Domesticou-me a violência do silêncio meu



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Montéia
Meus pés, gêmeos malogrados, de dedos assimétricos,

De minuto vário e diminuto,

Massacram a dimensão do mundo e do tempo

E a tortura do gargalo da vida.

Meus pés! Estes que hora contemplo,

Afago e apago -estranho- das minhas observações,

E que absorvem distâncias em seu triste remar,

Levam-me, trazem-me,

Neste leva e traz em desatino.

Estes meus pés horizontais

Suportam e conduzem, sem queixas,

Meus sonhos deitados e mudos,

Adulterados sobre a lama fria do asfalto...
Ladeados pela liquidez ignota do futuro hostil!

Insatisfação
Há momentos na vida

Em que a vida se colore de momentos

Onde tudo lampeja eternidade.

Promete ser eterna a maior alegria

Tanto quanto a pior tristeza

Parece não ter fim.

Vamos galgando as horas, assim,

Sobrevivendo a cada instante,

Entrelaçando fatos e fetos,

Sonhos e embriões,

Nesta sanha apaixonante

De jamais nos sentirmos completos,

Plenamente satisfeitos.

É que o charme maior da humanidade

É ser instigante... insatisfeita.

Insensata às vezes; às vezes delirante;

Cruel às vezes; às vezes digna de pena;

Às vezes louca, porém,

Moldável sempre

Às circunstâncias advindas.



Minhas mãos...
Estes seres impessoais, imparciais,

Impassíveis sempre;

Impulsivos às vezes,

Empunham com força o punhal.

Promovem o bailar da lâmina

E depois se encolhem tranqüilas...

Recolhem com fúria seu átimo,

Apascentam meus cabelos revoltos

E dormem tranqüilas no bolso das calças.
A lua baça lambe mais um corpo sem vida,

Estirado na calçada!



No exato instante de morrer
Lança-se em um rio de águas turvas

E seus gestos naufragam entre estilhaços frios.

Nadando à esmo, as mãos se desfazem

Em braçadas menos vigorosas

Quanto supunha o momento e a necessidade.

O obstáculo líquido lhe enoja... enjoa

E as imagens vomitadas à deriva

Causam dor e instigam a procela.

Solidão. Dor.

Dor. Cãimbras.

Cãimbras. Desespero:

Visitas inesperadas e hostis

No exato instante de morrer.


O mosaico
Sobre a mesa de centro

Colo a tua imagem esfacelada em mim.

Típico de um artesão amador,

Tal imagem se faz ageométrica,

Sem muita correção ou formosura.

Às vezes lúcida e viril;

Outras, translúcida e vazada,

Ela se apaga aqui e ali, sob águas que se passam...

Água-tempo, água-ausência (inessência),

Água-dor, água-esquecimento.

De repente, a imagem captada

Tornara-se mero adorno, decoração simples,

Complemento do nada esquecível,

Esquecida pela inanição das coisas vagas.

Embevecido neste trabalho quase analítico,

Mal percebi que se fez noite tênue e estrelada.

Arrastei as chaves de sobre a mesa

E o mosaico se derramou,

Quebrando-se em pedaços ainda menores

(e menos trágicos).

Já não seria trabalhoso demais

Limpar a minha casa,

Amanhã de manhã!


Expressionismo
Quando vais não és.

Quando vens também não.

Mas quando estás...

Ah! Quando estás

Permaneces, ficas

E vincas


O liso correr dos dias.
E assim, vais, sim,

A contento,

Levando no colo o tempo.

Abandono
Seu passo é indolência,

Marcado pela mesmice das folhas

Que perderam o viço e a vida.

Seu rumo é lugar nenhum,

Perdido entre petrechos mal dormidos,

Na casa grande outrora rica.

Macilento, mastiga a própria língua

(gesto herdado do pai),

No desdém da despensa em teias:

_ Ubro seco, sem qualquer valia!

Uma cantiga oca, repleta de inessência,

Carimba seus ouvidos carentes de interlocução,

Pendurados nas arestas do silêncio.

Sua vida sempre cheia de vírgulas

Embaraça-se nas reticências de agora;

Na agudez do ponto final que principia.

Procede, assim, sinuoso e só

Por entre guardados melancólicos,

Arremedando uma sinfonia em dó.

Enfim, arrefece-lhe a alma

E seu corpo convertido em cansaço da vida

Dobra-se sobre si, em concha,

E se espairece acima da nulidade

Em que o tempo se converteu.



Oleiro
Mesmo fazendo greve,

O giro breve de seu olhar grave

Produziu vasos de silêncio

Onde o mundo plantava vozes viscerais.



Grafura
Uma moça no quadro da janela

Fita as pessoas que ali passavam,

Mas pelo nada que seu olhar fitava

A vida insossa passava por ela.


Cotovelo sob o queixo lasso,

Olhos vagueando pelas ruas,

Do romper do sol ao deitar da lua

Seguindo sempre este compasso.


A moça no quadro da janela:

Retângulo perdido no tempo

Que dia-a-dia paro e contemplo

Mais por costume, menos por ser bela.



Insensatez
Leve como uma coisa que nasce não sei por quê,

Me vem esta palpitação estranha, se entranhando

Como comichão vago no preâmbulo do desassossego.

E a mim cabe apenas a parte do silêncio e da espera.

Vivo disso a cada segundo das coisas momentâneas,

-Posto que sou vivente cru dos motes instantâneos-

Fluentes, dispersas no (dis)curso impreciso desse rio-tempo.

Galopo, ofegante, os segundos fracionários da eternidade!

De tal forma me perco embevecido nestas sensações

Que me sinto seguro ante toda dor que me vem e destrói.

E me refaço em meio a pedaços da implosão surda,

Beijando a ferida viva de minha alma que sangra.

Algo grita em mim, falando de angústias e frustrações

E nem assim o mundo se acorda ou me desperta.



É hora
É hora de estender as redes, amor!

Fazer arrastão no mar, amor!

O tempo de estio se acabou

E na despensa ecoam nossos passos.

Vamos embora pro mar, amor!

Buscar pescado, amor!

Pois a fome é breve...

Pois a fome cresce

Por cá da praia.


Inspiração
Caí na armadilha;

Naquela armadilha incerta,

Porém nefasta,

Que tolhe,

Que colhe minhas lágrimas

E recolhe-me à ânsia absurda

(e abusada)

De somente escrever,

Como a crivar no papel branco e nodoso

As reminiscências de um amor

Que vive da letargia

De, simplesmente, ser sem razão.

De simplesmente ser...

Apenas!


Sertanejo
Impulsivo e rude,

Minha pele refaço

Sobre as duras chagas das mãos.

Ruflo asas vigorosas,

Contemplo andaimes de pedras

Que despontam caiados, plantados

Em branco e preto

Sobre a carcaça da terra insalubre.

É preciso recriar a jornada:

Minha infrutífera lide

Sobre a aridez do sertão mórbido!

Logro fazer meu ABC

E chamo a atenção do mundo:

_Que seus olhos se derramem

Sobre a pequenez de minhas coisas

Que, grão em grão,

Alheios lares abastecem!


Incongruência
Amou-me tanto e por tanto tempo

Que até quando pensou ter me esquecido,

Depois de tanto termos nos dividido,

Julgou ser eu seu dividendo.



Nós dois

(para uma ROSA perfilada

no aconchego do instante não vindo)
Eu quero a calma de uma praia deserta

Para que o nosso amor desperte em paz.

Quero o sol da tarde beijando seu corpo nu

Entrelaçado, atrelado aos meus braços

Numa comunhão perfeita e necessária.
Quero este gotejar branco e vário,

Salpicando de desejo a nossa praia

E mesmo que isto não valha nada para você,

Estarei cúmplice deste desejo insofismável.


Quedo em seus braços amenos,

Misturarei-me à você e à areia

Que castigará nossos corpos suados
Em uma luta de titãs, sinônimos de desejo,

Brindaremos ao sol com nosso beijo



E dormiremos no píer abandonado




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