que se apresenta im-

pregnada nossa sociedade patriarcal por uma como compen-

sação moral ou psíquica aos excessos de patriarcalismo.

A extrema receptividade do brasileiro ao culto de Maria,

Mãe de Deus, da Mãe dos Homens, de Nossa Senhora que, em

nosso cristianismo mais popular e mais lírico, chega a so-

brepujar o culto de Deus Pai e de Cristo Nosso Senhor, tal-

vez encontre sua explicação naquele maternalismo, moral e

psiquicamente compensador dos excessos de patriarcalismo

em nossa formação. Excessos identificados com o despotis-

mo ou a tirania do homem sobre a mulher, do pai sobre o fi-

lho, do senhor sobre o escravo, do branco sobre o preto.

E sob esse ponto de vista, tão expressivo quanto o caso de

Dom Vital Maria nos parece o do Padre Ibiapina, também

extremo devoto de Maria, Mãe de Jesus. 0 grande missio-

nário brasileiro da época patriarcal, organizador das céle-

bres "casas de caridade" nos sertÓes, é de que se apresenta

impregnado aos nossos olhos: de maternalismo ao mesmo

tempo que de brasileirismo. Ou de caboclismo ou nativismo.

Um maternalismo que foi uma expressão nova do comple-

xo brasileiro da casa-grande e não a negação violenta desse

complexo. Desse complexo ele se envolvera de tal modo que,

construidos edifícios para suas missÓes, em vez de se inspi-

rar na arquitetura das igrejas ou dos conventos, inspirou-se

na das casas-grandes patriarcais. E em vez de enchê-las -

as suas "casas de caridade" semelhantes às casas-grándes,

com os mesmos alpendres largos, os mesmos telhados aco-

lhedores de pagodes chineses, as mesmas paredes grossas -

de freiras ou irmãs de caridade mandadas vir da Europa, en-

cheu-as de brasileiras de tipo menos ascético do que mater-

1

nal que a gente do-povo foi chamando não de "irmãs" nem



de , soeurs", nem de "madres" nem de "mères", mas, muito

brasileiramente, de mães~sinhás. Mães-sinhás que costura-

vam e ensinavam órfãs a costurar, a fazer renda, a fazer do-

ces, flores de cera e de papel, cestos, chapéus, esteiras. Ma-

ternalismo do mais puro que, outra vez, é preciso não ser

confundido com matriarcalismo embora tudo indique que aos

bispos da época a organização de Ibiapina inspirasse o receio

de ser uma organização dominada por mulheres.

#

XCV1 CIELBERTo FP~EYRE INTRODUÇÃO À SEGUNDA EDIÇÃO XCV11



Ora, os bispos ortodoxos da época, mesmo quando homens

da formação de Dom Vital Maria - que, para compensar-se

da dura opressão sofrida da parte do pai (identificado com

0 Imperador, o Império, o Governo) teria buscado refúgio

na figura ideal da mãe (Igreja) e na especial devoção pela

Virgem Maria - não parecem ter levado seu maternalismo

a desenvolvimentos tão lógicos que confiassem na capacidade

das mulheres brasileiras para o serviço da Igreja do mesmo

modo que confiava nelas o meio louco Ibiapina. É pena. Pres-

tigiada pela Igreja, pelos seus bispos, pelo núncio, pelo Papa,

a organização maternalista de Ibiapina poderia ter se alas-

trado pelo Brasil inteiro com suas "casas de caridade" ser-

vidas por "mães-sinhás" que teriam dado ao Catolicismo so-

cial no Brasil um vigor como que telúrico: uma base franca-

mente brasileira à sua ação social sem prejuízo nenhum da

ortodoxia romana dos dogmas e dos ritos. E essa organiza-

ção desabrochada du meio, das tradiçÓes e das peculiaridades

brasileiras - espécie de sublimação ou santificação das ca-

sas-grandes patriarcais - teria, provavelmente, concorrido

para adoçar a transição do patriarcalismo para o semipa-

triarcalismo no Brasil, tornando-se, nas cidades, as casas-

grandes, sobrados grandes em que se abrigassem vão só re-

colhimentos para moça.- ricas, como o de Nossa Senhora da

Glória, como também escolas de donas de casa ou de mães

de família para órfás e moças pobres. Escolas onde essas ór-

fãs e essas nocas aprendessem a costurar, a bordar, a co-

zinhar, a tratar'de doentes, dirigidas por outras tantas mães-

sinhás, dentro da orientação esboçada por Ibiapina.

Do ponto de vista do Catolicismo ou do Cristianismo social,

Ibiapiva foi, talvez, a maior figura da Igreja no Brasil. Pa-

rece ter compreendido como ninguém a necessidade da Igre-

k

j , em nosso país, substituir moralmente por formas mater-



nais de organização social e de formação de personalidade,

o patriarcado das casas-grandes, por tanto tempo centro ab-

sorvente da sociedade brasileira. Substituí-lo moralmente

levantando casas de caridade que fossem a continuação das




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