Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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vezes cansada,

ausente, sonolenta; em outras, insone, acesa, excitada; mas, nos dois

casos, era uma sensação

artificial, como se nenhuma das duas fosse a Carmen que o próprio César

conhecera nos áureos

tempos. Suas sobrancelhas, que raspara muito jovem, nunca mais haviam

crescido. Durante os

anos 30, isso não tinha importância, porque a moda era fazê-las a lápis,

fininhas. Mas, nos anos 40,

algumas de suas colegas como Ingrid Bergman, Ava Gardner e mesmo Joan

Crawford haviam

revertido essa tendência, com seus espessos tufos de pêlos sobre os

olhos. Com isso, Carmen

precisava agora carregar no lápis, como Marlene Dietrich e Lana Turner

também tinham de fazer.

No palco ou na tela, as sobrancelhas desenhadas para parecer grossas

ficavam bem, mas, na vida

real, provocavam uma incômoda sensação de envelhecimento - como se fossem

mulheres que

tivessem saído de uma outra época (e, de certa forma, tinham mesmo).


Meses antes, Waldemar Torres comovera-se ao ser tão amorosamente abraçado

por Carmen (para

repassar-lhe o "cheirinho gostoso do Rio"), mas entristeceu-se por achá-

la "tão cedo

envelhecida". Sobre eles, na parede adjacente ao sofá, ficava o quadro de

Carmen pintado por J.

Luiz, Jotinha, que ela trouxera do Brasil. O contraste era gritante,

embora o espaço de tempo

entre a Carmen do retrato e a que ele via agora em close fosse de apenas

onze anos. Carmen

parecia gorda (ou inchada). E sua cintura desaparecera - ela certamente

não entraria com

facilidade nas primeiras baianas.
Outra amiga, que só agora estava conhecendo Carmen, mas que a achava

castigada para seus

apenas 42 anos, era Dedei, mulher do cônsul Antônio Corrêa do Lago.

Sempre que ia visitá-la,

Dedei percebia que Sebastian, "num excesso de solicitude", não deixava o

copo de Carmen

vazio. Estava sempre reabastecendo-a ou indo preparar-lhe um novo

drinque. E, para Renata

Fronzi, Carmen comentou que estava pensando em não ter mais bebida em

casa, "por causa de

Dave". Preocupava-se que ele estivesse bebendo demais. Seria melhor não

ter nada em estoque,

disse Carmen, e, quando soubesse que teriam visita, "mandar vir uísque e

cerveja do

supermercado".
Era uma boa medida, concordou Renata. Mas inócua, porque tinham visita

todos os dias.


Capítulo 28

1952 - 1954
Choques elétricos

Carmen não parava porque não era possível parar - porque havia um

contrato a cumprir e um

avião a tomar, e uma platéia pronta a ouvir "Mamãe, eu quero" e a rir com

a história do cabelo, e

talvez porque fosse melhor estar na estrada do que em casa. Se não fossem

os shows, a vida entre

um Nembutal e um Dexedrine consistiria de quinze horas seguidas de sono

ou de uma seqüência

de palpitações, pequenos tremores e boca seca. Ao voltar da Caravana

Hadacol em outubro,

Carmen passou duas semanas, se tanto, em Beverly Hills e partiu de novo.

Entre novembro e

dezembro de 1951 esteve no Copacabana, em Nova York (a convite de Jack

Entratter, o novo

proprietário), no Chez Paree, em Chicago, e no Rancho Vegas, em Lãs Vegas

- um mínimo de

duas semanas em cada lugar, sem descanso no Dia de Ação de Graças, no

Natal e no Ano-Novo.

O ano virou e Carmen virou com ele, sem interrupção: novamente no Chez

Paree em janeiro de

1952, com direito a show no Hospital dos Feridos da Coréia, também em

Chicago; mais uma vez o

Rancho Vegas, em fevereiro, e, de Vegas, seguindo para o Hotel Shamrock,

em Houston, no

Texas, e, em março, para o Baker Hotel, em Dálias, também no Texas - onde

cantou com um

vestido e chapéu de cowgirl, sacou de dois revólveres e deu tiros de

festim para o ar, ao som de

"The old piano roll blues" pelo Bando da Lua.


A foto deste último número foi parar na mesa de David Nasser na redação

de O Cruzeiro, na rua

do Livramento, no Rio. Ferido em brios ao ver Carmen adotar (mesmo que

por uma vez) um traje

típico americano, Nasser tirou sua velha mágoa da gaveta e disparou mais

um longo artigo contra

ela em O Cruzeiro: "Carmen, volte para os bugres" (12/4/1952).
Escreveu-o na forma de pastiche de uma lamentação bíblica, beduína, mas

com uma crueldade de

tuaregue. O mote, mais ou menos com estas palavras, era:
"Que mal o Brasil lhe fez, Carmen, para merecer o seu descaso e

ingratidão? Para que você

esquecesse os seus irmãos e se recusasse a cantar para nós, os bugres,

que sempre a adoramos

como quem adora a deusa branca? Talvez não lhe possamos pagar os milhões

de dólares dos

americanos, mas faça-nos um show de caridade, para que os nativos possam

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descobrir, na Carmen americanizada de hoje, a menina que um dia se dourou

ao sol da Urca."
O raciocínio desviado e perverso de David Nasser só se igualava à sua

maestria com as palavras.

Dava de barato que Carmen desprezava o Brasil, que via os brasileiros

como selvagens, e que

sua volta ao país era uma questão de dinheiro. Mas, ao perguntar a Carmen

que mal o Brasil lhe

fizera, o próprio David Nasser poderia ter respondido: a feroz campanha

de certa imprensa contra

ela, inclusive a de um veículo tão poderoso como o que ele representava -

O Cruzeiro, com seus

700 mil exemplares por semana. E era inútil que, numa tentativa hipócrita

de assoprar, depois de

feri-la a dentadas, ele dissesse que o governo brasileiro devia a ela uma

ordem como a do

Cruzeiro do Sul (concedida aos estrangeiros com serviços relevantes à

nação). Nesse sentido,

estava quatro anos atrasado: Ary Barroso já fizera essa mesma sugestão ao

governo Dutra, por

intermédio do chanceler Raul Fernandes, em 1948, e em troca recebera

apenas o silêncio.


Carmen teve essa revista em mãos. Leu e releu muitas vezes o artigo de

David Nasser. Na mesma

época, recebeu em sua casa um grupo de comissários da polícia paulista,

de visita a Los Angeles.

Se o Brasil tinha contra ela esse ressentimento de que falava O Cruzeiro,

por que não havia um

dia em que não fosse procurada por brasileiros de passagem pela cidade? E

acabara de receber

também a nova correspondente dos Diários Associados em Hollywood, a

paulistana Dulce

Damasceno de Brito. A jovem Dulce trazia uma carta de recomendação de

Bibi Ferreira. Mas

Carmen já a conhecia de outros artigos a seu respeito, sempre simpáticos,

em A Scena Muda. Se

isso significasse uma mudança de atitude dos Associados (a que O Cruzeiro

pertencia) em relação

a ela, tanto melhor.
A prova de que não se podia confiar na imprensa, nem quando ela estava a

favor, se deu em

Vancouver, no Canadá, em maio, quando Carmen foi fazer uma temporada de

doze shows no New

Palomar Supper Club. Num artigo de capa no News Herald no dia seguinte à

sua chegada,

ilustrado com uma foto antiga de Carmen, de alto a baixo na página, o

repórter Bruce Levitt

perguntou: "O homem de Vancouver está preparado para Carmen Miranda?" E

ele mesmo

respondeu:
Não. Na entrevista coletiva [de ontem], três garrafas de Borgonha

chocaram à presença de

Carmen - de inveja. Seu corpo de 1,52 metro tem mais curvas que uma

estrada de Burma, e elas

se movem todas ao mesmo tempo - o tempo todo. Pode-se acender um cigarro

nas fagulhas

desprendidas pelo movimento de seus braços longos e sinuosos. Seus...

ahn... membros se agitam e

oscilam até que um homem não saiba mais o que fazer. Seu sotaque

brasileiro borbulha como uma

canoa numa noite de luar no Amazonas.
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Francamente, senhor Vancouver - o Homem-de-Terno-Azul por

excelência -, o

senhor está preparado para isso?
Bem, vejamos. Ou o repórter era um legítimo homem de Vancouver, de terno

azul e tudo, ou

entrara por engano numa coletiva da retumbante rumbeira cubana Maria

Antonieta Pons. Não

havia motivo, nem provas materiais, para tanta excitação. Esse estilo

lúbrico e vampiresco nunca

fora o de Carmen, nem em 1939 e menos ainda em 1952, quando ela acabara

de fazer 43 anos,

oficialmente 38. Qualquer que fosse a idade, já era uma senhora, e não

lhe ficava bem desprender

fagulhas que acendessem cigarros ou usar um sotaque borbuIhante como uma

canoa. Quanto às

curvas, infelizmente já não as tinha, nem em Burma, nem na China, e a

cada dia ficava mais difícil

expor a inocente região que ajudara a consagrá-la, "entre a sétima

costela e o umbigo" - umbigo

esse que Carmen nunca exporia num palco ou num filme.
É possível calcular como ela estava em Vancouver, porque nos dois meses

seguintes, em junho e

julho, uma Carmen com excesso de peso, um ou dois queixos além do

necessário e sem muito

fôlego apresentou-se ao produtor Hal Wallis no estúdio da Paramount. Ia

rodar sua participação

no filme Scared stiff (no Brasil, Morrendo de medo), uma comédia com Dean

Martin e Jerry

Lewis. Dessa vez, essa participação seria apenas decorativa, sem nenhuma

função na trama -

parte da ação se passava num navio, e Carmen (Carmelita Castina,

nacionalidade indefinida,

apesar de algumas frases em português) e o Bando da Lua (reduzido a três

elementos, porque

Russinho baixara hospital para uma cirurgia de apêndice) eram apenas uma

atração musical a

bordo. Carmen ganhou

25 mil dólares por seis ou sete dias de trabalho, não consecutivos.


Assim como acontecera em Romance carioca, deve ter havido um hiato entre

a filmagem de seus

dois números de canto e dança, "The bongo bingo" e "The enchilada man", e

a de sua única

seqüência não musical, com diálogos, em que se atracava a Jerry Lewis num

corredor do navio.

Os números musicais foram rodados talvez em junho, porque eram sempre

filmados primeiro - e,

nesse caso, a seqüência dialogada terá sido rodada em julho. Também nesse

caso, "The enchilada

man" deve ter sido rodada antes de "The bongo bingo" (embora entrem em

ordem inversa no

filme), com dias ou talvez semanas de intervalo de um para o outro. É só

observar: Carmen está

com uma aparência mais saudável em "The enchilada man" do que em "The

bongo bingo" e, em

ambas, seu aspecto parece melhor do que na seqüência com Jerry Lewis. Nos

dois números,

Carmen dá a impressão de estar lançando mão de suas últimas reservas

físicas e mentais para

obedecer às marcações do coreógrafo - e sobreviver à intolerável

hiperatividade de Jerry

Lewis à frente dela e de Dean Martin. Nitidamente, é uma mulher em

aflição. Ao fim de cada

número, o simples fato de ter conseguido completá-lo já lhe parece uma

vitória, e isso está escrito

na tela - no rosto de Carmen.

500
Segundo Carmen, ela filmou mais um número, que teria sido cortado porque,

com esse, seriam três

as suas participações musicais em Morrendo de medo e, já então, Jerry

Lewis não admitia dar

espaço a ninguém em um filme. (Mesmo Dean Martin tinha de lutar pelo

seu.) Mas, se Lewis

entendeu assim, era só uma desculpa, porque os dois números "de Carmen"

não podiam ser

considerados apenas dela. Lewis se intromete à sua maneira em "The bongo

bingo" e "The

enchilada man" (e faz sozinho sua primária paródia de "Mamãe, eu quero",

só permitindo a

Carmen uma aparição mais que relâmpago nos bastidores). Se a necessidade

de dominar

compulsivamente a cena não fosse uma marca de sua carreira, seria

possível arriscar que Jerry

Lewis estava se vingando daquele longínquo dia de 1941, quando, aos

quinze anos, fora recusado

no elenco de uma revista musical de Carmen, Sons o"fun. Podia fazer isso

agora porque, aos 26,

estava por cima: dava ordens ao próprio Hal Wallis, tiranizava a vida dos

diretores, ofendia todo

mundo e não dividia a tela com ninguém - os críticos franceses logo o

considerariam um génio.

Mas uma das provas de que o moral de Carmen estava a zero é que ela se

submeteu às grosserias

de Jerry Lewis sem protestar.


Se foi mesmo filmado e ninguém o destruiu, o terceiro número talvez um

dia seja encontrado nos

arquivos da Paramount. Mas, a julgar pelos outros dois, seu interesse

será indumentário, não

musical. Tanto "The bongo bingo" como "The enchilada man", da dupla Mack

David e Jerry

Livingston (autores de "Bibbidi-bobbidi-boo"), refletiam o habitual

insulto hollywoodiano às

coisas do México, e a única graça estava no turbante de Carmen no segundo

número - uma

espetacular instalação usando artigos de cozinha como várias colheres,

escumadeira, batedor de

ovos, pegador de macarrão, espremedor de batata e até um ventilador, tudo

camuflado entre

legumes e hortaliças. Uma grande criação de Carmen (com ou sem a

participação de Edith Head,

responsável pelos figurinos do resto do filme), mas quase indistinguível

na fotografia em preto-e-

branco e pouco explorada pelo provecto diretor George Marshall - ou pode

ter sido Jerry

Lewis que eliminou os closes do turbante.
Morrendo de medo, terminado em agosto de 1952, só seria lançado em Nova

York em 27 de abril

de 1953. Até lá, Carmen ficaria presa à Paramount, às vezes comparecendo

a um evento do

estúdio, como a estreia em Los Angeles de Os brutos também amam (Shane).

Mas sua ligação final

com a Paramount seria nos meses de março a junho de 1953, quando ela

sairia para uma excursão

por seis países da Europa - Itália, Bélgica, Noruega, Dinamarca, Suécia e

Finlândia - para

lançar Morrendo de medo. Com isso, a Paramount pegava uma carona na nova

e imensa


popularidade de Carmen em boa parte da Europa, onde só então seus

primeiros filmes na Fox

estavam sendo lançados. A guerra fizera com que italianos, finlandeses,

suecos etc. se atrasassem

no seu culto a ela. Mas eles estavam tirando a diferença - e ainda tinham

uma batelada de

Carmens para conferir.
501
A excursão seria um tratamento de gala para Morrendo de medo. Pena que

este fosse o pior filme

da carreira de Carmen. E, por um motivo muito simples, embora definitivo,

também o último.


A idéia de excursões fora do país vinha a calhar para Carmen, porque era

uma maneira de impedir

que o imposto de renda continuasse lhe tomando quase tudo que ganhava.

Devido a uma brecha

na lei dos Estados Unidos, os rendimentos dos americanos no exterior

tinham deixado de ser

tributáveis, o que explicava por que uma quantidade de astros de

Hollywood (Cary Grant, Gene

Kelly, Kirk Douglas, Ava Gardner, David Niven) estivesse indo morar na

Europa. Enquanto a

viagem não saísse, Carmen decidira passar o segundo semestre de 1952

trabalhando dois meses

seguidos e descansando no terceiro. Com a volta de dona Maria (que

passara quase um ano

inteiro no Rio, ajudando na readaptação de Aurora), Carmen tinha de novo

alguém a seu lado,

acompanhando-a nas fugas para Palm Springs ou fazendo com que as visitas

se sentissem mais

bem recebidas em North Bedford Drive.
Uma dessas, com quem Carmen fez amizade à primeira vista, foi Maria Luiza

Frick, funcionária de

uma agência do Bank of America em Los Angeles e irmã de Jane Frick,

antiga professora de

ginástica de Aurora no Rio e que continuara amiga de ambas. Maria Luiza

logo se tornou

confidente de Carmen e, nos fins de semana, tinham conversas que se

estendiam até às cinco ou

seis da manhã. Sebastian via com maus olhos a sua presença na casa. Numa

ausência de Carmen,

em que Maria Luiza fora visitar dona Maria, ele tentou expulsá-la. Mas

Maria Luiza o encarou:


"Esta casa é de Carmen. Você não pode fazer nada."
Dona Maria também se interpôs e ela ficou.
Para Maria Luiza, Carmen pode ter se aberto sobre o fim prático de seu

casamento com

Sebastian-já não dividiam a cama desde pelo menos 1950 - e sobre sua

relativa indiferença ao

fato de que ele mantinha um caso quase público com uma xará sua, a morena

ítalo-americana

Carmen Cardillo, de cerca de trinta anos e bela mulher do agente de

viagens Ray Cardillo, que

cuidava das passagens de avião e das reservas de hotel nos deslocamentos

de Carmen.


Parecia um arranjo confortável para os envolvidos, embora chocante para

os de fora - e mais

ainda para os amigos de Carmen. Mas, se um desses se atrevesse a tocar no

assunto, ela rebatia de

bate-pronto:
"Não adianta falar, porque eu não vou me separar do Dave."
Se alguém perguntasse a Carmen o porquê dessa cega fidelidade ao

casamento, talvez ela não

soubesse responder. Suas noções sobre o divórcio como "pecado" eram

fluidas e baseadas em

vagos conceitos religiosos. Mas nem por isso menos firmes. Bastava-lhe a

fé, que, para ser

exercida com rigor, exigia um fervor quase infantil - o mesmo que a

impedia de passar debaixo

de uma escada

502
e de pronunciar aquela palavra (preferia dizer "má sorte"), e a

fazia isolar na madeira por

qualquer motivo. A católica Carmen, aos 44 anos, era a mesma que,

adolescente e já namorada de

Mário Cunha, ia à missa na velha igreja da Lapa dos Mercadores, na rua do

Ouvidor, que não

passava por um padre sem lhe beijar o anel e que, anos depois, saía de

manhãzinha do Cassino da

Urca para emendar com a missa das seis na igrejinha da Urca. E, não

importava a cidade dos

Estados Unidos em que estivessem se apresentando, pelo menos uma vez por

semana obrigava os

rapazes do Bando da Lua a acompanhá-la na primeira missa do dia numa

igreja local, e só então

os liberava para dormir. Os católicos não se divorciavam - era o que a fé

dizia -, e ponto final.
Por ironia, o grau de comprometimento químico a que seu organismo estava

submetido servia

também como um reforço para essa fé - não por virtude, mas por uma forma

de impotência.

Tanto as anfetaminas quanto os barbitúricos e o álcool eram um fator de

apatia da libido, daí

Carmen não estar muito interessada em sexo, nem com Sebastian, nem com

ninguém. Os remédios

e o uísque seriam também causadores de uma depressão que, quando se

manifestasse, estenderia

essa apatia a todo o comportamento de Carmen. E, infelizmente, ela já

estava a caminho.


O segundo semestre de 1952 foi o último período em que a piscina de North

Bedf ord Drive viveu

dias de relativa agitação, pelo menos com a presença ainda ativa de

Carmen à sua beira. Entre as

novas figuras na casa havia o Tarzan em exercício, Lex Barker, e os galãs

latinos recém-

chegados a Hollywood: o mexicano Ricardo Montalban, que se tornou grande

amigo do Bando

da Lua, e o argentino Fernando Lamas, que Carmen e Aloysio tinham

conhecido como radialista

em Buenos Aires e, agora, mais mascarado do que nunca, namorava a estrela

Arlene Dahl e se

julgava a maior sensação da cidade. Outro mexicano de primeira era Pedro

Armendariz, um dos

favoritos do diretor John Ford. E havia o melífluo César Romero, para

quem pelo menos um dos

moços do Bando da Lua olhava com desconfiança, pela suspeita de que ele

não gostava de

Carmen. (Essa suspeita se confirmaria no futuro, com as declarações

sempre dúbias de Romero a

respeito de Carmen como artista e como mulher - censurava-a por nunca ter

mudado seu estilo e

insinuava que fosse lésbica.)
A idéia de descansar por um mês a cada dois ou três de trabalho, como

tinha decidido fazer, podia

ser conveniente para Carmen e para dois dos membros do Bando da Lua -

Aloysio e Lulu -,

mas não agradava aos outros dois, Harry e Russinho. Não por acaso, eram

os dois do conjunto

casados para valer: Harry, com Isa, que ele deixara no Brasil quando

viajara com os Anjos do

Inferno e que fora se juntar a ele no México; e Russinho, com a mexicana

Janita, co-m quem ele se

casara recentemente. Os dois tinham despesas,

503
compromissos, e queriam trabalhar - não se conformavam em ficar parados. Já

Aloysio, havia muito

separado de Nikky, e Lulu, que mandara sua mulher de volta para o Brasil,

achavam que o Bando

devia ficar às ordens de Carmen.


Apesar das discordâncias, o grupo mantinha um relacionamento de irmãos. E

sempre acontecia

alguma coisa nas viagens que estimulava a solidariedade entre eles. Como

no dia em que, no

hotel, Aloysio estava aplicando Gumex e se penteando, nu, diante de um

espelho sobre a cômoda,

e resolveu, ao mesmo tempo, fechar a gaveta com a barriga, de um só

golpe. Não percebeu que

seu pênis estava dentro da gaveta e fechou-a com ele junto. O grito de

dor de Aloysio, algo entre

o som de uma trombeta e de uma cacatua, fez com que os colegas corressem

para socorrê-lo. A

dor parecia intolerável, mas Aloysio, por sorte, não perdeu nada com o

incidente. E ainda ganhou

um apelido: Doutor Gaveta.
Em fins de 1952, no entanto, dois episódios provocaram um racha no

conjunto - o último na

história do Bando da Lua. Peggy Lee, ainda saboreando o colossal sucesso

de "Manana", que

gravara em 1947 com outros músicos de Carmen, queria ser acompanhada pelo

Bando em sua

nova temporada em Nova York, no Copacabana. Falou a respeito com Carmen,

e esta, sem

consultar os interessados, negou-lhe o conjunto. Russinho ficou

aborrecido ao saber disso -

Carmen estava parada e Peggy Lee, grande cantora, era uma estrela, pagava

bem. Na seqüência,

Russinho soube também que Aloysio, pressionado por sua ex-mulher Nikky a

dar-lhe certo

dinheiro para que ela aceitasse se divorciar dele, fora pedir essa

quantia a Carmen. Não era

pouco: 10 mil dólares. Carmen deu-lhe o dinheiro com a condição de que o

Bando da Lua não

fizesse nada por fora, ou seja, continuasse exclusivo dela. E, mais uma

vez, isso foi resolvido entre

Carmen e Aloysio, pelas costas dos outros três.


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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