E agora Francisco, depois das jornadas?



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Encontro29.08.2018
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E agora Francisco, depois das jornadas?

Luiz Alberto Gómez de Souza

Diretor do Programa Ciência e Religião,

Universidade Candido Mendes

Em um texto de 21 de julho, antes da vinda de Francisco, me perguntava se não poderia haver uma contradição entre a jornada, desenhada como um grande espetáculo, como as anteriores dos dois pontificados precedentes e o estilo simples e os gestos eloquentes e inovadores de Francisco. “Como se situará Francisco nesse teatro de massas?... Poderá talvez surpreender com gestos inesperados”.

Não por acaso, antes de encontrar uma grande multidão, ele foi a Lampedusa, quase só, lançando flores à água por quem morrera querendo chegar à Europa e depois celebrou uma missa íntima para imigrantes clandestinos, tendo como altar um barco emborcado, com um báculo e um cálice de madeira e onde questionou o que chamou de “globalização da indiferença”. Criticou fortemente “uma sociedade que esqueceu a experiência de chorar”. Saudou os muçulmanos presentes que festejavam o Ramadã. Para um analista, ali começava sua missão universal, não envolto com títulos de uma tradição de origem pagã, como “soberano pontífice”, ou de certo endeusamento, como “santo padre”. Basicamente Francisco, bispo de Roma, irmão maior dos outros bispos do mundo.

A jornada, apesar de sua enorme dimensão, teve uma excelente organização e representou um forte chamado a jovens do mundo inteiro, que responderam com entusiasmo e alegria. Entretanto, pelo seu desenho preparado com antecipação, inevitavelmente voltou a denominações antigas do papado, privilegiou devoções tradicionais, com pouca presença bíblica, apresentou três testemunhos de vida individual, próximos daqueles que vemos na televisão em programas pentecostais, com forte presença de movimentos mais intimistas, quase nenhuma visibilidade de pastorais sociais e das CEBs. Jornadas anteriores tinham tido também momentos de forte emoção, para depois, aparentemente, não deixarem muitos sinais de crescimento na vida real das igrejas locais. A das Filipinas foi ainda maior do que a do Rio. Não sei qual foi a incidência na Igreja daquele país. Isso torna mais extraordinário o que senti ao final da estadia de Francisco entre nós.

Terminada a jornada do Rio de Janeiro, podem-se perceber alguns pontos significativos. Em primeiro lugar, Francisco passou um tom pessoal muito forte, dirigindo-se a uma multidão como se falasse e olhasse a cada um em particular. São inúmeros os testemunhos de gentes – não só os jovens – sensibilizados pelo seu estilo, de tocar “delicadamente no coração” de cada pessoa. Há várias narrativas de cristãos e não cristãos que se sentiram interpelados diretamente por Francisco.

Em segundo lugar, sua mensagem foi eloquente e firme, com uma roupagem simples e às vezes despretensiosa. Numa entrevista a um jornalista, ele voltou a falar sobre a globalização da indiferença, continuando o que dissera em Lampedusa: “Hoje em dia há crianças que não têm o que comer no mundo. Crianças que morrem de fome, de desnutrição. Há doentes que não têm acesso a tratamento. Há homens e mulheres que são mendigos de rua e morrem de frio no inverno. Há crianças que não têm educação. Nada disso é notícia... Esse é o drama do humanismo desumano que estamos vivendo. Por isso, é preciso recuperar crianças e jovens, e não cair numa globalização da indiferença”.

Desafiou fortemente o episcopado, na fala ao CELAM. Ali ele se insurgiu com uma psicologia de príncipes, vendo riscos de carreirismos e uma preocupante distância diante dos fiéis. Desde suas declarações em Roma, vinha se rebelando contra o narcisismo de uma Igreja amuralhada e fechada sobre si mesma e insistindo no acolhimento e no diálogo (numa ocasião, repetiu essa palavra três vezes). Na entrevista citada acima, disse que é fundamental a proximidade da Igreja: ”Porque a Igreja é mãe e nem você nem eu conhecemos uma mãe por correspondência. A mãe dá carinho, toca, beija, ama ... quando só se comunica com documentos, é como uma mãe que se comunica com seu filho por carta”. Para ele, já tinha dito, os sacerdotes deveriam de ter “o cheiro das ovelhas”.

E sobre os jovens: “O jovem que não protesta não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia... O jovem é essencialmente um inconformista. E isso é lindo”. E, na última homilia, ele indicou aos jovens: ”ide, sem medo, para servir”. Valorizou a ação política dos fiéis no mundo e dos jovens em especial.

A visita a Manguinhos foi um dos pontos altos, rodeado pelo povo pobre, sujeito e objeto preferencial de sua ação pastoral. Encorajou os esforços que se fazem na sociedade brasileira de combate à fome e à miséria. Lembremos que na sociedade há atores da sociedade civil, mas também aqueles da sociedade política e aí se incluem programas governamentais em curso. Nesse momento, teve um gesto eloquente, que os meios de comunicação não valorizaram. Ele se dirigiu a uma Igreja evangélica, onde na porta estavam o pastor e seus fiéis e, com eles, rezou o Pai-nosso.

Em Aparecida desenvolveu, como bom jesuíta, três pontos de reflexão: conservar a esperança, deixar-se surpreender por Deus e viver na alegria. Penso que isso ele vem aplicando a si mesmo. Observando seu itinerário desde Buenos Aires, há uma profunda caminhada, de quem foi se deixando surpreender por Deus. Não quero continuar elencando trechos de suas falas, que estão publicadas em muitos lugares. O importante é sentir como elas foram ditas, com um olhar penetrante e cativador, anunciando a boa nova de Jesus.

É interessante constatar como ele aproveitou entrevistas - principalmente, a que deu no avião de volta-, para passar seus recados, fora dos moldes da jornada. Naquela, a caminho de Roma, falando da ética sexual, sem sair da doutrina tradicional, não quis reiterar condenações. Há sites de setores conservadores que estão exprimindo insatisfação e falam de um “silêncio preocupante”, pois não condenou explicitamente o aborto, as uniões homossexuais, a ordenação de mulheres, nem reiterou o celibato obrigatório. Apenas indicou que há uma doutrina vigente para esses casos. Em entrevista que dei, referi-me a “silêncios libertadores”. Há agora mais espaço, no povo de Deus, para enfrentar, sem medos e autocensuras, temas que estavam até agora congelados. A Igreja poderá ter um clima mais livre e há que aproveitar esse momento. Vejo chegar um tempo mais aberto em que poderíamos discutir assuntos que pareciam tabus. Além disso, dando o exemplo das mulheres paraguaias no fim de uma guerra que eliminou grande parte dos homens, fez sentir como uma doutrina pode ser relida em certos contextos concretos.



Não se trata de querer que Francisco introduza rapidamente novas mudanças doutrinárias, numa atitude de esperar novas receitas e normas de cima para baixo. É o povo de Deus que tem que amadurecer posições diante de novas situações existenciais. Para isso, análises pessimistas não ajudam em nada. No oposto de um lado tradicionalista, pode haver um setor hipercrítico que questiona e acaba, paradoxalmente, em sentido inverso, tendo o mesmo resultado paralisante daquele. Sem querer, seria fortalecer, no lado oposto, a mesma posição conservadora. Isso se vê muito claro, por exemplo, na vida política da sociedade, com uma extrema esquerda que acaba reforçando a direita. Vivi a posição suicida do MIR no Chile, para temer posições radicais e negativas, que fazem se encontrar os dois extremos do espectro ideológico. Guardadas as proporções e as diferenças, alguma coisa parecida poderia ocorrer na Igreja, nestes tempos de transição. Seria fundamental unir esforços e, lembrando João XXIII – que, não esqueçamos, era conservador em muitos aspectos –, colaborar com o surgimento de uma outra “inesperada primavera”.

O importante agora é o que está por vir. Francisco voltou para Roma fortalecido pela energia que deu e recebeu. Esperemos que possa passar de gestos e sinais, para medidas que introduzam algumas mudanças estruturais na Igreja e, principalmente, no seu centro romano. Nesse momento, deveria sentir que os cristãos que o festejaram no Rio - dos fiéis aos bispos -, continuam ao seu lado. Francisco vai precisar de um forte apoio diante de previsíveis resistências de quem está encastelado em setores do poder eclesiástico. Para mostrar coerência ao tomar decisões difíceis, irradia uma forte espiritualidade e lança um apelo vigoroso à conversão de vida e de abertura ao próximo, como na parábola do bom samaritano que tem relembrado. Como isso poderá permitir um novo clima espiritual e de diálogo na Igreja? Não depende só de Francisco, mas fundamentalmente de setores eclesiais comprometidos e plurais, na liberdade ao mesmo tempo fiel e rebelde de filhos de Deus.


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