Ciência política da base



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Encontro30.09.2019
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CIÊNCIA POLÍTICA DA BASE
Marcos Fabrício Lopes da Silva*
Contrariando o julgamento conservador que resume o funk a um estilo de música que promove a baixaria comportamental, estimulando apelos sexistas e propagando a cultura da ostentação, vale a pena reconhecer a importância desta construção cultural como porta-voz dos anseios legítimos desenvolvidos por um conjunto de pessoas inteligentes e sensíveis que protagonizam, a partir das margens do sistema, reflexões de extrema qualidade política. Desconstruindo a ordem do discurso hegemônico, MC Cidinho e MC Doca, em dueto, compuseram a canção Rap da Felicidade (1995), embalo dançante que fez muito sucesso e proporcionou um dos capítulos mais bonitos e criativos da história da ciência política brasileira, com o diferencial expressivo oriundo da autenticidade popular:

“Minha cara autoridade, já não sei o que fazer/Com tanta violência eu sinto medo de viver/Pois moro na favela e sou muito desrespeitado/A tristeza e a alegria aqui caminham lado a lado/Eu faço uma oração para uma santa protetora/Mas sou interrompido a tiros de metralhadora/Enquanto os ricos moram numa casa grande e bela/O pobre é humilhado, esculachado na favela/Já não aguento mais essa onda de violência/Só peço autoridade um pouco mais de competência/Eu só quero é ser feliz/Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é/E poder me orgulhar/E ter a consciência que o pobre tem o seu lugar/Diversão hoje em dia não podemos nem pensar/Pois até lá no baile eles vêm nos humilhar/Ficar lá na praça, que era tudo tão normal/Agora virou moda a violência no local/Pessoas inocentes, que não têm nada a ver/Estão perdendo hoje o seu direito de viver/Nunca vi cartão postal que se destaque uma favela/Só vejo paisagem muito linda e muito bela/Quem vai pro exterior da favela sente saudade/O gringo vem aqui e não conhece a realidade/Vai pra Zona Sul pra conhecer água de coco/E o pobre na favela, vive passando sufoco/Trocaram a presidência, uma nova esperança/Sofri na tempestade, agora eu quero a bonança/O povo tem a força, só precisa descobrir/Se eles lá não fazem nada, faremos tudo daqui”.

Proclamando a consciência pública, a realidade cantada por MC Cidinho e MC Doca provocou transformações políticas substantivas, considerando a emergência da reforma da gestão administrativa, com o objetivo de viabilizar a democracia brasileira como sistema governamental de fato e de direito. Uma das ações mais eficientes do governo brasileiro se deu na coibição da violência praticada no Complexo do Alemão, conforme destaca o jornalista Severino Francisco, na crônica “Uma pergunta...” (Correio Braziliense, 27/10/2014):

“Para mim, um dos grandes momentos do país, nos últimos tempos, foi quando, graças a uma parceria entre a Polícia Militar, a Polícia Civil, o Bope, o Exército e a Marinha, as forças do Estado tomaram dos bandidos o Complexo do Alemão e fincaram a bandeira branca da paz. Infelizmente, a missão ficou pela metade. Era necessário plantar também as bandeiras da educação de qualidade, da cultura, das oportunidades de trabalho, da saúde e dos direitos individuais e sociais”. Podemos assim concluir que a segurança repressiva não resolve estruturalmente o problema da violência. Faz-se necessária a presença ativa de políticas públicas que zelem pela segurança preventiva. Entende-se por prevenção estimular um ambiente de convivência social em que os direitos humanos sejam preservados em toda a sua magnitude, alcançando com cidadania de qualidade toda a população. A educação dialógica precisa ser espalhada como princípio humanista capaz de horizontalizar as relações interpessoais, colocando o poder a serviço do saber. Assim, a riqueza estará a serviço do bem-estar social, ao invés de compor mercadologicamente fortunas egoístas e especulações financeiras sórdidas. Caso contrário, o abuso repressivo somado a ausência preventiva continuarão a protagonizar, no Brasil, o fenômeno cultural denominado S.O.P.A., sigla cunhada pelo poeta mineiro Wanderson Adriano Marcelo para designar o “Sistema Opressor Político Atrasado”. Em termos dinâmicos, a política é a arte de saciar não só a nossa fome de pão, mas também a fome que temos de beleza.

É saudável e justo associar a ciência política desenvolvida exemplarmente pela cultura periférica e as transformações de qualidade pelas quais experimentam o serviço público brasileiro. As reivindicações sociais expressas no funk de MC Cidinho e MC Doca surtiram efeito na composição de uma governança mais pautada pela co-produção de políticas públicas, pela efetividade, pelo pensamento estratégico, pela ação democrática, pela liderança compartilhada, pelo foco no cidadão-colaborador, pela supremacia do interesse público, pelo foco em servir em vez de dirigir, pelo valor às pessoas e não apenas à produtividade e economicidade.

De forma progressista e avançada, o ideal de autoridade desejado no funk de MC Cidinho e MC Doca se concentra na figura do líder, contrapondo-se ao papel tradicionalista do gerente. O gerente é o homem econômico e eficiente que evita gastos, conflitos, riscos e inovações, isto é, que mata a mudança. O líder é o homem humanizado e efetivo, com atingimento de objetivos em ambientes colaborativos e com senso de propósito, autonomia, compreensão, iniciativa, missão e visão de mundo em vez de foco extremo e exclusivo em procedimentos e normas. Desse modo, o funk Rap da Felicidade contribuiu inteligente e sensivelmente para a visão de uma governança colaborativa, capaz de ultrapassar o gerencialismo neoliberal para contemplar a liderança social. Foi o protagonismo popular, destacado na referida canção, que proclamou como reforma política a governança compartilhada, na qual governar com a sociedade, ao invés de governar a sociedade, se torna o verdadeiro princípio democrático por excelência.


* Jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da UFMG. Professor da Faculdade JK, no Distrito Federal.


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