Carmen, Uma biografia Ruy Castro



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saber da história,

apenas achou graça. Às vezes era difícil saber qual das Carmens estava em

ação. A que

anunciava, com infalível regularidade, mais uma ida ao Brasil (dessa vez

para lançar


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uma moda sem sentido, a "turbandana", misto de turbante e lenço) - ou

a que deixava que a

William Morris lhe marcasse compromissos exatamente para a época da

propalada viagem? A

que se queixava de que Sebastian a maltratava (como contara em Nova York

a Lourdes Lessa,

secretária da Casa Civil do recém-eleito presidente Getúlio Vargas) - ou

a que, "com seu

marido, Dave Sebastian", estava tentando "adotar uma criança do sexo

masculino"? (Uma

colunista, Edith Gwynn, falou sobre essa tentativa de adoção no Mirror,

de Los Angeles, em abril

de 1951. Em maio, outro colunista informou que a agência a que tinham se

dirigido ainda não lhes

oferecera nenhuma criança. Depois dessa, o assunto simplesmente

desapareceu do noticiário.) A

que resistia aos avanços do ator Robert Cummings, astro de Em cada

coração um pecado (King"s

Row, 1941), por não admitir o adultério (embora se desconfiasse de que já

não tinha vida sexual

com Sebastian) - ou a que se insinuava discretamente para Dean Martin

todas as vezes que seus

caminhos se cruzavam (e Dean fingia não perceber)?
A suprema contradição fora observada por uma repórter de Nova York, ao

ver Carmen

aplaudindo e pedindo bis a Edith Piaf na consagradora estréia desta no

Versailles, em fins de 1950

- e, depois, ao flagrar as duas chorando e se confortando no camarim da

francesa.


"O que essas moças de 5 mil dólares por semana têm para chorar?",

perguntou a repórter.


A jornalista estava mal informada, porque Carmen já deixara havia muito o

patamar dos 5 mil

dólares - seu valor era três ou quatro vezes acima disso.
Ela não era a única a viver no fio da navalha. Profissionalmente, o Bando

da Lua também se

debatia numa velha contradição: o conjunto ficar à disposição de Carmen,

como queriam Aloysio

e Lulu, e ganhar bom dinheiro - ou estar aberto também a projetos

próprios, sem ela, como

preferiam Harry e Russinho, e ganhar mais (ou, às vezes, menos). Mas,

mesmo quando se

dispunham a fazer algo sozinhos, era Carmen que não conseguia ficar longe

deles.
Em maio de 1951, quando o Bando estreou seu primeiro show-solo, no Café

Gala, em Los

Angeles, Carmen reservou metade da boate para ela e seus convidados. Às

folhas tantas,

inevitavelmente, foi intimada a subir no palco e dar uma canja - com o

que aquele também se

tornou um show de Carmen Miranda e o Bando da Lua.


A ambição de Harry e Russinho era justificada. Em 1950, o Bando gravara

quatro faces na Decca

com Bing Crosby - "Quizàs, quizàs, quizàs" e "Maria Bonita" em um 78 rpm,

e "Copacabana" (de

Braguinha, Alberto Ribeiro e, adivinhe, Ray Gilbert) e "Granada" em

outro. Exceto por

"Copacabana", havia um inevitável ar de canastrice naqueles discos, mas

gravar com Bing

(ainda, sem discussão, o maior cantor popular do mundo) era algo a se

contar para os netos.

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E não se tratava de backing vocais anônimos - o nome do conjunto

estava no selo do

disco, e seus vocais em "Copacabana" eram em português. Por causa de

"Quizàs, quizàs, quizàs",

Peggy Lee quis trabalhar com eles (Carmen não deixou) e Desi Arnaz também

(eles recusaram,

por achar Desi insuportável). Outro 78 na Decca, este apenas do Bando da

Lua, contendo

"Bibbidi-bobbidi-boo" e "Rag mop", duas canções americanas em ritmo de

samba e com letras de

Aloysio em português, foi considerado o "melhor disco do mês" (de julho

de 1950) pela revista

Record Reviews, por gente respeitada como Barry Ulanov, George T. Simon e

Barbara


Hodgkins - é verdade que empatado com o (depois clássico) "Blues in

riff", de Stan Kenton. Mas

era um orgulho ser o "melhor do mês" - significava ser o melhor entre,

pelo menos, mil

lançamentos no mesmo período.
A Decca, que gostava de formar duplas entre seus contratados, queria

acoplar o Bando da Lua

com Louis Armstrong em "Besame mucho", e Carmen com Danny Kaye, em algo

que permitisse

aos dois apostar uma corrida vocal. Mas nada aconteceu porque Carmen e

Danny não pareciam

ter datas compatíveis (o impasse se arrastou e a idéia foi abandonada) e

o Bando da Lua

começou a se desentender com Aloysio, por ele insistir em assinar os

contratos em nome do

conjunto e em ganhar mais do que os outros.
Os colegas de Aloysio tinham razão em suas queixas, mas não podiam

impedi-lo de ser mais

expedito e ambicioso do que eles. Era Aloysio quem fazia divertidas

versões em português para

sucessos americanos (como a de "In the mood", de Joe Garland e Andy

Razaf, que se tornou

"Edmundo"), mantinha abertos os canais com Walt Disney ("Bibbidi-bobbidi-

boo" era uma

canção de Cinderela) e, para o bem ou para o mal, trabalhava em parceria

com o esperto (esperto

demais) Ray Gilbert. E não fazia sentido qualificar Aloysio de "intruso"

no conjunto, porque eles é

que o tinham convidado a juntar-se ao grupo, como crooner, como o homem

de frente.


Em breve, no entanto, todas aquelas brigas ficariam irrelevantes -

porque, embora eles ainda

não soubessem, Carmen e o Bando da Lua nunca mais gravariam um disco,

juntos ou separados,

nos Estados Unidos e em lugar nenhum.
Era o fim de duas grandes carreiras discográficas, começadas sob os

auspícios de um mesmo

homem - Josué de Barros - e em um ano tão longínquo, 1929, que parecia

pertencer a uma outra

era geológica.
Carmen, se quisesse, falaria inglês quase tão bem quanto Deborah Kerr,

mas tinha de se cuidar na

presença de jornalistas. Espiou por cima do ombro do repórter americano e

notou que ele estava

enchendo um bloco atribuindo-lhe frases em inglês corrente, escorreito -

sem as batatadas tipo

"Souse American" que, pelos últimos doze anos, o público se habituara a

esperar dela.

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"Escute aqui, você quer me arruinar? Ninguém pode citar Carmen Miranda

sem sotaque!"


Pelo visto, nunca se livraria desse estereótipo, nem queria mais se

livrar. Faria parte de sua

caracterização até o último dia, junto com os turbantes e as plataformas.

No começo do ano,

Herman Hover, proprietário do Ciro"s, de Los Angeles, propôs produzir

para ela um musical na

Broadway (uma comédia musical de verdade, não uma revista), e a idéia era

explorar seu inglês

estropiado. O incrível é que era uma boa idéia. Chamar-se-ia How you say

it?, e seria uma

espécie de Nascida ontem ao contrário - com Judy Holliday (que, na

comédia de Garson Kanin,

praticamente reaprendia a falar) ensinando inglês a Carmen. Também no

elenco estariam o galã

Richard Carlson e a cantora Francês Faye. Os planos foram rapidamente

postos sobre rodas,

inclusive quanto à participação de Judy Holliday, que gostava de Carmen e

a admirava. Mas, em

março, Judy ganhou o Oscar de melhor atriz, e a Broadway já não poderia

competir com os

salários que a esperavam em Hollywood. O desapontado Hover substituiu

Judy por Marie "The

Body" McDonald, uma atriz e ex-modelo com uma ligeira voga na época. Mas

isso liquidou o

projeto - não havia como substituir Judy Holliday por Marie "The Body"

McDonald e esperar o

mesmo resultado. Hover, então, engavetou How you say it?, pegou seu

capital e o levou de volta

para Los Angeles, onde teve de afastar as paredes móveis de seu nightclub

a fim de abrir espaço

para mais mesas - porque, por duas semanas de julho, Carmen cantaria duas

vezes por noite para

um Ciro"s lotado.
Em sua estréia, numa noite de sexta-feira, 13, Carmen subiu ao palco do

Ciro"s "com a energia de

um avião a jato", escreveu uma colunista. E, com ou sem ironia,

acrescentou: "Deve estar numa

dieta de vitamina B-12 há meses".
Havia agora uma perfeita divisão de trabalho entre Carmen e o Bando da

Lua, com

responsabilidades proporcionais para cada um - inclusive coreográficas,

com o Bando

executando os movimentos que lhe tinham sido ensinados por Nick Castle.

Entre eles e Carmen, já

não era só o habitual desfile de "Brazil", "Tico-tico", "The old piano

roll blues" ou "Cuanto lê

gusta". Era também uma seqüência de falas e sketches entremeados às

canções, tudo bem

ensaiado por Bill Heathcock.
Em tempos idos, Carmen fizera um ou outro show avulso no próprio Ciro"s,

mas essa era a

primeira vez que começava uma temporada regular num nightclub de Los

Angeles. A maioria da

platéia não conhecia seus truques, como o de tirar o turbante e soltar as

torrentes de cabelo.

Carmen garantia a autenticidade do cabelo, sacudindo-o e mandando que

alguém do Bando o

puxasse, ou apontando para a cor das mechas (na época, ruivas) e dizendo,

triunfante: "É tingido!"

- de propósito porque, em Hollywood, ninguém admitia usar nada

falsificado. Não contente,

chutou para longe as plataformas douradas e cantou, de Ray Gilbert, "I

like to be tall". Finalmente,

desceu do palco e distribuiu bananas com um laço de fita para as mulheres

nas mesas de pista.

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Terminado o show, Hedda Hopper também parecia impressionada:

"Carmen estraçalhou a

Sunset Strip".
A "dieta de vitamina B-12" poderia ser interpretada como as três ou

quatro semanas, durante maio

e junho, que Carmen passara em Palm Springs preparando-se para o Ciro"s e

para a maratona do

segundo semestre - tentando diminuir a dose de medicamentos, queimando na

piscina a birita

acumulada e tomando sol nua para se bronzear por igual, sem as marcas do

biquíni. Mas, na última

semana de maio, um acidente chegou aos jornais: durante sua estada, a

casa de Palm Springs

sofrerá um pequeno incêndio. Segundo Louella Parsons em sua coluna, o

fogo "irrompera na

cozinha, atingira cortinas e queimara gravemente três fantasias novas que

Carmen pretendia usar

no Ciro"s". Embora nem Louella nem ninguém parecesse ter estranhado, o

percurso do fogo é que

era curioso: da cozinha aos vestidos através de algumas cortinas - como

se não houvesse uma

casa inteira entre o fogão, digamos, e o armário. (A não ser que os

cabides com os vestidos

estivessem pendurados em cima das trempes.)
A possibilidade de Carmen ter provocado acidentalmente o incêndio, por

estar alterada e sem

ninguém para protegê-la, não foi mencionada. Mas quem podia saber que,

dessa vez, ela fora para

Palm Springs sem Aurora e sem dona Maria (ambas no Brasil) e sem o Bando

da Lua (ocupado

com seu show no Café Gala)? Carmen, agora, fazia parte do grupo de

pessoas estatisticamente

mais sujeitas a sofrer ou provocar acidentes domésticos de qualquer tipo

- desde ter quedas

acidentais até pôr fogo na casa. Naquela ocasião, Carmen podia estar com

Sebastian, mas,

segundo relatos de um membro do Bando da Lua, sua presença não

significaria nenhuma

proteção extra - porque ele, sim, estava passando a maior parte do tempo

alcoolizado.


Carmen recuperou-se para adentrar o Ciro"s com a "energia de um avião a

jato" e, de lá, duas

semanas depois, emendar com outra temporada de duas semanas no hotel Mark

Hopkins, em São

Francisco. Tudo isso, no entanto, não passaria de um leve aquecimento

para o que a esperava de

agosto a outubro: a Caravana do Xarope Hadacol - uma maratona para acabar

com todas as

maratonas.
Quando se analisa a brutalidade dessa excursão, e o que ela deve ter

custado a Carmen em termos

de desgaste, a única pergunta a fazer é: Por quê?
No verão americano de 1951, Carmen aceitou 99 mil dólares (recusou os

100 mil, a fim de ficar num patamar abaixo no cálculo do imposto de

renda) para participar da

monumental Caravana Hadacol, promovida pelo senador Dudley J. LeBlanc,

que se apresentou

em 43 cidades do Sul e do Meio-Oeste dos Estados Unidos, noite após

noite, para estádios

lotados. Dito assim, parece a glória. Mas pode ter sido o ponto mais

discutível da carreira de

Carmen - e de todos os grandes nomes do show business que participaram

com ela.
493
LeBlanc era um político folclórico e carismático, parecido com o lendário

Huey Long (seu

contemporâneo e rival na política regional sulista), que inspirara o

personagem vivido por

Broderick Crawford no filme A grande ilusão (Ali the kmg"s men, de 1949).

O Hadacol era um

"remédio" de sua invenção: uma beberagem de quintal, composta de ácido

clorídrico diluído,

vitamina B, ferro, cálcio, fósforo, mel e, segundo a bula, respondendo

por "12% da fórmula",

álcool etílico - na verdade, mais que isso. LeBlanc manipulava suas

campanhas de forma tão

criativa que não podia ser acusado nem de falsa publicidade. Em

1950 inundou jornais, revistas e estações de rádio em todo o país com

"testemunhos" de pessoas

(identificadas por nome, sobrenome e endereço) afirmando que o Hadacol as

curara de asma,

reumatismo, pressão baixa, pedras nos rins, úlcera, epilepsia, lumbago,

tuberculose, câncer e

impotência. Mas como nada disso estava prometido na embalagem do remédio,

a FDA (Federal

Drug Administration, o Ministério da Saúde americano) não podia acusá-lo

de charlatanice.
Em pouco tempo, LeBlanc fez de sua droga uma mania nacional nos Estados

Unidos. Nasce um

otário por minuto, já dizia o filósofo circense P. T. Barnum, e LeBlanc

venderia naquele ano 20

milhões de garrafas de Hadacol, de Brejo Seco à Park Avenue. Mas o ponto

alto de suaféerie

promocional eram as caravanas que organizava pelo interior do país, ao

estilo dos antigos

medicine men que viajavam em carroças, tocando banjo e vendendo óleo de

cobra. Só que as

caravanas de LeBlanc eram em grande escala. A de 1951, de que Carmen

participou, era

composta de 130 veículos, incluindo um trem com dezessete vagões e uma

barcaça do

Mississippi. Os artistas viajavam, dormiam e comiam no trem, com tudo de

graça, e só saíam dele

para os shows nos estádios de rugby. Para o público, o ingresso era uma

tampa da caixa da

embalagem do Hadacol. Ao fim da excursão, LeBlanc anunciou ter vendido 3

milhões de

garrafas. Se for verdade, terá sido aproximadamente esse o público que

foi ver seus artistas.


A trupe, comandada por ele próprio como mestre-de-cerimônias, consistia

de palhaços,

trapezistas, trinta coristas (usando qualquer pretexto para mostrar as

pernas),/re"fo (de homens-

tronco e anões sortidos a um gigante de

2,70 metros), duas orquestras e astros da categoria de Bob Hope, Mickey

Rooney, Jimmy

Durante, Chico Marx, Milton Berle, Jack Benny, César Romero, Jack

Dempsey, os cantores Dick

Haymes, Connie Boswell e Hank Williams - e, sempre fechando a primeira

parte do espetáculo,

Carmen Miranda. Para agradar a platéias tão rústicas e maciças, Carmen

nunca dependeu tanto da

extravagância de suas fantasias ou de cantar em tão alta velocidade. Às

vezes, nem o Bando da

Lua a entendia, mas, a cada noite, as arquibancadas rugiam de satisfação.


A programação constou de 43 shows em 43 cidades durante 43 noites

seguidas, cobrindo milhares

de quilômetros, em dezesseis estados.

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Começou no dia 22 de agosto, na Geórgia, atravessou os estados de, pela ordem,

Carolina do Sul, Carolina do

Norte, Virgínia, West Virginia, Kentucky, Ohio, Indiana, Missouri,

Illinois, lowa, Nebraska,

Kansas, Oklahoma, Texas e terminou na Louisiana, no dia 3 de outubro. (O

show de encerramento

foi com Frank Sinatra em New Orleans.) A caravana viajava de madrugada e

os artistas

acordavam a cada dia numa cidade diferente. À tarde, uma equipe fazia a

montagem do

megashow e a passagem de som no estádio local; à noite, dava-se o show

propriamente dito -

um misto de cabaré, programa radiofônico de humor, comício eleitoral,

vaudeville e circo;

terminado este, os cenários eram desmontados e levados de volta para o

trem; cada artista

recolhia seu equipamento e fazia o mesmo; e o trem zarpava para a etapa

seguinte - tudo em

menos de 24 horas.


Para Hope ou Durante, que só devem ter levado uma troca de roupa e uma

escova de dentes,

pode ter sido apenas cansativo. Para Carmen, o simples manejo de seu

guarda-roupa devia

parecer quase indescritível. Embarcou com doze contêineres de fantasias e

quase tantas caixas de

chapéu para os turbantes, contendo inclusive aquele que se tornara seu

favorito, o de 24 guarda-

chuvinhas de Romance carioca, que ela comprara da MGM. O seguro de seu

material foi de 100

mil dólares. A caravana se deu no verão, a temperaturas médias de 35

graus nas cidades do Sul -

as fantasias saíam ensopadas de suor ao fim de cada show e precisavam ser

levadas quase

imediatamente para o vagão-lavanderia. Carmen tinha com ela Odila, mulher

de Zezinho, e era

esta quem se encarregava de lavar e passar o material de Carmen, manter o

controle dos

turbantes, certificar-se de que os brincos, colares e pulseiras tinham

voltado para os respectivos

recipientes, checar cada par de plataformas para prevenir tiras soltas e

tombos espetaculares,

cuidar da sua roupa de baixo - enfim, pobre Odila.
Para Carmen, a caravana resumia-se a dois cenários: sua cabine no trem,

onde passava o dia

dormindo, e o palco em que se apresentava à noite. A cidade onde se

apresentava não tinha a

menor importância. Para sustentar esse ritmo e certificar-se de que

surgiria no palco, noite após

noite, com sua vitalidade quase proibitiva, Carmen desistiu de tentar

regular seu organismo por

conta própria. Cumprindo ordens, Odila apenas a punha para dormir ou a

acordava com uma ou

mais cápsulas, e Carmen entrava ou saía de cena, do berço para o palco e

vice-versa, como uma

espoleta ou uma pedra - como as bulas das anfetaminas e dos barbitúricos

garantiam que

aconteceria.
César Ladeira voltou aos Estados Unidos em outubro de 1951, numa viagem

de lua-de-mel.

Custara para se casar, mas, quando fizera isso, escolhera a atriz Renata

Fronzi, nacionalmente

admirada no Brasil por sua plástica. Foram visitar Carmen em Beverly

Hills e, em deferência a

César, Carmen conduziu Renata por uma excursão a seu guarda-roupa. Esse

era um privilégio que

ela reservava a poucos - tinha medo de que os modelos que ainda não

estreara fossem copiados.


495
Durante algumas horas, Renata passeou deslumbrada pelo

universo de Carmen

Miranda.
Começaram pela seção de turbantes. Um armário imenso, cheio de

prateleiras, com cabeças de

madeira sustentando verdadeiros lustres ou fontes luminosas - os

turbantes, às dezenas, talvez

mais de cem, em fileiras como soldados à espera de desfilar para o rei.

Carmen os criava e os

mandava executar por Bruce Roberts, a um valor médio de trezentos dólares

cada um. Passaram

ao corredor formado pelos armários. Ali ficavam os manequins vestidos com

as fantasias - alguns

com cabeças completas, outros, rostos sem feições, e ainda outros, sem

cabeça. Mas todos

pareciam Carmens esperando para ganhar vida e sair dançando por um

cenário de palmeiras e

coqueiros. Ali se viam desde as baianas que trouxera do Brasil e as

usadas nos primeiros filmes,

compradas à Fox, até as que apresentara nos filmes mais recentes, e que

ela sabia que estavam

mais para fantasias de criação livre do que para o conceito original das

baianas.
"O público também sabe, e prefere assim", disse Carmen, com resignação na

voz. "Quanto mais

fantasia, mais ele gosta."


Nenhum daqueles vestidos custara menos de mil dólares. O visual podia ser

extravagante, até

cômico, mas o material com que tinham sido feitos era de luxo - os

tecidos vinham da França; os

aviamentos eram super-reforçados; o acabamento, de primeira. Em outra

divisão dos armários, os

sapatos - centenas deles (Carmen já não os contava), que lhe custavam,

para produzir, uma

média de 75 dólares o par (e ela, sua legítima criadora, nunca se

preocupara em patentear). Por

causa deles, Carmen saía nas páginas de negócios dos jornais americanos,

citada por capitães da

indústria como Lawrence A. Schoen, presidente da Wise Shoes Co., uma das

mais antigas cadeias

de sapatos femininos dos Estados Unidos, como a responsável pelo

lançamento de uma moda que

já durava dez anos - e continuava a crescer.
Havia também a seção de luvas, longas e curtas, em crepe, com botões de

madrepérola; os lenços

de seda, em sua maioria italianos, com bordados brancos nos acabamentos;

os toucados em rede

de croché, que lhe davam um ar tão português, salpicados de pequenas

pérolas douradas; os

coletes, as golas e as estolas de pele (além dos casacos, de todos os

comprimentos); e mais as

bolsas, carteiras e frasqueiras. E as fabulosas malas. E os estojos de

maquiagem. Renata podia

passar o resto da vida ali.
Em outro setor do quarto, ficava o móvel com as gavetinhas de cinco

centímetros de altura

divididas em pequenas repartições - cada qual com um conjunto de brincos,

broches, anéis,

colares e pulseiras.
"São bijuterias, mas trabalhadas por artistas habituados a fazer jóias de

verdade", disse Carmen.

"As verdadeiras ficam no banco. Todo o pessoal do cinema, mesmo tendo

jóias preciosas, só usa

as de fantasia."
O passeio era fascinante, mas podia levar a uma angustiante reflexão.

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Era como se, naquele acervo, vivesse também a Carmen de fantasia - e não se

soubesse onde estava

a verdadeira. A Carmen que guiava as visitas pelo guarda-roupa parecia às


Catálogo: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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