Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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revezavam-se levando-a de

carro. Carmen chegava por volta das dez da noite e ficava até quatro ou

cinco da manhã com os

amigos que doutor Aloysio convidava a seu pedido: Pixinguinha, Orlando

Silva, Linda e Dircinha

Batista, Elizeth Cardoso, Sylvio Caldas. A todos, Carmen pedia que

cantassem. Estava fascinada

por Elizeth, que só então conhecera (e que, com sua gesticulação contida,

era a anti-Carmen), e

continuava fã das irmãs Batista. Mas seu favorito era Sylvio. Obrigava-o

a cantar "Chão de

estrelas" nove, dez vezes por noite, e se atirava ao seu pescoço:


"Está melhor hoje do que quando cantávamos juntos." E exclamava: "É o

maior!".
Para ela, a música popular brasileira parecia outra em relação ao seu

tempo. Pelo que ouvira, o

samba estava abolerado e faziam-se menos marchinhas. Mas, também, onde

estavam os grandes

criadores? O próprio Sylvio passava

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mais tempo pescando e cozinhando para os amigos do que cantando. Ary

Barroso dedicava-se a

promover calouros e a combater o caititu, esquecendo-se de compor.

Almirante não cantava mais,

era produtor de rádio. César Ladeira, por sua vez, deixara o rádio para

ser produtor teatral. Mário

Reis tornara-se alto funcionário da prefeitura. Gastão Formenti também

não queria mais cantar, só

pintar. Carlos Machado trocara sua falsa batuta de maestro, com a qual

fingia reger a orquestra,

pelo título de "rei da noite", produzindo grandes shows. Assis Valente

quase não compunha, era só

protético. André Filho, coitado, enlouquecera - diziam que, quando ficava

eufórico, enfiava a

cabeça no vaso e puxava a descarga. E Lamartine Babo, imagine, engordara

e também compunha

muito menos. O grande sucesso da temporada era o fox "Neurastênico":
Brrrmmm!
Mas que nervoso estou!
Brrrmmm! Sou neurastênico!
Brrrmmm! Preciso me tratar
Senão...euvouprajacarepaguá!,
de Betinho - salve ele, o filho de Josué de Barros! - e Nazareno de

Brito. (A exemplo de

Carmen, todos tinham mudado, embora, para os críticos, só a ela isso não

fosse permitido.)


No apartamento de doutor Aloysio, falar dos velhos tempos fazia com que

Carmen e seus amigos

tivessem de novo vinte anos e, em alguns casos, vinte quilos a menos. Se

pudesse, o médico

ficaria acordado a noite toda, escutandoos. Mas, a uma certa hora,

precisava recolher-se, porque

tinha trabalho cedo no Servidores do Estado. Que ninguém fosse embora, no

entanto - sua

mulher, Dalila, continuaria fazendo sala a Carmen e às visitas.
Nas noites em que não ia para o apartamento do doutor Aloysio, e também não

conseguia pegar no

sono, Carmen metia um casaco de vison por cima da camisola e caminhava

meio quarteirão pela

avenida Atlântica até o tríplex de Carlos Machado defronte à lateral do

Copa, na esquina da rua

Rodolfo Dantas. Aquela hora, Machado estava trabalhando, mas Carmen

ficara grande amiga de

Gisela, mulher dele, e passavam a madrugada conversando. Para Gisela,

habituada a só dormir de

manhã, depois que seu marido chegava, a vigília era normal - Carmem até

lhe fazia companhia.

Durante as conversas, Carmen lhe falava de Dave Sebastian e de como era

grata a ele "por ter se

casado com ela" - e que, por isso, "jamais se separaria".
Gisela achava aquilo uma loucura. Suas amigas viviam se casando,

divorciando e se casando de

novo (no Uruguai, onde existia o divórcio), e eram felizes. Devia haver

outros motivos, além da

gratidão, para uma mulher continuar casada, achava Gisela -

principalmente ela, que "era

Carmen Miranda!". Mas, quando tentava argumentar com Carmen, esta mudava

de assunto.


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Foi pelas mãos de Gisela e Carlos Machado, e na companhia de Aurora,

Gabriel e dos irmãos

Seabra, que Carmen fez sua primeira aparição pública: no Sacha"s, a boate

de Machado e do

pianista Sacha Rubin, o mais novo endereço da noite carioca, no Leme.

Enquanto lá fora, de dia

ou de noite, o Rio se derretia molemente ao verão, o Sacha"s se orgulhava

de sua temperatura de

dezessete graus em todos os ambientes, inclusive na barbearia, que, como

a boate, ficava aberta

das sete da noite às sete da manhã. A música era de primeira, com o

próprio Sacha ao piano, Cipó

ao sax-tenor, Szigetti ao contrabaixo e Dom-Um à bateria, tendo como

crooner Murilinho de

Almeida. Eram especialistas em Cole Porter, mas, às vezes, se aventuravam

num samba. Naquela

noite, ao jantar, Machado reservou para Carmen seu menu especial: caviar

Astrakan, langouste

flambée e dindoneau au marron glacé - quando, quem sabe, se tivesse sido

consultada, ela

preferisse um camarão ensopadinho com chuchu. E Carmen tomou champanhe

Dom Pérignon,

rompendo uma abstinência de semanas, se é que isso já não teria

acontecido antes, nas longas

madrugadas com Gisela.
Dias depois, eles a levaram à boate Casablanca, outro domínio de Machado,

na Praia Vermelha.

Ali ele apresentava seu show Este Rio moleque, com Grande Othelo, Nancy

Wanderley e grande

elenco. Em meio ao espetáculo, Carmen foi anunciada no recinto. O elenco

todo, acompanhado

pela platéia, começou a cantar "Taí". Carmen teve de subir ao palco

(amparada por Machado) e

chorou de ensopar um lenço que Othelo lhe passou.
A todo espetáculo que comparecia, elenco e platéia se levantavam para

aplaudi-la e obrigá-la a

subir ao palco. Aconteceu de novo no próprio Copa, ao assistir a Fantasia

e fantasias no Golden

Room. Marlene já não era a estrela do espetáculo, substituída por Doris

Monteiro. Mas Carmen

subiu ao palco sob tremenda ovação e disse para Doris - não se sabe por

quê, em inglês:


"Yow are wonderfull" (Você é maravilhosa!)
No Teatro Serrador, na Cinelândia, foi assistir à peça Adorei milhões,

uma comédia de César

Ladeira e Haroldo Barbosa, estrelada por Renata Fronzi. Ao fim do

espetáculo, César e Renata

lhe ofereceram um jantar em seu apartamento na avenida Nossa Senhora de

Copacabana. Para uma

platéia de amigos, todos sentados, Carmen era a única de pé, no meio da

sala, contando piadas,

fazendo imitações, divertindo os convidados e se divertindo ainda mais.

Estava de novo em seu

ambiente - em seu país, sua cidade, sua língua - e se esbaldando. A certa

altura, cansou-se de

representar. Tirou as plataformas, atirou-se a um sofá com as pernas

sobre o colo de um rapaz, e

pediu que ele lhe massageasse os pés. O jovem, maravilhado pela

deferência, lhe foi apresentado

como Carlos Manga, um diretor de filmes musicais na Atlântida.
"Quem sabe você ainda não vai dirigir um filme sobre a minha vida?",

arriscou Carmen.


A quem lhe perguntava como estava sendo sua temporada no Rio, ela

respondia:

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"Menino, tem sido aquela água!" E estava sendo mesmo, em mais de um

sentido.
A convite de Bibi Ferreira, Carmen foi ao Teatro Dulcina, na Cinelândia,

para ver a direção de

Bibi de A raposa e as uvas, de Guilherme Figueiredo, com Sérgio Cardoso.

No intervalo, Bibi foi

à frisa de Carmen para lhe mostrar sua filha Thereza Cristina, de apenas

cinco meses. Ao saber

que Carmen estava disponível, as companhias teatrais passaram a convidá-

la a seus espetáculos

e, caso ela aceitasse, a proclamar sua presença no dia xis, hora tal.


Os anúncios nos jornais diziam: "Carmen Miranda estará sexta-feira, às 22

horas, no Teatro

Recreio para assistir [à revista] Eu quero é me badalar". Ou: "Carmen

Miranda assistirá amanhã,

dia 10, à grandiosa revista carnavalesca Momo no frevo, na elegante boite

[boate] Night and

Day, onde será homenageada por todo o elenco". Era o que bastava para

lotar uma sessão. Nos

Estados Unidos, esse tipo de apoio podia custar uma fortuna, mas, nos

dois casos, Carmen estava

sendo apenas gentil com amigos: o Recreio era arrendado pelo produtor

Walter Pinto, cujo pai,

Manuel Pinto, se dera com Carmen no passado, e o Night and Day também

apresentava shows de

Carlos Machado. Aproveitando-se disso, houve quem anunciasse sua presença

em espetáculos de

que ela nunca ouvira falar e a que não tinha a menor intenção de

comparecer.


A grande noite de Carmen, no entanto, seria no Vogue, a principal boate

da cidade, em fins de

janeiro. Era uma visita esperada por lê tout Rio - o Rio "que contava".

Embora ela já tivesse ido

a vários lugares e até mesmo ao Sacha"s, seu maior concorrente, era como

se a estada de Carmen

no Rio só começasse para valer depois de sua passagem pelo Vogue - como

se fosse uma

crisma, um début. O proprietário do Vogue, o barão austríaco Max von

Stuckart, armou todo um

esquema para recebê-la. Pouco antes da uma da manhã, Carmen, usando um

tomara-que-caia

branco, foi apanhada no Copa por Aurora e Gabriel, Roberto Seabra e a

socialite Sarita Coelho.

Entrou no carro e rumaram para o Leme. Era a realeza chegando - o

trânsito de Copacabana

parecendo se abrir sozinho para a passagem da comitiva. Sob o toldo do

Vogue, na avenida

Princesa Isabel, Carmen foi recebida por Ary Barroso, o casal Glorinha e

Waldemar Schiller, o

barão Von Stuckart e uma chusma de repórteres, fotógrafos e

cinegrafistas.


Dentro da boate, sentiu-se que havia uma agitação lá fora. O porteiro

Adolfo abriu a porta e

Carmen entrou, de braço com Ary. Todo o Vogue se levantou para aplaudi-

la. A orquestra atacou

"Taí". Carmen acenou, jogou beijos e começou o percurso em direção à sua

mesa. A distância não

era grande, mas o Vogue estava lotado, com gente até no chão. A cada

metro, era quase sufocada

de amor: as pessoas queriam tocá-la, beijar-lhe as mãos ou, simplesmente,

que ela retribuísse um

olhar ou sorriso com outro sorriso ou olhar. No caminho, Ary apresentou-

lhe o compositor e

cronista das madrugadas António Maria. Os dois nunca se tinham visto, mas

Carmen sabia quem

ele era e que a venerava.
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Jogaram-se um para o outro e o abraço dos dois - Maria,

gargantuesco; ela, mínima -

resultou numa foto famosa.
Carmen finalmente chegou à mesa, onde a esperavam garrafinhas de guaraná

Caçula e um litro de

Ballantine"s. Os amigos se revezavam nas cadeiras ao lado da sua. No

palco, Sylvio Caldas e

Angela Maria, titulares da casa naquela temporada (substituindo atrações

internacionais como

Maurice Chevalier e Patachou), cantaram para Carmen. Aurora foi chamada e

mandou "Cidade

maravilhosa", acompanhada por toda a boate. Sylvio subiu de novo, começou

a cantar "Taí" e

chamou Carmen, no que foi secundado por mais de duzentas bocas. Carmen,

titubeante, foi levada

por Ary ao microfone. Ficou em silêncio por alguns instantes, como que

tentando se lembrar - a

orquestra, em silêncio, estática, parada no compasso em que Sylvio a

deixara -, e finalmente

retomou a música. A orquestra a seguiu e Carmen cantou a letra inteira,

com dengo e vigor, como

nos grandes tempos. Na primeira vez em que hipnotizara uma plateia com

"Taí", tinha acabado de

fazer vinte aninhos. Por aqueles dias, iria completar 46.
Nas horas seguintes, enquanto a noite se tornava uma grande balzaca, como

então se dizia, os

homens mais elegantes e poderosos do Brasil vieram tirá-la para dançar.

Ali, ela era Carmen

Miranda - não a filha do barbeiro e da lavadeira -, e cada enlace era uma

redenção. Horas

depois, quando abriram a porta, já era de manhã e um raio de sol entrou

pelo Vogue, reduzindo a

pó os últimos vampiros. Mas Carmen já tinha partido en beauté, levada por

Roberto Seabra. No

dia seguinte, António Maria diria em sua coluna, na Ultima Hora, que

aquela fora a maior noite do

Rio em vinte anos de boémia.
Exceto por seu aniversário, que passara na casa da Urca cercada pelos

familiares, Carmen já se

entregara francamente à vida da cidade. Foi a convidada de honra de todos

os grandes bailes

pré-carnavalescos: o do Rei Momo, no Teatro João Caetano; o da coroação

da Rainha do Rádio,

que foi a cantora Vera Lúcia, no próprio Hotel Vogue; e o dos Artistas,

no Hotel Glória, em que

Assis Valente lhe ofereceu uma dúzia de rosas. Estava alerta, elétrica e

articulada. Compareceu

até ao Carnaval da Associação dos Funcionários da Caixa Económica. Os

convites partiam de

todos os lados e ela não chegava para as encomendas.
Um convite que aceitou correndo foi para visitar Dalva de Oliveira em sua

casa em Jacarepaguá.

As duas tinham sido vizinhas na Urca. Carmen era oito anos mais velha do

que Dalva, mas tinha-

lhe grande respeito, não apenas como cantora, mas por Dalva ter sido

sempre casada. Isto é - até

separar-se de Herivelto Martins e sofrer a campanha mais infame que uma

mulher já suportou. Não

se sabe o que conversaram, mas, se Carmen foi visitar Dalva, e não

Herivelto, de quem também

era amiga, pode-se imaginar para quem torcia.

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E o exemplo de Dalva talvez lhe fosse inspirador. Não apenas ela não se

deixara destruir, mas

estava mais por cima do que nunca, com dois sucessos que lhe tinham sido

dados por Vicente

Paiva, ex-compositor de Carmen: os sambascanções "Olhos verdes" e "Ave

Maria".
Na sua tentativa de espantar os maus fluidos, Carmen não desprezou nenhum

tipo de ajuda. Por

intermédio de uma amiga da família, por acaso sua xará, foi visitada

diversas vezes no Copa por

uma médium kardecista, dona Chiquita Fraenkel, do centro espírita Casa do

Coração, na rua

Nascimento Silva, em Ipanema. Apesar de tão católica, Carmen viu ali algo

que a interessou

porque, seguindo outra indicação, teria ido também a uma sessão do Grupo

Amor e Caridade, na

rua do Bispo, no Rio Comprido, onde recebeu passes, preces e veementes

conselhos para

trabalhar menos. Ao voltar para Los Angeles, escreveu a dona Filó,

responsável pelo centro,

agradecendo por tudo e prometendo voltar ao Rio assim que seus

compromissos "permitissem"

(ou seja, já desacatando os conselhos dos espíritos e trabalhando mais do

que devia).


Na noite de 12 de fevereiro, um sábado, Carmen foi com Gabriel e Cecília

(Aurora não pôde ir) a

um coquetel na casa de Eurico Serzedelo Machado, amigo de Gabriel, no

Jardim Botânico. O

outro casal presente era Hilma e Fernando Sá. Em meio à reunião, um deles

se lembrou de que,

dali a pouco, no Maracanã, jogavam Flamengo e Vasco, numa partida que

poderia decidir o

campeonato carioca (de 1954, que, como era comum na época, atravessara o

ano) - uma vitória

do Vasco impediria a conquista do título pelo Flamengo com uma rodada de

antecedência. De

improviso, rumaram para o estádio, no carro de Fernando Sá, e foram

direto para a Tribuna de

Honra. Quando chegaram, o jogo já ia pelos vinte minutos do primeiro

tempo e o Vasco vencia

por 1 a 0, gol de Ademir. Na tribuna, Gabriel, Cecília, Eurico, Hilma e

Fernando, todos vascaínos,

pularam de contentamento.
Carmen, maravilhada com o Maracanã - que não conhecia -, concordou: "É, o

futebol mexe

mesmo com a gente."
Mas, aos 39 minutos, índio empatou para o Flamengo e foi a vez de Carmen

dar um pulo na

cadeira. Gabriel, aborrecido, a repreendeu:
"Carmen, isso é uma descortesia. Nossos anfitriões são Vasco, todos aqui

somos Vasco. Você não

tem esse direito."
"Ah, meu filho", respondeu Carmen, "Flamengo, futebol, samba, Carnaval, é

tudo a mesma coisa."


Aos 22 minutos do segundo tempo, Paulinho fez 2 a 1 para o Flamengo. Ao

sentir a direção do

vento - a Charanga rubro-negra, comandada por Jaime de Carvalho,

inflamava as

arquibancadas com seus sambas e marchinhas, e Carmen só faltava juntar-se

a ela -, Gabriel

comandou a retirada. Carmen acompanhou-os a contragosto, mas, de volta à

Zona Sul, ouviu pelo

rádio do carro o fim do jogo com a vitória do Flamengo por aquele placar,

representando a

conquista do bicampeonato carioca.
531
A entrega das faixas seria no domingo seguinte, 20 de fevereiro, em pleno

Carnaval, num jogo

contra o vice-campeão, o Bangu, no Maracanã. Como madrinhas, no centro do

gramado, o

Flamengo teria duas estrelas de Hollywood vindas do Festival de Cinema de

Punta del Este e

recém-chegadas ao Rio: Ginger Rogers e Elaine Stewart. Vestidas de

baianas estilizadas, elas

enfaixaram o caboclo índio, o paraguaio Benitez, o negro Rubens, os

brancos Evaristo e Zagallo

e outros heróis daquela conquista. A rubro-negra Carmen Miranda, também

de Hollywood e

pioneira das baianas, igualmente poderia estar ali. Mas não estava nem no

Rio.
Estava em Petrópolis, no Hotel Quitandinha - não hospedada, mas

internada. Doutor Aloysio se

assustara com o furor de suas atividades na noite carioca e achara melhor

tirá-la de cena no

Carnaval.


Na noite em que foi ver Momo no frevo, Carmen jantou no Night and Day com

Bibi Ferreira, o

produtor teatral Walter Pinto e a milionária Beki Klabin. Ao contrário da

outra noite no Dulcina,

em que Carmen estava sóbria e linda, Bibi se decepcionou ao vê-la de

pilequinho, brandindo um

anel de brilhantes que lhe teria sido dado por Dave Sebastian e

repetindo, exultante:


"Foi ele que me deu! Ele! Ele que me deu!" - como se fosse incomum um

marido presentear a

mulher com um anel com o seu próprio dinheiro (supunha-se), não com o

dela.
Diante dos amigos, Carmen não conseguia chegar a um acordo sobre

Sebastian. Ora se

vangloriava em voz alta de ser sua mulher, ora se abraçava a alguém e

chorava as mágoas por ser

casada com ele. Depois de tantos relatos desencontrados, o colunista

social Ibrahim Sued, em O

Globo, perguntoulhe no Vogue se estava divorciada.


Carmen deu um pulo:
"Não!" E prosseguiu: "Meu marido é um amor. Alto, louro, 43 anos, uma

pintura!".


Sebastian podia ser um amor, mas não era alto, nem louro, nem tinha 43

anos. Era baixo, grisalho e

tinha 46. O mesmo esforço que às vezes fazia para retratá-lo como um

homem atraente (quem sabe

um misto de Kirk Douglas com Burt Lancaster), Carmen tinha de fazer para

impedir que seus

amigos brasileiros vissem nele um kept man, teúdo e mantéudo por ela -

daí a história do anel de

brilhantes.
Dias depois, durante uma feijoada que lhe foi oferecida por dona Neném,

mãe de Linda e

Dircinha, em sua casa na rua Barata Ribeiro, Carmen, sentada no chão,

enrodilhou-se à perna do

cantor e radialista Paulo Tapajós e, entre incontáveis caipirinhas,

passou a tarde e a noite

acusando Sebastian de "massacrá-la".
Por algum motivo, sempre que seu marido estava em pauta, Carmen

532
parecia um pouco ou muito embriagada. E então, sempre por causa dele,

decidia estender sua

aversão a outros americanos. Quando Caribe da Rocha lhe disse que levaria

os artistas vindos de

Punta del Este - Ginger Rogers, Elaine Stewart, Van Heflin, Walter

Pidgeon, a superitaliana

Silvana Pampanini e outros, todos hospedados no Copa - para assistir a

Fantasia e fantasias,

Carmen, com a voz arrastada, comentou:


"Isso mesmo, Caribe. É para mostrar a esses gringos filhos-da-puta que

aqui também se fazem

shows muito bons!"
Doutor Aloysio soube de vários deslizes de Carmen e ficou preocupado com o

resultado do

tratamento. Precisava tirá-la do Rio por uns tempos e, de preferência,

durante o Carnaval, época

propícia a tentações. Por coincidência, e por intermédio de Oscar

Ornstein, Joaquim Rolla

ofereceu-lhes dois apartamentos no Quitandinha, seu fabuloso hotel em

Petrópolis: um para

Carmen (a suíte presidencial), outro para ele e sua mulher, Dalila. Não

houve nem discussão: doutor

Aloysio aceitou imediatamente. Providenciou as enfermeiras, pegaram

Carmen, que não teve

direito a opinar, e subiram a serra.
Nos anos 40, Joaquim Rolla cansara-se de ser dono apenas do Cassino da

Urca, do Cassino Icaraí

e de outros em cidades menores. Queria construir um complexo turístico de

causar inveja a Monte

Carlo e deixar no chinelo as shangaíces de Las Vegas. De 1942 a 1944, ele

fez subir o hotel-

cassino Quitandinha, com quinhentos apartamentos de luxo e um cassino

maior que a Basílica de

São Pedro. A obra envolveu 52 arquitetos diferentes e uma decoradora com

poderes ditatoriais: a

americana Dorothy Draper, que se apaixonou pelo barroco tropical

brasileiro e pelas ondas das

calçadas de Copacabana, e vestiu todos os aposentos de acordo. O

Quitandinha, inaugurado em

1944, custara a Rolla 10 milhões de dólares (dólares de 1944!), mas

ficara como ele sonhara. Pois

esse sonho apenas começava a se pagar com os lucros do cassino quando, em

1946, o governo

Dutra proibiu o jogo no Brasil. Isso despojou Rolla de todos os seus

cassinos e o deixou com um

hotel impossível de se sustentar.
Outro empresário talvez tivesse se matado. Mas Rolla foi em frente com o

que lhe sobrara - suas

enormes fazendas de gado - e manteve o Quitandinha como hotel. Tanto que

podia convidar

Carmen a passar uns dias na sua (sempre vazia) suíte presidencial.
Os garçons do Quitandinha estavam proibidos de servir bebidas alcoólicas

a Carmen. Mas, por

ter retomado o consumo nas últimas semanas, a cabeça de Carmen já não era

suficiente para

suportar a interdição - seu organismo é que exigia permanente reposição.

Carmen viu uma saída

ao encontrar Marlene, a cantora, no Salão Azul do Quitandinha. Marlene

tinha casa em Petrópolis

e gostava de passear pelo hotel.
Carmen a reconheceu e foi abraçá-la.
"Marlene, estou louca por um uísque", disse. "Mas o meu médico está aqui

e fica me controlando.

Me faz um favor? Vá ao bar e peça um uísque pra você."


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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