Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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vôo começou, e tentou mantê-la assim pelas muitas horas seguintes. Mas

Aurora não fazia idéia de

quantas cápsulas sua irmã precisava em 24 horas, e temia continuar

fornecendo-as. De horas em

horas, Carmen acordava tremendo e chorando, com frios e calores intensos,

quase sucessivos.

Para comer, tinha de ser alimentada na boca, às colherinhas e quase à

força. Ir ao toalete era um

sacrifício - a aeromoça ajudava, mas Aurora tinha de acompanhá-la, porque

Carmen estava com

um equilíbrio instável, incapaz de passos firmes. E já começara a chamar

a atenção dos

passageiros vizinhos, que ficavam de orelhas em pé, espiando e fazendo

comentários. Só dormia

de novo quando Aurora a agraciava com outro Seconal. Por sorte, em boa

parte do tempo,

Carmen não tinha noção de que estava a bordo de um avião ou indo para o

Brasil. No fim da

tarde do dia seguinte, uma aeromoça informou que o avião se aproximava do

aeroporto de

Congonhas, em São Paulo, e haveria uma espera em solo, fora do aparelho.

Só então, seguindo as

instruções que doutor Marxer lhe passara, Aurora ressuscitou Carmen com um

Dexedrine.


Pela primeira vez, Carmen foi sozinha ao toalete. Refrescou-se, aplicou a

maquiagem e se

aprontou. Vestiu um tailleur cereja, prendeu o cabelo num rabo-de-cavalo

com um laço de fita

vermelha, aplicou pulseiras e anéis e calçou sapatos pretos de salto

alto. O avião pousou e, aos

acenos de um grupo de fãs, mantidos bem longe, Carmen, Aurora e dona

Maria foram levadas

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a um aposento especial do aeroporto, onde amigos a esperavam: Aracy de Almeida e

Almirante, ambos na

época trabalhando no rádio paulista, o empresário Paulo Machado de

Carvalho e, entre os

repórteres, Dulce Damasceno de Brito. O milagre se dera: Carmen estava

inteira, como se tivesse

feito toda a viagem assim.
Para eles, sôfrega e incontida, Carmen combinava frases verdadeiras com

outras de sua invenção:


"Não paro de trabalhar há quatorze anos. Minha vida tem sido uma correria

dos diabos. Desde

que voltei aos Estados Unidos, depois de uma viagem à Europa, não pude

parar, trabalhei

demais. Fiquei doente por isso. Precisava de umas férias. Lembrei-me

então de voltar ao Brasil."


Entremeava as respostas com surtos de choro, partilhado pelos amigos que

se comoviam.

Recompunha-se, jogava beijos para uma câmera de televisão e não conseguia

esconder a

emoção:
"Estou feliz como nunca. Muito obrigada a todos por ainda se lembrarem de

mim. Eu juro, jamais

esquecerei este país, a minha terra. Sempre fui e continuo a mesma Carmen

Miranda. Olhem os

meus olhinhos verdes. São os mesmos, são os mesmos..."
Ao falar para os microfones brasileiros, Carmen sepultava a maldosa

crença, cuja origem alguns

atribuíam a David Nasser, de que já não sabia falar português. Meia hora

depois, os passageiros

em trânsito para o Rio foram chamados a embarcar. É possível que,

preparando-se para a - já

agora previsível - apoteose de sua chegada ao Rio, Carmen tenha pedido um

reforço de

Dexedrine a Aurora. E que esta, vendo o bom resultado que o remédio

provocara em Carmen na

chegada a São Paulo, concordasse em aceder a seu pedido...
Uma hora depois, o avião da Braniff pousou no Galeão. A porta foi aberta.

Ouviu-se um bruaá lá

fora. No topo da escada surgiu Carmen Miranda - estrelíssima, fazendo da

multidão um coro e,

da pista, o maior palco que ela já pisara na vida.
Os telefonemas de Herbert Moses para todas as redações, pedindo que

"poupassem" Carmen por

questões de saúde, atiçaram pulgas atrás de orelhas. Circularam rumores

de que Carmen teria uma

doença grave e estaria voltando ao Rio para morrer. À informação de que

seu médico brasileiro

era o doutor Aloysio Salles, conhecido hematologista, sua hipotética doença

passou a ter nome:

leucemia. (Mas doutor Aloysio era também médico do novo presidente, Café

Filho, que completava o

mandato de Getúlio, e nem por isso Café tinha leucemia.) Para aumentar as

suspeitas, falou-se que

Herbert Moses mandaria encostar seu carro junto ao avião na pista -

obviamente, para dificultar

o acesso a Carmen.
Assim que a escada foi afixada ao avião e a porta se abriu, alguns nem

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esperaram que Carmen aparecesse - subiram para ir buscá-la lá dentro. O

primeiro foi Gabriel, que

entrou no avião e sentiu a emoção geral. Moses foi atrás, mas nem

conseguiu chegar ao alto da

escada. Apesar de suas recomendações (ou por isso mesmo), os repórteres e

fotógrafos, com

acesso à pista, atiraram-se contra o bloqueio armado pela Polícia da

Infantaria da Aeronáutica,

comandada pelo capitão Penalva, e cercaram a escada. Um dos fotógrafos,

Gervásio Batista, da

Manchete, fez os concorrentes lhe abrirem passagem com uma simples frase

em
voz alta:
"Quem deixou esse balde de tinta branca aqui?"
Os outros fotógrafos se afastaram, temendo sujar seus ternos, e Gervásio

subiu correndo. Quando

Carmen apareceu na porta, ele estava diante dela, com a Rolleiflex pronta

para disparar.


A própria Carmen, sem querer, encarregou-se de desfazer a maioria das

suspeitas sobre sua saúde.

Já chegou à porta do avião acenando eufórica (sem dúvida, tomara um

Dexedrine na saída de São

Paulo). Em meio ao tumulto geral ao redor da escada, parecia eufórica.

"Carmen sorria para os

amigos, com seus famosos olhos verdes refletindo o clarão dos flashes, e

lágrimas sinceras de

emoção escorriam, aos pares, pelo seu rosto sem rugas", escreveria depois

O Globo.

Considerando-se o estado em que embarcara na véspera, em Los Angeles,

aquela era a maior

interpretação de sua carreira. Mas não conseguiu convencer a todos. O

repórter Arlindo Silva, de

O Cruzeiro, vendo-a de muito perto, escreveu: "Carmen apresentava reações

emocionais

desordenadas, rindo e chorando quase a um só tempo".
Moses recebeu-a no meio da escada (Gabriel amparava-a pelos cotovelos),

desceu com ela e

levou-a para o saguão. Lá a esperavam seus irmãos, um monte de penetras

e, entre os artistas,

vários de seu tempo (o humorista Barbosa Júnior, o compositor Romeu

Silva, a ex-cantora

Elisinha Coelho) e outros que ela só conhecia de nome (o cantor Jorge

Veiga, o compositor

Fernando Lobo, o radialista Manuel Barcelos). Carmen depois confessaria a

Gabriel que não se

lembrava mais quem abraçara ou com quem falara no aeroporto. Esquecera-se,

portanto, de sua

surpreendente explicação para Elisinha, quando esta constatou um certo

inchaço e abatimento em

seu rosto: "Foi o meu marido, que andou me batendo."
Carmen entrou finalmente no carro da ABI e partiram todos em caravana

para o Copacabana

Palace, atravessando avenidas, túneis e viadutos que ela não reconhecia.

No hotel, mais

perguntas, mais sorrisos e mais fotos, agora com os irmãos. Nas últimas

horas, tinha sido mais

Carmen Miranda do que nunca, mas o esforço que fizera para se manter

íntegra e feliz, entre o

avião e o hotel, parecia demais para suas verdadeiras condições. Estava à

beira de um colapso

por exaustão. Quando conseguiu subir para o sétimo andar e se viu em sua

suíte, teve uma crise de

choro. Doutor Aloysio acalmou-a, fez-lhe um primeiro exame, chamou a

enfermeira e pendurou um

aviso à porta:
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PROIBIDO VISITAS - SEM EXCEÇÕES
Nos dias seguintes, doutor Aloysio aplicou-lhe uma seqüência de exames com

equipamento levado

do hospital. Carmen estava altamente intoxicada pelos depressivos e

estimulantes, intoxicação

agravada pelo abuso do álcool - esse foi o seu diagnóstico. O tratamento

consistia em decrescer

a medicação alternadamente, para evitar síndromes de abstinência muito

violentas, e tentar

controlar o hábito alcoólico. Carmen foi informada tanto do diagnóstico

quanto do tratamento,

assim como da necessidade de colaborar com o médico. Sem a sua

cooperação, nada seria

possível. E o isolamento era indispensável.
Carmen não iria para a casa de sua família na Urca, como seria o normal,

nem para um hospital,

como costuma acontecer nos tratamentos de saúde. Por recomendação de doutor

Aloysio, acatada

por Aurora e dona Maria, Carmen ficaria internada no Copacabana Palace.

Era melhor do que

interná-la no seu próprio hospital, o dos Servidores do Estado, na rua

Sacadura Cabral, em plena

Zona Portuária - a balbúrdia provocada por sua presença perturbaria o

funcionamento do

hospital e chamaria muita atenção. No Copa, por estranho que pareça,

haveria mais sossego.

Oscar Ornstein, relações-públicas do hotel, ofereceu-lhe gratuitamente as

suítes 71 e 73 do Anexo

- uma para ela, outra para a família, mas esta, por ordens de doutor

Aloysio, com permissão para

apenas ficar por perto, sem interferir e sem nem mesmo vê-la. Doutor Aloysio

interditara Carmen

completamente: não só ela não iria à rua como as visitas estariam

proibidas por três semanas. O

único parente com permissão para visitá-la seria Aurora e, mesmo assim,

somente uma vez por dia

e por alguns minutos. Carmen estaria em regime de vigilância hospitalar,

com enfermeiras se

revezando pelas 24 horas. Ele iria vê-la duas vezes por dia.
Carmen dormia o dia inteiro e acordava às sete da noite, para o desjejum.

Era o ritmo a que estava

habituada. O importante, para doutor Aloysio, era que fizesse isso sem

remédios. Sua comida era uma

dieta especial à base de sopas, cremes e legumes, mas um repasto de

gourmets, preparado pelo

chef do hotel, o francês Lucien Hittis. A comida saía dos fogões do Bife

de Ouro (o principal

restaurante do Copa e um dos mais disputados do Rio) e era transportada

pelo peão de cozinha

Mário, que a entregava ao senhor Rossini, maitre do Anexo. Era maitre

Rossini quem levava as

bandejas ao apartamento. Levava também os potinhos de sorvete e picolés

de Chicabon e Jajá de

coco que o jovem Bob Falkenburg, proprietário do Bob"s e genro de Edmar

Machado e Maria

Sampaio, lhe mandava diariamente.
Havia sempre uma enfermeira com Carmen. Por sugestão de Octavio Guinle,

proprietário do

Copa, Carmen, numa emergência, seria também assistida pelo doutor Elysio

Pinheiro Guimarães,

médico a quem o hotel recorria quando havia algum problema com um

hóspede. Exceto este,

ninguém ali sabia direito o que ela tinha, e ninguém perguntava. Os

repórteres, acampados no

hotel,

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rondavam pela piscina e pelos corredores tentando sondar ou subornar os



empregados, mas eles não

estavam em condições de responder. Quando a entrevista coletiva marcada

para o dia seguinte

foi cancelada, as especulações sobre a saúde de Carmen dividiram-se entre

os jornalistas. Para

alguns, ela estava mesmo com uma doença maligna, talvez leucemia; para

outros, que a tinham

visto vibrante e vendendo saúde no aeroporto, era luxo só - queria

esnobar a imprensa e não

seria surpresa se, a qualquer momento, desfilasse de maiô pela pérgula,

tomando um daiquiri pelo

canudinho.


Para encerrar o assunto, doutor Aloysio desceu, chamou os repórteres ao

Golden Room e, na

condição de médico de Carmen, deu as informações. Não havia nenhuma

doença fatal; Carmen

sofria de esgotamento físico e nervoso, mas já estava melhor; e a

coletiva seria marcada para

breve. Pediu que acreditassem nele, e os rapazes da imprensa ficaram

satisfeitos. Mas nem por

isso arredaram pé do hotel. Daí a surpresa quando, dali a dois ou três

dias, a edição de O Cruzeiro

sobre a chegada de Carmen ao Rio saiu com uma reportagem de Arlindo Silva

contando que

penetrara sozinho no apartamento da estrela no Copa, poucas horas depois

do desembarque.


Segundo ele, Carmen estava irreconhecível, sentada num sofá, vestida com

um roupão felpudo e

sempre a ponto de chorar. Não queria falar com O Cruzeiro. Continuava

magoada com a revista

por causa dos artigos de David Nasser, e não era só por isso.
"Você me desculpe, mas não estou em condições de dar entrevistas. Estou

meio aérea por causa

dos medicamentos", ela teria dito. Mostrou a mão que tremia. Um músculo

contraiu-se em seu

rosto. "Peço a você que espere mais alguns dias até eu melhorar."
O repórter contou que agradeceu e saiu. Toda a conversa durara quatro
minutos.
No texto, Arlindo não explicou como conseguira penetrar no apartamento e

juntar tanto material

em quatro minutos. Nem poderia - porque esse encontro também não

acontecera. Ninguém

entrara no apartamento de Carmen. O público não precisava saber, mas era

um procedimento

comum entre alguns repórteres de O Cruzeiro - quando não tinham a

informação, inventavam-na.


Mas, cerca de dez dias depois, o mesmo Arlindo, agora ao lado do

fotógrafo Flavio Damm,

realmente furou o bloqueio e entrevistou Carmen no apartamento. Para

isso, usou de suas boas

relações com um amigo que tinha em comum com Gabriel: o coronel-aviador

José Vicente de

Faria Lima. Este intercedeu por Arlindo junto a Gabriel. A fim de se

passar por influente para uma

figura graduada da Aeronáutica, Gabriel contrariou as recomendações de

doutor Aloysio e pediu a

Carmen que recebesse o repórter, usando o argumento de que O Cruzeiro

iria "dar-lhe a palavra".

Para não contrariar o cunhado, Carmen aceitou. Tomou banho, vestiu-se,

maquiou-se e recebeu o

repórter (para não criar problemas com o médico, a enfermeira foi

discretamente removida).


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Nas duas horas que passou ali, Arlindo constatou que os boatos de que

Carmen estaria à morte

não tinham fundamento. Ela posou satisfeita para as câmeras de Flavio

Damm, vestindo calças

justas que terminavam à altura do joelho e sentando-se com as pernas em

cima da mesa. ("Belas

pernas", observou Damm.) Não bebeu nem comeu nada. Estava lúcida, rápida

e alegre. Mas,

Damm notou que os olhos de Carmen estavam injetados e o rosto, inchado.

Seu aspecto não era

nada saudável. E não melhorou quando Arlindo, reabrindo velhas

cicatrizes, começou a

perguntar-lhe sobre a "vaia na Urca" em 1940, por que não fazia mais

"papéis de brasileira" nos

filmes, e por que "gesticulava tanto" com as mãos. Carmen deu as mesmas

respostas que já dera

dezenas de vezes: que nunca entendera o que acontecera na Urca, que o

estúdio lhe impunha os

papéis e que, sem a gesticulação, o público americano não conseguiria

aceitá-la. Poderia ter

acrescentado que, apesar disso, nunca o Brasil tivera uma brasileira como

ela no exterior - tão

fanática por ser brasileira.
Já que fora aberta uma exceção para O Cruzeiro, sua concorrente Manchete

também quis uma

entrevista. E, assim, dias depois, Carmen (com uma blusa listrada, em que

se via uma estampa do

coelho Pernalonga) recebeu o repórter Darwin Brandão. Nessa reportagem,

Aurora, Cecília e

dona Maria já posavam, felizes, ao lado da irmã. Carmen continuava sem

poder sair, mas, na

impossibilidade de manter as três semanas de isolamento, doutor Aloysio

liberou-a para receber

visitas, desde que curtas e que, à meia-noite, todos fossem embora. Mas

pode ser que, na prática,

essa liberação já tivesse começado. Synval Silva tentara visitá-la e fora

barrado pela proibição

de visitas. Conformou-se e já ia embora quando, do próprio saguão,

resolveu telefonar para o

apartamento e comunicar a Carmen que estivera lá. Esta, ao saber de quem

se tratava, foi ao

telefone e o mandou subir.
"Mas está proibido, Carmen!"
"A proibição é para os outros. Não vale para você. Vamos, suba."
Com o sinal verde dado por doutor Aloysio, começou a peregrinação pela suíte

71, e um dos

primeiros a ir vê-la foi Grande Othelo. Quando ele entrou, Carmen atirou-

se aos seus braços:


"Othelo, meu querido!" Agarrou sua mão e não a soltou mais.
Othelo lhe levou de presente a parte original de piano de "Taí", ensebada

e em frangalhos, uma

verdadeira peça de colecionador. Levou-lhe também Pery, filho de Dalva e

Herivelto, que, aos

dezessete anos, estava prestes a se tornar o cantor Pery Ribeiro. Carmen

não podia reconhecê-lo

- na última vez em que o vira, ele tinha menos de dois anos e estava

fazendo xixi em sua cama -

e riu muito quando Pery lhe lembrou a história. Riu tanto que ficou

ofegante e cansada, mas isso

não a deteve. Ao saber que Aracy de Almeida também estava no Rio, vinda

de São Paulo, Carmen

mandou chamá-la, para que Aracy fosse atualizá-la com as últimas piadas e

pornografias

inventadas pelo povo. E, quando alguém estranhou uma saia godê bem

juvenil que estava usando,

524
Carmen, em vez de explicar que fora algo que Aurora lhe comprara às

pressas, porque ela

trouxera pouca roupa para o Brasil, disparou: "Estou vestida de cabaço!"
Outra visita que recebeu foi a de Carlinhos Niemeyer. Apenas nove anos

antes eles tinham sido

namorados, e o desejo de um pelo outro fora vertiginoso, impróprio para

menores. De repente, o

contraste ficara notável: aos 34 anos, Carlinhos estava no auge - alegre,

vital, viril, uma estátua

de bronze, na cor e na estrutura muscular -, ao passo que Carmen parecia

ter mirrado e

encolhido. E esta era uma constante: mesmo de boa-fé, muitos que a

visitaram no Copa diriam

depois que a acharam passada e envelhecida. Ninguém se dava conta de que

Carmen, mais do

que todos, sabia de seu estado. E, se aceitava expor-se para recebê-los,

ainda que doente, era por

saudade e por amor a eles.
Às vezes, ao aceitar uma visita para tal dia e hora, Carmen não podia

prever como estaria se

sentindo. Como na noite em que um velho companheiro, Caribe da Rocha,

produtor do show

Fantasia e fantasias, em cartaz no próprio hotel, propôs levar-lhe a

estrela do espetáculo, a

cantora Marlene. Carmen vibrou com a idéia - era fã de Marlene, tinha

seus discos em Beverly

Hills e gostaria de conhecê-la. Na noite seguinte Caribe subiu ao

apartamento com Marlene e o

marido desta, o ator Luiz Delfino. Carmen estava sentada num sommier.

Marlene foi abraçá-la,

mas Carmen não se levantou para recebê-la. Era como se estivesse em outra

dimensão.


Durante todo o tempo, Carmen não disse uma palavra - limitou-se a espiar

Marlene com o rabo

do olho, como que a medindo, assustada. Nesse período, enquanto

conversava com a visita, dona

Maria serviu por duas vezes uma xícara de leite em pó a Carmen, que o

tomou obedientemente.

Uma hora depois, como Carmen não tivesse rompido o silêncio, Marlene fez

menção de ir

embora. Carmen, então, pôs a mão em seu ombro e começou a falar baixinho

e com voz grossa.

Disse que conhecia e adorava seus sucessos - citou "Lata d"água", "Esposa

modelo", "E tome

polca" - e que, se Marlene quisesse tentar os Estados Unidos, ela faria

tudo para ajudá-la.


Marlene já ia saindo, feliz e realizada, quando Carmen a chamou num

canto, com ar de

confidência:
"Minha família não quer me ver na minha própria casa, na Urca. Por isso

estou hospedada aqui."


Parecia uma conspiração de romance de Daphne du Maurier. Marlene não

soube o que dizer,

apenas escutou. A injustiça era tão flagrante - todos sabiam que Carmen

estava no Copa por

ordens médicas - que só podia ser fruto de um delírio. Diante do silêncio

da outra, Carmen pode

ter desistido dessa queixa, porque não parece tê-la repetido a mais

ninguém.
Nessa mesma época, seu velho camarada de fuzarcas e patuscadas pelas

madrugadas, Jonjoca,

então ilustre vereador carioca, também foi vê-la no Copa. Carmen não o

reconheceu. Jonjoca

achou normal: todos mudamos com o tempo,


525
não? - e, afinal, lá se iam mais de vinte anos. Mas, quando ele se

identificou - "Carmen,

é Jonjoca!" -, ela apenas olhou para ele com ar ausente, como se o nome

lhe soasse tão remoto

quanto a música das esferas:
"Jonjoca... Jonjoca..."
Jonjoca saiu dali arrasado. O que as pessoas - ou a própria Carmen -

tinham feito da mulher

que ele conhecera e fora sua paixão?
A ausência continuava. De sua janela no Anexo, na noite de 31 de

dezembro, Carmen

acompanhou as cerimônias de candomblé na praia em frente ao Copacabana

Palace. Viu as velas

acesas pelo pequeno grupo de fiéis e ouviu seus cânticos e tambores, mas

não se animou a descer

para assistir, como fizeram alguns hóspedes - nem tinha forças para isso.

Pela manhã, as ondas

levavam e traziam as flores deixadas para lemanjá. Uma Carmen insone viu

despertar o ano de

1955 - sem saber que teria uma eternidade para dormir nos réveillons

seguintes.


525
Em meados de janeiro, como Carmen começasse a reagir de forma positiva à

ausência de álcool e

à quase completa retirada dos medicamentos, doutor Aloysio cumpriu a

promessa e levou-a à

prometida entrevista coletiva, que preferiu marcar na ABI. Foi um

encontro de compadres:

Carmen comportou-se bem, com graça, e os repórteres, mesmo percebendo sua

instabilidade,

foram carinhosos. Finalmente, depois de 48 dias internada no Copacabana

Palace, doutor Aloysio

deu-lhe permissão para sair e começou a promover o seu reingresso na vida

social carioca,

escoltada pelos seus amigos mais fiéis: os irmãos Roberto e Nelson

Seabra.
A princípio, sem ir para muito longe. O primeiro percurso consistia em

fazê-la deslocar-se até o

apartamento do próprio médico, no edifício Solano, na avenida Nossa Senhora de

Copacabana, em frente

à praça do Lido, a dois quarteirões do hotel. Embora doutor Aloysio morasse

tão perto, Roberto e

Nelson não permitiam que Carmen fizesse o pequeno trecho a pé -


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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