Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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anestesiado. Não lhe davam um relaxante muscular e ele não recebia

oxigenação artificial, como

se passaria a fazer muito depois. Nem se sonhava com monitores cardíacos,

cerebrais e de pressão

arterial. E, pior ainda, não se fazia uma desintoxicação prévia, com a

eliminação gradual dos

medicamentos que, afinal, tinham levado àquela condição. Na época, a

máquina de eletrochoque,

fabricada pelos Laboratórios Lester, de Nova York, fornecia uma carga de

110 volts, muito mais

do que, no futuro, se consideraria "aconselhável". Eram precisos três

enfermeiros para manobrá-

la: um, para girar um botão e aplicar o choque; os outros dois, para

conter o paciente e impedi-lo

de se machucar e de, literalmente, levantar vôo.
Carmen foi amarrada à mesa, acordada, com uma cunha de borracha na boca,
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para impedi-la de decepar a língua com os dentes. Em sua fronte, já

umedecida para

facilitar a passagem da corrente elétrica, ajustaram-lhe dois eletrodos

em forma de chapinhas de

metal. Um enfermeiro segurou-lhe o queixo, outro a prendeu à mesa,

segurando-a pelos braços, os

dois usando força total. O terceiro girou o botão e contou até cinco,

espaçadamente. Enquanto

ele contava, a descarga provocou um choque que fez Carmen saltar da mesa

diversas vezes,

perder imediatamente a consciência e ter uma convulsão: revirou os olhos,

babou, passou por uma

tremenda contração muscular e sofreu uma parada respiratória, como num

ataque epiléptico. O

enfermeiro encerrou a contagem, trouxe o botão à posição original, e só

então Carmen,

inconsciente, relaxou. Não era um espetáculo bonito de se ver. Mais

exatamente, era horrível.


O paciente dormia até o fim da tarde e acordava calmo, mas abestado e

ausente, sem memória

sobre o que se passara durante a aplicação. Dizia-se que essa amnésia era

temporária e que,

dependendo da potência do choque, podia durar no máximo seis meses. Mas,

em alguns

pacientes, a amnésia revelava-se permanente e atingia áreas do passado -

Carmen, por exemplo,

esqueceu letras inteiras de músicas. O paciente podia sofrer uma anoxia

cerebral (diminuição da

quantidade de oxigênio no cérebro), capaz de causar lesões como

microhemorragias. Outro efeito

colateral era a possibilidade de fraturas em pessoas com certo grau de

enfraquecimento nos ossos

e quebra de dentes, devido à fortíssima contração muscular.
Carmen passou por cinco dessas sessões, num espaço de tempo de pouco mais

de um mês. Seu

marido e sua mãe, que as autorizaram, certamente não assistiram a elas.

Se o tratamento era tão

horroroso, por que Carmen continuou a se submeter a elas. Porque, ao sair

de cada sessão e ir

para casa, sentia um pouco de dor de cabeça e mal-estar pelas horas

seguintes, mas não sabia o

que acontecera. E, de fato, "melhorava" por alguns dias. Mas a depressão

logo voltava, porque,

assim que se via em casa, Carmen também voltava a tomar suas cápsulas.

Ninguém em seu círculo

tinha a consciência de que a medicação era a causa do problema, e não a

cura.
O próprio doutor Marxer só então começava a suspeitar de alguma relação

entre uma coisa e outra -

tanto que, sem Carmen perceber, passou a fornecer-lhe cápsulas cujo

conteúdo retirava e

substituía por açúcar. Mas a medida era desastrada: os placebos só

provocavam uma síndrome de

abstinência em Carmen, já que seu organismo não estava sendo suprido, e a

levavam a um estado

de desespero por achar que aquela dose não era mais suficiente. A maneira

certa de fazer o

tratamento seria diminuir aos poucos o suprimento, com o conhecimento e a

participação de

Carmen. Mas ninguém pensava nisso - inclusive porque algumas pessoas mais

próximas estavam

muito ocupadas tentando descobrir a "causa" do seu problema.


Aloysio, com sua autoridade de ex-estudante de odontologia, afirmaria

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inúmeras vezes, até por escrito, que uma das "principais razões do

colapso nervoso" de Carmen

era um "conflito interior" cuja causa ela nunca revelara - mas que ele

suspeitava (dizia isso a

sério) ser "a incompatibilidade entre dona Maria, Aurora, Gabriel e o

Bando da Lua com o marido

Dave Sebastian". Em sua condição de, ele próprio, usuário de álcool em

apreciável quantidade e,

ocasionalmente, de anfetaminas, Aloysio não via como isso poderia ser um

problema para

Carmen.
Outros (não se sabe quem) tinham suas receitas particulares para ajudar

Carmen a recuperar a

saúde: passar a tomar somente café descafeinado; substituir seu cigarro

Viceroy comum, sem

filtro, pela nova versão com filtro, e fumar de piteira; e interessar-se

por hobbies saudáveis, como

a quiromancia. Docemente, Carmen se submetia. Às vezes, pegava um amigo

de jeito em North

Bedford Drive e insistia em "ler" suas linhas das mãos. Nunca mais fumou

Viceroy sem filtro. E,

num raro momento de humor nessa época, comprou uma dúzia de piteiras

Dunhill e mandou

gravar nelas uma inscrição - "Stolen from Carmen Miranda", roubada de

Carmen Miranda -

para dar de presente às visitas.


Em março de 1954, Carmen entrou em cena no palco do Desert Inn, em Lãs

Vegas, logo depois

que Russ Tamblyn, Tommy Rall, Marc Platt, Jacques d"Amboise e outros

dançarinos de Sete

noivas para sete irmãos (Seven brides for seven brothers) executaram as

atléticas coreografias

criadas por Michael Kidd para o filme. O elenco do novo musical da MGM,

ainda a ser lançado,

abriu o show para ela. Em condições normais, seria difícil para qualquer

artista se apresentar em

seguida a um número de dança tão acrobático e exuberante - os próprios

Nicholas Brothers

precisariam rebolar para superá-lo. Mas Carmen atravessou quatro semanas

no Desert Inn

sucedendo aos rapazes do filme e arrancando aplausos todas as noites.

Bastava-lhe entrar em

cena para ter a platéia a seu favor - seu crédito com o público parecia

inesgotável, e o mínimo

que lhe desse ou fizesse seria visto como um bônus. De lá, Carmen foi

bater o ponto por duas

semanas no Shamrock, em Houston, do qual se tornara quase uma atração

fixa, revezando-se com

outro grande cartaz, o cantor
Mel Tormé.
Esses compromissos referiam-se a contratos que assinara no ano anterior,

antes das agruras que

experimentaria em fins de 1953. Em vista do que passara, Carmen poderia

tê-los cancelado. Mas

não fizera isso e estava ali para cumprilos. Como conseguia? Não seria

apenas pelo dinheiro,

embora esse fosse considerável. Seu cachê nas duas casas era de 15 mil

dólares por semana ou o

equivalente - o Desert Inn lhe pagava oficialmente 8500 dólares e o

restante em jóias (uma

pulseira de platina e diamantes) e em fichas de jogo (que ela trocava no

caixa). Ao cabo de seis

semanas de trabalho, voltou para Beverly Hills com cerca de
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90 mil dólares na bolsa - dinheiro de que, aparentemente, não se

beneficiou, que não lhe

comprou nada bonito nem lhe trouxe nenhuma alegria. O que a movia era o

princípio da inércia

- o resultado de, quase todas as noites, pelos últimos 24 anos, ter se

maquiado, vestido a beca e

feito do palco uma extensão, não de sua casa, mas de seu próprio corpo.

Algumas vezes isso se

dera por uma sucessão de gestos mecânicos e, à meia-luz da coxia, Carmen

se perguntara o que

estava fazendo ali. Bastava-lhe, no entanto, sair para as luzes e ouvir

os aplausos para que a

dúvida se dissipasse e a vida voltasse a ter sentido.
Mas Carmen agora estava temendo pelo pior. Poucos perceberam que, por

momentos, em meio a

um número, em Vegas ou em Houston, ela hesitara - porque esquecera a

letra. Fora socorrida

pelo Bando da Lua, que lhe soprara o verso ou cantara "com ela" (na

verdade, por ela). Depois

do show, no camarim, Carmen revoltou-se e atribuiu os lapsos ao cansaço e

ao tratamento com os

eletrochoques. Precisava dar uma parada.
O argumento para recusar as propostas que lhe seriam feitas pelo resto de

1954 seria o de que, depois daqueles compromissos, estava "de férias".

Não só ela. Fafá Lemos

deixou o conjunto e voltou para o Rio, onde deu declarações queixando-se

de ter sido boicotado

pelos músicos brasileiros de Los Angeles. Zezinho, por sua vez, foi

trabalhar na seqüência de

"Born in a trunk" em Nasce uma estrela (A star is born), com Judy

Garland, na Warner, e de "Heat

wave" em O mundo da fantasia (There"s no business like show business),

com Marilyn Monroe, na

Fox - por acaso, duas estrelas cujos lapsos, atrasos e faltas durante

aquelas filmagens eram

provocados pela mesma família de problemas com que Carmen se debatia.


Em casa, Carmen entregou-se a um tal estado de prostração que Sebastian e

o doutor Marxer estavam

sem saber o que seria melhor para ela -- mantê-la trabalhando, para que

continuasse de pé, ou

esperar que se recuperasse e arriscarse a que, ao contrário, ela se

rendesse à depressão. Há um

relato de que, num show em Cincinnati, no começo do ano, Harry teria ido

ao camarim de Carmen

pouco antes da entrada em cena e a encontrado sentada na cama, chorando.
"Não vou conseguir, Harry. Os braços não levantam, não posso trabalhar",

ela disse, entre

lágrimas.
Harry teria telefonado para Sebastian em Los Angeles e passado o aparelho

para Carmen. Ela

continuou chorando, mas Sebastian deve ter lhe dito alguma coisa decisiva

ao telefone - porque

Carmen enxugou as lágrimas, voltou para o espelho, aprontou-se e deu o

show. Como um

autômato que se pudesse controlar a distância, deixara-se facilmente

subjugar. As lágrimas

pareciam ser o único lubrificante natural. A cada dia Carmen via ser

dragada a sua grande força

interior: a alegria. A boca seca, provocada pelos remédios, não

prejudicava apenas a sua emissão

ao cantar - simbolizava também um ressecamento geral de seu ser. Mas

Carmen era profissional

até o osso - mesmo que isso agora lhe custasse um imenso esforço extra

para seguir em frente.

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Era Sebastian quem fazia seus contatos com a William Morris e lhe levava

os contratos prontos,

com a escala das excursões, o número de shows, o valor dos cachês, o

horário dos vôos ou dos

trens, o status dos hotéis. Carmen só tinha de assinar. Quando ficava na

dúvida e insinuava que

queria ler melhor sobre o que a esperava, ele insistia:
"Assine primeiro, depois discutimos."
Mas, depois de assinado, não havia o que discutir. Num telefonema, Carmen

dissera a Aurora:


"É "sign here" pra cá, "sign here" pra lá. Não faço outra coisa senão

assinar!" Aurora suspeitaria

depois que nem todos os papéis que Sebastian a fizera assinar se

referissem a contratos.

Aproveitando-se da turbulência mental de Carmen, ele poderia tê-la

induzido a também assinar

papéis que tivessem a ver com suas propriedades. E, por relatos de quem

conviveu com o casal

naquela época, Carmen passara a ter medo de Sebastian.
O pequeno Zezinho, filho do músico, ouviu Odila, sua mãe, comentar
com o marido:
"Dave não trata bem Carmen."
E até dona Maria parecia estar se convencendo de que havia algo errado

ali - a ponto de ter

dito a Carmen:
"Minha filha, por que não te separas?" Mas Carmen respondia: "Mamãe, nem

diga uma coisa

dessas!"
A casa era agora dirigida por Sebastian e pelos enfermeiros americanos,

com dona Maria e a

colombiana Esteia de coadjuvantes. Reguladas por ele, as visitas a North

Bedford Drive

escassearam e, quando havia alguém, Carmen deixava-se ficar numa varanda

do segundo andar,

vendo-as na piscina, sem participar. Alice Faye e Don Ameche souberam que

ela "não estava

bem" e foram visitá-la em dias diferentes, mas Carmen quase não falou com

eles. Suas crises de

ausência eram cada vez mais freqüentes, ou então ela se tornava

repetitiva e inconseqüente. Às

vezes parecia alheia a tudo e não respondia quando lhe falavam. Em julho,

o repórter João

Martins, de O Cruzeiro (famoso pelos discos voadores que "vira" na Barra

da Tijuca, no Rio,

algum tempo antes), tentou entrevistá-la. Carmen o recebeu, mas não

conseguiu conversar -

pediu licença e retirou-se. A empregada Esteia contou ao repórter que "a

senhora" passava os

dias deitada, abatida e sem querer ver ninguém.
Naquele mês, a beldade baiana Martha Rocha conquistara o segundo lugar na

eleição de Miss

Universo, em Long Beach, na Califórnia. Dias depois, ela e outras

quatorze misses foram para Los

Angeles, a fim de participar de um documentário sobre o evento. Carmen,

aparentemente

recuperada, telefonou a João Martins pedindo que levasse Martha à sua

casa, "para um chá". O

encontro foi marcado. Mas, no dia seguinte, alguém deixou um recado no

hotel de João Martins

cancelando a reunião, alegando que Carmen "não estava se sentindo bem".

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Pouco mais de um mês depois, no próprio dia do fato, 24 de

agosto, Carmen ficou

sabendo do suicídio de Getúlio Vargas no Brasil (as televisões americanas

interromperam a

programação para dar a notícia). Pelo resto do dia, repórteres da

Califórnia ligaram para sua casa

pedindo declarações. Mas Carmen não estava disponível para entrevistas.

Além disso, não tinha

nada a dizer - a morte de Getúlio não lhe significava nada. A de

Francisco Alves, num acidente

de carro na estrada dois anos antes, em 1952, é que a entristecera.


Em princípios de novembro, dona Maria escreveu a Aurora falando

preocupada sobre o estado

de Carmen. Aurora telefonou para Los Angeles e percebeu que Carmen estava

péssima. Ali

mesmo, ao telefone com ela, decidiu:
"Estou com vontade de dar um pulo aí, Carmen. Ando com muita saudade. O

Gabriel está me

prometendo uma viagem e acho que vou aproveitar."
Carmen, com a voz neutra, quase sumida, respondeu:
"Ah, está ótimo, Aurora. Então venha..."
Uma semana depois, Aurora se punha num vôo a caminho de Los Angeles. Por

aqueles mesmos

dias, Carmen precisaria reunir forças para posar, sorrindo, para uma foto

comemorativa da

passagem do ano - abraçada a um menino de fraldas, cartola e uma faixa de

1955, representando

o Ano-Novo.
No Brasil, dali a um mês e meio, essa foto seria a capa da edição de

dezembro de A Cena (não

mais Scena) Muda. Nas páginas internas, essa revista já traria a

reportagem sobre o dramático

embarque de Carmen em Los Angeles e sua chegada ao Brasil - quatorze anos

e dois meses

depois que vira seu país pela última vez.

Capítulo 29

1954 - 1955
Noites cariocas

O Alvis dirigido por Sebastian, conduzindo Carmen, Aurora, dona Maria e o

doutor Marxer, parou na

pista do Aeroporto Internacional de Los Angeles, quase que sob a asa do

dc-6 da Braniff. Todos

desceram, menos Carmen, que foi tomada no colo por Marxer. Ele a carregou

pela escada do

avião, depositou-a em sua poltrona e afivelou seu cinto de segurança.

Isso foi feito antes que os

outros passageiros entrassem. Segundo Aurora, era como transportar "um

embrulho, uma trouxa,

uma coisa". Carmen não falava nem se debatia. Apenas chorava baixinho e

parecia ainda menor

do que era, quase uma criança. O sentimento de fragilidade e impotência

em seu rosto refletia o

que se passava na cabeça de todos ali: como chegar ao Brasil naquele

estado? Como

desembarcar no Galeão e encarar os amigos, a imprensa e todos que iriam

recebê-la - talvez até

mesmo o povo -, em tais condições?


O espantoso é que não tenham desistido e voltado para casa, ainda mais

sabendo que, durante a

longa viagem, o estado de Carmen tendia a piorar. Mas Marxer instruiu

Aurora e dona Maria

sobre a medicação e deixou Carmen aos cuidados das duas. Depois, ele e

Sebastian foram

embora de volta para Beverly Hills. O avião decolou para o vôo de trinta

horas sobre a costa do

Pacífico.
Aurora chegara a Los Angeles quinze dias antes, para ver Carmen. Esta

fora recebê-la no

aeroporto, sem nenhuma pintura no rosto, o cabelo preso por duas

trancinhas e com uma capa

sobre os ombros. Não se viam fazia três anos e meio. Carmen estava

abatida, trêmula e

amedrontada, dirigindo muito mal. Atravessaram a primeira noite em North

Bedford Drive

conversando até o sol raiar e, já ali, Aurora começou a campanha para

levá-la a passar algum

tempo no Rio. Carmen não queria - não sabia como seria recebida depois de

quatorze anos de

ausência. Aurora argumentou que, nesse período, Carmen privara com

centenas, talvez milhares

de brasileiros, em Los Angeles e Nova York, e eram todos seus adoradores

- por que os do

Brasil seriam diferentes? E os amigos estavam loucos para revê-la.
Carmen alegou o problema da saúde: como uma pessoa acometida de uma

"doença nervosa",

como a sua, poderia viajar? Aurora respondeu que
517
uma mudança de ares lhe faria bem - e, ao dizer isso, conscientemente ou

não, estava

prescrevendo a receita certa: a "mudança de ares" representaria uma

interrupção na rotina de

Carmen, uma quebra de hábitos. Um desses hábitos, embora Aurora não

soubesse, era o de que a

quantidade de Seconal que Carmen tomava antes de se deitar não tinha mais

a ver com dormir.

Por ordens de seu organismo, o mínimo de três ou quatro cápsulas era

simplesmente para ser

tomado, mesmo que ela já estivesse com sono - e ai do organismo se não

fossem tomadas. Uma

viagem que fizesse Carmen "espairecer" poderia ajudar a interromper o

processo. Aurora queria

também um diagnóstico de outro médico, mais neutro, menos comprometido

com Carmen. Mas,

para isso, precisaria convencer o doutor Marxer de que o Rio faria bem a

Carmen, e que lá também

havia bons médicos. Depois teria de dobrar Sebastian, que já declarara

que não consentiria em

ficar "longe de sua esposa". E, por fim, havia a resistência assustada da

própria Carmen. As

chances de Aurora conseguir seu intento eram de quase zero. Mesmo assim,

disse a um dos

músicos de sua irmã:
"Eu vou levar a Carmen, e não tem conversa."
Passaram-se alguns dias, mas foi mais fácil do que ela pensava. Aurora

convenceu Marxer, este

convenceu Sebastian, e os dois convenceram Carmen - principalmente porque

seria por "poucos

dias". Marcou-se a viagem para o dia 2 de dezembro, com chegada no dia 3,

uma sexta-feira. Isso

resolvido, várias providências começaram a ser tomadas. No Rio, Cecília

entrou em contato com

seu amigo, o doutor Aloysio Salles da Fonseca, 38 anos, diretor de

hematologia do Hospital dos

Servidores do Estado, modelo em toda a América Latina. Embora "doenças

nervosas" não fossem

a sua especialidade, ele teria prazer em atender Carmen pessoalmente,

começando pelo Galeão,

onde estaria para recebê-la. Por recomendação do doutor Aloysio, Gabriel

pediu a Herbert Moses,

presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), que tentasse

manter os repórteres a

distância no aeroporto. Por questões de saúde, Carmen não poderia atender

os rapazes um a um,

na noite de sua chegada. Em troca, prometia uma entrevista coletiva para

a tarde seguinte, no

Copacabana Palace. Uma carta de Los Angeles, com data de 27 de novembro e

assinada por

Carmen, formalizava esse entendimento com Moses.
Mas Carmen não participou de nenhum desses preparativos (a carta a Moses

foi escrita e

"assinada" por Aurora). Uma semana antes do embarque - e diante da

própria perspectiva da

viagem -, deixara-se cair num tal estado de abatimento que quase fizera

Marxer mudar de idéia.

Não queria comer, não ouvia rádio ou discos, ignorava a televisão e mal

respondia quando lhe

falavam. Finalmente caiu num mutismo quase total. Limitava-se a chorar

fraquinho e a tartamudear

que não queria viajar. Na manhã do embarque, era como se não tivesse

forças nem para andar.

Essa foi a Carmen que, ao meio-dia do dia 2 de dezembro, o doutor Marxer

carregou no colo e levou

para bordo.
O DC-6 era um avião-leito, para cerca de oitenta passageiros, e

razoávelmente confortável.

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Tinha de ser, para amenizar o cansaço do vôo Los

Angeles-Rio, com o

enervante pinga-pinga das escalas pela rota do Pacífico: Cidade do

México, Bogotá, Lima e São

Paulo.
Segundo a reportagem na revista A Cena Muda (a edição com Carmen na capa

ao lado do

menino fantasiado de Ano-Novo), Carmen embarcou feliz e passou a viagem

fazendo todo mundo

se divertir à sua volta. O texto, depois usado com freqüência por

pesquisadores, era assinado por

Laura Brito, que teria embarcado incógnita em Los Angeles apenas para

acompanhar Carmen no

vôo de volta a seu país. Num toque de realismo, a repórter informa que,

já dentro do avião, teria

sido identificada por Aurora, que lhe pedira que tomasse cuidado com o

que fosse escrever. Laura

teria tranqüilizado Aurora, dizendo que Carmen era, para ela, uma deusa,

e que nunca escreveria

nada que a deixasse mal. Era verdade. Só que a história com Aurora não

aconteceu; a repórter

Laura Brito não estava naquele avião; não escreveu reportagem alguma, e

nem sequer existia

como repórter. Era um pseudônimo de Dulce Damasceno de Brito, que também

não estava no

vôo (e, por ser contratada dos Associados, usara como pseudônimo o nome

de sua irmã). Dulce

estava em São Paulo, aonde fora para se casar, mas, a pedido de A Cena

Muda, não vira problema

em descrever a viagem de Carmen a partir de Los Angeles, e como se

tivesse sido uma festa.

Como, aliás, deveria ter sido.
Infelizmente, a viagem não foi uma festa. Aurora deu a Carmen um Seconal

para dormir quando o


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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