Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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"Mas, Carmen, eu não bebo!", defendeu-se Marlene.
"Não interessa. Você pede o uísque, eu vou para o toalete e você me

encontra lá com o copo."


E, antes que Marlene dissesse qualquer coisa, Carmen rumou para o

toalete.
Marlene ia pedir o uísque quando um homem se aproximou e disse:


"Marlene, eu sou o médico da Carmen. Eu sei o que ela te pediu. Carmen

está em tratamento e não

pode beber. Por favor, não lhe dê uísque."
"Mas o que eu vou fazer?"
"Não faça nada", disse doutor Aloysio. "Ela sabe que não pode beber."
Desconcertada, e sem coragem para encarar Carmen quando ela voltasse,

Marlene preferiu ir

embora.
Carmen deixou-se deprimir pela ausência continuada de bebida e isolouse

na suíte. Nas poucas

vezes em que saiu, foi reconhecida, mas sempre longe de suas melhores

condições. Isso foi

constatado no Quitandinha por dois jovens (respectivamente, os futuros

radialista e teatrólogo),

Nelson Tolipan e Aurimar Rocha, seus grandes fãs. Eles a encontraram no

saguão e puxaram

conversa com ela. Mas Carmen estava perdida, distante - não parecia ouvir

ou entender o que

diziam.
Na Quarta-Feira de Cinzas, doutor Aloysio teve de descer para o Rio, a fim

de cuidar de sua clínica, e

deixou Carmen a cargo de Dalila. Sob sua vigilância, a dieta alcoólica

continuou sendo cumprida

pelos quinze dias seguintes, inclusive nas idas de Carmen à casa de

Dircinha Batista em

Petrópolis. Mas, numa rara ocasião em que Dalila se distraiu, Carmen

escapou para um jantar em

sua homenagem oferecido por uma amiga de velhos tempos do Rio, Malvina

Dolabela, também

com casa em Petrópolis. A esse jantar estavam presentes três rapazes da

sociedade local,

Vicentinho Saboya, Miguel Couto Filho e Julinho Rego, todos com dezoito

anos. Carmen sentou-

se no chão para ouvir Vicentinho cantar serestas de Sylvio Caldas e

Orestes Barbosa e tomou

doses e mais doses de White Horse - uma atrás da outra, para estupor do

quase abstêmio Julinho.

A Carmen que, horas depois, eles transportaram no Cadillac branco de

Miguel e depositaram no

Quitandinha estava quase inconsciente.
Outro que, sem saber, contribuiu para Carmen burlar a vigilância de

Dalila foi seu ex-namorado

Mário Cunha, por coincidência também hospedado no Quitandinha. A última

vez que tinham se

visto fora em 1940, quando Carmen, em sua primeira chegada triunfal ao

Rio, vindo de carro

aberto pela avenida Beira-Mar, emparelhara casualmente com o carro dele,

também um

conversível. Saudaram-se animadamente aos gritos, mas não se falaram

mais. Anos depois, Mário

Cunha fora a Nova York e, sabendo que Carmen estava na cidade, evitara-a

de propósito. Ele

nunca se casara e, a rigor, sua vida não mudara: continuava consistindo

de mulheres, carros e

motos. Já passado dos cinqüenta, ainda era um homem bem-apanhado - pena

que não


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pudesse dizer o mesmo de Carmen. Encontraram-se algumas vezes no bar do

hotel e, em todas, ela

bebeu e ele, não.
Dalila levou Carmen de volta ao Rio. Doutor Aloysio estava convencido de que

Carmen deveria

continuar recolhida por mais tempo, longe de atividades sociais. Os

irmãos Seabra a convidaram

para seu Haras Guanabara, perto de Bananal, em São Paulo: um paraíso de

milhões de dólares

para os cavalos do lendário Stud Seabra, em que até o fardamento dos

jóqueis era mandado fazer

no Hermes, em Paris - os de Roberto, em branco, cruz de Santo André e

boné vermelhos; os de

Nelson, em preto, cruz de Santo André e boné também vermelhos. Ali,

dormindo e acordando

cedo, cercada de puros-sangues e do cheiro de estrume e de grama pisada,

Carmen só poderia

melhorar.
Pouco antes de partirem, Aurora descobriu tranqüilizantes na bolsa de

Carmen. Tirou-os e jogou-

os fora, mas isso significava que, na volta do Quitandinha, ou talvez lá

mesmo, em Petrópolis, sua

irmã conseguira comprá-los e os vinha tomando em segredo.
Carmen só deu pela falta dos remédios ao chegar a Bananal. Protestou

desesperada para outra

hóspede de Roberto, Ruth Almeida Prado:
"Eles sabem que os artistas não gostam de dormir cedo e que tomam remédio

para dormir. Por que

querem me fazer parar de tomar?"
Carmen sabia muito bem a resposta. Era só uma tentativa de manipular

Ruth, mas esta não se

deixou tapear. Ao contrário, fazia companhia a Carmen dia e noite, mesmo

quando ela ficava três

noites sem dormir - e Ruth, desabituada a isso, quase dormia em pé. Por

acaso, Carmen

descobriu que Ruth era grande amiga de Carlos Alberto da Rocha Faria e

não lhe deu mais

sossego - quando voltassem ao Rio, queria vê-lo de qualquer maneira,

mesmo sabendo que

continuava casado com a francesa.
Uma semana depois, no Rio, Ruth promoveu o encontro em seu apartamento em

Copacabana.

Assim como com Mário Cunha, Carmen e Carlos Alberto não se viam desde

1940. Previamente

instruído por Ruth, ele foi impecável. Beijou Carmen no rosto e lhe disse

como ela estava bonita

- como se nem um dia se tivesse passado desde a última vez.
mãos. É possível que Roberto nunca tivesse deixado de alimentar algumas

esperanças a mais. É

certo também que, se Carmen tivesse retribuído essas esperanças, a

história teria sido muito

diferente. Com direito, quem sabe, até a um final feliz.
No dia da volta para os Estados Unidos, l2 de abril, foi Roberto, fiel e

presente até o fim, quem

levou Carmen e dona Maria em seu carro para o Galeão. Mas elas não

chegaram a embarcar. Por

um problema no avião, o vôo foi cancelado, sem previsão de data.
"Oba! Mais um dia no Rio!", gritou Carmen, que já estava partindo com

relutância.


Voltaram para a Zona Sul e, finalmente, Carmen foi hospedar-se na casa da

Urca. O vôo foi

remarcado para o dia 4. Até lá, durante três dias, cercada por sua mãe e

irmãs e com a baía de

Guanabara a seus pés, pôde dedicar-se a ser de novo criança.
Ibrahim Sued notou que, em sua temporada carioca, Carmen podia ser vista

por toda parte

dançando de rosto colado com Roberto Seabra, e fez uma insinuação com

reticências em O

Globo. Não era o primeiro a ligar os dois romanticamente. E Ibrahim

saberia que, no último

aniversário de Carmen, Roberto a presenteara com uma pulseira de ouro que

lhe dera voltas ao

braço e ainda ficara pendurada? E que Carmen fora visitar as fábricas de

tecidos dos Seabra, a

Nova América e a Guanabara, e posara para fotos que poderiam ser usadas

em anúncios? Talvez.

Mas, de concreto, não havia nada ali - apenas a amizade de décadas que a

ligava a Roberto e a

Nelson. Carmen os via como irmãos.

Capítulo 30

1955
Última batucada

Carmen estava com amigos no bar do cassino New Frontier, em Lãs Vegas,

depois de terminar

seu último show. Acabara de ganhar flores do proprietário do cassino

quando um clarão sem

tamanho iluminou o deserto à sua volta e entrou por um janelão. Por

longos e dolorosos segundos,

a noite lá fora ficou dia. Ao longe, viu-se um buquê de fumaça. E, ao

mesmo tempo, ribombou um

trovão como que produzido pelo próprio Júpiter, sem intermediários.


Não era o dia que amanhecia com fanfarras - no caso, o dia 5 de maio de

1955, às três horas da manhã -, mas uma bomba atômica que explodia: a

Apple n, de 29

quilotons, uma das dezenas de experiências nucleares que os Estados

Unidos vinham fazendo no

Nevada Test Site, no meio do deserto, a apenas cem quilômetros de Lãs

Vegas. Os nativos, assim

como os iguanas, já nem se abalavam. Mas, para quem nunca tinha visto e

não estava esperando

por aquilo, era formidável e assustador. (E pouco ainda se sabia sobre os

efeitos da radiação.)
Entre os amigos ao lado de Carmen no momento da explosão estava o

diplomata Victorino Viana

de Carvalho - ou Marcos André, como estava se assinando como cronista em

O Globo -,

recém-chegado ao consulado de São Francisco, vindo de anos em Hong Kong.

Carmen estava

lhe contando de como acabara de voltar do Rio, onde passara 122 dias; de

como adorara Elizeth

Cardoso e Angela Maria, grandes cantoras, e admirara a elegância de Leda

Galliez, Tereza Sou/a

Campos e Carmen Terezinha Solbiati (futura Carmen Mayrink Veiga); e de

como, se soubesse que

seria aquela maravilha, não teria ficado tanto tempo sem ir lá. Tratara-

se com um médico, doutor

Aloysio Salles da Fonseca, que se dedicara a ela por quatro meses

seguidos e, ao se despedir,

quando ela lhe perguntara quanto lhe devia, ele respondera:
"Nada, Carmen. Sua amizade é meu pagamento."
Victorino ouviu aquilo vivamente impressionado. Carmen apenas se esqueceu

de contar que, para

lhe dar alta e permitir que voltasse para os Estados Unidos, doutor Aloysio

tivera uma longa conversa

com ela, em que lhe ordenara ficar longe dos soníferos e dos

estimulantes, evitar beber álcool e,

definitivamente, não retomar o trabalho antes de três meses. Autorizou-a

também a lhe telefonar

todos os dias, se precisasse.

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Mas, assim que pôs os pés em Beverly Hills, Carmen desobedeceu, uma a

uma, às ordens de doutor

Aloysio. Voltou aos poucos ao uísque e aos remédios, só telefonou para o

médico uma vez, e não

esperou os três meses para retomar a rotina de shows, viagens e noitadas.

Não esperou nem três

semanas. Em fins de abril, já estava ali em Las Vegas, para uma temporada

de quatro semanas

inaugurando o New Frontier, o novo cassino de Herman Hover, seu ex-

vizinho em North Bedford

Drive e ex-proprietário do Ciro"s.


O artista originalmente contratado para a inauguração fora o tenor da

MGM, Mário Lanza,

famoso pelo filme O grande Caruso (The great Caruso, 1951) e famoso

também por encher a cara,

engordar 25 quilos de uma sentada, não tomar banho e faltar a

compromissos com contratos

assinados. Fez isso no New Frontier - não apareceu para trabalhar - e o

cassino teve de adiar a

inauguração. E então Hover chamou Carmen, a profissional perfeita, que

jamais deixaria um

empresário na mão, mesmo que, para isso, tivesse de morrer no palco e ser

ressuscitada no

camarim.
Foi mais ou menos o que aconteceu numa das últimas semanas no New

Frontier, quando, no

primeiro show da noite, começando por volta das nove e meia, Carmen caiu

de joelhos no palco

ao dançar. Segundo Aloysio de Oliveira, ao seu lado naquele momento, não

fora um escorregão

provocado pelas plataformas, mas uma "queda em vertical", como uma

implosão. Aloysio, Harry,

Lulu e Orlando ficaram paralisados por um segundo. Ela pediu ajuda e eles

a levantaram sorrindo,

como se aquilo acontecesse todo dia e fizesse parte do show. Carmen

retomou o pique, dançou e

cantou até o final. Depois, disse a eles que sentira "fraqueza e falta de

ar". Mas, então, corrigiu-se

e alegou que apenas perdera o equilíbrio. Repousou no camarim e, à uma da

manhã, estava firme

para o segundo show - como sempre.
Nada fazia prever um incidente como aquele porque, aparentemente, Carmen

voltara bem-

disposta do Brasil. O álbum de recortes, com as reportagens sobre sua

estada no Rio, mostrava-a

esbanjando felicidade, ao lado de pessoas que não via fazia muito tempo

ou que acabara de

conhecer. E, mais do que nunca, Carmen trouxera o Brasil com ela. Dias

depois, na mesma semana

da chegada, era Sábado de Aleluia e, com os rapazes do Bando reforçados

por Zezinho, Nestor e

Gringo, promovera uma batucada em sua casa até as quatro da manhã. Um dos

presentes fora o

novo cônsul em Los Angeles, Roberto Campos. Na semana seguinte, Cauby

Peixoto, um jovem

cantor brasileiro tentando carreira nos Estados Unidos, também iria

visitá-la. E, com dona Maria,

ela fora ao Mocambo para ouvir de novo uma cantora portuguesa que

conhecera no Rio: Amalia

Rodrigues. Convidou-a a esticar em North Bedford Drive depois do show e

podem ter cantado

juntas.
Carmen só voltara para os Estados Unidos porque Sebastian não parava de

telefonar-lhe para o

Copacabana Palace. Estavam habituados a ficar separados - Carmen quase

sempre viajava a

trabalho sem ele -, mas não por tanto tempo.

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Em janeiro, ele lhe dissera que iria encontrá-la no Rio e

voltariam juntos. Mas, ou

porque Carmen o tivesse proibido ou porque a idéia talvez não passasse de

ameaça, ele não

chegou a ir. Carmen foi ficando - fevereiro e março se passaram - e os

telefonemas

continuaram: "Você precisa voltar, honey!"


Sebastian dizia que os empresários não queriam mais esperar por ela.

Vários compromissos tinham

sido perdidos ou cancelados durante sua ausência e outros esperavam uma

definição. Dois desses

convites eram para filmes da MGM, ambos em Cinemascope. O primeiro era um

musical a ser

dirigido por Busby Berkeley - e Berkeley efetivamente escrevera para

Carmen no Rio. (Ela

respondera dizendo que conversaria com ele em Hollywood; mas, ao chegar,

descobriu que

Busby estava queimado na MGM; portanto, esse convite não valia.) O outro

filme, a ser

produzido por Joe Pasternak, seria uma aparição em Viva Las Vegas (Meei

me in Las Vegas),

com Dan Dailey e Cyd Charisse, a ser rodado em fins de 1955 - que Carmen

não teria tempo de

cumprir e, em seu lugar, Pasternak usaria Liliane Montevecchi.
Havia também uma proposta da televisão a ser estudada com carinho: uma

série de programas

semanais de meia hora, estilo I love Lucy, estrelando Carmen e Dennis

O"Keefe (com quem ela

fizera em 1945 o lamentável Sonhos de estrela). Carmen seria uma cantora

"latina" que abandonou

a carreira para cuidar do marido, um marinheiro de volta da Guerra da

Coréia. Dito assim, não

parecia grande coisa, mas uma série envolvendo uma dona de casa americana

e um cubano

tocador de bongô também não cheirava à oitava maravilha - e ninguém

perdia um programa de

Lucille Ball e Desi Arnaz. Dependia dos roteiristas, do elenco e, claro,

do dinheiro para a

produção. E dinheiro para a televisão é que não faltava.
Enquanto Hollywood raspava o tacho com suas magras bilheterias e com o

dinheiro tomado a

juros em Nova York, a televisão tinha de segurar os patrocinadores -

General Motors, General

Electric, Texaco, Philco, American Tobacco - que quase arrombavam suas

portas oferecendo-

lhe milhões de dólares. Com isso, o impossível acontecera: a freqüência

ao cinema nos Estados

Unidos caíra para 46 milhões de espectadores por semana e já havia mais

gente assistindo à

televisão do que indo ao cinema. Era fácil ver para onde apontava a

carreira de Carmen.

Entrementes, em agosto, ela participaria mais uma vez de The Jimmy

Durante Show, na NBC.


E havia as propostas para shows. Além do compromisso no New Frontier,

Sebastian fechara outro

contrato na sua ausência: duas semanas na boate Tropicana, em Havana, na

segunda quinzena de

julho. A William Morris também acenava com unia longa temporada em Hong

Kong e no Japão. O

mundo era seu palco, e ela podia se apresentar onde quisesse - ditando o

cachê. Mas era tarde.

Carmen já não se sentia com ânimo para continuar viajando e entrando no

palco duas ou três

vezes por noite, noite após noite, e, em todas elas,
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cantando "Mamãe, eu quero". (Aloysio de Oliveira calculara que, até

então, em seus mais de

quinze anos nos Estados Unidos, Carmen cantara "Mamãe, eu quero" cerca de

4 mil vezes - um

número razoável se se considerar que, exceto de 1941 a 1945, quando os

filmes ocuparam o seu

tempo, Carmen mantivera uma média de trezentos shows por ano. E, em

todos, tivera de cantar

"Mamãe, eu quero".) E não era só o cansaço de viajar. A ida ao Brasil

deixara uma dúvida em seu

espírito - sobre se devia continuar trabalhando nos Estados Unidos ou

voltar para seu país, ir

morar em Petrópolis, desacelerar o ritmo, viver melhor. Ela sabia que não

era uma decisão fácil.

Envolvia, entre outras coisas, seu casamento - aquele que ela nunca

deixaria ser destruído.


O doutor Marxer a submetera a um eletrocardiograma, não se sabe se logo na

volta do Rio ou se

depois da queda no New Frontier, e achara tudo normal. Carmen tinha um

coração "próprio de

sua idade", diria ele. Mas Marxer tratava a artista, não a paciente. Ao

voltar de Lãs Vegas, em fim

de maio, Carmen escorregou numa escada em sua casa, foi ao chão e quebrou

o polegar direito.

Mais uma vez, acidentes acontecem - embora tendam a acontecer mais com

quem vive com a

consciência alterada. A queda rendeu-lhe apenas um dedo engessado -

ninguém se preocupou

em averiguar se não havia algo mais sério por trás. (E se não tivesse

sido apenas um escorregão?)


A colombiana Esteia Girolami, empregada de Carmen desde 1951, e que

passara a acompanhá-la

como camareira nos shows e nas viagens, notara que as coisas em torno da

patroa tinham se

alterado. Carmen estava sempre rindo e fazendo rir na presença dos

outros. Mas ficava triste e

muda assim que as visitas iam embora. Durante parte de maio e todo o mês

de junho, em que não

trabalhara, mal saíra de seu quarto. Passava o dia dormindo, e a noite,

acordada, lendo revistas na

cama. Quase nunca via televisão. Várias vezes Esteia a flagrou chorando

porque, em Las Vegas,

esquecera letras que nunca poderia ter esquecido - e o que seria de sua

carreira se não

conseguisse se lembrar das letras?
Esteia percebia também que, na frente de terceiros - e principalmente na

de dona Maria -,

Sebastian fazia o marido amoroso e servil. Mas, quando estavam a sós, ele

era duro com Carmen e

se irritava à toa. Segundo Esteia, a bebida o tornava grosseiro e

malcriado. Às vezes, Carmen o

enfrentava e se irritava também. Mas, quase sempre, ela não se defendia,

apenas chorava. As

brigas tinham a ver com dinheiro, contratos e a presença de brasileiros

na casa. Numa dessas,

Carmen gritou que iria se separar dele - mas, no mesmo dia, Esteia

escutou dona Maria

aconselhá-la:
"Dê-lhe outra chance, minha filha."
Talvez fosse o que Carmen quisesse escutar.
Maconha e cocaína rolavam abertamente em Havana nos anos 50: a maconha

era vendida em

tabacarias, com os cigarros enrolados manualmente

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e acondicionados em lindos maços coloridos, e era mais fácil comprar cocaína do

que rapé. Nenhuma

das duas era novidade para Carmen - a maconha era endêmica entre os

músicos de Nova York,

e a cocaína, mais comum entre os atores de Hollywood. Carmen convivera

com usuários de

ambas e, apesar de afirmações em contrário (uma delas, altamente

fantasiosa, de que transportava

sua cocaína no salto oco das plataformas), não há o menor sinal de que

tivesse interesse por

qualquer das duas. Uma prova disso é que, com sua tendência à adição,

teria se tornado uma séria

dependente delas se tivesse resolvido usálas, mesmo que para fins

recreativos. Carmen nunca

teve problemas com as drogas chamadas ilegais - as legais já lhe criavam

problemas suficientes.
Carmen (com Esteia) e o Bando da Lua foram para Havana no começo de julho

para a estréia dia

13 no Tropicana. Esse, sim, era um nightclub para humilhar todos os

nightclubs - não era uma

caixa de trevas, como as minúsculas boates de Nova York, Rio ou Paris.

Tinha dois palcos: um

interno, enorme e refrigerado; outro, ao ar livre, chamado de "paraíso

sob as estrelas", em que a

platéia se espalhava por centenas de mesas num jardim tropical, e mesmo

quem não podia pagar

assistia ao espetáculo trepado em alguma palmeira. Seu fundador, em 1939,

fora um ítalo-

brasileiro, Victor Corrêa, e um dos shows de inauguração ficara a cargo

dos três grandes cartazes

cubanos da época: a cantora Rita Montaner, o pianista Bola de Nieve e o

percussionista Chano

Pozo. Para pagar dívidas de jogo, Corrêa teve de vender o Tropicana em

começo dos anos 50. A

compradora foi a Máfia de Las Vegas, por seus representantes locais. E

ali começou de verdade a

fama mundial do Tropicana.
Não era apenas o berço do mambo e do chachachá. Uma das atrações se dava

no fim da tarde das

sextas-feiras, quando um quadrimotor Super G Constellation, da Cubana de

Aviación, lotava de

americanos um vôo Miami- Havana. O avião, decorado com os motivos e cores

do Tropicana, e

equipado com dançarinas e uma pequena orquestra, oferecia a bordo um

curso relâmpago de

dança, servia os primeiros daiquiris aos passageiros, e as aeromoças eram

uma amostra das

inenarráveis mulatas que eles iriam conhecer. Desembarcavam já com um par

de maracas na mão

e iam direto para o Tropicana. Lá, distraíam-se no cassino por algumas

horas e só então

começava o baita show - estrelado por Josephine Baker, Cab Calloway,

Xavier Cugat, Woody

Herman, Libertad Lamarque ou, como dessa vez, Carmen Miranda -,

entremeado com números

de dança pelas diosas de carne, as maiores mulatas do Caribe. De

madrugada, os americanos

eram levados para o Hotel Nacional, a fim de "dormir". E, de manhã,

reembarcados para a

Flórida, entupidos de rum, esfolados na roleta, e fisicamente no bagaço,

mas felizes. Era uma

platéia inquieta, grosseira e barulhenta - difícil para o artista

conservar a sua atenção. Era

preciso dar tudo ao microfone e apostar a alma no palco.
Durante quinze dias, Carmen iria fazer três espetáculos diários nos dois

palcos do Tropicana. A

poucos dias da estréia, teve uma suspeita de pneumonia,

541
mas foi em frente assim mesmo e estreou no dia marcado. A infecção

foi tratada por um

médico local, mas custou a ceder devido à sucessão de shows: o primeiro,


Catálogo: 2015
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2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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