Debord, asim como Nietzsche, escreve através de aforismas



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Introdução ao pensamento radical de Guy-Ernest Debord ASAV-2012
Em primeiro lugar é preciso entender que estamos estudando a Sociedade do Espetáculo como mais uma modalidade de controle. Digamos que a espetacularização da realidade será tratada aqui como mais uma forma de controle. É assim que o ensaísta português José Bragança de Miranda analisa a postura de Debord. No texto "O fim do Espetáculo", de 1995, José Bragança de Miranda nos ajuda a responder à pergunta: Por que estudar Guy Debord hoje?
> Há anos faz-se com Debord o que já foi feito com McLuhan. A sua redução a uma fórmula: "a sociedade do espectáculo" – assim com a fórmula a que reduziram McLuhan é "o meio é a mensagem". Mas por trás desta fórmula há algo de novo, que ainda está bem vivo e atuante. Nesse sentido é preciso distinguir entre a fórmula do «espectáculo» e as potencialidades da obra de Debord.
> Debord revela que a questão da "mediação" e a "imagem" são dimensões contemporâneas fundamentais. E que não são abstratas, mas palpáveis e existencialmente pertinentes – o que o aproxima em importância de pensadores como Walter Benjamin e do próprio McLuhan – apesar de Debord continuar a funcionar dentro do esquema da dialética hegeliana, corrigida pela teoria da alienação do neo-marxismo de Henri Lefèvbre.
> A maior debilidade provém, contudo, do seguinte: Debord fala de uma separação que se deu entre a atividade real da sociedade e sua representação. Isto já está expresso no aforismo de No.1: “Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação". Portanto Debord separa a vida da representação. O espectáculo é visto como uma imagem invertida da «realidade social», que se separou da sociedade para se voltar contra os homens. Daí a sensação de que Debord se deixa apanhar pelo viés apocalíptico, denunciando incansavelmente tudo e todos, levando-o a recusar a negatividade, a divisão, a separação, em suma, a finitude do homem moderno.
> Mas se analisarmos a sua prática política na Internacional Situacionista, se refletirmos no tipo de cinema que praticava, verificamos que existe um outro Debord, que nos pode interessar bem mais que o Debord da fórmula da «sociedade do espectáculo». A ambiguidade é então a seguinte: ele que recorria a procedimentos de negação que foram dos mais radicais deste século – já que queria abolir a mercadoria, o Estado, o mercado e o valor de troca – ao mesmo tempo recusa-os na teoria, sacrificando-os a uma história de reconciliação final, da comunidade humana realizada.
> Tudo indica que Debord é verdadeiramente radical no momento da criação, que a própria criação revela uma política nova, capaz de aceitar gestos únicos e irrepetíveis que mais do que se legitimarem pela «humanidade do homem» são toda a humanidade em si... A famosa noção de espectáculo revela-se como aquilo que é: um efeito da máquina de controle. Neste sentido é preciso lutar contra ela. E podemos contar com Debord, que nos fala em voz off, como no seu cinema, para essa luta. Apesar de todas as ambiguidades...


DEBORD: teórico revolucionário, cineasta e escritor francês. Nasceu em Paris em 28/12/31 e suicidou-se em Champot no dia 30/11/94. Escreveu La societé du spetacle -- A sociedade do espetáculo”(1967) e, em 1973, lançou o filme com o mesmo nome. Outros filmes importantes de Debord são: “Gritos em favor de Sade” (1952) e IN GIRUM IMUS NOCTE ET CONCUMIMUR IGNI (1978). Em 1988 escreveu o “Comentário sobre a sociedade do espetáculo”.
>É uma das figuras mais radicais e singulares do século. Sua filosofia pregava a superação da filosofia; sua arte anunciava a morte da própria arte e seu deslocamento para a vida; cineasta em guerra contra a representação e revolucionário anarquista sem partido e sem poder. Debord é um excluído do mundo intelectual, cultural e artístico. Foi caluniado e ofendido tanto à esquerda quanto à direita, nas mesmas proporções nas quais suas idéias foram pilhadas pelos dois espectros políticos. Debord ajudou a fundar os seguintes movimentos:
INTERNACIONAL LETRISTA (1952 grupo de ataque à ideologia dominante dos anos 50 na política e na cultura, que lançou a importante revista POTLATCH (1954-1957).

POTLATCH saiu 29 vezes. Era enviado gratuitamente para pessoas escolhidas pela redação ou pelos que a solicitavam. Começou com uma tiragem de 50 exemplares, e no final atingiu entre 400 e 500

>>reunificação da criação cultural das vanguardas

>>crítica revolucionária da sociedade

Ambos os objetivos deram a base para o movimento chamado de Internacional Situacionista.

OBS: O potlatch é uma cerimônia praticada entre tribos índigenas da América do Norte. Também há um ritual semelhante na Melanésia. A própria palavra potlatch significa dar, caracterizando o ritual como de oferta de bens e de redistribuição da riqueza. A expectativa do homenageado é receber presentes também daqueles para os quais deu seus bens, quando for a hora do potlatch destes.


INTERNACIONAL SITUACIONISMO (1957-1972):

-Nasceu a partir da união de 70 membros de 16 nacionalidades diferentes, oriundos das mais variadas frentes de vanguardas artísticas.

-Projeto revolucionário: unia visões radicais das artes e da política.

-A palavra mais importante para os situacionistas era: INSURGIR (Sublevar, revolucionar, revoltar, rebelar, insubordinar; insurrecionar)

-Pregavam a abolição do trabalho, do salário, do capital e da mercadoria

-Promoviam um combate contra a ordem do mundo

-Objetivava colocar a arte à serviço da revolução.

-Vanguarda artística que queria superar a arte por meio do “afastamento” e da “deriva”, do jogo e da revolução da vida cotidiana. Movimentos como o Surrealismo, por exemplo, já tinham sugerido tal atitude (vide as revistas Revolução Surrealista e Surrealismo à Serviço da Revolução), mas a IS vai radicalizar este imperativo.

-influências importantes: DADAISMO/SURREALISMO. BRETON, ARTAUD, MALEVITCH; JOYCE; LAUTRÉAMONT, CASANOVA; MACHIAVEL; HEGEL; MARX; BAKUNIN; LUKACS; DURRUTI; NIETZSCHE

-Lutavam por uma vida cotidiana livre das ruinas da mediação e do espetáculo através da criação de uma série de situações, que seriam intervenções diretas na vida cotidiana. Utilizaram uma estratégia de comunicação que incluiu desenhos animados, quadrinhos, fotonovelas, cinema…



O epicentro da teoria critica de DEBORD é noção de ESPETÁCULO:

O primeiro aforisma do livro “A Sociedade do Espetáculo” afirma o seguinte:“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos”. Esta afirmação é um afastamento da primeira frase de O capital: “Toda a vida das sociedades modernas nas quais reinam as condições modernas de produção apresenta-se como uma acumulação de mercadorias”.Debord substitui a palavra “capital” por “espetáculo”. O mesmo ocorre no §4. Segundo a teoria marxista, a acumulação do dinheiro, quando ultrapassa um patamar qualitativo, transforma-se em capital; segundo Debord, o capital atinge um tal grau de acumulação, que se torna imagem (§34). O espetáculo é o equivalente não só dos bens, como é o dinheiro, mas de toda atividade possível (§49), porque tudo o que “o conjunto da sociedade pode ser e fazer” tornou-se mercadoria.



O instrumento do projeto Debordiano é o conceito de SITUAÇÃO:

Em 1952 Debord escreve: “ Ou as artes do futuro subverterão as situações ou não serão nada”. Construir situações, para Debord, é criar dimensões coletivas, formas de vida anti-espetaculares, no sentido de integrarem os indivíduos de uma forma ativa e participante, ao invés de serem espectadores de um show de 5a categoria. No fundo, para Debord, criar uma situação é utilizar todas as técnicas artísticas disponíveis para propor uma alternativa critica à vida cotidiana. O conceito de TAZ (Zona Autônoma Temporária) desenvolvido por Hakin Bey, é um desdobramento direto do conceito debordiano de situação. A TAZ É UMA RUPTURA ESPAÇO-TEMPORAL QUE PROVOCA UMA LIBERAÇÃO IMEDIATA DO CAPITALISMO GLOBALITÁRIO.



As ações de Debord apontam para uma postura à DERIVA: sem rumo, ao sabor dos ventos e das correntes.e procuram os fatores DESVIANTES (DÉTOURNEMENT): imagem, mensagem ou artefato arrancado do seu contexto para criar um novo significado. A própria linguagem aforística de Debord caracteriza a busca da DERIVA e do DESVIO. Debord, asim como Nietzsche, escreve através de aforismas (que são sentenças breves, máximas). As características fundamentais da escrita aforística são: a sua relação com o exterior (é exterior no sentido de estar conectado ao mundo e aos corpos), com as intensidades (o aforisma é um fragmento de vida intensa que procura outras intensidades), com o humor e a ironia (a leveza do humor e da ironia contra o peso das verdades definitivas) e com o nomadismo (no sentido de andar sem destino, de perder-se no caminho). O aforisma é uma fluxo, uma provocação. O aforismo é nômade, vem de outro lugar, surge de outro território, é produto da periferia, questionando o pensamento oficial .

INFLUÊNCIA DA PRÁTICA SITUACIONISTA:O Situacionismoajudou a dar o embasamento teórico dos movimentos de maio de 68, onde tiveram um papel central na ocupação da Sorbonne. A IS também influenciou todos os movimentos importantes dos anos 70: PROVO na holanda, PUNK na Inglaterra (o situacionismo pode ser considerado um dos precursores intelectuais dos punks), movimentos AUTÔNOMOS na Itália e ALTERNATIVOS na Alemanha. Mais do que uma linguagem literária ou artística, Debord criou um estilo de vida que influenciou as neovanguardas do vídeo (videoarte). E finalmente a formas contemporâneas de midiativismo (inclusive as ligadas á internet) que emergem pós-Seatlle em 1999 também tiveram inspiração situacionista. Para concluir, Debord ilumina e ajuda a compreender um mundo HYPERIZADO. O que se entende por Hype ??????????Palavra que já entrou no léxico global e que significa um “exagero, amplificação mediática, construção puramente espetacular de um problema que invade a cena social através dos circuitos da comunicação de massa. "Hype" é a unidade mínima da Sociedade do Espetáculo. É a fabricação de um consenso espetacular


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