Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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Lulu não se importou e Harry se submeteu, mas Russinho se sentiu

desautorizado. Em dezembro

daquele ano, ao fim de uma temporada em Chicago, comunicou a Carmen que

estava pedindo as

contas. Tinha adoração por ela, mas precisava ganhar a vida. Carmen

tentou segurá-lo a todo

custo, mas não houve jeito. (Muito depois, em seu livro de memórias,

Aloysio, para se proteger,

inventou que Russinho deixara o conjunto e se mudara para o México por

medo de ter de lutar na

Coréia. Russinho, casado com Janita, efetivamente foi trabalhar com o

sogro e viver no México,

mas a Coréia passava longe de suas preocupações. Caso ele fosse

convocado, Carmen, com seu

prestígio entre os militares americanos, poderia livrá-lo com

facilidade.)


Sem Russinho, o Bando da Lua perdia não apenas um pandeirista, mas seu

principal harmonizador

de vozes - função que ele dividira com Lúcio Alves nos Namorados da Lua e

com Walter nos

Anjos do Inferno. Zezinho, efetivo do restaurante Marquis e que atuava

também com a orquestra

de Desi Arnaz na série de TV I lave Lucy, cobriria sua vaga por algum

tempo. Além dele, a partir

de outubro de 1953, participariam do conjunto um brasileiro que

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volta e meia abandonava o Trio Surdina e ia tentar a sorte na América, o

violinista Fafá Lemos, e

um percussionista, Gringo do Pandeiro, que entrava e saía da orquestra de

Xavier Cugat. E, por

último, houve a contratação definitiva de Orlando Figueiredo, pandeirista

e cantor.


Todos eles grandes músicos, mas nenhum era arranjador vocal. A partir

dali, o Bando da Lua

deixaria efetivamente de existir, exceto pelo nome e pela presença de

Aloysio - o único a estar

presente no nascimento e nas diversas mortes do conjunto.
O espetáculo começava com a exibição de Morrendo de medo na tela do

cinema. Aos 55 minutos

de projeção, terminado "The bongo bingo", que era o primeiro número de

Carmen no filme, a tela

se apagava e subia, ou uma cortina de gaze se fechava - e o palco se

acendia para recebê-la ao

vivo, com os mesmos fantasia e turbante, só que de todas as cores. O

efeito era devastador,

porque era como se o filme, em preto-e-branco, ganhasse vida de repente,

na frente de todo

mundo. Carmen surgia em pessoa com seus músicos, atravessando o palco em

largas passadas,

cantando "Bambu, bambu" ou algo em tempo rápido, aplicando à ainda fria

primavera européia

um bafo de calor tropical. Assim se iniciavam os shows de Carmen em sua

temporada na Europa.


Uma temporada que começara em Nova York, no dia 20 de março de

1953, quando Carmen (com Sebastian), Aloysio, Lulu, Harry e Zezinho

embarcaram para Roma

no aeroporto de Idlewild, sabendo que só estariam de volta em meados de

junho. O show, todo

escrito e ensaiado, era uma grande novidade para as platéias européias.

Carmen mantinha-as na

ponta dos pés por quase uma hora com seu repertório mais internacional -

"Brazil", "Mamãe, eu

quero" e uma sucessão de canções onomatopaicas, falando de tique-taques,

tico-ticos, cai-cais,

upa-upas, choo-choos e chica-chica-booms, sob os violões e percussões do

Bando da Lua. Todas

as canções eram dos filmes. Em certo momento, já quase no final e sem a

quebra do ritmo,

bradava: "Ah, dizem que sou baixinha, não? Pois sou mesmo!" - atirava

longe as plataformas e

dançava um samba, descalça. "Mas também dizem que sou careca!" - tirava o

turbante, agitava

os cabelos (agora louros), ia à beira do palco e pedia a um espectador

para puxar. Delírio e

suspiros de "Mamma mia!" nos camarotes e poltronas. E só então Carmen

voltava a cantar. Os

jornais italianos a chamavam de "indiavolata" (endiabrada). Os grandes

astros locais, como

Alberto Sordi e Renato Rascel, iam render-lhe homenagens.


Quem visse Carmen em cena não podia calcular as dificuldades operacionais

da excursão.

Apenas na primeira etapa, a da Itália, a trupe cobriu quatorze cidades em

pouco mais de um mês,

entre as quais Roma, Nápoles, Messina, Bolonha, Verona, Veneza, Florença

e Milão. Mas essas

eram as cidades grandes, com palcos nobres como o Teatro Nuovo, em Milão,

e o Verdi, em

Florença,
505
e em que lhe davam proteção policial ao sair do teatro. Nas cidades

menores, Carmen ficava

exposta às pessoas que a cercavam, abraçavam, beijavam e esmagavam. Na

Sicília, teve várias

vezes a roupa rasgada. Mais uma vez, o transporte e a lavagem das

fantasias era uma confusão, e,

para tudo, Carmen dependia de Isa, mulher de Harry, que fora como sua

camareira. Em outras

cidades, como Estocolmo, na Suécia, eram dois shows na mesma noite: o

primeiro, no teatro (o

Royal, às 20h30), a preços populares; o segundo, num nightclub (o

Champagne, às 22 horas), para

os mais abonados - com Carmen tendo de se trocar praticamente dentro do

carro entre um

espetáculo e outro.
Em cada cidade a que chegava, o ritual se repetia: o prefeito com a chave

simbólica e a imprensa

com as mesmas perguntas ("Onde nasceu?", "Como começou sua carreira?").

Não era possível

fugir do prefeito nem dos fotógrafos, mas os repórteres podiam ser

driblados com a distribuição

de um press book - um livreto de cerca de quarenta páginas, preparado

pela William Morris,

contendo sua "biografia", com dados altamente manicurados. A melhor

história era a de que seu

pai, um "rico empresário português sediado no Rio", não permitia que ela

se tornasse cantora.

Então, "Maria do Carmo (seu nome verdadeiro) tivera de fazer sua carreira

em segredo", e, para

isso, adotara um apelido de infância (Carmen) e o sobrenome da mãe

(Miranda). De tanto ouvi-la

em discos e pelo rádio, seu pai se tornara fã da "cantora Carmen

Miranda", sem ter a menor idéia

de que se tratava de sua filha. E só veio a descobrir quando "começaram a

chover propostas dos

Estados Unidos" e ela teve de se revelar a ele. Ou seja, segundo o

livreto, Carmen conseguira

tapear seu pai durante dez anos!
A história era ridícula de tão inconsistente. Quer dizer que seu pai

nunca vira uma foto da famosa

cantora? Não reconhecia nela a voz da filha? E, supondo que esta

continuasse a morar com a

família, os repórteres brasileiros não a procuravam em casa para

entrevistas? Ou toda a

vizinhança conspirava para manter a sua identidade secreta, como a do

Zorro ou a do Super-

Homem? Era tudo tão absurdo que não se sabe como Carmen tinha coragem de

circular o press

book. Pois nenhum jornal europeu jamais contestou a lógica dessas

informações e elas eram

publicadas todos os dias em algum veículo da Europa, quase sem

alterações. Para que não se

pense que tal ingenuidade era privilégio dos jornalistas europeus, é bom

saber que essas mesmas

informações cansaram de sair nas revistas americanas.
O press book continha sugestões de chamadas e catch-phmses - coisas como

"THERE"S A

HEAT WAVE COMING YOUR WAY!" ("Há uma onda de calor a caminho!"), ou "THE

SPICE


OF LIFE, HERSELF - CARMEN MIRANDA!" ("O tempero da vida, em pessoa -

Carmen


Miranda!"), ou "THE "BRAZILIAN BOMBSHELL" EXPLODES IN OUR STAGE!" ("A

"Brazilian Bombshell" explode em nosso palco!"). Nos primeiros países e

nas primeiras semanas da

excursão, Carmen conseguia estar à altura desse entusiasmo. Em Roma, por

exemplo, recebeu no

camarim a visita

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de um amigo saído do passado profundo: Lourenço, irmão de seu ex-

namorado Mário Cunha.

Estava com a mulher, Elena, e o filho de dezoito anos, Fernando. Não se

viam desde 1932, ano do

rompimento entre Carmen e Mário Cunha. Almoçaram todos juntos no dia

seguinte e, embora

fosse o começo da tarde, Carmen parecia inteira. Os Cunha estavam

viajando pela Europa e só

voltariam ao Rio em outubro, via Nova York. Carmen disse que estaria em

Nova York nessa

época e deu-lhes o telefone da Hampshire House, para que a
procurassem.
Mas, à medida que os deslocamentos, os shows e as cidades se sucediam,

Carmen acusou as

primeiras descompensações. Primeiro, porque já não tinha tanto tempo para

dormir. Havia as

esperas nas estações, as viagens de trem - nem muito curtas nem muito

longas, tornando difícil

dormir a bordo -, as chegadas, as recepções, as homenagens e as

entrevistas. Cada hora de sono

passou a ser sagrada, daí o seu refúgio no apartamento do hotel, com um

breu à sua volta, ordens

para não ser perturbada e um aumento na dose do Seconal. Por causa disso,

assim como

acontecera em Londres quatro anos antes, Carmen não conseguia sentir-se a

passeio na Europa

- conhecer os museus, andar de gôndola ou dançar o funiculi pelas ruas,

nem pensar. Da mesma

forma, não tinha disposição para visitas diurnas a catedrais, ruínas ou

monumentos - mais tarde,

essa atitude lhe seria cruelmente cobrada, como se ela não tivesse nenhum

interesse cultural pelas

cidades por que passava. Na verdade, derrubada pela intoxicação, Carmen

não tinha disposição

física para nada, contrastando com a euforia turística de Aloysio. (A

qual também não dispensava

um estímulo extra: "Foi preciso o auxílio de muito Dexedrine para ficar

acordado e não perder um

só minuto", escreveu ele em seu livro, referindo-se a Florença.)
Em conseqüência, para poder entrar no palco e desempenhar com a energia e

o entusiasmo que

exigia de si mesma, Carmen precisava recorrer em dobro às anfetaminas. É

talvez impossível

avaliar hoje a dose de que já estava precisando para voltar ao "normal",

mas, naquele estágio de

seu processo, a quantidade deveria ser inacreditável para os não-

iniciados. E, com isso, o álcool

que ingeria nas recepções oficiais também passou a agir mais depressa.

Uma história conhecida é

a do almoço oferecido pela embaixada brasileira em Helsinque, na

Finlândia, narrada por

Aloysio e outros biógrafos. Por causa do vatapá e da pinga, Carmen,

"comovida", "tomou um

pileque [em] que mal podia parar de pé". Aloysio e Sebastian tentaram

mantê-la sentada, "para

disfarçar", mas, na hora da despedida, Carmen foi abraçar a embaixatriz

e, ao cair ao chão, levou

a distinta com ela.
A dificuldade de muitas pessoas para lidar com o alcoolismo fez com que,

ao contar esse

episódio, tanto Aloysio como outros que escreveram sobre Carmen se

sentissem na obrigação de

justificá-lo "psicologicamente": Carmen ficou de pilequinho porque "se

comoveu" com o vatapá

- e não porque sua resistência orgânica, minada pelo bombardeio de todos

os lados, já estivesse diminuindo.


507
Tal atitude superprotetora mascarou a gravidade de seu estado

e impediu que ela

começasse a ser tratada como devia.
A etapa da Finlândia foi a última da viagem. Se a temporada tivesse se

esticado até Paris, como

era a idéia inicial, a possibilidade de um desastre, devido ao estado de

saúde de Carmen, era

enorme. Mas não houve acordo entre Paris e os empresários e, de

Helsinque, eles tomaram o

caminho de casa.
O ano de 1953 já ia pelo meio, e é duvidoso que Carmen conseguisse

vislumbrar o futuro com

clareza. Ou que houvesse um futuro a ser vislumbrado.
Em maio, um precoce carioca, Otto Stupakoff, chegara a Los Angeles para

estudar fotografia.

Tinha dezesseis anos e, por um desses atalhos de que o Brasil é pródigo,

trazia um cartão de

imprensa, como "correspondente", que conseguira através de amigos na nova

revista Manchete.

Em julho, por intermédio de outros brasileiros na cidade, descobriu o

telefone de Carmen. Ligou

para ela e apresentou-se.
Ao saber que ele tinha dezesseis anos e falava pouco inglês, Carmen

espantou-se:


"O que você está fazendo sozinho nesta cidade, menino? Venha já pra cá!"

Otto perguntou-lhe

que ônibus deveria tomar. Mas Carmen foi direta: "Diga onde está, que eu

mando meu motorista

buscá-lo." Otto chegou. Carmen emprestou-lhe um calção e foram para a

piscina. Cada qual em

sua espreguiçadeira, tomaram sol e conversaram. Depois, Otto comeu feijão

no almoço.


Pelo ano e meio seguinte, Otto visitou Carmen pelo menos outras cinco ou

seis vezes, com largos

intervalos e sempre a convite dela. Ela o convocava por telefone e

mandava o motorista buscá-lo.

O ritual incluía piscina (às vezes), almoço (com feijão) e longas

conversas (sempre). Carmen não

escondia sua vulnerabilidade. Falava do marido, de como não se davam bem

e que não havia

nada a fazer. Mas não gostava de falar de si mesma. Preferia saber da

paixão febril do próprio

Otto por Betsy, uma menina americana de quatorze anos que ele acabara de

conhecer e que se

arrastaria, com idas e vindas, pelo tempo em que ele teve Carmen como

confidente. Era um

namoro complicado, pela diferença de origens, de cultura e de língua.

Para piorar, Betsy,

sobrinha emprestada da estrela francesa da MGM Leslie Caron, era uma

daquelas "crianças de

Hollywood" que, se quisessem, teriam Frank Sinatra cantando em sua festa

de aniversário. Por

causa dela, Otto sofria como sofrem os verdadeiros apaixonados. Carmen

ouvia-o com o maior

interesse e lhe dava conselhos, estimulando-o a lutar por Betsy.
Otto só percebeu em retrospecto, mas Carmen se comportava como a mãe que

ela gostaria de ter

sido. Na verdade, se Carmen tivesse sido mãe aos 28 anos, em 1937, seu

filho teria exatamente a

idade dele.

508
Como se ainda restasse dúvida, ela dissera a Otto mais de uma vez: "Ah,

quisera eu ter alguém

como você!"


E, por qualquer motivo, abraçava-o e beijava-o com um calor de mãe. Às

vezes, ao fazer isso,

comovia-se e seus olhos transbordavam, borrando a pintura. Em todas as

visitas de Otto, a casa

parecia deserta, exceto por Esteia, a empregada colombiana. O próprio

marido só apareceu uma

vez e, estranhamente, Otto não se lembra de ter visto dona Maria. Em

nenhum momento se falou

no assunto, mas Otto sentia que havia alguma coisa errada com a saúde de

Carmen. Era nítido que

ela não estava bem - à medida que bebericava seu uísque, emocionava-se

com facilidade e tinha

vontade de chorar. Ele percebia vestígios da passagem recente de médicos

ou enfermeiros. Mas

era como se Carmen se preparasse para as visitas de Otto - reservando um

dia em que não

haveria ninguém de fora e ela se sentisse melhor. Queria parecer sempre

bem para o filho que

nunca tivera.
Em fins de 1954, os telefonemas pararam. Otto ouviu dizer que Carmen

tinha ido ao Brasil.

Tentou, mas não conseguiu descobrir quando voltaria. Não a veria mais. No

futuro, ao se tornar

um dos fotógrafos mais respeitados do mundo, deu-se conta de que nunca

fotografara Carmen.


Também no segundo semestre de 1953, outro estudante brasileiro de

passagem por Los Angeles,

chamado José Rubem, resolveu visitá-la. Procurou seu nome no catálogo

telefônico, anotou o

endereço e tomou um táxi. O motorista estranhou o destino da corrida, mas

levou-o assim mesmo.

José Rubem chegou à morada de Carmen Miranda - uma senhora mexicana, já

entrada em anos,

habitante de uma casa pobre num bairro distante e mais pobre ainda, e que

vivia sendo

confundida com a estrela. O rapaz pediu desculpas pelo engano e voltou

para o táxi. Ao falar o

nome da artista para o motorista, este o mandou segurar seu chapéu e o

levou a North Bedford

Drive - todos os motoristas sabiam onde morava a verdadeira Carmen

Miranda.
Carmen o recebeu muito bem, como fazia com todo mundo. Ele passou uma

tarde com ela e outros

convidados à beira da piscina. Estranhou que o marido, Dave Sebastian,

completamente

ostracizado, não parecesse incomodado por ficar à parte. José Rubem achou

Carmen uma mulher

muito interessante. Nos meses seguintes, com ele já de volta ao Brasil,

trocaram cartas e ela lhe

mandou fotos. Carmen nunca soube que seu correspondente se tornaria o

romancista Rubem

Fonseca.
"Este é para o tio Mário. E este também é para o tio Mário. E mais este!

E mais este! E mais este!"
Carmen se jogara ao pescoço do garoto Fernando, sobrinho de Mário Cunha,

e não parava de

beijá-lo no rosto, oferecendo os beijos a seu antigo namorado, a 10 mil

quilômetros de distância.

509
A cena era em Nova York, no apartamento da Hampshire House, onde Carmen

estava sendo

visitada por Fernando e seus pais, Lourenço e Elena, finalmente rumo ao

Brasil depois de quase

um ano na Europa. Como prometera a Lourenço, Carmen estava em Nova York

em outubro, para

mais uma temporada no Copacabana. A visita tinha sido marcada em Roma,

seis meses antes, e a

diferença em Carmen era marcante: a pele de seu rosto agora brilhava,

esticada pela retenção de

líquidos; os olhos pareciam menores, apertados dentro das pálpebras; e

havia algo de falso e

exagerado na sua euforia. Carmen estava alterada pela bebida, arrastada e

repetitiva,

perguntando a todo momento por Mário Cunha.
Os beijos e abraços em Fernando aconteceram na saída, quando ela foi

levá-los à porta.

Sebastian, irritado, tentava desvencilhá-la do jovem, mas Carmen lhe dava

tapas nas mãos e se

abraçava ainda mais ao rapaz:
"E mais este! E mais este! E mais este!"
Os Cunha foram embora e Lourenço ficou passado com o que vira. Não era a

Carmen que ele

encontrara em Roma e muito menos a deusa que conhecera no Rio e da qual

tinha orgulho de ser

uma espécie de cunhado. Teria ficado ainda mais triste se soubesse que,

pouco antes, em Los

Angeles, numa condição parecida, Carmen descera do carro em frente ao

Mocambo, usando uma

pele de raposa branca, pisara em falso e caíra em cheio numa poça d"água.

Pessoas à porta do

nightclub assistiram à cena e a acudiram, levantando-a pelos braços.
O episódio não fora um caso isolado, apenas o mais grave - por duas

outras vezes Carmen

torcera o pé ao dar os poucos passos entre a saída do carro e a porta da

boate a que estava indo

em Los Angeles. De outra feita, no Ciro"s, em companhia do vice-cônsul

Smandek, teve um surto

de tremores à mesa. (Ficou com medo, porque isso só costumava lhe

acontecer ao acordar, não no

meio da noite.) Na mesma época, decidiu sair menos à noite, ou parar de

sair, porque começava a

entreouvir, nos nightclubs, comentários do tipo "Como Carmen está velha!"

ou "É Carmen? Mal

posso acreditar!".
Em contrapartida, era extraordinário como, ao entrar no palco, voltava a

ser Carmen Miranda. E

uma Carmen Miranda invencível, como ela precisava ser. Debaixo daquelas

luzes, nada mais

importava, a não ser sua relação de amor, concubinato, conluio, com cada

homem ou mulher da

platéia. A mágica se dera de novo no Hotel Shamrock, em Houston, onde

cumprira nova

temporada em setembro. De lá viera para o Copacabana, onde triunfara como

sempre - e a

Carmen do palco não tinha nada a ver com a que, dias antes, cobrira o

menino Fernando de

beijos. Dali iria para o Eastman Theatre, em Rochester, quase na

fronteira com o Canadá, onde

ficaria parte de outubro, e só então voltaria para Manhattan. Mas, quando

isso aconteceu, não foi

uma volta tranqüila.
Carmen desembarcou com tremores pelo corpo e sem conseguir segurar

510
nada com as mãos. Podia estar sofrendo as conseqüências de uma

superintoxicação provocada

pelos barbitúricos e anfetaminas ou pelo álcool. Ou, ao contrário,

poderia estar sendo vítima de

uma violenta síndrome de abstinência, causada pela interrupção, por algum

motivo, do

fornecimento a seu organismo de uma ou mais daquelas substâncias. E quase

certo que, para

Carmen, já então, o espaço de tempo tolerável entre uma medicação e outra

estava diminuindo -

ou seja, seu organismo precisava de remédios ou de álcool a intervalos

cada vez mais curtos.

Uma falha nessa cadeia gerava um desequilíbrio físico-químico, uma

revolta das terminações

nervosas. Carmen não saberia explicar, mas, quando aquilo se dava de

forma tênue, como já se

tornara comum, as manifestações eram insegurança, instabilidade,

ansiedade, hipersensibilidade,

choro fácil, boca seca, falta de fôlego, irritabilidade e sentimento de

culpa. Em caso agudo, como

parecia estar acontecendo, as conseqüências eram tremores violentos,

dores no corpo, paranóia,

ranger de dentes e a possibilidade de convulsões.


Carmen foi internada por Sebastian no Hospital Mount Sinai, onde, por

ordem médica, ficou uma

semana sem visitas. Sedada para "melhorar", foi mandada de avião para

casa, em Los Angeles,

aonde chegou sob profunda depressão. O doutor Marxer achou conveniente que

ela fosse para Palm

Springs, onde ficaria mais preservada e poderia repousar melhor. Mas os

tremores e demais

sintomas começaram a voltar. Marxer, então, consultou Sebastian e dona

Maria e, com a

aprovação deles, receitou um tratamento à base de eletrochoques ali

mesmo, em Palm Springs, no

Hospital Saint Jones.
A técnica, chamada de eletroconvulsoterapia, fora desenvolvida em fins

dos anos 30 por dois

médicos italianos, Ugo Cerletti e Lúcio Bini, ambos de Roma. Consistia na

passagem de uma

corrente elétrica pelo encéfalo. A idéia inicial era a de que os

eletrochoques serviam para o

tratamento de esquizofrenia e psicose maníaco-depressiva; depois,

concluiu-se que eram

indicados também para os casos agudos de depressão, que já não respondiam

nem a sedativos

como o Demerol - o que era, em tese, o caso de Carmen.
Em 1953, a aplicação dos eletrochoques ainda era feita em moldes

primitivos. O paciente não era


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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