Dental loss experiences in adult and elderly users of primary health care



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EXPERIÊNCIAS DE PERDA DENTÁRIA EM USUÁRIOS ADULTOS E IDOSOS DA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE

DENTAL LOSS EXPERIENCES IN ADULT AND ELDERLY USERS OF PRIMARY HEALTH CARE


RESUMO

Partindo da perspectiva teórica da fenomenologia, este artigo propôs-se a compreender as experiências de perda dentária em usuários da Atenção Primária à Saúde de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. A perda dentária foi identificada pela análise de prontuários odontológicos dos usuários adultos e idosos que acessaram o serviço de saúde bucal na Unidade de Saúde estudada. A partir desta identificação, entrevistas domiciliares individuais foram realizadas. A amostra foi intencional (n=66). Os dados foram interpretados pela análise de conteúdo, com apoio do software ATLAS.ti (Visual Qualitative Data Analysis). O estudo teve aprovação ética. Perder dentes foi uma experiência que expressou subjetividades, mostrando narrativas plurais, com destaque para a função social da boca. Para além do número de dentes perdidos, o entendimento do modo como as pessoas se percebiam sem esses dentes determinou o quanto a perda dentária afetou suas vidas. O uso de próteses agregou valor ao corpo, permitindo o restabelecimento do equilíbrio desse corpo com o mundo. Estudos de abordagem qualitativa nos serviços de saúde devem ser considerados para o planejamento de ações que priorizem as necessidades percebidas pelas pessoas em seus territórios, buscando reduzir estigmas e desigualdades sociais.



Palavras-chave: Perda de Dente. Saúde Bucal. Qualidade de Vida. Prótese Dentária. Atenção Primária à Saúde.

ABSTRACT

From the theoretical perspective of phenomenology, this article seeks to understand the experiences of dental loss in adult and elderly users of Primary Health Care in Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Dental loss was identified by the analysis of dental records of users that attended the oral health service at the Health Unit under study. Following this identification, individual home interviews were carried out. The sample was intentional (n=66). The data were interpreted by content analysis using the software ATLAS.ti (Visual Qualitative Data Analysis). The study had ethical approval. Losing teeth was an experience that expresses subjectivities, showing plural narratives and highlighting the social function of the mouth. Besides the number of lost teeth, the understanding of how people perceived themselves without their teeth determined how much dental loss affected their lives. The use of prostheses enhanced add significance to the perception of the body, allowing the restoration of the equilibrium of this body with the world. Qualitative approach studies in health services should be considered to plan actions prioritizing the needs perceived by people in their territories, seeking to reduce stigmas and social inequalities.



Keywords: Tooth Loss. Oral Health. Quality of Life. Dental Prosthesis. Primary Health Care.
INTRODUÇÃO

Ter, cuidar e preservar os dentes naturais contribuem para a qualidade de vida, possibilitando ao indivíduo sentimentos de conquista, orgulho, controle, melhor funcionalidade da boca e aparência1. Perder dentes, por outro lado, reflete em mudanças físicas, biológicas e, algumas vezes emocionais2. O impacto que a perda dentária pode ter sobre as pessoas e suas vidas não deve ser subestimado3. A perda de um dente pode se caracterizar como uma experiência relativamente insignificante na vida de um indivíduo, mas também pode ser devastadora e perturbadora4, resultando em alterações das atividades sociais diárias e trazendo limitações relacionadas a encontros sociais ou comer em público5.

A perda dentária gera, ainda, uma grande demanda por tratamentos protéticos, tornando-se um desafio à saúde pública e uma responsabilidade para os gestores públicos de ofertar uma atenção em saúde adequada às necessidades da população6.

Dados epidemiológicos do Brasil, em 2002-2003, confirmaram o edentulismo como um problema grave no país, associado com alta necessidade protética em adultos e idosos7.No levantamento epidemiológico mais recente, de 2010, os resultados mostraram melhoras em relação à perda dentária em adultos, comparando com 2003, destacando-se que a média de dentes perdidos diminuiu de 13,5 para 7,4. Em 1,3% dos casos, houve a necessidade de prótese total em pelo menos um maxilar. Importante destacar que este percentual em 2003 era de 4,4%. Já nos idosos, o edentulismo permaneceu próximo de 54% nos dois estudos. Os números encontrados em 2003 e 2010 ficaram muito próximos e representaram um contingente de mais de três milhões de idosos que necessitavam de prótese total em pelo menos um maxilar e mais de quatro milhões que necessitam de prótese parcial8,9.

Entendendo a perda dentária como um problema de saúde pública que pode afetar a qualidade de vida das pessoas10, este estudo propôs-se a compreender o significado das experiências de perda dentária em adultos e idosos usuários da Atenção Primária à Saúde, considerando a posição e o número de dentes perdidos. A perspectiva teórica seguiu o enfoque da fenomenologia, centrada na experiência vivida da perda dentária.
PERCURSO METODOLÓGICO

Estudo realizado por meio de abordagem qualitativa, caracterizado como um estudo de caso, cuja população foi a de usuários adultos e idosos do serviço de saúde bucal da Atenção Primária à Saúde (APS) /Estratégia Saúde da Família do município de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, que apresentavam perda dentária.

A identificação dos sujeitos elegíveis para inclusão na pesquisa foi realizada por meio da análise dos prontuários odontológicos dos usuários da Unidade de Saúde da Família (USF) estudada. Foram considerados usuários com perda dentária aqueles indivíduos que tinham registrado no exame clínico bucal do prontuário a ausência, em qualquer das arcadas, de pelo menos um elemento dentário.

As faixas etárias selecionadas também foram as utilizadas nos dois últimos levantamentos epidemiológicos das condições de saúde bucal do Brasil7, 8, sendo 35 a 44 anos para os adultos e 65 a 74 anos para idosos.

Prontuários de usuários que estavam fora das faixas etárias selecionadas, ou que já não moravam mais no território da USF, ou que não tinham o exame clínico completo por terem acessado a Unidade para consultas de urgência, foram excluídos.

A análise da perda dentária levou em consideração a posição e o número dos dentes perdidos. A posição da perda dentária foi classificada como perda anterior, posterior, anterior e posterior e também perda total de dentes (edêndulo). Em relação ao número de dentes perdidos, a classificação estabelecida a partir da consulta aos prontuários foi de 1 a 4; 5 a 9; 10 a 14; 15 a 28 dentes perdidos.



Foram avaliados 1063 prontuários de usuários que acessaram o serviço de saúde bucal na USF estudada. Destes, 131estavam dentro dos critérios de inclusão estabelecidos.

Para a compreensão do significado das experiências de perda dentária foram realizadas entrevistas domiciliares individuais, semiestruturadas, seguindo um roteiro previamente testado, gravadas em equipamento de áudio e posteriormente transcritas.

As entrevistas foram conduzidas ao longo de 8 meses, tendo por base uma estrutura flexível de questões abertas que permitissem aos entrevistados falar livremente sobre a experiência de perda dentária e seus significados, sendo realizadas por dois pesquisadores qualificados, estudantes de graduação em Odontologia, com experiência em pesquisa qualitativa. Todas as entrevistas foram acompanhadas pelos Agentes Comunitários de Saúde.

A amostra foi intencional. À medida que os pesquisadores observavam que havia repetições nas ideias apresentadas e, considerando a densidade do material coletado, decidiu-se pelo encerramento da coleta de dados (n=66). As entrevistas totalizaram nove horas de gravação. Cabe ressaltar que esse tempo se referia aos relatos específicos das conversas gravadas tratando do tema investigado.

O material textual obtido nas entrevistas domiciliares foi interpretado por meio da análise de conteúdo11 com o apoio do software ATLAS.ti (Visual Qualitative Data Analysis) e compreendendo as seguintes etapas: pré-análise; exploração do material, tratamento dos resultados, inferência e interpretação. Os resultados foram organizados a partir do critério ‘posição da perda dentária’.

O estudo foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Prefeitura Municipal de Porto Alegre.
RESULTADOS

Participaram das entrevistas domiciliares 66 usuários do serviço de saúde bucal da USF estudada com perda dental, sendo 31 adultos (35 a 44 anos) e 35 idosos (65 a 74 anos). Destes usuários, a maior parte eram mulheres, com perda dental posterior e anterior e posterior associadas, de 15 a 28 dentes. Em relação ao uso de prótese dentária, 12 dos 66 usuários a usavam e não necessitavam (Tabela 1).


Tabela 1

Experiências de perda dentária posterior

Adultos com perda dentária de 1 a 5 dentes posteriores, sem reabilitação protética, associaram a ausência dentária com limitações ligadas à mastigação, aparência física, fala, sorriso, emprego, convívio social e até dor. Tais problemas não apareceram de modo isolado, mas sim associados, afetando a vida das pessoas. Sentimentos de constrangimento e vergonha foram relatados pelas perdas dentárias (Tabela 2).


Tabela 2
Em outras experiências, adultos com perda de dentes posteriores, também sem reabilitação protética, relataram que tal perda não afeta suas vidas. Essa situação foi observada quando as pessoas percebiam que os dentes posteriores ausentes não afetavam a mastigação, a estética (não eram dentes aparentes) e não havia na boca dentes cariados ou dor de dente presente.
Não afeta porque as faltas dos dentes não são tão importantes, eles são mais lá pra trás. Eu estou satisfeita porque eu tenho saúde bucal, eu não tenho nada, não tenho uma cárie, eu não tenho uma sujeira. [...] se fosse na frente ou se fosse mais dos lados eu com certeza, mas como é lá atrás... (Mulher, 42 anos, perda dentária posterior superior e inferior de 2 dentes)
Idosos com perdas de 6 a 10 dentes posteriores sem reabilitação protética perceberam a ausência dentária como um incômodo que trouxe limitações para suas vidas – alimentação, relações interpessoais, sorriso, aparência – mas, no momento atual, não incomoda mais ou, ainda, houve a percepção da limitação causada pela perda dentária, mas quando pensam na idade ou no tempo em que estão nessa condição ou quando comparam com a pior condição de saúde bucal de outras pessoas que conhecem, essa ausência não se caracteriza como um problema, independentemente do número de dentes perdidos (Tabela 3).

Tabela 3


Experiências de perda dentária anterior e posterior

Adultos e idosos com perda anterior e posterior (de 7 a 26 dentes) perceberam limitações funcionais e sociais associadas a tal perda quando os dentes ausentes não foram substituídos pelo uso de próteses ou quando houve uma reabilitação protética parcial, em uma única arcada (Tabela 4).


Tabela 4

As pessoas na condição de perda dentária sem reabilitação mostraram o desejo de colocação das próteses e a associaram com uma melhora na qualidade de vida.

Por outro lado, quando houve reabilitação protética dos dentes perdidos e as próteses estavam bem adaptadas, não machucavam e nem causavam dor ou incômodos, os idosos não relataram problemas ou limitações pelas perdas dentárias.
[...] a prótese está bem adaptada, nunca machucou. Desde a primeira que eu coloquei segui me alimentando normalmente, nunca machucou, esfolou, nada. [...]uma beleza. Pra mim é como se fosse com os dentes naturais. (Mulher, 67 anos, perda dentária de 21 dentes, usuária de Prótese Total superior e Prótese Parcial Removível inferior)
Destaca-se que nos relatos em que as pessoas tinham perda dentária parcial e havia a presença de dentes naturais que estavam com doenças bucais que causavam dor e limitações funcionais, estes dentes afetam mais a vida das pessoas do que a própria perda do dente. Tal situação pode ser percebida no relato abaixo, de uma mulher idosa que já não possuía dentes superiores, não usava próteses e apresentava dois dentes inferiores anteriores com doença periodontal avançada:

[...] Fica ruim pra falar, até no falar a língua bate ali, bate e dói. Tô sempre com dor, ‘Maria das dor’. As pessoas já olham diferente. Afeta muito, dente e cabelo, vou te contar! Não tem, a pessoa fica horrível. (Mulher, 67 anos, edêntula superior e com perda dentária inferior de 12 dentes)
Experiências de perda dentária total (edentulismo)

Em idosos edêntulos sem reabilitação protética, a ausência total de dentes mostrou-se um problema importante e muitas vezes até incapacitante relacionado à dificuldade de poderem se alimentar adequadamente (incapacidade mastigatória), à estética, dor e convívio social.


Eu não posso comer coisa dura, não posso comer uma maçã, só passando no liquidificador, porque não posso mastigar, não tenho dentes [...] Os dentes fazem falta pra tudo que é jeito. Tu já imaginou ficar sem dentes? É horrível! A pior coisa do mundo é estar sem dentes, uma que eles reparam em ti, a primeira coisa ‘o que é que houve contigo? Por que não pode arrumar os dentes?’ [...] eu tenho meus compromissos, eu tenho que ir nas reuniões, eu tenho que viajar...[...] fica chato a gente sem dentes, fica que nem uma esmoleira! (Mulher, 67 anos, edêntula)
Entre os idosos edêntulos que tinham reabilitação parcial e usavam prótese em apenas uma das arcadas, problemas foram relatados sendo associados à mastigação e dor na gengiva.
[...] Eu não mastigo direito, não dá, não tenho os dentes de baixo. É ruim. Eu não posso comer nada duro, quando como carne dura, não dá, tem que tirar os pedacinhos [...] Essa chapa de cima eu aperto e machuca a gengiva de baixo, então dói. (Homem, 73 anos, edêntulo, usuário de Prótese Total superior)

Nos relatos de uso de próteses inadequadas, apesar da percepção do uso de uma prótese mal adaptada, que dificultava a alimentação, causava dor e de haver um sentimento de insatisfação com a prótese, os idosos preferem suportar essa situação do que ficar sem a prótese e, consequentemente, ‘sem dente’.


Eu estou insatisfeita com esse troço aqui [a prótese]. Mas tem que aguentar. [...] é pra comer que incomoda mais [...] Porque ela [a prótese] levanta e entra comida lá dentro e machuca tudo. A de baixo também. Está frouxa, machuca. Eu engulo quase tudo inteiro. Que dentadura danada! Tenho ela há quatro anos. Às vezes eu me levanto da mesa e tem que ir escovar os dentes, porque entra muita comida embaixo [...]. Ah, Deus o livre ficar sem dente! (Mulher, 67 anos, edêntula, usuária de Prótese Total superior e inferior)
Já nos adultos usuários de próteses que causavam limitações funcionais relacionadas à alimentação, as pessoas optaram por não usar as próteses e houve uma situação de se ‘acostumar a comer sem os dentes’, mesmo percebendo que se trata de uma condição ruim de saúde bucal.
Agora eu como sem dente. Antes eu tinha uns caquinhos e eu tirei. Não me adaptei com a prótese, não conseguia mastigar, nem comer nada. Bom não é, mas eu me acostumei já. Dá para o gasto. [...] é ruim ficar sem dente né? (Mulher, 42 anos, edêntula, possui Prótese Total superior e inferior, mas não as usa)
As perdas dentárias não se mostraram como problemas para a vida de idosos usuários de próteses bem adaptadas que possibilitaram o resgate da fala, mastigação e convívio social que havia sido perdido pela condição prévia dos dentes naturais que causavam dor.
[...] faz cinco anos que eu botei elas [as próteses], nunca precisou ajustar, encaixou bem. Consigo falar, mastigar. Consigo me comunicar. Uso todo dia, não tiro nem para dormir [...] antes eu não poderia falar com ninguém (Mulher, 71 anos, edêntula, usuária de Prótese Total superior e inferior)
Nesta categoria de análise, as experiências da perda dentária em idosos estiveram associadas a relatos que mencionavam tanto as limitações causadas por esta perda quanto o valor do uso de próteses para restabelecer a função da boca, melhorando suas vidas.
DISCUSSÃO

Avanços em relação aos cuidados de saúde bucal na APS são reconhecidos nas últimas décadas no Brasil12. A implementação, em 2004, da Política Nacional de Saúde Bucal - ‘Brasil Sorridente’ - qualificou a saúde bucal como uma das quatro áreas prioritárias do Sistema Único de Saúde (SUS), buscando alcançar a integralidade da assistência prevista desde sua criação13. Ainda assim, adultos e, principalmente, idosos apresentam um alto percentual de dentes perdidos. Condições clínicas associadas à cárie dentária e doença periodontal se constituem os principais motivos da perda dentária em adultos e idosos14.

Estudos sobre experiência e significado da perda dos dentes e sua substituição pouca atenção têm recebido dos pesquisadores sociais4. Entendendo a necessidade de uma análise que permita o aprofundamento das experiências vivenciadas pelas pessoas em relação à perda dentária, este estudo buscou compreender o significado dessas experiências em adultos e idosos usuários do SUS. O compreender, nessa perspectiva qualitativa de análise, passa pelo exercício da capacidade de colocar-se no lugar do outro, a partir de narrativas teorizadas, contextualizadas, concisas e claras15 e o significado tem um papel estruturante, refletindo no modo com que as pessoas organizarão de certo modo suas vidas, incluindo seus próprios cuidados com a saúde16.

“A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca” (p. 21)17. Neste estudo, o entendimento de como as pessoas se percebiam em seu mundo social sem esses dentes determinou o quanto a experiência da perda dentária afetou suas vidas, mais do que necessariamente o número de dentes perdidos. As experiências, assim, expressaram a subjetividade das pessoas entrevistadas, a qual se mostrou plural e impregnada de sentidos18. O subjetivo, nesta dimensão da experiência humana concreta em tempo e lugar específicos, não é um mundo interior à parte, mas está necessariamente relacionado ao mundo de que temos consciência19. Tratar da perda dentária em uma perspectiva fenomenológica é buscar significados compartilhados a partir da experiência de ser no mundo, o que envolve descrição e interpretação. Não há ser separado do mundo da experiência percebida, somos parte dele 20.

A perda dentária foi percebida como um problema para a vida de adultos com perda dentária parcial (posterior ou anterior/posterior) e de idosos edêntulos sem reabilitação protética ou com reabilitação em apenas uma das arcadas, quando trouxe limitações envolvendo a mastigação, fala, sorriso, aparência física (estética), emprego, convívio social e havia dor, além dos sentimentos de constrangimento e vergonha provocados pelas perdas dos dentes. Ou seja, afetou o ser e sua relação com o mundo em que vive, o que foi expresso pelas limitações impostas à vida dessas pessoas.

Essas mesmas limitações nas atividades cotidianas funcionais, sociais e relacionais, associadas ao sentimento de vergonha, são relatadas em estudos envolvendo a temática da perda dentária em adultos e idosos, afetando sua qualidade de vida10,21-23, reforçando a percepção de significados compartilhados sobre a experiência da perda dentária.

Apesar do reconhecimento de que a perda de dentes naturais resulte em uma incapacidade crônica, tornando mais difícil a mastigação24 e trazendo consequências para a dieta25, em ambos os grupos etários estudados e mesmo sem o uso de próteses, foi possível observar experiências singulares relacionadas à localização dos dentes perdidos. A ausência de dentes posteriores que não causava limitações na mastigação, sorriso e aparência, por exemplo, não foi percebida como uma condição que afetava a vida dos adultos com perda de dentes posteriores. Já perder dentes anteriores foi entendida como uma condição muito mais prejudicial e incapacitante ao viver do que a perda posterior, o que pode ser explicado pela representação do corpo na relação do ser com o mundo, neste tempo e lugar. Enquanto objeto de representações, valores e imaginários, o corpo tem significados sociais e culturais mediados por padrões de beleza, juventude e saúde que determinam o imaginário social de uma aparência ideal26,27. Nessa relação de valorização estética e de beleza não há espaço para um corpo cuja aparência foi visivelmente afetada pela marca da falta de dentes anteriores.

Para além de ser um dispositivo fisiológico que permite ao corpo sua nutrição, é preciso considerar os trabalhos sociais que a boca no corpo humano realiza e que, quando as pessoas conseguem manter suas atividades diárias de vida e sua corporalidade, mesmo em situação de perda de dentes, como a de dentes posteriores que não afeta o ser no mundo, a percepção negativa em relação à experiência não se estabelece. O mesmo não se observa quando há uma limitação ou mesmo incapacidade em executar tais atividades. Nesta situação, a recuperação desta capacidade pelo uso de próteses incrementa valor ao próprio corpo28, o que foi confirmado nas narrativas dos idosos entrevistados. Quando houve a reabilitação bucal pelo uso de próteses e estas possibilitaram, aos idosos edêntulos ou parcialmente edêntulos, o resgate da fala, mastigação e convívio social que haviam perdido pela condição prévia dos dentes que causavam dor, a perda dentária não foi identificada como um problema.

Experiências em que havia a reabilitação bucal do idoso pelo uso de próteses totais, mas estas estavam associadas a relatos de dificuldades para a alimentação, causando dor e desconforto, é importante considerar que, apesar do reconhecimento da sua condição de saúde bucal desfavorável, os idosos preferiram suportar essa situação do que ficar ‘sem dentes’, o que não foi observado entre o grupo de adultos edêntulos entrevistados. Entre os idosos, também foi observado um sentimento de conformismo, de aceitação da perda dentária em função da idade e do tempo em que estão nessa condição, independentemente do número de dentes perdidos.

Para a compreensão dessa ‘não reação’ corporal dos idosos, mesmo quando limitações, dor e desconfortos pela perda de dentes foram percebidos, é preciso uma reflexão aprofundada sobre a complexidade do fenômeno investigado. A análise da experiência da perda de dentes requer um pensamento complexo na medida em que seu significado não pode ser explicado pelo paradigma da simplificação29, reduzido a simples ausência física pela perda de uma estrutura isolada que faz parte de uma boca. Trata do humano, da totalidade do corpo e da integração desse corpo a uma existência do ‘Ser’ no mundo30.

Em um primeiro momento pode-se pensar no atributo psicológico da resiliência dos idosos. Na velhice, recursos psicológicos são essenciais para superação de adversidades e recuperação dos níveis normais de funcionamento e desenvolvimento em situações de estresse, elementos que têm como papel central proteger o idoso da influência das perdas. A resiliência pode ser definida como um padrão de funcionamento adaptativo frente aos riscos atuais e acumulados ao longo da vida, que engloba riscos biológicos, socioeconômicos e psicológicos31,32. Apesar da origem socioeconômicas, experiências pessoais e situações adversas de saúde, o idoso pode alterar o significado a elas atribuído, reduzindo cognitivamente o nível dos eventos estressores, diminuindo as próprias reações negativas e mantendo a autoestima mesmo vivenciando experiências desfavoráveis32-33, como observado entre os idosos deste estudo. Ficar sem ‘os dentes’ causaria um prejuízo muito maior do que conviver com o desconforto causado pela prótese inadequada.

Há, ainda, o estigma associado a um idoso ‘desdentado’, enquanto característica esperada do processo de envelhecer. É a chamada ‘cultura do edentulismo’, onde a perda de todos os dentes é considerada um aspecto normal da vida cotidiana, pelo grande número de pessoas afetadas por tal fenômeno nesta faixa etária34, o que pode apoiar o entendimento da aceitação da perda dentária como uma condição ‘normal’ com o avanço da idade. É preciso, no entanto, ir além nessa análise. O fato de se esperar que o idoso, ‘naturalmente’, não tenha dentes, expressa um corpo marcado com um valor negativo e indesejável que torna o idoso desdentado diferente e em desvantagem em relação às demais pessoas com dentes naturais35, definido por um processo social dinâmico que se reproduz com certa autonomia em relação a esses indivíduos36.

O estigma surge e a estigmatização toma forma em contextos específicos de cultura e poder37. Por poder afetar diferentes domínios da vida das pessoas, a estigmatização passa a ter uma influência importante na distribuição de oportunidades de vida em áreas como renda, moradia, envolvimento criminal, saúde e vida38. O indivíduo estigmatizado torna-se ciente da forma com que os outros o vê, passando por um processo de normatização, a fim de reduzir sua diferença das normas culturais vigentes39. Tem-se, desse modo, o estigma ligado à produção de desigualdades sociais, uma vez que a estigmatização pela falta de dentes pode levar a desvalorização de determinados grupos que passam a ser socialmente excluídos40 ou entendidos como negativamente valorizados na sociedade37 e se tornam vulneráveis a experiências discriminatórias individuais baseadas nesse estigma41. Assim, o uso de próteses, mesmo que inadequadas, pode não solucionar o edentulismo, mas torna a falta de dentes socialmente aceita34.

Outro aspecto a ser considerado na análise das experiências de idosos com perda dentária trata das lembranças de um corpo objetivamente constituído com a presença de dentes naturais que estavam doentes, causavam dor e afetavam a vida e agora, sem esses dentes, mas com a prótese. É um ‘corpo físico’ que teve que se adaptar a uma perda que trouxe uma limitação funcional importante, mas que o ‘corpo vivido’, na interseção homem e mundo, conseguiu superar. Nessa perspectiva, o corpo é entendido como um veículo de toda experiência vivencial, do ser no mundo20 e a prótese pode permitir o restabelecimento do equilíbrio deste corpo com o mundo.

Embora muito se tenha avançado desde o Brasil Sorridente com a qualificação da Atenção Primária à Saúde e a criação dos Centros de Especialidades Odontológicas (CEOs), percebe-se que a reabilitação protética para pessoas com perda dentária, prevista nos princípios do SUS e ofertada, rotineiramente, no rol de procedimentos da atenção de média complexidade, ainda é insuficiente para atender à grande demanda da população24.

Alia-se a esta reflexão, os relatos de dor (tanto em dentes naturais quanto na boca) presente nas narrativas dos entrevistados. A dor em dentes naturais por doenças bucais trouxe mais problemas às pessoas do que a própria condição causada pela extração desses dentes. A resolução da dor, seja ela de origem dentária ou causada pela ausência dos dentes ou pelo uso de uma prótese inadequada, como foi visto neste estudo, não pode estar desarticulada do cuidado em saúde. Assim, a presença de dor em usuários da Estratégia de Saúde da Família indica a necessidade da equipe de saúde repensar a forma de acesso destes adultos e idosos ao serviço, garantindo o acolhimento e a resolutividade das necessidades percebidas por este grupo. A pesquisa qualitativa, assim, possibilita a aproximação da equipe de saúde/saúde bucal com os problemas vivenciados pelas pessoas em seu cotidiano de vida, favorecendo a definição de abordagens não normativas em saúde42 e que levem em consideração as subjetividades e seus significados.

É importante a reflexão de que, as entrevistas com os usuários aconteceram, neste estudo, por visitas domiciliares realizadas no horário de funcionamento da Unidade de Saúde (8h às 17h) e também de trabalho cotidiano das pessoas, o que pode não ter possibilitado que outras experiências, envolvendo pessoas com diferentes percepções em relação à perda dentária, fossem entrevistadas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

As experiências de perda dentária entre adultos e idosos usuários da APS expressaram subjetividades e a necessidade do pensamento complexo para o entendimento de seu significado, mostrando narrativas plurais em que a boca, além de estar associada a uma importante função fisiológica do corpo físico relacionada à mastigação dos alimentos, também, configura-se como um dispositivo social de interação do ser com o mundo. Perder dentes pode se constituir, nesse contexto, como uma experiência que resulta em desconfortos e limitações nas atividades do cotidiano, afetando a vida das pessoas. Por outro lado, a reposição dos dentes perdidos pelo uso de próteses tem potencial para agregar valor ao corpo, restabelecendo seu equilíbrio com o mundo e tornando esse corpo marcado socialmente aceito.

Pesquisas de abordagem qualitativa nos serviços de saúde devem ser consideradas tanto para o planejamento de ações que priorizem as necessidades percebidas pelas pessoas em seus territórios quanto para a compreensão das experiências de perda dentária em diferentes grupos e contextos que possam produzir ou mesmo reforçar estigmas e desigualdades sociais. Em qualquer circunstância, a presença de estigmas deve ser identificada e discutida pelas equipes de saúde na Atenção Primária, pois promove fragilidades nos princípios fundamentais do SUS, podendo comprometer a universalidade, a equidade e a integralidade do cuidado. Entender as histórias ligadas ao aparecimento do estigma e suas prováveis consequências para as pessoas e comunidades afetadas pode apoiar o desenvolvimento de medidas mais resolutivas para combatê-lo e reduzir seus efeitos.
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