Cirurgia da caseose dos nervos na lepra



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CIRURGIA DA CASEOSE DOS NERVOS NA LEPRA

EURICO BRANCO RIBEIRO

Diretor do Sanatório São Lucas

Quando nos dispuzemos a operar os primeiros casos de tumoração no trajeto de nervos em doentes de lepra, graças à prefe­rência com que nos distinguiu o dr. Nelson de Souza Campos — ­tinhamos sobre a afecção e sobre a conduta cirúrgica a seguir idéias bem diversas das que logo se firmaram e hoje estão consagradas nos meios especializados.

Do ponto de vista microscópico, verificaram os prof. Carmo Lordy, José Oria e Constantino Mignone, com material por nós fornecido, que era completamente erronea a designação de "abcesso de nervo", que até então servia para identificar tais casos, mesmo nos mais adiantados centros especializados em lepra. O que ha­via era a formação de caseo, em consequência de um processo rea­cional do organismo a uma infecção pouco violenta ou como re­sultado de uma luta defensiva bem sucedida, em que o organismo levou a melhor. Trabalhos posteriores, realizados no Departamen­to de Profilaxia da Lepra em São Paulo, confirmaram esses pontos de vista, tendo Nelson de Souza Campos definido o processo mór­bido em questão, sob o aspecto etiopatogênico, da seguinte ma­neira:

"Uma vez localizados no tecido conjuntivo intersticial de um tronco nervoso, os bacilos da lepra determinam um processo irritativo de nevrite, em que as fibras nervosas propriamente ditas são comprimidas, seguindo-se uma faze degenerativa lenta, sugeita a exacerbações agudas sucessi­vas, trazendo como resultado a degeneração das fibras nervosas, com todas as suas consequências. Em geral, o que daí resulta é a formação do neuro-granuloma leproso, que pode sofreis dois tipos de evolução: ou sofre um processo de esclerose, o que se observa com mais freqüência,

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ou então o granuloma evolue por uma série de fenômenos muito seme­lhantes aos que se apresentam na tuberculose — formação de células gigantes, presença de células epitelioides, de linfócitos, em seguida necrose, caseificação e abcesso frio, com ou sem formação de tumores, isto é: com ou sem exteriorização da formação caseosa".

Pode ocorrer ainda um estádio mais avançado, quando, alem da caseificação se dá a deposição de sais de cálcio (carbonatos e fosfatos de cálcio com uma proporção relativamente elevada de ferro, conforme análise feita por Lambling, de Lille). Tivemos a oportunidade de operar um desses casos, de ocurrência rarissima, conforme testemunha Nelson de Souza Campos (4 casos no literatura estrangeira e 2 verificações de autópsia entre nós). No ca­so por nós operado 75% do material examinado era composto de fosfato de cálcio, com traços de sódio e silicio (F. J. Maffei).

Assim, o aparecimento dos tumores depende da capacidade reativa do tecido atingido ou da intensidade da luta entre o agente mórbido e o organismo. Nuns casos vemos o caseo ficar disposto ao longo do endonervo, incapaz pela escassez de volume, de romper o epinervo; noutros, ele é produzido em maior quantidade e vae romper as barreiras fibrosas que envolvem o tronco nervoso em uma ou mais partes para constituir o que os autores mais antigos chamavam de "abcesso ou abcessos de nervo"; ainda em outros casos, sem dúvida mais raros, a produção de caseo é tão vultuosa, que ele emerge dos troncos nervosos, atinge a pele, rompe-a, ex­travasa em fístula de longa duração, recidivando o processo por uma e mais vezes, como sucedeu no caso assinalado por Chattergi, em que, até a época da sua publicação, as formações caseosas subcuta­neas tinham sido incisadas quatro vezes no decurso de quatro me­ses, denotando produção intensa de caseo.

Diante desses conhecimentos consagram os centros especializados a expressão "caseose" para substituir a de "abcesso de nervo" na lepra.

Por outro lado, a idéia inicial da conduta cirúrgica a seguir modificou-se, tambem, profundamente. Não só devido às verificações feitas nos primeiros casos que operamos, como ao novo con­ceito que se veio firmando de lepra tuberculoide, tivemos de orien­tar a tática cirurgica para outros rumos, não só de acordo com a localização e natureza do nervo lesado como na técnica em si da agressão ao tronco nervoso.

A idéia inicial era fazer a neurolise, libertando as fibras nervosas comprimidas pelo processo granulomatoso. Mas o que fo­mos encontrar era a destruição completa dos feixes nervosos, o desaparecimento das fibras em intensidade maior ou menor, con­forme o nivele intensidade das lesões. Verificamos, logo, que não

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era possivel libertar fibra alguma, no sentido restrito da palavra. As lesões tinham inicio na parte mais central do endonervo e se extendiam ao longo do tronco por cerca de dez centimetros, com gibosidades em vários pontos, sendo que em alguns atingiam, o epi­nervo, interrompendo completamente o influxo nervoso. Assim. não era possível isolar a fibra nervosa desde a parte proximal normal á parte distal não atingida do tronco nervoso. Demais, con­forme os trabalhos de Réquier, os feixes nervosos vão se dividindo durante o seu trajeto, enviando fibras a feixes vizinhos, em anasto­moses que se multiplicam, de sorte que, como poude afirmar Fran­cesco Purpura, em consequência de seus trabalhos e das pesquisas de seus colaboradores, "não existe nos nervos uma precisa sistema­tização anatômica das fibras, que, no seu caminho para a periferia, mudam de posição e podem ocupar mesmo a parte oposta àquela ocupada precedentemente, mas mantendo-se de preferência no mesmo segmento de nervo". Langley e Hashimoto já haviam des­crito a formação de verdadeiros plexos internos nos troncos ner­vosos, correspondendo aos ramos de distribuição periférica. Tambem Dustin havia provado que a distribuição das fibras dos nervos é extremamente variavel não só de individuo para individuo, como tambem no mesmo individuo. Estudando a estrutura dos nervos, Senawin e Epstein verificaram que se encontram entre os feixes numerosas anastomoses, variaveis de segmento para segmento e de nervo para nervo; assim, enquanto que o mediano apresenta uma estrutura muito complicada, a do radial é mais simples, cabendo ao cubital um termo médio. Cumpre recordar ainda que Guerreri ve­rificou experimentalmente que as neurofibrilas regeneradas, prove­nientes da metade do coto central do ciático (a outra metade havia sido recurvada e fixada aos tecidos moles, enquanto que a anastomose fôra feita hemiproximal-distal), vão distribuir-se em toda a espessura do tronco nervoso periférico.



Ora, diante desses conhecimentos, a neurolise seria trabalho desnecessário, si possivel. O que cumpria fazer era manter a continuidade do tronco nervoso, para que as fibras regeneradas fossem encaminhadas à porção periférica indene e ali suprissem, com o tempo, a deficiência das fibras atrofiadas, fazendo reaparecer a ação motora e a sensibilidade na zona atingida. Como a lesão se inicia e se mostra mais intensa no endonervo, a conduta razoavel é abrir o cordão nervoso ao longo de suas fibras, incisando-o até o centro e em toda a extensão atingida pelo processo; isso feito, remover os tecidos degenerados e o caseo já existente, respeitando somente as formações fibrosas da periferia. Lowe fala em curetage; nós temos usado sempre o bisturi e a tesoura. Conforme o estádio do processo granulomatoso, vamos encontrar cordões duros de aspecto

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lardaceo, de cor que varia do amarela ao cinzento claro e ao branco, na gradação da cor, notando-se, tambem, a diminuição da con­sistência, que passa do sólido e rijo, na formações amareladas, para o pastoso mais ou menos fluido quando a caseose está presente. Uma vez removida toda a substância degenerada, o tronco nervoso é reconstituido, fazendo-se uma sutura continua ao nivel do epi­nervo. Afim de evitar aderências aos tecidos superficiais, o que possivelmente acarretaria transtornos futuros para o doente, a inci­são do nervo deve ser feita pela sua face profunda, o que se torna muito facil, por manobra de rotação de 180 graus, depois de com­pletada a dissecção do tronco nervoso na parte afectada.

Quando a lesão se assesta em nervos superficiais de distribuição cutânea, torna-se desnecessária a conservação do nervo para conduzir as fibras regeneradas ao território que lhes compete suprir. Em tais casos, fazemos a simples ressecção do nervo na porção atingida. São esses os fundamentos e a orientação da cirurgia na caseose dos nervos na lepra.

Não se compreende, assim, que Chatterji recomende a tentati­va de aspiração do cáseo por meio de seringa, quando o conteudo da tumoração não é muito espesso; nem se justifica que, quando se procede à intervenção, "a drenagem possa ser necessária por alguns dias", como ele declara. Ter-se-á que discordar, ainda, desse re­putado especialista quando ele aconselha, depois das operações, a continuação do uso de injeções de oleo de hydnocarpus ao longo do nervo. Ora, segundo o conceito moderno de lepra tuberculoide, está-se em presença de um processo já extinto, em que não se tem que combater a causa etiológica, mas apenas corrigir os danos dei­xados pela passagem da moléstia. No caso da caseose dos nervos, a que cumpre é remover o tecido degenerado que está impedindo o desenvolvimento das fibrilas de regeneração; o ataque ao Micobac­terium leprae torna-se desnecessário, porque ele já foi extinto pela própria reação do organismo. E' certo que alguns autores assina­lam a presença de bacilos nas lesões de nervos espessados. Lowe, por exemplo, diz ter encontrado bacilos em cerca da metade dos casos. Mas queremos crer que nem todos os casos compulsados por Lowe tenham sido de lepra tuberculoide, mas que muitos tenham sido de nevrite no curso' de reação leprótica em casos lepromatosos, determinada pelo uso de iodeto de potássio, conforme ele mesmo refere. Essa crença ó tanto mais justificada quanto no seu primeiro trabalho, publicado em 1929, ele se referia a 19 casos, dos quais em apenas 6 havia formação tumoral. Não seriam os outros sim­ples casos de nevrite lepromatosa? N o trabalho ulterior, que sem dúvida se refere a material selecionado com o mesmo critério, ele faz alusão a que operou "mais ou menos cem casos", dizendo que

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é aconselhavel a operação mesmo que haja apenas uma tumefação fusiforme dolorosa do nervo, que pode ou não se transformar em abcesso. Pois bem, si a localização do bacilo leproso num tronco nervoso ainda está produzindo fenômenos dolorosos e si ainda ape­nas existe espessamento fusiforme, é muito provavel que a luta do organismo contra a infecção esteja em pleno desenvolvimento sem a reação tessidual caracteristica dos organismos alergizados. E' razoavel, pois, que em tais casos os cortes histológicos mostrem a presença de bacilos e estrutura lepromatosa.

Nós mesmo já tivemos a ocasião de encontrar bacilos por duas vezes. Recordemos esses casos:



CASO I — Operação n.° 2.726. — L. F., sexo fem., 10 anos, branca, brasileira, internada em Pirapitinguí.

Comemorativos — Mãe antiga portadora de forma mista de lepra. A cerca de 5 anos apareceram-lhe pequenos nódulos na coxa esquerda. Não se ligou importância ao fato, não tendo sido tentado qualquer especie de tratamento. Em meados de 1933 começou a notar um tumor­zinho na face interna do braço direito, logo acima do cotovelo, o qual velo crescendo sorrateiramente, sem despertar maiores incomodos.

Exame — Em maio de 1929, apresentava pequenos nódulos na face anterior da coxa esquerda e no lobo da orelha do mesmo lado. Em outubro de 1933, apresentava: orelhas um pouco infiltradas; em cada he­miface, existência de uma mácula eritematosa levemente infiltrada; nódulo subcutâneo na face posterior do braço direito; cubitais de ambos os lados sensíveis e espessados acima do cotovelo, havendo, à direita, ligados ao nervo, dois nódulos duros, subcutâneos, não dolorosos à pressão, pouco moveis, o maior e mais distal do tamanho de uma avelã, o menor e pro­ximal medindo os 2/3 do outro e ligados entre si por um cordão de mala ou menos 3,5 cms. de comprimento, da grossura de um lapis comum, identificavel ao nervo cubital; atrofia dos interoseos dorsaes da mão direita e anestesia termo-dolorosa em toda a zona de distribuição cutâ­nea do cubital direito.

Relatório da operação — Data, 6 de dezembro de 1933. Hospital Colônia de Pitapitinguí. Diagnóstico: dois tumores caseosos do nervo cubital direito acima do cotovelo. Indicação Operatória: extirpação dos tumores. Operador, dr. Eurico Branco Ribeiro; assistente, dr. João N. von Sonnleithner. Anestesia regional da pele com uma mistura de No­vocaina e 1% a Scurocaina a 5% e infiltração do tronco nervoso com a mesma mistura. Marcha da anestesia, regular: a doentinha reclamou um pouco de dor ao manipular-se o nervo. Incisão linear de 11 cms. ao longo do trajeto do cubital direito, a partir da goteira epitrocleo-ole­craneana. Incisão dos planos superficiais até expôr os tumores. Des­coberta do nervo, que se achava particularmente espessado na sua porção distal. O tumor mais próximo do cotovelo, da maior tamanho, tendo pouco mais de 1 cm. de diâmetro e base alargada, era de côr vinhosa e muito aderente aos tecidos circumvizinhos; libertação dificil, havendo ru­tura e saída de coágulos sanguíneos; secção do pediculo, deixando à mostra na superfície de implantação no nervo uma substância amarelada reunida em grupos, que foi retirada após pequena incisão do tronco ner­voso; recomposição deste com três pontos separados. O tumor menor de situação proximal e coloração esbranquiçada, emergia de um epinervo

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muito espessado e ainda não dispunha de envoltório resistente, rompendo-se com facilidade. Excisão dos tecidos aí esfacelados, restando como que uma cratera do epinervo em cujo centro existia uma substância ama­relada, grumosa, que se insinuava pelo endonervo. Retirada dessa substancia e sutura com 2 pontos separados. Em nenhum dos tumores havia caseo liquefeito. Sutura dos planos superficiais. Sutura da pele com agrafea e crina.

Peças cirúrgicas ― Esfregaços feitos na hora não revelaram Mico­baterium leprae. Cortes histopatológicos demonstram focos de caseose em ambos os tumores. No tecido granulomatoso circunjacente ao tumor menor, de mais recente formação, encontrou o prof. Carmo Lordy raros bacilos com os característicos do Micobacterium leprae.

Como se deprende da leitura acima, tratava-se de uma menina internada num leprosário, filha de mãe portadora de forma mista de lepra e que, ela mesma, apresentava: orelhas infiltradas; máculas eritematosas nas faces, com ligeira infiltração; nódulo subcutâneo na face posterior do braço direito, cubitais de ambos os lados sen­síveis e espessadas, com dois tumores à direita. O quadro derma­tológico já não indicava moléstia em atividade? A dor ao nivel dos cubitais não era sinal de lesão não extinta? Demais a observação consigna que não havia caseo liquefeito em nenhum dos tumores, mas que a substância que se escoara era amarelada e grumosa — ­Os bacilos foram encontrados no tecido circunjacente ao tumor de mais recente formação, por certo aquele que mostrava o caracter ain­da evolutivo da moléstia.

O outro caso é o seguinte, publicado sob o título "Achado cirúrgico em um caso de lepra nervosa considerado extinto":

M.R., 28 anos. sexo fem., casada, brasileira, residente nesta capital. Foi-nos encaminhada por um distinto e conceituado dermatologista, que afirmava: "A portadora, que trás como reliquia da infecção que sofreu um abcesso do nervo cubital, necessita de teus serviços; a sua cura já está garantida pelo tempo; com efeito, o tratamento está suspenso pratica­mente, porque ela é negativa a mais de 2 anos". Apresentava garra cu­bital esquerda, com amiotrofia dos interosseos e da região tenaz, atrofia da pele no punho e no bordo cubital da mão esquerda e grande aumento no volume do nervo cubital logo acima da goteira epitrocleana, sendo ligeiramente dolorosa a sua palpação, que revelava ligeira e difusa tu­moração pouco acima do cotovélo. Contava a doente que já tinha ce­dido em parte a insensibilidade termica e dolorosa que apresentára ao nivel do dedo mínimo, pois lá sentia o calor e alguma dor, não mais sentindo o dedo frio. Contava tambem, que já havia voltado a sudação do bordo cubital e da palma da mão esquerda.

Diante desses dados, nós mesmos pensámos que se tratasse de um caso terminal em que a caseose do nervo já se estivesse reabsorvendo, si tal é coisa possível e em que a reconstituição das libras nervosas anterior­mente destruídas já se estivesse processando. A intervenção proposta viria apenas acelerar a regeneração do nervo cubital.

Operação n.° 6.815, em 20 de setembro de 1938, no Sanatório Santa Catarina, sob anestesia loco-regional com novocaina a 1% (30 cc), tendo

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como assistente o dr. Ernesto Affonso de Carvalho. Incisão sobre o tra­jeto do cubital, desde o terço médio do braço até a goteira epitrocleana; exposição e liberação do nervo cubital, que logo acima da goteira se es­pessava em funil, até atingir a grossura de um lapis comum, para depois continuar com esse calibre até perder-se no limite superior do campo operatório; incisão do epinervo e neurolise cuidadosa; não havia caseo no interior, como haviamos observado nos casos anteriores, mas sim um te­cido esbranquiçado e duro, de constituição fibrosa, no sentido do grande eixo de nervo. Retirada do material lesado para exame histológico: re­constituição do nervo por meio de sutura a categute da bainha perineal; sutura dos planos superficiais: agrafes na pele. Duração, 28 minutos. Re­tirada dos pontos no 6.° dia; cicatrização perfeita. O material retirado foi remetido para o Instituto Pinheiros, que nos forneceu o seguinte rela­tório: "Exame n.° 63. Nervo. Diagnóstico clinico enviado: nevrite cu­bital em fase de regressão. Fixação em formol, Inclusão em parafina, coloração a hematoxilinaeosina e a Ziehl-Neelsen. Resultado: Dissocia­ção das fibras por tecido de granulação lepromatoso. Os cortes corados pelo Ziehl-Neelsen revelaram grande quantidade de germens alcool-acido­-resistentes, sob a forma granulosa. Diagnóstico: nevrite leprosa. a) Dr. Fernando Alayon".



Como bem se vê do relatório da operação, neste caso não havia formação de cáseo, mas tratava-se, como bem atesta o relatório do anatomo-patologista, de uma simples nevrite leprosa, com grande quantidade de bacilos.

Casos semelhantes a este devem ter sido os em que Lowe encontrou bacilos.

Quando ha indicação de intervenção cirurgica em caso de nevrite leprosa caseificada? Nas seguintes hipoteses:

Si o doente apresenta fistulas, a indicação cirurgica é formal, sem restrições. Si apresenta um nervo espessado, com uma ou mais gibosidades bem palpaveis, às vezes bem visiveis, com lesões tró­ficas no território a jusante — a intervenção cirurgica está bem in­dicada e deve ser feita antes que se dê a fistulização.

Nos casos de nevrite aguda hipertrofica em que a dor predomina no quadro clinico, e quando a natureza histologica ainda não se firmou, ha igualmente indicação de intervenção, não só com finalidade terapeutica, desafogando o nervo, como ainda profilatica das lesões troficas, sobretudo amiotrofias, que assim podem não se instalar e si já iniciadas melhoram visivelmente. E dai resulta a indicação cirurgica em todo caso de nevrite hipertrofica de natu­reza hanseniana, quer seja de estrutura lepromatosa quer seja tu­berculoide com ou sem formação de tumorações, com ou sem fistu­lização. No primeiro caso ela é a melhor terapeutica da dor, tão frequente nessa forma clinica, e no segundo caso ela irá eliminar um ou mais focos de necrose caseificada, com detritos amorfos inab­sorviveis, de produção lenta e progressiva, que não cede a qualquer medi- cação e que tem tendência, remotamente, à abertura expontâ 

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nea através da pele. Si a evolução normal é para o estabelecimento de uma fístula, capaz de acarretar infecção secundária do foco, rea­ção fibrosa residual e, consequentemente, maior probabilidade de compressão das fibras nervosas — é razoavel que se apresse essa evolução natural, eliminando de uma feita o material caseificado, com a obtenção de uma cicatriz por primeira intenção e com o afasta­mento dos inconvenientes de uma fístula que leva às vezes meses para exgotar o foco. Por outro lado, tanto as fístulas ja estabele­cidas como as suas sequelas — fibrose, dando compressão dos ele­mentos nervosos, que se atrofiam e degeneram — exigem, o auxilio do cirurgião para remover, tanto quanto possivel, as consequências próximas e à distância das lesões nervosas: amiotrofias, e pertur­bações da sensibilidade. Assim, a cirurgia tende a favorecer a res­tauração de um nervo lesado, visando corrigir as consequências possiveis e as já positivadas da afecção.

Quanto à técnica cirurgica, dividimos os doentes em 4 grupos: o 1.° compreende os casos em que à fistulização do tumor se seguiu a inclusão do nervo na cicatriz residual; o 2.°, compreende os casos em que ha tumor e a afecção atinge um tronco nervoso; o 3.°, compreende aqueles casos de caseose dos ramos terminais de distribuição cutânea; o 4.º, compreende os casos mais precoces na evolução, quando o cáseo ainda não rompeu a bainha nervosa não havendo formação de tumor, mas apenas hipertrofia do nervo.

1. Nos casos em ha cicatriz cutânea decorrente de fístula, seguimos orientação cirúrgica que pode ser assim esquematizada:


  1. Anestesia tronco-regional.

  2. Incisão elíptica, envolvendo a cicatriz cutânea.

  3. Excisão da pele.

  4. Exposição do nervo acima e abaixo da antiga fistula.

  5. Dissecção e excisão dos tecidos fibrosados.

  6. Libertação do tronco nervoso.

  7. Incisão longitudinal do nervo.

  8. Remoção do cáseo residual.

  1. Recomposição do nervo.

  2. Sutura dos tecidos subcutâneos.

  3. Sutura da pele

Vejamos a razão de ser dessa conduta:

1. E' obvio ressaltar as vantagens da anestesia tronco-regio­nal. Alem de menos prejudicial ao organismo que uma anestesia geral por qualquer método, ela oferece a vantagem de permitir ao operador um trabalho socegado, executando os vários tempos cirur­gicos sem afobação, o que é de particular importâncias no caso, porquanto toda cirurgia nervosa demanda muita paciencia, delica­deza e minúcias especiais. Fazemos a infiltração subcutânea em

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losango, com duas picadas de agulha, ambas ao nivel do trajeto do nervo e para alem dos limites que desejamos dar à incisão; apro­veitando-nos da picada proximalmente feita, realizamos uma infil­tração profunda junto ao nervo, porcurando, embebe-lo no anestésico.



2. A incisão eliptica é imposição de regra comesinha da ci­rurgia que se vae incisar num campo onde ha uma cicatriz é de boa técnica remover essa cicatriz, ja porque ela torna mais dificil a exposição dos planos subjacentes, já porque perturba a coaptação dos bordos na síntese da ferida, já porque ficará como ofensa indelevel à estética e como março indicativo de uma disidia do cirur­gião. A elipse não deve abranger apenas a extensão suficiente para uma boa coaptação da ferida cirurgica; deve ir alem: deve ser bas­tante ampla, de modo ao cirurgião poder expor com facilidade 2 a 3 cms. do nervo acima e abaixo da parte lesada. As nossas inci­sões variam de 9 a 14 cms. de extensão e acompanham o eixo do nervo.

3. A excisão da pele é ato que necessariamente decorre de uma incisão eliptica. No faze-la é preciso ter um certo cuidado, pois o nervo em geral está superficialmente situado, em virtude do processo de cicatrização da fístula, que o atráe e o fixa à pele, e, mais do que isso, que recalca e deprime a pele, substituindo o pani­culo adiposo subcutâneo por tecido escleroso sem elasticidade.

4. A exposição do nervo deve ser feita, em primeiro logar, acima e abaixo do ponto lesado. E' muito mais facil atingir o nervo buscando-o através de tecidos sãos: trabalha-se em campo limpo e não se encontram tropeços em isolar e nervo a esse nivel, porquanto não ha aderências do epinervo aos tecidos vizinhos.

5. A dissecção dos tecidos fibrosados é, de regra, trabalho­sa. Essa tarefa é facilitada, porem, com a exposição do nervo aci­ma e abaixo da parte lesada. Uma tesoura de ponta fina ou um bisturi protegido por tentacanula cinde a bainha da parte exposta do nervo para a zona afetada, uma ou várias pinças sustentam os tecidos a excisar e a sua disseção se vae fazendo a golpes de tesoura ou a ponta de bisturi. Aos poucos se faz a libertação dos tecidos vizinhos sãos e chega um momento em que só resta a intima conexão da fibrose com o tronco nervoso. Essa conexão intima se dá, em geral, numa extensão de 1 a 2 cms. ao longo de uma das faces do nervo. A fibrose aí se insinua pelo endonervo a dentro e perde-se entre matéria caseosa residual.

6. Uma vez excisado o tecido cicatricial procede-se à libertação do tronco nervoso. Este é espessado, atingindo quase sem­pre mais de 1 cm. de diâmetro. O epinervo Lambem é muito vul 

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tuoso e irrigado, sendo digna de nota, neste tempo, a dificuldade com que às vezes se consegue estancar os vasos sanguíneos.

7. Como a lesão atinge preferivelmente o endonervo, onde se acolhe a matéria caseosa e por onde ela se alonga a vários centímetros do foco principal; é necesário fazer-se a abertura do nervo. Incisa-se o nervo por sua face profunda, no sentido axial, até atin­gir a caseose, que se apresenta de cor amarelada e friavel em con­traste com o aspecto nacarado e rígido das fibras nervosas.

8. Cumpre agora respeitar tanto quanto possível os ele­mentos vivos e, pelo contrario, retirar toda a parte caseificada, empregando para isso uma pinça de dissecção, o bisturi ou uma te­soura.

9. Procuramos reconstituir o tronco nervoso, para que as fibras destruidas possam encontrar um caminho favoravel à sua restauração. Para isso, temos usado uma sutura muito superficial a pontos separados ou em chuleio com categute n.° 00.

10. Uma sutura de pontos superficiais, às vezes a pontos separados, às vezes em chuleio, recobre o nervo e o separa da pele. Faz-se, previamente, um repasse no campo, com o intuito de ligar algum vaso que acaso ainda esteja sangrando. Parece-nos desne­cessária a drenagem. Uma boa hemostasia prescinde o dreno; por outro lado a anatomia patológica desaconselha-o, pois não se trata de abcesso nem de qualquer outra lesão produtiva que exija deri­vação. Demais, em casos nossos, o exame microscopico, a cultura e a inoculação mostraram ausência de germes de qualquer espécie; e o decurso post-operatório costuma transcorrer satisfatóriamente, sem infecção da ferida cirurgica.

11. E' preferivel na sutura da pele, o processo intradermico. E' mais demorado e exige paciencia da parte do cirurgião, ja can­sado com um ato cirurgico delicado e de duração mais ou menos longa (30 a 40 minutos em média). Porem é mais estético que os demais e isso tem importância quando se trata de doente do sexo feminino. Para essa sutura, usamos seda n.° 1. Em alguns casos suturamos a pele com pontos separados de crina ou seda e com agrafes.

II. O nosso segundo grupo é formado pelos casos em ha um tumor de caseose em liquefacção mais nu menos adiantada. A conduta operatória neste grupo pode ser assim enumerada:


  1. Anestesia loco-regional, segundo a técnica atrás descrita servindo-nos da Novocaina a ½% ou do Sinalgan ou de Scuro­caina.

  2. Incisão linear de mais ou menos 10 cms. segundo a prejeção cutânea do trajeto do nervo.

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  1. Exposição do nervo acima e abaixo do tumor, trabalhan­do, para isso, no ângulo proximal e no ângulo distal da ferida operatória.

  2. Dissecção cuidadosa do tumor, que se acha envolto em uma camada mais ou menos delgada e irregular de tecido granulomatoso, com espessura muito variavel, cheia de anfratuosidades e presa nos tecidos vizinhos por meio de aderências de limites pouco preciosos. Não raro se rompe aqui ou acolá essa membrana en­volvente, dando vasco a uma massa esbranquiçada, que é o caseo liquefeito. A libertação do tumor é sempre trabalhosa e demanda paciencia para que seja realizada com precisão e sem que o cam­po se encha de sangue. Como a membrana que circunda o cáseo é um tecido granulomatoso, os vasos aí são numerosos e sangram em lençol, exigindo muita atividade da parte do assistente. O bisturi e a tesoura devem ser manejados com cuidado e às vezes têm que seccionar fibras musculares e vasos de maior calibre, taes as ade­rências existentes. E' sempre de boa prática iniciar a dissecção do tumor a partir das partes do nervo expostas no tempo anterior; assim mais facilmente se consegue isolá-lo dos demais tecidos, deixando-o apenas preso, às vezes por pequeno pediculo, ao nervo don­de provem.

  1. Excisão do tumor, deixando à mostra o seu ponto de emergencia do nervo. Essa implantação em geral não passa de uma elipse de 1 x ½ cm. A secção mostra bordos espessados, em vir­tude de intensa reação do epinervo, reação esta que se extende por alguns centimetros do foco; o centro da superfície de secção é ocu­pado por caseose, parte liquefeita e esbranquiçada, parte consisten­te e amarelada.

  2. Abertura do tronco nervoso por sua face profunda ao longo do seu eixo por vários centimetros de maneira a expor toda a porção caseificada.

  3. Retirada do cáseo e reconstituição do tronco nervoso com categute n.° 00 em sutura chuleada ou a pontos separados.

  4. Repasse da hemostasia do campo e sutura dos planos superficiais recobrindo o tronco nervoso.

9. Sutura da pele, conforme atrás descrevemos.

III. O terceiro grupo é formado de casos em que a afecção atinge ramos terminais de distribuição cutânea. Em tais emergências, a conduta cirurgica podia-se caracterizar pela orientação con­servadora que presidiu àquela seguida nos casos do segundo grupo. Haveria, porem, certas dificuldades de execução. Ter-se-ia que trabalhar com nervos muito finos, em grande parte de sua espes­sura destruidos ou muito alterados e perdidos entre aderências fi­brosas e tecido de granulação. Dada a distribuição cutânea dos

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nervos afectados, parece-nos mais expedita e mais radical a excisão em massa dos tecidos lesados. O áto cirurgico então é muito simples: dissecção do trecho atingido, isolando o nervo acima e abaixo das tumorações e seccionando-o de ambos os lados — coisa de poucos minutos.



IV — O quarto grupo compreende os casos surpreendidos mais precocemente e em que ainda não ha formações tumorais, mas simples espessamento do tronco nervoso, devido ao caseo que está no seu interior.

Em tais casos os tempos cirurgicos são em tudo semelhantes aos empregados nos casos dos grupos I e II, comi excepção apenas da dissecção e remoção das bolsas caseosas extratronculares e dos tecidos cicatriciais decorrentes das fistulas.

A nossa casuistica compreende 29 intervenções, que podem ser assim divididas:

Essas intervenções foram realizadas em 23 doentes. Estes assim se distribuiam quanto ao sexo, idade, estado civil, cor e nacionalidade:



Como se vê a predominância no homem é acentuada.



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E' evidente a preferência entre os adolescentes e os adultos jovens. São individuos que na infância adquiriram imunidade rela­tiva em contacto com hansenianos e que reagiram com a forma tu­berculoide da lepra nervosa. As idades limites foram 7 anos e 69 anos.

Quanto à côr, apenas havia um pardo; todos, os demais, brancos:



Das 29 intervenções, sómente uma foi feita com anestesia ge­ral pelo Balsoformio; as demais foram executadas com anestesia loco-regional, sendo empregados os seguintes anestésicos:



Quanto aos aspecto das lesões, os nossos casos assim se distribuiam:



Isto pode ainda ser assim esquematizado:



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Finalmente, quanto ao nervo afectado, temos:

A preferência pelo cubital é manifesta. Os autores lembram a interferencia que os traumatismos podem ter na localização dos processos hansenianos, apontando o cubital acima do cotovelo como um tronco nervoso mais exposto aos traumatismos. O lado não teria influência e é isso o que provam as estatísticas. Em nossos casos a afecção estava á direita em 11 doentes, á esquerda em 9 doentes, e em ambos os lados em 3 doente. Mas ha uma hipótese muito plausivel que explica a preferência pela localização do pro­cesso no cubital. Sabido que a via hematogena é das mais impor­tantes na disseminação da lepra, é obvio que a circulação das arte­riolas endonervosas ("vasa nervosum") pode sofrer dificuldades transitórias e intermitentes ao nivel da goteira epitrocleana, dai resultando estase sanguinea a montante nos intersticios das fibras nervosas, havendo extravasão e inicio central de um processo pa­renquimatoso bacilifero, com reação tuberculoide nos individuos portadores de imunidade relativa. E' mecanismo etiopatogênico que aqui deixamos à critica dos especialistas e experimentadores.



AUTORES CONSULTADOS:

Campos (Nelson de Souza): "Calcificação dos nervos na lepra", Revista Bra­sileira de Leprologia, X, 323, setembro 1942.

Campos (Nelson de Souza): "Tumefaction caséeuse des nerves au cours de la lèpre ; étude des névrite nodulaires caseeifiées de structure tuberculoide". International Journal of Leprosy, V. 1, janeiro 1936.

Campos (Nelson de Souza) e Ribeiro (Enrico Branco): "Nevrite e caseose de nervo na lepra tuberculoide", Anais Paulistas de Medicina e Cirurgia XLI, 527, junho 1941.

Chatterji (S. N.): "Neural affections in leprosy and their diagnosis, pathology and treatment", International Journal of Leprosy, V, 329, julho-setembro 1937.

Chatterji (S. N.): "Nerve abcess in a female patient", Leprosy in India, VIL, 141, julho 1935.

Garzon (Rafael) e Pitt (Luis Argtie): "Neurities leprosa de abcesos caaeosos múltiplos", Revista Argentina de Dermatosifilologia, XXVII, 247. junho 1943.

Klingmüller (V.): "Die Lepra", 566, J. Springer, Berlim, 1930.

Lowe (John): "A further note on derve abscess in leprosy", Int. Journal of Leprosy, Il, 301, 1934.

Lowe (John): "Nouvelle note sur l’abeces des nerfs dans la lèpre", Annales de Dermatologie et de Syphiligraphie, VI, 1935. Resuma em Int. Journal of Leprosy, II, 1934.

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Lowe (John): "Nerve abscess in leprosy", The Indian Medical Gazette, LXIV, 24, Janeiro 1929.



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Muir (E.) e Chatterji (S. N.): "Leprous nerve lesion of the cutis and subcutis', International Journal of Leprosy, I, 129, abril 1933.

Morestang: "De 1'inltration cases-calcifiée des nerfs dans la lèpre systématisée nerveuse pure", Bull. Soc. Française de Dermatologie et Syphiigráphie, 210, 1892.

Purpura (Francesco): "Distribuzione delle fibre nei tronchi nervosi chirurgia dei nervi periferici", II Policlinico (secção cir.), Roma, XXX, 1931, sepa­rata sem indicação do ano.

Ribeiroi (Eurico Branco): "Achado cirurgico em um caso de lepra nervosa con­siderado extinto", Revista de Leprologia de São Paulo, VI, 175, n. especial de 1938.

Ribeiro (Eurico Branco): "Aspectos cirurgicos da casse dos nervos na lepra", Soc. Editora Médica Ltda., (Caixa Postal 1574), São Paulo, 1934.

Schujman (Salomon): "Coexistencia de Aceso nervioso y lepra tuberculoide", Revista de Leprologia de São Paulo, II. 277. dezembro 1935.

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